Agonia da fome

Maria do Carmo de Freitas · Capítulo 6 de 9 · parte 2/4

Páginas do PDF

Agonia da fome

A péla e sua gente

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Sem condições econômicas, a jovem, em média de 12 a 17 anos, opta em viver com a família do homem, dividindo os afazeres domésticos com as demais mulheres da casa. A família nuclear torna-se transitória e logo substituída pela extensiva. A relação de favor atribuída à nora (legítima ou não), condiciona-a ao passivo modo de viver na casa, onde cozinha para todos e obedece às ordens da sogra, sogro e as de seu jovem marido, seguindo a reprodução de antigos valores rigidamente impostos para garantir a sobrevivência.

Existem casais de jovens que alugam um quarto em travessas e becos e asseguram sozinhos ou com outro casal, as condições econômicas de manutenção do cotidiano, e uma clara divisão do trabalho doméstico condiciona a mulher à tradição do trabalho na cozinha e o cuidado com as crianças. Não foge a esse preceito até mesmo aquela que comercializa drogas. Para qualquer casal de jovens, a procriação é, em geral, precoce, e o número de filhos não ultrapassa a três. Nesse aspecto, a laqueadura de trompas aparece como uma necessidade da mulher, numa contestação dada pelo desejo de romper com a reprodução de uma prole de muitos filhos, semelhante à de sua família de origem. Para conseguirem essa pequena cirurgia, feita em clínicas particulares da periferia ou em municípios vizinhos, elas trabalham duro nas campanhas eleitorais. Sem citar os nomes, elas falam de dois deputados estaduais que se comprometem com as laqueaduras, em troca do trabalho de boca de urna no dia da eleição.

O tempo de convivência do casal, no grupo de 12 a 20 anos, é relativamente pequeno, se comparado às gerações mais velhas. As separações são tão comuns que não é raro haver duas mulheres grávidas de um mesmo homem.

Entretanto, mesmo nessas condições, o casamento continua sendo um status para as mulheres e para os homens. Para as de 40 anos ou mais, um novo matrimônio é difícil, “... porque o homem quer mulher muito nova, pra mandar nelas e mostrar pra todo mundo que eles estão por cima” (Tiêta).

O que mais parece preocupar as mulheres mais velhas é a gestação precoce de suas meninas. São casos e casos de crianças que, ao entrarem na adolescência, engravidam a seguir. Há meninas de menos de 10 anos que já têm experiência sexual antes mesmo da menarca, e não é rara a prática de sexo oral, para garantir junto ao traficante algum dinheiro ou uma pedra de crack.

Poder e virilidade, no universo masculino, são atributos negados por mulheres habituadas a comandar sua própria vida. Sozinhas, com ou sem filhos, amigos e agregados, muitas mantêm uma cumplicidade consigo mesma e com o mundo social, interrogando-se e reconhecendo-se como um ser solitário que agencia o senso comum do desejo de afeto, mas se resguarda no sentido prático do cotidiano e nega compartilhá-lo com um novo marido. A idéia central é de afirmarem-se em sua liberdade pessoal, dizendo que: “... nessa idade da gente, só se for um homem pra botar as coisas dentro de casa, e como não está fácil, é melhor ficar sozinha e sossegada” (Tiêta). “Eu quero é ficar livre de consumição de homem” (Regina).

Essas e outras expressões tornam clara a negação de um próximo matrimônio, sendo o mais corriqueiro o namoro longe dos olhos do bairro, conforme a fala de uma mulher de 53 anos, que manteve uma vida sexual regular com seu afeto secreto e distante dos filhos; “... ele me dava presente, farinha, carne de sertão, sandália, dinheiro, essas coisas.

Ele é casado, mas era um cara legal, pra mim. Fiquei mais ele até o dia que ele não me quis mais. Eu acho que fiquei velha pra ele” (Tiêta). O sentido dessa e de outras relações se reporta, mecanicamente, ao interesse pela sobrevivência, mas também reflete a necessidade da paixão, da sexualidade e da valorização social.

Ainda que haja mulheres chefes de família, a veia matricial do patriarcado não elimina a discriminação que sofrem em vários espaços sociais, como são as queixas das mulheres quanto ao tratamento que recebem dos policiais que percorrem o bairro.

Fulano chega aqui e me xinga, puxa meu cabelo, ruma pedra

no telhado, ele quer eu sei o que é, mas eu não dou (Sílvia).

Tenho nojo desses caras que vem aqui toda terça e sexta,

entram na casa da gente, só porque eu não tenho homem.

Tenho raiva, me escondo. Eles fazem isso com qualquer uma

daqui que não tem homem, pode ser branca, pode ser preta

(Elza).

Os homens dessa faixa de idade (40 anos e mais), em geral, são casados e mantêm uma vida balizada pela necessidade de sustentar a família. Entretanto, ter uma família, mulher adaptada às condições impostas pela pobreza, “quieta, dentro de casa”, filhos trabalhando e contribuindo com o orçamento da unidade, é uma perspectiva social cada vez mais difícil de ser encontrada no bairro. De fato, o desemprego marca as relações íntimas e desagrega o desejo de um lar idealizado.

Tem tanta mulher aqui com os maridos desempregados... e

estão tudo passando fome. Gente que fica nas portas pedindo

comida, se oferecendo pra fazer uma faxina. O marido

desempregado, entrando na cachaça (Renilda).

Na luta pela sobrevivência do dia-a-dia, dentro e fora de qualquer espaço familiar, há diferentes articulações entre os grupos domésticos. E mesmo quando um membro migra para fora do bairro, nem sempre ocorre uma ruptura, sobretudo porque permanecem as referências de amizades. Há casos de componentes nucleares que saíram do espaço familiar e se instalaram em outra área do bairro, restringindo as relações com o grupo de origem, e casos contrários, em que as ligações econômicas e afetivas não se rompem, ampliando o sentido de família, mesmo com residência fora da unidade de origem ou fora do bairro.

Sobre a migração interna movida por inimizades, cito o caso de Maria da Graça, uma paraibana de 52 anos, expulsa de seu grupo por não suportar o marido alcoólatra. Com a perda da referência dos seus comparsas, ela se deslocou para uma outra rua do bairro e, de longe, sentada na escadaria em frente ao morro onde viveu por vinte anos, mantém um olhar fixo na sua antiga morada, revelador da falta que sente do seu lugar e daqueles que eram seus amigos mais íntimos. Considerada por eles como uma mulher “perigosa”, por não saber manter o casamento e nunca ter tido filhos, Maria é uma “mulher sem homem e que olha os homem das outras” (Regina). Nesse temor, segundo ela, na tradição dos paraibanos do bairro, a “mulher é mal vista”. Foi diante de tanta dor que Lívia a acolheu, “porque ela parecia que estava doida com esses problemas [...] depois ela vai arranjar trabalho e uma casinha pra viver”.

Os motivos que levaram Maria a migrar dentro do bairro derivam da quebra de recepção em seu meio, por sua condição de mulher sozinha e julgada culpada pelo alcoolismo do marido. Torna-se compreensível a reação dos paraibanos e a necessidade de distanciamento de algumas mudanças culturais impostas pela vida urbana. Os valores sociais embutidos nas relações funcionam como acordos ou códigos culturais, para a manutenção da sobrevivência do grupo doméstico e as rupturas se configuram como formas de defesa, negando-se quase sempre os novos modelos urbanos. Do mesmo modo, acontecimentos semelhantes ocorreram em outros grupos, justificando as inimizades, os divórcios e a migração. Foram os episódios de ruptura por diversos motivos que desencadearam a separação definitiva entre os paraibanos e os alagoanos, e entre aqueles e os moradores da Rua de Cima, os sertanejos dos municípios de Ribeira do Pombal e Santa Luz. Nessa clara divisão, o comércio da droga, oportunamente, criou novos pontos de venda e abriu a possibilidade para novos residentes no bairro.

As inter-relações entre os moradores, de maneira geral, traduzem-se em algumas funções da organização social, que mantêm fortes os vínculos dos indivíduos com o bairro. E, nesse sentido, os moradores se referem ao bairro como a “casa”, ou, como o “lugar dos parentes”. Tratam, da “casa de” e não da “família de”, vez que a palavra família é pouco pronunciada, embora seja uma dimensão referencial privilegiada, intrínseca nas relações. A casa é o lugar real da família, do indivíduo e do grupo ou a referência da chefia do grupo. O espaço privado, de diferentes necessidades da reprodução cotidiana da vida, é onde se dão tantas rupturas e mistura-se ao mundo público para o imediato da subsistência. Nessa extensão, “lá em casa” corresponde à rua onde se mora, e a mesma expressão aparece sem as subdivisões espaciais, quando os moradores estão fora do bairro.

O “bairro” é a Vila, a Rua, o Miolo, o Campo etc. representando a soma das nomenclaturas que traspassam as paredes das moradas e espalham-se como signos do território vigiado, formando uma imagem única, estigmatizada e representacional da qualidade de vida dos moradores. Pois, “falar que vive aqui é a mesma coisa de ser bandido. Eu mesmo não falo, minto” (Sílvia).

A unidade doméstica move-se por duas vertentes: o repouso e o trabalho doméstico associado à microempresa de alimentos ou ao ambiente de apoio à comercialização da droga. Na maioria das vezes, a casa é também o espaço da religiosidade. São as imagens de santos em estatuetas e quadros de São Jorge, Cosme e Damião, Santo Antônio, Nossa Senhora (virgem e mãe) e Jesus (em crucifixo ou com o coração em chagas) que asseguram, simbolicamente, o controle das atitudes das pessoas frente ao mundo. Em locais de destaque, as imagens dos santos estão situadas sempre em frente à porta, em posição de guarda e benção. Nas mesmas paredes sem pintura, antigos calendários e fotos de atrizes de telenovelas são outros ícones que parecem produzir uma correspondência imagética com o mundo de fora. Na cena comum, a presença constante do alto volume da televisão ou do som dos discos toma conta das ruas.

O espaço de poucos móveis, quase sempre doados, designa uma necessidade mínima e básica, como camas, cadeiras, pequenas prateleiras e guardaroupas improvisados de caixas e caixotes. Os eletrodomésticos mais valorizados que outros utensílios são a televisão, a geladeira e o fogão, seguindo-se o aparelho de som, ferro elétrico e rádio de pilha. Quanto aos demais objetos, em geral, apenas um copo serve a todos da casa, e quase sempre não existem talheres e pratos.

Acostumados à ausência de espelhos, os homens fazem a barba, as mulheres põem batom e se penteiam sem a necessidade de verem suas faces, ainda que os jovens tenham um pequeno espelho de bolso. Esse é um objeto que pode refletir o visível e o invisível, ou o mal pressagiado, como emana a tradição antiga da região rural do Nordeste. “Pra que ter isso dentro de casa? Pra vê o que não presta?” (Elza). A mulher não fala de si ou de um sentimento associado à desvalorização social, mas essencialmente quer expressar uma dimensão oculta que comporta elementos que aparecem para assombrar ou invadir o corpo refletido. Crenças que guardam os espelhos, para atrair as forças cósmicas, como a ira dos raios, a força da lua, os espíritos malignos. “Algo que reflete outra coisa [...] através da mediação que é o observador” (GADAMER, 1997: 675), uma imagem inatingível especulada que se devolve ao que a vê (Idem). No medo dessa atração, o sujeito não quer arriscar nem o corpo nem a casa, e resguarda-se.

No mundo doméstico, as relações se dão quase sempre condicionadas por conflitos, por diferenças entre gêneros e gerações, devidas aos padrões ideológicos constituídos, em cada contexto particular. É essa a base que acolhe as mudanças observadas na dinâmica demográfica do bairro, como parte inerente ao processo de reprodução social e que, nesses últimos anos, influenciou mudanças na estrutura interna das unidades domésticas e os diversos aspectos socioculturais.

Registram-se, nas relações mais íntimas, denominações como madrinhas e padrinhos sem batismos, compadres, comadres, tias e tios, primos e primas, como formas de se assegurarem na vida confusa e dispersa da cidade grande. Algumas condutas de reciprocidade, como a cordialidade nas relações interpessoais, funcionam como etiquetas mais tradicionais de cumprimentos e visitas, formalizando amizades, principalmente entre os sertanejos. São os pedidos de bênçãos uns aos outros, o beijo nas mãos ou a testa que se encosta às mãos, um tratamento entre os adultos, os quais se referem sempre, a Seu (Sr.) e Dona (Sra.), como códigos de autoridade e respeito, mesmo que já se conheçam desde muito. Há também o toque, enquanto falam uns com os outros, como parte da gramática da comunicação, como se a palavra estivesse colada ao tato, ao gestual entre as mãos de quem fala e os braços de quem escuta. Diferentemente, os paraibanos mantêm, na relação face-a-face, uma inibição da emoção, pois, em geral, freqüentemente falam de braços cruzados, cabeça baixa e olhar em direção oposta ao interlocutor que lhe é estranho.

À natureza da pessoa agregam-se comportamentos socialmente definidos, ou identificados como o “jeito de ser da pessoa”. A natureza significa a essência do ser que se revela na linguagem.

Algumas expressões caracterizadas como, “cisma”6 e “calundu” são modos de demonstrar insatisfação e qualificam a identidade da pessoa. São ambos componentes da conduta da emoção, em geral, observada nos adultos de ambos os sexos.

Cisma é raiva. Faz mal. Desanda a vida. Conheço uma mulher

que era minha amiga e tomou raiva de mim, por besteira.

Porque ajudei o marido dela, que estava caído de bêbado, levei

ele pra casa dei um banho, dei comida. Ela botou um olho de

raiva em cima de mim, que tomei uma queda nessas escadas.

Eu caí depois do olho dela. Tem umas pessoas aqui que tem

muita raiva no coração. Tudo largada ou brigada com os

maridos. Umas mulheres que ficam sufocadas, com os filhos na

mão. Não se une uma com as outras pra se ajudarem. Ficam

com ciúme de tudo. Até da minha casa. Sei lá (Tiêta).

Conforme as narrativas, os indivíduos demonstram-se cismados uns com os outros, principalmente os oriundos do sertão. Esse signo representa a linguagem indireta do sujeito para mediar um sentido de proteção do corpo em relação ao alheio, o outro. As pessoas cismam com o que temem, como a inveja de outrem sobre si, ou um “mau-olhado” que pode atingi-las. No enunciado acima, a cismada receia perder o marido e, conseqüentemente, teme em ficar só e com “os filhos na mão”, conforme interpretação de Tiêta. O ato de cismar é, nesse caso, a estratégia objetiva que a informante encontra para manter-se “pré-ocupada” com o que teme.

... tem gente que cisma com a comida da gente e, depois vem

faltar. Por isso, eu sempre dou comida pra minha vizinha

quando eu posso, não é todo dia, mas eu sempre dou. E ela

está sempre me olhando atravessada, parecendo que quer tudo

que tem aqui dentro de casa.

Um dia ela ficou me olhando, toda hora pela janela, aí eu fui tendo dor de cabeça, fui me sentido diferente, aí queimei a comida toda e não tive um dinheiro pra comprar mais. Desse dia pra cá fiquei com cisma dela. Do olho dela (Creuza).

A cisma do olhar alheio sobre as coisas e o corpo abre a possibilidade de o sujeito produzir sentidos sobre uma situação específica e externa a si mesmo. Ao apoiar-se num fundo real, Creuza, em relação à sua vizinha, tenta explicar as diferenças que as separam: “Aqui, só ela me olha desse jeito, as outras vizinha não [...] acho que ela é mais pobrezinha do que as outras, aí ela sente mais inveja”. A cisma é colocada como uma reação adversa à ameaça que sente ao perceber-se socialmente diferenciada. Sendo assim, a vizinha, badameira e mendiga, cujos olhos “têm inveja”, passa a ser a responsável pela perda de sua comida. Nesse agravo, não há palavras em suficiência, mas antes, um silenciamento a mediar a relação entre as personagens. A desconfiança e o medo de faltar comida revelam-se como pressentimentos pela pré-concepção que uma vizinha faz da outra. Ainda que sejam falsas as impressões da inveja, a idéia de fome está implícita. A cisma perpetua as diferenças entre ambas, e faz da cismada uma eterna submissa desse sentimento. Nessa atitude, ela se afasta da possibilidade de uma aproximação mais íntima da vizinha, mas, ao mesmo tempo, espera esse encontro, para se manter num movimento que conhece e não quer abandonar. Nessa atração, a proximidade com a outra, cujos olhos teme, tece um sentido ambíguo para “desfazer” o mal.

Eu ajudo ela pra não piorar as coisas aqui dentro de casa, mas

eu sei que ela tem uma natureza ruim. Por isso que ela nunca

tem nada. Aqui a gente não parte pra briga quando a gente vê a

inveja, a gente se defende jogando fora as coisas que os

invejosos dão pra gente, senão a gente fica fraca (Creuza).

... comida e água, a gente tem medo de comer do invejoso,

pode está tudo de feitiço (Renilda).

Em geral, a cisma emblematiza uma preocupação do sujeito em manter-se forte em qualquer situação. Uma experiência, cuja leitura indica a necessidade de se ter a certeza de não ser atingido pela intencionalidade que se percebe do outro. De qualquer modo, a cisma pode libertar o sujeito de uma maldição – advinda do outro – e que pede domicílio em seu corpo e em sua casa.

O enfeitiçamento ou o desejo de enfeitiçar é, para alguns informantes, a atitude mais comum de reagir às forças sobrenaturais da existência em privação. O sujeito que se sente invejado fica envolto numa sensação de perda material, ou de uma “coisa estranha por dentro”, cuja principal impressão o atrai a pensar-se enfeitiçado por trabalhos de umbanda, ou pela macumba. Esses são temas pouco conhecidos pelos que não freqüentam o terreiro de candomblé. O mais comum é o desejo de vingança, quando um se sente ofendido pelo “olho” ou pela face alheia. A sensação de ser ofendido pode ter claros traços de uma discórdia, advinda da discussão de pontos de vista ou valores divergentes, como pode ter como motivo o desejo de ser ou possuir (as coisas do) o outro.

Se a gente não cismar, fica mais fraco ainda, porque a inveja

que caiu em cima de mim foi fogo. Quase me acaba. Tive que

fechar o corpo pra muita gente daqui (Lívia).

Uns têm o corpo fechado, e outros, aberto. Ou o corpo fechado se abre, quando o sujeito se sente enfraquecido em alguma situação concreta. O fechamento do corpo tem muitas leituras no âmbito de ações diversas, desde o banho de folhas a outros rituais mais trabalhosos, dentro do Candomblé. Para os que não freqüentam essa seita, cabe-lhes também as rezas e incensos na casa e no corpo.

Uma mistura de cismas sobre as coisas cotidianas associa-se ao corpo: cisma-se com uma palavra, ou com um objeto qualquer da casa, ou com pessoas, para, fundamentalmente, evitar infortúnios. Em relação aos alimentos, a cisma age conforme a tradição de proibições, em especial em alguma situação de enfermidade ou nas fases fisiológicas da mulher, como a menstruação e a gravidez, em que se evita o geladinho e o azeite de dendê, por serem considerados hemorrágicos.

Para a prevenção de algumas doenças, os principais cuidados da alimentação observados são específicos para melhorar “coceiras, gripe e desando” (diarréia). Em cada caso, será suprimida da dieta cotidiana a pele de galinha, por entenderem que provoca inflamações cutâneas “pra quem tem alergia no corpo”; algumas folhas, como o coentro, “que tem as folhinhas tudo arrepiadas, parecendo que estão gritando” (as folhas arrepiadas do coentro se assemelham aos alvéolos pulmonares, em miniatura), e por isso provoca cheiro na comida, resfriando e enfraquecendo o corpo com gripe. Diarréia ou “desando” é uma ofensa ao corpo, atribuída pela inveja e o olho “gordo de quem quer a comida da gente, aí o corpo responde desse jeito, fica todo desandado” (Bernadete). “Às vezes, só pega no mais fraco da casa” (Lêda). Para a terapia da diarréia, evita-se o café pela semelhança com a cor das fezes: “aquela água escura que nem a borra do café”; e a gordura animal, porque “o côcô fica preso nas tripas” e “a barriga faz aquele barulho todo pra se soltar, parecendo que as tripas estão reclamando lá dentro” (Tiêta). Em alguns casos, a dieta é rigorosa, com jejuns e chás por vários dias. Também a gripe e o cansaço no peito são queixas consideradas doenças que podem matar, porque “o corpo parece que não pertence mais a gente”, ou porque “a gente fica acabado, desanimado, parecendo que vai embora, sem poder respirar” (Tiêta). “... Tem gente aqui que não faz indieta de nada, porque nem pode. Aí se entrega a Deus e se salva de tudo (Arlete).

Pior é ter que fazer indieta de sexo. Não transar pra não

enfraquecer o corpo. Dá um nervoso... Agora eu não preciso

mais de fazer, porque estou sem homem, mas já fiz muito isso,

pra não pegar gripe. E quando se toma remédio de verme,

também não pode transar pra não atrapalhar com o remédio

das bichas (Tiêta).

A dieta é chamada para o controle do corpo, cujo sentido o sexo aparece conjugado. Verminose ou “bicha” não é doença, mas deve ser tratada quando a “barriga está cheia. [...] A gente conhece quando a cara fica amarela e a barriga cresce. [...] Mas, tem gente que não tem verme, não sei dizer porque [...] deve ser porque é tão ruim que nem as vermes gostam [...]. Água de beber é tudo de filtro, por causa do barro da água de torneira” (Elza).

“Fraqueza” e “nervoso”, pensamento “pro mal” e dores nas pernas não são definidas como doenças, mas “coisas da pessoa”, [...] “que já nasce com essas coisas e nunca se acostuma de ser pobre”, ou porque “tem gente que está pagando alguma coisa que fez de errado” (Tiêta). A natureza da pessoa é um código cultural, uma instituição que, a rigor, designa uma atitude de tensão íntima contra qualquer motivo que pode provocar perdas.

O calundu é a emoção que expressa na zanga a revelação da não passividade do sujeito frente às situações concretas de suas condições sociais. Manifesta a face cerrada e o ensimesmamento, que “chega assim, de repente na pessoa”. Uma introspecção, em que o sujeito tenta se conter, não se abandona, e liberta-se explodindo palavras de ofensas.

O sentimento de revolta demonstrado como calundu rompe a atitude natural da ambiência faminta, para negá-la ao nível da consciência. A exemplo, quando da coleta de alimentos no lixo, a face objetivada do ator mostra-se, nessa emoção, como um grito interno, que lhe provoca sofrimento.

A gente não vai pro lixo contente. Vai triste (silêncio). Mas

depois passa, quando a gente chega em casa, já passou. Mas

tem gente que não aceita, fica de calundu. Às vezes, a vida

toda é assim, não se acostuma nunca (Tiêta).

É gente de natureza contrariada. Nasceu sem querer nascer e

não morre, aí fica assim (Lívia).

No particular, cisma e calundu são expressões culturais comuns do idioma dos moradores, embora esse último seja mais comum para os que vieram da área rural da Bahia. A conduta revela um intuito do sujeito em distanciar-se do palco, ou demonstrar aos seus semelhantes a não aceitação de algo, em troca de um assento em silêncio, até quando ele se reconcilia com o mundo, outra vez. Para outros, em especial os nascidos em Salvador e áreas próximas, o calundu não é tão comum, e semelhante conduta é considerada como um “encosto” ou um “troço”.

Isso que eles dizem que é calundu deve ser encosto. A pessoa

que está com isso fica murcho, não quer falar, tem raiva por

dentro, aí a gente deixa. Espera o encosto passar ou faz uns

trabalhos pra tirar [...], com muita reza. Vai depender da pessoa.

Porque cada pessoa sente de um jeito (Bernadete).

Eu tenho isso quando brigo com meu marido, quando tem

problema demais em casa. Fico quieta, calada, não quero

conta com ninguém. Não agüento nada (Renilda).

A gente sente essas coisas não é sempre porque falta comida,

é tudo misturado, é cansaço de viver (Tiêta).

Os motivos que levam o indivíduo a sentir “calundu” são diversos, e a intensidade desse sofrimento desloca-se para mediar as relações pessoais. O sujeito coloca em dúvida seu eu e o mundo ao conferir o peso de viver.

Quanto aos processos terapêuticos mais comuns, são as pessoas do sertão que dizem conhecer com maior profundidade as plantas medicamentosas, como o capim santo, o sabugueiro, a cidreira, o murici etc., produzidas em cacos e canteiros nos pequenos quintais. Os originários do recôncavo baiano e os da cidade de Salvador introduziram no bairro processos de cura para “todas as doenças de pobre”. O tratamento com folha funciona “benzendo a ferida, o cobreiro, e o lugar que tem dor”. Para tanto, nem todas as plantas são produzidas mas “buscadas no mato, porque são de Deus”. Entre essas, a mais comum é a folha “alevante” pra “curar encosto e animar a pessoa” [...] “levanta a pessoa, dá coragem pra pessoa e não deixa entrar nada no corpo nem na casa dela” (Tiêta).

A casa, esse cenário onde se processa e resguarda-se a intimidade, é, em algum momento, o espaço em que o público circula. “Minha casa vive cheia de gente, às vezes é gente do bem, às vezes não é. Mas tenho que vender minhas coisas e tenho de deixar qualquer pessoa entrar” (Tiêta).

O pequeno comércio legal do bairro, estampado em portas e janelas, encontra-se também dentro da casa. Vendem-se pastéis, pipocas, cachorros-quentes, cigarros, bebidas etc. Para fora do bairro, sobre tabuleiros, carrinhos de mão, garrafas térmicas, e caixas de isopor, são comercializados, respectivamente, o amendoim cozido ou torrado, verduras, cafezinho e geladinho (mistura de um pó industrializado, com sabores artificiais de frutas, água e açúcar, vendido num pequeno saco plástico de 15 cm., congelado como picolé).

A moradia, que serve como lugar de “venda” ou armazém para o comércio de alimentos e produtos de limpeza, confere um sistema de varejo adaptado à realidade do lugar. Distintos dos mercados: comprase uma mercadoria para o consumo do dia, como a água sanitária, vendida aos poucos, numa unidade mínima medida numa tampa de talco, para o valor de R$ 0,10. O sal é comercializado em pequenos sacos plásticos, fechados com a chama da vela, num supervarejo de muitos produtos que podem ser subdivididos para atender à demanda. Habituados a “pendurar as contas”, o sistema de dívidas é um costume dos moradores no comércio local, refletindo uma organização que cria vínculos de dependência entre o comerciante e o consumidor. A maior despesa com dívidas refere-se à padaria local, e à vendinha de Raimundo, onde podem encontrar variados produtos, como óleo, carne seca, farinha, fubá, sal, açúcar, café solúvel etc. As verduras e as carnes são compradas no mercado das Sete Portas e têm o mesmo sistema de pagamentos controlados por anotações em cadernetas, para as antigas freguesias.

A venda de lanches nas casas dos moradores conta com o apoio mútuo dos membros residentes e uma divisão sexual do trabalho bem definida, em que a responsabilidade da compra de alimentos e da confecção dos produtos está a cargo da mulher, enquanto que as finanças são controladas pelo homem. Para a unidade que comercializa a maconha, o crack e outras drogas, além da estrutura interna organizada com divisão de trabalhos e disciplina, mantêm-se os vínculos com outros indivíduos, grupos e contextos exteriores, formando redes de relações formalizadas dentro e fora do bairro. Com participação diversificada, observa-se a utilização da força de trabalho feminina na confecção de cigarros, pesagem e separação da maconha em pacotes, e das crianças e adolescentes na separação cuidadosa dos pedaços de crack e na sua comercialização. Ainda que seja essa uma divisão que sofre variações entre os sexos e gerações, é menos expressiva a participação da mulher como vendedora de drogas.

Os cigarros mais fininhos, ela faz muito bem feito. É uma das

melhores daqui e é crente, viu? A polícia sabe e vai lá de vez

em quando levar os cigarros dela. Ela faz isso porque tem que

pagar as dívidas do filho que mataram na porta dela. Ela não

tem pra onde ir. Tem medo que façam mal pros meninos. E as

filhas estão tudo vivendo com gente da maconha (Sílvia).

Esse tipo de trabalho é reconhecido no bairro como qualquer outro informal, sendo estabelecidas relações entre os parentes, vizinhos, amigos e associados, fundadas na avaliação de confiança, que, por sua vez, é construída e redefinida em função dos distintos graus de reciprocidade. Uma das diferenças importantes entre o comércio legal e o das drogas é a forma de pagamento. A moeda válida para esse último é o dinheiro vivo ou qualquer objeto de valor para o mercado. E, para os devedores de drogas, não há perdão, sendo rigoroso o prazo para o pagamento ou o parcelamento da dívida. Alguns dos jovens comerciantes consideram a relação sexual como um modo de pagamento, mas, quando a dívida se prolonga por mais de seis meses, a punição recai sobre os membros da família. “Tudo vale, eles entram dentro de casa pra pegar a televisão, qualquer coisa” ou matam para servir de alerta para outros devedores.

Os envolvidos com o comércio da droga conseguem reunir um rendimento que flutua entre seis e mais salários mínimos. Diferentemente dos mendigos e dos que estão no mercado formal, que recebem até dois salários.

Nas unidades mais pobres, as mulheres são as que mais buscam o apoio das vizinhas para que vigiem suas crianças enquanto trabalham fora do bairro. Tratam-se de arranjos entre amigos e parentes, a partir dos quais as crianças podem ficar hospedadas dois a três dias numa casa, ou apenas um turno do dia, conforme os acertos entre as unidades.

A solidariedade, no interior dos grupos domésticos, é o eixo que move a manutenção da sobrevivência, numa complexidade que regula os conflitos, cria códigos e gera a necessidade de manter uma inter-relação, compartilhando o espaço, a comida, os problemas, as festividades, o aleitamento materno, o cuidado com os filhos dos vizinhos etc.

Quando um chegava do interior, a gente botava dentro de casa

até eles terem a casa deles, arranjarem trabalho na construção

ou de faxina. Minha casa já ficou cheia um bocado de vezes.

Não podem é bulir nas coisas da gente, nem nas meninas, mas

isso eles nunca fizeram aqui em casa (José).

Nunca deixei um irmão (qualquer pessoa) dormir no relento

(Tiêta).

Esse peito aqui já deu de mamar pra um bocado de menino

daqui (Arlete).

A confiança e a intimidade entre os grupos permitem compartilhar temas como os problemas conjugais, os medos, as doenças, a violência do bairro, as privações etc. Mas são os “passeios nas casas de amigos”, no mesmo bairro, e os encontros sociais de sábado à noite que asseguram as relações de amizade e apoio entre os grupos mais próximos.

A gente se encontra pra dar muita risada e falar de quem não

presta, pra se aliviar. A gente chama assim os amigos, torra

uma pele de galinha, toma uma branquinha com limão

(cachaça), e isso já é uma festa. Se a gente não fizer isso, a

gente morre, só de ficar pensando na vida (Tiêta).

Ninguém aqui é de ferro. A gente é pobre, falta de tudo, mas a

gente se diverte (Bernadete).

Tais condutas apontam para um sentido maior de família, como uma instituição que abraça valores que reproduzem imagens culturais necessárias à sobrevivência e formas de apoios que arrefecem o sofrimento das carências materiais. Nessas microrrelações, asseguram-se os laços de confiança recíprocas, como o empréstimo de dinheiro ou de um pacote de macarrão, um pouco de farinha, passes para transporte, crianças para a companhia na mendicância ou o ato de esconder pacotes de droga etc.

As 23 vagas na creche da Igreja Católica, no bairro do Barbalho, são insuficientes para atender às necessidades do bairro, e, sendo assim, muitas mulheres, quando não encontram apoio dos amigos e vizinhos, pagam pela vigília de uma criança, R$ 30,00 a 40,00 por mês, sem contar com a refeição. Um esquema que fere a dimensão da solidariedade e que cresce ainda mais com as menores oportunidades de emprego no mercado de trabalho.

Com a presença ostensiva do tráfico de droga, antes tão cautelosa, gera, na vida dos demais moradores, sentimentos de medo da morte violenta, pois todos podem ser considerados como suspeitos, pela polícia ou pelos traficantes, no clima de guerra que amedronta e modifica a perspectiva da sobrevivência no dia-a-dia. “A gente não pode falar nada”, “... faz é vista grossa pra não saber das coisas”. Desse modo, ninguém denuncia, mesmo anonimamente, os abusos da violência do bairro, quer os tiroteios entre as gangues, quer o uso de drogas por crianças, a falta de segurança etc.

“Maloqueiros” (desocupados e vagabundos), traficantes, trabalhador de carteira assinada, prostitutas, cafetões, lavadeiras, faxineiras, mendigos, biscateiros etc. traduzem modos de vida, cujas relações se comungam aos interesses comuns no espaço social. São as formas de trabalho que tipificam as pessoas do bairro, como “perigosas, gente de bem, gente esforçada, feras” etc. O traficante, principalmente o que mora há pouco tempo no bairro, não tem relações próximas com os moradores “veteranos”, e esse o nomeia ‘gente de fora’, porque não têm raízes familiares no bairro, ou porque não convivem com as relações tradicionais do lugar, ou ferem essas tradições quando “mudaram a vida da gente pra pior” (Raimundo). Em contrapartida, tanto os traficantes recém-chegados, como os mais antigos, consideram o trabalhador assalariado “de carteira” como um “otário” que “não sabe ganhar dinheiro”, ou que “nasceu pra passar fome”.

Os donos da rua não deixam a gente sair. Mandaram dizer,

desde cinco horas, que é pra ninguém sair de casa. Pode um

negócio desse? Agora a gente fica aqui igual na prisão. Pior

que na prisão, porque aqui a gente não sabe o que vai

acontecer (Renilda).

Muitas vezes, eles obrigam os moradores a desviar caminhos, interrompem a passagem de entrada e saída do bairro e exigem que as pessoas não saiam de suas casas. Desconfiados, “os donos” do lugar são diferentes dos poucos traficantes antigos, das quadrilhas de ladrões, alguns outros criminosos, pivetes de pequenos furtos, que eram e ainda são, “gente daqui”, que não ameaçam o bairro: “Os daqui são tudo miúdo, só trabalham lá fora e aqui dentro é tudo igual à gente” (segundo a fala de um morador antigo, ex-membro da extinta associação de moradores). “Esses daí (os que vieram recentemente para o bairro), a gente conhece eles pouco” (Elza).

Distribuídos em cinco diferentes gangues ou “turmas” em todo o bairro, eles mantêm, entre si, acordos com clientes e locais de venda das drogas. Quando tais acordos são transgredidos, surgem os confrontos, as sanções, as torturas, as ameaças e mortes. Sobre esse aspecto, cito como exemplo o que ocorreu numa certa manhã, na Rua de Cima:

Acabaram de matar Tânia, a filha de Adelina. Mataram ela

dentro de casa, de faca. Dizem que foi a máfia. Ela tava

envolvida. A bichinha tão boa, tão nova, uns 20 anos, foi se

meter com esses homens, acabou nisso. Esse lugar aqui está

cada dia pior. Agora estão lá com o corpo dela, já chamaram a

polícia. Deram um monte de facada na bichinha. Eu é que não

me meto nessas coisas, fico na pior mas não quero saber de

vender essas coisas, acaba nisso [...] É perigoso, dá um

dinheirão mais mata, também. E quem entra, não sai (Tiêta).

O envolvimento com o narcotráfico dá-se de muitas maneiras, e a venda segue critérios rigorosos, que ordenam a instituição da fidelidade, aliada à submissão dos membros de menor poder na organização. Tânia de Adelina não vendia drogas, mas era a mulher de um traficante que traiu seu grupo. Dias depois, ele foi encontrado morto e também “apagaram o irmão dela aqui dentro, quando ele veio visitar a mãe dele. A família vai toda morrer por causa da traição” (Tiêta).

Os pontos móveis e fixos desse comércio, dentro do bairro, são designados também como locais de vigília e, de binóculos em casas sobre os morros, eles identificam quem entra ou sai do bairro. Qualquer que seja o rapaz ou a moça (mais raro) em pé, por mais de uma hora em algum ponto do bairro, está trabalhando para o tráfico.

Algumas casas, do lado esquerdo de quem entra no bairro e vistas do alto, são as únicas pintadas: paredes, janelas e portas, em azul celeste. Além disso, têm escrito com letras grandes e negras: JESUS, que vem significar a casa do filho de Deus (?). A habitação da cor do céu, no bairro de casas pálidas, é a “protegida dos homens da droga”. Para uma proprietária de uma dessas casas, “eles quiseram pintar, e eu deixei”, e ao tentar aprofundar o assunto, ela desconversou. São nessas casas, nas paredes externas e azuis que estão escondidos, em buracos feitos à bala, o crack e os

cigarros de maconha, para serem repassados aos clientes. 7 Os traficantes mais jovens são conhecidos como “cachorros”, cujo termo para eles significa confiança, fidelidade, os que guardam o lugar ou o ponto. E “Menino” ou “Aviãozinho” são em geral os menores, que podem correr pelo bairro sem que sejam suspeitos.

Sem qualquer envolvimento com o tráfico, os moradores dessas casas azuis fazem “vista grossa” sobre o que acontece em seus muros e, amedrontados com o poder local, calam-se.

O ponto é um dos motivos de disputas acirradas. Na cena da rua, em seu emprego, o pequeno traficante mantém o rosto voltado para a entrada do bairro. Geralmente, são disciplinados para silenciar, falar e agir com frieza. Todos que asseguram os pontos de vendas estão colados aos postos de trabalho, como se estivessem esperando clientes ou ataques a qualquer momento. A ação de vigiar o bairro é repleta de códigos: não só registram quem entra ou sai do bairro, como conhecem a vida dos moradores, grampeiam telefones, seguem pessoas suspeitas, estão em alerta constante.

A escola do tráfico formaliza, com graus de cumplicidade e competência, uma aprendizagem com regras rigorosas. Não apenas remunera, como dá status e poder aos seus membros. Observo que o prestígio do poder no contexto da vida pública vem diferenciar a fala, a conduta, o modo de viver, estreitados por normas e a revelar-se ainda mais complexo e culturalmente plural no cotidiano do bairro. A identidade pessoal desses jovens, a despeito do mundo, situa com nitidez o papel social de cada qual, demarcando mudanças na vida pública e na privada. O poder local do tráfico, sem limites, integra unidades familiares e configura significados à droga no contexto da condição faminta. Sobre isso, alguns deles dizem que “é melhor estar cheio do que vazio” (Erismar), ou “eu quero mais e não menos” (J.A.).

As unidades e os grupos desse comércio, por sua vez, reproduzem formas de poder variadas, a depender do grau de hierarquia que ocupam nessa atividade. Os traficantes apresentam, de fato, a melhor situação econômica do bairro, e é no ambiente doméstico que é reproduzida a sua autoridade sobre os membros da casa. Em suas unidades não faltam alimentos, nem aparelhos elétricos, em especial, vídeos.

A “máfia” – como Tiêta nomeia a organização – é uma temática presente no dia-a-dia, no drama de quem vive com falta de dinheiro e trabalho.

– Eu queria vender só um dia pra ganhar uns 300. Levar um

pacote (Lívia)

– Está doida mulher? Quem entra não sai (Maria).

– Pois eu também queria, pagava minha luz e ainda sobrava

(Tiêta).

– Eu ia embora daqui. Vendia uma vez, ganhava uma bolada e

depois fugia pra bem longe e cheia de dinheiro (Lívia).

Assumir o comércio da droga é, para alguns, um atributo de coragem, um desafiar o poder da polícia, o que faz estimular indiretamente a ampliação desse violento setor, na medida em que não existem projetos sociais eficazes para a população. Também, vale registrar a participação direta de policiais na extorsão de dinheiro desses setores, o que vem demonstrar a qualidade dos projetos de combate ao crime organizado do narcotráfico.

Tem polícia que chega aqui e cobra R$ 600,00 pra soltar um

menino daqui, quando ele prende. Às vezes, os meninos não

estão fazendo nada, e ele prende porque quer dinheiro. Eles

inventam uma ocorrência lá pro delegado, e prende. Solta e diz

que eles têm 24 horas pra arrumar dinheiro, e ainda diz quanto

quer, é sempre R$ 600,00, não é 200, nem 100. Aí os

coitadinhos dos meninos ficam doidos. Eles vão furtar, assaltar,

arrombar carro, vender as coisas pra ter o dinheiro.

[...]

Tem gente aqui que diz que a polícia já matou gente inocente, a

polícia tinha prendido pra arrancar dinheiro deles, eles não

pagaram e a polícia matou. Como é que a gente vive num país

desse? A gente tem governo? A gente tem o que? A gente

pode reclamar pra quem? (Sílvia).

... isso é o inferno. Ninguém aqui pode ter paz, ninguém aqui

vive com Deus. Tenho medo de meus filhos, minhas netas que

ficam vendo essas coisas, que infância mais horrorosa pra elas

(Renilda).

Os moradores sentem e ressentem a ausência de governo na cidade, principalmente no que concerne ao combate às drogas e a falta de professores nas escolas e interpretam os discursos oficiais que assistem na televisão, como uma “falta de respeito com a gente” (Renilda). Eles percebem o abismo que existe entre propaganda e realidade: “O governo gasta dinheiro pra falarem deles mesmos e na prática não fazem nada” (Renilda). “É tudo palhaçada do governo” (Augusto). O vazio de projetos gera a submissão às drogas e a sucessão de imagens que transformam o contexto da pobreza na mais terrível condição humana.

... o país está pior do que antes por causa do desemprego.

Antes a gente pegava um carrinho de mão emprestado, botava

umas verdurinhas e saía pelas ruas vendendo. Hoje não dá

mais. Tem gente

demais vendendo e o dinheiro está curto (Renilda).

A pessoa está empregada e de repente por um motivo ou outro,

perde o emprego. Não tem como correr atrás, perde a coragem,

não sei o que é que acontece, aí busca a solução dos

problemas nas drogas. Matam e morrem pela drogas.

[...]

Você passa aqui de manhã cedo, vê as pessoas usando

maconha como café. Todo tempo você vê alguém sempre

usando uma maconha, um crack, uma cocaína, um pico, sabe

lá o quê. O pior é que eles (consumidores de drogas) não têm

comida, não sentem nem vontade de comer. A comida é difícil

da pessoa correr atrás, e as drogas vêm pra porta sem precisar

você correr atrás. Desde quando aqui o lugar era chamado

boca-de-fumo, a maioria vive disso, eles tomaram as drogas

como meio de vida (Elton).

Para esse tipo de “meio de vida” há uma diferença marcante entre os consumidores e os comerciantes das drogas. Uma população vendedora, conta com a força de trabalho de crianças e adolescentes que circulam em todo o bairro e fora dele, numa postura que tem como disciplina o sigilo e a fidelidade aos chefes. Também para os consumidores, as relações são de submissão. O tráfico exige outras concepções de vida, que interagem nas relações mais íntimas de cada unidade doméstica. É uma ambiência que traz temor com a estratégia armada a desafiar outros bandidos e a polícia, procriando diferentes padrões de vida dentro da pobreza. Em meio a esse contexto, as relações sociais são ainda mais ambivalentes. A solidariedade coexiste com o conflito, como em qualquer outra sociedade competitiva, mas a violência física, com ameaça de morte, constitui uma espécie de herança desse grupo sobre a população.

A ritualidade do poder do narcotráfico atinge os drogados, os

traficantes, os moradores que não participam diretamente

desse negócio, e sobretudo os jovens que perderam a vaga na

escola ou o interesse por ela.

Se fulano encontrasse um emprego que pagasse a ele R$

300,00, que é o que ele ganha na droga, ele saia dessa vida.

[...]

Sair é arriscado, porque quem se envolve com droga fica ligado

nos grandes. Como se ficasse devendo a alma. Eles matam até

se sair. Conheço gente que saiu, mas entrou de novo; não pode

sair de vez. É como se fosse uma tatuagem miserável, que não

sai. É uma contaminação. Entrou, não consegue sair.

[...]

Se o governo fizesse um trabalho de educação e solidariedade,

a coisa ia melhorar. Em vez do governo gastar milhões em

propaganda política, podia recuperar essas pessoas envolvidas

Continuar: parte 3 de 4