Agridoce
PARTE DOIS: Uma Já Foi, Faltam Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Alguma novidade sobre o herdeiro de Burdum? — perguntou ela, enquanto comia scones de queijo com manteiga acabados de sair do forno. Jack era fantástico a fazer scones!
— O pommy? O velho Tom não fala muito, mas acho que o novo herdeiro não tenciona vir à Austrália tão cedo. Tem muitos negócios em Inglaterra, sobretudo em Londres.
— Porque chamamos pommies aos ingleses?
— Nunca conheci ninguém que me soubesse dizer — disse Jack, encolhendo os ombros. — O novo herdeiro nem vai saber que é um pommy até chegar cá. O velho Tom diz que ele é médico.
— Maude disse isso, mas confesso que nenhuma de nós lhe ligou. — Edda fez uma careta. — Segundo ela, o herdeiro também é um magnata.
— Impossível. São dois opostos: altruísta e explorador. É como ser um santo e um demónio ao mesmo tempo — disse Jack.
— Oh, conheço dezenas de pessoas assim. — Edda sorriu. — É só procurar os indivíduos com os joelhos das calças puídos de tanto rezar: terríveis vilões!
— É por isso que gosto de ti. Consegues ver o que está escondido.
— A minha profissão ajuda. Não se consegue aprender muito sobre a natureza humana a observar cordeiros, Jack, mas com as pessoas doentes sim.
— Talvez tenha sido essa a razão que levou o herdeiro Burdum a tornar-se médico. O dinheiro também não nos ensina a perceber como funciona o ser humano. — Jack pegou na chávena e no prato de Edda. — Vamos, vou levar-te ao hospital.
Com o coração a cantar como não acontecia desde que perdera Grace, Edda regressou ao hospital na velha carrinha de Jack. Porque foi um choque tão grande aperceber-me de que Jack Thurlow é o homem certo para mim? Sempre me senti atraída por ele e a intimidade da nossa relação é indicativa do que sinto. No entanto, foram aquelas duas horas de conversa banal na sua cozinha, enquanto bebíamos chá e comíamos scones, que me fizeram perceber: uma parte de mim ama-o! Como é que isso aconteceu? Porque é que aconteceu? Não me quero casar com ele e rezo para que ele também não queira casar comigo, mas a ligação existe e é forte, muito forte.
Eu quero viajar, quero libertar-me de Corunda assim que terminar enfermagem, mas Jack mostra-me como seria maravilhoso viajar na companhia de alguém especial. Alguém que estivesse lá para nos proteger nos nossos momentos de fraqueza e, ao mesmo tempo, nos desse espaço suficiente para nos sentirmos livres. Amo Jack o suficiente, mas será que ele sente o mesmo por mim? E isso, eu não sei. Ainda não me deu sinais de que me ama. Por isso continuo a conter-me, e ele continua a conter-se. Confiança? Oh, confiança! Não existe.
Kitty reparou na felicidade de Edda quando ela entrou.
— Estás a começar a superar a perda de Grace, Edda.
— Sim, estou — respondeu Edda, tirando as botas e as calças de montar. Esteve quase a falar de Jack, mas não o fez… era melhor não dizer nada. — Ouviste a Maude a tagarelar sobre o herdeiro de Burdum? — perguntou antes.
— Só a ouvi dizer que era médico. Onde será que ele exerce?
— Não faço a mínima ideia — respondeu Edda. — Só sei que ele é herdeiro de Burdum e que ultrapassa Jack Thurlow na linha de sucessão.
Tufts entrou de repente na sala comum.
— Edda, a escala de serviços foi alterada. Tens os teus dias de folga, mas depois voltas para a sala de operações. — O seu lindo rosto contraiu-se. — Sorte a tua! Estava à espera de ser a primeira a ir lá parar.
— O doutor Finucan não te vai deixar ir para a sala de operações até terminares o que quer que estejas a fazer para ele — disse Kitty, com frieza. — Não podes ter só coisas boas, Tufts.
— Eu sei, assim como sei que a minha vez vai chegar.
Mas por que razão não lhes falei de Jack?, perguntou Edda a si mesma, enquanto se dirigia para a casa de banho para se livrar do cheiro a cavalo. Elas são minhas irmãs! Mas ele não fez nenhum avanço. E se ele se apaixonar por Kitty? Não, não vou deixar que isso aconteça! Apesar de o meu amor por Kitty ser imenso, não vou ficar quieta e deixar que ela arruíne a minha vida.
Um pensamento que, um dia mais tarde, Edda achou estranho. Por coincidência, ela e Jack cruzaram-se com Kitty, que caminhava pelo trilho equestre. Jack teve todas as reações acertadas, tal como Kitty, mas os cavalos estavam com vontade de galopar e Kitty, que se encontrava a pé, não gostava de estar perto de animais de grande porte.
— Rapariga bonita — disse Jack depois de se sentarem no tronco da árvore onde se costumavam sentar.
— A mais bonita do mundo — retorquiu Edda com sinceridade.
Jack sorriu.
— Se gostares daquele tipo, atrevo-me a dizer. Mas arbustos rasteiros de azáleas não me encantam. Eu prefiro álamos sofisticados.
Foi a vez de ela rir.
— Sabes o que significa sofisticado?
— Há muita coisa que não sabes acerca de mim — disse ele de forma enigmática.
O serviço de urgências do Hospital de Corunda tinha uma pequena sala de operações adequada para estancar uma hemorragia ou imobilizar ossos partidos até o paciente poder ser transferido para fazer mais intervenções na sala de operações totalmente equipada do hospital, que ficava ao fundo da rampa, onde as alas das mulheres e dos homens se cruzavam. Existiam dois cirurgiões de serviço no hospital e ambos tinham também os seus consultórios privados perto dali: o doutor Ian Gordon era médico de clínica geral e especialista em questões abdominais, e o doutor Erich Herzen, o homem da ortopedia, e ambos eram considerados bons cirurgiões. O anestesista era o doutor Tony Watson, perito na administração de clorofórmio, éter, óxido nitroso e injeções localizadas. Tinha também um bom instinto para saber quando administrar aos pacientes um pouco de oxigénio para aliviar o coma induzido pelo gás.
Quando Edda atravessou as portas duplas, encontrou-se no início de um corredor repleto de salas, sendo apenas uma a sala de operações propriamente dita: salas de desinfeção, de anestesia, de esterilização, a sala onde os instrumentos eram guardados e esterilizados, um vestiário para homens e outro para mulheres, uma sala para guardar equipamento demasiado volumoso que poderia vir a ser necessário, e seis quartos individuais onde eram mantidos os pacientes em recuperação até os cirurgiões os considerarem suficientemente bem para regressarem às alas. A maternidade, descobrira ela há muito tempo, ficava situada noutro lugar, a menos que a futura mãe precisasse de uma cesariana, a qual era realizada na sala de operações principal. O obstetra, o doutor Ned Mason, já fazia parte da mobília do Hospital de Corunda; qualquer pessoa com menos de quarenta anos e nascida em Corunda viera ao mundo pelas mãos do doutor Ned Mason, que não tinha qualquer intenção de se reformar.
A irmã responsável pela sala de operações era uma tirana chamada Dorothy Marshall. Sob o seu comando, tinha dez enfermeiras e duas irmãs. Todas as enfermeiras eram do West End e estavam adstritas ao serviço de urgências de forma permanente, mas a chegada de Edda foi o início de uma mudança que se iria expandir gradualmente ao longo dos anos. Por conseguinte, a irmã Dorothy não estava feliz com a sua presença. No entanto, compreendia que a sua capacidade de transmitir conhecimento às muitas enfermeiras estagiárias que por ali passavam iria afetar radicalmente o seu próprio bem-estar futuro. Assim, estava decidida a fazer de Latimer a melhor enfermeira da sala de operações.
Edda começaria o seu serviço nas urgências, como viria a saber, na sala de operações propriamente dita, como «enfermeira suja»: uma assistente limpa e de bata, mas não estéril, que auxiliava aqueles que tinham de se manter estéreis. Estava lá para remover os instrumentos usados, esfregá-los e lavá-los, e retirar toda e qualquer partícula de tecido humano e sangue. Depois tinha de colocar os instrumentos no esterilizador para ferver durante vinte minutos, retirá-los com pinças esterilizadas e dispô-los em tabuleiros estéreis cobertos com um pano, que iam para dentro da autoclave. Era um trabalho perigoso e desconfortável, entre queimaduras, escaldaduras e calor destinado a lutar pela antissepsia. Devido aos seus perigos, o trabalho de «enfermeira suja» era executado durante um tempo extremamente controlado. Antes de a fadiga se instalar, a enfermeira era rendida nas suas tarefas de «enfermagem suja» e eram-lhe atribuídos outros deveres durante o resto do turno.
A irmã responsável pela sala de operações agia como assistente de cirurgia e muitas vezes era ela que fechava as incisões. Se o procedimento fosse demasiado difícil, outro médico qualificado assistia o cirurgião, que tinha tendência para reclamar, visto que a irmã responsável pela sala de operações sabia mais e operava melhor que qualquer outro médico. Infelizmente, a irmã Dorothy não tinha um curso de medicina e, por isso, os ricos, tendo conhecimentos e a possibilidade de processar os prestadores de cuidados, tinham menos sorte que os mais carenciados, a quem era sempre atribuída a irmã Dorothy. Edda deu muitas gargalhadas ao longo da sua carreira de enfermagem e muitas foram as vezes em que reparou que os privilégios associados a um elevado estatuto social ou a uma grande fortuna nem sempre garantiam os melhores cuidados médicos. Também reparou que não compensava ser um paciente insuportável. Uma enfermeira a quem um paciente tratasse mal sem qualquer razão aparente tinha todo o tipo de vingança nas suas mãos, desde laxantes assustadores a erupções cutâneas muito incómodas. As enfermeiras também eram humanas!
A enfermeira dos instrumentos, aprendeu Edda, passava os instrumentos esterilizados ao cirurgião e à irmã responsável pela sala de operações e colocava os usados num prato para a «enfermeira suja» recolher e lavar. Uma das muitas pessoas em volta da mesa de operações, geralmente a irmã responsável por recolher as amostras no serviço da irmã Marshall, ficava encarregada de contar o número de gazes colocadas dentro da incisão. No caso de uma operação abdominal, as gazes podiam ter o tamanho de lenços de senhora e chegavam a ser às dúzias enfiadas na cavidade. No entanto, cada pedaço de gaze tinha de ser retirado antes de se fechar a incisão. Se uma permanecesse no interior, podia causar a morte do paciente.
Uma enfermeira pairava sobre o ombro do anestesista para o assistir, e não tinha qualquer outra função senão fazer o que ele precisasse. Na verdade, cada corpo de bata e máscara que se juntava ao redor da mesa de operações tinha um conjunto de tarefas específicas e não podia falhar. A enfermeira responsável pela sala de operações, uma irmã novata e cinco enfermeiras constituíam a equipa, sendo que uma segunda equipa se encontrava a postos para render a primeira assim que a enfermeira responsável o ordenasse. Tal acontecia, geralmente, ao final da operação, mas, se o procedimento fosse muito longo e difícil, a equipa poderia render a outra a meio. A segunda equipa não se limitava a esperar sentada, havia pacientes em recuperação para cuidar e muitas outras tarefas a fazer.
Para sua enorme satisfação, Edda percebeu que observar uma operação não lhe causava náuseas nem repulsa, era simplesmente demasiado interessante. As mãos firmes e enluvadas mergulhadas em sangue, a colocar um tubo de metal para sugar uma hemorragia intensa, o manusear habilidoso de uma pinça hemostática num paciente com uma hemorragia persistente, a forma organizada como um conjunto destes hemostáticos, como eram apelidados, estavam todos agrupados e presos com uma fita para não atrapalharem… fascinante! Não podia negar o choque que sentiu ao ouvir o ruído que o cortador cirúrgico fazia ao atravessar osso… foi o fim do mito romântico de que os cirurgiões têm mãos delicadas! Os cirurgiões precisavam de mãos como as dos mecânicos.
O doutor Gordon estava contente por ter uma nova plateia, ao que parecia, pois descrevia alegremente a apendicectomia que estava a realizar, apenas para ensinar Edda e irritar a irmã mais novata.
— Repare, enfermeira, que não mergulhamos às cegas nos conteúdos abdominais, é demasiado perigoso. Mas consegue ver nitidamente o cólon atravessado na parte mais fina dos intestinos, não consegue? Sim? Ainda bem! Repare que o interior da cavidade abdominal tem um tom rosa-vivo… é um dos primeiros sinais de sépsis, mas vamos intervir a tempo e o paciente não vai desenvolver peritonite. A operação é bastante simples, pois o ceco encontra-se perto da superfície ventral e o apêndice sobressai dele. Uma maçada que está sempre a infetar! Há coisas que ficam presas no seu interior e não têm por onde sair, tais como pequenas bolas rijas de matéria fecal.
Será que se esperava que fizesse perguntas?
— Obstipação intestinal?
O doutor Gordon soltou uma gargalhada grosseira.
— É o lado errado do cólon para ser isso, enfermeira.
— Vai abrir os intestinos, senhor doutor?
— Quem me dera! Não, os intestinos contêm matéria fecal que está repleta de germes. Se abrir os intestinos e qualquer pedaço de matéria fecal derramar para o abdómen, vai causar peritonite, sépsis e morte. Como vê, não temos medicamentos para matar os germes. Então, se eu realizar uma Billroth I ou Billroth II, para remover parte do estômago ou do piloro afetados por úlceras ou cancro, é vital grampar as duas extremidades do restante tecido, para que os conteúdos não possam escapar antes de se anastomosar. Pode-se tentar fazer o mesmo para retirar parte do intestino afetado por cancro, com o objetivo de realizar uma anastomose de ponta a ponta, mas é muito arriscado. As vesículas biliares são muito mais fáceis — continuou o doutor Gordon. — O que temos de fazer é encontrar uma forma de matar os germes por via oral ou através de injeções. Vá lá, enfermeira, faça perguntas!
No entanto, Edda não se atrevia a fazer a pergunta que estava ansiosa por fazer: por que razão tantos cirurgiões tinham ascendência escocesa? Se não fossem cirurgiões, eram engenheiros, e havia, de facto, uma relação.
O doutor Herzen nascera e fora criado na Alemanha e o Hospital de Corunda era privilegiado por ter ao seu serviço um especialista ortopédico do seu gabarito; vinham pacientes de Sydney para o consultar. O incidente mais embaraçoso na carreira do doutor Herzen ocorrera durante a Grande Guerra, quando, apesar dos protestos de Corunda, o governo federal xenófobo o detivera como inimigo e lhe recusara o direito de exercer. Visto que o seu curso fora realizado na Universidade de Sydney, isto fazia tanto sentido como a sua detenção de dois anos. A sua devoção à Corunda era compreensível, dada a luta incansável que a cidade travou para o libertar. Cidadão residente na Macquarie Street, em Sydney, escolheu continuar a exercer em Corunda, o que também lhe valeu a obtenção do passaporte britânico.
Os dias de Herzen na sala de operações eram inevitavelmente movimentados, enquanto a admissão de doentes do doutor Gordon variava. Ambos os cirurgiões tinham bastante trabalho no serviço de urgências e podiam, se necessário, substituir-se um ao outro.
A experiência mais extraordinária de Edda chegou quando foi promovida a enfermeira encarregada dos instrumentos. A irmã Marshall decidiu gostar de Edda, o que significava que ela iria receber uma série de tarefas na sala de operações, algumas delas até da competência da irmã responsável.
Gordon e Herzen iam operar juntos, com Herzen a liderar e sem anestesista.
— O paciente está comatoso e tem tido convulsões — disse a irmã Marshall, enquanto se preparavam para entrar na sala de operações. — O doutor Herzen vai tentar remover um hematoma subdural, um coágulo de sangue que se formou sobre a superfície exterior do cérebro e que o está a pressionar. Este tipo de coágulo continua a absorver fluidos e a inchar. Como o crânio é uma caixa de osso, não há espaço para conteúdos inchados. Assim, apesar de o cérebro em si não sofrer lesões por causa do coágulo externo, acaba por ficar danificado por estar a ser pressionado. A menos que a pressão seja aliviada, o coágulo vai continuar a esmagar o cérebro e acabará por provocar a morte. Os nossos cirurgiões vão tentar travar a pressão, retirando o coágulo.
— Como sabem que o paciente tem um hematoma subdural? — perguntou Edda. — Não existe nenhum teste que o mostre, pois não?
— Há sinais: o coma, os ataques epiléticos de um lado do corpo e uma pupila mais dilatada que a outra… o último é um indício clássico de um hematoma subdural — disse a irmã Marshall. — Nenhum raio X mostra o coágulo, mas o doutor Herzen tem a certeza de que vai encontrar um coágulo enorme sobre o córtex frontotemporal esquerdo. O paciente desenvolveu um problema de fala específico indicativo daquela área e o doutor Gordon concorda.
— Não preferia ter a enfermeira Trimble como responsável pelos instrumentos?
— Sinceramente, não. Alguns dos instrumentos tiveram de nos ser emprestados pelo Hospital de Sydney e a Trimble não os conhece, enquanto tu tiveste alguma formação em instrumentos invulgares, mesmo que tenhas aprendido apenas pelos livros. Com alguma sorte, não será preciso usar nenhum deles, mas…
A deusa pronunciara-se. Edda subiu para o seu banco, ao lado da irmã Marshall; o seu treino árduo finalmente compensara.
O doutor Herzen fez uma pequena incisão no escalpe, expôs o osso e segurou o que parecia ser uma broca. A ponta era circular, oca e dentada, com uma ponta afiada no centro. Tinha o tamanho de uma moeda de meio dinheiro ou de quarto de dólar. Quando o cirurgião rodou a manivela da broca, a ponta perfurou até ao osso. O doutor Gordon raspava cuidadosamente os grânulos húmidos de pó de osso, enquanto a broca continuava a perfurar.
— Já cheguei à mesa, cuidado! — avisou Herzen.
Passado um momento, a broca retraiu, com um pedaço de osso do tamanho de meio dinheiro agarrado. Os cirurgiões aproximaram-se para ver melhor. Edda não conseguia ver nada.
— Está negro debaixo da dura-máter por causa do sangue, Erich… estás mesmo no sítio certo! — disse o doutor Gordon, encantado.
— O aparelho de sucção está pronto?
— Sim.
— Vou fazer um corte na dura-máter. Irmã, as suas enfermeiras estão a postos para lidar com o nosso paciente, caso ele acorde e entre em pânico?
— Sim, senhor doutor.
O doutor Herzen fez dois golpes mínimos cruzados com uma tesoura pequena, curva e afiada. De imediato, viu-se um líquido gelatinoso escuro a escorrer e o doutor Gordon meteu mãos ao trabalho com o tubo de sucção.
Ainda comatoso, o paciente não reagiu enquanto a pressão sobre o seu cérebro era aliviada, e assim os dois cirurgiões esperaram para ver se a hemorragia continuava ou se o tipo certo de coágulo se formava por baixo do maligno. Por fim, o doutor Herzen suspirou.
— Acho que podemos fechar, Ian.
O disco de osso foi cuidadosamente empurrado para o seu lugar e as aparas de osso colocadas à sua volta. Quatro suturas no escalpe, e a craniotomia terminara. O paciente começou a mexer-se.
— Porque não usaste a trefina, Erich? — perguntou o doutor Gordon.
— Não gosto disso — foi a resposta. — É muito fácil ir demasiado longe quando se chega à mesa. É um instrumento muito bom para os rapazes de Sydney, que usam esse tipo de coisa frequentemente, mas quantas vezes é que eu abro buracos num crânio? Estarmos seguros de algo é o melhor para não fazermos asneira. Acho a broca mais fácil de controlar.
— Percebido e armazenado para futura referência.
Quando o paciente foi para casa uma semana depois, sem sequelas da sua lesão na cabeça, Edda encarou a situação como um pequeno milagre. Um dia, jurou ela, iria ver os verdadeiros neurocirurgiões operar em Queen’s Square, em Londres. Talvez nessa altura o fantasma de Victor Horsley já não pedalasse na sua bicicleta por Bloomsbury, mas havia outros, e essa parte de Londres estava cheia de hospitais de renome.
Depois de dois anos de enfermagem, as três irmãs Latimer estavam bem ambientadas no seu meio. Os seus rostos por baixo dos véus de abas ridículas eram conhecidos de toda a gente, desde a enfermeira-chefe Newdigate e o diretor Campbell até às enfermeiras do West End, empregadas de limpeza e porteiros, e cada uma delas descobrira a sua preferência por determinado tipo de enfermagem, embora nenhuma gostasse de trabalhar na ala psiquiátrica.
Para Edda, a enfermagem que se praticava na sala de operações e no serviço de urgências eram o suprassumo. As razões eram bastante óbvias: o drama e a atmosfera de urgência e perigo que acompanhava cada paciente que dava entrada no serviço. Será que o procedimento correria sem percalços ou será que o paciente desenvolveria uma complicação inesperada, e por vezes chocante, que transformaria a cirurgia numa corrida contra o tempo? Era impossível saber. Desde os horrores da Grande Guerra que a cirurgia evoluíra rapidamente, mas havia ainda tantos problemas que a medicina não conseguia resolver. Edda decidiu que gostaria de exercer enfermagem na sala de operações assim que terminasse o curso de enfermagem e se registasse.
A sua elegância e altura chamavam a atenção masculina, que não podia ser interpretada de outra maneira, pois era um facto que Edda atraía os homens. No entanto, Latimer não era uma devoradora de homens, nunca pareceu reparar nos seus olhares, ignorava os seus comentários com um encolher de ombros e recusava bruscamente os convites para sair daqueles que tinham coragem para lhe pedir. Exceto no caso de Jack Thurlow, com o qual mantinha uma genuína relação de amizade. Apesar de o amar, não tinha qualquer intenção de colocar as exigências dele relativamente às suas emoções à frente do seu curso de enfermagem. Não, Jack Thurlow teria de esperar um pouco mais antes que ela tomasse alguma iniciativa… mesmo quando essa altura chegasse, parte de si não acreditava no casamento. Uma vida inteira ao lado de Maude azedara a consideração que tinha pelo matrimónio, ou talvez fosse mais justo dizer que algo dentro de si se rebelava contra assumir o papel submisso que o casamento exige de uma mulher.
— Até é lógico — disse Edda a Tufts e Kitty num final de tarde quando saíam de serviço — que as mulheres tenham de ser submissas num casamento, acho eu. Carregam no ventre e criam os bebés, que ficam muito melhor aos seus cuidados do que aos de babysitters ou até de amas. No entanto, continua a não me parecer justo.
— Então, não se casem — disse Tufts. — Eu não me vou casar.
— Oh, vocês as duas só dizem disparates! — gritou Kitty. — Ter uma carreira é muito bom, mas e o amor e o companheirismo?
— O que é que o amor tem que ver com o companheirismo? — perguntou Edda.
— Tudo! Oh, vocês estão a provocar-me de propósito! É óbvio que conseguem perceber que um amor sem companheirismo está condenado ao fracasso. O amor e o companheirismo têm de estar ambos presentes.
— Os homens que inspiraram um desses sentimentos em mim certamente não inspiraram o outro — disse Edda com os olhos brilhantes.
— Oh, sim, e és uma pessoa tão experiente! Tu, Edda Latimer, és uma fraude — disse Kitty, indignada.
Edda esteve prestes a mencionar Jack Thurlow, mas não o fez. Por qualquer razão, Jack era um segredo seu e só seu. Sobretudo agora que se encontravam com regularidade. Oh, apenas como amigos, muito bons amigos, como ela se referia à sua relação com Jack desde o início. Edda sentia-se muito orgulhosa, não tinha qualquer intenção de exibir as suas vulnerabilidades a um homem, nem mesmo a Jack Thurlow. Ele sentia que ela dava pouca importância ao amor e menos ainda ao romance. Devia achar que, para ela, o facto de ele ser homem era pura coincidência e que não tinha qualquer importância para a relação entre eles. Nenhum olhar sedutor ou convite atrevido implícito nos olhos dela !
— Estás determinada a viajar quando acabares o curso e te registares — disse Kitty a Edda num tom crítico.
— Sim, obviamente. Oh, vá lá, Kitty, não me digas que vais aguentar três anos disto para depois arranjares um trabalho no Hospital de Corunda! — disse Edda, espantada.
— Eu adoro Corunda! — protestou Kitty. — Para quê viajar para ver mais miséria humana do que a que já temos aqui?
— Não fales assim — disse Tufts rispidamente.
— Não, não, não digo isto para ser negativa, Tufty, a sério! Mas é verdade que adoro Corunda e que quero casar com um homem que eu ame e de que eu goste, de preferência aqui mesmo, em Corunda.
— És ainda mais tola do que eu pensava — disse Edda, servindo o chá.
— Eu compreendo — disse Tufts, de forma mais gentil, e sorriu para a sua gémea. — No entanto, tal como a Edda, também pretendo viajar e exercer outros tipos de enfermagem.
— Nunca estivemos longe uma da outra — disse Kitty, fungando.
— Nem a Edda e a Grace, mas crescermos significa separar-nos. Edda é enfermeira, mas Grace prefere ser esposa. Passa-se o mesmo connosco. Eu sou a enfermeira, tu és a esposa — disse Tufts.
— Oh, basta! — gritou Edda, batendo na mesa.
Na vez seguinte que Edda se encontrou com Jack Thurlow no trilho equestre, fez algo que nunca chegou a compreender, mesmo muitos anos depois, quando o tempo e a distância conferiram alguma perspetiva aos seus pensamentos: perguntou a Jack se ele gostaria de conhecer a sua irmã gémea, Grace.
Encontravam-se sentados como amigos no tronco da árvore, Jack enrolava um cigarro, as suas mãos grandes e morenas encantavam Edda à medida que os ossos que as faziam mexer se moviam por baixo da pele macia. Não eram mãos de um trabalhador braçal, embora Jack afirmasse que trabalhava a terra. As suas eram mãos de patrão, nem gretadas, nem calejadas.
Os dedos pararam de se mexer. Jack olhou por baixo das suas sobrancelhas com aquele olhar interessado e curioso com que ficava sempre que ela o surpreendia.
— Conhecer a tua irmã Grace? — repetiu ele.
— Sim, mas só se quiseres — disparou ela rapidamente. — Por vezes, apercebo-me de que contigo não sigo os trâmites sociais esperados. — Edda encolheu os ombros de forma brusca. — Não te sintas constrangido em dizer que não, Jack, a sério. — A expressão do rosto de Edda evidenciou aborrecimento. — Não seria um encontro muito emocionante. Grace vai ter um bebé daqui a três meses e está bastante cheia de orgulho deste seu feito único e maravilhoso. — Edda soltou uma gargalhada ao aperceber-se do trocadilho imprevisto.
Jack riu-se com vontade, mas de forma bastante irónica.
— Pobre Edda! Estás a perguntar-me isso porque queres companhia. Já a devias ter visitado há muito tempo.
— Conheces-me tão bem! Vens comigo? Diz que não!
— Gostava de conhecer a tua gémea, embora me confunda a ideia de ver duas Eddas. Vocês são idênticas?
— Quando nascemos, sim, mas a vida vai diminuindo as parecenças. A minha gémea é parecida comigo, mas é um tipo de pessoa completamente diferente, é muito menos dominadora. Não é outra Edda!
— Isso é um enorme alívio.
— Que disparate! Desde quando é que fui dominadora para ti?
— Nunca, admito. Por vezes, até gostava que fosses.
— A casa de Grace fica em Trelawney Way — disse Edda, mudando de assunto. — No número dez. Encontramo-nos lá, então?
Jack acendeu um cigarro.
— Quando tens a tua próxima folga?
— Terça-feira.
— Vou buscar-te às três em frente do hospital.
— Não, vai antes ter comigo à Câmara Municipal.
E assim ficou combinado. Em vez de a acompanhar, Jack montou o cavalo, inclinou o chapéu na sua direção e afastou-se a galope.
Edda olhou desanimada para o vazio depois da retirada de Jack. Que idiota! Mudar alguma coisa numa relação é perigoso, mas mesmo assim ela tinha de o fazer! Porquê? Pela mesma razão, pensava ela enquanto regressava aos estábulos do presbitério, que me fez pisar a cabeça da cobra com a perna da cadeira. Para ver se era capaz. Porque é que nunca consigo deixar as coisas como estão? Está viva ou morta? É certo que toda a gente vai fugir, mas a Edda vai ficar para investigar e experimentar.
Jack Thurlow afastou-se a pensar por que razão concordara em conhecer Grace Olsen, cujo nome de solteira era Latimer, embora tivesse a desconfortável sensação de se dever ao facto de Edda Latimer o fascinar. Se tal não fosse verdade, Jack não se incomodaria com estes passeios disparatados de que não precisava, em cima de uma sela todos os dias, a sonhar com o momento em que poderia finalmente desmontar. Sentia um enorme desejo físico por ela, mas era um homem que sabia controlar a sua paixão e não tinha qualquer intenção de ceder aos encantos de Edda. Elegante, sofisticada, consciente da sua sexualidade, Edda emanava uma sensualidade poderosa, que a sua experiência lhe dizia ser rara numa mulher educada de forma tão cuidadosa. Uma autêntica virgem, mas por opção própria. Ainda não conhecera um homem suficientemente bom, a snobezinha. Jack sabia que ela também se sentia atraída por ele, mas não dera importância a isso, considerando a atração apenas um sintoma do aborrecimento de Edda. Esta era uma jovem que ansiava por uma vida mais preenchida e mais emocionante do que aquela que Corunda lhe podia oferecer.
O casamento estava fora de questão para Edda naquele momento e nunca constara dos planos de Jack. Uma boa razão para não dar início a nada: «nadas» podem originar gravidezes. Talvez por isso, pensou ele alegremente ao sair do trilho equestre em direção à sua casa, o facto de ter aceitado o convite de Edda fosse a melhor maneira de reduzir a rapariga à sua vulgaridade: uma irmã que não estava grávida com uma irmã grávida, tudo típico da cidade de Corunda que ele tanto detestava. Quando o velho Tom Burdum lhe dera Corundoobar, de papel passado e tudo, o mundo de Jack Thurlow ficou completo e sentia-se feliz. Sendo filho da filha do velho Tom Burdum, Jack tivera uma infância turbulenta, repleta de problemas financeiros e sociais que ainda o atormentavam pela sua quantidade e diversidade. Como resultado, pelo menos na opinião de Jack, estava o seu horror aos gémeos maléficos: Dinheiro e Poder. Um terror que o levara a recusar ser o principal herdeiro do velho Tom Burdum e que forçara o velho a procurar um novo herdeiro, o médico pommy. Bem, boa sorte para o velho Tom!
Com dois mil hectares, Corundoobar era a maior propriedade dos Burdum. O país era rico, não eram necessários milhares de hectares para se ser um pastor ou um agricultor bem-sucedido. O solo era rico em nutrientes, a pluviosidade era maior e mais frequente nesta região do que na maior parte da Austrália e a elevação dos planaltos naquele distrito proporcionava um clima mais ameno, pelo menos durante os seis meses de verão.
Jack trabalhava em Corundoobar desde que regressara do colégio interno em Sydney quando tinha dezoito anos. A sua educação fora excelente, mas optava por não o anunciar aos quatro ventos, preferindo passar a imagem de um pastor rude, demasiado ocupado a criar cordeiros e, mais recentemente, cavalos árabes. Estes eram demasiado baixos para muitos cavaleiros masculinos, mas constituíam montadas ideais para senhoras, e toda a gente sabe que as mulheres são apaixonadas por cavalos. O velho Tom ridicularizara a ideia, mas teve de engolir o seu desdém quando a raça de Jack alcançou grande sucesso desde o início. Atualmente, Jack inscrevia os seus cavalos árabes em feiras rurais por todo o Estado. A sua ambição era exibi-los no Royal Easter Show em Sydney, a maior e mais importante feira de gado de toda a Austrália.
A propriedade de Corundoobar estendia-se por uma colina em forma de cone, desenrolando-se pelos seus flancos, tendo uma invejável vista sobre o rio Corunda, que nunca secava completamente, formando uma série de pequenos charcos. A energia do vento proporcionava-lhe pressão suficiente para puxar água para os bebedouros do cercado, enquanto os jardins da propriedade ficavam tão próximos do riacho que para os regar era apenas necessário um depósito de água elevado e a força da gravidade. Para obter água potável, a propriedade tinha reservatórios de armazenamento subterrâneo que captavam a água da chuva que escoava dos telhados.
A casa original dos Burdum era construída com blocos de calcário num padrão quadrangular, com um telhado de quatro águas feito de chapas onduladas de metal, e um enorme alpendre que se estendia em redor de toda a casa. Os jardins eram resplandecentes, verdes e um autêntico mosaico de flores de setembro a abril. Naquele momento, no auge da primavera, tudo o que desse flor estava exuberante. Sempre que contornava a colina para a Doobar Road e via a quinta, Jack ficado sem respiração e o coração saltava-lhe do peito, como nunca acontecera com nenhuma mulher. Era o sítio mais bonito do mundo e, do ponto de vista legal, irrevogavelmente seu!
Apesar de lhe faltar um toque feminino, esta casa de solteiro estava limpa e arrumada. Tal como muitos outros homens, Jack Thurlow sabia cozinhar, coser botões, fazer bainhas, remendar meias, esfregar o chão e lavar a roupa até ficar branquinha. Quando era criança, não tinha ninguém que lhe fizesse estas coisas, e Jack assumira essa responsabilidade, tendo imenso orgulho nas suas aptidões domésticas. Tal como a sua educação, estas faziam parte do seu segredo: era um homem para quem o dever estava acima de tudo, pois era um homem que sempre fizera tudo por dever, nunca por amor, e sabia como o dever podia ser cruel. Para Jack Thurlow, não havia nada pior do que ser um escravo do dever e nunca receber um resquício de amor em troca. Por essa razão, escondia os seus segredos, rezando para conseguir viver assim para o resto da vida, sem ser responsável por ninguém e sem dever nada a ninguém. Era isto que o atraía em Edda Latimer: ela nunca seria um dever para ele, independentemente do que a vida lhe fizesse. No entanto, a sua gémea, desconfiava ele, era um dever para toda a gente. Jack riu-se.
— Um dever para Edda, nunca para mim — disse ele.
Quando Jack chegou à Câmara Municipal de Corunda ao volante de um Daimler, Edda arregalou os olhos de espanto.
— Bonito — disse ela, deixando-o abrir a porta.
— O velho Tom empresta-mo quando preciso.
— Podíamos ter ido a pé, não é longe.
Jack sorriu.
— Seria pouco cavalheiresco, Edda. Porque não me deixaste apanhar-te à porta do hospital?
— E deixar toda a gente a comentar? Não, obrigada!
Edda reparou que Jack tinha vestido um fato de três peças, o que lhe conferia uma aparência estranhamente inacessível. É claro que se arrependia do convite desde o minuto em que o fizera. Agora, sentia-se completamente deslumbrada ao ver Jack de fato e, por isso, manteve-se calada até virarem para Trelawney Way, que ficava numa subida ao final da George Street, numa parte bastante boa da cidade. O West End ficava a três quilómetros de distância dali.
— É aquela casa de campo bege e verde — disse ela.
O silêncio instalou-se outra vez. Edda deixou Jack abrir-lhe a porta do carro, terrivelmente consciente de que as cortinas de todas as casas da vizinhança eram puxadas para trás de forma discreta. Oh, vizinhos! Em seguida, Jack abriu o portão da cerca de madeira branca e acompanhou-a pelo caminho até à porta da frente, que ficava situada num alpendre. Alguém, reparou ela, estivera a cuidar do jardim, que não se encontrava ao nível dos jardins de Corunda: as rosas não estavam em flor como deviam, tinham bicho e manchas pretas. Grace nunca tivera muito jeito para jardinagem. Sou egoísta, pensou Edda, podia oferecer-me para vir cá algumas vezes ajudar. Bear também não é grande jardineiro, nem mesmo quando se encontra em casa. Onde estão as azáleas e os rododendros? Os amores-perfeitos e as lobélias?
Grace encontrava-se à entrada da casa, com a porta aberta, a pedir-lhes para entrar com um ar surpreendido no rosto.
— Edda disse-me que vinha acompanhada, mas confesso que nunca esperei vê-lo, meu caro senhor Thurlow — disse Grace de uma forma mais típica de Maude. — Sente-se, por favor.
Oh, pobre rapariga!, pensava Jack Thurlow enquanto se sentava de forma bastante desconfortável no tipo errado de cadeira. Era tão parecida com Edda e, ao mesmo tempo, tão diferente! Muito atraente, sobretudo com o brilho da gravidez a irradiar da sua pele, contudo, sem qualquer vitalidade ou entusiasmo pela vida.
— Trata-me por Jack — disse ele, sorrindo.
O gelo fora quebrado. Pouco tempo depois, ela e Jack riam, os olhos cinzentos de Grace cintilavam à medida que Jack a punha mais à vontade, escondendo cuidadosamente a pena que sentia dela por se encontrar sozinha em casa todo o dia e por ficar tão entusiasmada pelo seu pequeno rasgo de atenção.
Enquanto os dois conversavam, Edda examinou a casa como nunca tivera oportunidade de fazer, por estar sempre demasiado absorta em Grace para dispensar esse tempo. Mas a casa mudara! Quanto tempo passara desde a sua última visita? Um mês? Não, Edda, pelo menos três meses. Costumo sempre levá-la a almoçar ao Parthenon para a libertar da sua prisão domiciliária, detesto vir a Trelawney. Agora, vejam só isto! Oh, meu Deus, por que não estive mais atenta a Grace e à sua casa?
A casa estava mobilada como a mansão de um homem rico! Aquele enorme tapete persa na sala de estar. Aquele lindíssimo biombo lacado. Tapeçaria autêntica nos assentos das cadeiras da sala de jantar. Grace, Grace, o que foste fazer?
— Jack, não te importas de ficar um pouco sozinho — disse ela quando lhe pareceu mais oportuno —, enquanto eu e Grace vamos buscar mais chá?
Assim que a porta da cozinha se fechou atrás delas, Edda agarrou a irmã pelo ombro de forma um pouco cruel e abanou-a.
— Grace, quando é que compraste esta mobília toda?
Grace corou.
— Não é linda, Eds? Encontrei Maude e a senhora Enid Treadby há cerca de quatro meses e elas levaram-me a uma loja maravilhosa que fica na estrada para Melbourne… tem peças absolutamente fabulosas! Vêm pessoas de Camberra para comprar ali.
A raiva esmoreceu. Edda olhou para a irmã com desespero.
— Oh, Grace, que… que idiota! Bem, não há nada a fazer, senão devolver tudo. Não se pode viver sem algum dinheiro no banco e tu gastaste bem mais do que as tuas quinhentas libras, não foi? Não me digas que Bear também te deixou gastar o dinheiro todo dele!
— Claro que deixou, eu sou sua esposa — disse Grace num tom magoado. — Isto é mobília a sério, vai valorizando com o tempo!
— Existe um provérbio antigo, gémea, que diz que temos de viver consoante as nossas possibilidades — disse Edda, impaciente. — Estás a imitar a senhora Treadby, que tem dinheiro suficiente para comprar mobília que vai valorizar com o tempo. Oh, sua idiota! Foi a nossa madrasta que te convenceu a fazer isto, eu sei que sim, aquela cabra! Não foi a senhora Treadby, foi Maude.
Por esta altura, já Grace chorava.
— Não a posso devolver, Edda, eu comprei-a! — lamentou-se ela. — Adoro-a e Bear também. Ele diz que eu tenho o maior bom gosto do mundo.
— Põe a chaleira a ferver no teu novo fogão a gás finório, Grace, ou vai parecer que estamos a negligenciar o nosso convidado — disse Edda com um suspiro. — De futuro, Grace, fala comigo antes de gastares seja o que for em algo que não pertença à despensa ou à caixa de gelo, ouviste?
De qualquer maneira, a visita terminara. Edda sentou-se no banco da frente do Daimler e não disse uma única palavra.
— Passa-se alguma coisa — disse Jack.
— Sem dúvida.
— Sou bom ouvinte.
— Eu sei, mas é um assunto de família, Jack. Digamos apenas que me tinha esquecido do quanto Grace consegue ser completamente estúpida, está bem?
— Ah, coitadinha da Grace! Atrevo-me a dizer que ela é estúpida, Edda. Faz parte da natureza dela, não achas? O problema de se ser inteligente e esperto e eficiente é que muitas pessoas não são inteligentes, espertas e eficientes… nem sequer têm uma destas qualidades, quanto mais as três. No entanto, ela não deixa de ser uma pessoa carinhosa. Aposto que dá imensas dores de cabeça ao marido, mas ele provavelmente acha que o amor que ela lhe dá compensa qualquer aflição. Esta é a grande dificuldade que mulheres como tu sentem, Edda. Por cada milímetro de inteligência no teu cérebro, tiveste de desistir de, pelo menos, um milímetro de amor.
Que dor! Trespassou-a como uma lança afiada, mas Edda Latimer preferia morrer a mostrar a este Senhor da Criação que as suas palavras magoavam.
— Isso é um enorme disparate — disse ela de uma forma impiedosa. — Pareces saído de uma revista feminina.
— Prefiro chamar-lhe um exercício de contabilidade. Os débitos devem ser iguais aos créditos, é uma lei da natureza. Os créditos de Grace são medidos em amor, enquanto os teus são medidos em intelecto. Oh, não completamente — acrescentou ele, os seus olhos a brilhar face à raiva espelhada nos de Edda —, mas o amor nunca seria suficiente para ti. As suas recompensas são demasiado efémeras, seria como ver água a evaporar.
— E o amor seria suficiente para ti? — perguntou ela, friamente.
— Não, infelizmente não. No entanto, hoje percebi uma questão relacionada com gémeos que me atormentava há muito tempo.
Por um momento, Edda considerou não morder o isco, mas depois apercebeu-se de que, se não o fizesse, ele nunca lhe contaria. Nunca.
— E que questão é essa que te atormenta assim tanto?
— Por que razão existem gémeos? — começou ele. — Há demasiadas características para enfiar numa só pessoa, mas, se as dividirmos por duas, a mistura torna-se fina e desproporcionada.
— Então, um gémeo é menos que as outras pessoas?
— Menos não, mas diferente.
— Achas que Grace ficou com todo o coração e eu com toda a inteligência?
— Não exatamente. Acho apenas que ela precisa de um pouco do teu bom senso e tu precisas de um pouco da compaixão dela.
— Não vou pedir desculpa por ser inteligente. A Grace vai sofrer.
— Não se tiver um bom marido.
A imagem do rosto pálido como gelo de Bear veio à cabeça de Edda. Ela sorriu, apertou a mão de Jack que se encontrava sobre o volante.
— Então, ela vai ficar bem. Bear Olsen é um homem muito bom que cuidará sempre dela. — A sua voz encheu-se de dúvida. — Isto se ele conseguir que ela pare de gastar dinheiro. Que estranho! Nunca me tinha apercebido de que ela era gastadora, até agora, quando vi toda aquela mobília cara. Não sobrou um único tostão no banco.
— Acho que ela nunca teve liberdade para gastar.
— Com a nossa madrasta a controlar as contas, isso é verdade. No entanto, foi a nossa madrasta que a incentivou a comprar a mobília.
Aproximaram-se da Câmara Municipal, o carro parou.
— Deixa-me levar-te até ao hospital — pediu ele.
Contudo, Edda já se encontrava fora do carro, a sorrir abertamente.
— Não, obrigada. Vemo-nos no trilho, sim?
O seu riso pareceu apaixonado.
— Acabaram-se os passeios a cavalo durante algum tempo, Edda. Vamos passar o nosso tempo livre em casa de Grace, a ajudar no jardim. Grace está a ficar demasiado pesada para cuidar dele e Bear encontra-se fora. É o mínimo que podemos fazer. Quando estás de folga?
— Amanhã — disse ela, sem qualquer entusiasmo.
— Então, encontramo-nos aqui amanhã às onze. Eu até vinha mais cedo, mas vou ter de ir pedir emprestadas ou roubar plantas a Hannah, a Enid ou a quem for, para encher os canteiros vazios. Uma casa em Corunda sem rododendros e azáleas? Sem uma ou duas árvores de fruto? Sem narcisos amarelos na relva?
Jack arrancou ainda a falar, deixando Edda a olhar para ele como para um génio da lâmpada a dissipar-se no ar.
Por fim, Edda virou-se e começou a caminhar lentamente em direção ao portão lateral do hospital, com a cabeça num rodopio. Ao analisar tudo o que acontecera até à data, Edda não sabia o que tinha esperado que acontecesse com a visita à irmã, sobre a qual Jack hesitara algumas vezes. Edda sempre se preocupara com o facto de apresentar Jack a Grace, por receio de que ele se apaixonasse pela sua irmã mais doce. Em vez disso, Jack parecia sentir pena de Grace… porque seria isso ainda mais irritante?
Em seguida, Edda assumiu o controlo das suas emoções rebeldes, recompôs-se e evocou a imagem de Grace como a vira naquela tarde. Extraordinariamente bonita, como as mulheres grávidas tendem a ser, com uma barriga de sete meses, embora ainda pouco volumosa, e os seus enormes olhos cinzentos cheios de amor por… oh, por toda a gente! Que extraordinário que um homem pouco experiente como Jack Thurlow também tivesse sentido o apetite voraz de Grace por amor. Ela não o tentara seduzir, mas ele não era à prova do seu encanto indelével, do seu ar de incompetência desamparada. Não possuindo tal incompetência, Edda desprezava-a e assumia que Jack também sentisse o mesmo. Descobrir que isso não acontecia foi um choque bastante desagradável.
Tufts encontrava-se sentada na sala comum rodeada de livros, mas não havia sinal de Kitty… sim, estava de serviço na ala das crianças, como era habitual. Que estranho. Kitty adorava trabalhar na ala das crianças e, ao que parecia, a enfermeira-chefe fazia-lhe a vontade.