Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 26

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Amor de Salvação

Capítulo XIII

 

Foi Affonso de Teive para Lisboa. Como ia desgostoso e intratavel, rejeitou a aposentadoria em casa do tio desembargador. Mobilou casa no bairro de Buenos-Ayres, na menos frequentada das ruas. Desligou-se do trato das relações adquiridas em casa do magistrado, e evitou novos conhecimentos. Vestiu de livros as paredes do seu gabinete, propondo-se o recreio do estudo, e o trabalho mesmo da composição, sem o intento de fazer-se conhecido no mundo litterario. Em quanto o espirito se lhe entreteve nos apetrechos de casa e aconchegos de quem tencionava viver n'ella os dias e as noites, curtos intervallos de magoa o assoberbaram; assim, porém, que o bulicio cessou, e os tapetes das elegantes salas não davam rumor de um passo, e Affonso, sentado á sua banca de estudo, ouvia apenas as cadencias do pendulo do relogio, condensaram-se-lhe em volta do espirito as nuvens torvas, que se haviam rarefeito, bafejadas pela aragem da esperança, e nunca tão compressora o sopesou a mão da tristeza. Os livros atediavam-no; o escrever acendia-lhe o espirito a um grau penoso de excitação. Todos os seus manuscriptos fragmentarios ou desatados, que eu vi treze annos volvidos, accusavam uma obstinada paixão da qual o poeta hauria argumentos contra a Providencia que o desamparára, na batalha comsigo mesmo.

Aos vinte e dous annos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de vida assim, é virtude imaginaria. Para outras civilisações, lá estava o deserto do anachoreta, e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam devorar das angustias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e lá iam encontrar-se no céo, a cobrarem o seu patrimonio de alegrias infindas, ganhado a troco d'uma hora de orgulho satisfeito—que mais não é o contentamento d'esta breve fugida que fazemos do ventre á sepultura. N'estes tempos, porém, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho desentranhar-se a terra em novos enfeites de si propria, agora que o céo se deixa contemplar, já não como paragem de futuras vidas, senão como estrellado involtorio d'este globo cujas delicias nos foram dadas em desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em summa, que o viver sem gozar é um triste, senão estupido, preludio da morte, em redor da sepultura, que loucura é esta de Affonso de Teive que não rompe mundo a dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dous annos, bizarria de fidalgo, e physionomia dotada de graças attractivas de todos os olhos?

Era necessario que a sociedade culta delegasse um dos seus ornamentos a intimar Affonso de Teive para comparecer, réo de lesa-illustração, á barra do seculo XIX. O enviado, escolhido a ponto, foi, como por acaso, encontrar Affonso na matta da Penha-Verde em Cintra, onde o tinham chamado saudades das suas arvores de Ruivães.

D. José de Noronha, sugeito de trinta annos, filho segundo d'uma casa titular de Lisboa, cursára alguns estudos da Universidade, contemporaneo de Affonso. Pertencia á tribu dos trossistas, e gozava as honras de caudilho nos disturbios, e maiores honras ainda de primeiro estomago em digestão de vinho. Contava-se que D. José de Noronha bebia por um pipo de almude, quando não tinha á mão o alguidar, taça ordinaria das suas libações. Este facto, presenciado com assombro e inveja, avantajou-o em consideração aos socios da taberna, e conferiu-lhe voto deliberativo em todas as barganterias nocturnas. Affonso de Teive, algum tempo associado aos tonantes, declinou da sua estima o illustre companheiro, indistincto dos outros em sua opinião. Separados pela mudança de costumes, raras vezes se viam, e mais raras se tratavam. D. José cognominava de renegado o fugitivo socio, e divulgava que o miseravel nunca bebera uma garrafa de genebra, sem se embriagar. Equivalia esta denuncia a uma grave deshonra.

Abandonada a carreira dos estudos, por força de successivas reprovações, D. José foi para a familia, que o recebeu sem espanto do mau exito, nem mesmo pesar. O fidalgo libertino tinha bom patrimonio materno, e um pae, cujo desregramento de vida absolvia os desatinos do filho. A sociedade recebeu-o prazenteiramente, deu-lhe a primeira linha na cohorte dos elegantes, e victoriou-o com alguns tropheus de conquistas, comminadas no codigo penal, e gloriosas nos salões. D. José absteve-se da ebriedade em publico, é isso verdade; mas indemnisou-se em vicios, que seriam muito mais nocivos á humanidade, se as maiorias compartissem dos ultrages afflictivos, que vão na intimidade obscura, e mesmo na publica exposição das familias. Não vem isto para dizer que todas as familias ultrajadas se afflijam. Em Lisboa, principalmente, as excepções são tantas, que suaria o topete quem quizesse achar a regra. Lá, haveis de encontrar muito d'uma cousa chamada «philosophia», sciencia, que foi necessario inventar-se, á medida que umas certas virtudes de portas a dentro deram em saltar pelas janellas, e voar por ahi fóra, não sei para onde, naturalmente para a India, onde as viuvas se queimam em demonstração de fidelidade aos maridos defunctos. Ha-de ser isso.

Affonso de Teive reconheceu D. José, que sahiu d'um rancho de senhoras a comprimental-o. Eram cousas diversissimas vêl-o em Coimbra, ou alli em Cintra ao lado das senhoras da primeira distincção, como lá se diz, e quasi sempre em rigorosa verdade, omittindo-se a qualidade distinctiva. O menos preço em que o fidalgo do Minho tivera o de Lisboa, desvaneceu-se logo. A compostura, o trajo, a seriedade, os ademanes, aquillo tudo, digamol-o assim, aromatizado do palacio e côrte, demudou a má opinião de Affonso em estima attenciosa e quasi amigavel.

Em breves termos, se disseram mutuamente as suas residencias, convencionando-se logo em se encontrarem e conviverem a miudo. D. José de Noronha, como da terra, foi o primeiro a visitar Affonso. Frequentaram-se assiduamente, e chegaram a termos de se hospedarem á vez, e ás temporadas de tres dias, nas casas um do outro.

Claro é: Affonso contou suas penas, com sincera expansão, ao amigo. Era o primeiro estranho a ouvir-lh'as. Mostrou-lhe as cartas de Theodora, encarecendo-lhe a belleza, superior mesmo ao genio revelado na escripta. Nada menos que genio o meu pobre Affonso descobrira nas cartas da esposa de Eleuterio Romão. D. José de Noronha, por sua parte, passava do espanto ao assombro a cada periodo interrogativo da famosa missiva, que me fez rir e chorar— caso unico na minha vida extraordinaria.

—E tu podeste, Affonso—disse D. José—podeste resistir a esta mulher?!... És aleijado, ou tens peito de rocha, ou cheiras a santo! Abre-me bem os refolhos do teu espirito. Esclarece-me este phenomeno. É certo que nunca respondeste a esta mulher, nem a procuraste?

—É certo—respondeu Affonso, quasi envergonhado da confissão.

—Ó pobre Joseph! ó mallograda Hiempsal! Conheces bem a Hiempsal... a esposa do ministro de Pharaó! Quantas capas tencionas assim deixar em lindas mãos?... Ai de ti, Affonso de Teive, que, a final, sahirás do mundo sem capa, e coberto de lama!... Tu não sabes que estás em 1850, e que tens de alijar a carga de dous seculos, se não quizeres ir a pique, varar no ridiculo inexoravel com os homens da tua fortuna e da tua figura. Origines ficticios, que nem sequer resalvam com o estudo dos attributos divinos a sua ignorancia dos attributos humanos... Pobre Theodora... a formosa mulher, que se rojava a teus pés, quando tu, por brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijar-lhe os cabellos, e não arrancar-lh'os. Pobre menina, casada com um homem chamado Eleuterio... que mais?

—Eleuterio Romão dos Santos—disse Affonso, sorrindo no tom imitante do dizer galhofeiro do amigo.

—Eleuterio Romão!... Eu não sei—proseguiu D. José—se amaria a esposa de um homem chamado Eleuterio!... Mas, nas condições de cara e estylo em que está Theodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Affonso, obrigando-a a promover o chrysma do conjuge... Fallemos serios, serios como rapazes, que tem o estricto dever de não serem palermas, do contrario seremos victimas de todos os Eleuterios. É necessario que escrevas a essa mulher; isso não te priva de escreveres a outras muitas, visto que estás aqui a ares, e tens ainda a balda de escrever meditações... Que ratão és tu, Affonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma graça! Quando tu publicavas no «Trovador» umas lamurias lamartinianas, que davam idéa de seres um desgraçado, que vivias das brizas do claro Mondego, e tu, meu patarata, em quanto fazias chorar as meninas com os versos, emborcavas torrentes de cognac por uma catadupa esponjosa que muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal!... Patusco!... Fallemos agora serios. Escreve á Theodora, se tens algum resto de pudor... Não me digas que estás soffrendo por ella, que deixaste por ella tua mãe, que renunciaste ao amor de um anjo por causa d'ella... Não me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoice. A virtude seria medir o espaço que separa a tua alma do coração atraiçoado de Theodora, e interpor n'esse espaço trinta mulheres, com tanto que te não privasses da companhia de tua mãe, nem lhe désses desgostos muito menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo, e devias desejar a outra porque era um demonio. Que fizeste tu quando ella casou? Choraste, e com tamanho aggravo dos teus brios que consentiste que o mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte annos, gentil, e rico! Pondera bem n'esta vilipendiosa calamidade, meu caro Affonso. Salta sobre dez annos de tua existencia para diante, e diz-me que nojo te ha-de fazer este Affonso, quando o Affonso de 1860 achar que tem o mesmo nome, e quasi a mesma figura!...

E continuou por largo espaço n'este sentido.

Escutava o filho de Eulalia o discurso de D. José, lardeado de facecias, e, por vezes, attendivel por umas razões que se lhe cravavam fundas no espirito. As réplicas sahiam-lhe frouxas e mesmo timoratas. Já elle se temia de responder cousa de fazer rir o amigo. Violentava sua condição para o igualar na licença da idéa, e por vezes, no desbragado da phrase. Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do coração desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos-Ayres aborreceu-a por afastada do mundo, boa tão sómente para tolos infelizes que fiam do anjo da soledade o despenarem-se, chorando. Mudou residencia para o centro de Lisboa, entre os salões e os theatros, entre o reboliço dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras impressões enjoaram-no; mas, á beira d'elle, estava D. José de Noronha, rodeado dos próceres da bizarria, todos aporfiados em tosquiarem um dromedario provinciano, que se escondêra em Buenos-Ayres a delir em prantos uma paixão callosa, trazida lá das serranias minhotas. Ora, Affonso de Teive antes queria renegar da virtude, que já muito a medo lhe segredava os seus antigos dictames, que expor-ser á irrisão de pessoas d'aquelle quilate. É verdade que ás vezes duas imagens lagrimosas se lhe antepunham: a mãe, e Mafalda. Affonso desconstrangia-se das visões importunas, e a si se accusava de pueril visionario, não emancipado ainda das crendices do poeta inexperto da prosa necessaria á vida.

Escrever, porém, a Theodora, não vingaram as suggestões de D. José. Por ventura, outras mulheres superiormente bellas, e agradecidas ás suas contemplações, o traziam preoccupado e algum tanto esquecido da morgada da Fervença.

Mas, um dia, Affonso, n'uma roda de mancebos a quem dava de almoçar, recebeu esta carta de Theodora:

«Compadeceu-se o Senhor. Passou o furacão. Tenho a cabeça fria da beira da sepultura, d'onde me ergui. Aqui estou em pé diante do mundo. Sinto o peso do coração morto no seio; mas vivo eu, Affonso. Meus labios já não amaldiçoam, minhas mãos estão postas, meus olhos não choram. O cadaver ergueu-se na immobilidade da estatua do sepulcro. Agora não me temas, não me fujas. Pára ahi onde estás, que as tuas alegrias devem de ser muito falsas, se a voz d'uma pobre mulher póde perturbal-as. Olha... se eu hoje te visse, qual foste, ao pé de mim, anjo da minha infancia, abraçava-te. Se me dissesses que a tua innocencia se baqueára á voragem das paixões, repellia-te. Eu amo a creança de ha cinco annos, e detesto o homem de hoje.

«Asserena-te, pois. Esta carta que mal póde fazer-te, Affonso? Não me respondas; mas lê. Á mulher perdida relanceou o Christo um olhar de commiseração e ouviu-a. E eu, se visse passar o Christo, rodeado de infelizes, havia de ajoelhar e dizer-lhe: «Senhor! Senhor! é uma desgraçada que vos ajoelha e não uma perdida. Infamias uma só não tenho que a justiça da terra me condemne. Estou acorrentada a um dever immoral, tenho querido espedaçal-o, mas estou pura. Dever immoral... por que não, Senhor! Vós vistes que eu era innocente; minha mãe e meu pae estavam comvosco.

«Abafaram-me n'uma jaula; eu queria amar-vos fóra dos violentos ferros, deixei-me matar diante da vossa imagem por um sacerdote do vosso culto. O vosso sacerdote, Senhor Deus da Justiça, praticou uma immoralidade, levantando sobre as faculdades d'esta alma esmagadas o patibulo do meu coração. Foi immoral o dever, que me legislaram em vosso nome, Senhor. E eu, sem vociferar contra o mundo, que me arroxêa a gonilha no pescoço, a vós ajoelho, Deus dos reprobos das alegrias d'este mundo, exorando-vos que me deis um amigo.

«É o que eu diria ao Deus da adultera e da Magdalena, Affonso. E o Senhor piedoso havia de ouvir-me, e de tua alma, fulminada pela inspirativa misericordia do Justo dos justos, sahiria um gemido piedoso por a mulher desamparada. S !»

Recusava-se Affonso a deixar vêr a carta: era, porém, uma descortezia sonegal-a, entre moços, que francamente haviam alli relatado á competencia, as façanhas amorosas dos ultimos quinze dias.

—Homem indigno da nossa estima!—exclamava D. José de Noronha—Grande cynico! podes tu negar aos teus amigos dous minutos do innocente prazer de ouvirem o estylo d'uma Sevigné provinciana, que, para ser mulher de época, só lhe falta affeiçoar-se a um homem que lhe rasgue os horisontes d'um destino esplendido!? Venha a carta!

—A carta! a carta!—exclamaram todos, empunhando os copos.

—Um brinde á formosa das montanhas!—bradou D. José.

—Depois de lida a epistola!—emendou um commensal.

—Antes e depois!—redarguiu o proponente do brinde, e ajuntou: —Á saude de Theodora, bella e espirituosa, amada e amantissima, pura quanto póde sêl-o a mulher que nos braços d'um marido reserva para o homem amado a virgindade do coração!

—Á saude de Theodora—conclamaram todos, exceptuando Affonso, cujo aspecto arguia tristeza.

Seguiu-se um brinde enthusiastico ao ditoso Affonso, que sobrepunha a formosa minhota a quantas lisboetas de tez e olhos arabes lhe tinham offerecido a alma n'um sorriso.

Affonso agradeceu, com gesto de mal dissimulado dissabor.

Reiteraram os convivas o pedido da carta. Affonso hesitava ainda. O mais ebrio d'aquella mocidade patricia, representante dos mais illustres appellidos da época heroica de Portugal, ousou tomar a carta de sobre a mesa, e abril-a com estrondosos applausos dos outros. Affonso de Teive estendeu impetuosamente o braço, e tirou a carta da mão do hospede.

—Isso é um insulto a todos!—exclamou D. José de Noronha.

—Não é insulto—replicou o de Ruivães—é preito a todas as mulheres, e com especialidade ás desgraçadas.

Disse, e incendiou o papel na chamma do castiçal em que acendiam os charutos.

O tom amargo d'aquellas palavras commoveu os convivas, que, por bom acerto, se encontraram todos de indole sentimental, quando as vaporações alcoolicas lhes ennublavam a porção intellectual, que era n'elles diminuta, como de direito heraldico. D. José, compondo o rosto d'uns vislumbres de rectidão e bom discurso, perorou ácerca da probidade de Affonso, e, em nome dos communs amigos, agradeceu a lição, e levantou novo brinde ao hospedeiro moço que tão digno era da estima dos homens como da confiança das mulheres.

 

Este capitulo não dispensa uma nota illustrativa, respondendo temporanmente á critica illustrada que me perguntar como pude eu pôr em traslado uma carta queimada á luz do castiçal, minutos depois que Affonso a lêra? É por que o rascunho d'esta carta, escripta com entrelinhas, emendas, e borrões, escripta por Theodora, estava ainda em poder de Affonso de Teive em Dezembro do anno proximo passado. Opportunamente se dirá como Affonso de Teive se apossou do rascunho. Então a critica verá que poucas cousas succedem na vida tão naturalmente.

Relevem-me estas demasias de escrupulo: que eu difficilmente consentirei que a má fé me apanhe em flagrante inverosimilhança.

Assim é que eu quizera que se escrevesse a historia patria, com este timbre e rigor de verdade. Por mingoa de desvelos analogos na averiguação dos factos historicos é que nós ainda não sabemos bem quantos filhos bastardos fizeram os nossos monarchas: falha que desluz algum tanto o panegyrico das virtudes dos reis portuguezes. Aprendam os historiadores.