Agridoce
PARTE UM: Quatro Enfermeiras de Uma Nova Geração
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O que é de lamentar, pensou Tufts, é que os nossos horizontes não tenham sido alargados em termos humanos. Desde a área de refeições das enfermeiras até à acomodação, tudo é estratificado. Não estamos autorizadas a conviver com os médicos ou com os nossos subalternos, e as irmãs fazem questão de que as enfermeiras do West End saibam que nós, as precursoras de uma nova ordem de enfermagem, estamos um degrau acima delas. Não posso ser amiga de Harry ou Ernie, os porteiros, não me posso sentar entre as enfermeiras do West End no refeitório e, se aparece um médico na ala, mandam-me de imediato tratar da roupa suja ou esfregar arrastadeiras. Estou sempre num nível acima ou abaixo e não me atrevo a sair dele. Como é possível existir esprit de corps ou camaradagem entre os diferentes tipos de pessoas que trabalham no hospital, se não lhes é permitido comunicarem entre si como amigas? No entanto, as nossas adversárias mais amargas, se não mesmo inimigas declaradas, são precisamente as pessoas que seriam mais beneficiadas com isso. Anseio por ensinar Lena Corrigan, Nancy Wilson e Maureen O’Brien os princípios básicos de química e física, mostrar-lhes que a água tem três estados e que o iodo é um elemento. No entanto, elas não querem saber, porque confessar a sua ignorância seria o mesmo que admitir a derrota nesta batalha sem sentido. Como as faço entender que o conhecimento é o único caminho que as pode tirar da penúria e subserviência?
— As enfermeiras do West End estão convencidas de que, se não tivermos companhia, exceto uma das outras, vamos começar a fraquejar — disse Edda. — Quando é que acham que elas vão acordar?
Com o Natal à porta, as irmãs estavam a vestir-se para ir à igreja, o primeiro domingo desde que tinham começado o treino de enfermagem em que as quatro estavam de folga. Após a missa iam ao presbitério para um almoço comemorativo. Tufts e Kitty tinham feito dezanove anos em agosto, e Edda e Grace vinte e um em novembro, sem qualquer celebração. Hoje era um dia muito especial.
Após verificar se as costuras das suas meias transparentes de seda estavam direitas, Grace olhou para cima.
— As raparigas do West End não sabem que somos irmãs — disse ela — e passam muito tempo a pensar se as nossas discussões e desavenças são muito más.
Linda!, pensava Grace ao olhar para Edda, porque é que não posso ter aquela aparência? É a maneira como anda, sinuosa e sensual, a sua postura, aquele sorriso enigmático. O vermelho era, sem dúvida, a sua cor, independentemente do tom. Naquele dia, Edda usava um vestido de crepe pesado, de tom escarlate, que, apesar de não ser justo, evidenciava bem a sua figura magnífica. Na cabeça, tinha um chapéu achatado de crepe vermelho, ligeiramente inclinado sobre o olho esquerdo, e sapatos pretos, mala e luvas.
— Estás maravilhosa, Grace — disse Edda inesperadamente (ou será que os gémeos leem os pensamentos do outro?). — Quem me dera ter paciência para trabalhar os adornos dessa maneira! Transformaste a renda bege numa asa de borboleta com os rebordos pretos. Tal e qual uma obra de Aubrey Beardsley.
Enquanto puxava uma luva preta comprida pelo antebraço acima, Grace rosnou:
— O meu chapéu? Fica-me bem, Eds?
— É perfeito. Tal como asas dobradas umas sobre as outras e debruadas a preto.
Um grupo de enfermeiras do West End viu as quatro raparigas percorrerem a rampa em direção a Victoria Street. Lena Corrigan franziu o sobrolho. Ainda não conseguiam perceber por que razão, após seis meses de isolamento rigoroso, privadas de qualquer tipo de amizade no hospital, estas quatro raparigas ainda falavam umas com as outras. Com uma aparência fantástica, elas passaram pela rampa a rir e a brincar umas com as outras, tão felizes, sem qualquer razão aparente.
— Será que isto é tudo resultado de uma pronúncia sofisticada e de uma boa educação? — perguntou Lena.
— Isto o quê?
— Não sei, Nance, mas elas têm algo — suspirou Lena. — O problema é que, quanto mais as conheço, mais gosto delas. Sobretudo da Latimer. Uma rainha para o olhar, mas nada convencida.
— Não, nenhuma delas é convencida — disse Maureen. — Até a Treadby, a que tem o cabelo louro oxigenado, é simpática.
A enfermeira Corrigan virou-se e continuou:
— Sabem que mais, meninas? Estou farta desta guerra. Ainda não têm vinte anos, mas em breve serão enfermeiras registadas pelo Estado. Acho que está na altura de começarmos a pensar em arranjar algum dinheiro para matricularmos as nossas filhas. E sim, têm razão, a ideia não é minha. Foi algo que a enfermeira Scobie disse.
A vida nas alas do hospital era um desafio para Edda, Tufts e Kitty, mas para Grace era uma tragédia. Todas as irmãs de Corunda vinham de longe e eram consideradas funcionárias públicas oficiais. As enfermeiras não oficiais do West End tinham a liberdade de se casar porque eram consideradas «trabalhadoras casuais», sem benefícios, tal como os porteiros, as empregadas de limpeza, o pessoal da cozinha, as datilógrafas e por aí em diante. As funcionárias públicas não podiam casar e, por essa razão, não existiam enfermeiras casadas. As viúvas podiam ser contratadas, assim como, em teoria, as divorciadas, embora uma divorciada nunca sequer chegasse a uma entrevista cara a cara. As divorciadas faziam-se passar por viúvas e tinham muito cuidado para não serem vistas na companhia regular de homens. Muitas irmãs «viviam fora» em casas alugadas, geralmente partilhadas com outra irmã, mas o Hospital de Corunda, tal como outros hospitais, oferecia acomodação no local para uma série de irmãs. Frank Campbell preferia receber uma pequena renda das casas da Grande Guerra, do que manter as acomodações vazias, e as irmãs, sendo solteironas, eram as inquilinas ideais: nada de filhos nem de maridos sorvedores de cerveja.
Contudo, o que ninguém considerava, exceto as próprias irmãs, era o preço a pagar por ter uma carreira profissional: os bebés por nascer, o outro lado da cama vazio, a falta de estímulo que a companhia eternamente feminina proporcionava, a preocupação de viver uma velhice desamparada. Por esta razão, mergulhavam no trabalho, tentavam encontrar pessoas simpáticas para dividir a casa, mantinham relações ocasionais com homens ou contentavam-se com a presença umas das outras. Nada disto as tornava chefes fáceis. No entanto, era um jogo duro: se existisse uma mulher juíza, ela também seria uma solteirona se recebesse um salário do governo.
O dia estava dividido em três turnos: das seis da manhã às duas da tarde, das duas da tarde às dez da noite e das dez da noite às seis da manhã. Cada ala requeria sempre a presença de, pelo menos, uma irmã de serviço. As alas duplas, dos homens e das mulheres, requeriam a presença de duas irmãs, tal como a das crianças. Isto perfazia um total de cinquenta irmãs enfermeiras, incluindo as que trabalhavam na ala psiquiátrica e no lar de convalescença/idosos.
Algumas, como a irmã Una Robertson, da ala dos homens, e a irmã Meg Moulton, da ala das crianças, eram conhecidas em todo o hospital desde o primeiro dia de serviço, enquanto outras, como a enfermeira-adjunta Anne Harding, permaneciam anónimas durante vários meses. Era uma questão de personalidade. A irmã Moulton era muito querida, enquanto a irmã Robertson era o mais furioso dos dragões. Ambas eram mulheres de meia-idade, em cujos queixos começavam a nascer pelos e que tinham a barriga volumosa e a pele áspera, contudo, as semelhanças ficavam por aí. Todo o amor da irmã Robertson era dirigido aos seus pacientes masculinos, que tinham tanto medo dela como os médicos. Na opinião de Grace, o Diabo era um adversário bem mais fácil.
— Faulding, está a correr — rosnou a irmã Robertson para Grace, que se encontrava bastante frenética. — Faça o favor de parar de imediato! Só existem duas razões para uma enfermeira correr: fogo ou hemorragia.
Mas como, perguntava Grace, é possível fazer o trabalho todo se não me é permitido correr? E por que razão todos os pacientes têm de se barbear diariamente? Fazer a barba cinquenta vezes por dia, mesmo quando estão à beira da morte! Uma pergunta que muitos dos pacientes partilhavam com Grace.
— A irmã é que precisa de se barbear — disse um homem furioso. — Dê-me o seu véu e venha você para debaixo da maldita lâmina de barbear… a irmã é pior que o Kaiser Bill!
— Pobre homem! — disse Grace a Kitty mais tarde, secando lágrimas de riso dos olhos. — Cinco minutos depois, a irmã fez questão de lhe enfiar pessoalmente um supositório enraivecido pelo rabo acima, e o homem acabou por passar uma manhã terrível na casa de banho. Felizmente, o homem conseguia andar.
Existiam muitos momentos engraçados, mas também alguns tão dolorosamente tristes que demorou às irmãs Latimer o ano inteiro de 1926 para aprenderem a lidar com a tristeza. Algumas pessoas, descobriram elas, eram tão corajosas! Outras encolhiam-se e começavam a gritar quando lhes tocavam. Ninguém permanecia mais tempo no hospital do que o essencial, e não só devido às políticas do hospital. A famosa avareza do diretor, Frank Campbell, afetava os pacientes tanto quanto os funcionários. Colchões velhos e cheios de covas, lençóis tão coçados que já desfiavam e toalhas tão usadas que já não secavam, sabão caseiro horrivelmente cáustico, pedaços recortados de jornais em vez de papel higiénico e a pior comida que os cozinheiros conseguiam providenciar.
O que mais intrigava as Latimer era o facto de o pai ser membro do conselho de administração do hospital e passar pelas alas sem ver o que Frank Campbell fizera e continuava a fazer. Não, o papá vagueava pelo hospital na sua demanda espiritual, a sorrir e a confortar os pacientes, enquanto ignorava as condições físicas deploráveis em que viviam, como se não existissem. Pois, o hospital não era gratuito . Mesmo o paciente mais pobre recebia uma conta para pagar, o que fazia com que o trabalho de assistente social fosse o mais difícil do Hospital de Corunda. Ela tinha de encontrar motivos para o paciente não ter de pagar os serviços, o que era muitas vezes impossível. Os médicos especialistas eram bastante decentes, mas Frank Campbell cobrava cada recorte de jornal usado na casa de banho.
Kitty desabrochou, sobretudo depois de ter sido mandada para a ala das crianças, onde muitos dos pequenos pacientes sofriam de problemas nos ossos: a maior parte tinha ossos partidos, um ocasional deslocamento congénito da anca, fraturas infetadas, doenças relacionadas com a densidade óssea e demasiados casos de raquitismo entre os mais pobres. Independentemente do seu mal, as crianças tinham tendência para estarem bem-dispostas, habituadas à dor e à cama de hospital, ou para se tornarem uma maçada perigosa quando as deixavam sair da cama. Para Kitty, pouco importava, adorava cada criança, cada obstáculo, cada momento.
Os rapazes e as raparigas eram tratados em conjunto até aos seis anos, idade a partir da qual eram separados em duas alas: rapazes e raparigas. Aos catorze anos eram admitidos nas alas de adultos. No inverno apareciam mais casos de ossos partidos, no verão eram mais comuns as doenças intestinais e gástricas, mas ao longo de todo o ano as cinquenta camas estavam ocupadas, pois as crianças tinham tendência a precisar de internamentos mais longos. Só nestas alas, o reverendo Thomas Latimer fizera um esforço considerável para minorar o sofrimento: havia muitos brinquedos e livros, e os aquecedores estavam sempre a funcionar, o que não se podia dizer dos aquecedores nas outras alas. O orçamento de Frank Campbell só chegava para um canalizador, cujo sonho falhado de uma vida era ter um colega canalizador.
Kitty não conseguia identificar ao certo o momento em que a sua depressão desaparecera e ficara soterrada nas exigências do trabalho. Talvez tivesse sido um processo demasiado furtivo, demasiado gradual, mas uma coisa era certa: a partir do momento em que começou a trabalhar com crianças, a depressão nunca mais deu as caras. Cuidar de crianças internadas fazia-a sentir-se como se estivesse envolta num manto de bem-estar, que a confortava, acalentava, acalmava e satisfazia todos os seus desejos. O mundo, como Kitty o percebia, estava repleto de pessoas cujas necessidades e provações faziam os seus próprios problemas parecerem risíveis, ridículos. Depois de dezanove anos a ser o centro do mundo, Kitty viu-se relegada para as suas margens mais extremas: não era ninguém, não era nada. E gostava tanto do trabalho que se esqueceu de que era linda, até se esqueceu de Maude e da vida no presbitério. Nem a criança mais traquina e mais malcomportada do mundo tinha o poder de abalar a sua nova confiança, a paz serena que encontrara em si mesma. Finalmente, Kitty abriu as asas e voou.
O que Kitty não compreendia é que o seu despertar de consciência só servira para a tornar ainda mais bonita. Desesperada por a retirar da vista da maior quantidade de homens possível, como último recurso, a enfermeira-chefe enviou Kitty para a ala das crianças.
— O problema é que a Treadby é uma enfermeira tão boa que não me posso dar ao luxo de a perder — disse a enfermeira-chefe a Liam Finucan —, e não a posso acusar de ser convencida ou de se fiar demasiado na sua aparência, porque ela não é assim. No entanto, ela dá a volta à cabeça dos homens, e as mulheres também a odeiam pela sua natureza adorável e pelo seu belo rosto.
— Felizmente — disse Liam com um sorriso —, o Hospital de Corunda não tem nenhum Páris para tentar a nossa Helena de Troia.
— Porque és impermeável aos seus encantos, Liam?
Liam ajeitou o cabelo, que tinha tendência para lhe cair sobre a sobrancelha e obstruir parcialmente a visão.
— Não faço ideia. Talvez não goste de louras oxigenadas?
— Aquele cabelo não é oxigenado! Quem me dera que fosse, uma raiz mais escura talvez desiludisse alguns dos nossos médicos mais novos.
— Enviá-la para a ala das crianças é suficiente — sossegou-a ele.
— Sim, mas ela não pode lá ficar para sempre.
— É verdade. Vamos só reduzir ao mínimo o tempo que ela passa nas alas de adultos.
— A Meg Moulton adora a miúda, o que é um alívio! Já me disseram que a Treadby é a enfermeira de crianças perfeita. A ala é um local mais feliz quando ela está de serviço, e farta-se de trabalhar.
— Nenhum ser humano é perfeito, Gertie.
Kitty continuava a sua viagem de descoberta, caminhando pela ala animada e sorridente, com pulos e passos de dança que faziam os miúdos rir. Até começar a exercer enfermagem, sobretudo com crianças, toda a gente, exceto as irmãs e o pai, a descartava como membro produtivo da sociedade. Agora, Kitty tinha um propósito.
Não que a ala das crianças permitisse algum tempo para reflexão. Se não era Jimmy Collins a arrancar a crosta de uma ferida ou Ginny Giacometti a cair da cama ao tentar pregar uma partida, era Alf Smithers a comer uma embalagem inteira de giz, porque as refeições nunca saciavam a sua barriga sem fundo.
— O efeito do seu sorriso multicolorido poderia até ter sido bastante encantador — disse Kitty à irmã Moulton —, se ele não tivesse comido o par de giz preto em último lugar… que nojo!
Ouviu-se um gemido vindo de Barry Simpson, que as fez virar.
— Enfermeirinha, enfermeirinha! Fiz cocó na cama!
— E lá se foi o lençol de baixo do doutor Frank Campbell — disse Kitty. — Os cocós do Barry são impressionantes.
No entanto, mesmo na ala das crianças havia homens para importunar Kitty. O mais maçador deles era o médico interno, o doutor Neil Cranshaw, que tinha influência suficiente como autoridade médica para sustentar a sua demanda. Kitty detestava-o, mas o seu posto obrigava-a a tratá-lo com o maior respeito e consideração.
— Jantar no Parthenon? — perguntou ele, supervisionando a enfermeira Treadby enquanto esta tratava da ferida aberta de Jimmy.
— Lamento, senhor doutor. Estou ocupada.
— Não é possível que esteja ocupada todas as noites, senhora enfermeira.
— Até junho de 1926, estou sim, senhor.
— E o que acontece nessa altura? — perguntou ele, pensando que tipo de expressão resultaria melhor com ela… que linda que ela era! Assumiu um ar de admiração, apenas estragado pelo desejo que invadia o seu cérebro.
— Depois, acabo o curso como enfermeira registada — disse ela com um ar muito sério — e estarei disponível para aceitar convites para jantar. Até lá, sou obrigada a estudar nos meus tempos livres.
O doutor Cranshaw poderia ter discutido, mas a irmã Moulton estava a olhar fixamente para eles, como que pronta a disparar. O doutor Cranshaw desapareceu.
— Obrigada, irmã — disse Kitty.
— Médicos solteiros — disse ela mais tarde para as outras três — são uma dor de cabeça.
— Diz-me algo que eu já não tenha aprendido sozinha — disse Edda.
— Neil Cranshaw anda a incomodar-te? — perguntou Tufts, e desatou a rir. — Ele convidou-me para jantar no Parthenon no outro dia. Apanhou-me no corredor enquanto fazia um recado à irmã Smith. Fiquei ali de pé, a olhar fixamente para ele, chupei os lábios lentamente como um peixe e entortei os olhos. Ele fugiu a correr.
— Mas repara — disse Edda —, o Hospital de Corunda não recebe o melhor da colheita da Sydney Medical School. Esses vão para hospitais como o Vinnie, o RPA ou o North Shore em Sydney. Nós não ficamos com o pior, mas são bastante maus.
— Em que outro hospital considerariam o doutor Cranshaw um parte-corações, um homem com uma aparência tão cómica que mais parece o Stan Laurel? — perguntou Tufts.
— Ele tem mesmo aquele ar desolado do Stan Laurel — concordou Kitty.
— Tresanda sempre a cigarros baratos — acrescentou Grace —, e não suporto ver cabelo ruivo num homem. Na verdade, meninas, não há aqui nenhum médico que eu ache atraente. Acham-se todos tão bons.
Felizmente para o doutor Cranshaw, estes comentários foram mantidos em segredo e ele continuou sem saber que a enfermeira Treadby, que mais parecia um anjo de Botticelli, tinha a língua tão afiada como uma faca. Por conseguinte, continuava a fazer figura de parvo na ala das crianças, livre para atormentar Kitty, porque fazia turnos rotativos no serviço do doutor Dennis Faraday naquele momento. O doutor Faraday era o estimado e respeitado especialista pediátrico do Hospital de Corunda.
A ala estava de momento a recuperar de uma luta frenética contra uma epidemia de difteria, que quase fora perdida devido ao stock insuficiente de uma tubagem de borracha especialmente modificada para ajudar as crianças a respirar. Um caso de economia enganadora, típica de Frank Campbell. A enfermeira Harding teve de apanhar o comboio da manhã para Sydney, pagar demasiado a um fornecedor de material médico e regressar no comboio da noite, para descobrir que Liam Finucan tinha improvisado o equipamento com tubagens de borracha normal, que funcionavam suficientemente bem para evitar o que teriam sido duas mortes por negligência médica. Tal como acontecia com todas as doenças infeciosas infantis, apenas os casos mais graves eram hospitalizados. Mais de cem pacientes entre os dois e os doze anos com difteria laríngea: uma membrana maligna na garganta inflamada expandia e bloqueava a via respiratória e o tubo de borracha modificado mantinha-a aberta. Foi uma epidemia muito grave que ceifou a vida a dezassete crianças e deixou outras quatro hospitalizadas durante vários meses devido a complicações cardíacas.
Havia sempre duas alas vazias, mas completamente prontas, no final de uma rampa especial, para servir de área de isolamento para epidemias, mas só tinham sido utilizadas de forma tão intensa nos três anos que se seguiram à Grande Guerra, quando a gripe matou mais pessoas do que a própria guerra. Parecia que as epidemias muito letais atacavam sobretudo as crianças e os jovens adultos, talvez porque, pensou Edda, se um corpo conseguira sobreviver a tudo e mais alguma coisa até atingir a velhice, isto devia-se ao facto de se ter tornado mais resistente e muito mais difícil de matar.
Kitty não esteve de serviço nas alas dos pacientes com difteria. A irmã Meg Moulton preferiu mantê-la na ala das crianças, embora Grace, Edda e Tufts tivessem trabalhado nas alas dos pacientes com difteria. Para Kitty, isto significava turnos duplos e folgas canceladas, mas não havia enfermeiras disponíveis suficientes. Apenas algumas voluntárias, enfermeiras reformadas do West End, asseguraram a sobrevivência do Hospital de Corunda.
De modo privado e reservado, a epidemia de difteria assinalou uma vitória para Kitty, um triunfo que partilhou apenas com as suas irmãs.
— Jantar no Parthenon numa noite qualquer à sua escolha? — perguntou o doutor Neil Cranshaw a Kitty enquanto esta fazia as camas.
De repente, tudo se tornou demasiado para aguentar. Se não tivesse havido uma epidemia de difteria… se o hospital tivesse um único lençol decente… se Cranshaw não falasse mais do que devia…
— Oh, por amor de Deus, seu imbecil, enfie os convites pelo rabo acima! Agora desapareça e deixe-me em paz!
O doutor Cranshaw teria ficado menos surpreendido se uma borboleta o tivesse atacado selvaticamente durante um passeio no jardim; certamente, nunca pensara numa resposta para dar. Um olhar violeta intenso daqueles olhos habitualmente azuis fê-lo sair disparado da ala como um rato a fugir de uma vassoura de palha.
Quando junho de 1927 chegou, as irmãs Latimer já desempenhavam as funções de enfermeira há catorze meses e entravam agora no seu segundo inverno sob a administração de Frank Campbell, depois de terem ultrapassado todos os seus problemas e adversidades. O facto de Grace ter sobrevivido era um mistério para as outras três, ainda que a sua astúcia a tivesse colocado no bom caminho e as suas aptidões enquanto enfermeira tivessem melhorado, agora que já estava mais acostumada à porcaria. Foi uma agradável surpresa aperceber-se de que não havia porcaria todos os dias.
As irmãs já tinham passado uma vez por todas as alas. No início de junho, Kitty encontrava-se de volta à ala das crianças, juntamente com Tufts. Edda estava convencida de que alguém iria reparar nas semelhanças entre as gémeas, mas nem mesmo a irmã Meg Moulton reparou. Os uniformes escondiam os seus corpos e os olhos de cores diferentes dominavam os seus rostos. Também ajudava o facto de Kitty gostar de cuidar de meninos, enquanto Tufts preferia as meninas, por isso costumavam ser vistas em separado.
— Venham ter comigo ao meu gabinete, enfermeiras, assim que voltarem do almoço — disse a irmã Moulton com uma invulgar brusquidão.
— Que raio se passará? — perguntou Tufts a Kitty enquanto comiam sanduíches de fiambre em casa. — De qualquer modo, a minha consciência está tranquila.
— Disseste isso com um sorriso tolo, enfermeira santinha. Visto que conheço a Moulton bem melhor que tu, palpita-me que nos vai ser dado um trabalho especial.
O palpite estava certo, como vieram a descobrir meia hora depois no gabinete da irmã Moulton. O doutor Dennis Faraday também se encontrava lá, e ambos tinham um ar muito sério.
— O caso de que vão tratar será muito breve e a enfermeira-chefe sugeriu que fosse entregue às quatro enfermeiras de nova geração — disse o doutor Faraday num tom de voz vibrante e agradável.
O doutor Faraday era um homem muito grande, que fora um famoso jogador de rugby na sua juventude e fazia lembrar um simpático e afável urso castanho (pele morena, cabelo e olhos castanhos) com um dom indiscritível para tratar de crianças.
— Em circunstâncias normais — continuou ele —, as crianças moribundas são tratadas na ala na medida do possível. No entanto, a criança em questão não pode estar sujeita aos olhares de curiosos. Corunda é um vespeiro de boatos e as crianças que estão aqui internadas recebem muitas visitas. O vosso paciente será tratado no isolamento, longe de visitantes. Chama-se Michael Vesper, mas podem tratá-lo por Mikey. Foi-lhe diagnosticado sarcoma metastático e encontra-se num sofrimento horrível. Uma ínfima dose de opiáceos liberta da dor o menino mais maravilhoso do mundo, tão animado e tão agradável! Sabe que está a morrer e é um verdadeiro herói.
Os olhos do doutor Faraday brilharam com lágrimas. A irmã Moulton lançou um olhar intenso a Kitty e a Tufts que as avisou para não comentarem as emoções do médico.
— Quando tiver oportunidade, senhoras enfermeiras, dou-vos os relatórios da polícia, as notas da assistente social, tudo o que conseguir encontrar que diga respeito ao Mikey. — O doutor Faraday pestanejou e respirou fundo. — O Mikey tem dois anos, mas não parece ter mais de doze meses. Até hoje, não estava diagnosticado nem recebeu qualquer tratamento. Se não fosse pela curiosidade da nossa enfermeira distrital, nunca ninguém teria reparado nele. Dou-lhe cerca de duas ou três semanas de vida, mas estou determinado a fazer com que esses poucos dias sejam os mais felizes e os mais confortáveis da vida de Mikey. — O doutor Faraday dirigiu-se para a porta. — Irmã, o resto das instruções estão nas suas mãos. — E, com um sorriso, desapareceu.
O silêncio que se seguiu pareceu durar horas. Na verdade, demorou alguns minutos, durante os quais Grace e Edda chegaram e ficaram a saber o que as esperava. Naqueles catorze meses, as irmãs nunca tinham servido juntas como um quarteto, nem tal aconteceria com Mikey Vesper, embora este fosse o seu único paciente. Kitty e Tufts escolheram fazer o turno das seis da manhã às dez da noite, Grace o turno da noite e Edda alternaria turnos.
— A enfermeira-chefe escolheu-vos — disse a irmã Moulton —, principalmente porque vocês não espalham rumores. Desconheço a razão por que ela está tão certa disto, mas confio no seu discernimento. O conselho que vos quero dar é que mantenham algum distanciamento emocional. O caso de Mikey Vesper é desolador, mas, se deixarem que este vos parta o coração, nunca conseguirão tornar-se enfermeiras registadas.
— Vamos sobreviver, irmã — disse Edda.
No entanto, a irmã Moulton não tinha terminado:
— Não sabemos em que medida a subnutrição de Mikey se deve às metástases do cancro ou a pura negligência, sabemos apenas que ambas contribuíram para o seu estado atual. O pior de tudo é que Mikey nunca foi suficientemente importante na vida de alguém para desenvolver uma identidade própria. Nunca passou de uma pedra no sapato. A sua mãe é obrigada a trabalhar mais do que a maioria dos escravos… o senhor Vesper vive às custas do seu trabalho de lavadeira. A enfermeira distrital não sabe se ela tem um problema mental ou se existe alguma barreira linguística, visto que a família é alemã e só se encontram em Corunda há dezoito meses. Os filhos são apenas algo que a pobre mulher concebe, carrega no útero e amamenta até terem idade suficiente para comer e beber sozinhos. Tem três rapazes com idades entre os treze e os dezasseis anos, a seguir a eles fez uma pausa e depois teve três raparigas, que agora têm entre seis e nove anos. E Mikey, com apenas dois.
— Qual é a explicação para essas pausas? — perguntou Tufts. — O senhor Vesper esteve preso?
Os olhos azuis de Meg Moulton arregalaram-se.
— Excelente dedução, Scobie. Posso pedir ao sargento Cameron para investigar.
— Os rapazes frequentam a escola? — perguntou Kitty.
— Não — suspirou a irmã Moulton. — Bem, têm de saber, e já desempenham as vossas funções há tempo suficiente para não ficarem chocadas. O diretor da escola Corbi apresentou uma queixa ao sargento Cameron. As três meninas Vesper foram molestadas pelo pai e pelos irmãos.
— A mais nova tem apenas seis anos — disse Edda com a boca seca — e nenhuma delas atingiu ainda a puberdade.
— Então, o senhor Vesper deve saber que vêm sarilhos de todas as direções — disse Grace, que já amadurecera o suficiente para não chorar. — Devia ser enforcado!
— Ninguém vai fazer isso — disse Tufts —, mas vai voltar para a prisão durante muito tempo.
Uma irmã espreitou para dentro da sala e disse:
— Michael Vesper chegou.
O quarto Um era demasiado pequeno para caber nele uma cama de adulto, mas Mikey Vesper tinha um berço espaçoso para o acomodar. Embora Kitty soubesse a idade de Mikey, ele parecia ter metade desta, e a distensão abdominal devida à subnutrição dava a falsa impressão de ter mais massa corporal do que realmente tinha. A sua pele era muito fina e clara e tinha o cabelo encaracolado castanho. Enormes olhos escuros num rosto estranhamente velho contavam a sua história, transmitindo austeridade, compreensão e compostura. Não era uma criança linda, exceto pelos olhos. Sendo uma enfermeira extremamente experiente, Meg Moulton sabia que Mikey era uma daquelas crianças com o poder de nos assombrar para toda a eternidade.
Mikey podia ter sido negligenciado e descurado na sua própria casa, mas a sarcomatose tinha, até ao momento, poupado o seu cérebro, como Tufts e Kitty, ao partilhar um longo turno duplo, vieram a descobrir. Ambas compreendiam que Mikey era um daqueles pacientes a quem seriam administrados tantos opiáceos quantos necessários para atenuar a sua dor insuportável. A questão da dependência não era algo que fosse considerado em pacientes terminais. E ele ficava tão agradecido pela mais pequena gota de opiáceo! A sua agonia deveria ter sido tão grande, mês após mês enquanto o cancro se espalhava, sem ninguém a tentar atenuar o seu tormento. A morfina deixava-o radiante… ainda bem que não era daqueles a quem causava náuseas! Não que ele implorasse que lhe fossem administrados opiáceos, poupava as injeções para alturas em que precisasse mesmo, explicando a Grace a meio de uma noite passada em branco que, se estivesse sempre sedado, não conheceria todas as enfermeiras adoráveis da maneira como conhecia. Kitty dançava o charleston enquanto ele ria e aplaudia, Tufts fazia a dança dos sete véus com os lençóis esgaçados de Frank Campbell, e Edda tocava músicas com as tigelas de metal e as bacias, cantarolando canções sem sentido. O que quer que as enfermeiras fizessem por ele, Mikey adorava.
A sua única visita era Maria, a menina Vesper do meio, que aparecia do meio do nada como um fantasma e ficava, ansiosa, aos pés do berço de Mikey a ouvi-lo contar todas as coisas maravilhosas que as suas enfermeiras faziam por ele, desde as picadas de agulha que lhe acalmavam as dores até às sessões de canto e dança de Kitty. Maria não o visitava todos os dias, talvez um em cada cinco. O que era óbvio para todos era a devoção que Mikey sentia por Kitty. Apesar de adorar as quatro, Kitty ocupava um lugar especial no seu coração. A relação entre as duas crianças Vesper permanecia bastante privada. A enfermeira de serviço era quase sempre Kitty, que respeitava os seus laços familiares e os deixava sozinhos durante quinze minutos, quando Mikey se sentia suficientemente bem. As visitas de Maria deixavam sempre Mikey melhor.
O sargento Jim Cameron do Departamento de Polícia da Nova Gales do Sul tomou grande interesse nos Vesper, desde a negligência sofrida por Mikey às queixas do diretor da escola de que Bill Vesper e os filhos abusavam sexualmente das meninas Vesper, e estava convencido de que o senhor Vesper roubava cordeiros. Chefe da polícia de Corunda, Cameron tinha o pressentimento que devia chamar os peritos de Sydney, mas a sua faceta obstinada tipicamente escocesa dizia-lhe para não envolver estranhos no assunto. Os Vesper eram problema dele e ele era capaz de o resolver.
Pauline Duncan, a enfermeira distrital, fora uma espécie de agente catalisador para o sargento Cameron, e ele conhecia-a bem. No dia da admissão de Mikey Vesper no hospital, a irmã Duncan fora chamada às primeiras horas da madrugada para ajudar após uma briga num acampamento cigano por baixo da ponte ferroviária que passava pela parte ocidental do rio Corunda. Depois de tratar as nódoas negras e de coser uma ou duas feridas de facadas, entrou no seu Modelo T e regressou à cidade. A velha casa onde os Vesper viviam ficava no caminho, e a dúvida persistente que por vezes sentia em relação a Bill Vesper fez com que abrandasse e parasse. Porque não?, perguntou a si mesma. Já estou aqui, porque não dar uma vista de olhos? Os rapazes Vesper não estão em casa a esta hora, talvez consiga falar com aquela pobre mulher…
A senhora Vesper encontrava-se nas traseiras da casa a ferver lençóis numa tina de cobre, e as três filhas, chegadas da escola com os olhos esmurrados, estavam a ajudá-la. Um menino pequeno coxeava por entre as suas pernas, a choramingar baixinho, e de vez em quando uma das raparigas empurrava-o para o lado. Um único olhar foi suficiente. Pauline Duncan avançou rapidamente, pegou no menino e correu para o carro. Com a criança no lugar do passageiro ao seu lado, dirigiu-se de imediato para o gabinete do doutor Faraday. Uma hora depois, Mikey Vesper encontrava-se no hospital de Corunda e o doutor Faraday despertava a desconfiança do sargento Cameron em relação à situação de Mikey em casa.
Para as enfermeiras de Mikey, avisadas para não se deixarem envolver demasiado, já era tarde demais.
— Como é que alguém é capaz de tratar uma criança pequenina de forma tão cruel? — perguntou Kitty.
— Um homem como Bill Vesper nem sequer sabe o que cruel significa — disse Grace, secando os olhos. — Se não querem filhos, não deviam tê-los.
— Hum — disse Edda. — Não existem formas de evitar que os tenham.
— Então, vou certificar-me de que caso com um homem que possa sustentar os filhos — disse Kitty com frontalidade.
— Não tentes o destino, Kits — retorquiu Edda. — Se qualquer uma de nós conseguisse prever o futuro, as videntes não ganhariam as fortunas que ganham. Vê o caso das celebridades de que a Grace está sempre a falar. Todas elas consultam videntes. No entanto, quando pensamos bem no assunto, que preocupações tem uma celebridade?
Tufts sorriu.
— Um bebé indesejado?
Com todo o amor e devoção de que Mikey foi alvo, a sua morte chegou mais lentamente. Se os seus dias não eram livres de dor, o doutor Faraday mantinha essa dor o mais suportável possível, sem induzir o coma. O que Mikey mais gostava de fazer era andar a reboque de um lado para o outro, numa parte abandonada da uma rampa, numa pequena carroça de madeira pintada de amarelo-vivo, com a sua enfermeira a fazer de pónei, a relinchar e a trotar. Apenas Grace nunca teve a alegria de ser o pónei de Mikey, mas Grace sabia que Mikey passava noites muito más e que era nessas alturas que ele precisava de conversar.
A dor e a privação de sono tinham feito com que o seu cérebro tivesse amadurecido precocemente, mas alguém que esperasse ouvir palavras de sabedoria dos seus lábios perdia a viagem. Os seus pensamentos, embora alguns anos à frente da sua idade, eram ainda os pensamentos de um menino pequeno. O que conquistava o amor de todos era a doçura do seu temperamento, e o que conquistava tanta admiração era a sua valentia.
— Ou talvez — disse Grace a Edda, durante a passagem de turno — o que faz com que Mikey seja tão adoravelmente memorável é a sua recusa em queixar-se. E eu, de todas as pessoas, deveria saber isso! — Grace franziu o rosto. — Que tristeza, aprender esta lição com uma criança de dois anos!
Numa atitude muito sensata, Edda não respondeu.
À medida que se aproximava o mês de vida que fora dado a Mikey, a sua dor agravou-se, o que significava que as injeções de opiáceos se tornavam cada vez mais frequentes. Já não conseguia comer, sobrevivendo à base de batidos de leite com chocolate, rebuçados de açúcar ou caramelos de manteiga.
— Cansado, Kitty — disse a criança um mês depois de estar internado. — Muito cansado.
— Então, dorme, meu querido.
— Não quero dormir. Em breve, não vou acordar mais.
— Oh, Mikey, nem penses nisso! Existe sempre mais um acordar.
— Para mim, não. Sinto-me demasiado cansado.
Quando Maria o veio visitar, a irmã Moulton pediu-lhe que dissesse à mãe e ao pai que Mikey não aguentaria outras vinte e quatro horas. A menina acenou com a cabeça e foi-se embora. Naquela tarde, um Bill Vesper bêbedo e os seus três filhos, também bêbedos, chegaram ao hospital e exigiram levar Mikey para casa. A resposta de Frank Campbell foi chamar a polícia que, liderada pelo sargento Cameron, levou os quatro elementos da família Vesper para a prisão a fim de recuperarem a sobriedade. Na manhã seguinte, de ressaca, mas de compos mentis, nada foi dito sobre Mikey ou em relação a retirá-lo do hospital. Os Vesper entraram na sua carrinha velha e foram-se embora.
Na madrugada do mesmo dia, Mikey sofreu uma alteração repentina na coluna vertebral, onde o tumor principal se encontrava, e começou a gritar. A exausta Kitty chamou Meg Moulton, que por sua vez mandou chamar o doutor Faraday, que se encontrava em casa a dormir.
Por fim, os gritos pararam. Kitty segurava Mikey nos seus braços enquanto o doutor Faraday preparava a injeção. Os olhos da criança abriram-se e ela sorriu para Kitty, deixando escapar um suspiro como se fosse dizer algo. Kitty sorriu por sua vez e esperou para ouvir o que Mikey ia dizer, mas as palavras nunca vieram.
— Pode guardar a seringa, senhor doutor — disse ela ao doutor Faraday. — Mikey deixou esta vida.
— Obrigado. Sabe o que fazer, enfermeira — respondeu o doutor Faraday, e abandonou a ala.
Kitty deitou Mikey, dolorosamente consciente da rapidez com que o pequeno corpo arrefecia. Quando acabou de o preparar para o seu descanso final, a carne de Mikey estava fria, fria, fria…
Ninguém viu Kitty sair de mansinho e descer a rampa em direção ao seu esconderijo secreto, para onde se costumava retirar desde a chegada de Mikey. Ainda não chovia, mas o céu de inverno abatia-se sobre ela em densas nuvens cinzentas, um vento cortante soprava e as rampas encontravam-se desertas. O lugar onde se escondia era junto a um velho tronco de árvore por baixo de uma rampa elevada para deixar passar um pequeno riacho. Tentou encontrar o tronco às apalpadelas, sentou-se nele com as mãos cerradas e sentiu as lágrimas correrem-lhe pelo rosto. Mikey, Mikey! Para quê pôr-te neste mundo se o teu único propósito foi passar dois anos a sofrer com dores horríveis, dores essas que não fizeste nada para merecer? Como eu desejo que exista um céu cheio de carrocinhas amarelas e batidos de leite com chocolate!
O ataque de dor não durou muito. Quando terminou, Kitty regressou à ala das crianças para reportar à irmã Moulton que Michael Vesper falecera. O doutor Faraday não o fizera e, de alguma maneira, Kitty sabia-o.
O condado e a cidade de Corunda custearam o funeral de Mikey, ao qual nenhum membro da família Vesper compareceu. Bill Vesper fora ouvido a proclamar no seu pub de eleição que se o governo tinha o direito de raptar o filho de um homem, então deveria ser o governo a pagar o enterro desse mesmo filho. O reverendo Latimer celebrou a cerimónia no cemitério, à qual compareceram alguns funcionários do Hospital de Corunda. Foi angariado bastante dinheiro para garantir que, quando a terra por cima do corpo de Mikey Vesper assentasse, seria construído um monumento de homenagem de granito cinzento com letras douradas cinzeladas. Por qualquer razão, era importante que Mikey Vesper descansasse numa sepultura decente.
A história de Mikey Vesper espalhou-se por Corunda depois da morte do menino e contribuiu para o ódio generalizado em relação a Bill Vesper e aos seus rapazes. Visto que o sargento Cameron não conseguiu persuadir nenhuma das meninas Vesper a apresentar queixa de abuso sexual contra o pai e os irmãos, a situação continuou, embora, ao mesmo tempo, tenha sido relegada para segundo plano por todos em Corunda.
A violenta tempestade de inverno, que ameaçou desabar sobre Corunda ao longo de três semanas, resolveu decidir-se a aparecer e a libertar toda a sua fúria no final de junho, chegando depois de escurecer.
Tufts era a única das quatro Latimer de serviço e encontrava-se a trabalhar na ala Um dos homens, a ala mais negligenciada de todas.
Até mesmo a enfermeira-chefe fora arrastada para o conflito entre o doutor Frank Campbell e todos os membros do pessoal do Hospital de Corunda que tinham algo que ver com esta ala. Horrorizada com o facto de o sistema de aquecimento ter perdido demasiada pressão não conseguindo aquecer a ala Um dos homens, a enfermeira-chefe mandou instalar dois aquecedores a coque, vindo mais tarde a descobrir que Campbell, que fora convencido a adquirir os fogões porque o coque era mais barato, se recusara a comprar quantidade suficiente deste para tornar o negócio mais rentável. E nas noites ventosas, como esta, ambos os aquecedores a coque tinham de ser complementados com vapor, o que era possível se os aquecedores da esquerda estivessem desligados e toda a pressão do vapor fosse direcionada para os da direita.
A enfermeira-chefe chegou à ala por volta das nove e não encontrou coque nos baldes grandes, nem fogo nos aquecedores.
— Scobie — disse a Tufts, com o seu uniforme engomado a ranger —, vá até casa do doutor Campbell, acorde-o e traga-o aqui de imediato! Não fique aí especada de boa aberta… faça o que lhe disse!
E Tufts assim fez. Impressionante, pensou ela enquanto apressava o doutor Campbell a percorrer a rampa, até onde vai uma enfermeira expedita quando é obrigada a fazê-lo!
— A enfermeira-chefe está zangada? — perguntou o diretor.
— Furiosa mesmo, senhor doutor. Oh, despache-se, por favor!
E, na verdade, quando Tufts e o diretor chegaram à ala Um dos homens, a enfermeira-chefe parecia estar fora de si. A goma do uniforme cedera e perdera a sua rigidez, o véu encontrava-se no chão e os dedos rechonchudos de ambas as mãos estavam fletidos como garras.
— Avarento! Miserável! Déspota! — rosnou ela, agarrando o colarinho do roupão de Frank Campbell e levantando-o do chão.
Campbell, um homem franzino que fora um déspota durante vinte e cinco anos, encontrava-se agora pendurado dos punhos da enfermeira-chefe como uma carcaça num talho, paralisado de medo. Aquele espantalho de cabelo grisalho era uma louca!
— Já o avisei antes, doutor Campbell, que não vou admitir que nenhum homem morra de pneumonia porque o senhor se recusa a aquecer as alas! Se continuar a não haver coque e se a pressão não for mantida, vou falar com o ministro da Saúde em Sydney e contar-lhe tudo o que se passa no Hospital de Corunda! Demorei quase dezoito meses a conseguir uma marcação, mas acabei por a conseguir e, quando vir o senhor ministro, vou partilhar com ele dezenas e dezenas de documentos repletos dos seus crimes contra a humanidade: homens, mulheres e crianças que estão doentes!
E havia mais. Todos os homens e enfermeiras da ala Um masculina se esqueceram por que razão estavam lá, sentados nas camas com os olhos a brilhar e o coração, senão todo o corpo, aquecido pela diatribe da enfermeira-chefe.
— Oh, foi maravilhoso! — disse Tufts às irmãs, depois de as acordar para lhes contar a novidade. — A enfermeira-chefe abanou Frank como um rato… na maior parte do tempo, os seus pés não tocaram no chão.
— A enfermeira-chefe ganhou a batalha da ala Um masculina — disse Edda —, mas a grande questão é se ela ganhou a guerra.
Talvez não, mas houve uma enorme melhoria no que dizia respeito ao aquecimento das alas e o canalizador ganhou, finalmente, o colega canalizador que tanto desejava. A enfermeira-chefe cancelou a sua marcação com o ministro da Saúde, suficientemente sensata para saber que os homens se protegem uns aos outros. Se não fizesse mais no Hospital de Corunda do que garantir que os seus pacientes tinham aquecimento, o seu tempo lá já teria valido a pena. E fez mais uma coisa, assente na teoria de que na pior das hipóteses nada mudaria e que na melhor das hipóteses mudaria tudo. Comprou uma praga a uma velha cigana quando o acampamento regressou para debaixo da ponte ferroviária. Oh, não era uma praga de morte! Apenas uma que garantisse que Frank Campbell fazia as malas e se ia embora do hospital para outro lado qualquer. O Inferno seria o lugar ideal, mas não era preciso tanto. Bastava a cidade de Darwin ou Bullamakanka.
Os Vesper foram vistos pela última vez naquele inverno. Quando a enfermeira distrital passou pela rua dos Vesper em outubro de 1927, encontrou a velha casa degradada vazia. Bill Vesper e a família tinham ido embora, para onde, ninguém sabia. Tudo o que restava era o monumento de homenagem de granito cinzento no cemitério da Igreja de St. Mark, com a sua inscrição dourada e brilhante que assinalava o derradeiro lugar de descanso de Michael Vesper, de dois anos. Ninguém sabia a data do seu aniversário, nenhuma das crianças Vesper fora registada.