Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 12 de 26

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Amor de Salvação

Capítulo X

Affonso, passados dous minutos, continuou, demudado já o semblante da jovialidade com que principiára.

«Theodora reconheceu-me. A turbação do meu animo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances de olhos, todas as linhas alteradas d'aquelle adoravel rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quasi paragem convulsiva que fez o cavallo. E eu busquei o apoio do hombro de minha mãe, e senti-me comprimido nos braços d'ella. E a magia satanica do olhar da bella mulher empederniu-me; arrefeci; d'ahi a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ella tinha passado. Puz então a mão sobre o meu coração, e já lá encontrei a de minha mãe.

«Caminhamos para casa, e não trocamos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas, e vinguei-me do meu infortunio a chorar. Chorei, e senti-me desopprimido. Fui ao quarto de minha mãe, e achei-a de joelhos orando. Quaes lagrimas me deram allivio? seriam as d'ella ou as minhas? As d'ella, que o homem, quando chora, desafoga uma paixão, e abafa n'outra: a do odio. Prantos que salvam são os da dôr immerecida, os apêllos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providencia. E eu, quando chorava, amaldiçoava, e pedia vingança.

«No dia seguinte, fui para Coimbra.

«Concentrei-me com a visão da ponte de Lessa. Não me deixou aquelle adorado demonio recahir na minha miseria da embriaguez. Para que?—dizia eu—Se tenho de voltar á razão para encontral-a com a tenaz ardente da tortura?

«Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscillaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o coração, uma dôr que eu não sei se é commum de todas as organisações, dôr que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão dos vasos sanguineos. A carta era de Theodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: «Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Affonso. Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o remorso: era necessaria a fatalidade do amor, da paixão. D'aqui por diante ha-de rasgar-me o peito a desesperação dos reprobos, que Deus lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir-te perdão. Não me amaldiçôes tu d'hoje em diante. Se tens padecido, perdôa, e Deus te dê o triumpho na bemaventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior? Adeus. Alegra-te, que eu desejo a morte, e ella virá salvar minha pobre alma d'este miseravel corpo.»

«Que lucta, meu amigo! As horas d'aquelle dia e d'aquella noite foram uma continuada alternativa de alegria douda e de excruciante agonia! Começava a escrever-lhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha propria consciencia. A paixão ia tocando as extremas onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajal-a e adoral-a era então a despotica necessidade da minha cabeça allucinada.

«Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dôres, que escondera de todos. Tive ancias de uma alma, que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido commigo. Sem excepção d'um só, eram todos futeis, e incapazes de me pouparem á sua zombaria, se me vissem chorar. Suffoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz phantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridiculo em nenhuma das minhas desgraças.

«Passaram tres dias. Na minha banca estavam tres cartas fechadas, e os fragmentos d'outras, que eu destinára a Theodora. Abri as cartas, reli-as, tive pejo e tedio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.

«Porque? porque não havia de ser eu o que seria todo o homem, abrazado de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguem se rira de mim abandonado d'ella, que maior victoria queria eu, senão a de fazer risivel o marido da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta philosophia hedionda, com que se pavonea a philaucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admiração d'outros miseraveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar n'um caso da vida, em que a minha cura não podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade do meu caracter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexivel pundonor dos dezenove annos. Era uma feroz vingança que eu me infligia á conta do covarde quebranto em que me deixára a apparição da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade.

«O meu segundo anno de Coimbra foi um continuado suicidio. Desbaratei a saude em toda a especie de desregramento e libertinagem. Não dei nos olhos da academia, porque, n'aquelle anno de 1846, a fermentação da guerra civil absorvia os espiritos alvorotados dos academicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insomnias e empeçonhado de bebidas estimulantes, cahi de cama, com o sincero desejo e alegre esperança de que me não levantaria mais.

«Escondi de minha mãe aquelle estado em quanto me não assalteou o remorso de a não chamar ao meu leito, e confessar-me da vileza de alma que me levára a destruir a minha vida por meios tão ignominosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ancia e lagrimas aos medicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor, e viajasse depois um anno nos paizes temperados e arborisados. A meu vêr, a sciencia queria dizer no seu receituario que eu estava em vesperas de encetar uma viagem barreiras a dentro da eternidade.

«Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Sahi de Coimbra para o Porto. Tenteei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheiraes de Ruivães, os regatos crystallinos, orlados de verduras em que minha mãe me via creança, a colher boninas para lh'as entretecer nos cabellos. A minha alma amava então estas cousas com o transporte arrobado e sereno dos tisicos: é que o envolucro já lhe não empecia o filtrar-se n'ella o calor da luz ideal, aquelle calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.

«Venceu o desejo da vida. Isto que, um anno antes se me antolhou feio e inhabitavel, aformoseou-m'o então o anhelo de viver. Até a côr do céo, d'onde me choveram as alegrias dos dezeseis annos, me sorria e chamava. Nem já o temor de me encontrar com Theodora pôde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a porção de minha essencia, captiva do amor d'ella, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, d'onde eu sahira refundido, e mui estranho ao homem do outro tempo.

«Surprehendi minha mãe, sentada á sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas ultimas cartas, escriptas com a ternura da alma alumiada pela alva d'um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberancia de saude, de alegria, e de uncção religiosa. Então me considerei estreado em nova existencia.

«Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o segundo anno, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no index dos compendios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessaria a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ella. Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessario recolher idéas que ao depois me aligeirassem no estudo os annos de toda a vida, que eu designára passar na casa, onde meu pae tinha vivido a sua, com todas as ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A dôce creatura, accusando-se sempre de motora da minha desgraça, obrigára-se a expiar pela abnegação e condescendencia. E de mais, ella temia que, alguma hora, me reapparecesse a visão de Lessa.

«Que presentimento!

«Dias antes da minha destinada partida, fui ás Taipas despedir-me de meu tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer sahi com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro, quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alamêda dos banhos, acercou-se de nós um vulto de mulher rebuçado n'uma capa alvacenta. Mafalda apertou-me o braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse n'um tom ironico:—Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos felizes verem-se admirados.

«Reconheci a voz de Theodora. Mafalda sentiu o tremor do meu braço, e reconheceu-a tambem de instincto.

«Desviei-me do caminho trilhado para seguir ávante. Theodora deixou cahir a dobra da capa, em que occultava meio rosto, e disse n'um tom arrogante:—Veja, snr. Affonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam arrebatar maior alma que a sua.

«Deteve-se alguns segundos arquejante: eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no fremito da sêda do corpete. Depois, com um gesto de arremesso, lançou-me aos pés um volume, e afastou-se a passo rapido.

«Levantei o objecto arremessado, e conheci que eram papeis e um objecto de mais solidez, deviam de ser as minhas cartas. O restante que seria?!

«Mafalda ia murmurando:—Que mulher, santo Deus! que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ella. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma creatura, assim encapotada sobre um grande cavallo, com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Lessa, e meu pae descreveu-m'a tão pelo miudo que a adivinhei. Não t'o disse, e pedi a Deus que te levasse depressa d'aqui...—Não receies, minha boa prima—disse eu a Mafalda—que esta mulher na minha vida, já agora, apenas póde ser um estorvo de tres minutos, quando eu passeio nas Caldas—Minha prima replicou:—Não te illudas, meu primo: esta mulher é a tua sina maldita.

«Sorri-me, e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e d'esta fita pendia uma pequena chave; era tambem uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia á caixa. Abri-a, e vi uma trança de cabellos, com tres flôres resequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as tres flôres: tinha-lh'as eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus annos.

«Tirei a trança, e insensivelmente, a contemplal-a, achei que a tinha perto dos labios. Circumvaguei os olhos, a examinar que me não vissem. Estava sosinho, e fechado... Beijei os cabellos de Theodora, meu amigo! Peço-te desculpa de não corar agora; consinto, porém, que, se alguma vez escreveres esta historia, ponhas seis pontos de admiração, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e poderes, ácerca da miseria do bruto que chora, e beija tranças de cabellos, do bruto que ri de seu mesmo vilipendio, do bruto, em fim, chamado homem. «Ia depôr as madeixas no cofre, receioso de alguma surpreza, e então vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma carta. Escondi-a sofregamente, fechei os cabellos, escondi o cofre e as minhas cartas no sacco de noite, e palpitante de commoção sahi do meu quarto, e fui respirar no escuro d'uma varanda, onde presumia não encontrar alguem.

«Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das auras balsamicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente. Fui á extrema da varanda, e vi minha prima, com as faces entre as mãos, repuxando ao seio os soluços com anciada violencia. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a comprehendi, não sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Cahiram-me nas mãos as lagrimas de Mafalda... Perguntei-lhe por que chorava. Respondeu-me:—São as primeiras lagrimas: é por ti que as choro, meu primo. Deus deixa-te perder... Não ha ninguem que te possa salvar d'aquella mulher.—E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.

«Eu levantei olhos ao céo, e disse, em meu espirito, com terror quasi infantil:

—Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abysmo, d'onde a vossa misericordia não tem querido salvar-me!

«E cuidei que o céo, se abrira á minha oração com um milagre.

«A imagem de Theodora passou ante mim; vi-a repulsiva, abjecta, vilissima, e prostituida. Subito, n'um disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lagrimas, humilde como uma santa, e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nodoa.

«Amei então minha prima; todas as estrellas do céo m'a estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam commigo um hymno ao Senhor que me descaptivára das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo de sua audacia me fascinára, e com aquelles cabellos tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.

«Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a á cabeceira do leito de seu pae. Chamou-me o tio para os pés da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquella distincta angustia que lacera a alma sorrindo, por que as lagrimas só servem para exprimir os soffrimentos communs.

«Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a benção, e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez soffria, depois que eu a surprehendêra chorando provavelmente. Este resguardo augmentou a divinisação de Mafalda.

«Fechado na minha alcôva, abri a carta de Theodora. Está n'este masso lacrado, ha quatorze annos. Quebre-se o lacre, por amor da authenticidade da historia... Aqui a tens. Lê tu, em quanto eu dou folga aos pulmões. Ha muito anno que não fallei tanto tempo!

Li a carta de Theodora, cujo traslado segue:

«Quem te disse a ti que eu tinha cahido diante de mim mesma, Affonso?

«Quando te dei eu direito de suppôr que o teu silencio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, d'um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo?

«Quando eu te appareci magnifica de dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lagrimas figuraram-se-te o pus d'um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue.

«Não podeste chegar com a fronte á altura da minha, e apedrejaste-m'a!

«Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava, e não sabes sequer usar a misericordia de dizer á mulher, que te ama, que não seja infame, amando-te?!»

N'este ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração, e disse:

—Esta senhora tem estylo, ou eu não entendo nada de estylos! Que interrogatorio!

«Podes rir, que eu tambem cá estou mordendo os beiços para não espirrar uma casquinada na cara do antigo Affonso de Teive— disse o meu amigo.

—Mas o estylo—tornei eu sinceramente agradado da leitura—o estylo aqui não póde ser a mulher: aqui, ha, pelo menos, a triple intelligencia de tres escriptores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspiração! Por Hercules! Isto sim que é mulher... e «aqui ha que vêr» como diz o Garrett.

—E que lêr—ajuntou Affonso de Teive—continúa, se queres.

Perfilei as minhas faculdades intelligentes, e segui a leitura:

«A contas, homem de ferro, que endureceste o teu fragil barro d'outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezivel!

«Que fazias tu, quando eu me estorcia de saudades de ti, e dôres do meu captiveiro, dentro das grades das Ursulinas?

«Quando soubeste que a tyrannia me fechava a sete chaves n'uma cella, e me media os atomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze annos d'uma mulher que queria o sol das flôres, das aves, dos mendigos, do ultimo verme que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?»

—Parece-me, reflecti eu, que esta senhora arredonda ambiciosamente os periodos, meu caro Affonso; e, se me dás licença, direi que ha estylo de mais n'este periodo!... Estou morto por te perguntar que impressão te fazia isto ha quinze annos!...

«Lê, e no fim fallaremos—disse Affonso. E eu li:

«Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada é generosa. Não respondas. Ri, e escuta.

«Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços, e esperar a morte. Á borda do abysmo, vi uma tabua de salvação. Sabia que, segurando-me n'ella, as mãos se rasgariam em chagas incuraveis. Sabia-o; mas agarrei-me á tabua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demonio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ella me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roia a serpente da soledade e do desabrigo.

«Vi arvores, vi estrellas, ouvi os canticos da terra e os amorosos murmurios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a unica mulher sem mãe, sem pae, sem amigo, sem coração que se abrisse ás cinzas do meu. Não importa. Via o sol no firmamento; e para além do sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor que, á sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em sua innocencia, não ousam interrogal-o como Job!»

—De mais a mais—reflecti eu—lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrição, perguntar se a authora d'esta carta morreu ou vive escorreitamente?

«Espera que a concatenação dos factos te elucide—respondeu Affonso.

Prosegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar cousas escriptas por pessoas de juizo duvidoso:

«Trasbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri leguas. As arvores, que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céo de bronze, as catadupas que bramiam no despinhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei á cruz de pedra, que está na quebrada da serra. E não te vi. Dous mezes te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando ha um anno te avistei encostado ao hombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: Se elle quizer que tu te percas por elle, amanhã não terás honra, nem familia, nem marido, nem creatura sobre a terra que te não insulte.

«E escrevi-te, Affonso! Aquelle papel era uma renunciação, aquellas palavras queriam dizer:—Dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infamia como gloria; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que elle me acclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indignas d'ellas; e eu, contente da minha deshonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseraveis, que m'a cuspirem.

«E tu, Affonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadaver, pozeste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos labios o sangue do coração, e escarraste-lhe!

«Voltei do outro mundo. A mulher, que viste ha pouco, era um phantasma. Os cabellos negros, que adornastes com tres flôres n'aquelles formosos quinze annos, cahiram-te aos pés. As flôres vem aradas do fogo do inferno. O phantasma voltou ás suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos labios com as chammas dos seus olhos. Vai tu ao céo, e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação, e eternidade para o amor. Adeus.»

Não sei bem dizer d'onde me vieram as lagrimas. Sei que terminei a leitura da carta, já quando os olhos mal discriminavam as letras.

Como a gente, ás vezes, chora?...

Era o estylo!