Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 22 de 26

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Amor de Salvação

Capítulo XX

Ao oitavo dia de residencia em Paris, Affonso de Teive não sabia que fazer da sua pesada inercia. Fechado no quarto de um hotel, ouvia os estrondos da Babylonia, e suspirava pelos silencios da sua aldêa. Apresentára as cartas de cavalheiros de Lisboa na embaixada portugueza, recebera a visita dos compatriotas distinctos em Paris, e convivera nos primeiros dias em bailes, theatros, e jantares. Saciou-se prestes aquella contrafeita sofreguidão de vida, e logo uma subita e glacial atonia lhe ennegreceu os prazeres, almejados de longe, como iniciação para outros, que inteiramente lhe obliterassem da memoria as dôres passadas.

E, no termo de oito dias, uma consolação unica lhe restava: era o ante-gosto de voltar á casa deserta de Ruivães, e esperar alli ao lado do jazigo de seus paes o breve termo de sua irremediavel tristeza.

Affonso, porém, tinha vinte e quatro annos. A natureza contramina estas renunciações intempestivas. Uns repentes impensados sacodem a alma de sua modorra, e a sobre-excitam a desejos vagos, bem que ephemeros. A materia não é um impassivel envoltorio de corações entorpecidos. É preciso que a vida sensitiva se amorteça antes da actividade moral para que as paixões mallogradas vinguem o total quebranto do homem.

Entrou Affonso na sociedade, levado pela mão da esperança, que promettia guial-o ao pé da mulher salvadora. Mal encaminhado ia aos salões de Paris. Os conhecedores d'aquelle «mundo» contaram-lhe as historias de cada mulher, que tinha ares de poder salvar alguem: no geral eram creaturas, que procuravam quem as salvasse das incertezas do futuro pelo casamento justificado e santificado com algumas centenas de milhares de francos. Estas eram as filhas dos generaes do imperio, as filhas dos estadistas em começo de fortuna, as filhas dos gentis-homens cujos appellidos contavam sua antiguidade de Carlos Magno para além. E todas estas meninas, esperançadas em salvação, e em requesta de salvadores, quando encaravam no vulto melancolico de Affonso de Teive, imaginavam-no um galante moço que, ao contemplal-as, dizia magoadamente entre si: «Se eu fosse rico!...» E ellas, olhando-o de soslaio com discreta reserva, diziam: «Se tu fosses rico!...»

Quando Affonso tomou a peito rectificar este juizo dos seus amigos, avisinhou-se das mais aureoladas do azul-celeste da innocencia, e averiguou que as mais singelas á vista eram as que mais a ponto fallavam, em termos rigorosamente arithmeticos, de fortunas deslumbrantes, de casamentos projectados. E, se elle, com a portugueza e bemdita poesia dos nossos amores de sala, aventurava algumas phrases de idyllio sobreposse, as ligeirissimas creaturas ouviam-no distrahidas, como, no theatro, ouviriam musica de Donizetti, e encheriam de melodias a alma, em quanto assestavam o binoculo no filho do banqueiro.

Comprehendeu logo Affonso de Teive que não servia á alta sociedade parisiense. Um forasteiro, que vai a Paris com trinta mil cruzados, e deixa na patria uma quinta, que valeria menos de metade d'aquella quantia improductiva, deve contar que no caminho do hotel aos theatros e salas, aos festins e concertos, em menos de dous annos, com alguma parcimonia nas despezas, se lhe hão-de escoar as ultimas mealhas. Os haveres de Affonso, postos á disposição da filha do marechal do imperio ou do marquez decahido com os Bourbons, dariam uma dezena de toilettes da esposa. Esta dura verdade calou-lhe no animo, afastando-o do concurso de mancebos, que malbaratavam cada mez fortuna sobreexcedente á d'elle. Penoso desengano ás portas do grande mundo onde elle tencionára retemperar o coração ao bafejo das primeiras mulheres da época, e da França. Tinha, por tanto, que descer ás inferiores camadas, abaixo mesmo da media. N'esta mais difficil lhe seria o escolher um rosto distincto e uma alma no estado da innocencia do anjo: trancava-lhe as portas a cobiça que lá vai dentro, imitando-as a elevarem-se até emparelharem com as invejadas mulheres da classe alta. Elle, cuja razão se alumiára á luz do facho do universo, á luz de Paris, viu-se qual era, correu-se da sua comparativa pobreza, e refugiu dos bailes, das cêas, e dos concursos em que o seu peculio se ia desnervando á custa de sangrias inevitaveis.

Madrugou, um dia, Affonso de Teive ambicioso de riqueza. N'esta hora, e pelo tempo fóra de oito mezes, fez-se em seu coração um quietismo espantoso! Descuidou-se do esmero no trajar; era-lhe já como indifferente o reparo da mulher. Vendeu o tilbury e o cavallo. Mudou para hotel menos dispendioso. Traçou plano de batalha á fortuna, e entrou no jogo de fundos, onde os felizes, a um relanço de olhos da boa fada, accumulavam enormes cabedaes, facto demonstrado por milhares de exemplos.

Foi feliz nos ensaios timidos, e em pouco. Prosperaram-lhe outros de maior risco. Cuidou-se bemfadado para emprezas maiores. Vieram as alternativas, equilibrando-se. Começou Affonso a estudar seriamente os mysterios d'aquelle jogo, com enthusiasmo e absoluto menosprezo de tudo mais. Dizia-se elle: « refaça-se a fortuna, que depois se reconstruirá o coração. Dinheiro, muito dinheiro, para comprar uma alma pura em Paris, onde a raridade tornou carissimo o genero!»

Sossobrado por um revez, perde metade do seu capital. Desanima, e esmorece em força moral. Vai a medo á barra do Potosi, e crê que está alli um abysmo a tragar-lhe o restante, e depois a elle. Que fará empobrecido no extremo? Venderá a casa, a quinta, a capella, e o tumulo de sua mãe? Lembra-lhe a mãe, e invoca a alma santa a coadjuval-o na empreza immoral. A santa infunde-lhe uma insuperavel desanimação diante do perigo. Associa-se a jogadores felizes. Balancea-lhe a fortuna entre pequenos desastres e pequenos lucros. Ao fim de oito mezes, a sociedade quebra, e Affonso de Teive tem de seu algumas libras, e cincoenta que o Tranqueira delicadamente lhe introduz na sua gaveta, os seus ordenados e economias de muitos annos.

O criado amigo, testemunha das lagrimas e das vertigens, ousa aconselhal-o que volte para Ruivães, e se restaure limitando-se ao rendimento de sua casa. Affonso enfuria-se contra o criado, exclamando: «Sabes o que é a minha casa de Ruivães? São quarenta carros de pão cada anno»—E vinte pipas de vinho, e uma de azeite—ajuntou o criado. «Que vale tudo isso?»—perguntou Affonso. O Tranqueira fez a conta pelos dedos, e respondeu:— Feitas as despezas do grangeio, vale seiscentos mil réis. «E hei-de eu viver com seiscentos mil réis por anno!—clamou Affonso—eu! habituado ao luxo, com vinte e cinco annos, com precisão de aturdir a minha existencia nos prazeres, que só a muito dinheiro se encontram em toda a parte do mundo!»

O criado encolheu os hombros, e disse entre si:—Valha-nos a alma de minha santa ama e senhora!

Medita Affonso vender o resto de seu patrimonio; e para logo lhe occorrem estas palavras da ultima carta de sua mãe moribunda: Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste, e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus t'a der como tempo de merecer o céo. Aqui nasceu teu pae, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens n'ella a sepultura de teus paes e avós.

Desfallece-lhe a sacrilega coragem de negar a sua mãe o derradeiro pedido. Mas a necessidade atroz abriga-o a desviar os olhos d'um tumulo para enxergar não longe a indigencia em Paris, a indigencia relativa com as galas do passado.

Estas agonias são as supremas de sua vida. Palmyra, a memoria da mulher fatal, nem por sonhos o perturba. Apparelham-se-lhe affrontamentos maiores. A vergonha do pobre mostra-se-lhe mais aviltante que a vergonha de atraiçoado. Pensa, sonha, contorce-se, alenta-se, desmaia, recobra-se, sempre a scismar na rehabilitação pelo ouro, na reparação do seu capital; porém, de que modo, sem capital nenhum?... Salvadora idéa!...

Escreve ao tio Fernão d'este theor:

«Perdi-me, perdi o que trouxe de Portugal, estou pobre. Eis-me mais castigado que o padecente dos pardieiros das Taipas. Elle refugiou-se aos quarenta annos, ainda rico do mundo. Eu tenho vinte e cinco annos, a honra perdida, a rehabilitação impossivel, aptidão para nada, o espirito derrancado no gozo de infames delicias: e, para sustentar esta vida corroida da lepra, resta-me a quinta de Ruivães. Eu sei que a fome não iria lá bater-me ás portas, sei que ainda tenho de meu o talher na sua mesa, meu tio, mas Affonso de Teive antes de estender a mão á piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia n'um d'estes comoros de terra, onde os sepultados não tem nome. Minha mãe pediu-me que não vendesse a casa onde está o jazigo de meus avós. Os meus avós são os de meu tio Fernão de Teive. Aqui venho eu offerecer-lhe a minha quinta. Compre-m'a, meu tio, que a vontade de minha mãe está cumprida. Lá fica Mafalda, o anjo, para ajoelhar diante d'aquellas lapides sagradas. Compre-m'a, senão eu, de mãos postas, pedirei a minha mãe que perdoe ao reprobo, que lhe vendeu os ossos, na vespera do dia da fome. Seu sobrinho Affonso.»

Fernão, lida a carta, em presença de Mafalda, abriu os braços á filha, que parecia finar-se n'elles. Das ancias e lagrimas sahiu ella com uns gritos afflictissimos, pedindo ao pae que valesse a Affonso, sem demora. Fernão, carecedor de ser consolado da desgraça do sobrinho, tinha de aquietar o alvoroço da filha, promettendo e cumprindo logo tudo que fosse da vontade d'ella, que era tambem um dever d'elle a cumprir já com o parente, já com a memoria de sua irmã. Foi instantaneo o contentamento de Mafalda.

—E depois?—exclamava ella—E depois, meu pae, em se lhe acabando o dinheiro da quinta, quem lhe acudirá?

—Nós—respondeu de alegre aspeito o pae.

—Nós?—tornou ella entre alegre e amargurada—mas não vê o que elle diz?...

—Que diz elle, creança, que diz elle? Lê-me tu o que elle diz...

—Olhe, meu pae... Affonso de Teive antes de estender a mão á piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia num d'estes comoros de terra onde os sepultados não tem nome. O pae entende isto muito bem...

—Entendo; mas não me assusto. A gente ha-de pensar: primeiro, o essencial, é mandar-lhe o dinheiro, e dizer-lhe que os tumulos de Ruivães, e as casas, e as terras são d'elle, como até aqui.

—E aceitará?—replicou Mafalda—Tomará elle a dadiva como esmola?

—Ó mulher!—retorquiu o velho—tu estás uma argumentadora dos meus peccados!... E o mais é que lembras com juizo essa especie!... O doudo é capaz de rejeitar, se eu dou dinheiro e quinta! Pois bem: diga-se-lhe que eu compro a quinta, e mande-se-lhe os quinze mil cruzados, que é o valor da cousa. Vou ámanhã ao Porto. O dinheiro está ahi. Fico sendo o proprietario de tres quintas de Affonso. Cá te ficam, menina. Tu, depois, a teimares no proposito de morrer solteira, dá-lh'as, se elle viver. Que mais quer a minha filha?

Mafalda ajoelhou a beijar-lhe as mãos. Ergueu-a o pae com muita ternura, enxugou-lhe as lagrimas no lenço em que embebia as d'elle, e disse, sofreando os soluços:

—Que esperas tu d'este rapaz, Mafalda? Quando virá Deus em auxilio d'esse tão fraco e desventurado coração? Filha... estima-o; mas não o ames assim com esse amor que te devora a mocidade! Que vinte e quatro annos os teus tão desconsolados e estranhos ás menores alegrias de tua idade!... E tu não cahes em ti, filha, não vês que Affonso está cada vez mais longe de te avaliar!?

—Sei, meu pae—respondeu Mafalda com serenidade.

—E então?... sabes, e não te vences...

—Não posso vencer-me, Deus sabe que lhe tenho pedido auxilio, e nem assim...—As lagrimas saltaram-lhe novamente, e logo os arquejos do peito, ancioso de ar.

—Pois bem, meu amor—tornou o pae, duplicando as meiguices— Eu absolvo a tua fraqueza, já que o Altissimo te não fortalece. Quem sabe, filha, quem sabe os segredos do porvir? Ha milagres mais assombrosos. Póde ser que elle ainda venha para ti com o coração purificado, e o tributo da mocidade avaramente pago. Mais bom marido será então. Que te diz lá no intimo a voz do teu anjo? Serei propheta, minha filha, serei?

Mafalda sorriu-se, e murmurou:

—E não podia ser assim, meu pae?! Ás vezes, sonho-o; tenho horas em que me julgo louca, no meu contentamento sem causa, sem esperança!... Tres cartas recebi d'elle em oito mezes, e que frias expressões! Quando eu o considerava esquecido, por amor d'aquella creatura, é que elle me escrevia mais amoravel; agora, que é livre, e de mais a mais infeliz, parece que nem se quer me estima! E, ainda assim, meu pae, eu tenho presagios, em meu coração, alegres como a sua prophecia.

—Pois então pede a Deus que me dê vida para que eu os veja realisados... mas, filha, a realisação da prophecia, se vier, já me não achará vivo...