Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 21 de 26

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Amor de Salvação

Capítulo XIX

«No dia seguinte, mandei de Cintra o criado a casa, informar-se dos successos decorridos... Quererias tu... agora penso que tu desejas saber como foi aquella minha noite... Passei-a na ida para Cintra. Quer-me parecer que parte de minhas faculdades moraes ia atrophiada. Volteavam em redor de minha intelligencia uns corpos, ora negros como o recesso dos abysmos, ora igneos como as fitas dos coriscos. Nem a memoria de minha mãe se mesclava ao revolutear das minhas concepções desconcertadas. Era a febre, a procella do sangue encapellada na cabeça. O criado teve o instincto de comprehender-me. Raras palavras me disse com resposta. Algumas vezes senti-me aferrado pelo seu braço; era quando eu ia despenhar-me do cavallo, sem dar tento da vertigem.

Contava-me elle depois que eu, a intervallos longos, expedia gritos que lhe eriçavam os cabellos, e vociferava insultos, esporeando freneticamente o cavallo.

Aqui tens a minha noite: não tenho outras memorias. Apenas me recordo que aos primeiros assomos da manhã se romperam os diques das lagrimas, e chorei por muito tempo.

O criado partiu de Cintra com ordem de colher noticias. Voltou, entregando-me um papel aberto, que o escudeiro lhe dera, escripto por Palmyra. Era uma declaração de divida indeterminada, ou que havia de fixar-se pela avaliação dos objectos de seu uso, que ella, ao sahir de minha casa, levava comsigo. Deviam ser vestidos e joias. Palmyra, por tanto, havia sahido na manhã d'aquelle dia.

Ao entardecer, quando a tristeza cahia do céo, como um lucto de almas não já desditosas, mas ainda arraiadas do iris da esperança, confrangeram-se-me em dôr ineffavel as fibras do coração, dôr de saudade voracissima, saudade de Palmyra, desejo ardente de vêl-a não sei se para cahir-lhe de joelhos aos pés, se para escarrar-lhe no rosto. Nenhum allivio pedido a todas as potencias de minha imaginação, pedido a Deus, e ao amor de minha mãe, nenhum conforto experimentei. Era a desesperação, que pensa no suicidio. Deitei-me, confiado na esperança de cahir em lethargia de sentidos. Revolvi-me sobre espinhos em incendio febril. Se algum instante o sopor me desfallecia, pulava-me o coração com tamanho impeto que eu espertava convulso, atirando-me do leito contra a janella, em agonias de estrangulado. O maximo horror das minhas visões era ella, nos braços d'aquelle miseravel, áquella hora. As minimas circumstancias d'um espectaculo de devassidão, as mais secretas, e lubricas minudencias se me traçavam patentes a uma claridade infernal. A oração, esse divino desabafo de enormes afflicções, nem esse bem me valia um relampago de socego á alma. Começava orando, a anciedade recrescia, a fé desamparava-me, e então sobrevinha o desprezo de Deus, a negação da Providencia, e um feroz deleite de blasphemar. Eu amava a mulher abysmada, a mulher prostituida! Eu, santo Deus, com instinctos tão nobres, educação tão religiosa, e respeitos tão profundos á dignidade! Pensava-o eu assim; dava-me eu então os epithetos usurpados á honra!... Eu que me infatuára perante o mundo de acorrentar á minha vaidade a mulher formosa, em cuja fronte a moral escrevera um estigma, que eu cobria de brilhantes e flôres, cuidando que a sociedade havia de respeital-a assim, e humilhar-se diante da minha affrontadora opulencia! Eu, verme esmagado, ousar pedir contas a Deus da iniquidade do seu arbitrio, e renegal-o como ente inutil ao remedio da minha desgraça!...

«Mal me entreluziu a manhã, fiz apparelhar os cavallos, e voltei para Lisboa sem proposito feito. Durante a caminhada, o meu velho Tranqueira, em quanto as cavalgaduras se desfadigavam, acercou-se de mim com os olhos envidrados de lagrimas, e disse a medo: «Meu amo, vamos embora de Lisboa; vamos para a nossa terra, que Deus e a Virgem Maria dará remedio.» Não respondi; mas pensei. A quietação da minha aldêa convidava-me; porém, entrando em espirito no interior da minha casa de Ruivães, ouvia com pavor o som dos meus passos n'aquellas salas desertas: faltava-me minha mãe alli: o anjo consolador fugira antes do meu resgate. Acudia-me á lembrança a minha triste Mafalda, a irmã terna, a meiguice da virgem compadecida; porém o meu coração, a porejar o esqualor da sua hedionda chaga, rejeitava os balsamos d'um affecto purificador.

«O tumulto das grandes cidades, com o seu engodo, attrahente da desordem da vida, quadrava mais á minha alma sedenta de não sei que filtros de lagrimas e sangue. Estava traçado o meu plano, quando cheguei a Lisboa. Qualquer resolução sacode o mais paralysado espirito. Senti-me forte para entrar em minha casa. Fui ao gabinete de Palmyra, e abri as suas gavetas despejadas de todas as cousas d'algum valor. A minha razão logrou um momento de lucidez: afigurou-se-me rasteira a indole de uma mulher, que, em conflicto de tamanha vergonha, tivera animo para se andar por suas proprias mãos enfardando vestidos e enfeites, no intento de vestir as galas seductoras de amantes novos. Refugi como envilecido dos aposentos de Palmyra. Fui ao meu quarto. Fiz encaixotar as minhas roupas. Guardei a correspondencia de minha mãe e de Mafalda. Queimei os restantes papeis, excepto as cartas de Theodora das Ursulinas. Por quê? Nem eu sei. Queria aquellas memorias da creança que então morrera...

—«Chamei os criados, e despedi-os. Mandei fechar as portas ao meu Tranqueira, e, n'esse mesmo dia, expedi ordens para a venda de carruagens, cavallos, e mobilia. Alguns amigos conseguiram rastrear a minha residencia obscura n'um hotel inglez em Buenos-Ayres.

«Procuraram-me, e eu não os recebi. A minha vaidade envergonhava-se d'elles. Nem a despedaçadora curiosidade de saber o destino de Palmyra pôde vencer o orgulho escarnecido.

«No fim de nove dias, recebi carta de Mafalda, respondendo á minha. Eil-a aqui: «Ambos te queremos do coração, Affonso. Meu pae não diz a teu respeito palavra de censura: chama-te infeliz, e mais nada. Quando tua mãe dizia em ancias: «perdi meu filho!» o meu bom pae ajuntava sempre: «elle virá, minha irmã, que a sua indole é boa.» Mostrei-lhe a tua carta, e vi-o chorar; pedi-lhe que te escrevesse, e elle disse-me: «escreve-lhe tu, com a benção de teu pae; diz-lhe que o amas sempre: eu dou-lhe o amor da minha Mafalda, consinto que ella o ame; é o mais que posso dar-lhe.» Estas palavras escrevo-t'as por sua ordem, e desconfio que são inuteis para a tua felicidade. Ainda assim, em quereres a nossa amizade, primo Affonso, nos dás grande satisfação.

«Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada mãe. Se te mortifica o pezar de não ter vindo assistir-lhe á morte, tranquillise-te a certeza de que ella te perdoou. Bem sabes que santinha e que mãe ella era. Eu fui lêr á beira da sua sepultura a tua carta. Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levantei-me de ao pé d'ella tão desopprimida e satisfeita que tomei por instincto do céo a minha alegria. Póde ser que esta carta vá encontrar-te no gozo do allivio que eu senti então.

«Bom seria, meu primo, que tu mandasses cuidar um pouco nos negocios da tua casa. Meu pae faz o que póde, e dirige o teu procurador; mas receia de não zelar os teus interesses como queria por falta de saude, e pela distancia em que vivemos de Ruivães.

«Adeus, meu querido irmão. Cuida em ser feliz, e lembra-te com amizade da tua Mafalda.»

«Respondi logo a esta carta, participando a minha prima que ia sahir para Pariz, no proposito de assentar alli a minha residencia. Expressões affectuosas escassamente lhe disse as vulgares, as necessarias á formalidade de relações entre primos que se estimam. É que eu via em mim o aviltado homem que estava sendo, e de Mafalda mesmo tinha eu um certo pejo, vaidade ainda, a vaidade do homem que se julga desapreciado aos olhos de uma mulher, que o vê rejeitado d'outra, embora villissima, embora repulsada da sociedade de mulheres aptas para honestamente avaliarem o merecimento do homem desprezado. Eu não queria nem podia, coberto de infamia por Palmyra, ir acolher-me ao amor de Mafalda. E depois, e sobre tudo, meu amigo, bem que eu quizesse, não poderia amal-a então como a teria amado quinze dias antes, insuspeitoso da lealdade de Palmyra. Sabem os experimentados, poderás tu sabel-o, que é uma excepção d'almas futeis a passagem rapida d'uma affeição a outra, quando nos pesa o opprobrio d'uma perfidia. O coração está lanhado, a fronte não ousa erguer-se para a mulher do amor de salvação, a dignidade geme sob um peso de vilipendio, que cuidamos lêr nos olhares affrontadores de todo o mundo, olhares que por vezes exprimem compaixão. Mas o que é em casos taes a piedade, senão injuria?!

«Escrevi ao meu procurador ordenando-lhe a venda de todas as minhas propriedades, salvando a casa e quinta de Ruivães. Na volta do correio, avisou-me elle de que havia comprador prompto; e, poucos dias depois, recebi ordens de pagamento de trinta mil cruzados. Com estas ordens, vinha carta de meu tio Fernão de Teive. Dizia assim: «Tua prima está enferma, por isso não te escreve; e eu tambem adoentado e tristonho mal posso escrever-te. Recebemos a nova da tua mudança para Paris. Vai com Deus, Affonso. Póde ser que a tua felicidade lá esteja. Folgo de te vêr ir desligado da personagem que, segundo me dizem, foi a final o que era rigoroso que fosse. Diante da mulher perdida todos os homens são iguaes. Quereres tu o privilegio que o marido não teve, seria um absurdo do teu orgulho. Theodora está em Braga promovendo o divorcio a fim de levantar-se com o seu patrimonio. O Eleuterio, por intervenção de um meu compadre, quiz que eu entrasse como ouvinte e conselheiro em suas cousas. Aceitei o convite como quem tem pouco que fazer, e passa as suas horas na cama a agasalhar a gôta. Sou o depositario do borrador das cartas que ella te escrevia, seductoras em verdade, e dignas de irem á estampa. Onde foi esta mulher aprender tanta palavra?! Estou em dizer que anda aqui muito amor de diccionario; e os successos posteriores levam-me a crêr que era ainda peor o amor da creatura. Aqui estou eu a fallar comtigo á laia de rapaz! e o caso é que a dôr do calcanhar esquerdo espalhou.

«O teu procurador avisa-me que vendeu as tuas quintas de Leiroz e Gestal. Para te não dizer cousas tristes, e evitar que torne a dôr do calcanhar, ponho aqui ponto. Mas sempre te direi, como irmão de tua mãe, e teu amigo devéras, que, exhaurido o teu patrimonio, tens a minha casa. Se eu morrer—e ainda bem!—antes d'esse dia (dia, talvez, inevitavel!) deixarei dito a Mafalda que seja sempre o que tua mãe e eu fomos para ti: o coração devotado sem condições. Adeus. Quando tiveres vagar, escreve-nos de Paris—Teu tio F. de Teive.»

«Alegrou-me a nova da ausencia de Palmyra de Lisboa. O dragão do ciume desencravou-me as garras do peito. Que estupida alegria! A suspensão da perfidia que importava ao desaggravo do meu orgulho? Quão lastimaveis e ridiculos somos, se uma vez perdemos o norte da legitima, da decente probidade! Nenhum liame da sã moral resiste ao cancro do coração. Até o regenerarmo-nos tem para nós um certo ar de baixeza de animo, scena de comedia que faz rir o mundo.

«E eu, ancioso de um mundo novo, fui para França. Que cuidas tu que eu ia procurar em França?

—O methodo mais facil de gastar os trinta mil cruzados—respondi eu.

—Não me lembravam os trinta mil cruzados: ia procurar uma mulher; ia procurar o amor de salvação.

—E encontraste-o em França?

—Encontrei.

—Vejamos.