Agonia da fome

Maria do Carmo de Freitas · Capítulo 6 de 9 · parte 4/4

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Agonia da fome

A péla e sua gente

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Silenciou e se deteve a olhar a porta de sua casa. Depois, benzeu-se, levantou-se e fechou a porta. O que evitava? Encolhendo-se no sofá, chorou e disse: “esse assunto é muito ruim pra mim, você entende não é? Quando eu tiver coragem, a gente volta nisso”. Raimunda, na cozinha, passou a cantar uma canção da sua igreja, enquanto mexia a massa de acarajé.

Elza era uma mocinha quando se juntou com um homem:

Eu não sabia das coisas, aí me iludi. Fiz besteira, saí de casa

com um homem ruim, que já morreu e nem quero falar pra o

espírito dele não rondar minha casa. Tomei foi muita porrada

dele. Vixe. Fui desgostando, desgostando, arrumei outro que foi

pior ainda, me batia também. Montou esse barraco aqui pra

mim. Tomei tanta porrada que quase perdi meu olho. Não gosto

nem de lembrar. Adoro a vida.

[...]

Não vê assim, eu já doente, bem que eu queria ter um amor. Eu

chego a sonhar com um homem bom. Ainda estou inteira, ainda

posso namorar muito. Mas onde é que vou achar ? Vim pro

mundo só pra sofrer com homem. Isso aqui foi de homem ...

(mostra sua grande cicatriz de queimadura, da tentativa de

suicídio há mais ou menos 30 anos). Até meu filho, o único que

vingou de não sei quantas barrigas, é virado. Um dia está bom,

passa um tempo e me maltrata. Me diz coisa ruim. Presta não,

nenhum homem. É só ilusão.

Nascida em Salvador, tem 60 anos de idade ou mais, e chegou ao bairro com seu marido, no início dos anos 70, quando sua casa em Pernambués foi destruída pela chuva. Trabalhou muitos anos como lavadeira dos “brancos, os barões”. [...] “Pra comer, é do lixo já de muito tempo. Não tenho vergonha de dizer a verdade. Eu não cato mais, é os meninos daqui, que eu peço pra eles catarem pra mim, que estou velha”.

O marido, acusado de vários assaltos com homicídio, morreu na cadeia. Obesa, e com edema nas pernas, Elza já não caminha para a mendicância como antes. Não sai do bairro e sobrevive da ajuda dos vizinhos. Em troca de alimentos, remenda roupas e faz rezas para doenças do corpo e do espírito de “qualquer pessoa, daqui e de fora. Eu tenho obrigação de rezar”. Considera-se faminta, porque não tem aposentadoria e seu único filho está preso por assalto à mão armada. No momento, ela vive sozinha no único barraco do “beco da morte” da Vila. Lugar onde o narcotráfico executa seus devedores. A nora e os dois netos moram próximos, mas ela diz que se aborrece e fica doente ao ver o tratamento que essas crianças recebem da mãe. O menino de 6 anos pede esmolas nas sinaleiras das ruas circunvizinhas ao bairro, a mando da mãe, uma mulher de mais ou menos 25 anos, desempregada e viciada em crack.

Sem qualquer renda, Elza vive na casa de dois cômodos sem sanitário, banha-se no “quartinho” público que fica no beco ao lado e faz suas necessidades no papel de jornais ou numa lata, e depois pede aos vizinhos (crianças) pra jogar no lixo, em baixo da ladeira, na mesma caixa coletora de onde vem seu alimento.

Para ela, a fome é um ente das trevas, um beco-sem-saída, que traz a morte. Usa outras expressões, que tratam de situar a condição faminta como algo externo ao corpo, uma “coisa” ou entidade, que “chega para pegar o corpo”, pré-condicionada por uma sensação de “dor no peito”. Esses elementos estão no plano de conexão com seus problemas concretos de ser faminta, sem assistência social e a viver em uma das áreas de desova do bairro.

Bernadete nasceu em Lage, Santo Antônio de Jesus, interior da Bahia.

Pai tinha roça lá, antes de morrer de bruxaria. Ele matou sem

querer uma galinha da nega da costa, uma feiticeira que tinha

lá. Aí ficou doente, foi minguando, até morrer. Foi o olho dela.

Depois, vim mais mãe pra Salvador, eu tinha 11 anos [...]. O

outro marido de mãe era garimpeiro, fazia rodagem na mão,

morreu arrebentado de pegar peso. Ficou vomitando sangue.

Mãe diz que foi bruxaria, foi inveja que tinham da força dele.

[...].

Eu vim trabalhar de babá com 13 anos. Não ganhava nada na

casa da moça. A moça nem me botou na escola, era só pra

brincar com o filho dela. Aí fiquei prenha e tive filho com 15

anos. [...] Mãe vivia de lavar roupa de ganho. Fui trabalhar de

empregada doméstica, aí eu deixava minha filha com mãe. A

comida era pouca, era uma farinha, um chuchu, um arroz, um

feijão.

[...]

Depois que me casei, vim morar aqui. Peguei outra barriga. O

pai da minha mais nova morreu de tanto trabalhar. Tinha

dobrado, estava com sono e não viu o carro que atropelou ele,

perto da fábrica, na hora que ele ia pegar o ônibus pra vim pra

casa. Fiquei com a menina na barriga, ele não chegou nem a

ver a filha. Ele era bom e tinha gente com inveja da casa da

gente.

[...]

Já me conformei, vi minhas filhas crescerem, lavei muita roupa

mais mãe. Agora, não acho tanta roupa pra lavar, as mulheres

de dinheiro estão tudo com máquina, e faxina está difícil de

achar. Só tenho duas, de R$15,00 cada, que é pouco, mas dá

pra sustentar mãe e minha neta, a filha de minha filha

amalucada. Mãe está velha. Eu tenho que passar por isso, eu

sei. O que me ajuda é o candomblé. Fui pro candomblé porque

eu vi um aviso: eu sonhei com um caboclo menino, falando

comigo pra eu ir pra um terreiro [...]. Ajudo todo mundo que

chega na minha porta pedindo uma ajuda, levo pro terreiro, dou

aviso e não cobro nada.

[...]

Eu não tenho vergonha de falar que cato do lixo duas, três

vezes na semana, é de minha obrigação (Bernadete).

Com 63 anos, ela vive com o marido, a mãe, uma filha, a neta e

o genro, numa casa de um cômodo. A parte interna da

habitação é repartida em dois ambientes com uma larga cortina

que atravessa todo o vão, a adaptação para dois quartos abriga

toda a família de seis pessoas. Bernadete faz parte do

candomblé em um terreiro de São Caetano, mas tem “uma

missão de viver no bairro, para ajudar o povo daqui”. É

respeitada como uma vidente “que vê as coisas só nos olhos”.

“Não cobro consulta, porque é de mim não cobrar, que eu tenho

de ajudar qualquer pessoa”. Seus vizinhos a vêem como “uma

mulher de coragem, que nem polícia nem bandido chegam

perto [...] é protegida pelo caboclo”.

Sua influência sobre algumas pessoas do bairro não se deve ao

dom da vidência, mas sim à manifestação de autoridade, por

ser reconhecida como “uma pessoa do bem”, e capaz de gerar

exemplaridade, produzindo a autenticidade que os outros

desejam para si mesmos.

Sobre as práticas para o enfrentamento da fome, tem algumas

concepções:

A pessoa tem de se acostumar na vida e ter coragem. Tem que

ter força aqui dentro (aponta para o peito), e se não tem nada

pra comer, pode ir mariscar, pedir trabalho nas portas, andar,

andar, até achar uma coisa pra fazer, pra ganhar um dinheirinho

pra comprar a farinha, pra fazer um pirão, que é a comida mais

barata que a gente faz. E dá força pra pessoa.

[...]

Pode até catar do lixo, como tem muitas aqui que faz, que os

maridos obriga; ôxe, os maridos maltratam, diz pra elas irem

buscar do lixo pra comerem.

[...]

Lutei muito com ela (a fome). Essa coisa. Ela tem força, derruba

a pessoa. Eu lutando pra não esmorecer, pra não ficar fraca,

não botar tristeza na cabeça. Pra levantar a cabeça. Se ela vê

que você está pra baixo, aí é que ela atenta, vem pra cima e

toma conta (Bernadete).

Refere-se à fome como uma entidade, um espírito, que pode tomar o corpo de quem não tem vontade ou força espiritual. Em sua memória da infância, há uma feiticeira que exerce poderes para amaldiçoar toda a família e, por essa razão, sua mãe e sua filha mais velha não podem ter marido porque “a natureza delas não combina com casamento”. Incorpora à imaginação o domínio de um destino traçado. Uma elucidação atribuída com a ajuda do candomblé, que lhe tornou acessível o entendimento da maldição da feitiçaria. E ao praticar as “obrigações”, consegue arrefecer o poder do mal sobre a família.

Na sua percepção, a fome pode ser evocada pela palavra: “nunca chamei o nome dela, aprendi a escutar ela, e nunca disse nada pra ela”.

Nessa mesma unidade doméstica, observo a relação de Bernadete com a sua neta de oito meses, visivelmente desnutrida.

Ela tem que se acostumar com pouca coisa (alimentos), porque

aqui é assim. As outras mulheres fazem como eu. Não dá pra

aumentar o leite da menina, mesmo que a gente tenha um

dinheirinho. Ela vai ter que se acostumar a viver aqui e ser que

nem nós. Ela tem de comer pouco, que nem todo mundo. Não

dá pra aumentar o leite. Estou dando farinha de mandioca

cessadinha e um pouquinho de açúcar. Ela gosta é assim. O

leite é pouco.

[...]

O leite pra gastar duas latas por semana, quase ninguém aqui

pode dar. A gente dá cremogema até uns quatro meses, depois

é só farinha. Essa diarréia dela acaba com remédio, chazinho.

Ela está magrinha assim, porque está nascendo mais dente,

depois vai melhorar, todo mundo aqui diz isso, gente que já

criou mais de dez. É assim mesmo, depois a menina se

acostuma com tudo (Bernadete).

O diário do faminto não conhece um projeto diferente do seu habitual. A expressão “acostumar” faz uma ligação do aqui-agora, condicionado pela experiência. A adaptação da criança às condições sociais representa o cuidado de moldar a natureza do ser ao cotidiano conhecido. A alimentação escassa pelas condições econômicas é interpretada numa perspectiva do destino de privação permanente, que reflete uma atitude comum às pessoas. O motivo de sua ação (a de proporcionar a adaptação da criança a essa existência carente) é válido para a mulher na sua comunidade, legitimando a sua condição de protetora, que dá sustentação à significação de sua condição social, movida para que a criança seja uma igual no mesmo meio.

A intencionalidade serve-se da linguagem para tecer uma relação viva consigo mesmo ou com seus semelhantes e validar a compreensão, cujo sentido de necessidade transpõe e se sustenta numa pré-narrativa sobre o mundo, com traços simbólicos a mediatizar a ação. A interpretação de um corpo adaptado ao mundo é o procedimento lógico, em que o sujeito se torna ator e sente-se socialmente participativo. A natureza dessa ação, no âmbito do mundo exterior, é parte de processos próprios de uma interação entre as muitas experiências de sofrer a falta de acesso a uma comida mais adequada.

Sobre isso, lembro Alfred Schutz quando diz:

... además que la significación de este mundo natural (que ya

fue experimentado, dominado y nombrado por nuestros

predecesores) es fundamentalmente la misma para mis

semejantes que para mí, puesto que es colocado en un marco

común de interpretación. En este sentido, el ámbito de las

cosas que pertenecen al mundo exterior es también social para

mí (in SCHUTZ e LUCKMANN, 1973. p.26).

O acostumar-se constitui o presente a implicar na vida da criança no bairro. Um ato naturalizado por uma imagem da privação onde a desnutrição é uma condição esperada, ainda que fora dos limites da reflexão, e normalizada nesse meio social.

O mundo cotidiano tem como estrutura fundamental da realidade elementos que podem ser compartilhados, vivenciados com outros, numa condição em que a fome da criança ocupa o lugar da necessidade da adaptação às condições do mundo do bairro. O corpo se inscreve na semelhança dos outros, que circulam e se adaptam no mesmo lugar. Uma ordenação social construída na tela do imaginário em que prevalecem regras para o corpo da criança, como produtos de um hábito de vida. O corpo é posicionado no meio social para ser igual aos demais, influenciado por um estado d’alma de quem vive nesse ambiente sócioeconômico e cultural.

Tiêta é oriunda de uma região do semi-árido baiano, que em seca já não produzia roça. Veio ao bairro visitar sua irmã, em 1978, e ficou.

Depois, trouxe os quatro filhos e abandonou o marido à sua própria sorte, porque não “agüentava mais a cachaça dele” e o seu “espírito já não combinava mais com o dele”. Mais tarde, adotou a filha recémnascida de uma outra irmã, que morreu de parto. Construiu, aos poucos, a casa onde mora, trabalhando como faxineira e lavadeira. O prédio de dois andares na Rua de Cima, com janela e porta permanentemente abertas, dá acesso à sala onde funciona o barzinho mais freqüentado da área. A casa de seis cômodos (quatro na parte térrea) é estreita para acomodar a quantidade de pessoas que, vez por outra, ali se hospedam, a dormirem em esteiras pelo chão “que nem na roça”, como ironiza, a chefe da família. Seus filhos, todos adultos, não estudaram, ainda não se casaram, não entraram no tráfico de drogas e, no momento, estão desempregados. Os homens procuram emprego como pedreiros e as moças aguardam trabalho como cozinheiras.

Do lado de fora, em caixotes, os jogos de dominó e cartas, com apostas pequenas de no máximo R$ 5,00, representam a maior distração da rua. O que mais chama a atenção, ao entrar na casa, é o retrato de PC Farias, de uma capa da Revista Veja, colado na parede. E, no andar superior, o quadro de Jesus, ou Coração de Jesus. Profano e sagrado separam a casa em ambientes do público e do privado. É no térreo da casa o lugar da prosa de todas as tardes, a reunir pessoas oriundas das regiões da seca e seus muitos amigos. São mais de 100, as famílias que vieram do semi-árido baiano, desde a década de 70. No pequeno comércio de Tiêta, as contas são freqüentemente penduradas, pelas vendas fiadas dos amigos devedores, que dizem: “Ela tem uma alma santa” é a “mulher que mais a gente adora aqui”, porque “está sempre ajudando todo mundo”. Com 53 anos, analfabeta, ela hospeda em sua casa qualquer pessoa do interior que precisa “fazer exame de saúde”. “Só cobro assim, uma farinha, uma rapadura, coisas de comer”. “E se o amigo não tiver nadinha, for assim bem fraquinho, aí eu deixo pra lá, não cobro nada, porque eu sei que Deus vai me ajudar por causa disso. Aí as coisas vêm em dobro”.

Como agregados, no momento, estão, Elias, Manuel, Nô (criança de 9 anos com desnutrição) e Cida, natural de Santa Luz, com seus cinco filhos pequenos. Esta, que também foi expulsa da seca de sua região há alguns meses e encontrou apoio na casa de sua irmã. Mas, “não deu certo de ficar lá, por causa de briga por qualquer coisinha, aí vim ficar mais Tiêta, que eu já conhecia quando vim aqui de outra vez, tratar da saúde [...] um mioma”. Sem trabalho, ela anda pelas ruas da cidade com seus filhos a pedir esmolas em semáforos, e nas portas das casas comerciais da Baixa dos Sapateiros. Dos filhos de Cida, o menor, com um ano e meio e outro de três, estão visivelmente desnutridos. Ambos ainda amamentam e tomam como complemento o mingau de farinha de milho ou mandioca.

A comida da casa, em geral, é um pirão de cabeça de peixe ou ossos de galinha, maxixe cortadinho e quiabo. O sebo e o osso de boi são freqüentes na confecção do pirão. Sentados no chão ou nos batentes da porta de casa, comem “para encher a barriga”. Cada um que sente as sensações de fome come no momento que quiser, da panela sobre o fogão, “até acabar”.

Na casa que tem muita gente é assim, não tem prato pra todo

mundo, e cada um se serve. É tudo bem à vontade. Uns têm

que deixar pros outros também, não pode chegar e comer tudo

de vez, senão não sobra pro outro [...]. De noite é bolacha e

nescafé. Quando tem pão e margarina, é a maior festa (Tiêta).

O pequeno comércio de cachaça e batidas diversas na porta de casa é o lugar onde Tiêta “...se vira, pra comer, pagar luz e água. Essa bodeguinha aqui não dá quase nada, só vendo pinga e guaraná. É mais pra a gente se vê, ficar prosando”. Obesa e hipertensa, diz que nunca sentiu vergonha de ser a “maior catadora e a maior pidona do mercado das Sete Portas”. Também, não é raro sair com um grupo de mulheres para mariscar nas praias de Periperi, a mais ou menos oito quilômetros do bairro, ou catar alimentos do lixo. Fora o que consegue no lixo para comer e vender (garrafas), gasta, em média, R$ 40,00 a 60,00 por mês de alimentos, onde privilegia produtos como óleo, carcaça de frango, feijão e farinha, sendo sua maior dificuldade a compra de gás, luz, transporte e água. Para tanto, consegue algum dinheiro na lavagem dos açougues dos mercados próximos e também compra, em consórcio, o gás num pequeno estabelecimento de um amigo do bairro. Um bujão de gás é utilizado por duas ou três famílias, e cabe-lhe R$ 4,00 ao mês. “Quando esse bujão sai daqui pra outra casa, eu faço negócio com outra amiga, é assim”.

Espírita e adepta do candomblé – um terreiro de caboclo em Camaçari – ela concebe a condição de faminta, como um ‘carma’ ou um desígnio de Deus. Uma experiência divina para purificar-se de coisas de vidas passadas. Não fala o termo fome, e o substitui por metáforas, entidades do mal, que tem muitas formas, humanas ou de feras com garras, rabo, chifres, asas.

Para ela, a fraqueza do espírito e a inveja são os aspectos humanos que mais provocam a ameaça da fome no corpo, cuja sensação se inicia na cabeça ou nos peitos, por causa dos “pensamentos que dão tontura quando a barriga está vazia”.

Sílvia é ex-moradora do bairro do Maciel, parte antiga da cidade de Salvador. Passou a infância com seus dez irmãos “pelas ruas do Pelô”, e foi lá que aprendeu “de tudo desde nova”. Chegou ao bairro com seu marido, quando tinha 16 anos, em 1978.

Eu sou é daqui, Bahia, Salvador. Mãe é que veio do interior.

Vim pra cá (para o bairro) foi nova, quando aqui era só mato

[...]. Vim porque mãe precisou se esconder do homem dela. Aí

arranjei uma casa pra mim também. [...] Aqui, nesse meio, tem

muito marginal, ladrão e assassino mesmo. Mas tem gente

trabalhadora, que quer viver em paz com os filhos. Mas pra

polícia somos tudo bandido, só porque a gente mora aqui.

Ela conheceu o companheiro que iria viver uma relação de 19 anos, quando estava grávida de um padre, o qual lhe ensinara a ler e a escrever. Diz que seu maior lazer é ler um pequeno romance ou livros espíritas que toma de empréstimos de suas amigas. Seu marido, muito mais velho que ela, era cego e mendigava no centro da cidade. Também era alcoólatra, usuário de maconha e morreu com problemas cardíacos, deixando-a com sete filhos menores e muitas dívidas junto ao tráfico de drogas. Dos quatro irmãos de Sílvia, que residem no bairro, dois são pequenos traficantes de crack e maconha, um outro é viciado em “droga de seringa”, e o mais novo estuda e trabalha.

Do meu salário, gasto de água é R$ 15,00, é R$ 16,00. A luz é

de gato14 , e o resto é pra comer. Aqui tem oito bocas, comigo.

Fora os que aparecem que eu ainda tiro um pouquinho pra dar.

Mas eu procuro não deixar faltar comida em casa. Se eu

pudesse, eu cozinhava todo dia, um feijão, um arroz, o básico.

Mas eu faço mesmo é pirão. [...] Gosto de verdura, e não é

cara. Chuchu, cenoura, abóbora, eu consigo nos restos na feira.

[...] Eles me conhecem e me dão, aí em baixo. De noite, eu

como o famoso nescafé com pão. Eu gasto 30 pães por dia. Pra

de manhã e de noite. Também faço, as vezes, um cuscuz, uma

canjica. [...] Ninguém aqui tem merenda. A pequenininha, que

não come quase nada, vive só de mingau. Não compro leite

direito, porque não tenho dinheiro. Ela gosta de tudo, mas cadê

poder dar. Mas está aí, criando.

Viúva, ela sustenta seus filhos com um salário mínimo de seu emprego como faxineira numa escola pública. Sua casa, de cinco cômodos, construída pelo marido, é a mais confortável da Vila. Hoje, a principal dificuldade de Sílvia é a provisão de alimentos e a luta para recuperar seu filho de 16 anos do vício em crack. Preso por várias vezes e atendido sem sucesso no Centro de Tratamento Anti-Drogas, ela o considera perdido e espera sua morte a qualquer momento. Ele pratica furtos dentro de casa, comida, roupas dos irmãos, eletrodomésticos etc. pra trocar por crack.

Quem dá o preço é o traficante, o dono da droga. Tem gente

aqui que já vendeu uma televisão por 50 reais; é o vício. A

gente vive aqui querendo que ele morra logo de overdose.

Ninguém agüenta mais ele em casa. Ele fica agressivo,

querendo matar a gente. É horrível.

Para ela, a condição faminta é o resultado das políticas do governo que propiciam a perversa realidade da população. Uma conseqüência direta da desigualdade social, na qual “o povo vive de restos”.

Ele (FHC) disse que a gente está comendo frango, que antes

não comia. Claro, tem mais é que comer galinha. Eles pegam

um pinto, a bicha cresce de uma hora pra outra, e pra não

jogar fora, vende barato pra o pobre comer, a bicha cheia de

remédio. A lógica é essa.

[...]

Com esse governo, quantos daqui estão desempregados?

Quem tinha emprego, ficou desempregado. Sabe o que vão

fazer? Vender maconha pra sobreviver. Falo o que assisto na Regina é natural de Salvador, do bairro Alto das Pombas, tem 60 anos, assina o nome e lê com dificuldade. Aprendeu a ler recentemente, na ‘Igreja Milagreira’, para “conhecer a palavra do Senhor”. Chegou ao bairro há mais de vinte anos, e, logo em seguida, seu marido a abandonou, deixando-a com os filhos ainda pequenos. A mulher, ainda jovem, não quis casar-se outra vez, porque temia sofrer maus-tratos. A casa foi reconstruída no mesmo terreno – depois que a antiga de tábuas desabou com as chuvas em 1989. Possui dois cômodos, para abrigar sua família de nove pessoas: seus cinco filhos, dois netos, o genro. Envolvidos no tráfico de drogas, teve um dos filhos morto, fuzilado em sua porta, há dois anos, numa prestação de contas com a organização a que ele pertencia.

pele, no dia-a-dia. Apesar do pouco estudo, eu posso ver as

coisas e sentir. Falo aqui de dentro de minha área. Saio,

converso com as pessoas, então eu sei dos problemas. Vejo

como as pessoas vivem. Um bocado de criança, meu Deus do

céu, sem escola. Ficam tudo por aí na maconha, no crack. O

governo dá escola, mas a escola não presta, não tem professor.

O professor não vai pra sala de aula. [...] Meu filho vai hoje, não

tem aula, vai amanhã, não tem aula, vai depois, tem.

[...]

Não falo só daqui do bairro, estou falando do país. Existe uma

lei que os alunos tem que passar de ano de qualquer jeito.

Aluno do primário está muito atrasado, tem que passar. Ele

(FHC) não quer saber se o aluno sabe. Quer ver o país em

alta, tudo bem. Pra mostrar que está tudo bem. Não precisa

estudar. É isso que o homem quer.

Silvia vê o bairro como a exemplificação da pobreza na sociedade brasileira, a fome como coletiva e o meio, diante do descaso das políticas públicas, como o lugar propício para o narcotráfico governar. Na sua reflexão, relaciona fome e contexto social de modo crítico:

Esse governo só melhorou pra quem tinha mais. Aqui a gente

está pior, falta trabalho, tem muito desemprego. E quem está

com fome muito tempo, desde que nasceu, tem que entrar na

droga mesmo.

Reconhece que seu futuro está entre continuar desse modo, ou envolver-se no narcotráfico e oferecer outras condições materiais aos seus filhos. Em sua fala, posiciona-se contra o tráfico, e há uma nítida necessidade de convencer-se a continuar seu caminho como faminta. Mas a organização instalada em sua rua, insiste em convidá-la para participar como vendedora do crack, na escola em que trabalha. Uma conduta que serviria para perdoar as dívidas contraídas pelo marido e o filho.

Passou necessidade com seus filhos, trabalhando como lavadeira, conforme revela ao lado de uma das filhas a testemunhar. Desde o ano passado, com fortes dores nos músculos dos braços, não pôde continuar seu trabalho e entrou para a confecção de cigarros de maconha, o que lhe proporciona uma melhor condição financeira. Faz os cigarros de R$ 5,00 (os mais finos), cuja ação, segundo ela, é motivada pela fome. A partir daí, passou a ganhar R$ 300,00 a R$ 400,00 por mês. Entrou no negócio porque estava cansada de viver “sentindo falta de tudo”.

A filha de 25 anos, mulher de traficante, confirma e diz que a mãe finalmente entendeu “como é que o pobre pode mudar de vida”. Regina chora ao lembrar que já não comia carne há vários anos e que seus filhos cresceram sem conhecer o leite de gado.

Eles sabiam que tinha muita coisa pra comer pela rua, mas eles

não comiam, nunca provaram nem leite, nem queijo, essas

coisas de barão. Agora, está todo mundo comendo mais, umas

coisas que nunca comeram. [...] Relutei pra não fazer esse

negócio (cigarros de maconha), aí pensei que não dava pra ver

a oportunidade chegar na casa e se desfazer dela. Eu fui

escolhida, entendeu ? [...] Cada um é que sabe de sua

necessidade. Eu não era toda certinha ? Então, meu filho não

morreu? (Regina)

Na sua compreensão, a violência não a faz deixar o bairro, mesmo tendo perdido seu filho de modo brutal, assassinado pelo tráfico. Antes, ela entra no narcotráfico e segue o caminho de todos da casa. O caráter da reação anterior, quando se opunha às drogas, é substituído pelo conformismo da realidade circundante. Então, não resiste, não se distancia, entende que não pode se excluir, comunga sua conduta às palavras do Senhor e, junto aos seus familiares, envolve-se nesse tipo de atividade. No cenário da pequena sala, cabem os papéis para a maconha, a bíblia, a televisão, um bordado e seus medos. Da janela que dá acesso à entrada da travessa onde vive, espreita quem chega, em especial a polícia e os estranhos. Decide que não vai mais sofrer privações e planeja, com os rendimentos favorecidos pela confecção dos cigarros de maconha, melhorar a casa, ter um bom banheiro, água quente, ajudar sua irmã que vive em outro bairro etc.

A gente vive nessa casinha, mas a gente não passa mais

necessidade. Olhe os meninos aí, não tem nem um com

problema, tudo toma leite de lata, tem banana, um mingau. Está

tudo bem. Aquele sufoco já passou.

Quanto à renda mensal da unidade familiar:

Depende. O trabalho nessas toalhas bordadas, uns R$ 40,00.

Mas demora pra ganhar isso, mais de um mês, dois. Isso é

bico. Agora nessas coisas daqui (maconha), isso me dá uma

renda maior. Aí dá pra fazer uma feira boa. Mas não dá pra

gastar muito.

Os gastos, por mês, em alimentação, equivalem a aproximadamente R$ 350,00 para toda a família, com a participação de todos. Na sua linguagem alimentar, entram outros termos distintos de outras unidades, como: pizza, sanduíche, iogurte, sorvete e pudim. Não teme mais a violência, porque o Senhor a protege e, ao pressentir a chegada da polícia, guarda o material de seu negócio e passa a bordar ou a ler o livro sagrado. Para a vizinha que consegue “escutar tudo que acontece na casa dela”,

... a Igreja que ela vai é lugar de viciado. Todo mundo aqui sabe

que ele (o pastor) chama um viciado pra ir pra a Igreja, pra ele

levar um baseado pra fumar. Isso é o que eu ouvi falar. Palavra

de Deus, nada. O jornal deles aqui é pra enrolar maconha.

Enrolam os pacotes maiores de R$ 20,00. É assim que a banda

toca.

Uma outra mulher, que também freqüentava a mesma Igreja, abandonou a religião porque “lá o pastor só prega drogado”.

 

Fome e droga

Outra janela analítica é a relação concorrencial entre droga e fome, observada em quatro das unidades familiares analisadas. Droga e fome são fenômenos que se relacionam num processo de dominação do bairro sobre o corpo, cujos resultados são assustadoramente destrutivos.

A dinâmica entre esses fenômenos, no mesmo espaço social, permite uma associação de idéias diversas e aparentemente opostas, na mais ligeira e estreita fronteira entre o comércio e o vício, entre violência e morte. O envolvimento com o comércio da droga acaba com os sintomas de uma fome imediata, mas, no entanto, dentro de um processo mesmo da intersubjetividade, nas relações da realidade circundante, alimenta a dependência não somente no plano econômico, mas também na dimensão bio-psíquica, que pode matar ou morrer de fome.

A polêmica em tela trata do modo irregular dessas associações de idéias sobre o tema, a caracterizar um comportamento estético fundado na busca irracional de uma nova expressão do corpo. Esta, que perpassa valores morais e culturais, deslocando-se para o que concebo como um sentimento de vazio da alma materna. O corpo, na dependência de drogas, enrijece o instinto protetor. E, um outro corpo materno em desespero, acolhe a venda de drogas para alimentar seus filhos, ainda que contribua para a produção da fome de outros.

Relato apenas dois dos muitos exemplos, para mostrar a dinâmica de uma nova forma de fome, observada no mesmo espaço social.

Numa certa unidade familiar, havia um agregado desde alguns meses: uma criança com desnutrição grave, cuja mãe, moradora do bairro, tendo sido abandonada pelo marido, entra em “desgraça”, segundo a interpretação de sua amiga. Viciada em crack, Socorro, de 34 anos, rejeita os quatro filhos e a casa, entregando-se às ruas. Suja e com fome, é, vez ou outra, vista em meio ao lixo da entrada do bairro. Durante os seis meses em que seu filho de nove anos esteve na casa da comadre, para recuperar-se da desnutrição, ela não apareceu para visitá-lo. Depois, sabendo da cesta básica que o filho recebia de doações do Centro de Saúde e de alguns membros de uma organização espírita, ela retirou seu menino da casa que o recuperava e o levou às ruas a mendigar. Mais ainda: troca os alimentos por crack.

Pega a cesta básica pra trocar por crack. Desnaturada (Tiêta).

Eu sei quem é aquela porca, viciada (Lourdes).

É o filho menor e a doença dele tem o tempo da doença da mãe

(Lêda).

Ela quer o menino pra pedir esmola pra ela, na rua, pra ela

comprar crack, aquela vagabunda. Eu quero ver quem é que

tira o menino dela, da mãe. Só o juizado pode fazer isso, mas

que juiz ? Aqui é terra de ninguém, ninguém liga pros pobres.

Vai ficar lá jogado sem cuidado, coitado (Tiêta).

As várias falas confirmaram com indignação o destino da criança, ao justificarem que ele nasceu para padecer de fome e que ninguém poderia ajudá-lo, porque estava “tomado por um espírito do mal”. Criança e mãe sofrem em seus destinos e “nem a prece ajuda mais”. O desígnio traçado pela mãe para o filho é como um castigo ao corpo e ao espírito da criança. Sobre esse caso trato com maior aprofundamento no capítulo seguinte, reservando, para o momento, a discussão entre a relação fome versus droga.

Na procura da cesta básica no Centro de Saúde, “ela vai lá, chora na frente da assistente social, convence todo mundo. E o povo, quando vê o menino, acredita nela”. A busca da droga coaduna-se com essa falsa verdade. A recuperação da desnutrição grave de seu filho não existe mais no plano real. É utilizada como intencionalidade no palco do serviço de saúde, para conseguir alimentos: leite e óleo. O corpo da criança, com uma tênue pele a revestir os ossos, é como uma coisa, um meio de obter alimentos ou dinheiro das calçadas do centro comercial. Sem espreitar qualquer esperança, sem capacidade de inspirar afetividade ou ao menos contemplar o mundo e desvelar qualquer verdade, a mãe age como a ladra de seu filho. Já não há mais sensibilidade a ser moldada nessa relação mãe-filho. A criança faminta retorna a uma fome, de modo ainda mais cruel. Um trágico retorno sem fronteiras e sem limites humanos, que elimina valores, princípios éticos, morais e biológicos. Alimento e dinheiro são revestidos em crack, numa saga que não se esgota nem com a morte dessa criança, pois há outra e outra a fenecer.

A recorrência ao motivo da droga surge como metáfora. A droga, que provoca a fome e a fome que serve à droga. Não se trata de mais um corpo drogado que não come, porque não sente vontade ou necessidade. Mas, de um frágil e esquálido corpo a ser usado pela mãe drogada, até a morte. A condição humana desagrega-se. Nasce um novo valor cultural motivado pelo desprezo do valor biológico, vez que a criadora deixa de proteger sua cria para se manter na droga. É repugnante. A criança morta “não é um morto: é

a morte” (Borges) 15 prenunciada a tantas outras crianças do bairro.

O outro caso se refere a uma mulher que é convidada pelo narcotráfico para vender crack. Trata-se de Silvia, a viúva que mencionei antes. Sua situação de assalariada não lhe permite prover alimentos suficientes para seus filhos e, um deles viciado em crack, está ameaçado de morte, porque faz permanentes dívidas junto ao tráfico. Sem qualquer apoio econômico, ela avalia sua vida, teme pelas ameaças ao filho e, finalmente, decide “sair do sufoco”, entrando na organização de modo dissimulado, pois os seus filhos não podem saber.

Qualquer um pode entrar, é só querer. Não pode é sair.[...] Uma

mulher me deu, outro dia, meio quilo de crack pra eu vender, e

disse que com meio quilo eu ia ganhar seis mil reais. Era pra eu

fazer umas pedrinhas pra vender. Uma porcariazinha desse

tamanho que custa R$ 10,00.

Dois meses depois, confidenciou-me sua entrada no tráfico de drogas:

Não agüento mais ver meus filhos andar tanto pra ir pra escola,

chegarem em casa roxo de fome. Se não der certo, eu fujo pro

interior com eles. [...] Sou principiante, estou só começando,

com pouco. Não quero ficar rica com isso. É só pra aliviar a vida

de meus filhos. [...]

Os meninos, pra comprar crack e maconha, roubam, pegam as

coisas de casa. Eles (os traficantes) aceitam tudo, qualquer

coisa. Aqui, os meninos estão até matando. Tem menino de 12

que mata por causa da droga. Dá medo.

Mesmo conhecendo o risco, envolve-se. Com o primeiro pagamento de venda de drogas, ela recebeu R$ 800,00, comprou um freezer no crediário e encheu-o de alimentos: iogurte, queijos, carne de boi e frango. Depois, passou a ganhar R$ 1.200,00 e ainda mais. Dos seus sete filhos, quatro apresentam traços de desnutrição e, a partir dessa estratégia, ela passa a recuperá-los com Sustagem, vitaminas, leite, frutas e sucos. O mais velho pergunta se ela tirou na loteria, e ela o faz crer que seu novo namorado veio pra mudar a vida de todos da casa.

Também é conflitiva a condição de lutar para recuperar seu filho da dependência de crack e vender escondido a droga aos outros adolescentes. Levou meses pensando se aderia ou não à proposta e escolheu o que considerou melhor para sua família. Fala do perigo iminente de seu envolvimento, teme a violência policial: “Meu filho é vítima, mas se eles (polícia) querem que eu dê dinheiro pra soltar meu filho, eles estão enganados, porque não vou sair por aí assaltando pra dá dinheiro a eles, filho da puta” (Sílvia).

Para ela, todo um itinerário à procura do filho viciado – que desaparece vez ou outra – entre Casa de Correção, Juizado de Menor e delegacias, não é pior que a situação escolhida. Pode vender a droga e assegurar melhores momentos para seu filho. Sente-se “cansada de labutar sozinha, com esses meninos nesse lugar”. E, de uma vez, já não se preocupa com a provisão de comida e provoca em mim uma reflexão: “Não tenho escolha, entende? Fique no meu lugar, fique”.

Quero meu filho aqui perto de mim. Aí eu dou carinho a ele. Ele

está se acabando desse jeito. Já emagreceu muito depois

dessa droga. Só come porque eu boto pra ele, porque quando

está na droga não tem vontade de nada, de sexo, de comida,

de nada. Ele fica azuado, briga na rua, querendo mais. Ele

parece um tuberculoso, a cor dele está cinza. Quando ele não

fuma o crack, ele passa o dia inteiro querendo comer. Eu quero

ter pra botar comida pra ele (Sílvia).

Sobre esses dois casos onde concorrem a fome e a droga, pude concluir que, no primeiro, o fenômeno da fome retorna radicalmente, destruindo os valores morais, quando a mãe abre mão do alimento da criança pela droga. No segundo, a droga que vicia e mata é a mesma que elimina a fome, que também mata.

Essas escolhas não são atos isolados de uma realidade. Representam um flagrante de uma nova redistribuição dos conceitos de fome e o registro de um momento condicionado por questões macropolíticas econômicas e sociais, a motivar a reversão de um modo de pensar o mundo das representações desse fenômeno. No palco principal, surge uma metamorfose que antes não conhecia. Nos palcos secundários, algumas imagens continuam esperadas.

Das escolhas das mães, uma elege a droga para suprimir a fome de sua família, ainda que para isso alimente também o vício de um dos filhos. E uma outra destrói seu próprio filho. Em ambos os casos, a base ética da pessoa se esvai.

Surge uma nova fome, mais difícil ainda de ser combatida. Uma fome que não será reduzida ou solucionada com programas de saúde, saneamento e alimentação. Há, em tela, um novo e monstruoso sofrimento para os profissionais de saúde pública pensarem. Droga e fome se correspondem e competem entre si. Quanto mais drogado, mais faminto é o corpo, quanto mais faminto, mais o corpo procura, na droga, um meio de sobreviver. Uma ciranda inevitável, num ciclo permanente e mortal, uma complexa relação, a produzir vários significantes nos fragmentos de narrativas de mães e de jovens com dependência de crack:

Na hora que a gente está sentindo o barato, não dá vontade de

nada. A cabeça fica vazia (adolescente, de 15 anos).

Sou normal, tia. Só quero andar com Ronaldinho16 de vez em

quando, mas sou normal. Todo mundo aqui é normal (jovem de

17 anos).

Ele chegava em casa igual uma fera, aí quebrava tudo, rasgava

a roupa no dente, dava pontapé na porta. A gente tinha medo

dele (mãe de menino de 13 anos morto por traficantes).

 

Notas

1 O Centro de Saúde vizinho ao bairro registrou cinco casos de AIDS em 1997, nessa área.

2 Em 1983, a desnutrição aguda era de 53%, com 9% de forma mais severa (Relatório de Estágio, UFBA, 1983). Na avaliação de 1997, em 172 crianças menores de cinco anos, 24% apresentaram nanismo nutricional e 30% algum grau de desnutrição aguda. Dessas, 7% eram mais graves, pelo indicador peso/altura, que mede a desnutrição do momento. Este diagnóstico teve a participação da professora Lílian Ramos da UFBA.

3 Crack, ou a resina da cocaina, é vendido sob o formato de uma pedra pequena, semelhante ao sebo de vela, do tamanho de uma falange do dedo indicador, ou ainda menor. O preço varia com o tamanho e é regulado pelo tráfico.

4 “Ninguém tem sossego na madrugada da favela”. RAP de Adriano, Fabiano, Jonilson, Cícero e Gustavo: Péla, Salvador, março de 1998.

5 Para Mariza Corrêa, as organizações familiares no Brasil apresentam, ademais da ordem patriarcal nas relações conjugais, também a coexistência de variadas formas alternativas de organização que se alastram após o período industrial. A autora chama atenção para a complexidade do tema, e discute as interligações entre modelos antigos e modernos dentro das organizações familiares (CORRÊA, M. Repensando a família patriarcal no Brasil. In.: Colcha de retalhos estudos sobre a família no Brasil. 3a. Edição. São Paulo: Ed. UNICAMP, pp. 43-60).

6 Cisma quer dizer “desconfiança, suspeita ou receio supersticioso” (FERREIRA, 1974 p. 331), e calundu, do Kilundu, refere-se ao “ente sobrenatural que dirige os destinos humanos” e, “entrando no corpo de uma pessoa torna-a triste, nostálgica, mal humorada” (Idem, p.258) Também, significa, “amuo, melindre, aborrecimento” (Idem, p. 101).

7 Os traficantes mais jovens são conhecidos como “cachorros”, cujo termo para eles significa confiança, fidelidade, os que guardam o lugar ou o ponto. E “Menino” ou “Aviãozinho” são em geral os menores, que podem correr pelo bairro sem que sejam suspeitos.

8 Sobre este aspecto, vale conhecer a contribuição de Paulo PENA, sobre as várias esferas conceituais do trabalho. (PENA, P. et al. Relação trabalho e saúde: tópicos iniciais. FAMED/ UFBA, 2002).

9 Cf. Edmund Leach, não são considerados animais comestíveis aqueles próximos ao homem. Comê-los se configura como um sacrilégio no sistema social de vários países (LEACH, E. Antropologia. São Paulo: Ática. Trad. Alba Zaluar Guimarães, 1983. p. 190).

10 A desnutrição é uma disfunção provocada pela deficiência de nutrientes essenciais ao corpo, que compromete o crescimento e o desenvolvimento da criança e também o aparelho imunológico em qualquer idade (WATERLOW, J.C; ALLEYNE, G. Má nutrição protéica em crianças evolução dos conhecimentos nos últimos dez anos. São Paulo: Anais Nestlé, 1974. p.16).

11 Em geral, a desnutrição é diagnosticada pela antropometria. Os valores encontrados representam maior gravidade desta enfermidade quando situados abaixo do percentil 3 (estabelecendo-se o início da patologia quando os valores estão abaixo do percentil 10); também, para a fase mais grave, observam-se as medições concernentes ao que se denomina z-score ou desvio padrão -2, da tabela de referência mencionada, para os índices correlacionados entre peso, altura e idade da criança (OMS/NCHS. Medición del cambio del estado nutricional. Ginebra, 1983).

12 Cf. Francisco Grande, no campo cultural, há diferentes conceitos de obesidade e sobrepeso nos grupos sociais. Essas distinções devem servir como contribuições para o processo terapêutico quando compreendidos pelos especialistas (GRANDE, F. Bodyweight, composition and energy balance. In.: Nutrition reviews’, op. cit. pp.7-17).

13 Ao tomar esse e outros exemplos, lembramos a análise de Ângela Mendes de Almeida, sobre a origem da família patriarcal no Brasil. A autora se refere a essa família como “uma espécie de matriz que permeia todas as esferas do social: a da política, através do clientelismo e do populismo; a das relações de trabalho e de poder, [...] e as próprias relações interpessoais [...] que desrespeita a privacidade e a independência do indivíduo. [...] Além disso, a matriz da família patriarcal, com sua ética implícita dominante, espraiou-se por todas as formas concretas de organização familiar ...” (ALMEIDA, A. Notas sobre a família no Brasil. In.: Pensando a família no Brasil: da colônia à modernidade. ALMEIDA, A. [org.], Rio de Janeiro: Espaço e Tempo Ed. UFRJ, 1997: 53-66).

14 Neste caso, gato significa a luz elétrica que vem de outros, e por isso não é paga pelo usuário.

15 Remorso por qualquer morte. Jorge L. Borges.

16 Ronaldinho (craque do futebol) é o termo usado para dizer crack, droga.