Agridoce

Colleen McCullough · Capítulo 2 de 7 · parte 2/3

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Agridoce

PARTE UM: Quatro Enfermeiras de Uma Nova Geração

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A meio de retocar o batom e o pó de arroz, Grace olhou para cima.

— O que queres dizer com isso? — perguntou ela.

— Oh, Grace, não sejas tão burra! Porque achas que a enfermeira-chefe nos deu aquele sermão sobre as freiras, a castidade e as prostitutas? O que ela estava mesmo a dizer é que nos próximos três anos não vamos ter relações sexuais, mesmo sendo ainda mulheres. Não podes namoriscar com nenhum dos médicos, Grace, faças o que fizeres. Seria muito mais provável que a enfermeira-chefe te perdoasse por matares um paciente do que se te comportasses como uma prostituta. É por isso que vamos usar uniformes feios e meias grossas de tricô pretas. Também aposto que não é permitido usar batom ou pó de arroz.

— Chora outra vez, Grace, e eu mato-te! — ameaçou Edda.

— Quero ir para casa!

— Não queres, não!

— Detesto limpar porcaria — disse Grace, ficando de repente mais animada. — Ainda assim, quando eu tiver vinte e um anos, já serei enfermeira registada e poderei fazer tudo o que me apetecer sem pedir permissão. Até casar com quem eu quiser e votar nas eleições.

— Desconfio que a coisa mais difícil que vamos ter de fazer é aprender a dar-nos bem com as outras enfermeiras — disse Edda, pensativa. — Quer dizer, quem são elas? Nenhuma de nós alguma vez esteve internada num hospital, nem os nossos pais se dão com gente do hospital. Achei abominável a instrução da enfermeira-chefe para controlarmos a nossa aparência e pronúncia. Deduzi que o que ela queria dizer é que nós somos mais distintas que as outras enfermeiras, a nível social e de educação. Nunca fomos snobes, o pai ficaria chocado com tal acusação, sobretudo tendo a mamã como exemplo. — Edda suspirou e continuou: — Mas, infelizmente, as pessoas tendem a julgar o livro pela capa.

Tufts exibiu o seu conhecimento de factos locais mais uma vez.

— As enfermeiras são todas do West End e estúpidas como portas — disse ela.

— Bem, vamos começar por retirar frases como «estúpidas como portas» do nosso discurso — avisou Edda.

Oh, Tufts conseguia ser tão irritante! O problema é que ela não era muito de falar, por isso nenhuma das outras esperava que o seu silêncio ocultasse informação.

— Sempre achei que usar um guardanapo às refeições aumentava imenso a quantidade de roupa para lavar — disse Kitty com alegria. — Quer dizer, podemos limpar a boca com a mão e, se tivermos o nariz a pingar, temos a manga para o limpar.

— É verdade — disse Edda num tom grave. — É melhor começarmos a treinar limpar bocas e narizes, bem como feridas, pois duvido imenso que haja guardanapos ou lenços… muito menos de renda.

Edda fez um ar enojado e disse:

— Que coisa estúpida, lenços de renda.

Kitty aclarou a garganta ruidosamente.

— Eu sei que me costumo ir abaixo, meninas, mas não sou cobarde. Nem toda a perfídia do West End me vai derrotar. A enfermagem não me atrai como a ti, Edda, porque para ti é a coisa mais próxima de medicina. Mas acho que vou conseguir aprender a gostar.

— Linda menina, Kitty! — exclamou Edda, aplaudindo o pequeno discurso.

Kitty descarregava agora, perante os seus olhos, o fardo da infância. Ela vai ficar muito melhor, pensou Edda, sinto-o no fundo do meu ser. Tão aberta relativamente a Maude, tão consciente dos perigos que espreitavam em redor de Maude. Depois de Maude, as raparigas do West End não eram nada.

— Já ultrapassei o desgosto de não poder seguir medicina — disse Edda a Kitty, com receio de que a sua desventura estivesse a ser exagerada na cabeça de Kitty. — A enfermagem é uma profissão mais sensível e a nossa formação como enfermeiras de nova geração significa que não nos vamos tornar ignorantes que sabem colocar uma ligadura, mas que não sabem porquê. Pensa em mim como um velho cavalo de batalha, a mais pequena lufada de éter põe-me a relinchar e a escoicear o chão. Num hospital, sinto-me viva!

— Por falar em relinchar e escoicear, Jack Thurlow sabe que vais estudar enfermagem? — perguntou Tufts maliciosamente.

A pergunta surtiu efeito. Edda sorriu e respondeu:

— É claro que sabe. E o coração dele não está mais partido que o meu. O mais difícil vai ser manter Fatima treinada à altura das expectativas de Jack. Atrevo-me a dizer que, no futuro, vou andar a cavalo sozinha muito mais vezes.

— Se ainda tivesses a Thumbelina, seria mais fácil — disse Grace. — O papá não teria de estar sujeito a Jack Thurlow, que nem sequer frequenta a igreja.

Kitty interveio no momento em que começou a antever uma tempestade a formar-se no rosto de Edda.

— Cala-te, Grace, isso nem é discutível! A minha eterna pergunta, Eds, é porque gostas de andar a cavalo?

— Quando estou montada num cavalo, estou a pelo menos um bom metro e meio de distância do chão — respondeu Edda num tom sério. — Para mim, essa é a parte mais emocionante de andar a cavalo. Ser mais alta que um homem.

— Quem me dera ser alta! — exclamou Kitty com um suspiro.

A porta do vestíbulo rangeu e abriu-se. A irmã Bainbridge surgiu e lançou um olhar furioso às suas alunas.

— O que significa isto, enfermeiras? Ainda nem sequer começaram a desfazer as malas!

O Hospital de Corunda era o maior hospital regional na Nova Gales do Sul, com cento e sessenta camas na sua secção de cuidados gerais, oito camas na ala psiquiátrica e trinta camas no lar de convalescença/idosos no caminho de Doobar, onde o ar e a altitude eram considerados bastante mais benéficos. Ao contrário da magnificência de arenito da maioria dos hospitais, a sua aparência não encantava ninguém, pois mais se assemelhava a um quartel do exército. Construído em madeira sobre paredões e alicerces de calcário, era composto por uma série de estruturas retangulares compridas, a que só não chamavam barracões devido à existência de uma ampla varanda coberta de ambos os lados. As alas Um e Dois dos homens tinham o dobro do tamanho das outras, tal como as alas Um e Dois das mulheres. A consulta externa de crianças, o raio X e patologia, a sala de operações, as cozinhas e os armazéns tinham o tamanho regular, enquanto a administração, de frente para Victoria Street, se situava num edifício feito integralmente de blocos de calcário. A propriedade tinha vários hectares e estava salpicada de edifícios, desde a vivenda da enfermeira-chefe, que mais parecia saída de um livro de histórias, até casas edificadas durante a Grande Guerra, altura em que também fora um hospital militar. Um aspeto geral tornava aquele sítio viável: todos os metros quadrados de cada hectare eram planos, o que dera origens às plataformas e cabos que ligavam os edifícios como a ponte de Brooklyn ou uma teia de aranha — caminhos cobertos a que todos chamavam rampas. A maior parte das rampas estava protegida dos elementos por um cobertura e por painéis laterais de um metro e meio, embora os últimos duzentos metros de acesso à casa das Latimer se limitassem a uma rampa coberta. Na ala dos homens, o final da rampa fora totalmente fechado para se tornar uma sala de espera. O mesmo fora feito na ala das mulheres. Aqueles que visitavam as crianças podiam esperar no lado dos homens ou no das mulheres. A ala de partos era afortunada: situava-se dentro do edifício da administração, tal como as urgências e uma pequena sala de operações.

O choque perante a dura realidade continuava a fazer-se sentir de forma intensa nas raparigas Latimer, porém, se a apreciação de carácter feita pela enfermeira-chefe estivesse correta, nenhuma delas teria aguentado mais do que aquele primeiro dia no Hospital de Corunda. Tinham sido cuidadosamente educadas como senhoras e nunca dadas a bens materiais, mas Gertrude Newdigate já há muito esquecera a sua própria juventude e não tivera em conta a força e o carácter humanos.

O primeiro e o maior choque não foi a nível pessoal: tratou-se da perceção de que o hospital era o lugar onde o paciente era admitido para morrer. Mais de um terço dos pacientes saíam do hospital pela morgue, enquanto outros dois terços regressavam a casa para morrer. Tal estatística foi-lhes dada por um carrancudo porteiro do hospital chamado Harry, que acabou por se tornar uma autoridade docente para as quatro novas enfermeiras semanas antes de conhecerem o seu orientador, o doutor Liam Finucan.

— Está estampado nos olhos dos pacientes — exclamou Tufts, horrorizada. — Sinto-me mais um padre a dar a extrema-unção do que uma pessoa que cura. Como é possível que as outras enfermeiras sejam tão alegres?

— Estão habituadas e já se resignaram — disse Grace, com lágrimas nos olhos.

— Que disparate! — interrompeu Kitty. — São profissionais experientes, sabem que a melhor maneira de lidar com a morte é convencendo os pacientes de que não estão a morrer. Eu observo-as, não me importa o quanto sejam desagradáveis para mim. A forma como nos tratam não é importante. Observem-nas!

— Kitty tem razão — disse Edda, que guardava a sua indignação para coisas como usarem bocados de jornal como papel higiénico ou toalhas demasiados gastas para secar a pele molhada (mas, afinal, os hospitais não eram financiados?). — Grace, já gastaste a tua quota-parte de lágrimas de hoje, não te atrevas a chorar!

— Aquela enfermeira Wilson despejou-me uma taça cheia de vómito em cima!

— Levaste com o vómito em cima porque a enfermeira Wilson reparou como ficaste enojada quando o viste. Controla a tua repugnância, e não volta a acontecer.

— Quero ir para casa!

— Não me parece que isso vá acontecer, sua bebé — disse Edda, dissimulando a sua compaixão. — Agora, vai trocar de avental antes que o vómito passe para o teu vestido. Uff! Tresandas!

Ainda assim, a primeira semana acabou por passar e, no final desta, já as raparigas conseguiam vestir de forma irrepreensível as suas «folhas de cartão» engomadas, até mesmo dobrar as partes plissadas mais complexas da sua touca, que mais parecia um par de asas. As outras enfermeiras tinham uniformes e aventais mais razoáveis, incluindo mangas curtas, enquanto as Latimer, as alunas de nova geração, vestiam mais camadas que uma encomenda bem embalada.

A comida, como acabaram por descobrir, era horrível para os pacientes, bem como para os funcionários, mas estes trabalhavam tão arduamente que comiam qualquer coisa, desde couve espapaçada a molho cheio de grumos a nadar em gordura. A cozinha nos seus aposentos, informou-as a irmã Bainbridge, era apenas para fazer chá, café ou chocolate quente.

— Nada mais, nem sequer torradas — acrescentara ela.

O pastor protegera as suas raparigas dos aspetos mais terríveis e sórdidos da sua vocação religiosa, e excluíra as palavras incesto, sífilis e perversão do seu vocabulário. Devido ao clima e à falta de refrigeração, os mortos eram enterrados num caixão fechado num período de vinte e quatro horas. Desta forma, na segunda manhã da estadia das raparigas, quando a irmã Bainbridge lhes mostrou como dispor um cadáver, foi a primeira vez que alguma delas viu ou tocou num cadáver.

— Um sifilítico que violou a própria irmã — dissera Bainbridge a brincar.

A reação das raparigas a esta explicação foi um olhar vazio.

— Mantenham a vossa dignidade! — disse Edda, rindo da sua ignorância. — Lembrem-se de que somos Latimer. O que nos perturba hoje, amanhã já terá passado, não deixem que elas vos mandem abaixo! Nada de lágrimas nem depressões.

 

Sentiam-se sempre cansadas, de uma forma completamente nova para elas, o que era muito difícil de suportar. Os pés doíam, as costas doíam, as articulações doíam. Tudo o que lhes fora ensinado pela delicada Maude tinha de ser posto de parte, não havia lugar nem tempo para delicadezas no Hospital de Corunda, cujo diretor era um avarento que não estava disposto a atender às necessidades de ninguém a fim de poupar dinheiro, ao qual estava unido como uma sanguessuga a um pedaço de carne suculento.

Abril, maio e junho desapareceram num denso nevoeiro de exaustão, o que era bastante benéfico para o hospital. Nem mesmo Grace tinha energia para pensar em desistir. Só pensar em criar tal confusão assemelhava-se à ideia de subir o Evereste, completamente inatingível. Limitavam-se a aguentar.

Edda mantinha-as unidas, convencida de que a situação ia mudar, como acontecia com tudo devido à simples familiaridade. Talvez porque a única coisa que as mantinha resignadas e em silêncio era precisamente a única coisa que perderiam se voltassem para o presbitério: quartos aquecidos. Com o inverno à porta, era maravilhoso viver num ambiente quente, independentemente das imensas afrontas e insultos que a sua vida de enfermagem pudesse significar. Edda tinha a certeza de que, assim que provassem as suas capacidades às mulheres cruéis que as governavam, as recompensas chegariam: tais como cadeiras com assentos macios, a possibilidade de fazer tostas, um pouco de bondade. No final dos primeiros três meses, a formação começaria e as quatro raparigas seriam chamadas a pôr os seus cérebros, as suas mãos e as suas vozes a trabalhar. Os meses de abril, maio e junho não as diferenciaram das alunas do West End.

 

O tutor das raparigas era o doutor Liam Finucan, o patologista (e também o médico-legista do condado e cidade de Corunda). Aceitara ser docente por duas razões: a primeira, porque considerava que a inteligência das enfermeiras era uma capacidade desperdiçada; e a segunda, porque reparara na qualidade das quatro novas alunas, enquanto eram mandadas de um lado para o outro do hospital numa espécie de programa de orientação apressado.

Liam Finucan, um protestante do Ulster, formara-se em medicina no St. Bartholomew, em Londres, na mesma altura em que a enfermeira-chefe Gertrude Newdigate lá se encontrava, por isso já se conheciam há muito tempo. O seu amor pela patologia levou-o a conhecer o prestigiado Sir Bernard Spilsbury, e as suas qualificações eram tão elevadas que poderia ter dirigido o departamento de patologia de qualquer hospital em Sydney ou Melbourne. O facto de ele ter escolhido um posto inferior a esse no Hospital de Corunda devera-se à sua esposa, Eris, uma rapariga de Corunda, que ele conheceu e com quem se casou em Londres. Em 1926, quando as irmãs Latimer iniciaram a sua formação, já ele se encontrava em Corunda há quinze anos.

Como era típico da maior parte dos patologistas, era uma pessoa reservada e tímida, não tinha o comportamento adequado de um médico à cabeceira dos pacientes e considerava os mortos muito mais interessantes do que os vivos. No entanto, a meio de julho, duas semanas depois de ter começado a dar formação às novas alunas, Liam Finucan revelou uma faceta da sua personalidade até então desconhecida de todos aqueles que o conheciam e até mesmo de si próprio. De dentro dos estábulos mentais surgiu um cavalo de guerra e de dentro de um armário repleto de teias de aranha saiu uma armadura. Montado num e envergando a outra, Liam inclinou a sua lança e galopou para a batalha. O seu adversário não era aquele sovina miserável do doutor Frank Campbell, era a enfermeira-chefe Newdigate.

— Não deste qualquer tipo de ajuda ou apoio a estas quatro raparigas, Gertie, e isso tem de parar — disse Liam, a sua voz suave e melodiosa a soar como aço com sotaque estrangeiro. — Devias ter vergonha! Quando qualquer enfermeira convencional começa a trabalhar no hospital, é acolhida na família do West End e é mimada com conselhos e todo o tipo de gentilezas, enquanto estas quatro jovens não têm ninguém com quem contar. Não quero saber se desempenhavas o cargo há pouco tempo quando elas começaram, tinhas um dever para com elas que ignoraste de forma vergonhosa, só porque a sua mera presença irritava as enfermeiras do West End. Julgas que já esqueci como me torturaste durante a tua primeira semana, quando descobriste que íamos dar formação a estas novas alunas? Aqui estamos, a meio de julho, e agiste como se elas nem sequer existissem. Acomodaste-as numa casa decrépita, entregaste-as à supervisão daquela submissa gorda e preguiçosa, Marje Bainbridge, e recompensaste-a com metade da mesma casa!

Os olhos do doutor Finucan ficaram do mesmo tom cinzento-escuro do mar tempestuoso e fitaram-na com desdém.

— As tuas alunas de nova geração estão até mais cansadas do que deveriam estar — continuou ele. — A sua acomodação é típica do doutor Campbell: cadeiras duras e camas pequenas, uma cozinha que estão proibidas de utilizar. Por acaso, a sua casa é abrangida pela conduta de aquecimento a vapor, por isso não têm passado frio, mas são obrigadas a cortar lenha e a colocá-la na caldeira para terem água quente, e isso é inadmissível! Estás a ouvir? Criminoso! Apesar de serem privilegiadas, foram educadas para serem humildes. Tens sorte por a mãe delas ser uma cabra egoísta!

Liam inclinou-se para a frente o suficiente para assentar as palmas das mãos sobre a secretária imaculada da enfermeira-chefe, e olhou furiosamente para ela.

— A seguir vou falar com Frank Campbell, mas estou a avisar-te, Gertie, que espero poder contar com o teu apoio. Visto que as raparigas têm de viver cá, cada uma delas terá o seu próprio quarto. Vais providenciar uma sala comum com cadeiras confortáveis, e secretárias e estantes para livros para poderem estudar. Serão autorizadas a utilizar a cozinha à vontade, para cozinhar refeições leves, bem como líquidas, e certifica-te de que têm uma caixa de gelo antes da primavera. Levanta o teu traseiro mimado da cadeira e trata do bem-estar das raparigas! Usa os serviços de Marje Bainbridge como pau de cabeleira, mas não a rodeies de luxo. Ouvi dizer que vai haver dinheiro para construir uma nova casa para as enfermeiras, mas, até estar terminada, quero as minhas alunas acomodadas de forma adequada.

Gertrude Newdigate ouviu o discurso, mas não estava disposta a aceitar as culpas pela parcimónia de Frank Campbell.

— Trava as tuas batalhas com aquele homem asqueroso! — disse ela, friamente. — As minhas mãos estão atadas.

— Mentira! Já te conheço há vinte anos e não me assustas. E Frank também não. Gertie, pensa! Aquelas quatro raparigas têm tantas capacidades, aí é que está a tragédia! Porque hás de arriscar perder quatro potenciais enfermeiras-chefes para agradar a um bando de enfermeiras mesquinhas do West End, que não sabem distinguir sódio de potássio? Que não conhecem o termo latino ou grego de uma raiz medicinal, mesmo que este lhes mordesse o nariz? Dedica a tua energia com as raparigas do West End a convencê-las de que a medicina do futuro se fará com enfermeiras qualificadas. Não estejas tão agarrada ao passado!

A objetividade natural de Gertrude regressara. Compreendia o que Liam queria dizer, embora não tivesse tido a intenção de que fosse assim. O problema é que Gertrude trabalhava há muito pouco tempo no Hospital de Corunda e ainda não se apercebera das limitações das enfermeiras do West End no que dizia respeito a ciência ou teoria. No entanto, Gertrude tinha sempre um golpe baixo na manga.

— Como está a tua mulher? — perguntou ela suavemente.

Liam não mordeu o isco, apenas o repeliu desdenhosamente.

— A ser infiel, como é seu hábito. Algumas coisas nunca mudam.

— Devias divorciar-te dela.

— Para quê? Não tenciono arranjar outra.

 

As raparigas Latimer adoravam o doutor Liam Finucan, um raio de sol solitário num túnel imensamente escuro. Tendo descoberto o quanto as raparigas eram inteligentes e capazes, o doutor Finucan dedicou-se com vigor e entusiasmo à tarefa de as ensinar, encantado ao aperceber-se de que os conhecimentos prévios de matemática e física das raparigas lhes permitia compreender coisas como as leis da eletricidade e dos fenómenos gasosos. Eram tão competentes como os rapazes nos primeiros anos do curso de medicina. Quando a matéria era nova e desconhecida, absorviam o conhecimento avidamente. Até Grace, veio ele a descobrir, tinha mais do que capacidade suficiente para aprender a parte teórica, o que a impedia de fazer mais progressos era a sua falta de interesse pela enfermagem. Mencionara «quatro enfermeiras-chefes» a Gertrude Newdigate, mas era mais acertado falar em três. O que quer que Grace desejasse na vida, não era certamente tornar-se uma enfermeira registada.

A sua preferida das quatro era Tufts, a quem ele chamava sempre Heather. Edda era a mais talentosa e inteligente, mas Liam, o patologista, apreciava a organização, o método e a lógica, e Tufts era superior em todas estas áreas. Edda era a cirurgiã que dá nas vistas, Tufts a patologista paciente, não havia qualquer sombra de dúvida. A preferência do doutor Finucan por ela era recíproca. Nem a aparência atraente do cirurgião Max Herzen, com o seu monóculo, nem o charme bem-humorado do chefe de obstetrícia Ned Mason conseguiam competir com a atração que existia entre Tufts e o doutor Finucan, com o seu cabelo preto e grisalho nas pontas, rosto alongado e de traços finos e olhos azul-acinzentados. Não que a pouco romântica Tufts estivesse caidinha pelo doutor Finucan ou sonhasse com ele quando dormia, simplesmente gostava imenso dele enquanto pessoa e adorava estar na sua companhia. Conhecendo a sua natureza, as irmãs nunca cometeram o erro de gozar com ela quando o assunto era homens, muito menos o doutor Finucan. Apesar de não ser propriamente uma freira, Tufts fazia lembrar um monge.

 

O fogo que Liam acendeu sob os pés da enfermeira-chefe assemelhava-se um pouco a uma tocha, na medida em que a enfermeira-chefe também o acendeu sob os pés da irmã Bainbridge, que, por sua vez, o propagou à líder das enfermeiras do West End, Lena Corrigan. Esta sentiu o fogo queimar de tal maneira que o espalhou por todo o círculo restrito do West End. As queimaduras fizeram-se sentir nas semanas que se seguiram.

Pouco tempo depois, a casa das enfermeiras abriu e a mudança era abismal: cada uma das quatro raparigas ficou com um quarto individual; quatro cadeiras confortáveis e secretárias apareceram, como que por magia, numa sala comum, que até estava equipada com telegrafia sem fios; a cozinha passou a poder ser utilizada para preparar refeições leves; havia duas casas de banho e água quente. Harry, o porteiro, aparecia todos os dias a fim de recolher os uniformes para os levar à lavandaria, e havia nos armários da cozinha biscoitos, latas de compota, frascos de molhos, muito chá, café e chicória, cacau em pó, dióxido de carbono em pó para adicionar às bebidas frescas e as tornar gaseificadas, e concentrado de groselha-preta. Tudo isto não parecia nada quando se olhava para o esplendor da caixa de gelo, suficientemente espaçosa para guardar blocos de gelo grandes e manter frescos os ovos, o bacon, a manteiga e as salsichas.

— Morri e fui para o céu — disse Grace com um suspiro.

De repente, de modo completamente inesperado, a irmã Bainbridge foi transferida para uma casa mais pequena ao lado, na mesma rampa. Contudo, antes de se mudar, mostrou às raparigas as qualidades maravilhosas do sulfato de magnésio. Dissolvido em água quente numa banheira ou bacia, curava dores no corpo e nos pés. Como tinham sobrevivido até agora sem a magia do sulfato de magnésio?

— É a minha vez de morrer e ir para o céu — disse Edda. — Os meus pés parecem humanos novamente.

Apesar de as enfermeiras do West End ainda terem demorado vários meses a admitir que as emproadas alunas de enfermagem de nova geração eram tão boas a prestar os cuidados básicos quanto elas, a perfídia da sua perseguição cerrada esmoreceu. De que servia a perfídia se os seus alvos a superavam sempre?

— Já remonta a meados de julho — disse Edda quando setembro terminava, mergulhado num mar ondeante de narcisos amarelos. — Alguém fez a gentileza de intervir… mas quem?

Os seus palpites eram variados, e iam desde a enfermeira-adjunta Anne Harding à menos desagradável das enfermeiras do West End, Nancy Wilson, mas ninguém, nem mesmo Tufts, desconfiava da mão do doutor Liam Finucan no assunto. Este limitava-se a apreciar com enorme satisfação as suas quatro protegidas florescerem naquele ambiente mais feliz e gratificante.

 

— A Grande Guerra trouxe muitos avanços na área da cirurgia — disse o doutor Finucan, com a sua voz suave, à turma de quatro alunas —, mas fez muito pouco pela medicina curativa. Os maiores assassinos continuam a matar em grande escala: a pneumonia, a doença cardíaca e vascular. Enfermeiras como vocês representam o maior avanço de todos os tempos no tratamento da pneumonia.

As sobrancelhas do patologista arquearam e o seu olhar não parava de dançar de um lado para o outro.

— Em que medida? Não percebem porquê? Porque, minhas senhoras, os todo-poderosos da medicina agora compreendem que uma enfermeira bem treinada e instruída enfrenta a pneumonia de forma inteligente. Tendo conhecimentos de anatomia e fisiologia, não se limita a esvaziar a caneca de expetoração, a arrastadeira e o recipiente de urina do paciente e a mudar-lhe a cama. Não, esta nova enfermeira insiste com o paciente para se exercitar constantemente, mesmo quando confinado a uma cama; ela acredita que o paciente é capaz de fazer melhor, explica-lhe numa linguagem simples o que os médicos nunca lhe dizem, a natureza da sua doença, e nunca o deixa sozinho, a elanguescer como um boneco de peluche sem atenção, por muito ocupada que esteja. Apenas uma coisa pode salvar o doente de pneumonia: cuidados de enfermagem incansáveis e informados.

As raparigas ouviram avidamente e assimilaram tudo o que o doutor Liam Finucan não podia dizer: que apenas o conhecimento da ciência que se encontrava na base da enfermagem podia alentar uma enfermeira a esforçar-se para proporcionar o tipo de cuidado que o doutor Finucan exigia.

— É o mal das enfermeiras do West End — disse Edda às irmãs, enquanto comiam sanduíches com salpicão na sua cozinha aquecida. — Vivem em casa, carregam aos ombros o peso das preocupações que têm em casa, bem como as que levam daqui, mal sabem ler e escrever para além do básico e conhecem apenas a medicina que vão aprendendo nas alas com os pacientes. Algumas delas são enfermeiras muito boas, mas para a maioria é apenas um trabalho. Se um doente com pneumonia precisa de ser movido ou obrigado a tossir, ou se é necessário mudar-lhe a cama, isso vai depender do quanto as enfermeiras estão ocupadas, de como é a enfermeira encarregada do turno ou de que enfermeira do West End está de serviço. Não existe qualquer conhecimento de base.

Grace fungou.

— Não é provável que isso aconteça connosco — disse Grace com um ar desolado. — Dói-me a cabeça com todos os termos médicos e nomes de doenças.

— Vá lá, Grace, dói-te a cabeça porque só pensas no Rudolph Valentino.

— Adoro as aulas — disse Tufts, com o nariz enfiado numa cópia de Gray’s Anatomy.

— Se deixares cair gordura de salpicão nessa página, Tufts, vais ter sarilhos — disse Edda com um ar ameaçador.

— Quando é que eu alguma vez desperdicei uma gota de gordura de salpicão?

As aulas prosseguiram, o doutor Finucan não brincava em serviço.

— Não existem remédios ou técnicas farmacêuticas que valham grande coisa — disse ele — contra as doenças que matam mais. Sabemos o que os germes são e podemos destruí-los no meio que nos rodeia, mas não quando eles se encontram dentro dos nossos corpos. Um bacilo que infeta os tecidos, como a pneumonia nos pulmões, não tem tratamento possível. Conseguimos ver tudo ao microscópio, mas não há nada que possamos administrar oralmente ou através da pele ou por injeção subcutânea que o mate.

Por alguma razão, o seu olhar fixou-se em Tufts: uma enfermeira-chefe perfeita!

— Como sou o médico-legista do Hospital de Corunda, faço autópsias, que consiste na dissecação cirúrgica de mortos. O outro termo para autópsia é post mortem. Vão aprender bastante sobre anatomia e fisiologia à volta da mesa da morgue. Se a pessoa morta for um indigente, sem família ou amigos, posso abrir o cadáver minuciosamente para vos mostrar um sistema em particular: o linfático, o vascular, ou o digestivo, por exemplo. Espero que apareçam bastantes indigentes, o que geralmente acontece.

O doutor Finucan olhou para elas com um ar severo.

— Lembrem-se sempre disto, enfermeiras! O sujeito que se encontra por baixo da nossa faca é uma criatura de Deus, por mais humilde que seja. O que veem, o que ouvem, o que tocam e mexem é, ou foi, um ser humano vivo que fazia parte do grandioso plano de Deus, qualquer que ele seja. Todas as pessoas são dignas de respeito, inclusive após a morte. Enfermeira Latimer, não se pode esquecer de que os desejos do paciente são tão importantes e válidos como os seus. Enfermeira Treadby, lembre-se de que nem todas as crianças são puros anjos. Enfermeira Scobie, não se esqueça de que haverá alturas em que a maior parte dos seus adorados sistemas deixa de funcionar. Enfermeira Faulding, lembre-se de que até a maior porcaria que um paciente faz é parte integrante do plano de Deus.

O doutor Finucan sorriu com enorme satisfação e continuou:

— Não, não sou religioso como o vosso pai, minhas senhoras, pois o Deus de quem eu falo é a soma de tudo o que foi, é e será.

Um homem bom, era o veredito de Edda, partilhado por Tufts. Para Kitty, ele era um desmancha-prazeres e, para Grace, o doutor Finucan não passava da Voz da Perdição, reiterando o que podia ser considerado o resumo da sua vida enquanto enfermeira: porcaria, porcaria e mais porcaria.

As raparigas sentiam-se contentes por uma coisa: embora a enfermeira-chefe, o doutor Campbell e o doutor Finucan soubessem que elas eram irmãs gémeas, mais ninguém o sabia. Existia um enorme mundo que separava o presbitério de St. Mark e o Hospital de Corunda.

Na opinião de Edda, nenhum homem conseguia competir com Jack Thurlow, que conhecera pessoalmente num trilho equestre junto ao rio Corunda quando tinha dezassete anos. Naquela altura, tal como agora, montava um puro-sangue às manchas cinzentas com a crina e o rabo escuros, o tipo de cavalo que Edda daria tudo para ter, em vez da sua velha e gorda Thumbelina, embora soubesse que nunca o teria.

Ainda se conseguia lembrar daquele dia: o inverno chegava e as longas e graciosas vergastas dos chorões disparavam folhas amarelas, como uma tempestade de dardos esguios. A água do rio, clara como vidro, corria pelo cume da Grande Cordilheira Divisória, cujas velhas montanhas arredondadas dominavam a orla oriental de Corunda. Um mundo mágico de ventos fortes e cortantes, sopros de neve distantes, uma terra de odor intenso e um céu riscado de nuvens…

Jack galopava pelo trilho equestre e Edda viu-o pela primeira vez por entre uma chuva de lágrimas geladas de chorão. Montado de forma tão elegante no seu cavalo, com os braços morenos e musculosos à volta do pescoço da sua montada, quase sem segurar as rédeas. O cavalo e o cavaleiro eram velhos amigos, pensou ela, desviando Thumbelina do trilho e esperando para ver se ele passava por elas a grande velocidade, sem dar conta da sua presença, ou se parava para a cumprimentar.

O facto de o dia estar bastante nublado significava que ele não estaria a usar chapéu. Lentamente, o cavaleiro ergueu a mão à altura da sobrancelha, com os dedos fletidos, como se estivesse a agarrar a aba de um chapéu inexistente. Não era nenhuma estrela de cinema, mas para Edda era bem melhor do que aqueles cavalheiros artificiais, cheios de maquilhagem, rímel nas pestanas e lábios pintados. Um autêntico homem do campo de Corunda, lindo aos olhos adolescentes de Edda. Revelando boas maneiras, parou o cavalo, desmontou e ajudou Edda a descer de Thumbelina, apesar de esta não precisar de ajuda.

— Esta velhota necessita de ir pastar — disse ele, depois de se apresentar, acariciando o focinho de Thumbelina.

— Sim, mas agora o papá tem um carro a motor e ela é o único cavalo que sobra nos estábulos do presbitério.

— Proponho-lhe uma troca.

Edda arregalou os olhos claros.

— Uma troca?

— Proponho uma troca ao presbitério, para ser mais preciso. O recinto relvado que tenho em casa é demasiado pequeno para um cavalo tão novo e vigoroso, mas seria o ideal para a sua velhota. Fico com ela em troca de uma égua com quatro anos chamada Fatima, desde que a mantenha ativa — disse Jack, enquanto enrolava um cigarro.

— Se o papá aceitar, é uma pechincha! — disse Edda, entusiasmada, sentindo-se como num sonho.

Um cavalo em que valia a pena andar, bem como um pequeno recinto de relvado viçoso para Thumbelina! Oh, rezo para que o papá diga que sim!

Naquela altura, Jack Thurlow tinha apenas trinta anos, era alto e bem-constituído, sem parecer desajeitado ou pesado. O seu cabelo grosso e ondulado estava raiado de finas madeixas douradas e castanho-claras. O seu rosto era atraente, embora marcadamente masculino, e os seus olhos de um azul profundo. Um genuíno homem Burdum, pensou Edda, desde o cabelo aos olhos.

— Sou descendente do velho Tom Burdum — disse ele com um ar melancólico.

Edda recuperou o fôlego e riu.

— Está a queixar-se?

— Raios, pode crer que estou! O que faria eu com todo aquele dinheiro e poder? — perguntou ele, como se o dinheiro e o poder fossem coisas repugnantes. — Já tomo conta do Corundoobar pelo velho Tom desde os meus dezoito anos, e o Corundoobar é tudo o que eu quero na vida. Os cordeiros proporcionam-me um rendimento constante e os cavalos árabes, que crio para as senhoras montarem, estão a começar a ganhar prémios em várias feiras equestres. Mais alguma coisa seria demasiado para mim.

Um homem com ambições limitadas, pensou Edda, que na altura enfrentava o desgosto de não poder frequentar o curso de medicina. Se o velho Tom Burdum me desse 5000 libras para estudar medicina, não faria o menor rombo na sua riqueza, enquanto o próprio herdeiro não se importa de renunciar a tudo, à exceção de uma pequena coisa. Corundoobar é um terreno magnífico com mais de dois mil hectares, mas nem sequer é a maior ou a melhor propriedade de Tom. Que mundo injusto!

 

Este fora o início de uma amizade bastante curiosa, limitada a passeios ao longo do rio Corunda, uma amizade a que, de forma surpreendente, o pai de Edda não se opôs, desde a oferta de Fatima à falta de supervisão dos encontros da sua filha com Jack.

A culpa disso era de Maude. A pequena interesseira que vivia dentro da sua cabeça começou a sussurrar e depois a agir quando o pastor indignado a informou da ousadia de Jack Thurlow se apresentar à sua filha virgem, e decidiu que não trocaria Fatima por Thumbelina e que não permitiria mais os passeios a cavalo de Edda pelo trilho equestre…

— Que enorme disparate! — disparou Maude, surpreendida com a estupidez do pastor. — Vamos a Corundoobar ao final da tarde, Thomas, agradecer a Jack Thurlow pela sua generosidade ao dar um cavalo decente a Edda. Oh, os homens são tão tolos! O homem está muito bem na vida, um Burdum de sangue e, até ao momento, o único herdeiro de Tom Burdum. Devias estar de joelhos a agradecer a Deus por ter posto Edda no caminho de Jack Thurlow! Com alguma sorte e com uma boa orientação, dentro de três anos Edda será mulher de Jack.

As quatro raparigas ouviram a invetiva de Maude e discutiram-na muitas vezes ao longo desses três anos. O seu alvo, Edda, aceitou tudo isto melhor que as irmãs, pois, se o pai aceitasse a situação, isso significaria que ganhava Fatima e uma nova amizade. A única a quem esta determinação cega incomodou foi à pobre Kitty. Se Maude era capaz de se comportar assim com Edda, de quem não gostava muito, o que seria capaz de fazer quando chegasse a altura de Kitty?

É claro que não poderia passar de uma amizade. A virgindade era algo altamente valorizado e as filhas do pastor tinham sido educadas para acreditar que um homem digno esperava uma esposa virgem na sua noite de núpcias. A gravidez fora do casamento era considerada o pior pecado imaginável.

Existiam razões, claro, e o pastor, enquanto instrutor religioso das filhas, certificava-se de que elas compreendiam que tal não era um mero capricho, mas sim uma lei lógica: «Um homem tem apenas uma prova de que é o pai dos filhos da mulher», dizia o reverendo Latimer, no seu tom de voz mais sério, às suas filhas de quinze anos, «e essa é a virgindade da mulher na noite de núpcias, juntamente com a sua fidelidade durante o casamento. Porque haveria um homem de alimentar e abrigar crianças que não fossem dele? O Novo e o Velho Testamento condenam a falta de castidade e a infidelidade.»

Ocasionalmente, Thomas Latimer repetia este sermão, embora sem perceber que a sua maior ajuda para assegurar a inocência das suas meninas era o facto de nenhuma delas querer abdicar dela, incluindo Edda.

Apesar de todos os seus encantos, Jack Thurlow não conseguiu conquistar o coração de Edda. Nem nenhum outro homem. Sabendo que tinha a capacidade de fascinar os homens, Edda esperou pelo conquistador do seu coração, que nunca apareceu. Porque está na natureza do ser humano culpar-se a si mesmo, Edda acabou por decidir que não era capaz de sentir emoções profundas. Sou uma pessoa fria, dizia para si mesma, não consigo sentir o que os outros sentem. Nenhum dos rapazes e homens que me beijaram desde o baile do Colégio Feminino de Corunda em 1921 me provocaram uma reação intensa. Alguns momentos de paixão intensa num canto escuro, que terminavam sempre comigo a afastar com um safanão um par de mãos masculinas suadas do meu peito. Que raio os deixa tão excitados?

Apesar destes caprichos, Edda continuou a encontrar-se com Jack Thurlow no trilho equestre, agradecida pelo facto de ele nunca ter tentado abraçá-la ou beijá-la. Oh, não havia dúvida de que existia uma atração física entre os dois, mas era óbvio que ambos abominavam a ideia de que esta atração os pudesse comandar.

Em janeiro de 1926, ela beijou-o.

Assim que ele a viu, esporeou o cavalo cinzento para galopar rapidamente na sua direção, desceu do seu dorso e arrancou-a de cima de Fatima, com as mãos a tremer.

Estava trémulo e visivelmente a chorar, mas isso não o impediu de a levantar no ar e de a rodopiar numa dança louca e improvisada… uma espécie de brincadeira tola.

— Um novo herdeiro Burdum surgiu como que por magia! — disse ele, pondo-a no chão. — Edda, consegui sair da cadeia do velho Tom! Esta manhã, às dez horas, tornei-me o dono legal do Corundoobar, sem quaisquer custos, e assinei um papel a renunciar aos restantes bens do velho Tom. Livre, Edda! Estou livre!

Edda não se conseguiu conter e beijou-o nos lábios, uma mensagem calorosa e ternurenta de felicitação, que durou tempo suficiente para quase passar perigosamente o limite e se tornar algo mais sério, mais intenso. Em seguida, Jack afastou-se, o seu rosto coberto de lágrimas, e pegou na mão de Edda.

— Estou tão feliz por ti — disse ela com a voz rouca, a sorrir.

— Edda, é o meu sonho! — Jack pegou num lenço para secar os olhos. — Corundoobar é uma propriedade de primeira classe, com o tamanho certo, e não existe um único rubi nas proximidades, por isso o dinheiro e o poder vão passar-me ao lado. — Com um sorriso rasgado, despenteou-lhe o cabelo, algo que ela detestava que fizessem. — Com o teu treino de enfermagem a começar daqui a três meses e com a falta dos nossos passeios a cavalo, não sabia o que ia fazer. Até cheguei a pensar em mudar-me para oeste, para a terra dos carneiros merinos. Agora acontece isto!

— Podemos continuar a passear a cavalo nos meus dias de folga — disse ela com um ar sério.

— Eu sei, e vamos fazê-lo.

 

O velho Tom Burdum, ao que parecia, descobrira finalmente um herdeiro adequado, e todos os habitantes do condado estavam desejosos de ver o novo herdeiro chegar no comboio de Sydney ou Melbourne. Contudo, este nunca chegou e o velho Tom recusou-se a explicar porquê.

Quando a notícia do novo herdeiro chegou, não passava de um pequeno boato miserável, desprovido de factos sustentados e nunca suficiente para saciar os mais ávidos coscuvilheiros de Corunda.

A mais empreendedora desta laia era Maude, que, afortunada por ter uma macieira que dava frutos antes do tempo, levou um cesto de maçãs ao velho Tom e à velha Hannah Burdum. Junto deles, aplicou os seus instrumentos de tortura coscuvilheira com uma perícia sem igual, mas que surtiu pouco efeito. Contudo, descobriu o suficiente para aguçar o seu apetite e incentivá-la a descobrir novos métodos de recolha de informação.

Ficou a saber, por parte do velho Tom e da velha Hannah, que o novo herdeiro se chamava Charles Henry Burdum, de trinta e dois anos, que nascera e fora criado em Inglaterra, onde ainda morava. Mesmo os imensos bens do velho Tom não eram nada para ele, pois já era um homem muito rico. De acordo com o velho Tom, Charles fazia negócios nos mercados do dinheiro da City de Londres, a capital financeira do mundo!

Conhecendo estes factos, Maude dirigiu-se à estação, ao frio e à chuva, às três da manhã, para embarcar num expresso noturno de Melbourne para Sydney, onde chegou às seis da manhã, tomou o pequeno-almoço no restaurante da Central Railway e esperou à porta da biblioteca pública até esta abrir. No interior, dentro da sala de leitura, Maude descobriu tudo sobre Charles Henry Burdum. Uma mulher cheia de recursos, esta Maude Latimer.

Podia até ser um homem com muito dinheiro, mas Charles Burdum tinha também uma faceta altruísta: era médico, licenciado pelo Guy’s Hospital, e de momento ocupava o cargo de diretor na Manchester Royal Infirmary… muito prestigiado! É claro que o dinheiro não atrapalharia a sua carreira médica, pois não? Maude pesquisou dicionários biográficos (Eton, Balliol, Guy), jornais de grande formato bastante aborrecidos, tabloides de reputação duvidosa, revistas de sociedade, revistas menos glamorosas e jornais com má fama e bastante desprezíveis, que se esquivavam por pouco às leis contra a difamação. Todos eles lhe trouxeram algum proveito. O doutor Charles Burdum era sinónimo de novidade.

Em 1925, ficara noivo da única filha de um duque. A sensacional e escandalosa relação amorosa fez muitos cabeçalhos em tabloides de ambos os lados do Atlântico, pois o doutor Burdum, apesar da sua riqueza e de ser proprietários de milhares de hectares no Lancashire, não era suficientemente bom aos olhos do duque. Quando a sua filha, Sybil, apareceu na primeira página do News of the World a dançar um louco charleston com Charles Burdum numa festa bastante duvidosa, o duque interveio e tirou Sybil da vida de Charles Burdum. Encantada, Maude descobriu que Sybil tinha apenas dezassete anos na altura, estando obviamente debaixo da autoridade do pai. Fora, sem sombra de dúvidas, uma relação escaldante. O casal fugiu, foi apanhado, e Sybil desapareceu da face da terra. Um fotógrafo francês tirou uma fotografia da rapariga sentada com um ar pesaroso na lógia de uma vila na Riviera francesa. Na fotografia seguinte, aparecia vestida de noiva a casar com o marido escolhido pelo duque: um homem que descendia de Guilherme I de Inglaterra, o Conquistador, do lado materno, tinha um metro e noventa de altura e era descendente da casa de Hanôver do lado do pai.

O que Maude não conseguiu obter foi uma imagem decente deste indivíduo notável, metade dinheiro, metade medicina. As fotografias a preto-e-branco dele nem sequer conseguiam responder à pergunta de todos, se era um homem atraente ou não: uma boca, um nariz, dois olhos e uma cabeça cheia de cabelo que parecia louro. No entanto, uma fotografia dele com um grupo de homens indicava que não era muito alto… Isso é bom, pensou Maude. Um homem muito alto não seria ideal para Kitty.

Embora gostasse bastante de espalhar rumores, Maude não contou a ninguém os seus planos para Kitty. Mais cedo ou mais tarde, Charles Burdum visitaria a sua herança colonial, e a intensidade da sua tentativa falhada de casar com a filha de um duque indicava que a ferida no seu orgulho não sararia rapidamente. A visita de Charles iria decorrer enquanto ele ainda fosse solteiro. Até lá, Kitty estaria ocupada com o seu treino de enfermagem, como que em espera. Estava tudo a correr tão bem! Edda casaria com Jack Thurlow, Grace casaria com um preguiçoso qualquer que ganhava a vida com trabalho braçal, e Tufts tornar-se-ia uma peça vital, a tia enfermeira-chefe, que correria de irmã para irmã quando os seus filhos precisassem dela.

Maude não tinha qualquer dúvida de que tudo correria como planeado. Até Deus entrava em conluio nos seus planos, pela razão mais simples: Ele era um indivíduo sensato, de outro modo não teria criado pessoas como Maude.

Os primeiros seis meses de tudo o que é novo e desconhecido são sempre os piores de aguentar: um mantra que orientava a vida das irmãs Latimer até ao final de 1926, quando, para seu espanto, se aperceberam de que tinham sobrevivido, até mesmo a relutante Grace.

Continuar: parte 3 de 3