Agridoce
PARTE SEIS: Cortar a Cabeça
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A pele ligeiramente morena corou ao de leve.
— Na verdade, sim, já me disse. Vai ser muito mais fácil com um bom salário.
— Não é a Dorcas que faz a sua própria roupa?
Dorcas olhou para Kitty sem expressão.
— Não.
— A Edda fazia, e de forma magnífica, por isso estava sempre maravilhosa. — Lembrando-se da última conversa que tivera com Tufts sobre a eventualidade de esta mulher estar a ser sugada por uma sanguessuga humana, e ansiosa por a ajudar, Kitty tirou um bloco de uma mesa de apoio e escreveu nele. — Esta é a minha costureira, Pauline O’Brien. Tem a mesma categoria que Edda, mas cobra muito pouco… a Depressão fez com que perdesse muitos clientes e fica sempre grata por ter clientela nova. Ela tem estilo e compra os materiais com toda a honestidade. Eu costumava comprar a minha roupa toda em Sydney, mas, desde que casei, Pauline é tudo de que preciso.
As intenções da esposa, pensou Dorcas, são genuínas; ela quer que eu seja bem-sucedida neste trabalho! Não tem uma pontinha de ciúme ou egoísmo… ou será porque se sente invalidada por qualquer exposição pública? Não lhe posso perguntar acerca dos abortos, mas ela tem cicatrizes e era enfermeira de crianças. Agora faz trabalho voluntário no orfanato. Posso usar isso em nosso proveito, mas ela não vai gostar. Uma pessoa reservada, Kitty Burdum.
— Adorava conhecer Lady Schiller — disse Dorcas.
Kitty riu-se.
— Isso é impossível! Ela está a estudar medicina em Melbourne, e mais feliz do que qualquer ser humano consegue ser. O facto de ser mulher negou-lhe o acesso à medicina, mas agora pode fazer o curso graças a Rawson.
— Gostas dele?
— Muito. Fez a minha irmã feliz. É tudo o que as filhas do reverendo podem querer, que as suas irmãs sejam felizes.
— Será que Grace se importava de falar comigo? E Heather?
— Grace falaria pelos cotovelos. Tufts é mais difícil de conquistar, mas ela falaria contigo por Charlie.
— Tufts? Isso é uma alcunha?
— Sim, que já existe há tanto tempo como nós.
— Como é que ela surgiu? — perguntou Dorcas.
— Por causa de uma ama que era fascinada pela nossa precocidade quando tínhamos um ano. Acho que parte da nossa precocidade se devia a Grace e Edda, apenas vinte meses mais velhas que nós. Nós idolatrávamo-las! Mas era tão difícil dizer Heather! As nossas línguas de bebé tropeçavam no nome constantemente. De qualquer forma, a ama teve a brilhante ideia de trazer um gatinho bebé ( kitten), Kitty para Katherine, e um raminho de urze (heather). Ao tentar explicar, disse que a urze (heather) crescia em tufos (tufts), e continuou a descrever o que era um tufo. Eu achava muito mais fácil dizer «tufts» do que «heather» e comecei a chamá-la Tufts. De um momento para o outro, toda a gente lhe chamava Tufts, até o papá.
— Que invulgar — disse Dorcas.
— Que extraordinário! — exclamou Kitty com um suspiro. — Já quase me tinha esquecido de como a Tufts se tornou Tufts.
— As alcunhas, geralmente, refletem algum traço de personalidade dos seus sujeitos — disse Dorcas, desviando a conversa para a política. — Bismark era o Chanceler de Ferro, o duque de Wellington era a Velha Águia, Luís XIV era o Rei Sol, a rainha Isabel era a Rainha Virgem, e os nobres romanos juntavam a sua alcunha ao nome de família como marca de distinção, ainda que ela significasse idiota ou torto.
Os enormes olhos violeta olhavam fixamente para ela, ligeiramente vidrados.
— És ideal para Charlie — disse Kitty. — Ele adoraria ouvir isso. — Kitty ficou com uma expressão impaciente, intensa. — Dorcas, tu fazias reportagens sobre moda para os jornais, por isso deves saber muito sobre o assunto. Promete-me que te vais arranjar para o Charlie, por favor!
— Um bom salário vai fazer toda a diferença — repetiu Dorcas.
— Tens muitos encargos?
— Os meus pais.
— Mais ninguém?
A voz tornou-se aguda.
— Como assim?
— Um irmão sem emprego? Um namorado?
As faces de Dorcas enrubesceram.
— Isso é problema meu.
— E não meu? Mas não compreendes, minha querida, que ao fazeres parte do pessoal privado de Charlie, os teus problemas passam a dizer-lhe respeito também? Eu conheço-o e posso dizer-te que ele é muito possessivo. O montante do teu salário e as regalias deviam fazer-te ver que foste comprada. Charlie é milionário. Homens assim costumam considerar os outros seres humanos como propriedade comprada e paga. Não estou a depreciar a excelência da sua natureza ou a nobreza do seu carácter… mesmo em 1932, com centenas de milhares de homens desempregados, ele conseguiu manter Corunda mais próspera que a maior parte das cidades, e entrega-se por inteiro, incluindo o enorme coração, a tudo o que faz. No entanto, há um pouco de Soames Forsyte nele… é um homem de propriedades — disse Kitty.
A isto, Dorcas Chandler não respondeu.
E isto, pensou Kitty, é o máximo que posso fazer por esta pobre mulher, que esconde, de facto, um segredo, um segredo que lhe custa dinheiro. Se não pode contá-lo a Charlie é porque ele traz consigo a semente da sua destruição, e ela sabe disso. As cláusulas do contrato mostraram-lhe que ele se está a proteger contra revelações embaraçosas, dívidas contraídas sem o seu consentimento ou conhecimento, um sem-número de implicações que, se não fossem esclarecidas contratualmente, poderiam levar a situações como chantagem. Mas ela assinou o contrato sem um murmúrio. Pobre mulher!
A própria vida de Kitty estagnara numa rotina que consistia na sua ida ao orfanato a maior parte dos dias, embora chegasse sempre a casa a tempo de passar as noites com Charles, que ainda não pedira para passar a noite na cama dela. Talvez, pensou ela à medida que Dorcas Chandler entrava na vida de Charles, ele também tivesse desistido do fantasma do seu casamento? Não que ela achasse que Charles estava interessado em Dorcas, comprada e paga; ele apenas se sentia mais confortável a conversar com ela. Tudo isto levou a que, ao longo do ano de 1932, Charles perguntasse a Kitty se ela se importava de receber Dorcas algumas noites para jantar.
— Uma excelente ideia! — disse Kitty, sem hesitar. — Quem sabe? Talvez aprenda qualquer coisa também. As crianças são um deleite, mas o nível de conversação é bastante básico.
A aparência de Dorcas estava a melhorar; os conjuntos pretos, tão coçados que já mais pareciam verdes, tinham desaparecido, e ou aumentara de peso ou a roupa de melhor qualidade mostrava melhor a sua figura. Já usava pó de arroz no rosto, batom e um toque de rouge, fora ao cabeleireiro cortar e ondular o cabelo à moda francesa. Nenhum estúdio cinematográfico em Hollywood lhe ofereceria um contrato, mas agora parecia bastante mais profissional e elegante.
O que espantava Kitty era o grau de paixão de Dorcas e Charlie pela política. Embora Charlie tivesse muitas funções que o levavam para o hospital ou para outros destinos em Corunda, ainda conseguia passar muitos dos seus dias com Dorcas, porém, assim que ela chegava para tomar uma bebida antes do jantar, ele voltava a falar de política e não queria discutir mais nada até Dorcas voltar para Burdum Row; por vezes, estava tão mergulhado numa teoria que caminhava com ela até sua casa só para poder continuar a falar.
Os tempos provocavam, manifestamente, a paixão política, com teorias rivais para a recuperação económica a estimular não só os partidos, mas também fações dentro de cada partido. Depois da vitória esmagadora de Joe Lyons e do Partido Unido australiano no Natal de 1931, seria de esperar que os conflitos chegassem ao fim, mas nem todos os parlamentares do Partido Unido concordavam com a insistência de Londres em manter a contenção de despesas. Lyons e o seu painel de governantes eram a favor, e por isso a miséria continuou. Quando Jack Lang se recusou pela segunda vez a pagar os juros do Estado sobre os empréstimos até a situação melhorar, Lyons e o governo federal pagaram. Mas desta vez Camberra insistiu em ser reembolsada. Jack Lang recusou pagar ou permitir que os seus fundos fossem usados para o fazer. Os ânimos ficaram de tal maneira ao rubro que esta situação culminou na tentativa de Jack Lang barricar o Tesouro da Nova Gales do Sul… era uma batalha acesa entre os direitos do Estado contra o poder central.
A 13 de maio de 1932, o mundo de Lang desmoronou quando o governador da Nova Gales do Sul, Sir Philip Game, destituiu J. T. Lang e o seu partido do governo, com base na sua incapacidade de governar de forma responsável. Fartos de tanta agitação, os homens e mulheres da Nova Gales do Sul elegeram um governo conservador, e a resistência à contenção sucumbiu, embora os seus oponentes ainda odiassem cada medida tomada a seu favor.
Kitty era obrigada a ouvir isto e muito mais sempre que Dorcas ia a sua casa jantar, o que se tornava cada vez mais frequente à medida que Charles contava mais e mais com as suas opiniões. Não é que Kitty fosse indiferente, desinteressada ou superficial; simplesmente ouvia a conversa da mesma forma que uma pessoa sóbria ouve dois bêbedos a falar, visto que o assunto não estimulava as suas paixões… dava voltas e mais voltas na mesma eterna rotina. Se algo novo acontecia, ela ficava elétrica, mas algo novo não acontecia sequer uma vez por semana; era mais provável que fosse uma vez por mês, o que significava vinte e nove ou trinta dias de repetição, repetição, repetição. Quando acabaram de falar de Jack Lang, Kitty pensou quanta mais conversa aguentaria antes de se levantar de um pulo e gritar: Calem-se! Calem-se! calem-se!
O inverno estava de volta, com nuvens de neve sobre a grande cordilheira divisória, ventos gelados do Antártico a despirem as árvores de folha caduca e uma tristeza avassaladora no coração de Kitty, que não era capaz de soprar um átomo de calor para dentro dele. O seu marido estava feliz, apesar da falta de prazeres conjugais, porque ele era um homem que não vivia para eles. Vivia para a política, e não restava qualquer dúvida de que, quando o país voltasse a ter eleições federais, ele estaria presente como candidato independente. Tudo o que sempre lhe fizera falta era uma Dorcas.
Junho chegou, oficialmente inverno. No seu primeiro dia de sol, sem nuvens, Kitty pegou num carro (por que razão Dorcas tinha carro próprio e Kitty tinha de esperar que houvesse um disponível?) e conduziu em direção ao rio pelo caminho de Doobar, onde a terra era luxuriante e os cordeiros ainda esperavam ser vendidos. Nem toda a gente passava fome… apenas as classes mais baixas, que eram o ideal de Sir Otto Niemeyer.
Kitty saiu do carro para caminhar ao longo das margens do rio, de repente livre de tudo o que era Burdum, da mansão, das casas dos empregados e do próprio Charlie. Um vento tão cortante, contudo um ar tão doce! Fascinantes, as contradições. Este era o lugar onde Edda costumava passear a cavalo e encontrar-se com Jack Thurlow.
Desde que Grace o rejeitara publicamente, Jack deixara de ser visto por Corunda; corriam boatos de que não saía da sua propriedade. Continuava a ser bem-sucedido com os seus cavalos árabes, apesar dos tempos difíceis; na verdade, era mais visto em Dubbo e Toowoomba a exibir os seus magníficos cavalos.
No entanto, ali se encontrava ele, a passear a cavalo pelo trilho em direção a ela, num enorme corcel cinzento, cujo focinho romano indicava que não tinha sangue árabe. Kitty saiu apressadamente do trilho e manteve-se bem afastada, na esperança de que ele passasse por ela a galope sem abrandar, muito menos parar.
Bem que ela queria! Ele parou e desmontou logo do animal.
— Bem, quem diria, Kitty Latimer! — disse ele a sorrir.
Imensamente alto; Kitty esquecera-se disso, embora Edda o classificasse como «moderadamente alto» devido à sua própria altura. Ele tinha exatamente um metro e oitenta. Que idade teria agora? Quarenta e qualquer coisa parecia um pouco excessivo. Era difícil adivinhar a idade de um homem do campo; eles tinham um ar mais velho quando eram novos, e mais novos quando eram velhos. O seu cabelo era ainda ondulado e da cor de milho, tal como os telhados de colmo dos Burdum, a sua pele bastante bronzeada, os olhos muito azuis. Não tinha absolutamente nada do Jano de duas caras! Atraente de uma forma masculina e um lindo sorriso.
Encaminhou-a para um tronco, verificando primeiro se não existia nenhum ninho de formigas-buldogue por perto, depois fê-la sentar-se e inclinou-se sobre ela.
— Assim, toda embrulhada em lã, pareces ter dez anos. Sensato, mas… — disse ele. — Como está Lady Schiller?
— Muito bem, pelo que sei. Está a estudar medicina em Melbourne. Gosto do marido dela.
— Ia agora para casa. Queres vir tomar um chá e comer um scone?
— Sim, por favor! Posso contar-te imensas coisas sobre Edda. Eu conduzo, mas para onde vou?
— A primeira cancela na estrada de Doobar. A propriedade no cimo da colina, não há como enganar… tem demasiados cavalos.
Jack voltou a montar o cavalo cinzento e afastou-se a trote. Alguém diferente na minha vida! Não é uma cara nova, mas bem poderia ser, pois nunca foi um rosto que me enchesse a vista antes.
Corundoobar era uma propriedade magnífica, com a sua casa de pedra num estilo georgiano simples e varandas sustentadas por pilares dóricos a toda a volta. O seu jardim deve ser uma verdadeira caixa de bombons na primavera e no verão, pensou ela. A vista era soberba do seu ponto de observação no cimo da colina e sobre o rio. Havia neve no cume das cordilheiras distantes.
Cheirava maravilhosamente bem no interior, como uma casa deve cheirar, pensou Kitty: óleo de polir de cera de abelha, ervas e flores secas, roupa de cama lavada, água-de-colónia, ar puro. As suas janelas estendiam-se do chão ao teto e podiam ser utilizadas como portas; uma encontrava-se um pouco aberta para deixar entrar o ar, enquanto os fogões de ferro e as lareiras aqueciam os quartos.
O interior estava extremamente bem cuidado, embora não tivesse nenhum toque feminino. Falhas subtis, não muito evidentes.
— Quem cuida da casa? — perguntou ela, sentando-se à mesa da cozinha e observando-o enquanto ele misturava manteiga fria com farinha, fermento e sal… ele estava a fazer os scones de raiz! Um homem espantoso.
— Sou eu que cuido da casa — disse ele, adicionando leite frio. — Só um idiota não consegue manter uma casa limpa e organizada.
— Ou fazer scones.
— As minhas mãos estão sempre frias, por isso não consigo derreter a manteiga… o requisito essencial para misturar a manteiga com a farinha. Depois de adicionar o leite, misturo com as lâminas de duas facas… vês?
— Eu não sei pôr água a ferver — disse ela, descontraidamente.
— Aprendias logo se precisasses.
Jack pressionou suavemente a massa numa tábua enfarinhada, pegou num pedaço de queijo cheddar e ralou algum por cima, depois cortou o bloco em quadrados de cinco centímetros. Estes foram transferidos para um tabuleiro que foi colocado dentro de um forno a lenha. Vinte minutos depois de ter começado, os scones estavam prontos: bem subidos, o queijo derretido e a parte de cima tostada.
Kitty já salivava, enquanto ele empilhava os scones quentes num prato, distribuía tacinhas de vidro trabalhado com manteiga e compota e lhe passava uma faca. Algures no meio disto, Jack preparara um bule de chá e pusera na mesa duas chávenas, pires e pratos do serviço de louça Aynsley.
— Tens coisas boas — disse Kitty, abrindo um scone ao meio e barrando ambos os lados com manteiga. — Leves como uma pena! — comentou ela de boca cheia. — Comida boa em louça boa… és um tesouro.
Jack considerou o seu comentário de olhos semicerrados.
— Desconfio que também tu sejas um tesouro — disse ele —, mas o problema é que ninguém quer o teu tipo de ouro. Toda a gente pensa que é apenas um banho fino de ouro.
Kitty susteve a respiração; teve de tossir para não se engasgar.
— Que perspicaz que tu és! As pessoas geralmente julgam que eu sou uma exploradora, embora pense que Edda se certificou de que isso não aconteceria.
Um sorriso lento iluminou os olhos de Jack.
— Oh, Edda! Sim, graças a ela, sei muito sobre as irmãs Latimer. Especialmente sobre ti e o teu rosto. Porque será que tanta gente não consegue ver além da aparência das outras pessoas? Charles Burdum queria uma mulher troféu para exibir e provar que os homens muito pequenos podem ter as melhores mulheres, e depois, para tornar tudo ainda melhor, acaba por se apaixonar perdidamente por ti. Oh, ele foi honesto, nunca penses o contrário. Ele tinha de te ter.
— Edda falava contigo, não era? Quem me dera que ela tivesse sido assim tão franca comigo. Talvez tivesse decidido de outra forma.
— Ela disse o máximo que qualquer irmã se atreveria a dizer. Eu estava de fora, não importava o que eu achava ou como reagia.
— De qualquer maneira, estiveste presente durante muito tempo — disse Kitty, sorrindo. — No entanto, fico contente pelos teus planos em relação a Grace terem caído por terra. Escapaste-te de boa!
A cabeça dele inclinou-se para trás e riu francamente.
— Não penses que não sei disso! Contudo, Corundoobar precisa tanto de uma esposa e de família como o seu dono. Estou quase a fazer quarenta anos — disse ele com seriedade.
— Alguém há de aparecer, Jack — reconfortou-o ela.
— Eu sei, cada coisa na sua altura certa.
Kitty olhou em volta.
— Adoro esta casa. É um lar
— Isso é porque bem lá no fundo és uma mulher da quinta — disse ele, a sua voz bastante impessoal —, embora não saibas o que isso é. Bem, ela tem meia dúzia de filhos agarrados à saia, as suas pernas estão descobertas no verão e calça botas de borracha no inverno, não possui um único vestido decente, o seu cesto de roupa para remendar está cheio até cima de meias… eu podia continuar, mas acho que já percebeste a ideia.
As lágrimas ameaçavam cair, mas Kitty sabia que devia contê-las; Jack não estava a dizer aquelas coisas para ela, mas para o tipo de pessoa que ela era.
— Sim, percebo o que queres dizer — disse ela animada, com um sorriso. — Não é estranho que o nosso amor não recaia sobre quem a nossa natureza acha que devia recair?
— Quanto mais velho fico, mais estranho me parece — respondeu ele com um sorriso que respondia por si só.
— Estás a sobreviver bem à Depressão? — perguntou Kitty quando ele começou a arrumar as coisas do chá, pensando se este seria o seu sinal para ela se ir embora.
Mas não. Com a mesa limpa, Jack puxou a sua cadeira Windsor para se sentar, virou-se para Kitty e recostou-se de forma descontraída.
— Eu tive sorte — disse ele, a sorrir. — Os meus cordeiros quase não dão lucro, enquanto os meus cavalos árabes se vendem à mesma velocidade com que eu os consigo criar. O dinheiro que existe cresceu até formar uma crosta no topo, os ricos são os únicos que compram.
Enquanto Jack falava, um animal cinzento atravessou a cozinha, vindo, supunha ela, da porta das traseiras, saltou sem qualquer esforço e aterrou no colo de Jack, não apenas preenchendo-o, mas saindo para fora dele. Um gato enorme! Jack acabou de falar sem lhe prestar a mínima atenção, além de o mudar de posição para que o gato pudesse deitar-se com a cabeça encostada ao seu coração.
— Este é o Bert — disse Jack, em seguida. — Assim que acabo de comer, ele vem para o meu colo.
— Não sabia que havia gatos tão grandes — disse ela, observando a mão dele a envolver o focinho do gato e a acariciá-lo daí às orelhas; o som do ronronar encheu a cozinha.
— Pesa nove quilos — disse Jack, orgulhoso — e é quem manda cá em casa… não é, Bert?
Kitty estendeu uma mão hesitante.
— Olá, Bert.
Um par de olhos verdes brilhantes examinou-a cuidadosamente; este animal não era burro!
— Foste aceite — disse Jack a sorrir.
— Como é que sabes?
— Ele ainda está aqui, não se mexeu. Se fosses Edda… puf! Tinha desaparecido.
— Voltando aos cavalos árabes, presumo que estejas a insinuar que as princesas que frequentam escolas privadas ainda têm papás que as presenteiam com tudo o que elas querem, incluindo montadas para as fanáticas por cavalos.
— Bem, tu eras uma dessas princesas que frequentava a escola privada.
— Mas Edda é que era a fanática dos cavalos. Eles assustam-me.
— Já tinha percebido, mas anima-te. Hoje em dia, os carros dão mais jeito.
Foi um chá da manhã demorado; parece que falaram de tudo o que havia para falar, desde Edda e a demência de Maude até aos progressos do novo hospital; Kitty sentiu que eram dois velhos amigos num reencontro depois de uma década sem se verem. Jack mostrou-lhe a casa e apresentou-a aos seus dois novos cães pastores, Alf e Daisy, que não podiam entrar em casa. Jack recusou-se a deixar Kitty lavar a louça.
— Vens tomar chá e comer scones comigo outra vez? — perguntou ele, acompanhando-a ao carro. — Não vou tresandar a cavalo se souber que vens, prometo.
— No mesmo dia e à mesma hora na próxima semana é demasiado cedo?
— Não, é ótimo. É melhor aproveitarmos enquanto podemos… por vezes, vou para fora vender cavalos.
— Então, está combinado para a próxima semana, Jack. E… obrigada.
Kitty reparou que, assim que arrancou, Jack voltou para dentro de casa, e sentiu alguma tristeza por isso. Até podia estar a ser mimada, mas teria ficado feliz se Jack tivesse ficado a observá-la até ela desaparecer de vista. Bem, ele não o fizera, e porque havia de o fazer?
Kitty tivera muitas ideias novas enquanto conversava com Jack, que sempre estivera na periferia da vida no presbitério desde o tempo de Thumbelina, com um enorme letreiro colado às costas: RESERVADO PARA A EDDA. No entanto, Edda nunca o quisera, simplesmente precisara dele. Ao princípio, porque ele lhe dera Fatima; depois, porque a satisfazia fisicamente. Que enorme confusão se instalou quando Grace se envolveu na situação! Grace também não o quisera. Tal como Edda, ela precisara dele. Não para prazeres carnais, mas para reparar a porta da capoeira e plantar batatas. Oh, pobre Jack! Ferido e mutilado pelas gémeas Latimer mais velhas, não tendo nenhuma delas a mínima noção do que lhe estavam a fazer.
Não fomos educadas para supor que os homens se apaixonariam por nós, e isso era verdade sobretudo para Edda, que se achava uma mulher fria e não acreditaria se lhe dissessem que um homem poderia vir a amá-la! No entanto, Jack Thurlow amara-a… é claro que a amara! Um Burdum, mas completamente diferente do meu Charlie. Um homem do campo, satisfeito com a vida, enquanto Charlie nunca estará satisfeito.
Enquanto se lembrava, ouvia a voz distante de Edda a lamentar a falta de ambição de Jack… uma pessoa que não era avarenta, que raridade! Sem saber que Jack a amava, Edda seguira o seu caminho, impulsionada pelo curso de medicina. O que Kitty viu, depois de duas horas na companhia de Jack Thurlow, foi um homem em comunhão com os espíritos do vento, da água, da terra e até do fogo. Sem medo de nada, mas também não exigindo nada.
Que estranho! Toda a minha vida, pensou Kitty, estive rodeada por pessoas que queriam o que não podiam ter e lutavam arduamente para o conseguir. Quando caíam, levantavam-se e voltavam à luta. No entanto, Jack Thurlow nunca se rebaixaria a esse ponto.
Edda diria que ele era denso, e com isso queria dizer pouco inteligente. Tufts diria que ele tinha um bom carácter, o que significava que tinha sentido de honra e dever. Grace diria que ele era a essência da bondade, o que queria dizer que ele se oferecera para a levar ao altar. O papá diria que ele era um bom homem que não ia à missa, o que significava que era um candidato a um céu pior do que aqueles que frequentavam a igreja. E o que diria Charlie do seu primo? Primeiro, iria ficar com um olhar vago, pois teria mesmo de pensar numa resposta antes que lhe surgisse a imagem do rosto de Jack. Depois diria que Jack tinha um bom carácter, o que significava que não tinha visto a luz político-comercial porque estava satisfeito com a sua vida aborrecida e irrelevante.
Sinto dor por ele, pensou Kitty, o tipo de angústia aflitiva e severa que apenas se sente quando se falha redondamente; pois, tal como Edda e Grace, já passei pelo sofrimento de Jack como se nem sequer existisse. Como ele deve ter desejado, enquanto esperava aqueles anos todos que Edda tivesse dezassete anos, casar com ela. E, quando percebeu que nunca ficaria com Edda, tentou conquistar a sua gémea. No entanto, não se queixou e a sua reação à rejeição pública de Grace parecera orgulho ferido aos olhos de toda a gente. Existem diferentes tipos de piedade; Jack escolheu o tipo que Corunda achava mais aceitável.
Hoje, Jack abriu-me os olhos, parece que me presentearam com uma repentina capacidade de compreensão completamente inesperada. Será que os meus problemas se revelaram algo bastante menos grave do que eu pensava? Ele já está curado de Edda, no entanto, não saiu desses nove anos diminuído ou amargo ou emasculado. Ele é o que sempre foi e sempre será… um homem agarrado à terra e às suas criaturas.
Sempre que ele estiver em Corunda, vou tomar chá e comer scones na sua cozinha às quartas-feiras de manhã, dizer olá a Alf e a Daisy no alpendre das traseiras, e observar Bert no colo do seu dono. Ele é uma ilha de granito num mar de areia movediça.
Kitty parou para olhar para as montanhas taciturnas e arredondadas, pintadas de branco pela neve contra um céu escuro, que descia sobre elas como um lençol de chumbo. Flocos de neve, espessos e húmidos, pousavam nela de forma indolente numa dança casual e despreocupada nos braços de um esquecimento invisível. Lindo!
Quando Charlie chegou com Dorcas naquela noite, agiu como sempre agia: deu-lhe um beijo na face e perguntou-lhe o que fizera durante o dia. Esta noite, sem ter consciência de o fazer, Kitty mexeu-se para que o beijo quase não se fizesse sentir e não lhe respondeu.
Enquanto ele se dirigia para o armário para preparar as bebidas, e depois de Dorcas se ter recostado na «sua» cadeira, Kitty falou… só para Dorcas. Aqueles olhos penetrantes, embora suaves, tinham percebido tudo, mas o seu corpo não o revelou; Dorcas tinha pavor de ofender Charlie, que não gostava que ela tirasse ilações acerca do comportamento de Kitty.
— Estás muito bonita esta noite, Dorcas — disse Kitty, com pena dela.
— Obrigada, Kitty.
O agradecimento de Dorcas soou bastante artificial, pois o comentário apanhara-a de surpresa… porque estaria Kitty a ignorar o marido?
— Captaste na perfeição cada pormenor — continuou Kitty, sorrindo de forma calorosa para Dorcas. — Uma elegância discreta que fará sucesso em Melbourne, um lugar que eu sempre receei. Eu sou demasiado espampanante e melindrosa para os gostos femininos de Melbourne, mas tu és perfeita, Dorcas. Dou doze meses para que todos os políticos estejam a clamar por uma assistente com metade da tua elegância e inteligência e que, no entanto, seja tão discreta como a inigualável Dorcas Chandler de Charles Burdum.
Uma enorme variedade de emoções invadira com a rapidez de um relâmpago aqueles olhos contraditórios, enquanto Kitty falava, a mente por baixo deles imparável como um meteoro a cair do céu, e durante todo esse tempo a mulher sabia que não se atrevia a procurar orientação no seu patrão, parado de costas voltadas… como reagir, como adivinhar o que Kitty estava a tramar? E Charles não era grande ajuda, recusando-se a virar-se na direção das mulheres.
— Não achas que este azul é muito escuro? — perguntou Dorcas, ansiosa.
— Não, é adorável… ultramarino, em vez do austero azul-prussiano ou do bélico azul-marinho — respondeu Kitty. — Podes acreditar que estou certa… o meu mau gosto é só para mim. Para os outros, não falho.
Por fim, Charles virou-se.
— Isso é a mais pura das verdades — disse ele, dando um copo de xerez a Dorcas. — Sim, Dorcas, ultramarino é perfeito.
Kitty pegou no seu copo de xerez com um sorriso descontraído.
Sua cabra!, pensou ele. O que terá acontecido hoje para que a tua aversão por mim seja finalmente manifesta perante um público? Acho que hoje à noite vou reclamar os meus direitos conjugais.
No entanto, Kitty estava um passo à frente dele. A meio do prato principal, Kitty queixou-se do início de uma dor de cabeça e foi para a cama. Charles ficou sozinho com Dorcas.
— O que será que se passa com ela? — disse ele depois de Kitty sair. — Algumas dores de cabeça são o pródromo antes de a aura surgir.
— Por vezes esqueço-me que o teu curso é de medicina — disse Dorcas com calma, juntando o garfo e a faca sobre o prato. — Não, sinceramente, já comi o suficiente. Por vezes sinto-me como um ganso de Estrasburgo.
— Mas um muito encantador — disse ele, levantando o copo na sua direção. — A sua agressividade é temida, a dos gansos, mas por baixo dela são primos direitos dos cisnes.
Estava na altura de dizer o que não poderia mais tarde ser retirado; se não o fizesse, a situação de Kitty ia explodir.
— Podes repreender-me e eu mereço que o faças, Charles, mas sinto que tenho de te dizer que a tua esposa é uma mulher infeliz — disse ela, sem qualquer indício de remorso na voz. — Na verdade, muito infeliz.
O momento que escolhera para o dizer fora oportuno; os ombros dele descaíram.
— Sim, estou bem ciente disso. Ela é uma mulher que vive para as crianças e que deseja muito ter filhos, mas acaba sempre por sofrer abortos.
— Ah! O orfanato.
— E ela é enfermeira de crianças, não te esqueças.
— Ainda é uma mulher jovem.
— Os obstetras não conseguem encontrar nada de mal em termos físicos. Nem eu. O pior é que ela me culpa por isso.
Aí estava! Tinha desabafado, dissera-o.
Dorcas manteve o rosto calmo e impassível, embora os seus olhos tivessem um brilho suspeito.
— Não vou fingir que sou sábia, Charles, mesmo porque nunca fui casada, mas diz o senso comum que o tempo cura todas as feridas, mesmo as mentais. No fundo, ela é uma mulher sensata.
— Sim, espero vê-la ficar melhor, mas existem curas e curas. Kitty é uma pessoa caseira, enquanto eu sou mais dado à vida pública… faz-me vibrar! Essa é uma situação que só vai piorar com o tempo, não melhorar.
— Então, não te preocupes com isso — disse Dorcas, reconfortando-o. — Ainda não reparaste que na Austrália as mulheres dos políticos têm pouco ou nada a dizer? Muitas vezes, nem sequer são vistas. Tu podes ter a política, e ela a Casa Burdum. A importância dela no meio político é perfeitamente negligenciável. Quando duas ou três vezes por ano fores obrigado a exibir a esposa, vais deixar todos boquiabertos, à exceção de Rawson Schiller que se casou com a meia-irmã dela. Estamos a construir uma lenda, Charles, nunca te deves esquecer disso! Os dois pares de gémeas Latimer terão o seu papel no mito australiano, desde Lady Schiller e a futura Lady Burdum (obterás o título de Sir, Charles, com toda a certeza) até à diretora do hospital Latimer e à viúva Olsen da Depressão. Eu própria escreverei o mito quando elas forem mais velhas. Entretanto, não te preocupes com Kitty. Ela tem o orfanato, as irmãs, o pai e Corunda. Os teus próprios horizontes são mais vastos, sabes disso sem precisares que eu to diga.
Charles estava sentado, eletrizado, os seus olhos tornaram-se da cor dos de um leão; ela nunca se poderia esquecer de assegurar que o barbeiro não reduzia o volume da juba de leão que era o seu cabelo ou o besuntava com brilhantina… ele deve ter sempre esta imagem. Sorrindo secretamente, Dorcas pensou no primeiro-ministro Joe Lyons, outra bela cabeça cheia de cabelo, que não deixava que o penteassem de forma a parecer um pedaço de couro brilhante, como ditava a moda na altura. O mesmo se passava com Jimmy Scullin. As mulheres adoravam uma cabeça cheia de cabelo! O que as repelia eram os dentes estragados, as barrigas proeminentes e a calvície.
— Dorcas — quase cantou Charles —, o que faria eu sem ti?
Afundando-se como uma pedra, ela respondeu silenciosamente para dentro do abismo.
Dorcas reparou primeiro, mas sentiu que não podia dizer nada, por isso foi Grace quem falou com Charles pouco depois de o ano de 1933 ter começado. Mesmo assim, não era a sua intenção quando marcou uma audiência formal com ele: Grace estava lá pelos seus meninos.
Eles vieram com ela. Charles reparou de imediato que os rapazes pareciam demasiado velhos para as suas idades, sobretudo Brian, sobre o qual recaíra o papel de homem da casa. É claro que Grace lhe fizera isso! Oh, não através de um desamparo choroso ou de constantes chamadas de atenção verbais de que ele era agora o homem da casa… Grace era demasiado inteligente para usar táticas agressivas. Simplesmente, também não lhe escondera a sua condição de viúva. Alguns teriam achado Grace sensata; outros, como Charles, considerava-o desnecessário tendo em conta as suas idades. Brian teria em breve cinco anos, e John faria quatro no último dia de maio. Eram muito parecidos. Eles iriam manter-se louros, das pestanas aos cabelos, a casta escandinava nos ossos do rosto. Os meninos fizeram Charles pensar que haveria mais de teutão e viquingue nos Latimer do que de bretão ou celta, pois era óbvio que a herança da mãe era semelhante à do pai. A diferença residia nos olhos. Ambos os pares eram azuis como o céu, sem qualquer toque dos tons cinzentos do mar ou dos verdes da floresta. Ah, mas as mentes que fervilhavam por detrás de cada par eram muito diferentes! O olhar de Brian era firme e difícil de encarar: o guerreiro pensante. O olhar de Jonh era do outro mundo, um pouco triste: o buscador da verdade. Pobre John, ia sofrer muitas desilusões.
Eu já devia ter dois filhos desta idade, pensou Charles, embora, se fossem meus, seriam como o mármore de Carrara ao lado do mármore de Paros, o que mais se assemelha a este par de meninos. Aqui tudo é imaculadamente branco, nada de veias e remoinhos fascinantes de inúmeras cores. Mas de que é que adianta lamentar-me? O meu legado foram dois abortos, um tão tarde que tive de enterrar um filho.
— Como posso ajudar-te, Grace? — perguntou ele, escondendo a sua apreensão nervosa; Grace nunca trazia alegrias.
— Aqui vai a verdade, Charlie, nua e crua. Quero mudar-me para Sydney — anunciou Grace.
Naquela altura, Charles olhou para ela pela primeira vez, consciente de que a sua mente e os seus olhos tinham devorado apenas os seus filhos. A imagem da Virgem dos Rochedos surgiu na sua mente, vinda dos arquivos do seu cérebro… linda, distante, acima de todos os prazeres carnais, o granito e o adamantino que a envolviam eram agora parte integrante do seu ser, cada átomo de vida concentrado nos seus filhos. É verdade que eram extraordinárias, as quatro irmãs Latimer!
— Uma enorme mudança — disse ele cautelosamente, e esperou.
— É o momento certo. Brian vai começar a escola no mês que vem, mas aqui não. —
A sua voz alterou-se, tornou-se mais doce, um estratagema que Charles perceberia num segundo, mas que queria usar para reforçar a sua posição como sua servil suplicante. — Pensei em falar com Rawson Schiller, outro cunhado, mas ele é um homem de Melbourne e, pelo que sei, Edda receber-me-ia com prazer em Melbourne. É demasiado quente no verão e demasiado frio no inverno. Não, para mim é Sydney. — A sua voz passou de mel quente para água fria. — És tão rico, Charlie, que não me sinto mal por te pedir algum dinheiro para ir para a frente com o meu plano. Os filhos de Bear não podem ser criados num lugar onde toda a gente sabe a sua história, ou frequentar a escola com filhos de pessoas que testemunharam a loucura e o suicídio do seu pai.
Os olhos de Charles viraram-se, por instinto, para os rapazes, um em cada joelho da mãe, como leões a guardar uma estátua da Magna Mater… como podia ela falar destes assuntos à frente deles? Brian olhava em frente, John parecia sonhar acordado.
E a voz dela continuava a fluir, inexorável.
— Tu tens dinheiro suficiente para me acomodares numa casa decente em Bellevue Hill, com um carro e uma mesada adequada a uma viúva respeitável, sem qualquer intenção de fazer uma vida social intensa. Quero os meus filhos educados em escolas privadas, apesar de querer que não frequentem a mesma. A Scots será adequada para Brian, enquanto John ficará melhor na Sydney Grammar. Como podes ver, pensei muito bem em tudo e já me informei.
— Foi tudo pensado de uma forma admirável — disse ele, sem se mostrar reticente em lhe dar um tostão da quantia considerável que ela lhe ia custar. No que dizia respeito a Grace, pelo menos, Charles suplantara Rawson Schiller. — Não te vais sentir sozinha ao mudar para um sítio onde não tens amigos nem quaisquer conhecimentos?
— Não irá demorar muito até fazer amigos e estabelecer alguns contactos — disse ela, sorrindo. — É para isso que servem as associações de pais das escolas. Um dia, a Depressão vai terminar e eu quero os meus filhos preparados para colher os seus frutos. As melhores escolas, universidade, alguma influência quando chegar a altura de se candidatarem a empregos. Eles não vão ter quaisquer poupanças disponíveis se quiserem enveredar pelo mundo dos negócios, mas terão estatuto social e educação para obterem o que precisarem.
— Está na hora de irem lá para fora brincar, rapazes — disse Charles, descontraidamente. Um olhar para a mãe, um aceno de cabeça dela, e eles saíram. — Educaste-os muito bem, Grace.
— O melhor que pude, em Corunda. Serão alunos externos durante os anos preparatórios, mas aos doze quero que comecem a escola em regime de internato… é uma opção mais cara, mas eles não têm um homem em casa e precisarão de uma maior exposição ao mundo dos homens. Uma mulher não serve para orientar um rapaz na puberdade e na adolescência, eu estaria à deriva num mar desconhecido. O papá só teve meninas.
— Estás sempre a surpreender-me — disse Charles com alguma falsidade.
— Porque vejo o que os meus filhos precisam antes de ver o que eu própria preciso? — Grace riu-se. — Oh, vá lá, Charlie! Qualquer mãe é capaz de fazer isso. As coisas acontecem e nunca sabemos porquê. Eu certamente não sei. Como mãe dos filhos de Bear, quero que eles o superem, que é o que ele quereria também. Ele nunca foi uma pessoa invejosa ou amarga. Dá-me apenas dinheiro suficiente para viver o tipo de vida que os amigos e os pais dos amigos dos meus filhos esperam ver… comida boa se tiver de os receber em casa, muita roupa boa para eles… eu consigo costurar a minha própria roupa, é algo que fazer com o meu tempo livre, visto que também não vou poder trabalhar em Sydney. Tenho a minha própria mobília, mas quero poder comprar livros para montar uma pequena biblioteca… será útil para os rapazes.
Com o bloco debaixo da mão, Charles começou a escrever diligentemente.
— Uma casa em Bellevue Hill com vista para Rose Bay… sim, acho que deves ter uma vista, só uma casa pobre nessa zona da cidade é que não tem uma vista… a casa ficará em teu nome, embora eu me responsabilize pelo pagamento de impostos e taxas. Um bom carro, fácil de reparar… em… teu… nome. Boa! Vou pedir aos meus advogados que acrescentem as cláusulas necessárias ao meu testamento para te proteger na eventualidade da minha morte… não quereria que Rawson se envolvesse! Um rendimento de vinte libras por semana, livre de encargos, bastante acima do custo de vida… propinas escolares, uniformes, livros, material educativo, e por aí em diante, numa conta separada, acho eu. E uma poupança de capital, adequadamente investida (vinte mil parece-me bem), na qual não se poderá mexer a não ser em caso de emergência extrema. — A caneta caiu-lhe da mão, Charles enroscou a tampa e olhou para ela.
— E é tudo, Grace? Esqueci-me de alguma coisa?
— Não. Obrigada, Charles, do fundo do coração. — Um sorriso encantador surgiu. — Nunca mais te vou chamar Charlie.
— Isso já é recompensa suficiente.
— Suponho que Kitty esteja no orfanato?
O seu rosto passou imediatamente a gárgula.