Artefatos digitais para mobilização da sociedade civil: perspectivas para avanço da democracia

Dos vinte réis aos vinte centavos: o papel das redes sociais e movimentos coletivos no Brasil

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Do ponto de vista da ideologia que move esses manifestantes, Gohn (2013) entende que “[…] não há hegemonia de apenas uma ideologia”, sendo as fontes a esquerda, o anarquismo e o socialismo libertário, a autogestão, como também “[…] um novo humanismo na ação de alguns, expresso em visões holísticas e comunitárias, que critica a sociedade de consumo, o egoísmo, a violência cotidiana”.

A autora ainda identifica que uma das questões “profundas” que está na agenda dessas manifestações se refere à “discussão da democracia”, elaborando que enquanto a “[…] democracia representativa está em crise” e a democracia direta é viável apenas em pequenos grupos, emerge a democracia deliberativa, mas que onde tem ocorrido “[…] padece de arranjos clientelísticos”. Assim, em seu entender, as manifestações expressam a busca por “[…] novas formas de organização política, nos marcos da democracia”, mas que ainda não está clara. A autora ainda relembra que “[…] a luta pelos transportes públicos é histórica” (GOHN, 2013) relembrando a Revolta do Vintém em 1880 no Rio de Janeiro, a ser considerada na sequencia deste artigo, bem como lutas pelo transporte no final dos anos 1970 em várias cidades brasileiras.

Fazendo uma síntese apertada dessas contribuições teóricas, talvez possa se identificar dois grupos bem definidos. O primeiro situa as manifestações em críticas ao capitalismo, ao neoliberalismo, à ordem mundial hegemônica, ainda que, vez ou outra, salpicando com alguns elementos da conjuntura do País. O segundo grupo, ainda que também faça referências a um quadro mais geral, e até internacional, situa a origem e motivação das manifestações mais em problemas da estrutura do País, da trajetória histórica do Brasil, e com ênfase na conjuntura, principalmente a gerada a partir dos governos do PT no plano federal com opções de política e de políticas públicas feitas pelos ocupantes do poder federal.

 

Os protestos de junho/13

 

Muito do que foram as manifestações já foi apresentado acima, mas, acredita-se, que um passo necessário para entender estas manifestações coletivas demanda caracterizar seus participantes. Para tanto, recorremos à Pesquisa IBOPE realizada em 20 de junho de 2013 em oito capitais com 2002 entrevistados, que encontrou os seguintes resultados pesquisa realizada quando os movimentos já tinham sido encorpados, ou seja, não capta as primeiras manifestações:

 

Idade: 14 a 24 anos: 43%.

Escolaridade: Superior: 43%; até o colegial incompleto: 8% Trabalha: sim,: 76%; Estuda atualmente: 52%. Renda familiar: até 2 Salários Mínimos (SM): 15%; Mais de 5 SM: 49%

 

Essa bateria de dados permite observar que as manifestações contaram fundamentalmente com um público jovem, com formação educacional elevada, formada em grande parte por estudantes, mas também trabalhadores. E o perfil de renda para os padrões brasileiros é relativamente alto.

 

Razões para participar: transporte público: 37,6%; ambiente político: 29,9%; saúde: 12,1%; contra a PEC37: 5,5%; educação: 5,3%, Gastos com as copas: 4,5%, Luta contra o capitalismo: 0,1%; Aumento de salários: 0,2%

Essa bateria de dados, por sua vez, mostra que a motivação básica para participar reside na questão do aumento da passagem do transporte público. Mas não é nada desprezível que a insatisfação com o ambiente político venha logo em segundo lugar. Ao se somar essas duas queixas, atinge-se um total de 67,5%, o que mostra que ao lado de uma motivação bem focada alinha-se uma de caráter mais difuso com o quadro político do País. Nota-se também que a insatisfação com serviços públicos consubstanciados em Saúde e Educação, responsabilidade do Estado, atinge 17,4%. Ainda vale mencionar a presença no pacote de insatisfações os gastos com a Copa e uma menção a PEC 37. Cabe, ainda, notar que as demais são irrelevantes do ponto de vista quantitativo, mas eram normalmente ponto de agenda obrigatório dos movimentos mais tradicionais, expresso pela luta por salários e contra o capitalismo. Tudo isso leva a confirmar que se estava frente a um novo tipo de movimento bem como de participantes, como já registrado várias vezes.

 

Participações anteriores: já: 54%; 1ª vez: 46% Como soube: face 62%; internet 29%; amigos e colegas 28%; TV 14%; jornais 4%, rádio 4%, base do movimento: 3%

 

Essa bateria de dados mostra que uma parte significativa dos manifestantes, praticamente a metade, era neófito em termos de participação em eventos deste tipo. Por outro lado, a forma de conhecimento da realização das manifestações, predominando o Facebook e a internet, convergem com o dado da participação predominante de jovens.

 

Se sente representado por algum político: Não 83%; por algum partido: Não 89%.

 

Esse dado mostra claramente o que já foi revelado acima sobre a crítica ao ambiente político, ao expressar que partidos e políticos eleitos não representam majoritariamente os cidadãos, mostrando a falência do sistema político.

Uma conclusão possível a ser extraída é que foi um movimento de jovens, uma boa parte de estudantes, muitos já com nível superior, um movimento fundamentalmente de classe média, mas não só, e de caráter apartidário. Vale reforçar que sendo esta pesquisa realizada no dia 20 de junho, após manifestações anteriores, esta última e as seguintes já devem ter capturado um público que ia além do protesto contra o aumento das passagens.

 

Movimento Fora Sarney

 

Nesta seção, vamos examinar o Movimento Fora Sarney (FS), levado a cabo em várias capitais no Brasil ao longo de 2009, detendo-nos no caso de Salvador, escolhido por facilidade de acesso e possibilidade de acompanhamento constante.

Antes de proceder a análise do estudo de caso, vale notar que a expressão #forasarney foi usada pela primeira vez em 17 de junho de 2009 pelo humorista e apresentador de TV Rafinha Bastos. Sua motivação foi a série de denúncias de irregularidades no Senado brasileiro alavancada pelos atos secretos, sendo um dos maiores beneficiados por eles o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). Em 29 de junho, coordenado com um evento contra Sarney na capital de seu estado de origem (São Luís, no Maranhão), o volume de mensagens que continham a hashtag #forasarney superou a marca de 10 mil mensagens por hora, de modo que a página chegou a ficar fora do ar pelo excesso de mensagens. Em 30 de junho e 1º de julho, foram marcadas manifestações públicas em várias grandes cidades brasileiras que, apesar do apoio de celebridades e de partidos de esquerda, reuniram poucas pessoas e, em Florianópolis e Porto Alegre, nenhuma. (FORASARNEI, 2009) Os protestos realizados em 01/julho/2009 em São Paulo reuniram 70 pessoas na Avenida Paulista, em Campinas apenas 10 pessoas em frente à prefeitura, no Rio de Janeiro 30 manifestantes se reuniram frente à Câmara Municipal, no Amapá, domicilio eleitoral do senador, um ato convocado por partidos de esquerda. O que se pode perceber é que o forte ativismo nas redes não vazou para as ruas que teve um número pífio de participantes nas manifestações, sendo oportuno mencionar que o título da matéria do jornal era exatamente “Protestos organizados por meio do Twitter falham no mundo real”, indicando um profundo gap entre a participação nas redes e aquela no mundo real, nas ruas.

Além dessa característica, o movimento não conseguiu deslanchar nas capitais brasileiras, esgotando-se assim que as denúncias contra o senador José Sarney foram arquivadas pelo Senado. Em Salvador, contemplado em profundidade neste artigo, talvez uma das capitais onde o movimento tenha tido uma duração maior, aconteceu o mesmo, ainda que o movimento tenha se mantido na rede por alguns meses mais após o encerramento das manifestações de rua. A esse respeito vale dizer que o episódio que conseguiu maior adesão, o número de participantes chegou, segundo estimativas, a 150, um número certamente baixo para conseguir resultados mais expressivos. O principal jornal da Bahia noticiava em breve nota que Salvador aderia ao “Fora Sarney” quando cerca de 90 estudantes percorreram a Av. Garibaldi em protesto pela renúncia da presidência do Senado, do senador José Sarney (A TARDE, 16/08/2009)

No contexto deste artigo, dois aspectos do movimento despertam interesse para pesquisa: 1) já fez uso de tecnologias de informação, notadamente o Orkut, que tinha uma posição hegemônica naquela época no Brasil; 2) tinha um objetivo, um foco bem claro, o combate à corrupção e um engajamento no sentido de remover o senador José Sarney da política, através da cassação de seu mandato. O FS tinha, como vemos, um objetivo bem ambicioso qual seja, de mover um político tradicional, um oligarca onipresente, com mais de cinco décadas na política brasileira sobre o qual pairavam sérias suspeitas de envolvimento em corrupção. A estruturação do movimento e da luta indicarão que o FS apresentava algumas características similares aos movimentos de 2013, mas também outros aspectos que diferenciavam os dois movimentos.

Podemos arrolar as seguintes características do FS em sua versão soteropolitana. O FS foi criado em 04 de agosto de 2009, em Salvador, no Orkut, em uma comunidade aberta para não membros. A descrição declarava ser uma “comunidade desenvolvida para expressar a indignação dos baianos ante a situação política atual, especialmente no que tange o senador José Sarney”. (PINHO et al., 2010) Em primeiro lugar, o movimento foi basicamente constituído por jovens estudantes do segundo grau e, ao que tudo indica, de escolas particulares, pertencentes a camadas de classe média e de classe média alta. Chama atenção o fato de, praticamente, não participarem estudantes universitários, o que já incita ao seguinte questionamento. Por um lado, estariam os universitários distanciados da política? Por outro lado, esta nova “geração” de estudantes do segundo grau teria despertado para a política e para uma luta contra a corrupção, e ainda mais sendo estudantes de um extrato social mais elevado? O artigo não dará respostas a todas essas questões, diga-se de antemão, pois não foi feita nenhuma pesquisa direta. Conforme já mencionado nesta introdução, um aspecto diferenciador entre movimentos seria a sua localização geográfica, o lócus onde se deu. Este, pela característica mostrada da inserção social de seus membros, foi, evidentemente, um movimento que aconteceu na região central de Salvador, ou seja, não foi um movimento ocorrido na periferia.

A metodologia de pesquisa ficou assentada no acompanhamento da comunidade do movimento FS no Orkut, já que, conforme dito acima, o movimento usou intensivamente a comunicação digital. Assim, a partir das mensagens dos participantes sobre as estratégias de luta e os conflitos resultantes de posições diferenciadas entre os membros do movimento, Pinho e colaboradores (2010) extraíram os seguintes elementos:

 

Galera gostaria de saber quem está organizando o movimento? Por

exemplo, depois da [Avenida] Garibaldi, existe a intenção de nos

deslocarmos para algum lugar? Vamos andar no meio da rua para parar o

trânsito? Abraços a todos, espero encontrar todos sábado. (14/08/2009)

Andar no meio da rua, só funciona com auxílio da polícia ou da reguladora

de trânsito. A organização do Movimento FORA Sarney Bahia, em termos de

net, está nas mãos do perfil “FORA Sarney Bahia”, mas nada monopolizado,

pq estamos todos com o mesmo intuito. Basta mandar um e-mail para

forasarneybahia@hotmail.com, ou deixar scrap no perfil (adicionem, quanto

mais gente no perfil e a comentar, melhor.) que a galera publica as ideias na

comu. Obs.: A comunidade é para compartilharmos nossas ideias a respeito

do MOVIMENTO, que não será somente marcado por passeatas, faremos,

todos juntos, muito barulho através da net. Já se está preparando algo para

logo em seguida da caminhada. Manifestem-se e sugestionem. Grande

abraço. (14/08/2009)

Agora a semente foi plantada. Esse foi o começo de uma revolta que não vai

mais parar! Nos indignaremos e sairemos nas ruas até que a justiça seja

feita no nosso país! Até que, não só o Sarney saia, mas também toda essa

bandalheira do senado… todos esses corruptos que ficam aí sugando nosso

dinheiro na surdina, que nem um bando de sanguessugas! Chega de sujeira

moral, chega de fisiologismo! Fora Sarney e toda a quadrinha do senado!

(15/08/2009)

 

A análise empreendida constatou um baixo índice de debate político em comparação com as postagens que tratavam dos aspectos operacionais das manifestações e do movimento. (PINHO et al., 2010) Os organizadores do site se empenhavam em não acalentar o debate político, tentando manter a unidade do movimento em torno dos propósitos de protesto consensuados pelo grupo sentindo o risco de que se o debate fosse aberto, o movimento se esgarçaria.

Este depoimento recolhido da lista ilustra bem o que está sendo dito:

 

Cara, eu não quero criar conflito, mas eu não concordo com você e da forma

como você coloca suas críticas, apesar de concordar com algumas de suas

ideias. Mas acho que você as expõem de forma ofensiva. Eu, apesar de

fazer críticas ao movimento, faço parte dele e nunca me oponho ao seu

crescimento. (11/09/2009)

 

Outra constatação foi a elevada concentração de postagens por um pequeno número de autores, dado que apenas 5% dos participantes foram responsáveis por criar 76% dos tópicos. Esta situação nos leva a questionar a recorrência comum às tecnologias como tábua de salvação para a política. O fato de ter a tecnologia não quer dizer que vai se operar uma mágica em que todos ou muitos participarão, emitirão opinião só porque existe a tecnologia. (PINHO, 2008) Isto posto, percebe-se que mesmo nos casos onde são poucos os que “falam” e muitos os que ouvem, em benefício da dúvida, pode-se pensar que isto indica que muitos entram na comunidade virtual talvez apenas para olhar, “ouvir”. Assim, vale sublinhar que não existe qualquer automatismo entre estar em uma lista, uma comunidade e ter uma participação ativa, o que relativiza bem o escopo das redes digitais, ao não se constatar a disseminação de uma atividade política voraz entre todos os participantes da lista.

Ao se analisar os debates no meio digital entre os participantes do movimento, constata-se uma baixa incidência de referências a partidos e políticos, sendo as energias mais direcionadas para combinar estratégias de atuação nas manifestações de rua, havendo uma “[…] forte tendência a abrandar e evitar conflitos e discussões sobre divergências entre os membros do grupo” (PINHO et al., 2010), conforme já observado. Parece possível detectar que como os participantes eram neófitos em política e em manifestações públicas, mas, por outro lado, como havia uma ligação entre eles (o repúdio ao que o senador Sarney representava), os participantes preferiram manter a convergência em torno desse ponto do que abrir um debate que pudesse fissurar o grupo ao expor as diferenças políticas entre seus participantes.

Assim, o grupo desloca suas energias fundamentalmente para combinar as estratégias das manifestações, principalmente seus aspectos operacionais, tais como, “[…] local de concentração, percurso, adoção de palavras de ordem e cânticos, confecção de cartazes e panfletos, entre outros”. (PINHO et al., 2010) Um grande número de mensagens é trocado para combinar todos esses pontos. As passeatas são tratadas como eventos e adquirem caráter de espetáculo.

As mensagens abaixo expressam essa postura.

 

eu acho que se queremos visibilidade deveríamos para o trânsito. Não vai

adiantar nada se andarmos no passeio e a mídia não divulgar. Acho que isso

pode ser pensando na hora, a depender do número de pessoas na hora.

(15/08/2009)

Foi ótimo. Atingiu uma boa parte de gente que precisava dar esse apoio que

foi dado. O que eu sugiro para a próxima: Avenidas como a Tancredo Neves

por ser a avenida mais movimentada em área comercial de Salvador E,

claro, não podemos esquecer o Campo Grande. Esse é o início de uma era

política se assim desejarmos. Quem fotografou e filmou, vamos organizar um

Flick e um Youtube do movimento vendo que a mídia tratou com certo

desinteresse essa manifestação popular. Abraço a todos. (15/08/2009)

Bem… Como é sempre bom ter um posicionamento sobre as coisas, aqui vai

o meu: achei bem feito. Bem organizado, para nós que somos “os

estudantes alienados do século XXI”. Não achei que a quantidade foi pouca

como o jornalistazinho de merda ficou falando. Se fossem duas pessoas, até

uma pessoa só, já era digno de respeito, já seria uma manifestação por seus

ideais. Muitos dizem que não vai dar em nada… Pois que não dê. O

movimento em si, valeu a pena. Fizemos nossa parte. O meu objetivo era

que as pessoas vissem, vissem que em Salvador também tem gente como

eles, que não gosta da situação. Que cada garoto da minha idade dentro

daqueles carros sentisse vontade de se juntar a nós. Não era que ninguém

saísse machucado, que ninguém se ferisse ou algo do tipo, e ainda bem, não

foi assim. Vamos pra frente, mostrar que chega de hipocrisia, de gentinha

que veste a camisa do Brasil no carnaval e na Copa. Porque eu tenho

orgulho do meu país o ano todo, e terei ainda mais se me movimentar para

fazê-lo melhorar no que não concordo. Parabéns, gente. Pra todos nós e

para todos que participaram do movimento de alguma forma. (15/08/2009)

Galera, gostaria de saber quem está organizando o movimento? Por

exemplo, depois da [Avenida] Garibaldi, existe a intenção de nos

deslocarmos para algum lugar? Vamos andar no meio da rua para parar o

trânsito? Abraços a todos, espero encontrar todos no sábado. (14/08/2009)

Andar no meio da rua, só funciona com auxílio da polícia ou da reguladora

de trânsito. A organização do Movimento FORA Sarney Bahia, em termos de

net, está nas mãos do perfil “FORA Sarney Bahia”, mas nada monopolizado,

porque estamos todos com o mesmo intuito. Basta mandar um e-mail para

forasarneybahia@hotmail.com, ou deixar scrap no perfil (adicionem, quanto

mais gente no perfil e na comu, melhor.) que a galera publica as ideias na

comu. Obs.: A comunidade é para compartilharmos nossas ideias a respeito

do MOVIMENTO, que não será somente marcado por passeatas, faremos,

todos juntos, muito barulho através da net. Já se está preparando algo para

logo em seguida da caminhada. Manifestem-se e sugestionem. Grande

abraço. (14/08/2009)

Agora a semente foi plantada. Esse foi o começo de uma revolta que não vai

mais parar! Nos indignaremos e sairemos nas ruas até que a justiça seja

feita no nosso país! Até que, não só o Sarney saia, mas também toda essa

bandalheira do senado… Todos esses corruptos que ficam aí sugando nosso

dinheiro na surdina, que nem um bando de sanguessugas. Chega de sujeira

moral, chega de fisiologismo! Fora Sarney e toda a quadrinha do senado!

(15/08/2009)

 

Nessas mensagens, podemos perceber a estratégia dos manifestantes buscando fazer as manifestações em áreas, avenidas movimentadas da cidade, pois o movimento só seria notado se parassem o trânsito. A esse respeito, vale observar que as manifestações ocorreram em dias de fins de semana, e que, assim, os impactos no trânsito são muito menores. Pode-se perceber o entusiasmo dos participantes com os resultados alcançados, observando-se um voluntarismo no sentido de acreditar que os objetivos serão alcançados, ou seja, a cassação de Sarney. É notória também uma crítica à mídia, que não teria dado a devida cobertura ao evento, ou minimizando a importância do mesmo em termos quantitativos de participantes. Percebe-se também que eles sentem que estão dando um exemplo de participação política e é feita certa crítica àqueles que seriam acomodados, ou seja, que só seriam patriotas na hora da Copa e do carnaval. Percebe-se também o cuidado em evitar a violência, fenômeno que aconteceria nos movimentos de junho/13, mas, ao que tudo indica, causados pelos Black blocs e não pelos manifestantes.

Assim que uma passeata termina, Pinho e colaboradores (2010) observam que ocorre “[…] uma intensa troca de mensagens em que se congratulam entusiasmadamente pelo sucesso da ação” e já começam os preparativos para a próxima. Os participantes também não deixam de registrar “[…] a repercussão do ato na mídia, normalmente considerada decepcionante”. Isso gera uma ambiguidade em relação à mídia tradicional, pois, ao mesmo tempo que a criticam, sentem que dependem dela ao entender que se a manifestação não é noticiada pela mídia, é como se não tivesse existido.

Podemos tirar desses elementos algumas percepções. Mesmo que tenha sido há poucos anos atrás (2009), não havia ainda a intensa troca de mensagens que ocorre no presente através da internet, principalmente com as mídias sociais (Facebook, Twitter). Por outro lado, o objeto das manifestações não motivou a mídia a cobrir os eventos. Por paradoxal que seja, o movimento atraiu mais atenção do Correio da Bahia do que de outros jornais, sendo que este jornal é da família de Antônio Carlos Magalhães, que tinha uma convergência política e ideológica forte com Sarney. Assim, o jornal da família de ACM poderia não ter interesse em divulgar o evento.

Quanto ao papel da mídia, segue mais um depoimento recolhido na comunidade digital.

A TV Bahia nem falou direito da passeata. É por isso que eu a odeio. (15/08/2009)

O que transpira nos debates da comunidade nos leva a perceber que se constrói uma relação com a mídia que é “[…] ambígua, conflituosa – ao mesmo tempo que alguns membros afirmam ‘odiar’ a mídia, demonstram forte ressentimento diante do pouco destaque dado pelos meios de comunicação às manifestações”. Parece, assim, possível identificar que “[…] estão presos a um círculo vicioso em que o movimento depende de visibilidade na mídia para crescer, mas não consegue crescer porque não consegue visibilidade da mídia”. Assim, quando o movimento foi divulgado pelo Jornal da Record com direito a entrevista, o fato é saudado com a afirmação de que “fizemos a diferença”. (PINHO et al., 2010) Por outro lado, quando a mídia deixa de dar destaque, não ao movimento, mas a tudo que cerca o caso José Sarney, isso abala profundamente o movimento.

Outra característica possível de observar é que os debates na comunidade exalam uma visão profundamente negativa da política e dos políticos, em que tudo que se relaciona a isso é visto de forma “[…] extremamente pejorativa, entendidos como sinônimos de corrupção”, sendo a filiação de algum participante a um partido um acontecimento visto como “acusação, ofensa”. O grupo recebe com descrédito as menções referentes à filiação partidária, entendendo que os líderes políticos são identificados com “[…] a busca individual por notoriedade, visibilidade”. Ao mesmo tempo, demonstram preocupação em virarem “massa de manobra” de pessoas ligadas a partidos. Desta forma, procuram o tempo todo demonstrar e defender a posição de nenhuma identificação com nenhum partido político. Uma das manifestações na rede afirma que no movimento “[…] não existe partido, oposição. Há apenas dois lados: os a favor e os contra Sarney”. (PINHO et al., 2010) Isto sendo assim, qualquer participante será bem vindo desde que na condição de indivíduo, não de entidades organizadas. Nota-se no debate do grupo esse caráter apartidário do movimento, buscando evitar conflitos e polêmicas. Interessante perceber que esse comportamento se acentuaria nos movimentos de junho/13, mas ao se constatar sua presença em agosto/2009, mostra que isto é uma tendência contemporânea de recusa à política partidária, indicando um desgaste profundo desta, nos moldes tradicionais praticados.

Outra manifestação defende que as divergências partidárias e ideológicas devem ser esquecidas, sendo fundamental “nos concentrar no INIMIGO, não importa se a comunidade engloba petistas, democratas, comunistas, anarquistas, neoliberais, etc. O que realmente importa é a disposição de cada um em derrubar um político desonesto, torpe, nepotista, populista de mentalidade atrasada” […]. Não vamos gastar energia com nós mesmos, vamos combater a ele, pois é ele que combatemos”. (PINHO et al., 2010, grifo do autor)

Mesmo quando um participante insiste na ação através da filiação a um partido, os demais participantes desencorajam o debate reconhecendo que “Há o apartidarismo, mas não há omissão política”. Um debate que também ocorreu se referiu à questão do debate virtual versus debate presencial. Com constância apareciam sugestões de realização de encontros presenciais entendendo que o Orkut cumpriria um papel de “ferramenta auxiliar”, mas não seria “[…] o local apropriado para discutir detalhes da manifestação”. Os defensores do ambiente virtual argumentam sobre “[…] as dificuldades de se reunir tantos participantes no meio da rua”, onde diferentemente do meio virtual, em que todos poderiam ter acesso ao debate, nem todos poderiam estar presentes, “[…] padecendo assim as decisões de falta de representatividade”. No entanto, existem razões mais profundas contra as assembleias presenciais, pois estariam embutindo “[…] o desejo de centralização das decisões nas mãos de alguns membros, que estariam buscando burocratizar o movimento e ganhar notoriedade junto à sociedade”. Percebe-se assim que “[…] as divergências políticas vêm à tona, culminando no conflito quando são forçados a ‘decidir a forma de decidir’”. (PINHO et al., 2010, grifo do autor)

O acompanhamento do número de adesões no meio digital (Orkut) revela um crescente que atinge 361 (em 17/10/2009), mas entrando logo em decadência registrando 347 (em 29/10/2009), 335 (em 11/11/2009), 324 (em 23/11/2009) e 313 (em 04/12/2009), ainda devendo ser acrescentado que este total de participantes se refere ao meio digital, pois, na prática, nas ruas, a adesão sempre foi bem menor. E o movimento se esvaziou, com a consequente perda de membros, com o arquivamento dos processos contra o senador José Sarney por parte do Congresso, levando a expressões do tipo: “[…] prá que lutar por uma causa que, tecnicamente, já está perdida?”. E, com isso, o movimento se esvaiu, levando a afirmações do tipo: “[…] várias pessoas estão saindo da comunidade” e “parece que o movimento parou. Ou acabou”. (PINHO et al., 2010)

Assim que esta situação se configurou, é postada uma mensagem, certamente de algum membro ou simpatizante do PV, com o sugestivo título: “Eu avisei” (PINHO et al., 2010, grifo do autor), lembrando ter observado que “[…] essa movimentação ia acabar em nada”, pois “Não adianta tirar um coronel pois vai entrar outro”. Finaliza conclamando “Entrem em um partido, mostrem suas colocações, perspectivas, ideias inovadoras em gestão pública […] Saudações Verdes”. Não fica sem resposta esta mensagem, sendo contra argumentado o seguinte: “Amei sua ideia, só faltou escrever uma coisa: E depois vire coronel também”, mostrando de forma compatível com o espírito hegemônico do grupo que entrar na política, nos partidos, representa uma capitulação a suas estruturas viciadas e viciantes. Ao que outro manifestante observa que “Quem tem formação paltada [sic] na ética, moralidade… não entra nesse ciclo…!”, defendendo que seria possível encontrar um partido ético. A resposta é uma crítica ao papel dos partidos, quando um participante posta, já nos estertores do movimento (28 de novembro), com ironia que “participar de um partido político e se submeter ao sistema, adianta muito. Eu vejo o quanto ações partidárias mudam o Brasil. Em verdade, muda alguma coisa sim, as contas dos cofres públicos”. Esta postagem provoca a seguinte resposta de outro participante: “então, segundo você, temos um problema sem solução. […] Eu acredito em MUDANÇAS”. Já entrando em dezembro e nas últimas postagens, outro participante assim se manifesta: “Ô, galera. Ser político não significa, necessariamente, desonestidade. Há políticos honestos, por aí, e acho que vocês sabem disso”. (PINHO et al., 2010, grifo do autor) Um participante retorna entendendo como derrota, a “derrota que o povo brasileiro sofreu no senado” e sentindo que “nem vocês, nem os outros conhecem uma solução”. Ainda acrescenta que todos ficam perdidos e que, por ficarem “apedrejando uns aos outros, mostram não ter sensibilidade e até mesmo maturidade para buscar uma resposta decente, coerente e justa”. (PINHO et al., 2010, grifo do autor) Toda essa discussão reflete bem como a juventude se localiza frente ao sistema partidário do país, revelando um profundo niilismo com relação a este.

Outra participante expressa que “as pessoas de bem não podem pensar apenas em manifestações […] elas têm que buscar um meio de mostrar e fazer como se deve ser feito, com ética[…]”. Prossegue exemplificando, com várias políticas públicas que não sofrem questionamento, concluindo em letras garrafais (como se estivesse gritando) que “A OMISSÃO PÚBLICA É UM DOS NOSSOS PROBLEMAS”. Esta manifestação não passa em branco, recebendo o comentário: “Existem políticos honestos? Deve existir…. Existe partido político honesto? Não! Ha ha. Essa é a diferença, o PT/PC do B já foi tudo que o PSTU/PSOL, PV é hoje, tendência incontestável. A corja prevalece, o dinheiro manda e faz girar o mundo. Prefiro me manter apartidário”. Esta postagem faz emergir um questionamento sucinto: “Alienação é a solução?” (PINHO et al., 2010, grifo do autor) obtendo uma longa resposta (em 19/12) que finaliza a comunidade na rede:

 

Mister [nome fictício], não é coerente desqualificar este movimento. Foi um

movimento espontâneo, nada mais político! A questão não é de como iria

acabar este movimento, o fato mais relevante é que ele começou, ele surgiu.

A luta política nos partidos é um caminho, claro… Mas não seja legalista, a

política nasceu antes e independentemente de partidos políticos. A voz do

cidadão, como influente na sociedade, seja como consumidor, como crítico,

como eleitor ou como político é igualmente relevante. Este movimento não

quis lutar em favor de uma posição-proposta política específica. Mas isso

não é motivo para que ele seja classificado como sem sentido. Ao contrário,

foi um movimento, ao meu ver, em favor da política democrática ou, melhor,

do espaço democrático na política e, por isso, é automaticamente contrário a

ações como a do nosso querido senador. O movimento, como disse certa

vez nessa comunidade, não tem o sentido de resolver os problemas da

política brasileira, depondo um presidente do senado, não. Esta deposição é

só uma ação direta e visível. A bandeira do movimento é maior, ela diz

respeito, como disse, à ética na política, ela diz respeito à participação dos

jovens e demais cidadãos na política. E a própria existência deste

movimento já foi significativa em todos esses sentidos. Antes de

desqualificar, devemos fazer o possível pra que este movimento não morra.

O brasileiro precisa entender que a política o atinge e que ela não deve ser

um mundo à parte do que ele vive e nem que seu papel de cidadão se finde

com a votação tampouco com a filiação a um partido. (PINHO et al., 2010,

grifo do autor)

 

Sintetizando, parece possível abrigar a análise feita da comunidade e do movimento em quatro grandes compartimentos: 1) visão profundamente negativa da política partidária, tentando manter a posição apartidária do movimento, levando, inclusive, ao limite de recusar a participação de filiados a partidos políticos; 2) forte tendência a abrandar e evitar conflitos e discussões sobre divergências entre os membros do movimento; 3) forte ambiguidade em relação à mídia tradicional, pois, por um lado, criticavam a posição da mídia ao não registrar ou não dar a devida cobertura às manifestações, por outro lado, sentindo a necessidade de que isso acontecesse, que o movimento só seria viável se vazasse para a mídia convencional; 4) não havia exatamente um líder, algum participante que se destacasse e chamasse para si a responsabilidade do movimento, o que, em parte, o aproxima do MPL, nesse quesito. Por não ter um interlocutor explícito, uma liderança que se sobressaísse, essa característica pode ter levado o movimento ao fracasso.

Notar que, nos protestos de 2013, o grupo que comandava o MPL já tinha uma tradição de organização e mobilização construída em manifestações anteriores. O grupo que constitui o FS se constrói para aquele momento, não tinha qualquer tradição ou experiência em realizar manifestações e se dissolve com o arquivamento da denúncia contra Sarney, ou seja, são dois movimentos e grupos com constituições radicalmente diferentes. Cabe uma última palavra mais de ordem metodológica sobre a análise dessa material. A coleta das manifestações da própria comunidade no meio digital mostra-se bastante positiva, pois são colhidas as palavras dos participantes. Na metodologia da análise do meio presencial, o que acontece nas ruas, embora possa se recolher elementos mais concretos (a violência, gestos, o vestuário, etc.), faltam palavras, ainda que estas possam estar presentes nos cartazes, embora estáticos.

 

A revolta do vintém

 

Nesta seção, será feita uma breve descrição do que foi a chamada Revolta do Vintém ocorrida no Rio de Janeiro. Para tanto, vamos recorrer, basicamente, à análise efetuada por Ronaldo Pereira de Jesus que se valeu de pesquisa detalhada em jornais da época. Ela teve origem na instituição do “imposto do vintém” ainda no Império anunciado em dezembro de 1879, para entrar em vigor em 1º de janeiro de 1880. O imposto tinha como objetivo conter o déficit do reinado, através da cobrança de um vintém (que correspondia a 20 réis, a moeda da época) sobre o valor das passagens dos bondes no Rio de Janeiro, capital do Império. A partir do anúncio do imposto, “[…] mobilizações de protesto foram encabeçadas por publicistas e políticos, especialmente os republicanos, em geral membros dos setores médios urbanos” que visavam a capitalizar “[…] o descontentamento generalizado da população mais humilde da corte, assolada pela carestia, pelo desemprego, pelas precárias condições sanitárias e pela falta de moradia”. Ainda antes da entrada em vigor do novo imposto, “[…] uma multidão se reuniu para expressar, em praça pública, seu descontentamento com a medida governamental” devido o baixo nível de vida da maioria da população da cidade. Foram contidos e dispersados pela força policial ao tentarem entregar ao imperador um manifesto de repúdio ao novo imposto. As manifestações coletivas de protesto duraram de 28 de dezembro de 1879 a 4 de janeiro de 1880, enfeixando o que veio a ser conhecido como a Revolta do Vintém. Buscando uma explicação teórica para o evento, Ronaldo Pereira de Jesus (2006, p. 73-74) recorre à Sandra Graham, que descreve os participantes que

 

[…] mesmo estando em certa medida afastados das instâncias partidárias,

teriam se convertido numa ‘fonte de poder até então nunca utilizada’, capaz

de transformar a ‘violência da rua’ em parte da ‘equação política’ e, assim,

‘arrastar a política das salas do parlamento para as praças da cidade’.

Olhando mais de perto a própria construção do imposto, ainda em fase de discussão, a imprensa já se mostrava contra o novo imposto, apresentando o argumento de que este incidiria de “[…] modo indiscriminado sobre cidadãos e súditos com rendimentos desiguais”, não fazendo distinção entre “[…] um rico comerciante que habitava uma chácara em Botafogo, ou um operário humilde residente num casebre na Cidade Nova”. A isto se adicionava o argumento de que a população rica procurava os bairros mais afastados por “prazer ou luxo”, enquanto que os mais pobres procuravam os “[…] bairros mais distantes, em geral mais insalubres” por conta dos preços mais baixos de aluguel. E para este grupo, o transporte por bonde era indispensável para chegar ao centro da cidade. Assim, “[…] às vésperas do Natal de 1879, o imposto do vintém era considerado por toda imprensa como uma medida extremamente impopular”. Nesse clima e com uma “[…] intensa circulação de boatos a respeito de uma grande manifestação popular” marcada para a data de início da cobrança do imposto, “[…] alguns jornais começaram a pedir ‘calma’ e ‘reflexão’ para aqueles decididos em contestar as medidas do governo”. (JESUS, 2006, p. 75) Se do ponto de vista da imprensa esta era sua posição, do ponto de vista governamental é editada uma nota, logo após o Natal, proibindo “reuniões públicas” bem como “manifestação da liberdade de expressão”, colocando em alerta as forças policiais da corte, o que veio a gerar alertas da imprensa situacionista contra “a intransigência do poder público”. Apesar de todas essas medidas, uma primeira manifestação pública contra o imposto ocorreu em 28 de dezembro, quando “[…] cerca de cinco mil pessoas se reuniram no Campo de São Cristovão para ouvir o Doutor Lopes Trovão”, um médico e jornalista e ativo militante republicano e abolicionista, que falou à multidão da janela de um sobrado, defendendo levar uma petição ao imperador, solicitando a revogação do imposto. Liderada pelo orador, a multidão se deslocou em direção ao Paço da Boa Vista, onde se encontrava o imperador. No deslocamento, foi “intimado” a interromper a jornada por delegados e “[…] mais de cem agentes armados de longos e grossos cacetetes”, o que levou Lopes Trovão a “[…] não ceder às intimidações, justificando se tratar de uma mobilização pacífica”. (JESUS, 2006, p. 77) O imperador, no entanto, não aceitou receber os manifestantes, se dispondo, mais tarde, a receber apenas uma comissão, mas esta se recusou a aceitar a decisão tardia do imperador. Registre-se que, assim, não ocorreu violência na manifestação, ainda que tenha ficado latente. O mesmo não ocorreu dias depois com a implantação do novo imposto e quando o movimento de protesto passaria “[…] a incluir outros segmentos da população carioca menos ‘ordeiros’ e a ‘civilidade’ no episódio da tentativa de entrega da petição ao imperador ficaria definitivamente para trás”. No primeiro dia do ano de 1880, ainda que algumas empresas de bondes não estivessem cobrando do vintém e que Lopes Trovão conclamasse a população “[…] a resistir pacificamente à cobrança do imposto” em discurso no Largo do Paço, as pessoas reunidas se deslocaram pelas ruas do centro da cidade entre “[…] vaias e manifestações de descontentamento”, chegando até estações de bondes, iniciando-se “[…] a depredação dos bondes e o conflito direto com as forças policiais”. (JESUS, 2006, p. 78)

Havia “uma lógica quase idêntica” de protesto nas várias ruas, qual seja, “[…] os manifestantes tomavam os bondes, espancavam os condutores, esfaqueavam os animais usados como força de tração, despedaçavam os carros, retiravam os trilhos e, com eles, arrancavam as calçadas”. Com os destroços, faziam barricadas respondendo à polícia “[…] com insultos, pedradas, garrafadas e até com tiros de revólver”. Ao longo desse dia, primeiro do ano, a polícia respondia aos vários focos de protesto, “[…] quase sempre atirando contra a multidão”. Os conflitos só foram encerrados às 21 horas, com o resultado de três manifestantes mortos e feridos, “[…] a maior parte por arma de fogo”. No dia seguinte, face ao resultado produzido, construiu-se uma tentativa de acordo com o governo, tanto por parte dos políticos mais conservadores como pelos publicistas “mais exaltados” contra o imposto. No entanto, nas ruas, o protesto tinha seguimento, “[…] já sem o apoio de seus principais idealizadores” e o governo se posicionando que estaria disposto a negociar, mas que não admitiria a quebra da ordem pública e nem a formação “grandes massas de povo” frente ao palácio imperial (JESUS, 2006, p. 79-80). No que se refere ao sepultamento das vítimas, afirmava que não fossem feitas manifestações como as feitas por ocasião da Revolução Francesa. Interessante notar que passado quase um século da revolução em França, esta parecia estar pairando como uma ameaça aos monarquistas.

Já no dia 2 de janeiro, novas manifestações irromperam, sendo dispersas pela Polícia e sendo várias pessoas presas. No dia seguinte, o número de escaramuças se reduziu, dia em que senadores e deputados da oposição, contando com a participação de Lopes Trovão, José do Patrocínio e outros se reuniram para redigir “[…] um manifesto contra o vintém” e conclamando o povo à paz e à ordem. No dia 4 de janeiro, com “[…] cerca de cem pessoas reunidas no Largo de São Francisco, foram abordadas pela força policial e responderam com pedradas, pauladas e garrafadas”, a maioria deles caixeiros das casas comerciais do centro da cidade. Neste dia, termina a Revolta do Vintém, a partir de “[…] relações estabelecidas entre as classes populares da corte e o Estado monárquico”, “[…] depois de interrompida a arrecadação pelo protesto popular”. No dia seguinte, um importante jornal, Jornal do Commercio, arrolava os principais segmentos sociais presentes nas manifestações: “[…] a juventude das escolas, cheia de nobre, mas indefinido entusiasmo por tudo o que lhe agita a fibra sensível das generosas paixões”, ao lado dos que se sentiam prejudicados pela política dominante, sem exatamente sem nomear quais eram. Todos estes pertenciam “[…] aos setores médios urbanos e à elite da corte”. (JESUS, 2006, p. 81-82) Ao lado destes, agregava o jornal, vinha o “segmento popular” visto pelo jornal como aquele que

 

[…] na sinceridade de sua crassa ignorância e sob o agulhão das privações

diurnas, estão sempre prontos a condenar os governos, sejam quais forem,

que não realizem o ideal impossível e sobrenatural de dirigirem a sociedade

de modo que não pague impostos e que todas vivam contentes no seio de

uma abundância fácil e sem trabalho. (JESUS, 2006, p. 82)

 

Por outro lado, “publicistas e políticos antimonarquistas atribuíam as causas da Revolta do Vintém à impopularidade do regime imperial e ao desgaste da imagem de D. Pedro II entre a maior parte da população da cidade do Rio de Janeiro”. Encerrados os conflitos, isto não viria a provocar “grandes alterações” na Monarquia nem na figura do Imperador para a maioria da população. Encerra Pereira de Jesus, afirmando que

 

a Revolta do Vintém ocasionou muito mais a alteração radical e momentânea

das atitudes e expectativas diante do regime político e do Imperador, do que

uma mudança significativa e duradoura no imaginário popular, nas

representações das pessoas comuns acerca da Monarquia. (JESUS, 2006,

p. 87)

 

Análise dos movimentos e

 

conclusões

 

Feita essa exposição de elementos básicos para compreensão desta Revolta, passamos agora para uma tentativa de análise de aproximação ou diferenciação entre os movimentos acima analisados. Desnecessário enfatizar que existe um abismo de tempo e condições entre a última década do Império, e penúltima do século XIX, e os movimentos recentes de 2009 e 2013. Em que pesem essas diferenças explícitas, algumas convergências chamam a atenção. Em primeiro lugar, a questão do transporte parece mobilizar as populações. Conforme assinalado ao início deste artigo, no transporte é que a população sente, de forma direta e imediata, o “assalto” ao seu bolso. Ainda que possa encontrar uma alternativa ao pagamento com o deslocamento a pé, isso nem sempre é possível, ainda mais em uma cidade grande onde horários são impostos à classe trabalhadora bem como a estudantes. Assim, uma parcela da população se torna escrava do transporte coletivo, população esta expulsa para a periferia, quer seja no final do regime monárquico, quer seja mais de um século depois em períodos autoritários ou democráticos. Uma segunda questão também merece destaque, exatamente a participação de uma população jovem formada por estudantes, o que vem a se repetir nos dois outros movimentos focados.

Merece ainda atenção o fato de que a tão cantada passividade da população brasileira parece vir por terra quando se analisa, principalmente, essa Revolta do Vintém. Evidentemente, o ambiente é bem quente do ponto de vista político com a emergência do movimento republicano e também abolicionista. Assim, a luta não era pelos 20 Réis (1 vintém), mas tinha um forte conteúdo político de minar a autoridade da Monarquia e do Monarca. Mas, também, todas essas manifestações têm que ser olhadas com cautela, pois, ao mesmo tempo que a sociedade explode, parece que se recolhe a uma outra longa hibernação voltando a explodir. Ou seja, parece que a sociedade se comporta espasmodicamente, com sístoles e diástoles. Também Pereira de Jesus observa que a Revolta do Vintém também não representou o abalamento do regime monárquico, com a ordem estabelecida se recompondo. Observa, ainda, que superada a Revolta do Vintém, o Império ainda leva quase dez anos para cair, e quando isto acontece, a massa urbana assiste a tudo “bestializada”, conforme registrado por José Murilo de Carvalho (1987), não tendo noção de que ali se consumia a implantação da República.

Parece que esta tem sido a tendência dominante no Brasil no largo prazo. Ao se observar os movimentos mais representativos das últimas décadas, conforme já apontado, após os movimentos das Diretas Já (1984), tivemos os Caras Pintadas (1992), e os movimentos de junho/13, isto quer dizer, uma explosão a cada década ou mais. Assim, os movimentos têm que ser saudados com importância e ânimo, mas sem grandes expectativas de que tudo vai mudar e rapidamente. No caso desses últimos movimentos, vale observar que sendo “Estopim dos protestos de junho de 2013 pelas ruas do país, a discussão sobre tarifa e qualidade do transporte coletivo nas regiões metropolitanas não atingiu em cheio a campanha presidencial” (GERARQUE; MONTEIRO, 2014), sendo que esta campanha se deu pouco mais de um ano depois dos protestos, dando a impressão de que havia saído da pauta.

Em outra esfera, vale comentar que, evidentemente, à época da Revolta do Vintém não havia os recursos digitais existentes agora, mas houve uma mobilização impressionante em uma sociedade ainda escravocrata, onde a palavra democracia não reverberava, não tinha qualquer acolhimento. O Rio de Janeiro, com uma população que pode ser estimada em cerca de 400 mil habitantes (247.972 pelo Censo de 1872, e 522651 pelo Censo de 1890, segundo o IBGE) consegue mobilizar, naquele contexto, cerca de 5 mil pessoas para manifestações que duram quatro dias seguidos, mostra que existem formas de mobilizar as massas que transcendem as comunicações digitais. Este artigo enfatiza este aspecto, pois existe uma tendência muito forte, atualmente, de imputar as tecnologias o fato das participações políticas. Não desprezando, evidentemente, o poder que estas têm de levar o cidadão às ruas não é só questão de comunicação, conforme já apontado no quadro teórico.

Quando se coteja o FS com o junho/13, já se nota, evidentemente, uma aproximação maior e mais facilmente identificada, principalmente no que se refere às tecnologias de comunicação, embora também neste quesito, apesar do pouco tempo decorrido entre um e outro, já exista um finado, o Orkut, superado pelas redes sociais mais potentes e interativas. Outra diferenciação também tem que ser feita. A apropriação do que foram esses movimentos foi feita de maneira diferenciada. Se no caso do FS acompanhou-se o movimento “por dentro”, ainda que no ambiente digital, no caso do Junho/13, foi feita pelos registros da imprensa e por construções teóricas de analistas políticos. Ainda outra diferenciação merece ser apontada: o caso do FS tinha um foco específico, perseguia a remoção, a cassação do senador Sarney, enquanto o Junho/13, como sabemos, tinha, a princípio, um foco no questionamento do aumento de passagens, explodindo, em seguida, para uma pauta ampla e diversificada de questionamentos e demandas, todas na área política.

A capacidade de mobilização do FS, não apenas no caso acompanhado de Salvador como em outras capitais do Brasil, capacidade muito menor do que a identificada no Junho/13, pode apontar que mobilizações contra a corrupção parecem difíceis de emplacar, não motivam as populações como se estivessem a ver que estão batalhando por uma causa perdida, enquanto que no caso do Junho/13 a luta pela tarifa era mais concreta, ainda que tenha derivado para essa agenda pluri, conforme apontado.

Outra convergência pode ser apontada entre esses dois movimentos recentes, a participação intensa de jovens, mas principalmente jovens de classe média e média alta, estudantes em parte considerável do nível médio. Se isso pode ser saudado como positivo, também preocupa no sentido de uma inclusão não tão forte de um público universitário. Também foi observado que existe uma fuga às formas tradicionais de fazer política e filiação a partidos políticos. Se esta é uma tendência mundial, do mundo ocidental principalmente, por razões sobejamente conhecidas, isto se agrava no Brasil, com todo o desalento com a política, os políticos e os partidos políticos.

Para encerrar, a análise acima, se transpira certo pessimismo, isto deve ser relativizado. Por um lado, no sentido de evitar cair em uma euforia não consistente. A partir da máxima de que não existe “almoço grátis”, pode-se contrapor que “não existe revolução grátis” ou, se não se almeja tanto, “não existem mudanças grátis”. Assim, o papel de todos esses movimentos coletivos tem que ser valorizado no sentido da construção de uma sociedade mais justa e igualitária no Brasil, mas sem cair na tentação de que tudo vai ser alcançado fácil e automaticamente.

Ainda uma inquietação que esta análise gera. A política parece estar sendo permeada pelas redes. Quando os próprios manifestantes diziam em junho/13 para sair do Facebook, da internet e vir para as ruas, evidentemente se sabe que não dá para ficar nas ruas o tempo todo, mas existe um risco (risco?) de que os jovens voltem às redes até outro despertar, até por entender que esta é a maneira mais fundamental e decisiva de se fazer política. Uma última reflexão, acima já arranhada, cabe à questão: por que algumas manifestações pegam e outras não pegam? Alguns analistas têm apontado que, diferentemente do que pregavam os manifestantes, a manifestação não era pelos vinte centavos. o que se assistiu foi que, assim que a demanda da revogação do aumento das passagens foi atendida, o movimento recuou e se esvaziou. E a longa pauta que “pegou carona” no movimento da MPL, praticamente não foi atendida, ressalvada, em parte, como dito, a questão da saúde com o “Mais médicos”. Como vários autores usaram a metáfora da fagulha, faísca e estopim, podemos pensar nos movimentos como uma caixa de fósforos, onde nem todos que são riscados funcionam.

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