As cinco feridas emocionais
2. A rejeição
CAPÍTULO 2
A REJEIÇÃO
Eis algumas definições que o dicionário nos fornece para a palavra “rejeitar”: repelir; afastar; recusar; pôr de lado, largar; não acolher; não assimilar; excluir.
Muita gente tem dificuldade em estabelecer a diferença entre rejeitar e abandonar. Abandonar alguém é afastar-se dele em prol de outra coisa ou outro alguém, ao passo que rejeitar uma pessoa é rechaçá-la, não querer tê-la ao seu lado ou em sua vida. Aquele que rejeita usa a expressão “eu não quero”, enquanto o que abandona prefere dizer “eu não posso”.
A rejeição é uma ferida muito profunda, pois aquele que sofre por causa dela se sente rejeitado em seu ser e, principalmente, em seu direito de existir. Entre as cinco feridas, ela é a primeira a se manifestar na vida de uma pessoa. A alma que regressa à Terra com o objetivo de trabalhar essa ferida vive a rejeição desde o nascimento e, muitas vezes, antes mesmo de nascer.
Tomemos o exemplo do bebê não desejado, aquele que chega, como se costuma dizer, “por acidente”. Se a alma dessa criança não quitar o sentimento de rejeição, ou seja, se não conseguir ficar bem e ser ela mesma apesar desse sentimento, o bebê viverá necessariamente tal rejeição. Um exemplo flagrante é o caso do recém-nascido que não é do sexo desejado pelos pais. Existem, naturalmente, outras razões pelas quais um dos pais rejeita o filho; o importante aqui é perceber que só as almas com necessidade de viver essa experiência serão atraídas para um ou ambos os pais que rejeitarão o filho.
A partir do instante em que o bebê passa a se sentir rejeitado, ele começa a fabricar uma máscara. Nas inúmeras regressões ao estado fetal a que assisti, pude observar que a pessoa acometida da ferida da rejeição via-se muito pequena no ventre da mãe, ocupando um espaço bastante exíguo e escuro. Isso me confirmou que a máscara pode começar a se forjar antes mesmo do nascimento.
Chamo sua atenção para o fato de que, ao longo do livro, utilizarei o termo escapista para designar a pessoa que padece da rejeição. A máscara do escapista é a nova personalidade, o caráter desenvolvido para evitar sofrer a rejeição.
Essa máscara é reconhecida fisicamente por um corpo escapista, isto é, um corpo que parece querer desaparecer. Esse corpo é estreito e contraído, o que permite que ele se esquive ou não se mostre muito presente ou visível num grupo. É um corpo que evita ocupar muito espaço, semelhante ao escapista, que tentará a vida inteira se ofuscar. Quando temos a impressão de que quase não há carne sobre os ossos, que a pele aparenta estar grudada ao esqueleto, podemos deduzir que a ferida da rejeição é ainda maior.
O escapista é uma pessoa que duvida de seu direito à existência e que parece não ter encarnado completamente. Isso explica sua aparência um tanto fragmentada, incompleta, como se as partes do corpo não se encaixassem. O lado direito do corpo ou do rosto, por exemplo, pode ser muito diferente do esquerdo. Tudo isso é facilmente perceptível (mesmo que saibamos que é muito raro encontrar alguém cujos dois lados do corpo sejam idênticos).
Um corpo fragmentado é aquele em que se tem a impressão de que falta algo – as nádegas e os seios são diminutos, o queixo é quase inexistente, os tornozelos são muito menores que as panturrilhas. Isso também pode se manifestar pela desarmonia entre as partes superior e inferior do corpo.
Por vezes tem-se a sensação de que a pessoa parece dobrar-se sobre si mesma. Seus ombros se voltam para a frente e os braços se mantêm quase sempre colados ao corpo. Temos igualmente a impressão de um bloqueio no crescimento desse corpo, como se uma parte não tivesse a mesma idade que o restante, como um adulto num corpo de criança.
Quando você vir alguém com um corpo desproporcional que desperte sua compaixão, pode ter certeza de que essa pessoa sofre de uma ferida de rejeição. A alma, aliás, escolheu esse tipo de corpo antes de nascer a fim de se colocar numa situação propícia a superar essa ferida.
O rosto e os olhos do escapista são pequenos. Os olhos parecem vazios, pois a pessoa afetada por essa ferida tem uma grande tendência a se refugiar em seu mundo interior ou devanear. Observando sua fisionomia, às vezes temos a impressão de ver uma máscara, sobretudo em volta dos olhos, que parecem estar sempre com olheiras. É possível que ele próprio tenha a impressão de enxergar através de uma máscara. Algumas pessoas escapistas me contaram que essa impressão podia durar um dia inteiro ou apenas alguns minutos. Essa é uma forma de ausentar-se da realidade para evitar sofrer, então pouco importa o tempo.
Quando uma pessoa possui todas as características mencionadas acima, sua ferida da rejeição é muito mais profunda do que se ela tivesse, por exemplo, apenas os olhos do escapista. Quando o corpo de alguém revela cerca de 50% das características físicas do escapista, podemos deduzir que ele utiliza sua máscara para se proteger da rejeição cerca de 50% do tempo. Seria o caso, por exemplo, de uma pessoa extremamente gorda com tornozelos minúsculos. Ter apenas uma parte do corpo correspondente às características do escapista indica que a ferida da rejeição é menor.
Usar uma máscara significa não sermos nós mesmos. Acreditamos, desde muito jovens, que ela nos protegerá. A primeira reação de uma pessoa que se sente rejeitada é fugir. A criança prestes a criar para si uma máscara de escapista, ao sentir a rejeição, é aquela que viverá a maior parte do tempo em seu mundo imaginário. O que explica por que ela é, em geral, bem-comportada e sossegada, não criando problemas e não fazendo barulho.
Ela se diverte sozinha em seu mundo imaginário, erguendo castelos e fantasiando histórias. Pode inclusive achar que quando bebê foi trocada no hospital ou que foi adotada. É o tipo de criança que inventa todos os motivos para não ficar em casa, que deseja, por exemplo, correr para a escola. Mas que, uma vez na escola, sentindo-se rejeitada ou se rejeitando, também não reconhece aquele ambiente como seu mundo. Uma senhora chegou a me contar que se sentia uma “turista” nos tempos de escola.
Na verdade, porém, esse tipo de criança quer que percebamos que ela existe mesmo não acreditando muito em seu direito de existir. Como exemplo disso, penso numa garotinha que se esconde atrás de um móvel no momento em que seus pais estão com visitas em casa. Ao constatarem sua ausência, todos se põem a procurá-la, mas, mesmo vendo a preocupação geral, ela não deixa seu esconderijo e rumina: “Não quero que me encontrem. Quero que eles se deem conta de que existo.” Eis uma garotinha que crê tão pouco em seu direito de existir que precisa criar situações para tentar provar isso a si mesma.
Sendo geralmente uma criança franzina, ela lembra muitas vezes uma boneca, alguém frágil. Eis por que a mãe costuma superprotegê-la, dizendo que ela é muito pequena para isso, muito pequena para aquilo. A criança acredita nisso de tal forma que desenvolve problemas de crescimento. Para ela, ser amada torna-se então “ser sufocada”. Mais tarde, sua reação será rejeitar ou fugir quando alguém a amar, pois terá medo dessa sufocação. Uma criança superprotegida se sente rejeitada porque crê que não é aceita pelo que é. Para tentar compensar sua compleição franzina, os outros procuram fazer e pensar tudo por ela, e, em vez de se sentir amada nessas circunstâncias, a criança se sente rejeitada em suas capacidades.
Seu desprendimento com relação às coisas materiais lhe cria dificuldades na vida sexual. Ela pode acabar acreditando que a sexualidade interfere com a espiritualidade. Várias mulheres escapistas já me disseram que julgavam que o sexo não era espiritual, sobretudo depois que se tornaram mães. Quando ficam grávidas, é comum os maridos se recusarem inclusive a fazer amor com elas. As pessoas escapistas têm dificuldade em conceber sua necessidade de sexualidade como um ser humano normal. Ou atraem situações em que são rejeitadas no plano sexual pelo parceiro ou se distanciam completamente da própria sexualidade.
A ferida da rejeição é vivida com o genitor do mesmo sexo. Se você se reconhece na descrição de uma pessoa que se sente rejeitada, isso quer dizer que você viveu essa rejeição com seu pai, se você for homem, ou com sua mãe, se for mulher. Esse pai ou essa mãe, portanto, foi o primeiro a contribuir para despertar sua ferida já existente. Então é normal não aceitá-lo e censurá-lo a ponto de odiá-lo.
O genitor do mesmo sexo tem como função nos ensinar a amar, a nos amar e a
dar amor. O genitor do sexo oposto nos ensina a receber amor.
Ao não aceitar aquele, de seus pais, que tem o mesmo sexo que o seu, também é normal decidir não elegê-lo como modelo. Se você se julga com essa ferida, essa não aceitação explica suas dificuldades em se aceitar e se amar.
O escapista se julga sem valor, uma nulidade, um inútil. É por essa razão que ele vai tentar, por todos os meios, ser perfeito – para se valorizar a seus olhos e aos dos outros. A palavra “nulidade” e suas variantes estão bastante presentes em seu vocabulário quando ele fala de si ou dos outros. Ele é capaz de dizer coisas como:
“Meu chefe me dizia que eu era insignificante, então fui embora.”
“Minha mãe é inútil em tudo que se refere a tarefas domésticas.”
“Meu pai sempre foi um zero à esquerda para minha mãe, assim como meu marido é comigo. Não a censuro por ter ido embora.”
Também utilizamos a palavra “nada” no mesmo sentido de “nulidade”. Por exemplo:
“Sei que não valho nada, que os outros são mais interessantes do que eu.”
“Pouco importa o que eu faça, nunca dá em nada, tenho sempre que recomeçar.”
“Faça o que quiser, isso não me afeta em nada.”
Certa vez, um homem escapista contou, durante um workshop, que se sentia inútil e imprestável diante do pai. Ele disse: “Quando ele fala comigo, me sinto derrotado, sinto falta de ar e só penso em escapar. Sua presença é o suficiente para me oprimir.” E uma senhora escapista me contou que, aos 16 anos de idade, decidiu que sua mãe não significava mais “nada” para ela quando esta lhe disse que ela podia desaparecer ou morrer pois isso seria muito oportuno. Para escapar, desligou-se por completo da mãe.
É interessante observar que é principalmente o genitor do mesmo sexo que incentiva a fuga da criança que se sente rejeitada. Uma situação muito comum de acontecer é a da criança que diz que quer sair de casa e a quem um dos pais diz: “Boa ideia, pode ir, assim ficaremos livres de você!” A criança se sente então ainda mais rejeitada e odeia ainda mais aquele que lhe disse isso. Esse tipo de situação acontece com um genitor que também tem a ferida da rejeição. Ele estimula a fuga porque, mesmo não tendo consciência disso, o recurso lhe é familiar.
A palavra “inexistente” também faz parte do vocabulário do escapista. Por exemplo: às perguntas “Como vai sua vida sexual?” e “Como são suas relações com fulano?”, um escapista responderá “inexistente”, quando a maioria das pessoas diria simplesmente que não vai bem.
Ele utiliza também a palavra “sumir”. Dirá, por exemplo: “Meu pai chamava minha mãe de vagabunda... e eu queria sumir” ou “Eu queria que meus pais sumissem”.
O escapista procura a solidão, pois se recebesse muita atenção teria medo de não saber como agir. É como se sua existência fosse um excedente. Em família e em qualquer grupo, ele se apaga. Acredita que merece passar por situações desagradáveis, como se não tivesse o direito de reagir. De qualquer forma, não vê o que poderia fazer de diferente. Tomemos o exemplo de uma garotinha que pede à mãe que a ajude com seus deveres escolares e ouve como resposta: “Peça a seu pai. Não vê que estou ocupada demais e que ele não está fazendo nada?” Sentindo-se rejeitada, sua primeira reação é pensar: “Sou uma pessoa desinteressante, é por isso que minha mãe não quer me ajudar.” Em seguida ela irá procurar um lugar para ficar sozinha.
O escapista costuma ter poucos amigos na escola e, mais tarde, no trabalho. É considerado um solitário que precisa ser deixado em paz. Quanto mais se isola, mais invisível parece tornar-se. Entra num círculo vicioso: quando se sente rejeitado, veste a máscara do escapista para não sofrer, então torna-se tão apagado que os outros não o enxergam mais. Vê-se cada vez mais sozinho e acha aceitável sentir-se rejeitado.
Certa vez, ao encerrar um workshop, no momento em que todos estavam compartilhando suas vivências, fiquei surpresa ao constatar a presença de uma pessoa que eu não havia notado durante os dois dias de curso que eu ministrara! “Mas onde ela estava esse tempo todo?”, pensei. Pouco depois, me dei conta de que ela tinha um corpo de escapista e que deu um jeito de não falar e não fazer perguntas durante o evento, sentando-se atrás de todo mundo, de maneira a não ser vista. Quando aponto para essas pessoas que se retraem muito, elas respondem quase sempre: “Eu não tinha algo interessante para dizer. Por isso não falei nada.”
De fato, o escapista em geral fala pouco. Quando começa a se manifestar em demasia, é para tentar se valorizar, e suas palavras podem parecer arrogantes aos olhos dos outros.
O escapista costuma desenvolver problemas de pele para não ser tocado. Sendo a pele um órgão de contato, seu aspecto pode atrair ou rechaçar outra pessoa. Ouvi diversas vezes indivíduos escapistas dizerem: “Tenho a impressão de que, quando me tocam, me tiram do meu casulo.” Essa ferida induz a pessoa a crer que, se ela viver no seu mundinho, deixará de sofrer, pois não rejeitará nem será rejeitada por ninguém. Eis por que, num grupo, prefere muitas vezes não participar e se retrair. Ela se retira para o seu casulo.
É por isso também que o escapista devaneia com facilidade embora, em geral, seja de modo inconsciente. Tanto que ele pode inclusive pensar que esse comportamento é normal e que os outros estão frequentemente “no mundo da lua”, como ele. Disperso em suas ideias, podemos ouvi-lo dizer às vezes: “Preciso juntar os meus cacos.” Ele tem a impressão de estar em pedaços. Essa sensação está especialmente presente naquele cujo corpo parece desarmônico. Já presenciei relatos de pessoas que disseram ter a nítida impressão de haver uma separação entre a parte superior e a inferior de seu corpo, como se uma linha as apertasse na altura da cintura. Conheci uma senhora que sentia essa linha logo abaixo dos seios. Após aplicar a técnica do abandono que ensino numa de minhas oficinas, ela sentiu as partes superior e inferior de seu corpo se juntarem e ficou pasma com essa nova sensação. Isso lhe permitiu compreender que desde a infância ela não sabia o que era estar verdadeiramente em seu corpo. Não sabia o que significava “estar conectada com a Terra”.
Observei em minhas oficinas, sobretudo nas mulheres escapistas, que elas tendem a sentar numa cadeira com as pernas cruzadas sob as coxas. Não tendo os pés bem conectados ao solo, elas podem evadir-se mais facilmente. O fato de terem pagado o curso indica que, embora sintam dificuldade para se integrar, uma parte delas quer estar ali. Digo-lhes, então, que elas têm a opção de devanear e perder os acontecimentos ou ficar conectadas e participar dos fatos.
Como eu disse antes, o escapista não se sentiu aceito nem acolhido pelo genitor do mesmo sexo. Isso não quer dizer que este necessariamente o rejeitou. Na verdade, foi ele quem se sentiu assim. Essa mesma alma teria retornado com uma ferida de humilhação a ser curada e se sentido humilhada com os mesmos pais tendo a mesma atitude. Em contrapartida, é evidente que o escapista atrai para si mais experiências de verdadeira rejeição do que outra pessoa, como um irmão ou irmã, que não tenha essa ferida.
A pessoa que sofre de rejeição procura incessantemente o amor do genitor do mesmo sexo que ela, seja buscando esse pai ou mãe, seja transferindo sua busca para outras pessoas do mesmo sexo. Julga não ser um indivíduo completo enquanto não houver conquistado esse amor que tanto procura. Ela é muito sensível a qualquer observação procedente desse genitor e se sente rejeitada com facilidade. O sofrimento é tão intenso que, para lidar com ele, ela cultiva o rancor ou até o ódio. Lembre-se de que odiar exige muito amor. É um grande amor decepcionado que se transforma em ódio. A ferida da rejeição é tão profunda que o escapista é, entre os cinco caracteres, o mais inclinado ao ódio. Ele pode facilmente passar de uma fase de grande amor a outra de grande ódio. Isso indica seu intenso sofrimento interior.
O escapista tem medo de rejeitar o genitor do sexo oposto. Modera então suas ações ou palavras diante dele. Não é ele mesmo por causa de sua ferida. Esquiva-se para não rejeitá-lo porque não quer ser acusado de rejeitar alguém. No entanto, com o genitor do mesmo sexo, ele quer que seja este a se esquivar para evitar a rejeição. Recusa-se a ver, mais uma vez, que é sua ferida não curada lhe causa esse sentimento, que não tem nada a ver com seu pai ou sua mãe. Se o escapista vive uma experiência de rejeição com o genitor ou com outra pessoa do sexo oposto ao seu, ele acusa a si mesmo por essa situação e se rejeita dizendo que é culpa sua se o outro o rejeitou.
Se você se vê com a ferida da rejeição, é muito importante aceitar que, mesmo que seu pai ou sua mãe o rejeite efetivamente, você atrai para si esse tipo de genitor e situação porque sua ferida não está curada. Se continuar a acreditar que tudo que lhe acontece é culpa dos outros, sua ferida não irá sarar. Em consequência de sua reação a seus pais, você se sente mais facilmente rejeitado pelas pessoas do mesmo sexo que você e tem medo de rejeitar as pessoas do sexo oposto. De tanto temer rejeitá-las, não fique surpreso se terminar fazendo exatamente isso. Chamo sua atenção para o fato de que quanto mais alimentamos um medo, mais depressa ele se concretiza.
Quanto mais grave é a ferida da rejeição numa pessoa, mais ela atrai para si
circunstâncias para ser rejeitada ou rejeitar alguém.
Quanto mais o escapista rejeita a si próprio, mais medo ele tem de ser rejeitado. Ele se desvaloriza. Compara-se frequentemente aos que julga serem melhores do que ele, o que o leva a crer que é pior que os outros. Não vê que pode ser melhor do que muitas pessoas em determinados assuntos. Tem até dificuldade para acreditar que outro indivíduo possa escolhê-lo como amigo ou cônjuge ou que possa amá-lo de verdade. Uma mãe me confessou certa vez que, quando os filhos lhe diziam que a amavam, ela não compreendia por quê!
O escapista, portanto, vive na ambiguidade. Quando é escolhido para algo, não acredita e rejeita a si próprio, muitas vezes sabotando uma situação. Quando não é selecionado, sente-se rejeitado pelos outros. Conheci uma pessoa que cresceu numa família com várias crianças e contou que seu pai nunca a escolhia para nada. Isso a fez deduzir que os outros irmãos eram melhores do que ela. E achou que fazia sentido eles serem escolhidos antes dela. É um círculo vicioso.
Não é raro para um escapista dizer ou pensar que o que diz ou faz não tem valor. Quando recebe muita atenção, ele fica desconcertado, receando ocupar um espaço excessivo. Se ocupa muito espaço, julga incomodar. Ser importuno, para ele, significa que será rejeitado pelas pessoas a quem importuna ou julga importunar. Mesmo na barriga da mãe, o escapista não ocupa muito lugar. Ele continuará a ser uma pessoa apagada até curar sua ferida.
Quando ele fala e alguém o interrompe, sua primeira reação é pensar que ele não é importante e geralmente para de falar. Uma pessoa que não tem a ferida da rejeição tenderia a achar que é o que ela diz que não é importante, e não ela mesma. O escapista também tem dificuldade para emitir sua opinião quando lhe é solicitado, julgando que os outros se sentirão afrontados e o rejeitarão.
Se ele tiver um pedido a fazer a alguém que esteja ocupado, desistirá e não dirá nada. Ele sabe o que quer, mas não ousa pedir, julgando não ser suficientemente importante para importunar o outro.
Várias mulheres me revelaram que, a partir da adolescência, deixaram de ser francas com a mãe, com medo de não ser compreendidas. Na verdade, elas acreditam que ser compreendido é ser amado. Mas ser compreendido não tem nada a ver com ser amado. Amar é aceitar o outro mesmo não o compreendendo. E o que acontece é que, por causa dessa crença, elas se tornam pessoas evasivas, fugindo de muitos assuntos e temendo abordar determinados temas. (E não vamos esquecer que, no caso de um homem escapista, ele vive a mesma coisa com seu pai e os outros homens.)
Outra característica do escapista é procurar a perfeição em tudo que faz, pois ele pensa que, se cometer um erro, será julgado. Para ele, ser julgado equivale a ser rejeitado. Como não acredita na perfeição do seu ser, compensa isso tentando alcançar a perfeição no que faz. Lamentavelmente, confunde ser com fazer. Sua busca pela perfeição pode inclusive tornar-se obsessiva, levando-o a se ocupar de uma tarefa por mais tempo do que o necessário. E isso faz com que ele atraia para si novas situações de rejeição por parte dos outros.
O maior pesadelo do escapista é o pânico. Pressentindo que pode entrar em pânico em determinada situação, sua primeira reação é salvar a pele, esconder-se ou fugir. Ele acha que, fugindo, evitará uma desgraça. Está tão convencido de não poder administrá-lo que termina acreditando piamente numa possibilidade de pânico futuro, quando esse não é o caso. Querer desaparecer é tão inato no escapista que, por ocasião de regressões ao estado fetal, ouvi muitos dizerem que tentam inclusive se esconder no ventre de suas mães. Podemos ver que isso começa muito cedo.
O escapista entra em pânico e fica paralisado mais facilmente frente ao genitor ou a pessoas do mesmo sexo que ele. Com o genitor ou as pessoas do sexo oposto, ele não vive o mesmo medo. Consegue enfrentá-los mais facilmente. Também observei que o escapista utiliza bastante a palavra pânico em seu vocabulário. Ele dirá, por exemplo: “Entro em pânico só de pensar em parar de fumar.” Uma pessoa sem a ferida da rejeição dirá simplesmente que tem dificuldade para largar o cigarro.
Nosso ego faz tudo que pode para não enxergarmos nossas feridas. Por quê? Porque, inconscientemente, lhe permitimos fazê-lo. Temos tanto medo de reviver a dor associada a cada ferida que evitamos admitir que, se vivemos a rejeição, é porque rejeitamos a nós mesmos. Os que nos rejeitam estão em nossas vidas para nos mostrar o tanto que todos rejeitamos a nós mesmos.
O medo de entrar em pânico também faz com que o escapista “perca a memória” em diversas situações. Ele julga tratar-se de um problema de memória quando, na realidade, trata-se apenas de medo. Observo frequentemente durante meus workshops que, quando um participante de caráter escapista deve ir à frente do grupo para fazer uma exposição, mesmo estando bem preparado e inteirado do assunto, no último minuto seu medo se torna tão intenso que lhe dá um branco. Às vezes ele fica paralisado diante de todos. Felizmente esse problema vai se corrigindo por si só à medida que o escapista resolve sua ferida de rejeição.
Levando em conta o que afirmamos até aqui, é evidente que a ferida da rejeição afeta nossa maneira de nos comunicar. Os temores do escapista, que o impedem de se comunicar com clareza e realizar suas tarefas, têm a ver com os medos: de não ser interessante, de ser considerado sem valor, de ser incompreendido, de entrar em pânico, de que o outro o escute por obrigação ou polidez. Se você se vê com esses medos, eis um bom método para descobrir que você não está sendo você mesmo e que a ferida da rejeição se abriu.
É interessante observar que nossas feridas afetam igualmente nossos hábitos alimentares. O ser humano alimenta seu corpo físico da mesma maneira que faz com seus corpos emocional e mental. No que se refere à alimentação, o escapista prefere pequenas porções e costuma perder o apetite quando está às voltas com medos ou emoções intensos. Entre os tipos apresentados no livro, o escapista é o mais predisposto a sofrer de anorexia. O anoréxico corta praticamente toda a comida por se julgar gordo demais, quando, na realidade, é magro. Utiliza esse método para tentar desaparecer. E, se começa a comer vorazmente, é porque está tentando escapar de alguma coisa. Entretanto, essa é uma opção de fuga rara no escapista. Em geral, ele prefere a bebida ou as drogas.
Mas ele também pode se voltar para os doces quando sente medo. Como esse sentimento costuma sugar a energia, é comum achar que, ingerindo açúcar, se terá mais energia. Infelizmente, essa dose de açúcar fornece apenas uma energia temporária, que deve ser reposta regularmente.
Nossas feridas impedem que sejamos nós mesmos. Isso cria um bloqueio que acaba nos causando doenças. Cada tipo atrai para si males específicos em função de suas atitudes interiores.
Eis algumas enfermidades e doenças que podem se manifestar no escapista:
diarreia. Ele rejeita a comida antes que o corpo tenha tido tempo de assimilar corretamente os nutrientes, assim como rejeita a si próprio ou rejeita impensadamente uma situação que poderia trazer coisas boas para sua vida.
arritmia. Uma irregularidade no ritmo cardíaco. Quando sente palpitações, ele tem a impressão de que o coração quer sair do peito, partir. É outra maneira de querer escapar de uma situação penosa.
câncer. É uma doença que ele pode desenvolver. Mencionei acima que a ferida da rejeição causa tanto mal que é completamente normal para um escapista odiar seu genitor do mesmo sexo, aquele que ele acusou de tê-lo feito sofrer em sua infância. Por outro lado, ele sente muita dificuldade em perdoar-se por ter detestado seu pai ou sua mãe, preferindo não ver ou não saber que o detestou ou que ainda o detesta. Se o escapista não conquistar o direito de odiar seu genitor do mesmo sexo, pode desenvolver essa doença, que está associada ao rancor ou ao ódio em decorrência de uma dor vivida no isolamento.
Uma pessoa que consegue admitir para si mesma que detestava um
dos pais não desenvolve câncer. Ela pode criar para si outra doença grave se cultivar ideias de violência com relação aos pais, mas não será câncer. Este se manifesta, sobretudo, na pessoa que sofreu muito e que acusa a si mesma. Ela não quer enxergar que detestou o pai ou a mãe porque admitir seu rancor seria admitir que ela é alguém ruim e sem coração. Seria também aceitar que rejeita esse pai, embora o acuse de rejeitá-la.
O escapista não se deu o direito de ser criança. Fez de tudo para
amadurecer rápido porque julga que será menos rejeitado assim. É por essa razão que o seu corpo ou parte do seu corpo se assemelha ao de uma criança. O câncer indica que ele não dá à criança dentro dele o direito de ter sofrido. Nada mais humano do que detestar o pai que julgamos responsável pelo nosso sofrimento, e isso o escapista não aceita. problemas respiratórios. Podem afetar o escapista principalmente quando ele entra em pânico.
alergias. Também podem afetá-lo, pois refletem a rejeição que ele sente. vômito. É algo que ele pode fazer para expulsar o alimento que acaba de ingerir, indicando sua rejeição a uma pessoa ou situação. Já ouvi alguns jovens dizerem: “Eu queria vomitar minha mãe (ou meu pai).” O escapista pode exprimir sua vontade de “vomitar” uma pessoa dizendo “Você me dá nojo” ou “Isso me dá nojo”. É sua maneira de exprimir sua vontade de rejeitar alguém ou alguma coisa.
ausências. Sofrer ausências ou desmaiar são outros meios de escapar de uma situação ou pessoa.
coma. Em casos mais sérios, o coma pode ser usado pelo escapista como fuga.
agorafobia. Ver a definição desse distúrbio comportamental no Capítulo
3.
hipoglicemia ou diabetes. Quando o escapista abusa do açúcar, pode cultivar essas doenças do pâncreas.
depressão. Quando desenvolve um ódio muito forte pelo pai ou pela mãe em consequência da dor causada pela rejeição que ele viveu ou ainda vive, e se julga em seu limite emocional e mental, ele pode se tornar deprimido ou maníaco-depressivo. Se pensa em suicídio, não fala sobre isso e, se decidir concretizá-lo, fará de tudo para não falhar. Os que falam muito em suicídio e falham ao tentá-lo costumam trazer a ferida do abandono. É o tema do próximo capítulo.
psicose. O escapista que ainda jovem tem dificuldade de reconhecer seu valor é levado a tentar ser igual a outra pessoa: ele se dilui na personalidade de alguém a quem admira. Por exemplo, uma adolescente que quer ser Marilyn Monroe poderá passar a vida tentando ser igual a ela. O perigo desse comportamento exagerado é que mais tarde ele pode se transformar em psicose.
As enfermidades ou doenças aqui mencionadas também podem se manifestar em pessoas às voltas com os outros tipos de feridas, mas parecem mais frequentes naquelas que sofrem de rejeição.
Se você reconheceu a ferida da rejeição em si próprio, é mais do que provável que seu genitor do mesmo sexo também tenha se sentido rejeitado pelo respectivo genitor do mesmo sexo. Além do mais, há grandes chances de ele se sentir rejeitado por você. Ainda que tudo se dê de forma inconsciente de ambos os lados, isso se mostrou verdadeiro após estudos feitos com milhares de pessoas do tipo escapista.
Lembre-se de que a razão principal da presença de qualquer ferida é a incapacidade que temos de nos perdoar pelo sofrimento que causamos a nós mesmos ou aos outros. É difícil nos perdoarmos porque, em geral, nem percebemos que nos machucamos tanto. Quanto mais intensa a ferida da rejeição, mais evidente fica sua tendência a rejeitar a si mesmo ou a outras pessoas, situações ou projetos.
Criticamos nos outros tudo que nós mesmos fazemos e não queremos enxergar.
Essa é a razão pela qual atraímos para o nosso círculo pessoas que refletem o que fazemos aos outros ou a nós mesmos.
Outro meio de nos tornarmos conscientes de que nos rejeitamos ou rejeitamos outra pessoa é a vergonha que sentimos quando queremos nos esconder ou dissimular um comportamento. É normal achar constrangedor ter as mesmas atitudes que criticamos nos outros. Não queremos, principalmente, que eles descubram que agimos como eles.
Não se esqueça de que tudo o que mencionei só é vivenciado quando aquele
que sofre de rejeição decide vestir sua máscara de escapista, julgando assim
evitar sofrer segundo a gravidade da ferida.
Os comportamentos característicos do escapista são ditados pelo medo de reviver a ferida da rejeição. No entanto, é provável que você se identifique apenas em certos comportamentos, e não em tudo que escrevi. É quase impossível uma pessoa se reconhecer em todos os comportamentos mencionados. Cada ferida tem suas próprias características. Essas maneiras de pensar, sentir, falar e agir ligadas a cada ferida indicam, portanto, uma reação ao que se passa na vida. Uma pessoa que está agindo com base nessa reação não vive com o coração em paz e não pode se sentir bem ou feliz. Por isso é tão útil identificar os momentos em que você está sendo você mesmo ou está reagindo às suas feridas. Assim, conseguirá se tornar dono da sua vida em vez de se deixar guiar pelos seus medos.
Este capítulo tem por objetivo ajudá-lo a tomar consciência da ferida da rejeição. Se você se reconhece na descrição da máscara do escapista, o último capítulo contém todas as informações de que irá precisar para curar essa ferida e voltar a ser você mesmo, deixando de acreditar que a vida se resume à rejeição. Se não se reconhece nessa ferida, sugiro que pergunte àqueles que o conhecem bem se eles concordam com você. Já mencionei que é possível ter somente feridas leves. Nesse caso, você só possuiria determinadas características. Ressalto a importância de confiar na descrição física, pois o corpo nunca mente.
Se você reconhece essa ferida em algumas pessoas do seu convívio, não tente mudá-las. Em vez disso, use o que está aprendendo neste livro para desenvolver mais compaixão por elas, para compreender melhor seus comportamentos reativos. Se elas demonstrarem algum interesse nesse assunto, talvez seja bom que leiam o livro.
CARACTERÍSTICAS DA FERIDA DA
REJEIÇÃO
DESPERTAR DA FERIDA: Da concepção até 1 ano de vida. Não sente o direito
de existir. Manifesta-se com a figura parental do mesmo sexo.
MÁSCARA: Escapista.
CORPO: Contraído, estreito, esguio ou fragmentado.
OLHOS: Pequenos, com medo, por vezes com olheiras.
VOCABULÁRIO: “Nulidade”, “nada”, “inexistente”, “sumir”.
CARÁTER: Desprendimento com relação ao material. Perfeccionista.
Intelectual. Passa de fases de grande amor a fases de ódio profundo.
Não acredita em seu direito de existir. Dificuldades sexuais. Julga-se
sem valor. Procura a solidão. Apagado. Capacidade de se tornar
invisível. Descobre diferentes meios de fuga. Devaneia com facilidade.
Julga-se incompreendido. Dificuldade de deixar viver sua criança
interior.
MAIOR MEDO: Pânico.
ALIMENTAÇÃO: Perda de apetite em virtude das emoções ou do medo.
Come em pequenas porções. Para fuga: açúcar, álcool ou drogas.
Predisposição à anorexia.
DOENÇAS POSSÍVEIS: Diarreia • arritmia • câncer • problemas respiratórios •
alergias • vômitos • desmaios • coma • hipoglicemia • diabetes •
depressão • tendência ao suicídio • psicose.
ASPECTO FÍSICO DO DEPENDENTE
(FERIDA DO ABANDONO)