Agridoce

Colleen McCullough · Capítulo 7 de 7 · parte 3/3

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Agridoce

PARTE SEIS: Cortar a Cabeça

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Onde mais haveria de estar? Não consegue tê-los, por isso enterra o seu desgosto nos filhos das outras pessoas, que os têm sem pensar duas vezes.

— Oh, não sejas desagradável, Charles, por favor! Ela sofre tanto com isso! Na verdade, ela está a ir-se abaixo novamente.

Charles ficou tenso.

— Ela está o quê?

— A ir-se abaixo. Deves ter reparado.

— Eu… eu não a tenho visto muito nos últimos tempos.

Sim, estás muito ocupado a conversar com a Dorcas Cara de Cavalo, disse Grace tristemente para si mesma. Em voz alta disse:

— Ela não muda de vestido todos os dias, nem mesmo de dois em dois dias ou mesmo três. O cabelo dela está uma lástima e deixou de usar batom. Tentei falar com ela, mas não valeu de nada. Segundo Kitty, as crianças não se importam com o que ela tem vestido e detestam batom porque a impede de lhes dar beijinhos. Charles, a Kitty está-se a ir-se abaixo e, como médico, devias saber o que quero dizer com isso.

— Que ela está em sintonia com os tempos que correm, deprimida.

— Exatamente.

 

Mas nunca às quartas-feiras. Essa era a peça fundamental do puzzle, a única peça que Grace não tinha oportunidade de ver.

É claro que Grace interpretava mal grande parte do que via, devido ao facto de a sua própria personalidade ser muito diferente; o que ela fez foi ressuscitar a depressão de infância de Kitty, associá-la à sua situação atual e chegar à conclusão de que não tardaria muito até Kitty se juntar a Maude no hospício. Contudo, a verdade estava longe do seu surto depressivo aos vinte anos. O seu trabalho no orfanato, como viria a descobrir rapidamente, era dificultado pelo uso de qualquer tipo de uniforme, e a roupa informal devia assemelhar-se, pelo menos um pouco, aos vestidos que as mães destas crianças usariam. Assim, Kitty «testou» o seu antigo uniforme de enfermeira num dia em que não ia trabalhar para o orfanato. Se sobrevivesse bem a um dia no orfanato, usaria o uniforme novamente no dia seguinte. No final de contas, ninguém podia dizer que a sua falta de elegância a fazia parecer uma mulher da quinta! Era, simplesmente, mais prático, bem como mais barato de manter. Para quê usar meias de seda a dez xelins o par para ficarem cheias de malhas poucos minutos depois de ter chegado ao orfanato?

Tufts compreendia; Grace não, nem tão-pouco Dorcas Chandler.

A sua aparência era a última coisa que a preocupava, e Kitty deu por si a sentir-se estranhamente livre para caminhar, não nos velhos círculos de sempre, mas em linhas retas que levavam a caminhos fáceis de seguir e de volta para o ponto de partida, luminoso como uma árvore de Natal. A sua vida, iluminada e enriquecida, finalmente fazia sentido. Que coisa terrível olhar para trás e para todos aqueles anos e vê-los moldados e sustentados por uma única qualidade dominante: a aparência. As suas irmãs tinham sempre percebido, mas também elas eram limitadas pelo que cada uma delas era no seu íntimo. E, oh, como o tempo as separara!

Jack Thurlow flutuava, um pensamento incorpóreo, na mente de Kitty ao longo de todo aquele inverno e primavera, reforçado às quartas-feiras de manhã, quando ele estava em casa para tomarem chá, comerem scones e conversarem. Nunca vista como uma intrusa, sempre bem-vinda. Podia contar-lhe tudo, que as suas emoções e intelecto masculinos aceitavam, e ele era tão bom a estabelecer limites que não tinha qualquer problema em pará-la antes que falasse demais. Jack não queria ouvi-la falar dos pedaços do seu coração partidos pelos abortos e pela possessividade do marido, e Kitty, com base na sua recentemente encontrada sabedoria, compreendia porquê. Havia assuntos de homens e assuntos de mulheres, que iam das diferenças anatómicas visíveis aos domínios da alma intangível.

Sem nunca dizer uma palavra, Jack ensinou-lhe o que Charlie era incapaz de saber: que estava certa em agarrar-se ao amor das irmãs e do pai, que tinha o direito de lutar para ter filhos. Eram tão delicados, tão frágeis, os parâmetros da relação que Jack construía entre eles, e Kitty só conseguia pensar na burrice da irmã em não ver o que ele lhe tinha oferecido: força, segurança, paz, um amor másculo saturado de paixão. Pobre Edda! Sempre a desejar outras coisas.

Desta forma, Kitty não podia dizer a si mesma que Jack entrara na sua vida e lhe ensinara como a consertar; a recusa de Jack em fazê-lo estava implícita sempre que se encontravam. Não, esta luta era dela; Kitty tinha de resolver as coisas sozinha. À sua própria maneira. No seu próprio tempo. Um enorme conflito para uma guerreira muito pequena.

No entanto, não estava sozinha. De qualquer maneira, sem uma palavra, nem um único olhar ou gesto, Jack deu-lhe a entender que estava ao seu lado. Que a amava, amava mais do que alguma vez amara a sua irmã. Se fechasse os olhos, Kitty conseguia sentir esse amor a envolvê-la como um manto quente, leve como uma pena e reconfortante, que não a sufocava nem a privava de sensibilidade.

 

— Ouve-me, Kits — disse Grace rispidamente no dia anterior a ela e os rapazes deixarem Corunda e partirem para a sua nova vida em Sydney.

— Estou a ouvir — respondeu Kitty, complacente.

— Sem mim e sem Edda por perto, estás mais sozinha do que eu queria que estivesses. Se Charlie tivesse o bom senso com que nasceu (mas não tem), cuidaria melhor de ti, mas é completamente obcecado pela Dorcas Cara de Cavalo e pela política. Vai haver uma eleição parlamentar no final deste ano e Charles já se está a preparar para ela… deves saber que ele arrendou uma loja e que a usa como sede política. Oh, Kitty! Não reparaste? O que se passa contigo? George Ingersoll está a morrer com um cancro e, assim que ele bater a bota, o lugar dele ficará vago. Ouviste?

— Sim, ouvi — disse Kitty, fatigada.

— Com Charles em Camberra, as coisas vão mudar. Felizmente, não vai precisar de comprar casa lá, são só duas horas de viagem, mas é certo que irá passar a maior parte do seu tempo em Camberra. Se queres tentar engravidar, fá-lo agora. Assim que ele for primeiro-ministro, vai estar sempre muito cansado. — Entre o farfalhar das saias e as voltas do seu cachecol, Grace aproximou-se de Kitty, abraçou-a e beijou-a. — Oh, Kits, temo por ti! E Edda também se sentiria assim se soubesse o que está a acontecer. Tenho um quarto vago na minha casa em Bellevue Hill, e tens de me prometer que vais ter comigo se não tiveres ninguém com quem contar em Corunda!

O lilás dos olhos de Kitty acendeu-se.

— Ninguém em Corunda?

— Ou vai ter com Edda. Pelo menos, Rawson é um cavalheiro.

Kitty soltou uma gargalhada.

— Sinceramente, Grace, és tão tonta! Eu estou ótima, não corro qualquer perigo.

— Lembra-te apenas de que eu tenho um quarto vago.

 

O cancro de George Ingersoll fora diagnosticado em janeiro de 1933, quando ele já estava com um aspeto tão debilitado que lhe fora dado, no máximo, um mês de vida. No entanto, George era um homem incrivelmente teimoso e não vencera todos os seus rivais políticos durante quarenta anos para simplesmente se enrolar numa bola e morrer só porque um bando de médicos o mandava, dizia ele; isto era apenas um contratempo temporário… e não, também não tencionava retirar-se do parlamento federal. O que o matou no final de outubro foi um violento ataque cardíaco, que aparentemente não estava relacionado com o seu cancro em progressão. Quando morreu, ainda era membro do parlamento federal por Corunda, o que significava que os eleitores de Corunda tiveram eleições parlamentares no final de novembro.

Charles Burdum apercebera-se muito rapidamente de um aspeto fundamental no mundo da política: a subtileza era um desperdício. Assim, quando a notícia do cancro de George se tornou pública, Charles arrendou uma loja abandonada em George Street e abriu a sua sede de campanha política. Lá, instalou Dorcas Chandler, vários jovens apoiantes fervorosos de Burdum, todo o equipamento necessário para ter chá e biscoitos, e cópias de excertos dos seus livros de exercícios que delineavam as suas políticas. Tudo na operação indicava claramente que, quando entrasse no parlamento, seria como candidato independente e que não teria nada que ver com as plataformas políticas dos velhos partidos.

A natureza prolongada da morte de George tivera repercussões. A mais importante de todas foi que toda a gente tomou como garantido o facto de que, quando o Triste Evento ocorresse, o substituto de George seria o doutor Charles Burdum. Assim, o Partido Nacionalista, que ocupava o lugar desde o início, decidiu não desperdiçar os seus fundos a eleger um candidato para concorrer. Se não fosse o candidato do Partido Trabalhista, vindo diretamente das oficinas dos comboios, Charles não teria tido qualquer oposição; desta forma, a maior parte dos votos dos trabalhistas acabariam por ir para este impertinente, embora importante Burdum.

Kitty não estava a receber mais atenção de Charles à medida que os meses passavam; na verdade, ela até se perguntava se ele se lembrava da sua existência, entre a sua excitação crescente ao ver Camberra cada vez mais perto e a sua campanha que corria sobre rodas com o apoio de Dorcas, sua fiel ajudante. Abandonada no limbo da negligência de Charles, Kitty ficou à deriva, o seu pensamento em Jack Thurlow e na impossibilidade da sua própria situação, a propriedade legal do homem errado. Como se poderia desprender? Qual era a resposta? No entanto, não se sentia miseravelmente infeliz. Algures, por baixo da camada de impotência, encontrava-se uma faixa dúctil de confiança que reforçava a sua força, uma confiança de que tudo tinha uma solução.

É óbvio que Charles se apercebera de que a sua esposa perdera o interesse nas suas atividades, mas, enquanto George Ingersoll fosse vivo, não valia a pena desperdiçar a sua preciosa energia com Kitty. Tal como ela, Charles flutuava num limbo. Embora o seu fosse a construção de um partido australiano.

A morte de George eletrizou-o. De um dia para o outro, viu Camberra a apenas duas horas de distância e pôs a sua inércia pessoal de lado. Estava na altura de lidar com Kitty, que, pelo aspeto, parecia pertencer a Trelawney: não tão campónia, mas sem dúvida desmazelada. Nada que não pudesse ser mudado, mas onde é que ele arranjaria tempo para o fazer? Que chatice de mulher! O problema dela é que estava tão ocupada no orfanato que não tinha tempo para chás matinais e para deslumbrar outras esposas. Como arranjar tempo para a batalha? Depois, teve uma ideia brilhante: seria Dorcas a dizer a Kitty! Sim, que seja Dorcas a fazê-lo!

— Diz a Kitty para se começar a arranjar melhor — ordenou ele. — Comparada com Kitty, Enid Lyons parece tão simples como um pau de virar tripas, mas quero que isso seja ofuscantemente óbvio assim que Camberra lhe puser os olhos em cima. A minha esposa tem de ser incomparável. Vá, Dorcas, vai fazer o que te mandei.

— Não posso fazer isso, Charles! — exclamou Dorcas, mergulhada num banho gelado de terror. — A Kitty é tua esposa! O que quer que tenha de ser dito, só podes ser tu a dizê-lo. Eu sou praticamente uma desconhecida, nem sequer sou uma amiga! Por favor, Charles, não! Eu sou uma funcionária!

Por mais que protestasse com bons argumentos, ele bem que podia ser feito de granito. Frio e indiferente, olhou fixamente para ela com, o que lhe parecia, raios a emanarem como uma aura, e ela sabia sem ser preciso dizer nada que, se não obedecesse às suas ordens, Charles arranjaria outro consultor político.

De algum modo, Kitty sabia o que estava para vir. Quando Dorcas a convidou para tomar um chá e conversar um pouco naquela quarta-feira de manhã, Kitty acenou com a cabeça.

— Não, hoje não — disse ela. — Amanhã. Às quartas-feiras de manhã tomo chá com Jack Thurlow e não vou desmarcar esse compromisso por ti nem por ninguém.

Os pálidos olhos azuis de Dorcas trespassaram Kitty e não encontraram qualquer indício de culpa ou desobediência: era a simples constatação de um facto.

Jack Thurlow? Quem era ele? Não era amigo de Charles nem um homem importante em termos políticos ou cívicos. As memórias fervilharam na cabeça de Dorcas, que desencantou uma velha história sobre o tipo que era herdeiro do velho Tom Burdum antes de Charles chegar. Um namorado da meia-irmã de Kitty, Edda… sim, é claro! Por conseguinte, um homem que a esposa de Charles conhecia muito antes de conhecer Charles. Um velho e estimado amigo, pensou Dorcas, de maneira nenhuma um amante. Assim, preparando-se para tomar um chá com Kitty na quinta-feira de manhã, Dorcas mantinha a sua tarefa inalterada pelos encontros de quarta-feira.

No entanto, Dorcas ficou tempo suficiente para ver uma Kitty imaculadamente arranjada sair para o seu encontro com Jack Thurlow. Um vestido azul-lavanda, cuja elegância sedosa era realçada por toques cor de alperce nos sapatos, na mala e num chapéu de abas largas, o rosto suavemente maquilhado, o cabelo solto e ao natural. Oh, que mulher linda!

A dor mastigou Dorcas como um cão velho com dentes partidos mastiga um osso supurante: eu podia ser rainha do mundo se tivesse aquela aparência. E ela… ela não quer saber. Se as histórias que Charles me contou são verdadeiras, o seu rosto levou-a a um ralador de queijo e a uma corda para se enforcar porque abominava a sua beleza, contudo, às quartas-feiras, ela levanta o véu de nevoeiro e deixa o seu sol brilhar para tomar chá com um homem que pertence ao passado e que foi namorado da irmã durante muitos anos.

Não levara mais de uma semana ao serviço de Charles Burdum para elevar Dorcas Chandler do deserto emocional em que se encontrava e pousar no meio, não de um oásis, mas do oásis onde Alexandre, o Grande, entrara como homem e saíra como um deus.

Por dentro e por baixo das incongruências da altura magra e desengonçada e do rosto cavalar, existia uma mulher como todas as outras: que ansiava ser amada, que precisava da força de um homem e que desejava ser envolvida num calor que durasse para sempre. Para Dorcas Chandler, Charles Burdum representava tudo o que ela sempre desejara, mas sabia que nunca poderia ter. Sem nada mais para lhe oferecer senão os conselhos e o conhecimento de uma atividade que compreendia até à raiz, Dorcas dava-lhos com toda a sua sinceridade, pois punha o coração em tudo o que fazia por ele. Dorcas amava Charles Burdum, embora ele nunca viesse a saber. O cão velho, o osso supurante… mas era melhor isso do que não ter osso nenhum.

Dorcas tinha o seu orgulho, nunca esquecendo que criaturas tão pouco abençoadas como ela não deviam ter orgulho. Assim, foi tomar chá com Kitty esmagada por sentimentos contraditórios. A empregada feia fora obrigada a dizer à esposa linda que ela não estava no seu melhor, a mulher orgulhosa determinada a manter o seu amor secreto de modo a preservar a sua autoestima.

Kitty foi direta ao assunto logo no início.

— Dorcas, não fiques aí sentada com um machado metafórico pousado sobre a nuca — disse ela, servindo o chá. — Come um biscoito de aveia, ficam deliciosos mergulhados no chá quente, nunca se desfazem… não há nada pior do que pescar pedacinhos de biscoito empapado numa chávena de chá, não é possível fazê-lo com elegância.

— Eu… hã… nunca mergulhei um biscoito no chá — disse Dorcas, tensa.

— Oh, minha pobre coitada! Não sabes como é divertido! Trouxe a receita dos biscoitos de aveia do presbitério… são feitos com Golden Syrup e não açúcar, ou então não é um biscoito de aveia como deve ser. Não tens irmãs, senão já tinhas experimentado.

— Eu não tenho irmãs e não mergulho o biscoito, mas isso é um silogismo.

— Como todos os gatos são cinzentos no escuro? Mas não são.

— Sabes o que é um silogismo — disse Dorcas. — Pouca gente sabe.

— E não estou com disposição para ser distraída, Dorcas. Charlie mandou-te falar comigo para me dizeres que eu deixasse de me vestir e agir como uma mulher da quinta agora que ele tornou públicas as suas ambições políticas. Os homens são tão tolos! Até Grace o mencionar, acho que ele não tinha reparado na minha metamorfose. — Kitty riu à gargalhada e suspirou. — Bem, Grace é assim e já foi embora há dez meses. Podes dizer a Charlie que acataste as suas ordens, mas que eu não fiz qualquer comentário. Falarei com ele a meu tempo e, quando o fizer, ele vai compreender. Não, melhor dizendo, ele vai ouvir-me e perceber. Ele nunca vai compreender, não faz parte da sua natureza. Hoje, quero falar de ti.

Dorcas arregalou os olhos.

— De mim?

— Sim, de ti. Quero saber qual é o teu segredo terrível, aquele que põe em risco este trabalho de sonho. Tens tanto medo de o perder.

Nenhuma resposta veio dela. Dorcas deu um gole no chá e trincou um biscoito.

Kitty observou, completamente em controlo da situação. Dorcas tinha vestido um fato de duas peças de tweed cor de ferrugem com toques de preto e usava um chapéu sofisticado de feltro preto inclinado para o lado esquerdo da sua cabeça; o seu cabelo castanho-bronze estava bem cortado e fora ondulado, e melhorara a forma como maquilhava o rosto, sobretudo à volta dos olhos. Olhos sensatos, mas vulneráveis.

— Vá lá, Dorcas, é óbvio que tens um segredo terrível — disse Kitty, sorrindo-lhe com amabilidade e compreensão genuínas. — Eu quero ajudar-te, mas não posso fazê-lo até confiares em mim o suficiente para veres que quero ser tua amiga e aliada. Então, deixa-me dizer-te o que eu acho que escondes.

— Senhora Burdum, tudo o que disser será pura imaginação.

— Oh, não, fazeres de conta que não se passa nada não me vai convencer! A formalidade é apenas outra cerca atrás da qual nos podemos esconder. — A voz de Kitty juntou um toque de ternura à sua amabilidade. — Quando eras uma rapariga muito imatura e ignorante, por volta dos quinze anos, algum homem aproveitou-se de ti de uma forma bastante cruel e cínica. Desconfiei que não tivesses irmãs, porque elas teriam cuidado de ti como uma mãe nunca seria capaz de fazer. Quaisquer que sejam os seus motivos, as mães conseguem ser horrivelmente destrutivas e tão cegas em relação às suas filhas!

— Não disseste nada que me impressionasse até agora, Kitty.

— Tiveste um bebé… um filho, acho eu, a quem amas muito. Mas quem te drena a carteira é o pai dele, que te chantageia.

A revolta saiu de Dorcas com uma força quase explosiva, deixando-a indefesa. Horrível de ver, mas quanto mais difícil de suportar?

— Hoje, a sanguessuga nojenta desaparece — disse Kitty com firmeza. — Não, ele vai desaparecer! A razão da sua chantagem vai deixar de existir, porque vais contar a Charlie tudo sobre ele. Dorcas, não ajas como Grace, não comeces a chorar! Faz como a nova Grace, que ganhou escrúpulos de um dia para o outro, quando o lobo mau começou a tentar deitar-lhe a porta abaixo. Os teus pais deserdaram-te? De certeza que não!

— Não, eles ficaram com o Andrew para que eu pudesse continuar com o jornalismo. Tinha vinte anos quando aconteceu, não quinze, mas era tão burra! O pai de Andrew fez muitos estragos nas aldeias da parte mais baixa das Montanhas Azuis… atraente, encantador, um pregador deslumbrante, repleto de espírito evangélico! Entregamos-lhe todo o nosso dinheiro… os crentes religiosos são alvos tão fáceis! Até lhe entreguei o meu corpo… sentia-me tão grata por ele me achar atraente, mas tudo o que o filho significa para ele é dinheiro e mais dinheiro.

— Quantos filhos teve ele?

— Essa é a parte mais estranha da história — disse Dorcas, pensativa. — Apenas o Andrew.

— Que idade tem o Andrew agora?

— Catorze. Frequenta a escola pública em Katoomba.

— Então, quase todo o teu salário chorudo vai para os teus pais, o teu filho e o poio chantagista. A minha costureira deve ter-te poupado dinheiro precioso.

Dorcas humedeceu os lábios com a língua.

— Como é que sabias?

O riso foi vitorioso, alegre.

— Minha querida, tu andas como uma mulher que já teve um filho e sabes demasiado sobre o mundo para seres virgem. Que o teu segredo era um filho ilegítimo, era óbvio. O que mais poderia pôr em risco um emprego de sonho? — O tom violeta esmoreceu nos olhos de Kitty. — Não é tarde demais para resgatar o Andrew. Trá-lo para viver contigo em Corunda o mais rapidamente possível… ainda não chegámos a dezembro e, quando a escola começar em fevereiro, ele pode frequentar a Corunda Grammar, uma escola privada. Quando se matricular já fará parte de Corunda e Charles já o terá acolhido debaixo da sua asa.

Uma Dorcas trémula olhava fixamente para ela, aterrada.

— Não posso contar a Charles! — chorou ela. — Ele despedir-me-ia logo… que escândalo!

Kitty fez um barulho grosseiro com a boca.

— Disparate! Que mulher tonta, como é possível trabalhares com Charlie há tanto tempo e com tanta proximidade e, no entanto, não o conheceres minimamente? Isto é o pão-nosso de cada dia para ele! Charlie, o defensor das causas perdidas, indiferente à tua situação? O pai do teu filho, um parasita pútrido que se alimenta da mãe do rapazinho, explorando-a durante catorze anos? O meu marido tem consideração por ti e gosta de ti… é a resposta dele! O Andrew é um menino bonito?

— É lindo, mas tem algo ainda melhor… carácter.

— Conta a Charlie! — pediu Kitty. — Conta-lhe já, hoje, neste instante. Ele está do outro lado desta imensa catedral ecoante, a alguns metros daqui. Levanta-te, levanta-te! Levanta-te, mulher! Vai e conta-lhe tudo exatamente como me contaste a mim e pede-lhe que se veja livre do pai de Andrew. Oh, ele vai adorar isso! Já passou tanto tempo desde a última vez que vestiu a armadura que ela até já perdera o brilho e o seu cavalo de batalha já chia por todos os lados. Isto vai animá-lo. Vai, vai!

Intimidada pela pressão de Kitty, Dorcas saiu para expor os seus pecados.

Kitty fez uma chamada de longa distância para Lady Schiller II, que se encontrava em Melbourne. O Natal de 1933, decidiu ela, seria a reunião em Corunda das quatro irmãs Latimer. Dez dias, do Natal ao Ano Novo… As últimas combinações em falta eram as suas.

Com esse pensamento incandescente como pedaços de carvão acabados de soprar, Kitty conduziu até Corundoobar quando o Sol se pôs e encontrou Jack acabado de chegar do cercado dos cavalos. Ela sabia-o porque a sua caixa de correio em forma de contentor de petróleo junto à cancela estava vazia. Deixando o carro no sopé da colina, Kitty caminhou pelos jardins em flor, parando para admirar uma única rosa esplendorosa, um arbusto de flores-de-cera-de-geraldton, ervilhas-de-cheiro a lutar por um lugar na treliça. Como é que ele arranja tempo? Sim, ele estava em casa. Alf e Daisy vieram recebê-la, um momento de sorrisos e abanares de cauda… os cães de Jack eram demasiado bem-comportados para saltar e lamber. Em seguida, Jack saiu para o alpendre da entrada, o cabelo ainda molhado do duche, e esperou por ela.

Quando chegou ao último degrau, que parecia baixo devido à altura de Jack, Kitty inclinou o queixo para olhar para cima.

— Venho viver contigo — disse ela —, neste preciso momento.

— Não é sem tempo — respondeu ele, solenemente. — Não vou dizer que estava farto de esperar, mas cresceram-me uns quantos cabelos brancos em noites sem luar. — A mão dele desenhou no ar um círculo amplo. — Aqui estamos nós, Kitty. Todo teu de corpo e alma.

— Serei tua amante, mas não poderei ser tua esposa. Charlie nunca me daria o divórcio.

— Vivemos como queremos em Corundoobar. Aceitamos-te de qualquer maneira sem sombra de arrependimento.

Nem um único resquício de dúvida a tomou de assalto, mesmo agora que o momento era uma realidade. Os abraços, os beijos, as relações sexuais aconteceriam, mas por agora Kitty não sentia necessidade disso, demasiado entusiasmada com a vaga de paz e conforto que invadiam o seu espírito.

E, compreendendo o que ela sentia, Jack ficou ao seu lado a ver o sol carmesim ser engolido pelos mensageiros da noite.

Em seguida, colocou o braço à sua volta e virou-a para a porta.

— Vem para dentro, está frio.

— Tenho uma mala no carro, mas tenho de devolver o carro a Charlie — disse ela, um pormenor aborrecido. — Não quero nada dele, nada!

— Eu sei. Não te preocupes e não fales dele.

Bert, o gato, encontrava-se na cadeira de Jack e foi enxotado tão rapidamente que caiu, ainda meio a dormir e imensamente indignado, no chão. Jack sentou-se com Kitty ao colo.

Quando se encostou a ele, Kitty sentiu o ritmo constante do coração de Jack, e nada mais importava. Nem nunca haveria de importar. Oh, meu querido Deus, concede-lhe uma longa vida! O único medo que me atormentará agora é pensar em existir sem ele. A cabeça de Kitty pousou sobre o ombro dele, os olhos fechados com as pestanas húmidas. Finalmente, estou em casa.

Como diretora-adjunta de um hospital, cujo diretor estava prestes a passar-lhe as suas responsabilidades, Tufts ofereceu a Edda e Rawson uma das casas dos funcionários na propriedade do hospital quando vieram a Corunda passar o Natal de 1933, e depois fez o mesmo com Grace e os rapazes. Como membro do parlamento, Charles Burdum não conseguia gerir o hospital; Tufts estava firme e segura no seu cargo. Ela e Liam tinham comprado casas adjacentes em Fergunson Street e mandado abaixo a cerca que as dividia; partilhavam refeições, o jardim, os tempos livres, dois cães e três gatos, os animais esterilizados. O reverendo achava que eles eram o único casal que ele alguma vez conhecera que, em termos de atitude mental, tinham passado logo da juventude para a velhice; entusiasmados com algumas coisas, movidos por tudo, sensibilizados por tudo, derrotados por nada.

Todos em Corunda ainda recuperavam do choque que abalara por completo o distrito quando Kitty Burdum, sem qualquer aviso ou sinal, deixou Charles Burdum e os seus muitos milhões para se mudar para Corundoobar e lá viver em pecado como amante de Jack Thurlow. Sem se esconder, sem fugir, sem evitar todo e qualquer habitante da cidade Não levara nada da Casa Burdum consigo… nenhuma das suas joias, peles, roupa… nenhuma mobília ou ornamentos… nem mesmo (dissera ela, de forma bastante estranha) um ralador de queijo. Com ela foram os seus livros, papéis, cartas e álbuns de fotografias.

O que mais chocava toda a gente era o facto de ela parecer tão desavergonhadamente feliz! Quanto a Jack… bem, ele não era do tipo de complicar as coisas, incluindo a sua união adúltera. No entanto, as pessoas repararam que tinha muito menos rugas no rosto do que antes e que, por vezes, quando não sabia que estava a ser observado, tinha um ar ligeiramente complacente, como um gato. Tal como o seu enorme gato, Bert.

 

Charles Burdum fora o primeiro a saber. Uma nota de Kitty para Dorcas pedira que esta se certificasse de que ele era deixado em paz até dar algum indício de que queria companhia. O instinto disse a Dorcas para obedecer sem reservas.

Desta forma, Charles desceu sozinho para tomar o pequeno-almoço e encontrou uma carta manuscrita em cima do seu prato, com a aliança e o anel de noivado de Kitty em cima, como uma guarnição cintilante num pacote de papel. Quando viu os anéis, percebeu tudo; com o peito e o estômago pesados, como se tivessem pesos de chumbo, rasgou o envelope num frenesi.

Charles, marido,

Os anéis já te disseram, mas vais precisar de palavras para lhes dar voz, e descobri

que sou demasiado cobarde para to dizer pessoalmente. Irias levar-me para a velha

confusão com intimidações e discursos, e a situação iria arrastar-se. Não seria evitada,

Charlie. O machado está nas minhas mãos e estou determinada a deixá-lo cair de

forma clara e simples.

Eu não te amo. Acho que nunca amei, mas fizeste-me acreditar que sim. Depois,

assim que me tiveste, nunca mais pensaste em mim sem ser como uma posse tua.

Não, isso não está certo. Pensaste na pessoa que precisavas que eu fosse, mas nunca

paraste para ponderar se eu era mesmo essa pessoa ou alguém diferente. És capaz de

gerir empreendimentos gigantescos e ganhar muito dinheiro, mas não consegues ler o

carácter das pessoas e és cego no que toca às suas almas. A mulher com que casaste

nunca fui eu, Kitty. Dou graças a Deus pelos nossos filhos não terem vindo ao

mundo. Qualquer que fosse a sua natureza, tu ias obrigá-los a ser quem tu querias

que fossem e terias acabado por os destruir. Podes até ser benevolente, mas és

também um autocrata.

Escrevo estas coisas cruéis pois é a única maneira de tu acreditares que tudo

acabou. Acabou. A mulher que tu queres deve ter a minha aparência, mas o cérebro

da Dorcas. Foste enganado pela minha capa, não fazias a mínima ideia do conteúdo.

Não sou uma mulher adequada para um político. A política aborrece-me ao ponto de

querer gritar. Casa com a metade que tem o cérebro, a Dorcas. Mas não o vais fazer.

És demasiado fraco para aguentar a troça que um casal tão incongruente provocaria.

Vou viver em adultério com Jack Thurlow, que diz que eu sou uma mulher da

quinta. Com Jack, posso desaparecer na floresta e correr feliz pelo campo. Por favor,

não me perdoes!

Kitty.

À medida que a pura incredulidade dava gradualmente lugar à certeza, os primeiros pensamentos de Charles recaíram sobre Sybil, a filha do duque, e a sua humilhação na altura, embora desta vez a situação fosse muito mais recente e importasse muito, muito mais. Uma raiva tremenda submergiu-o, uma fúria que quase o fez vomitar, o garfo de prata de lei numa mão uma zombaria perversa, o uivo que saiu da sua boca aberta demasiado alto e estridente para qualquer ouvido. Ele, Charles Burdum, fora abandonado como uma carcaça guardada durante demasiado tempo.

Ele queria e desejava magoá-la… magoá-la de tal maneira que a única coisa pior fosse matá-la, poupando-a por pouco para que existisse num autêntico inferno mais quente que o fogo, ainda que mais frio que o gelo, esmagada e mutilada por dentes, farpas, garras, presas, gadanhas, a sua beleza obliterada. Odiando-a, amaldiçoou-a, perguntando nos abismos da sua mente porque não havia uma emoção ainda mais forte que o ódio para alimentar a sua raiva.

A imagem de ódio em movimento continuava sem parar, a sibilar e a deslizar pelo seu cérebro até ele não conseguir imaginar mais horrores para lhe infligir. Foi nessa altura que ele chegou ao fundo do poço, onde se estatelou sem vida, sem sensações, apenas o vácuo de uma perda terrível que nunca iria sarar por mais talas e ligaduras que lhe aplicasse.

Rastejar para fora do poço foi ainda pior, feito com muito sofrimento e desespero, espasmos de dor, uma tristeza monstruosa que levou lágrimas a cair sem parar até parecer que as sangrava, a força da vida a abandoná-lo, a ele que ela considerava indigno, incapaz. O amor da minha vida, a minha Kitty, a minha Kitty!

Num lugar ermo e monótono, pouco acima do poço, esperou por qualquer tipo de ânimo, sem saber que forma poderia este assumir, e pensou se isto era a morte e se transfigurara ou se isto era a vida e carbonizara nas fornalhas da sua alma. Contudo, depois lembrou-se de ter embatido violentamente e morrido, embora não tivesse morrido, apenas se tivesse erguido das chamas como uma fénix, recém-nascido e vivo entre as cinzas.

Ele era Charles Burdum, embora não fosse mais o homem que existira até este dia. Diz, Charles! Diz! Até Kitty te deixar. Sim, um novo Charles Burdum. Um Charles Burdum diferente, que traria sempre consigo a marca do poço, para sempre marcado; mas ninguém… ninguém!… alguma vez suspeitaria. O seu caminho era claro, encontrado no meio das tempestades que o tinham consumido. Oh, Kitty, como eu te amo! E tu deixaste-me. Tu deixaste-me a mim, Charles Burdum!

Força moral, compreensão, perdão, amabilidade, generosidade… vou irradiar todas essas virtudes e muitas mais, porque um Charles Burdum benévolo, alegre e desinibido vai dizer ao mundo que a sua esposa adúltera e vadia não tem o poder de ferir um homem assim de qualquer maneira. O quê, isso? Puf! Um nada, é verdade… iria eu mentir?

Um divórcio imediato de Kitty, o mais discreto e menos comentado que a sua influência permitia, libertando-a para estar com o seu príncipe encantado, alto, robusto, labrego e bucólico, e legitimar os seus (muitos, com certeza) filhos. Não era demasiado orgulhosa para ficar com as sobras da irmã… será que comparavam notas sobre o desempenho dele na cama? Aliás, com quantas das quatro irmãs teria ele dormido?

Quanto a ele mesmo, isso era fácil. O novo Charles Burdum era um homem divorciado, mas respeitável, um primeiro-ministro independente que mantinha as suas relações com mulheres simples e usava a sua consultora política com cara de cavalo nas poucas ocasiões em que precisava de uma anfitriã… nem uma ponta de escândalo sairia dali! Irónico que afinal ela tivesse um filho. Bem, a Casa Burdum estava a passar por sérias remodelações… um apartamento espaçoso para mim e outro para Dorcas e Andrew Chandler. Talvez o rapaz viesse a ser um maior consolo do que um filho do seu próprio sangue? É certo que esse filho teria puxado ao lado das Latimer. Vadias vulgares e ordinárias… mas essa é a tua opinião pessoal, Charles! Em público? Apenas mal orientadas, pobres criaturas!

Eu caí porque confundo uma vadia com uma senhora, pensou ele, mas ergui-me novamente, uma fénix. Ainda tenho uma vida para viver.

 

O reverendo travou uma luta difícil com a sua consciência, mas o amor que sentia pela filha e um carácter suficientemente bom para assumir as suas próprias falhas fez com que fosse a público apoiar a atitude socialmente condenada de Kitty. O facto de ela viver em situação de adultério fez com que ganhasse muitos inimigos, embora poucos condenassem Jack, visto como o lorpa dela. Sentindo-se estranhamente livre, o reverendo Thomas Latimer pendurou a sobrepeliz e reformou-se; dois dias depois de o escândalo rebentar, Thomas arrumou tudo o que precisava da sua propriedade no presbitério e mudou-se para a casa creme e verde de Grace, em Trelawney Way. O seu raciocínio era simples: se Deus não tivesse feito homens e mulheres com falhas, da carne e outras até bem piores, não haveria qualquer necessidade de homens religiosos nem de polícias. Por isso, abandoná-los quando imploravam por ajuda era um pecado tão grande como o deles.

Podia até não ser aprovado, mas o seu trabalho no orfanato, no asilo, no hospital e com as pessoas que sofriam as consequências da Grande Depressão continuou e era recebido com gratidão. A vida em Trelawney, descobriu ele passado pouco tempo, era interessante, variada e recheada de pecado. Era mesmo o tipo de lugar para ele. É claro que pagava uma renda a Grace, plantava vegetais e mimava as galinhas para darem ovos.

As suas filhas eram agora uma parte maior da sua vida do que antes, mas, quando se encontrava em Corunda, não passava um dia sem visitar Maude. Mantinha-o humilde, com a mente nos mistérios de Deus.

As irmãs estavam genuinamente contentes por Kitty. A culpa que sentiam por tê-la pressionado a casar com Charles pesara-lhes nos ombros cada vez mais à medida que o tempo passava. Por isso, vê-la assentar com o homem certo para ela era tanto um alívio como um prazer. Talvez apenas Edda compreendesse quão longa e penosa fora a jornada de Kitty, mas Edda era a irmã que matava os demónios, e estivera sempre presente para matar todos os demónios de Kitty, exceto Charles, o último e mais terrível. Esse, Kitty tinha de matar sozinha.

Embora pouco tempo tivesse passado entre o momento em que Kitty deixara Charles e a reunião das quatro irmãs e dos seus homens, a atitude de Charles Burdum era deixada bem clara e apregoada aos sete ventos: iria ser um mártir, suportando heroicamente o estigma do marido traído. O quê, isso? Puf! Um nada, é verdade… iria eu mentir?

Reuniram-se para o jantar de Natal em Corundoobar, incluindo o reverendo, que conhecia muito bem Charles.

— Muito astuto — disse o reverendo a Rawson, de quem gostava muito mais como pessoa do que alguma vez gostara de Charles. — Não há indícios de amargura, certamente nada que possa virar os seus apoiantes políticos contra ele. Fico feliz por Kitty. Alguns, é claro, nunca a vão perdoar.

— Também significa que os jornais mais importantes não conseguem desenterrar pormenores sórdidos suficientes para criar um escândalo amplamente publicitado a partir disto — disse Rawson, adorando o reverendo como uma pessoa que não se afastaria enojado se soubesse o segredo de Rawson. — Os habitantes de Corunda sentem-se relutantes em discutir o assunto com pessoas de fora.

Liam Finucan riu-se.

— Os habitantes de Corunda podem adorar Charlie, mas também adoram Jack Thurlow, por mais que Charlie não goste de o ouvir.

Jack não ouviu o comentário porque estava a cozinhar e tinha a cabeça sobre um tabuleiro, no qual se encontrava uma magnífica perna de porco, com a pele tostada na perfeição. Jack levantou a cabeça, sorrindo.

— Já não falta muito para o jantar — anunciou ele.

— Crias os teus próprios porcos? — perguntou Rawson.

As sobrancelhas claras levantaram-se.

— Não comeria carne de porco vinda de um talho. A minha é de graça, os pequenos diabos correm por todo o lado. Ficam com pouca gordura e com a carne mais tenra. A única coisa que os faz ficar na pocilga é a piscina. Deitam-se nela com os focinhos de fora, a fazer bolhinhas. E quando são mais velhos e se tornam uma carga de trabalhos, é altura de cozinhar porco assado.

— Vais deixar a Kitty cozinhar? — perguntou Liam.

— Estou a ensiná-la, mas ela é tão pequena que tenho de ser sempre eu a fazer a perna do porco.

Tufts estava sentada a beber xerez e a divertir-se a ouvir Grace falar sobre a vida numa parte elegante de Sydney. Quem diria que a viúva Olsen iria gostar de lá estar como uma abelha num oceano de flores repletas de néctar.

— Nunca escondi os problemas que tive com a Depressão — disse ela, gesticulando com o copo na mão sem derramar uma única gota. — Tem de se ter uma aura de glamour, e um marido que se suicidou durante a Grande Depressão preenche o requisito. No entanto, não para os rapazes. Eles adoram aquela vida! — Os seus olhos ficaram de um tom mais escuro de cinzento. — Quando Kitty pulou a cerca para o novo recinto, fiquei preocupada que Charles azedasse, o que teria sido uma pena. Ainda assim, tinha Rawson na manga, por isso não teria conseguido seguir o meu plano se Rawson não existisse.

— Terias trocado a tua nova vida pelo salto para a liberdade de Kitty? — perguntou Tufts.

Grace fez um ar desdenhoso.

— Essa é uma pergunta indigna e tu sabes disso. Para ver Kitty feliz, regressaria de bom grado para a vida em Trelawney Way.

— Podes baixar as tuas defesas, Grace — disse Tufts a sorrir. — Só estou a fazer de advogado do diabo.

 

Edda e Kitty sentaram-se juntas no alpendre da casa, olhando para a curva do rio que abraçava a casa e os jardins. Do interior vinha um murmúrio de vozes, que subia e descia, enquanto Tufts punha a conversa em dia com Grace e os homens providenciavam um barulho de fundo ressonante.

— Estás feliz? — perguntou Kitty a Edda, uma pergunta honesta.

O rosto de porcelana virou-se para Kitty, surpreendido.

— Para me perguntares isso, valeu a pena salvar-te.

— Sim, eu percebo. Mas não me respondeste.

— Estou feliz. Apenas não extaticamente feliz como tu — respondeu Edda. — Estou a exercer a profissão para a qual nasci e o meu marido ama-me. — Edda suspirou, um som mais pensativo do que triste. — Quem me dera que ele me amasse mais.

— Então é bom que tenhas o teu trabalho. Nada é tão doce que não tenha um resquício de amargura.

Edda riu.

— Queres dizer que a vida é assim, Kitty. Agridoce.

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Colleen McCullough

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