Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 19 de 26

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Amor de Salvação

Capítulo XVII

Encerrou-se Affonso por espaço de oito dias, inconsolavel aos afagos de Palmyra. Os amigos, seus socios de vida viciosa e soberba de sua culpa, e contubernaes logrativos das dissipações, enfureciam-lhe o tormento do remorso. Furtava-se á vista d'elles, fechando-se, quando vinham, com o semblante composto de falso compadecimento, lembrar ao amigo, em lucto de oito dias, que um homem de razão clara tinha obrigação de ser superior a soffrimentos communs e naturalissimos, taes como a morte de uma mãe. Palmyra ia ao salão receber os pezames, e combinava-se com os cavalheiros admirados da pusillanimidade de Affonso. «Eu soffro muito—dizia ella a D. José de Noronha alquebrando o rosto em desconfortada pena—ao vêr que a minha solicitude consoladora nada póde com Affonso. O coração da mulher, que renunciou á satisfação do dever, e se immolou aos caprichos transitorios d'um homem, deve tambem renunciar o poderio de desviar d'uma sepultura os olhos d'elle. Assim se é castigada, quando se é culpada como eu.» A taes razões, proferidas com os olhos no tecto, respondia D. José de Noronha:—Eu hei-de acreditar que Affonso deixou de amar apaixonadamente v. exc.ª, quando elle se confessar um monstro, e a honra fôr banida d'este mundo. Eu só comprehendo o esquecimento da honra, quando é preciso sacrifical-a a uma senhora como v. exc.ª Ainda bem que ha uma só, para se não abjurarem os deveres sociaes.—Ora, o estylo de Affonso— digamol-o de corrida—era muito mais lhano e correntio.

O filho de Eulalia, passado o primeiro mez de lucto, disse com suaves maneiras a Palmyra que o seu animo estava passando por estranho reviramento, no tocante a prazeres falsos do mundo;—que resolvia diminuir as suas relações e as suas superfluidades;—que tencionava occupar algumas horas na leitura, em que felizmente Palmyra o acompanharia, revivendo a sua esquecida affeição aos livros;—que aceitava como inspiração de sua santa mãe o desapegar-se de regalos vãos, deleites de mera vaidade, que perdem seu sabor ainda antes de se acabarem: finalmente, concluiu Affonso: «Vivamos como amantes que dispensam serem admirados para serem venturosos.»

Palmyra sorriu, e disse:

—Bem sei... bem sei, Affonso.

—Que sabes tu? perguntou brandamente o moço—Diz o que sabes, minha amiga.

—Comprehendo a mola occulta do teu novo programma de vida... É o cansaço... Já me chamas tua amiga. A mulher, que ama, quando lhe dão tal nome, sabe que é cousa de pouca monta para quem lh'o dá. Falla-me claro: sentes o entojo de impressões novas? As cartas de tua prima é que levantaram em teu espirito essas poeiras de tardia virtude? Nada de refólhos, Affonso. A minha opinião é que nenhum de nós se constranja. As pêas, impostas mesmo pelo dever, são um infortunio muito meu conhecido. Fazes-me pena, se o experimentas. Amas tua prima, Affonso?

—Não amo minha prima—respondeu serena e pacientemente o moço—Se amasse Mafalda, de certo não estaria ao lado de Palmyra. Estimo-a como irmão; respeito-a religiosamente hoje, por saber que o ultimo alento de minha mãe o recebeu ella nos labios... Porém, que tens tu com minha prima? Que injustas referencias são essas que continuamente lhe estás apontando? Que mal te fez a triste menina, que vive e morrerá sem outro prazer senão o da sua virtude mal remunerada n'este mundo?...

—Virtude!...—interrompeu Palmyra franzindo os labios no sorriso da ironia injuriosa—Sempre a virtude de tua prima em campo para contrastar naturalmente os meus vicios!... Pouquissima generosidade é a tua Affonso!... Terei eu de ouvir ainda de tua bocca o libello e a condemnação das minhas culpas?! Póde ser, póde ser, e eu, envelhecida pela experiencia de poucas semanas, não terei de que espantar-me.

—Offendem-me as tuas injustiças—redarguiu Affonso soffreando a impaciencia—Que direito te dou para tanto?

—Direito? queres, por acaso, dizer-me que estou em tua casa?!

—Essa pergunta é aviltante, Palmyra!... Onde está a tua intelligencia, a tua critica, e propriamente a tua vaidade?—redarguiu Affonso de Teive—Desconheço-te, estás a descer sem impulso estranho...

—A descer da tua consideração?—acudiu ella resabiada.

—Quem o duvída? A mulher de alma nunca faz semelhantes perguntas a um homem como Affonso de Teive. Queria eu dizer que não te dava direito, ou causa a offender-me.

—Bem!—tornou ella amaciada a voz com falso accordo—Aceito a explicação. Perdôemo-nos reciprocamente, e sejamos... sejamos... amigos, sim?

—Como tu feriste ironicamente a palavra amigos!...

—É que me não tôa bem nos ouvidos do coração—replicou Palmyra risonha, chegando a face aos labios do moço, que a beijaram friamente.

—Em quanto ao teu novo traçado de vida—volveu ella—queres que se cumpra, em rigor, como está ordenado, sim?

—Ordenado, não é o termo proprio—Consulto-te, expuz em breve as minhas razões; mas se te despraz...

—Apraz-me tudo que te contenta, meu Affonso. De hoje em diante reformam-se os nossos costumes. Vendem-se os trens? trespassa-se o camarote? vamos habitar uma casa modesta... Queres, Affonso? Tambem eu.

Não escapou a Affonso o tom ironico de taes perguntas. Cahiu em si de repente, e viu-se em começos de castigo. Apagaram-se muitas luzes do altar em que elle tinha o bello barro idolatrado. Fugiram-lhe para sobre o tumulo de sua mãe os olhos d'alma, e viram Mafalda de joelhos na lagem da capella com a face apoiada no marmore do jazigo. As luzes restantes do altar ficaram para lhe amostrar o odioso da mulher de Eleuterio.

Ás perguntas retrincadas não respondeu Affonso... Ergueu-se, e sahiu do seu quarto. Refugiou-se no mais recondito do palacio, para chorar a salvo do opprobrioso sorriso de Palmyra. Depois, voltou ao seu escriptorio, e escreveu a Mafalda esta carta, significativa de mudança temporaria, senão fundamental, em seu espirito:

«Prima Mafalda. Vai ao pé do tumulo de minha mãe, e repete-lhe as palavras d'esta carta. A justiça de Deus esmaga-me. Sou eu que vergo debaixo do fardo de affronta que levantei da lama com minhas proprias mãos. O arrependimento dos desvarios da mocidade não costuma atalhar tão cedo a carreira dos grandes desgraçados. Fere-me Deus tão cedo! é por que me quer desatar d'este jugo de infamia. Auxiliem-me as orações de minha mãe, que eu sou fraco. Venham golpes de desengano, bem pungentes, para que se faça o dia da razão em minha vida. A aurora d'este dia já aponta; mas o meu coração ainda está envolvido em trevas, e cheio de amargura. Santas devem ser as tuas orações, Mafalda. Eu dobro o joelho ante a memoria de nossa mãe, ouso invocar a sua intercessão no céo; sei que a alma bemaventurada não repelle o mau filho que a crucificou nos ultimos annos, quando me ella pedia seio onde encostar as suas cans. Mafalda, anjo solitario, que vês com os olhos puros as estrellas da nossa infancia, ora por mim, dá-me a tua piedade, que nenhuma outra me dá este mundo. Escreve-me, diz ao teu veneravel pae que me escreva. Lembra-lhe os pardieiros das Taipas... Diz-lhe que o neto de Christovão de Teive sente já no coração o corroer das ulceras que carcomeram a pelle do emparedado. Amai-me ambos, defendei-me de mim proprio, que o esteio da religião não póde com o peso de meus desatinos. Teu primo, Affonso.»

Mandou Affonso lançar a carta na caixa postal. Um quarto de hora depois, entrava Palmyra, fremente de raiva, com a carta aberta, exclamando:

—Isto é uma grande miseria, e uma grande infamia, snr. Affonso de Teive! A minha dignidade vem pedir que esta affrontosa carta seja reformada.

Affonso lançou mão da carta, e recuou horrorisado da villania de Palmyra. Seccou-se-lhe a garganta e labios ao queimar d'um halito de colera que lhe calcinava o peito. Não pôde fallar. Sahiu do quarto, chamando a brados o criado a quem incumbira a remessa da carta. Já não era criado de Affonso o miseravel que vendera o sigillo de seu amo pelo ouro d'elle mesmo: fugira bem remunerado. No entanto Palmyra esbravejava de sala em sala, soltando gritos pavorosos. Affonso, congestionadas as fontes de sangue, e o coração em arrancos no peito, fincava os dedos nas carnes da face, tapando os ouvidos para não ouvir os clamores da mulher cuja furia recrescia á proporção do desprezo com que os proprios criados lh'a escutavam.

Affonso de Teive sahiu aforrado como quem foge; foi lançar a carta por sua mão; divagou horas no mais desfrequentado dos arvoredos do Campo Grande. Ahi sentiu orvalhos do céo esfriar-lhe o afôgo da febre. Olhou ao céo com mãos erguidas, e disse: «oh minha mãe!» Ao cahir da noite, voltou a casa, e viu no pateo o gig de D. José de Noronha. O seu lacaio particular, antigo criado de sua mãe, acercou-se cautelosamente d'elle, e disse-lhe:

—Fidalgo, não se afflija... Tenha animo, fidalgo, e não deixe fazer o ninho atraz da orelha.

O chulo da phrase offendeu-o, e a intenção mysteriosa ainda mais.

—Que queres dizer, animal?—perguntou Affonso.

O criado coçou-se fechando os olhos, e respondeu:

—Lá em cima está o snr. D. José de Noronha.

—Que tem isso? não o tens aqui visto tantas vezes? Responde.

—Tenho, tenho, e Deus sabe se cá por dentro me não tem dado guinadas de lhe partir na cabeça o gig.

—Por que? Vem cá... Entra n'esta loja commigo... Falla claro!— dizia Affonso com suffocativa vehemencia—Que desconfias tu de D. José?

—Desconfio, fidalgo, que a snr.ª D. Palmyra não é fiel a v. exc.ª

—Mentes! mentes!—bradou Affonso—Prova-m'o, senão mato-te.

—Não ha-de matar, se Deus quizer, senhor morgado—volveu tranquillamente o Tranqueira, nome que merece lembrado.—Faz favor de tomar ar, e ouvir com socego. Estes negocios não vão assim de afogadilho. Dê tempo ao tempo.

—Não é tempo ao tempo, é já, já, immediatamente. Diz o que sabes, Tranqueira, que se me fende a cabeça.

—Fidalgo, ahi vai o que sei. O criado que fugiu esta manhã, sem que eu lhe podesse pôr os dez mandamentos, foi cá mettido pelo lacaio da senhora, e era lá muito collaço d'ella. Uns dias por outros, pisgava-se do serviço o rapaz, e andava por lá quatro horas. Antes de hontem, tirei-me dos meus cuidados, e fui-lhe na pista muito á socapa. Levei-o d'olho até á rua de Santa Barbora, e lá esgueirou-se-me. Querem vossês vêr que o diabo as arranja? disse eu cá c'os meus botões. Estará elle mettido em casa do D. José de Noronha? Meu dito meu feito! D'ahi a menos de tres credos sahia o malandro de casa do tal supplicante, e vinha anda que anda por alli fóra. Sahi-lhe eu d'uma travessa, e disse: «Tu d'onde vens, Antonio?» O patife engasgou-se, e nem p'ra traz nem p'ra diante. Tate! disse eu, aqui ha tratantada. Se elle fosse a cousa boa dizia-o. Puz-me a considerar no que havia de fazer. Eu se lhe digo que o vi sahir de casa de D. José, espanto a caça, e fico por mentiroso, dizendo o que vi a meu amo! Que hei-de eu fazer? Embucho o que sei; tomo á minha conta espreitar a ama...—a ama! que a leve o diabo, que quem me paga é o fidalgo!—espreito e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negocio, e meu amo dá cabo d'este ladrão que o veio deshonrar a sua casa.

Affonso, além da voz do Tranqueira, ouvia um zunido e fisgadas dentro do craneo, como se lá se contorcesse e mordesse o cerebro um enxame de vespas.

O criado continuou:

—Antes de hontem á noite appareceu aqui o D. José. Fui em palmilhas atraz d'elle. Vi-o entrar na sala do tapete azul, e retirei-me assim que vi v. exc.ª entrar tambem com a senhora. Desde então não tornou cá senão agora; mas como lá está com elle outro amigo, acho que não tem duvida, e por isso vim para aqui esperar o fidalgo. Aqui está o que eu sei, meu amo. Bote lá as suas contas, e deixe-me dar uma carga de lenha ao tal menino, se fôr preciso.

Affonso poz a mão direita sobre o hombro do Tranqueira, e disse:

—Obrigado, teu amo agradece-te os cuidados que tens com a sua honra. Recommendo-te que não digas uma palavra a tal respeito. Ouves, Tranqueira?

—Então isto fica em agua de bacalhau?—perguntou o criado, abrindo e fechando as mãos.

—Já disse: nem uma palavra. Os teus cuidados agora passam para mim.

—Bem me fio eu n'isso!—murmurou o lacaio na ausencia do amo.

Affonso entrou no seu quarto; viu-se a um espelho: esperou que o rubor da excitação se descorasse, compoz o semblante, e passou á sala onde estavam Palmyra, D. José de Noronha, e um particular amigo d'este.

Palmyra, no sophá, tinha os braços em cruz sobre o seio, e a face inclinada sobre elles. D. José de Noronha folheava sobre a jardineira as Mulheres de Walter-Scott. O amigo estava sentado na poltrona contigua ao sophá. Cortejou Affonso os dous cavalheiros, depois de estender a mão a Palmyra, com tão demasiada ceremonia, que lhe não roçou as pontas dos dedos. Esta acção, depois da lucta da manhã, pareceu naturalissima á esposa de Eleuterio. Depois, achegou-se serenamente de D. José, observou a Flora Mac-Ivor do romancista escocez, concordou com D. José na primazia da gentileza d'esta heroina, disse poucas mais palavras, e pediu licença para recolher-se, obrigado por uma fortissima enxaqueca. Tudo isto com um natural irreprehensivel.

Entrou Affonso no gabinete de Palmyra. Havia alli uma secretária de mogno, com espelhos, cravejada de gavetinhas moldadas pelo feitio dos antigos contadores. Tiradas as gavetas da primeira serie, encontravam-se uns falsos de segredo, conhecido d'elle, que fôra o primeiro possuidor da engenhosa alfaia. Instigado pela suspeita, tirou Affonso pelos botões da gaveta central: estava fechada, e as duas lateraes abertas. Concluiu que a do meio segredava uma revelação. Procurou um ferro geitoso com que fazer saltar a fechadura: serviu-lhe a ponta d'um punhal. Cedeu a fragil lingueta, estalando. Tirou Affonso a gaveta, que continha joias: levou o dedo ao imperceptivel botão que abria o falso, e tirou dous macetes de cartas, e uma solta. Abriu esta, e leu as primeiras linhas. Uma sombra de duvida seria estupidez maxima. Dizia: É preciso cuidado com o lacaio de A. Encarou-me hontem de certa maneira... Emprega o nosso Antonio na espionagem d'alguma suspeita. Amanhã vai commigo o D. A. M. se fôr propicia a occasião elle sahirá a tempo. &c.

Passou Affonso ao seu quarto para deliberar meditando. Que lance para meditações! D'ahi a pouco ouviu o rugir das sêdas de Palmyra. Lançou-se apressado sobre o leito, com a fronte entre as mãos.

—Estás melhor?—disse ella maviosamente.

—Não.

—Cuidei que estarias deitado. Que has-de tomar, meu filho?— Volveu ella, inclinando-se ao rosto de Affonso—Que tomas de ceia?

—Nada.

—Estás ainda muito irado contra mim?—replicou ameigando-o.

—Deixa-me, que me custa fallar. Vai á sala, se está lá gente.

—Irei, se de nada te sirvo aqui, e de mais a mais te importuno. Ainda lá estão aquelles maçadores... Logo voltarei a saber de ti.