Agridoce
PARTE DOIS: Uma Já Foi, Faltam Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Tufts! — disse Edda bruscamente, acendendo o bico do fogão por baixo da chaleira. — Nunca te fartas de ser a gémea séria e inteligente?
— Vais fazer chá? Também quero, por favor! — Tufts olhou para cima com os olhos cor de xerez iluminados. — A gémea mais forte, acho que é isso que queres dizer — acrescentou ela.
— Achas?
Edda olhou para a sua meia-irmã com um ar carrancudo. Tufts também era extremamente bonita, se Kitty não estivesse ao seu lado para eclipsar a sua beleza. O mesmo rosto doce, nariz direito, olhos enormes, testa arredondada. O seu tom de pele era mais uniforme, menos impressionante que o de Kitty, e as suas covinhas raramente se viam, mas, sem Kitty ao lado, Tufts era uma rapariga lindíssima. Porque é que ninguém via isso?
— Bem, não podes dizer que Grace e Kitty sejam propriamente estúpidas ou incapazes — disse Tufts, confusa —, porque não o são. Elas apenas desejam coisas diferentes de nós.
— Coisas como o amor — disse Edda, dando uma entoação bastante desagradável à palavra «amor». — Amor! Ficar submetida a um homem, é o que é.
— Consigo compreender porque tens essa opinião, Eds, mas, se a enfermagem te ensinou alguma coisa, é que as mulheres e os homens possuem uma estrutura mental e física diferente. Estou bastante farta de generalizações de igualdade… nem todos os homens são iguais e nem todas as mulheres o são. O individualismo deve ser recompensado.
— Bravo, Tufts! — exclamou Edda, a rir. — De volta ao tema do amor, preferia morrer do que me tornar sua escrava.
— Lembra-te das tuas experiências de enfermagem, por favor! É o hábito que escraviza, Edda, e isso pode ser o caso do amor depois de se tornar um hábito. — Tufts deitou a água a ferver para dentro do bule. — Os hábitos podem ser quase impossíveis de se quebrar.
— Oh, Tufts, és tão mais sensata que eu! O doutor Finucan fala sobre hormonas. Talvez tu e eu tenhamos concentrações de hormonas diferentes de Grace ou de Kitty? Ou os nossos cérebros se tenham desenvolvido de maneira diferente? E o que é um hábito, no cérebro?
Edda verteu o leite, Tufts agitou o bule para acelerar o processo de infusão. Em seguida, com as chávenas a transbordar de chá a ferver, sentaram-se para falar sobre as suas muitas preocupações.
— O que é que provocou tudo isto? — perguntou Tufts, dando um gole no chá.
— Levei Jack Thurlow a visitar Grace hoje… que ideia de loucos! Ele fez parecer que a queria conhecer por mera curiosidade, por isso pensei que assim que a conhecesse a esqueceria. — Edda riu de forma trocista. — Errado! Agora, em vez de me encontrar com ele para passear a cavalo nos meus dias de folga, estou condenada a ir com ele a casa de Grace e fazer de jardineira e criadita.
— Não é por isso que estás tão zangada, Edda.
— Já viste a casa de Grace?
— Sim. Está decorada com muito gosto. Surpreendeu-me.
— Não te passou pela cabeça que ela deve ter gastado todo o dinheiro que Bear tinha no banco, assim como as suas quinhentas libras? Maude convenceu-a a mobilar a casa num estilo que ela simplesmente não pode custear!
— Nunca pensei… A minha mãe é uma mulher horrível — disse Tufts calmamente —, ambas sabemos isso. O que é que ela pretende?
— Meter Grace em problemas com Bear, presumo eu. Sempre que ela esbanja dinheiro em mobília para o presbitério, o nosso gentil pai fica menos gentil e torna impossível para ela ficar com o artigo… Maude é obrigada a devolvê-lo. Ela achou que Bear, um homem de uma classe mais baixa que o pai, tornaria miserável a vida de Grace se ela gastasse demais. — Edda encolheu os ombros. — Bem, Maude calculou mal. Bear perdoaria tudo a Grace.
— Graças a Deus! — disse Tufts, sem rodeios. — A sua influência sobre Kitty já diminuiu, é óbvio, por isso Maude está desejosa de se vingar, bem como de encontrar outras maneiras de prejudicar alguém. Grace e Bear são apenas um exercício de treino, acho eu. Cuidado, Edda, tu és o principal alvo da mamã, tenho a certeza.
— Estou tentada a concordar, minha querida, mas eu já me livrei do ascendente de Maude na minha vida há muito tempo. De que forma pode ela magoar-me, Tufts?
— Assim que Grace lhe contar sobre Jack Thurlow, através dele, é o meu palpite. Vai tentar difamar-te.
Edda riu.
— Bem, se começarem a falar de mim e de Jack, param de coscuvilhar sobre ti e os médicos.
Pobre Edda!, pensou Tufts enquanto descia a rampa para o serviço de patologia, situado num edifício semelhante a um barracão, um dos maiores, pois também continha a biblioteca e o novo aparelho de raio X, um equipamento tão pesado que fora instalado sobre um alicerce especialmente forte. Como a gémea mais normal, Heather/Tufts escapara a muito do que Kitty sofrera, e o mesmo poderia ser dito sobre Grace em relação a Edda, que matava cobras com a perna de uma cadeira e desafiava tudo e todos, enquanto se mantinha atraente e encantadora. No entanto, era Grace que tinha encontrado o amor, refletia Tufts: amor verdadeiro, o tipo de amor que dura, que perdoa todo e qualquer pecado e não condena. Independentemente da quantidade de erros que a pobre e tonta Grace cometesse, Bear estaria lá para remediar tudo. Agora, ao que parecia, quando Bear não estava ao seu lado para o fazer, outros homens se ofereciam pelas mais puras razões. Embora Jack Thurlow estivesse apanhado por Edda, a sua prontidão em partir em auxílio de Grace dizia a Tufts que ele desejava que Edda precisasse dele, que ele desejava que Edda fosse apenas um pouco indefesa.
É claro que Edda não via isso, não queria ver. Edda valorizava muito a sua independência, a sua capacidade de tomar conta de si mesma. Tal facto não deveria fazer com que fosse uma pessoa menos merecedora de amor, no entanto, era precisamente isso que acontecia. Algumas mulheres eram mais difíceis de amar. Pobre Edda!
Apenas as luzes de presença noturnas estavam ligadas quando Tufts entrou e percorreu até ao final o longo corredor com inúmeras portas à esquerda e à direita, que terminava numa porta pintada de vermelho: o covil do doutor Finucan, o seu gabinete. Também este se encontrava às escuras, o patologista terminara o dia de trabalho e fora para casa, as experiências eram todas dela. Não eram bem experiências… Placas de Petri com culturas de tecido, tecido mamário embebido em parafina para dissecar, várias amostras histológicas para preparar… Os procedimentos rotineiros, tais como análises de urina, eram realizados pelo único técnico do doutor Liam. O facto de o doutor Liam conseguir sobreviver só com um técnico devia-se a ela, Tufts Scobie, que adorava a exatidão deste tipo de trabalho e realizava-o muito melhor do que o jovem oficialmente contratado para esse propósito.
Sem ligar as luzes, Tufts entrou no gabinete por uma porta lateral e dirigiu-se ao laboratório, onde carregou nos interruptores e iluminou a sala. Havia um aparelho automático para afiar as lâminas de corte do micrótomo, muito precioso, e a lâmina encontrava-se encaixada e pronta para ser utilizada. Tufts colocou o pedaço de parafina na base do micrótomo, preparou as suas amostras e começou a cortar, a deslizar e a colocar num suporte as secções transparentes do que fora em tempos a mama de uma mulher, de tal forma absorta na sua tarefa que não viu nem ouviu nada à sua volta.
— Obrigado por fazeres isso — disse a voz do doutor Finucan.
Tufts deu um pulo e, em seguida, sorriu radiante.
— Vão ficar prontas a tempo.
— Até aposto que se trata de um carcinoma — disse ele.
— Oh, pobre mulher! Não tem muito mais de trinta anos, os filhos ainda nem andam na escola.
Tufts deslizou do banco alto e voltou para o gabinete, onde esperou que o patologista fechasse o laboratório.
Tal como os seus colegas patologistas, Liam Finucan era uma mais-valia para o Hospital de Corunda. Tal como eles, poderia ter tido uma carreira de sucesso em Sydney ou Melbourne. No entanto, a sua esposa era de Corunda e ele apaixonara-se por aquele lugar desde o primeiro dia: a sua atmosfera campestre, o verde da sua relva, os seus opulentos arbustos europeus e flores. Nascido e criado no Ulster, com antepassados protestantes, completara o curso de medicina em Londres com tanto êxito que lhe permitia exercer como patologista em qualquer lado. Trabalhara com Sir Bernard Spilsbury! Para alguém que crescera no meio das guerras religiosas do Ulster, Corunda era um paraíso.
Foi provavelmente a única coisa boa que Eris fez por ele, obrigar Liam Finucan a escolher Corunda, mas, como ele próprio relembrava, ela era jovem e tinha saudades de casa, pobre Eris! Uma linda rapariga, uma linda mulher, Eris sempre fora uma pessoa descontente. A área de especialização de Liam não exigia que se ausentasse muito nem que sacrificasse grande parte do seu tempo. De certa forma, Liam até desejava que assim fosse, porque poderia ter-se mantido cego aos muitos avanços de Eris sobre outros homens. E toda a cidade de Corunda o sabia.
Em grande parte, Liam lidava com o facto ignorando os seus inúmeros casos românticos, apenas discutindo o assunto quando ela decidia pedir o divórcio. Liam recusava os seus pedidos, não por razões religiosas, mas por compaixão. Independentemente do quanto ela lhe implorasse pelo divórcio, Liam não lho concedia, pois, embora a ocasional traição com outros homens fizesse parte da natureza de Eris, Liam não a queria sujeitar a uma humilhação pública daquela magnitude. O escândalo acabaria com ela. Havia também outra questão: se Liam também a abandonasse, Eris não conseguiria sobreviver no mundo onde habitava. Se tivessem tido filhos, seria diferente, mas Eris era infértil. O número de homens com quem já estivera e a sua ignorância em termos contracetivos provara-o ao patologista. As suas infidelidades, pensava Liam, não eram mais do que uma demanda desesperada por um filho.
Naquele momento, a situação estava bem pior do que alguma vez estivera. Corunda não tinha um número ilimitado de homens, e Eris já se envolvera com aqueles por quem se sentia atraída. Há um mês, fizera a mala em segredo e partira para Sydney, de forma demasiado repentina para Liam poder ir atrás dela. Um abandono que lhe daria um motivo incontestável para pedir o divórcio. O seu detetive privado encontrou-a a viver com um homem que geria uma pecuária em Liverpool, e Liam finalmente desistiu da batalha.
— Vi Don Treadby hoje — disse ele a Tufts.
— Faço um chá para nós?
— O que uma bebida alcoólica forte é para a maior parte das casas, o chá forte é para uma casa onde se cura — disse ele com um dos seus raros sorrisos.
— É a cafeína e as outras substâncias que o chá tem, sobretudo porque o bebemos tão forte por aqui. Senta-te, fecha os olhos e conta. Volto mais depressa do que o cordeiro morto abana a cauda.
— Uma metáfora bastante apropriada a Corunda — gritou ele enquanto ela se afastava.
— Mais vale vivo que morto — respondeu ela ao longe.
Tufts regressou rapidamente com um tabuleiro de chá.
— Que disse Don Treadby? — perguntou ela, servindo o chá.
— Que já estava na altura de me divorciar de Eris.
— Bem, a não ser que tu peças o divórcio, é uma situação muito penosa. És a parte lesada, a meu ver. Parece-me estranho — disse Tufts, soprando o chá para arrefecer — que o divórcio não possa ser pedido por qualquer uma das partes.
Liam arqueou as sobrancelhas escuras e bastante direitas.
— Heather! Deixarias uma adúltera pedir o divórcio?
— Que cambada de disparates que os homens dizem! — disse Tufts, zangada. — Dizes «adúltera» como se o adultério fosse semelhante ao homicídio… para uma mulher! Eu vejo a situação como um indício de que o cônjuge acabou por se tornar uma enorme desilusão. Na minha opinião, a tua mulher está doente. E se fosses tu o adúltero, como homem, o crime seria menor e teria sempre circunstâncias atenuantes.
Tufts inclinou-se na direção dele, os seus olhos ficaram mais dourados com a luz ténue e começaram a brilhar de forma maliciosa.
— O que eu quero dizer é que o doutor está aqui bem depois da hora do jantar, fechado no seu gabinete com uma enfermeira de vinte e um anos! O que acha que a fábrica de coscuvilhice de Corunda teria a dizer sobre isso?
Ele sorriu, os seus dentes surpreendentemente brancos devido ao contraste com a pele morena.
— São pérolas a porcos — disse ele.
— Não serão antes rubis?
Riram juntos, ambos em sintonia.
— Achas que me devo divorciar de Eris, não achas, Heather?
— Sim, Liam, acho. Tens dinheiro suficiente para lhe dar uma mesada… talvez não tanto quanto ela quereria, mas de acordo com a lei não tens de lhe dar nada, visto que a culpada é ela. Ainda vivemos num mundo de homens.
— Mas tu és minha amiga, não és? — perguntou ele, ficando sério de repente.
— Sim, seu tolo! É por isso que nos tratamos pelo nome próprio… bastante inapropriado se não for entre bons amigos.
A porta abriu-se e a enfermeira-chefe entrou. Ambos viraram a cabeça para olhar para ela com um ar completamente inocente.
— Está a trabalhar até tarde, doutor Finucan?
— Na verdade, não, enfermeira-chefe. Vim terminar algum trabalho que tinha em atraso, mas descobri que a enfermeira Scobie já o tinha feito.
— Scobie é uma enfermeira excelente, bem como uma técnica de análises exemplar, doutor Finucan, mas entra de serviço amanhã às seis da manhã na ala das mulheres. Sugiro que vá descansar de imediato, enfermeira.
Tufts levantou-se rapidamente.
— Sim, enfermeira-chefe. Boa noite, senhor doutor.
Nada mais foi dito até Tufts sair da sala, depois Liam Finucan falou.
— Isso foi bastante desagradável, Gertie — disse ele.
— Por vezes, tem de se ser cruel para o bem das pessoas, como sabes, Liam. Don Treadby disse-me que foste visitá-lo esta manhã.
— Jesus, mas nada se mantém em segredo por aqui?
— Em Corunda? Nada!
A enfermeira-chefe enfiou a mão no bolso imaculadamente engomado e retirou cigarros e um isqueiro, escolheu um com filtro e acendeu-o.
— Tendo em conta esta nova situação, Liam, não podes estar na conversa com enfermeiras no teu escritório a estas horas da noite. Se o advogado de Eris descobre, vais ter problemas… e a enfermeira Scobie também.
— Não pensei nisso — disse ele, aborrecido.
A enfermeira-chefe olhou para ele com alguma compaixão.
— Bem, os homens tendem a não pensar em determinadas circunstâncias, acho eu. No entanto, recuso-me a deixar que a tua irreflexão destrua a oportunidade que esta excelente enfermeira tem de fazer uma carreira brilhante. De futuro, Liam, não deves ser visto a sós com a enfermeira Scobie, nem incumbi-la de fazer trabalhos especiais para ti.
— Nunca pensei nisso — repetiu ele.
— Mais vale prevenir que remediar, velho amigo. Divorcia-te primeiro de Eris. Já o devias ter feito há muitos anos, quando ainda eras um rapaz novo e um pretendente mais adequado para alguém como Heather Scobie-Latimer. Neste momento, és um homem de quarenta e três anos com bastante uso. — A enfermeira-chefe apagou o cigarro e levantou-se. — Posso contar com o teu bom senso, Liam?
— Claro que sim.
Depois de a enfermeira-chefe sair e fechar a porta, a imagem de Tufts apareceu perante os olhos de Liam Finucan; fechou-os ao sentir uma dor aguda que não sentia há muitos, muitos anos.
— Maldita sejas, Gertie Newdigate! — disse ele em voz alta. — Arruinaste algo com que ainda nem me tinha ocorrido sonhar.
Quarenta e três anos e bastante uso… não era propriamente o tipo de pretendente capaz de encantar Heather Scobie, disso tinha a certeza.
Várias semanas de trabalho árduo no jardim de Grace fizeram com que Edda aceitasse a mudança na sua relação com Jack Thurlow, mas não as saudades que tinha dos passeios a cavalo. De certa maneira, a jardinagem e a enfermagem tinham efeitos físicos demasiado semelhantes, nem relaxavam nem revigoravam o corpo; a coluna era a parte mais afetada, e o agachar constante exacerbava o problema. Como o cavar de centenas de buracos para plantar os bolbos de narcisos amarelos provavam, a jardinagem também não proporcionava qualquer deleite para a alma: nem paisagem para deliciar os olhos, nem liberdade para a alma. Além disso, o jardim era de Grace, sobre o qual a mesma presidia, inchada como um sapo, como se fosse a rainha de Sabá.
Jack enfrentou a sua boa ação com energia e entusiasmo, aparentemente alheado dos sentimentos e necessidades de Edda. Apenas duas visitas fizeram com que Grace esperasse que eles aparecessem sempre que Edda estava de folga; pior ainda, Jack começou a achar que Grace era a sua única atividade juntos. Assim, Edda podia dizer adeus a Fatima, à sua amizade com Jack, aos maravilhosos passeios a cavalo e a grande parte da sua privacidade. Edda veio a perceber que Grace era coscuvilheira e que Jack gostava de a ouvir. Paz!, lamentou-se Edda silenciosamente. Deem-me um pouco de paz!
Nas raras ocasiões em que Bear se encontrava em casa, o ambiente era descontraído. Jack e Bear conversavam sobre assuntos do universo masculino que os homens valorizam tanto: avarias de máquinas, colheitas pouco abundantes, dificuldades em encontrar bons cães de trabalho, injustiças de alguns juízes nas feiras de gado… temas típicos de Corunda que Bear, devido às suas inúmeras viagens, estava mais que qualificado para discutir.
Na verdade, Bear estava muito feliz, tanto quanto um homem recém-casado pode estar, e aguardava o nascimento do seu primeiro filho num misto de encanto e receio.
— Sinceramente, não me importo se é menino ou menina — disse Bear a Jack e às cunhadas durante o jantar —, porque vamos ter alguns de ambos os sexos. Se prefiro que venha um rapaz primeiro, é apenas para ajudar Grace com o trabalho mais pesado por aqui.
— Têm de crescer um bocadinho antes — disse Kitty, que gostava muito de Bear.
— Oh, acredita que eles crescem de um dia para o outro! Eu já cortava lenha e acendia o fogão para a minha mãe quando tinha pouco mais de um ano — disse Bear de forma animada.
— Sim, mas não vais sujeitar os teus filhos ao mesmo tipo de tirania a que o teu pai te sujeitou — disse Tufts.
— Espero que não! Foi por essa razão que fiz um juramento muito cedo… a bebida é mesmo um demónio. Ainda assim, acho que não faz mal às crianças de uma família grande ajudarem e contribuírem com algumas tarefas. Penso que é melhor isso do que demasiado mimo.
— Isso — disse Grace, levantando-se de forma um pouco desastrada — não vão ter por aqui, Bear, meu amor. Eu não sou boa dona de casa.
Edda olhou para cima rapidamente, mas Grace já se virara, saindo do alcance do olhar reprovador de Edda. Oh, Grace, o que estás a fazer agora? Levantou-se e seguiu Grace até à cozinha.
— Porque achas que não és boa dona de casa, Grace?
— Credo, Edda, não deixas nada escapar! — disse Grace, com uma atitude defensiva. — Não é nada… é só porque vi um material lindo para fazer umas cortinas para a sala de estar e gastei a maior parte da mesada que tenho para governar a casa. E Bear é tão generoso.
Horrorizada ao ouvir-se, embora incapaz de se controlar, Edda imitou Maude Latimer e rangeu os dentes.
— Oh, Grace! Não podes fazer isso! Sobretudo com o bebé a nascer em breve, de certeza que percebes isso? A tua casa está concluída, por dentro é boa demais para o resto da vizinhança, e não havia problema nenhum com as cortinas da sala de estar. Se o que gastaste endividar Bear, ele vai ser obrigado a pôr um daqueles horríveis anúncios no Post a dizer que o senhor Björn Olsen não se vai responsabilizar pelos gastos da sua esposa. Se continuares a gastar o dinheiro que não tens, Bear só vai ter duas alternativas: desresponsabilizar-se pelas tuas dívidas ou declarar-se falido. E se Bear declarar falência, cada pedaço da tua preciosa mobília vai ser leiloado, juntamente com esta casa. Não te lembras do que a senhora Geordie Menzies fez a Geordie no ano passado?
As lágrimas corriam pelas faces de Grace.
— Não vejo o problema desta vez — disse ela, procurando o lenço para secar os olhos. — A sala de estar precisava de cortinas novas!
— Grace, tu é que precisas de mudar — disse Edda, num tom severo. — Acabaram-se os gastos… e não vás contar a Bear a nossa conversa. Tens de viver de acordo com as tuas possibilidades, estou sempre a dizer-te isto. — Ocorreu-lhe um pensamento. — Tens recebido Maude em casa ultimamente?
— Por vezes — sussurrou Grace.
— Então, não o faças mais. Diz-lhe para me ir visitar, eu deixo-a com a pulga atrás da orelha!
Tenho de pôr termo a esta relação entre a minha influenciável irmã e a nossa terrível madrasta, pensou Edda enquanto se afastava no carro de Jack com Tufts e Kitty. Ela está a tentar afastar Grace e Bear, persuadindo Grace a gastar de forma exorbitante.
Era evidente que Jack reparara em algo errado. Curioso o facto de ele, sem qualquer relação de sangue, ser o único a ver tudo de forma clara… Depois de Tufts e Kitty saírem do banco de trás do carro, Jack não fez qualquer tentativa para expulsar Edda.
— Vão andando, meninas — disse-lhes ele —, enquanto eu levo a vossa irmã até ao rio para namorar um pouco.
— Namorar! — disse ela indignada, enquanto Jack conduzia em direção ao rio e estacionava. — Ainda assim, resultou. Como é que eu sabia que as coisas iam mudar se te apresentasse Grace?
— Agora não, Edda. Contempla a noite, sua filisteia!
Jack queria partilhar com ela, queria que ela partilhasse com ele. Edda, és uma tola! O cheiro e os sons, bem como a paisagem de verão, inundaram Edda quando se sentou no tronco da árvore com Jack e olhou. A noite estava deslumbrante, a luz das estrelas emanava do céu junto a uma imensa Lua redonda de prata, que jorrava um esplendor invisível sobre as colinas e tingia o mundo inteiro de um tom índigo cintilante.
— Sentes-te melhor agora, depois de veres isto? — perguntou ele, enquanto enrolava um cigarro.
— Sim e agradeço-te. És um tipo engraçado, Jack, nunca sei qual vai ser a tua reação. No entanto, sempre achei que as coisas iam mudar quando conhecesses Grace, e tinha razão — disse ela, pensando por que razão os cigarros agora a entediavam. — Grace é de tal forma indefesa, embora eu só me tenha apercebido disso quando ela se casou com Bear, que eu costumava manipulá-la como um fantoche quando ainda vivíamos no presbitério. Mas pelo menos naquela altura ela não estava metida em sarilhos, agora parece que está sempre. Tu também és uma peça fundamental para manter Grace no caminho certo. Ela costumava passar o tempo livre nas gares de comboios. Foi lá que conheceu Bear, apaixonaram-se no meio de locomotivas a vapor. É ridículo, não é? De qualquer modo, Grace funciona como um comboio, sobre carris. Não se consegue virar sem ajuda. E, por razões que nem sou capaz de imaginar, a nossa madrasta está a intrometer-se na vida dela, o que está a ter um efeito desastroso.
— Que efeito desastroso? — perguntou ele, enquadrando a Lua num anel diáfano de fumo.
— Oh, para com isso! — disse Edda bruscamente. — A última coisa que um mundo perfeito precisa é de um anel de fumo feito pelo homem! Não consegues apreciar a verdadeira beleza?
O anel de fumo fora a sua deixa para segurar Edda nos braços e beijá-la até ela esquecer a sua obsessão com Grace, mas a sua reação fê-lo parar, um intenso desejo desfeito. Medusa, górgona, senhora das serpentes, era o que lhe chamavam e com todo o fundamento. Jack prestava atenção aos rumores e já ouvira histórias de pacientes que se apaixonavam por Kitty ou Tufts, mas nunca por Edda. Não havia enfermeira que cuidasse melhor dos pacientes, que fizesse um homem sentir-se mais à vontade e especial, no entanto Edda não conseguia cativar o tipo de amor que existe entre um homem e uma mulher. Os próprios sentimentos de Jack por ela eram intensamente físicos, e bastante racionais, mas não conseguia convencer-se de que ela sentisse qualquer tipo de amor por ele. Edda era como uma gloriosa estátua no cimo de um pedestal, e Jack desconfiava que ela preferia viver assim.
— Que efeito desastroso? — repetiu ele.
— Ela não tem qualquer noção do valor do dinheiro, endivida-se constantemente.
— Ah, percebo. E a tua madrasta?
— Encoraja a sua tendência para gastar. Tenho de pôr fim a isso!
Caminharam para junto do carro.
— Não tenho dúvidas de que o farás, Edda.
Edda permaneceu em silêncio até avistar o portão lateral do hospital, depois falou precipitadamente.
— Não te armes em cavalheiro, Jack, eu consigo sair sozinha. Vais a casa de Grace amanhã?
— Tinha intenção de voltar, visto que Bear ainda está na cidade. Vamos tratar daquela árvore.
Edda deslizou para fora do carro.
— Boa sorte. Eu não vou, estou farta de Grace, e Fatima está a engordar muito por falta de exercício nos estábulos do meu pai. Vou voltar a andar a cavalo, faz-me bem à saúde. Boa noite.
Dito isto, Edda desapareceu.
Durante uns longos cinco minutos, Jack permaneceu estacionado na esquina, certo de que Edda mudaria de ideias e voltaria para lhe dizer que se veriam amanhã em casa de Grace. No entanto, foi Liam Finucan quem apareceu junto ao carro.
— Podes levar-me a casa, Jack?
— Entra. Agora que pediste o divórcio, o que acontece à casa? É demasiado grande.
— Vou vendê-la. Há uma casinha pequena dentro da propriedade do hospital que serve perfeitamente para mim. Vou fazer um contrato de arrendamento de longa duração e arranjá-la.
— Sensato. Além disso, eu sei que queres algum dinheiro para dar uma mesada a Eris — disse Jack, sorrindo.
A expressão do rosto alongado parecia divertida pelo comentário.
— Ai, pobre alma! Faz parte da natureza dela, Jack, e eu tenho o suficiente para me governar.
— Ela fez avanços sobre mim uma vez, Liam, eu recusei.
— Ela fez avanços sobre todas as pessoas com um pénis, Jack.
— E tu estás bem melhor sem ela.
A pessoa que mais sofreu com o divórcio do doutor Finucan foi Tufts, que não fazia ideia do que se tinha passado entre a enfermeira-chefe e Liam depois de ter sido mandada embora naquela noite memorável. Quando voltou a estar de serviço no laboratório de patologia, Tufts apareceu desejosa de aprender uma nova técnica de análise que Liam prometera ensinar-lhe e encontrou-o sentado atrás da secretária, tendo de ficar de pé à sua frente. Uma repreensão?
Não, nada disso. Liam não parecia bem, o que a preocupou. O seu cabelo desgrenhado não via uma escova há bastante tempo e caía sobre o rosto, cegando-o parcialmente, os seus olhos cinzento-escuros pareciam sem vida e o rosto flácido evidenciava fadiga. Que raio se passava? Onde estava a ruga que aparecia sempre no canto da sua boca e que o fazia parecer tão bem-humorado. Não havia sinal dela naquele dia. Nem da ligeira suavidade que Tufts se habituara a encontrar no seu sorriso. Hoje, não havia sorriso.
— Sente-se, enfermeira Scobie — disse ele, de forma bastante austera.
Intrigada, Tufts sentou-se com as mãos sobre o colo e os olhos postos nele.
— Isto é bastante constrangedor — disse ele, após uma pausa —, e deve estar bem longe do que a enfermeira-chefe quer que eu faça, mas não sou capaz de parar de dar aulas privadas a uma enfermeira tão interessada e brilhante como a Scobie sem dar, pelo menos, uma explicação adequada. Por favor, lembre-se de que a enfermeira-chefe está apenas a zelar pelo seu interesse.
A voz profunda e com a modulação típica do Ulster enfraqueceu, mas os seus olhos nunca deixaram os dela. Engoliu em seco, recompôs-se e continuou.
— Já lhe disse que iniciei o processo de divórcio devido à infidelidade constante da minha mulher. Isto significa que sou a parte lesada e que vou receber tratamento favorável em tribunal. No entanto, o advogado da minha mulher vai fazer os possíveis por me arrastar para o nível dela. Se ela conseguir provar que eu cometi adultério, então terá a mesma vantagem que eu em tribunal. Visto que nunca cometi adultério, é do meu interesse manter-me, hum, imaculado, enfermeira.
A sua voz enfraqueceu novamente, olhando para Tufts com um enorme sofrimento.
Tenho de o ajudar, pensou Tufts. De outra forma, vai desmaiar aqui e agora.
— O que quer dizer, doutor Finucan, é que não devemos ficar sozinhos em nenhuma circunstância que possa fazer com que a senhora Finucan alegue uma conduta inapropriada da sua parte? — perguntou Tufts, a sua voz firme e distante.
— É essa a convicção da enfermeira-chefe.
— Concordo com a enfermeira-chefe. — Tufts começou a levantar-se da cadeira. — A partir de agora, não devemos estar os dois sozinhos ou tratar-nos pelo nome próprio. — A sua expressão ficou séria. — Sugiro que o jovem Bill esteja sempre presente e participe nas nossas aulas. Eu sei que o doutor sempre foi contra isso, porque ele não é tão rápido a assimilar os conteúdos como eu, mas talvez isso seja injusto para com Bill, dada a função que ele desempenha no laboratório. Quaisquer instruções que me dê, devem ser dadas também a todos os outros participantes na mesma sessão.
Os olhos dele brilharam, tornando-se cruéis de repente.
— Lamento, minha querida, lamento muito.
— Ora essa, que disparate! — disse ela, docemente. — Por quanto tempo será?
— Dois anos, ao que parece. Os tribunais estão sobrecarregados. Tenho de esperar a minha vez.
— Oh, mas que pena! Tinha esperança de podermos voltar à normalidade antes de terminar o curso, mas tal não será possível — disse Tufts, com tristeza.
— Temo que não será possível, não.
— Posso ir-me embora agora, senhor doutor?
— Sim, claro. Vou fazer um novo horário para si e para Bill e outro para as enfermeiras.
Aquela maldita mulher!, pensou Tufts, enquanto descia a rampa com um ar bastante inacessível. A importunar um homem tão digno e depois a privá-lo do pouco prazer que ainda tinha. Ele gostava das nossas sessões a dois, eu sei que sim!
Uma eternidade de correção formal aproxima-se, e fico louca de raiva só de pensar nisso. Acabou-se o chá a meio da noite, os olhares que se faziam entender sem palavras. Estou a ser condenada a um exílio espiritual. Oh, eu sei por que razão a enfermeira-chefe interveio e fico contente por ela o ter feito. De outra maneira, Liam seria arruinado, eu seria arruinada e ambos teríamos de ir embora. Liam e eu nunca prejudicámos ninguém, mas agora fomos separados para sempre, como um pedaço de carne cortado ao meio por um talhante. No entanto, vou fazer uma coisa, à vista de todos, fora do gabinete dele e do laboratório: vou escovar-lhe o cabelo. Aquela escova da Mason Pearson custou-me dinheiro e comprei-a para dar um jeito àquele cabelo desgrenhado. E é o que vai acontecer, se o escovar duas vezes ao dia e com vigor junto ao escalpe. Tenho de obrigar os folículos a crescerem para trás, não para a frente. Com divórcio ou sem divórcio, vou fazê-lo!
Edda não falara com Maude sobre o facto de esta encorajar Grace a gastar o dinheiro que não tinha; foi antes discutir o assunto com o seu pai, uma decisão bastante mais perspicaz.
Depois de as suas filhas terem ido estudar enfermagem, o reverendo Thomas Latimer tornara-se um homem cada vez mais emancipado. Sozinho no enorme presbitério com Maude, depois de esta ter regressado da sua estadia nas Montanhas Azuis, Thomas começou a cortar aqueles laços que o uniam a ela e de que nunca gostara, desde a sua atitude dominante para com as suas filhas à escolha dos seus sermões e cânticos. E, apesar de não ser um homem rico, herdara o suficiente da sua mãe Treadby para viver de forma muito confortável. Era, por natureza, um homem bastante cuidadoso com o dinheiro. Maude, por exemplo, tinha apenas acesso limitado ao seu dinheiro. Embora amasse a sua segunda mulher, não era cego aos seus defeitos. A interferência de Maude nas finanças de Grace, interpretava ele de forma bastante acertada, era uma maneira indireta de conseguir o que sempre quisera, mas que lhe fora negado. Sempre que ia a casa de Grace, Maude olhava em redor e congratulava-se pelo seu poder de interferir na vida daqueles de quem não gostava, mesmo que os prejudicasse seriamente com isso.
No entanto, quando um pastor incrivelmente furioso batia o pé, Maude não tinha outro remédio senão obedecer. Quando lidasse com Grace de futuro, foi-lhe dito de forma fria, deveria desencorajar os gastos excessivos de dinheiro. De outra forma, a sua própria mesada seria afetada.
Edda teve mais dificuldades em convencer o pai a não repor as 900 libras de Bear e as 500 de Grace.
— Por favor, papá, não o faça — implorou ela. — Bear é demasiado bom para Grace para lhe esconder o dinheiro que o pai lhe der e, assim que ela souber que o dinheiro lá está, vai gastá-lo de novo. Ser gastadora faz parte da natureza de Grace, por isso deixe o marido lidar com ela. Se quer ajudar a família Olsen, pague uma boa escola para que os filhos deles tenham acesso a uma boa educação. Veja o que isso nos valeu.
A conversa ficou por ali. Uma parte dela sentia-se desgostosa por Grace ter arruinado a sua relação com Jack Thurlow. Edda começou a visitar Grace cada vez menos à medida que a sua gravidez chegava ao termo. Contudo, com toda a honestidade, a culpa era de Jack, não de Grace. Ao sucumbir aos encantos de Grace, Jack revelara uma faceta secreta que Edda considerou branda e fraca. Ele não era o homem que Edda sempre pensara que fosse. Grr!
Quando Grace entrou em trabalho de parto no início de abril de 1928, estava enorme e, de acordo com os cálculos do obstetra, já passava da data prevista para o parto. Bear já se encontrava em Corunda, tendo planeado a sua chegada para a mesma altura do nascimento. O bebé simplesmente ignorou os horários de toda a gente.
A maternidade não estava movimentada, nem se esperava que ficasse nos tempos mais próximos, e o doutor Ned Mason internou Grace antes de as dores do parto começarem. A sua admissão na maternidade foi como um aguilhão para gado: Grace tinha acabado de desfazer a sua pequena mala de viagem e de se sentar à beira da cama para testar o seu conforto quando as águas rebentaram. Sabendo de quem se tratava e consciente de que as suas irmãs se encontravam de serviço noutras alas do hospital, a irmã responsável pela maternidade acalmou Grace de forma meiga e competente. O chão foi limpo, arranjaram-lhe uma bonita camisa de dormir e foi-lhe designada uma simpática enfermeira do West End para a ajudar a movimentar-se.
— Mas eu não quero andar, quero deitar-me na cama! — protestou Grace a Edda, quando esta apareceu com o uniforme da sala de operações e duas máscaras cirúrgicas em volta do pescoço. — Porque não me deixam deitar?
— O doutor Mason acha que o parto vai ser demorado, Grace, o que significa horas e horas na cama. Agora, enquanto ainda podes, anda !
Kitty e Tufts entraram no quarto para a abraçar, beijar e explicar novamente a importância de andar, pois Grace teimava em não acreditar que ajudava. Edda suspirou baixinho.
— Grace, tu eras enfermeira — relembrou Kitty.
— Sim, mas nunca estive de serviço na maternidade! Ai, ai, ai, dói tanto!
— É claro que dói — disse Tufts, puxando inflexivelmente por Grace. — Estudaste anatomia e fisiologia, Grace, por isso deves lembrar-te que o doutor Finucan explicou que a pélvis tem de abrir para uma coisa enorme como um bebé sair… é incrível o quanto ela abre, por isso, sim, dói imenso! Tens de te esforçar muito, minha querida, sob circunstâncias horríveis, antes de conseguires expelir o bebé. Lembra-te apenas que é o melhor esforço da tua vida porque o resultado final é tão maravilhoso: um bebé saudável de termo.
— Tem de ser rapaz! — arfou Grace para Kitty horas depois.
— Que disparate! — exclamou Kitty, limpando o rosto de Grace. — O que há de tão especial em ter um rapaz?
— Todos os homens querem um rapaz. As raparigas são uma desilusão.
— E os desejos da mulher não contam? No final de contas, são elas que fazem o trabalho mais difícil.
Grace emitiu um sopro de desprezo.
— Quem no seu perfeito juízo quereria uma rapariga? Reprimida, confinada, submissa? Se Edda tivesse nascido rapaz, o pai teria feito de tudo para o mandar para a universidade, para que ele tirasse o curso de medicina. Mas Edda nasceu rapariga, por isso…
— Sim, bem, infelizmente não temos escolha no que diz respeito ao sexo do bebé, minha querida. O que quer que seja, menino ou menina, é teu. Toma, bebe um pouco de água. Precisas de fluidos.
Bear levara Grace para o hospital e conseguira estar por breves momentos com a sua esposa chorosa e a sofrer depois de esta se ter instalado. Em seguida, foi encaminhado para a sala de espera dos pais, onde um futuro pai andava ansiosamente de um lado para o outro, fumava um cigarro atrás do outro e tentava pensar noutra coisa para além da sua mulher e filho. Seria bastante mais fácil se tivesse companhia, mas o bebé de Grace resolveu nascer depois do boom de bebés de setembro, concebidos no final/início do ano, altura em que se consumia muito álcool e se tomavam poucas precauções. Bear teve de esperar sozinho, salvo algumas visitas breves do pai e das irmãs de Grace.
Vinte e sete horas depois de o trabalho de parto começar, Bear ficou a saber que era o orgulhoso pai de um menino muito saudável com quatro quilos.
Grace estava exausta, mas com poucas mazelas à exceção de alguns pontos no períneo rasgado. Um menino! Um menino com o cabelo, as sobrancelhas e as pestanas de um tom negro como a Branca de Neve e um corpo comprido e forte.
— Bem, Grace, este foi o trabalho mais árduo que alguma vez terás de fazer — disse a tia Tufts, segurando o bebé com destreza. — E é um belo rapaz! Que nome lhe vais dar, Bear?
— Brian — disse Bear tão rapidamente que a opinião de Grace se perdeu.
— Brian? Gosto, Bear, mas nunca o mencionaste.
— Era o nome do meu irmão preferido. Morreu numa rixa num bar.
Se a tia Tufts, a única familiar presente, achou macabro dar ao bebé o nome de alguém que morreu numa rixa de bar, não mostrou qualquer indício disso. Entregou o bebé a Bear, com um sorriso.
— É um nome bonito, masculino, e livre de ser alvo de graçolas no recreio da escola.
— Exatamente — disse Bear, olhando intensamente para o seu primogénito num misto de encanto e humildade. — Os nomes que Grace escolheu eram um pouco delicados, mas não vou condenar o meu menino a ter um nome efeminado. Brian Olsen soa-me bem.
— Oh, Bear! — exclamou Grace num tom acusador. — Eu queria algo que soasse bem com o título de cavaleiro. Sir Maximilian Olsen!
— Maximilian é um nome efeminado — disse Edda, entrando no quarto. — Brian? Ideal! Graças a Deus que um dos membros da família Olsen tem bom senso.
Ser avô de um rapaz encantou o pastor, que descobrira como ajudar Grace sem lhe meter dinheiro na carteira. Contratou uma empregada doméstica para limpar a casa de Trelawney Way uma vez por semana, e para fazer o pior trabalho de todos três vezes por semana: lavar dezenas e dezenas de fraldas de pano. Tudo o que Grace tinha de fazer era retirar os sólidos das fraldas sujas e pô-las para lavar. A empregada fervia-as, passava-as por água e pendurava-as para secar nas cordas da roupa que se entrecruzavam no quintal e o faziam parecer uma autêntica selva. A lavandaria era agora um barracão junto à porta das traseiras. O que fora em tempos a lavandaria, não passava de uma área onde as fraldas ficavam de molho.
Bear, reparara agora Edda, estava menos ansioso de voltar à estrada do que antes. Parte disso devia-se ao facto de estar embevecido com o seu filho, mas era sobretudo por estar preocupado com Grace, que, apesar de ter bastante ajuda em casa e com a roupa, não parecia conseguir lidar com a chegada do filho. Tinha tanto leite que chegava a pingar, mas, passada apenas uma semana do nascimento, ficou de tal maneira revoltada que deixou de lhe dar de mamar e começou a alimentá-lo a biberão, aguentando a supressão de leite como um mal menor. O doutor Mason ficou indignado, tal como a enfermeira distrital, mas Grace ignorou-os. Mudar a fralda ao bebé era algo que também a revoltava, por isso fazia-o menos vezes do que devia. O resultado era eritema das fraldas tão grave que as suas três irmãs se viram obrigadas a pressioná-la para cuidar do bebé de forma apropriada. No final, Grace conseguiu o que tanto queria do pastor: ajuda com o bebé a tempo inteiro.
— De qualquer maneira — disse Edda num tom furioso a Kitty e Tufts, um dia, quando o bebé Brian tinha três meses —, a nossa astuta irmã sempre se conseguiu safar a todas as tarefas que considera desagradáveis. Mas isto é a última gota! É ridículo, digo-te já! Uma empregada a tempo inteiro para garantir que Brian se encontra limpo e seco para não sofrer erupções, nem feridas! Estou furiosa!
— Só serve para mostrar o quanto Grace deve ter odiado cuidar dos doentes — disse Kitty, os olhos a brilhar com lágrimas. — Maude gosta de uma casa requintada e passou-nos esse gosto. Não é uma pessoa agradável, mas nunca tratou nenhuma de nós como uma Cinderela. A tortura de eleição de Maude era psicológica. E conseguiu afetar Grace.
— O que a conduta maternal de Grace prova — disse Tufts, com firmeza — é que ela odeia confusão, algo que também estava presente durante os seus tempos de enfermagem. O facto de ela nunca ter negligenciado os seus pacientes da mesma maneira que negligencia Brian prende-se com o medo que ela sentia das irmãs do hospital… tinha mais medo delas do que de limpar porcaria. Agora, tem um bebé que não faz mais nada, sem ser porcaria, e não tem ninguém que a obrigue a limpar.
— Não te esqueças da confusão — disse Kitty. — Sempre soubemos que Grace não é capaz de se organizar e, com a mamã e nós as três como irmãs, ela nunca teve de organizar nada. Agora está encarregada de governar uma casa e de cuidar de um bebé, está confusa e não sabe como fazê-lo. O pai interveio, não poderia ter feito pior… e quando ela não tiver o pai ou as irmãs para a ajudar?
— Desastre! — disse Edda.
— Vocês são demasiado pessimistas — disse Tufts. — Há de haver sempre alguém para salvar Grace.
— Por que razão o fariam? — perguntou Edda, sem conseguir perceber.
— Ela é o sonho de qualquer homem: incapaz de existir sem um homem em quem se apoiar. — Tufts suspirou. — Vá lá, Edda, tu sabes o que eu quero dizer! Grace transforma-se em propriedade que tem de ser governada por um ser superior: um homem. Tudo o que ela faz passa a mensagem aos homens de que não é capaz de cuidar de si mesma. E eles adoram isso! Pelo menos, um determinado tipo de homem adora. Os Bears todos que andam por aí.
— Bem, antes Bear que eu! — disse Edda, furiosa. — Porque será que ela não consegue perceber que a sua vida seria muito mais confortável se ela se organizasse um pouco? Ninguém gosta de limpar merda de bebé, mas, já que tem de ser feito, toca a fazê-lo! Toda aquela mobília cara, no entanto, a casa dela cheira mal como uma fossa!
— Porque estás a ser tão agressiva, Edda? — perguntou Kitty.
— Grace está novamente grávida. Quando o bebé nascer, Brian terá apenas catorze meses.
Olhos azul-lavanda cruzaram-se com olhos dourados como âmbar: Kitty e Tufts trocaram um olhar de compaixão silenciosa. É claro que era mais doloroso para Edda! Ela era gémea de Grace. E, infelizmente, tão controlada quanto Grace era desorganizada. Os defeitos de Grace estavam muito longe do coração de Edda.
Se Kitty e Tufts tivessem conhecimento da importância de um homem chamado Jack Thurlow, o sofrimento de Edda teria feito muito mais sentido.