As cinco feridas emocionais
5. A traição
CAPÍTULO 5
A TRAIÇÃO
É possível trair, ou sofrer uma traição, de diversas formas. Segundo o dicionário, trair significa “ser infiel a”, “abandonar traiçoeiramente” ou “delatar”. O termo mais importante que se associa à traição é o seu oposto, a “fidelidade”. Ser fiel é cumprir seus compromissos, ser leal e devotado. Podemos confiar numa pessoa fiel. Quando a confiança é destruída, podemos ser vítimas da traição.
Essa ferida é despertada entre os 2 e os 4 anos de idade, no momento em que a energia sexual se desenvolve, engendrando assim o complexo de Édipo. Essa ferida é vivida com o genitor do sexo oposto. A alma que quer trabalhar essa ferida atrai para si um genitor com quem terá uma forte conexão de amor e estabelecerá uma grande atração mútua, logo, um forte complexo de Édipo.
Segundo Sigmund Freud, criador da psicanálise e da teoria do complexo de Édipo, todos nós vivemos esse complexo, mas em diferentes graus. Toda criança, sobretudo entre os 2 e os 6 anos, apaixona-se pelo genitor do sexo oposto ou pela pessoa que desempenha esse papel, pois é nessa idade que sua energia sexual se desenvolve. Daí em diante a criança passa a lidar com sua força vital, sua força sexual, a que representa sua capacidade de criar.
É natural que, ao nascer, o bebê grude na mãe e tenha uma enorme necessidade de sua atenção e de seus cuidados. Mas a mãe deve seguir com suas atividades cotidianas e cuidar dos outros membros da família também, como fazia antes da chegada do bebê. Se ela se curva a todos os seus caprichos a ponto de se tornar sua escrava, a criança começa a achar que pode substituir o pai e satisfazer a mãe sozinha. Nesse caso, segundo o Dr. Freud, a criança não passará pela fase edipiana essencial ao seu desenvolvimento, o que lhe será muito prejudicial psicológica e sexualmente quando adulta.
Atravessar bem a fase edipiana significa que a criança foi capaz de reconhecer que o pai foi essencial em sua criação. Mesmo que ele não esteja presente, a mãe deve fazer a criança perceber que esse pai existe e que é tão importante quanto ela própria. Assim que a criança começa a compreender que houve a união dos dois sexos para concebê-la, ela desenvolve o interesse pelo sexo oposto. Desenvolve então um desejo inconsciente de fazer um bebê com o genitor do sexo oposto. Ao mesmo tempo, é seu poder de criação que se desenvolve. Isso explica o comportamento das meninas que tentam seduzir o pai e dos meninos, a mãe. Eles fazem de tudo para obter o afeto do genitor do sexo oposto. E vão tentar protegê-lo apesar da decepção de não receber a atenção desejada. Quando o genitor do mesmo sexo da criança magoa o do sexo oposto, a criança vivencia essa mágoa e pode chegar a desejar a morte do genitor que ela vê como vilão.
Infelizmente, na maior parte do tempo o complexo de Édipo é mal vivenciado porque a mãe é possessiva demais em relação ao filho e o pai em relação à filha. Quanto mais desvalorizado o pai, mais difícil resolver o complexo de Édipo. Observei que aqueles que são vítimas de traição não resolveram seu complexo de Édipo quando jovens. Isso significa que seu apego ao genitor do sexo oposto é muito maior, o que mais tarde afetará suas relações afetivas e sexuais. Eles tenderão a compará-lo o tempo todo ao seu parceiro ou criarão expectativas irreais a respeito de seu companheiro por causa do que não receberam do pai ou da mãe. No momento do ato sexual, essas pessoas sentirão mais dificuldade de se entregar completamente, pois temerão ser enganadas pelo outro.
A alma que encarna com o objetivo de curar a ferida da traição escolhe pais que utilizam a sedução com a criança e que são mais centrados em si mesmos. Esse tipo de pai e mãe faz com que a criança sinta que eles precisam dela, e tudo que a criança quer é que o genitor do sexo oposto se sinta bem. Ela tenta por todos os meios ser especial para ele. Um homem que sofre da ferida da traição me contou que, quando criança, sua mãe e suas irmãs o valorizavam dizendo que só ele conseguia deixar os sapatos brilhando quando os engraxava ou o chão da casa limpíssimo quando o varria. Portanto, ao executar essas duas tarefas ele se sentia especial. Ele não compreendia que era manipulado pela sedução. Este é um exemplo que demonstra como é possível vivenciar inconscientemente a traição quando jovem.
A criança se sente traída pelo genitor do sexo oposto sempre que este não cumpre uma promessa ou trai sua confiança. Ela vivencia essa traição principalmente em sua conexão amorosa ou sexual. Por exemplo, uma menina experimenta a traição sempre que percebe que seu pai se sente traído pela sua mãe. É como se ele a estivesse trocando. Um sentimento de traição pode ser igualmente experimentado quando a menina é ignorada pelo pai depois da chegada de um bebê menino.
Quando a criança começa a viver experiências de traição, cria para si uma máscara para se proteger, como no caso das outras feridas. Essa máscara é a do controlador. O tipo de controle que ele exerce não é motivado pela mesma razão que o controle exercido pelo masoquista. O masoquista controla para não ter vergonha de si mesmo ou para não causar vergonha a alguém, ao passo que o controlador age para garantir que os compromissos que assumiu sejam respeitados e para ser fiel e responsável, de maneira a se assegurar que os outros cumpram igualmente os seus compromissos.
O controlador cria para si um corpo que transmite força e poder e que parece dizer: “Sou responsável, podem confiar em mim.” Podemos reconhecer o homem controlador pelos ombros fortes, mais largos que os quadris. Às vezes essa diferença entre ombros e quadris não é tão grande, mas, como eu disse num capítulo anterior, confie em sua intuição. Quando você tiver a sensação de que a parte de cima do corpo de alguém emana mais energia, provavelmente essa pessoa é vítima da traição. Em contrapartida, se você vir um homem com ombros largos, bíceps vigorosos e peito estufado usando uma camiseta justa para exibir os músculos, pode apostar que esse homem tem uma ferida da traição mais grave.
De maneira geral, as pessoas portadoras da máscara do controlador conquistam seu lugar e são muito atraentes. Parece que algo nelas sempre diz “olhe para mim”. Também costumam ter alguns quilos a mais, mas não se pode dizer que sejam gordas. São qualificadas como pessoas fortes. Não parecem gordas vistas de costas. Entretanto, podem ter uma barriga proeminente. É uma maneira de mostrar força – os orientais chamam isso de força do Hara.
Quero deixar claro que o ganho de peso de quem quer que seja está sempre ligado a uma parte mental dessa pessoa que julga não ocupar seu devido lugar no mundo. Portanto, o excesso de peso não significa necessariamente a ferida da humilhação explicada no capítulo anterior. Para o masoquista, o peso é um meio adicional de se sentir humilhado. No caso das outras feridas, engordar tem a ver com o desejo de ocupar mais espaço. Observe que o escapista e o dependente, que são muito esguios, não querem ocupar mais espaço. Isso ajuda o escapista a se tornar menos visível e o dependente a parecer mais fraco, logo, a conseguir ajuda.
Quando o controlador olha para uma pessoa, ele tem o dom de fazê-la sentir-se especial, importante. Seu olhar é intenso e sedutor. A intensidade de seu olhar o ajuda a perceber o que acontece à sua volta. O controlador também usa muito os olhos para manter o outro a distância ou para intimidá-lo. Dessa forma, protege-se, dissimulando sua fraqueza, sua vulnerabilidade ou sua impotência.
Assim como acontece com todas as feridas, quando uma pessoa possui apenas uma das características mencionadas, sua ferida é menos grave. Reconhecemos o domínio em que uma pessoa é controladora e tem medo de ser traída pela parte do corpo que indica força ou poder. Por exemplo, quando a mulher ou o homem tem quadris largos e barriga proeminente, como uma boa proteção, isso indica raiva do sexo oposto, sobretudo no campo sexual. É provável que a pessoa tenha se sentido assediada sexualmente quando mais jovem ou tenha sido vítima de abuso sexual, o que explica essa forma de proteção.
Se você se reconhece na descrição física do controlador mas é uma pessoa introvertida, talvez seja ainda mais difícil se identificar nos comportamentos citados a seguir, pois o controle que você exerce é dissimulado, logo, muito mais difícil de aflorar à consciência. Se for esse o caso, as pessoas que o conhecem podem lhe dizer, depois de ler o trecho a seguir, se você usa a máscara de controlador. Quando a pessoa é mais extrovertida, seu controle é mais aparente e fácil de constatar.
Quanto ao comportamento e às atitudes do controlador, a força é uma característica comum a todas as pessoas que têm uma ferida da traição. É importante para elas exibir força e, principalmente, coragem. Muito exigentes consigo mesmas, querem mostrar aos outros do que são capazes. Percebem todo ato de covardia (portanto, falta de coragem) como uma traição. Recriminam-se energicamente quando desistem de um projeto por medo de ir até o fim. Têm muita dificuldade de aceitar a fraqueza dos outros.
Como sentem dificuldade de aceitar qualquer forma de traição, proveniente delas mesmas ou dos demais, se esforçam ao máximo para ser pessoas responsáveis, fortes, especiais e importantes. Dessa forma, o controlador satisfaz seu ego, que não suporta perceber que ele próprio seja capaz de cometer uma traição.
Não se esqueça de que todas as nossas feridas são expostas para nos lembrar de que, se os outros nos fazem sofrer, é porque fazemos a mesma coisa a eles ou a nós mesmos. Isso pode não ser compreendido nem aceito pelo ego. Se você se reconhece na máscara do controlador e sente certa resistência ao ler estas linhas, é o seu ego que resiste, e não seu coração.
Entre as cinco feridas, o controlador é o que cria mais expectativas com relação aos outros, pois gosta de prever e controlar tudo. Mencionei num capítulo anterior que o dependente também cria muitas expectativas com relação aos demais, mas são expectativas referentes à sua necessidade de ser ajudado e apoiado, devido à ferida do abandono. Assim, ele se sente importante. As expectativas do controlador, por sua vez, têm como objetivo verificar se os outros estão fazendo direito o que devem fazer e se são confiáveis. O controlador também tem grande habilidade para adivinhar as expectativas alheias. Em geral, quando diz ou responde alguma coisa, é em função das expectativas do outro, o que não significa, porém, que ele tenha intenção de fazer realmente o que acaba de dizer.
O controlador tem uma personalidade forte. Afirma suas crenças com veemência e espera que concordem com elas. Forma rapidamente uma opinião sobre determinada pessoa ou situação e tem convicção de que a razão está do seu lado. Afirma seu ponto de vista de maneira categórica e quer, a todo preço, convencer os demais. Diz com frequência “Você entendeu?” para se certificar de que foi bem compreendido. Acredita que, quando alguém o compreende, é porque está de acordo com ele, o que, claro, não é verdade. Perguntei a várias pessoas controladoras se elas se davam conta de que, ao exprimir sua opinião, tentavam me convencer de algo – mas elas não tinham notado que faziam isso. Toda máscara tem um ponto em comum: no momento em que a pessoa a veste, ela não tem consciência de que o faz. Aqueles que a cercam, em contrapartida, veem com mais facilidade a máscara usada por ela.
A pessoa controladora toma cuidado para não se colocar em situações de confronto em que não teria o controle. Quando se vê rodeada de pessoas que considera rápidas e fortes, ela se retira, temendo não estar à altura.
O controlador é veloz em suas ações. Compreende ou quer compreender tudo prontamente, afligindo-se quando levam muito tempo para explicar ou contar alguma coisa. Interrompe com frequência e responde antes mesmo que seu interlocutor tenha terminado. Em contrapartida, se alguém ousa lhe dar o mesmo tratamento, responde irritado: “Deixe-me terminar, ainda não concluí!”
Talentoso e ágil, ele não tem a mínima paciência com os lentos e precisa se esforçar para não se estressar com eles. É muito comum ele tentar controlar os outros nesse tipo de situação. Por exemplo, seguir de automóvel outro motorista que dirige lentamente o deixa impaciente e furioso. O pai controlador, por sua vez, exige que seus filhos sejam rápidos e aprendam depressa. O mesmo se dá no que diz respeito a si próprio. Quando a coisa não anda no ritmo que ele quer, e principalmente quando é defrontado com algum imprevisto, ele se enfurece. Adora ser o primeiro a terminar o que quer que esteja fazendo, em especial quando se trata de uma competição. Terminar em primeiro lugar é ainda mais importante do que fazer direito. Às vezes chega a mudar as regras do jogo para que o vento sopre a seu favor.
Quando os acontecimentos não correm segundo suas expectativas, ele se torna agressivo. Mas não se vê como uma pessoa agressiva; enxerga-se na verdade como alguém que marca presença, que é forte e não se deixa engabelar. Dos cinco tipos de personalidade, o controlador é o de humor mais instável. Num momento, pode transbordar amor e atenção e, no minuto seguinte, perder as estribeiras por causa de um pequeno incidente. Seus amigos e parentes não sabem como agir. Algumas pessoas podem vivenciar esse tipo de atitude como traição.
O controlador deve, então, trabalhar a paciência e a tolerância, sobretudo quando uma situação o impede de fazer as coisas à sua maneira e segundo suas expectativas. Por exemplo, se estiver doente, ele fará de tudo para se curar o mais rápido possível a fim de poder continuar a cuidar de seus afazeres. Quando os de seu convívio adoecem, ele não tem paciência.
O controlador é levado a “futurizar”, isto é, a tentar prever o futuro. Sua mente é muito ativa. Quanto mais intensa a ferida, mais ele quer ter o controle de tudo para evitar ser vítima de traição. Os principais inconvenientes dessa atitude são o desejo de que tudo aconteça como ele previu e a criação de um monte de expectativas com relação ao futuro. Essa atitude o impede de viver bem o aqui e agora. Por exemplo, quando está no trabalho fica planejando as férias, mas, quando estas chegam e ele embarca para longe, passa a programar seu retorno à labuta ou se preocupa com o que está acontecendo em casa durante sua ausência. Em geral, ele fica mais ansioso por verificar se tudo se dará como ele previu do que por desfrutar do momento presente.
O controlador gosta de chegar com antecedência para garantir o controle de tudo. Detesta se atrasar e não tolera as pessoas que se atrasam, embora isso lhe dê outra oportunidade de controlá-las, tentando mudá-las. Fica aflito quando termina uma tarefa fora do prazo ou alguém lhe entrega um trabalho com atraso. Essa dificuldade é vivida, em especial, com as pessoas do sexo oposto, com quem ele se enerva mais rapidamente. Como é exigente, é comum ele não conceder a si mesmo ou aos outros tempo suficiente para executar determinado trabalho.
Para ele, é tão difícil delegar uma tarefa quanto confiar no outro para realizá-la. Será levado a verificar, vezes sem conta, se aquilo está sendo feito conforme suas expectativas. É igualmente difícil, para o controlador, mostrar a alguém como fazer algo e esse alguém demorar para aprender. Ele não tem tempo a perder. Então, quando delega, são atividades fáceis ou tarefas pelas quais não será criticado se não forem bem-feitas. Eis por que o controlador precisa ser rápido: ele faz quase tudo sozinho; quando isso não acontece, ele se dedica a vigiar os que o ajudam.
Ele é mais exigente com os outros do que consigo mesmo. Tem a tendência de confiar com mais facilidade nas pessoas do mesmo sexo que ele e de vigiar e controlar mais as do sexo oposto. Ressalto que a ferida da traição é despertada no controlador sempre que ele está na presença de uma pessoa relapsa com seus deveres.
O controlador, julgando-se trabalhador e responsável, não aceita o ócio. Segundo ele, uma pessoa só tem direito ao ócio depois que executar todas as tarefas pelas quais é responsável. Ver uma pessoa sem fazer nada, sobretudo do sexo oposto, lhe dá nos nervos. Qualifica-a de “preguiçosa” e desconfia dela. Ele sempre dá um jeito para que todos saibam de tudo que realizou, como procedeu e quanto fez; assim, veem como é responsável e como podem confiar nele. O controlador detesta não ter a confiança dos demais. Considera-se tão empenhado e talentoso que acredita que todos devem sempre reportar-se a ele. No entanto, não enxerga sua própria dificuldade de confiar nos outros.
O controlador resiste a se abrir com quem quer que seja, pois teme que um dia suas confidências sejam usadas contra ele. Precisa confiar de verdade em alguém para que este se torne seu confidente. Em contrapartida, é o primeiro a contar aquilo que lhe confidenciaram, porque acredita que tem uma boa razão para fazê-lo.
Gosta de acrescentar uma pimentinha ao que os outros dizem ou fazem. Por exemplo, quando uma mãe repreende o filho, o pai controlador, passando ao lado deles, reforça: “Você ouviu o que sua mãe acabou de falar?” O assunto não é da sua conta, mas mesmo assim ele mete o bedelho. Se essa situação acontece com uma menina, há fortes chances de que ela vivencie isso como uma traição, sobretudo quando é a queridinha do pai e este não sai em sua defesa quando a mãe a castiga. Em geral, o controlador gosta de ter a última palavra, e é por isso que sempre tem alguma coisa a acrescentar a tudo... ou a quase tudo.
Interfere exageradamente nos assuntos alheios. Como é rápido em perceber as coisas que se passam à sua volta e se julga mais forte do que os que estão ao seu redor, costuma se encarregar de tudo. Acha que deve ajudá-los a organizar suas vidas. Não compreende que age assim para ter o controle. Cuidando dos outros, pode controlar o que eles vão fazer e também como e quando farão. Quando o controlador se ocupa dos problemas alheios, ele tem a sensação de que os outros são mais fracos do que ele. Esta é uma maneira disfarçada de exibir a própria força. Enquanto não acreditar de verdade em sua força, fará de tudo para tentar demonstrá-la aos outros.
Por outro lado, o controlador é muito sensível. Mas essa sensibilidade não aparece, pois ele está ocupado demais em mostrar sua força. Como já vimos, o dependente cuida dos outros para garantir ajuda e apoio. O masoquista age assim para ser uma boa pessoa e não envergonhar ninguém. O controlador, por sua vez, cuida dos problemas dos outros para não ser vítima de traição ou para se certificar de que esses indivíduos corresponderão às suas expectativas. Se você se vê como uma pessoa que se julga responsável por dar um jeito na vida de todos aqueles a quem ama, sugiro que analise detidamente sua motivação.
O ego do controlador prevalece facilmente quando alguém o repreende, pois ele não gosta de ser vigiado, em especial por outro controlador. Experimenta grande inquietação diante de pessoas autoritárias, pois julga que elas querem controlá-lo. Justifica-se e sempre encontra uma boa razão para fazer as coisas à sua maneira. Admite com bastante dificuldade seus medos e recusa-se a falar de suas fraquezas. Desde criança gosta de fazer as coisas sozinho. Ele quer fazer tudo do seu jeito, mas adora que os outros o reconheçam, o felicitem e, principalmente, notem o que fez.
Ele evita mostrar sua vulnerabilidade, temendo que outra pessoa se aproveite disso e o controle. Gosta de se mostrar impetuoso, corajoso e forte sempre que possível.
Costuma se guiar pela própria cabeça. Diz aos outros o que querem ouvir, mas só faz o que quer. Eis um exemplo: um dia, meu marido e eu contratamos um homem do tipo controlador para fazer uns reparos lá em casa. Expliquei-lhe o que queria que fizesse e por onde gostaria que começasse. Percebi que ele não estava concordando nem gostando que eu lhe dissesse o que fazer, uma vez que era ele o especialista. Tentou me convencer a adotar sua maneira de ver as coisas, sem levar em conta as minhas prioridades. Respondi que compreendia seu ponto de vista, mas que, considerando nossas necessidades, meu marido e eu preferíamos outra coisa. “Está bem!”, respondeu ele. Dois dias mais tarde, no entanto, descobri que ele tinha feito tudo do jeito dele. Quando lhe comuniquei meu desagrado, pois não fizera nada como eu havia pedido, suas justificativas já estavam todas prontas. Ele deu um jeito de ter a última palavra, pois já era tarde demais para refazer tudo.
Mencionei anteriormente que o controlador não gosta das pessoas autoritárias, mas ele não se dá conta do número de ocasiões em que dá ordens e decide pelos outros. Acho muito curioso observar um controlador ocupando um cargo de direção ou vigilância num lugar público como um restaurante, um hospital, uma loja, etc. Ele quer saber tudo que se passa; dá sua opinião sem que esta seja solicitada; não consegue se abster de acrescentar um comentário ao que os outros fazem ou dizem.
Certo dia, num restaurante, observei um garçom controlador dar ordens a outro garçom que tinha todas as características do escapista. O controlador dizia sem parar ao escapista como ele devia servir e o escapista erguia os olhos para o teto em sinal de irritação. Eu acabara de transmitir minhas impressões ao meu marido, dizendo-lhe que aqueles dois eram bem capazes de se engalfinhar, quando o jovem escapista, que nos servia, dirigiu-se à nossa mesa e começou a nos contar como a situação estava difícil para ele e que planejava pedir demissão em breve.
Conhecendo essas feridas, não me admirei ao ouvir tais declarações, pois um escapista que se sente muito rejeitado prefere fugir a enfrentar a situação. O mais interessante nessa história é que o garçom controlador não era sequer seu chefe ou superior. Simplesmente julgara por bem transformar o outro em um profissional tão bom quanto ele próprio. O controlador parecia dominar bem a clientela, se mostrava muito orgulhoso com seu trabalho e não se dava conta de sua atitude autoritária. Estava mais ocupado em mostrar ao patrão que era um bom funcionário e que podiam confiar nele em qualquer situação. Do seu ponto de vista, o outro garçom deveria lhe ser grato pela ajuda que ele oferecia. O que chamamos controle, o controlador chama de ajuda.
Como meu marido e eu comemos muito em restaurantes quando viajamos, acho bastante útil conhecer os diferentes tipos de ferida, pois isso me ajuda a saber a maneira de abordar os garçons. Por exemplo, sei que se eu fizer uma observação desagradável a um garçom controlador, ou lhe comunicar um erro que cometeu, ele começará imediatamente a se justificar, podendo inclusive mentir para salvar sua reputação e não fazer papel de tolo. Se minha abordagem for controladora, não obtenho dele o que quero. Ele precisa sentir que faz as coisas porque quer, e não porque lhe é imposto. Vivi certas experiências em que o garçom me fazia esperar de propósito só para mostrar quem teria a última palavra.
Quando alguém tenta convencer o controlador de uma ideia nova, ele em geral se mostra cético. O mais difícil para ele é ser pego de surpresa, não ter tempo de se preparar. Despreparado, ele corre o risco de não deter o controle e, por conseguinte, ser controlado.
Como, para ele, o fator surpresa é uma emoção difícil de vivenciar, sua primeira reação é retirar-se e ficar em estado de alerta. Ele precisa pensar e estar preparado para toda e qualquer eventualidade. Não gosta que os outros mudem de ideia e ele se veja numa situação inesperada. Mas, quando é ele quem decide, se dá o direito de mudar de ideia a seu bel-prazer.
Uma mulher com ferida da traição me contou que quando era jovem sempre tentava antecipar as reações do pai. Quando ela esperava ser repreendida por ter feito alguma tolice, ele não fazia nada. Quando supunha que ia ser elogiada por suas boas notas escolares, ele brigava sem que ela soubesse de onde vinha sua raiva. Esse exemplo ilustra bem o fato de que sua ferida da traição atraía para ela esse tipo de comportamento por parte do pai, assim como o próprio pai adotava essa postura. Era como se ele tivesse um prazer maligno em pegá-la de surpresa, não correspondendo às expectativas dela, que ele parecia conhecer antecipadamente. Todo tipo de atitude imprevisível da parte do genitor costuma criar um sentimento de traição na criança de tipo controlador.
Muito desconfiado, o controlador é rápido em tachar os outros de hipócritas. No entanto, com seu comportamento manipulador, é igualmente hipócrita. Por exemplo, quando as coisas não correm como ele quer, fica furioso e fala mal das pessoas pelas costas para quem quiser ouvir. Ele não percebe, nesse momento, que está agindo tão mal quanto aqueles a quem critica.
O controlador tem horror a que mintam para ele. “Prefiro que me batam a que mintam para mim”, costuma dizer. Ele próprio mente com frequência, mas acredita que, no seu caso, as mentiras, geralmente mais sutis, são necessárias e têm um propósito. Por exemplo, mencionei anteriormente que ele percebe com facilidade as expectativas dos outros e lhes diz o que querem ouvir, fazendo mil promessas. Infelizmente, nem sempre consegue cumprir com sua palavra, pois se compromete sem verificar se pode mesmo fazer o que prometeu. Arranja então todo tipo de desculpas, chegando inclusive a dizer que não se lembra de ter se comprometido. Para os outros, isso é recebido como uma mentira e vivenciado como uma traição. O controlador, por sua vez, não vê mentira em tal comportamento. Ele conseguirá explicar essa atitude do seu jeito peculiar. Paradoxalmente, tem dificuldade de aceitar o fato de alguém não acreditar nele. Se não confiam nele, acha que está sendo traído. É para evitar esse sentimento doloroso de traição que ele faz de tudo para que confiem nele.
Em minhas oficinas, um grande número de mulheres se queixa do marido que as manipula e as domina, mentindo constantemente. Pude constatar que a maioria desses homens é formada por controladores. Não estou dizendo que todas as pessoas controladoras mentem, mas isso parece mais provável de acontecer com as que têm esse perfil. Se você se reconhece nessa ferida, aconselho-o a ficar bem atento, pois é comum o mentiroso não se dar conta de que mente. Você pode inclusive perguntar aos que o conhecem bem se têm a impressão de que você às vezes mente.
O controlador tampouco tolera as pessoas que trapaceiam. Porém, quando ele mesmo trapaceia, jogando cartas, por exemplo, diz que é para fazer rir ou para ver se notariam. Se trapaceia em sua declaração de imposto de renda, diz que todo mundo faz a mesma coisa.
Além disso, o controlador não gosta de se ver numa situação em que deva denunciar os erros de alguém, como um colega de trabalho, por exemplo. Ele sabe que, quando alguém faz a mesma coisa com ele, sente isso como uma traição. Por isso não gosta de fazer a mesma coisa com os outros. Há alguns anos, em minha empresa Écoute Ton Corps, uma funcionária recém-contratada passava, por telefone, informações erradas aos clientes. Aquilo aconteceu durante várias semanas até outra funcionária me relatar o caso. Fui então conversar com o rapaz que trabalhava ao lado dela para saber se havia percebido algo. Ele me confessou que sabia desde o início, mas que dedurar não fazia parte de suas tarefas. Não é difícil o leitor imaginar que minha parte controladora, que sempre prezou a reputação da empresa, ficou furiosa.
Com efeito, a reputação do controlador é muito importante. Quando alguém faz ou diz alguma coisa capaz de afetar a boa reputação que tenta manter, ele se sente insultado, pois vê isso como uma grave traição. Será capaz de mentir para obter ou salvaguardar sua imagem. Para ele, ser considerado uma pessoa confiável, responsável e que cuida bem dos negócios é o mais importante. Quando fala de si, não se mostra completamente. Só revela o que é bom para sua reputação.
Hesita muito em ser avalista de alguém num empréstimo financeiro, pois teme por sua reputação se o outro não pagar. Se, após muita reflexão, decide ser fiador de outra pessoa e esta não respeita seu compromisso, o controlador vive o episódio como uma traição grave. Também é do tipo que não gosta de se endividar e, quando isso acontece, paga o mais rapidamente possível para manter seu nome “limpo”.
Pude notar que os pais controladores agem mais em função de manter a própria reputação do que visando a felicidade dos filhos. Tentarão convencê-los de que é para seu bem, mas eles não são tolos. Sabem quando os pais pensam mais em si mesmos. O pai controlador quer decidir por eles, enquanto aquele que pensa verdadeiramente na felicidade dos filhos procura antes saber o que os faria felizes.
As pessoas controladoras não gostam de se ver numa situação em que ficam sem respostas. É por essa razão que prezam o conhecimento e gostam de aprender sobre muitos assuntos. Quando alguém lhes faz uma pergunta, tentam achar uma resposta mesmo correndo o risco de dizer uma tolice, pois para elas é muito difícil responder “Não sei”. Quando alguém diz “Eu não sabia”, o controlador julga ser quase um dever replicar “Pois eu sabia. Não me lembro de onde li isso, mas eu sabia” ou “Isso não me é estranho”. Infelizmente nem sempre é verdade. Eu já sabia é uma expressão muito usada pelo controlador.
Ele se sente ofendido quando se intrometem em seus assuntos. Se uma pessoa intervém ou responde em seu lugar sente-se igualmente ofendido, pois acha que o outro não confia em sua capacidade. Ele não se dá conta de que, volta e meia, intervém e fala pelos outros. Por exemplo, um homem casado com uma mulher dependente (ferida do abandono) estará sempre lhe dizendo como e por que fazer isso ou aquilo. Infelizmente, esse tipo de mulher sofre em silêncio.
Devo acrescentar que, no relacionamento de um casal, quando um dos parceiros é controlador e o outro, dependente, o primeiro precisa da fraqueza e da dependência do outro. Ele se julga forte porque controla o parceiro, mas, na realidade, o que se estabelece é apenas outra forma de dependência. Quando dois controladores moram juntos, cria-se uma relação de disputa por poder.
Todos os exemplos citados são vividos como uma traição por um controlador. Se você está surpreso com isso, é porque sua definição da palavra “traição” é muito limitada. Trabalhei anos a fio para chegar a essa percepção. Eu via claramente no meu corpo os traços da ferida da traição, mas não conseguia detectar a relação entre o que se passava na minha vida e essa ferida. Minha principal dificuldade era fazer o elo com meu pai, com quem eu vivia um intenso complexo de Édipo. Adorava-o de tal forma que não via como poderia me sentir traída por ele e, principalmente, não admitia que podia detestá-lo.
Finalmente, vários anos depois, consegui admitir que ele não correspondia às minhas expectativas de homem responsável. Venho de uma família em que as mulheres costumam tomar as decisões e os homens as seguem. Descobri esse comportamento tanto nos meus pais como em meus tios e tias. Concluí que as mulheres assumiam todas as responsabilidades, pois eram mais fortes e capazes. Os homens, portanto, eram fracos, já que não controlavam nada. Na realidade, minha concepção era falsa, pois não é porque uma pessoa não toma decisões que ela é fraca ou irresponsável. Também fui obrigada a redefinir as palavras “responsabilidade” e “compromisso”.
Quando me dei um tempo para repensar o que acontecera na minha infância, compreendi que minha mãe tomava a maior parte das decisões, mas que meu pai cumpria todos os compromissos que assumia com ela, bem como suas responsabilidades. Quando uma decisão tomada por minha mãe tinha resultados ruins, meu pai assumia as consequências daquilo na mesma medida que ela. Logo, era um homem responsável.
Para compreender a noção de responsabilidade, atraí para mim um primeiro marido e dois filhos que eu considerava irresponsáveis e que tentei controlar durante muito tempo, até perceber que eu tinha essa opinião geral sobre todos os homens. Isso explica por que eu tinha sempre um pé atrás com o sexo oposto – aliás, como todo controlador. Para me ajudar a curar minha ferida da traição, atraí para mim um segundo marido, ele também portador dessa ferida. Graças a ele, pude verificar meus progressos e reduzir minha ferida. Constatei então uma grande diferença entre meu comportamento com ele e o que eu tinha com meu ex-companheiro.
O controlador também tem medo de compromisso, o que resulta de um temor ainda maior: o medo de faltar com o compromisso. Ele acha que descumprir o prometido é sinônimo de traição. Julga-se então obrigado a manter a palavra e, quando assume muitos compromissos, sente-se amarrado. Portanto, para não faltar com a palavra, ele prefere não se comprometer. Tenho um conhecido que sempre que precisa marcar algo, exige que a outra pessoa envolvida lhe telefone para combinar, apenas por medo de esquecer de telefonar. Mas se a outra pessoa esquece de ligar, ele poderá entrar em contato apenas para dar bronca. Ele não compreende que exige demais dos outros. Observando-o, percebo a quantidade de energia necessária para controlar tudo dessa maneira. Esse comportamento só o estimula a alimentar sua ferida da traição.
Pessoas portadoras da ferida da traição sofreram com o fato de o genitor do sexo
oposto não cumprir seu compromisso de acordo com as expectativas que a
criança tinha de um pai ideal.
Conheço um senhor, hoje com mais de 60 anos, que na adolescência morava sozinho com a mãe, que saía com todos os homens que não hesitassem em gastar muito dinheiro com ela. Ele tinha 15 anos quando a mãe foi embora com aquele que se dispôs a lhe oferecer uma fortuna. Ela colocou o filho num internato, o que o fez sofrer de abandono e, sobretudo, traição. Adulto, sua maneira de atrair as mulheres era gastar dinheiro com elas e não se comprometer efetivamente em nenhuma relação. Julgava assim vingar-se da mãe, mas, na realidade, ele precisava curar a mesma ferida que aqueles homens que ele julgava seduzirem sua mãe com dinheiro.
Em minhas oficinas, muitas participantes relataram que, ao engravidarem de um homem que tinha medo de se comprometer, ele insistia que fizessem um aborto. Esse tipo de incidente, nas portadoras da ferida da traição, traz uma nova camada à ferida. É muito duro aceitar a ideia de que o parceiro se nega a assumir a responsabilidade pela criança que quer nascer.
Mencionei anteriormente que o controlador reluta em confiar em alguém. No entanto, ele demonstra mais confiança quando não há interesse sexual envolvido. Ele é muito sedutor, mas sua ferida é tão grave que ele prefere que as pessoas do sexo oposto sejam amigos em vez de namorados. Sente-se mais confiante com amigos. Usa frequentemente a sedução para manipular os outros e, em geral, é muito bem-sucedido nisso. O controlador será, por exemplo, o genro preferido da sogra, pois a terá encantado com belas palavras. Em contrapartida, ficará ressabiado diante de outro sedutor. Ele sabe de imediato quando outro tenta seduzi-lo e não se deixa levar. Ao falar de sedução, não me refiro necessariamente à sedução na esfera sexual; ele pode utilizá-la em todos os domínios de sua vida.
O maior medo do controlador é a dissociação. É o tipo de pessoa que tem dificuldade de aceitar, por exemplo, um divórcio. Para o controlador, essa é uma grave derrota. Se a separação é proposta por ele, é porque tem medo de trair o outro e ser acusado de traidor. Se vem do outro, ele o acusará de traição. Além disso, uma separação evidencia que ele não teve o controle da situação. Entretanto, parece que são os controladores que vivem mais separações e rupturas. Se eles têm medo de se comprometer, é igualmente porque têm medo de se separar. Esse medo os leva a atrair relações amorosas em que o parceiro não queira se comprometer. É uma boa maneira de não enxergarem que são eles mesmos que não querem compromisso.
Quando dois controladores vivem juntos e a relação não vai bem, ambos adiam o momento de admitir que o melhor é se separarem. Para um controlador, estar dissociado significa sentir-se amputado ou isolado do outro. A propósito, a palavra “dissociado” é comum em seu vocabulário. Certa vez, uma mulher me contou que basta se desentender com o marido para se sentir cortada ao meio, desesperada, com medo de uma separação. Em tal situação, perde completamente a autoconfiança. Ela também sofre da ferida do abandono, o que redobra seu medo da separação.
Segundo minhas observações, a ferida do abandono se desenvolve, na maioria dos controladores, antes da ferida da traição. Os que decidem muito jovens não enxergar ou não aceitar o seu lado dependente encontram a força necessária para esconder sua ferida do abandono. É nesse momento que começam a cultivar uma máscara de controlador. Se olharmos bem essa pessoa, podemos ver a máscara de dependente em seus olhos (tristes ou caídos), em sua boca caída ou em alguma parte de seu corpo com pouco tônus.
É fácil imaginar a criancinha que, sentindo-se abandonada ou não recebendo atenção suficiente, decide seduzir seu genitor do sexo oposto a fim de chamar sua atenção e, acima de tudo, sentir-se apoiada por ele. A criança se convence de que é tão boazinha e adorável que o pai não precisa se preocupar com ela de uma maneira especial. Quanto mais tenta controlar o pai com essa atitude, mais expectativas ela cria. Quando suas expectativas não se realizam, ela vive a traição. Torna-se então cada vez mais controladora, veste uma couraça de força, julgando assim que não sofrerá outra traição ou abandono. É o lado controlador que incentiva o dependente a querer ser independente.
Em certas pessoas, a ferida do abandono predomina sobre a da traição, ao passo que em outras a máscara de controlador prevalece. O homem que desenvolve belos músculos graças à musculação (como mencionado no capítulo sobre a ferida do abandono), mas cujo corpo volta a ficar flácido quando ele para de fazer exercícios, é um bom exemplo de uma pessoa com ferida da traição e do abandono.
Se você se reconhece na descrição da máscara de controlador, mas não na de dependente, sugiro que não elimine tal possibilidade. Permaneça aberto à ideia de que também pode haver em si uma ferida do abandono. A ferida predominante no corpo é a que utilizamos com mais frequência no cotidiano.
Anos de observação me levaram a concluir que uma pessoa pode sofrer de abandono sem sofrer necessariamente de traição, mas aquela que sofre de traição também sofre de abandono. Além disso, notei que várias pessoas cujo corpo indicava uma ferida do abandono quando jovens começaram, com a idade, a desenvolver as características da ferida da traição. O oposto também pode acontecer. O corpo está sempre em transformação; ele nos indica o tempo todo o que acontece em nosso interior.
Você deve ter notado que há vários pontos em comum entre as pessoas que temem o abandono e aquelas que têm medo da traição. Além dos aspectos citados acima, ambos os tipos gostam de chamar atenção. O dependente faz isso para receber atenção e para que se ocupem dele, enquanto o controlador age assim para ter o domínio de uma situação, exibir sua força de caráter e impressionar. É comum vermos o tipo dependente em atores e cantores, mas encontramos o tipo controlador com mais frequência nos comediantes e humoristas, aqueles que gostam de fazer os outros rirem. Os dois tipos de caráter adoram ser o centro das atenções, mas por razões diferentes. O controlador costuma ter a reputação de ser uma pessoa muito espaçosa. Em geral, ele não gosta que seu parceiro, ou parceira, ocupe mais espaço do que ele.
Uma participante das minhas oficinas contou que, enquanto ela e o marido eram sócios nos negócios, tudo ia bem entre os dois. A partir do instante em que ela decidiu trabalhar por conta própria e fez melhores negócios do que ele, embora trabalhasse em outra área, a relação se deteriorou. Tornara-se uma relação de competição. O homem se sentia traído e a mulher se acusava de tê-lo abandonado.
Outra característica do controlador é sua acentuada dificuldade de fazer uma escolha quando acha que tal opção pode fazê-lo perder alguma coisa, pois ele não mais dominará a situação. Isso explica por que o controlador às vezes tem dificuldade de se decidir ou é acusado de refletir demais. Quando está seguro de si e no domínio do que está à sua volta, ele não hesita.
Essa dificuldade de se separar se manifesta igualmente no trabalho. Se ele administra o próprio empreendimento, pode se colocar numa situação difícil, num sério endividamento, por exemplo, antes de confessar que não consegue mais continuar. Como funcionário, o controlador costuma ocupar cargos de chefia. É sempre difícil para ele abandonar uma empresa. Mas também é muito difícil para ele aceitar que uma pessoa de sua confiança decida deixá-lo, e em geral isso lhe causa raiva e agressividade.
O controlador, que em geral tem alma de chefe, gosta de dirigir outras pessoas. Tem medo de parar de controlar, pois acha que, fazendo isso, não será mais um líder. Mas, na verdade, é justamente o contrário. Quando o controlador deixa de controlar e se limita a dirigir apenas, ele se torna um chefe bem melhor. Existe uma diferença entre controlar e dirigir. Controlar é conduzir, administrar ou governar sob a influência do medo. Dirigir significa a mesma coisa, mas excluindo-se o medo; é dar uma direção sem necessariamente querer que a outra pessoa chegue lá à nossa maneira. É possível ser um chefe e continuar a aprender coisas com os subordinados.
Sua alma de chefe às vezes o leva a liderar uma empresa, mas suas expectativas e o controle que ele quer exercer lhe dão muito estresse. Embora seja difícil para o controlador deixar as coisas seguirem seu rumo, é urgente e necessário que ele adote essa prática.
Outro grande medo do controlador é a renegação. Para ele, ser renegado significa ser traído. Ele não percebe o número de vezes que exclui os outros, eliminando-os de sua vida. Por exemplo, ele se negará a dar outra chance a um indivíduo em quem perdeu a confiança. Quando está com raiva, ou algo não acontece segundo suas expectativas, ele pode facilmente dar as costas a alguém no meio de uma conversa. Já mencionei que ele tem dificuldade com a covardia, a mentira e a hipocrisia. Ele afasta qualquer pessoa que se comporte assim. Perdi a conta das vezes em que ouvi pessoas controladoras dizerem: “Não quero mais ouvir saber de fulano.” Elas não percebem que, com essa atitude, renegam os outros.
Como o controlador é sedutor, sua vida sexual só é satisfatória se for resultado de uma sedução. Quando a paixão dentro dele começa a se extinguir, ele dá um jeito para que a ideia de terminar a relação parta do outro. Assim, não será acusado de traição, embora se sinta mal por não ter conseguido controlar a situação.
A mulher controladora às vezes tem a impressão de ser dominada pelo homem e não aprecia isso. Gosta de fazer amor quando a iniciativa parte dela, quando decide se deixar seduzir ou ela própria tem vontade de cortejar o parceiro. O homem controlador também gosta de ter a iniciativa. Quando um controlador (homem ou mulher) deseja fazer amor e o outro recusa, ele se sente traído. Não consegue entender que o parceiro, que o ama, pode não estar com vontade de fazer sexo. Os problemas sexuais resultam principalmente de um apego excessivo ao genitor do sexo oposto e do complexo de Édipo não resolvido. O genitor do sexo oposto foi de tal forma idealizado que nenhum parceiro é capaz de corresponder às expectativas dessa pessoa. Apesar de seus problemas sexuais, constatei que aqueles que sofrem com a ferida da traição têm mais vontade de ter um amante. Não percebem a que ponto alimentam sua ferida ao terem esse desejo, seja em pensamento ou ação.
Logo, é comum haver um bloqueio na esfera sexual. Como eu disse no início deste capítulo, o tipo controlador desenvolve uma boa força sexual e, com os medos que cultiva ao longo dos anos, pode bloquear boa parte dessa energia. O controlador pode inclusive chegar a renegar completamente sua vida sexual, encontrando uma boa razão para justificar sua decisão.
Com base em tudo que foi dito neste capítulo, está claro que a ferida da traição afeta nossa maneira de nos comunicar. Os temores do controlador, que o impedem de se comunicar com clareza são: não conseguir convencer o outro; alguém mentir para ele ou ele passar por mentiroso; sentir raiva dos outros ou de si mesmo; abrir-se com alguém, mostrar sua vulnerabilidade ou passar por vulnerável; ser manipulado ou seduzido; ser obrigado a se comprometer.
No que se refere à alimentação, o controlador é levado a comer depressa, pois não tem tempo a perder. Quando está muito absorto em uma tarefa importante, pode facilmente se esquecer de comer. Diz inclusive que comida não é importante para ele. Em contrapartida, quando decide se alimentar, come muito, podendo até mesmo perder o controle e ingerir muito mais do que seu corpo necessita. Vários controladores acrescentam sal mesmo antes de provar a comida. Certificam-se de ter a última palavra a respeito de sua alimentação e, como fazem durante uma conversa, acrescentam sua pitada de sal.
Eis algumas enfermidades e doenças que podem se manifestar no controlador:
agorafobia. A agorafobia vivida pelo controlador caracteriza-se mais pelo
medo da loucura, ao passo que o portador da máscara de dependente tem medo da morte. Na verdade, a agorafobia é frequentemente diagnosticada pelos médicos como espasmofilia. problemas nas articulações. O controlador é tenso e costuma ter problemas ligados às articulações do corpo, principalmente os joelhos. perda do controle corporal. Ele é propenso a ter enfermidades que envolvem a perda do controle de certas partes do corpo, como hemorragias, impotência sexual, diarreia, etc.
paralisia. Quando em situação de impotência total, pode ser afetado por paralisia.
problemas no sistema digestivo. Tem problemas constantes no fígado e no estômago.
doenças de natureza inflamatória. É mais propenso do que outros às doenças que terminam em “ite”, ou seja, de natureza inflamatória. Essas doenças são vividas principalmente pelas pessoas que, devido ao excesso de expectativas, mergulham na impaciência, na raiva e na frustração. herpes bucal. É comum um controlador sofrer de herpes bucal, afecção que se manifesta quando ele acusa, conscientemente ou não, o sexo oposto de ser nojento. É também um meio de controle para não ter que beijar o outro.
As indisposições e doenças mencionadas podem se manifestar em pessoas com outras feridas, mas parecem mais comuns nas que sofrem de traição.
É importante compreender que seu genitor do sexo oposto, que gerou em você essa ferida, provavelmente viveu (ou ainda vive) essa mesma ferida com o próprio genitor do sexo oposto. Nada impede você de ir checar isso com ele. Fazer nossos pais falarem sobre o que viveram com seus pais quando eram jovens costuma ser uma experiência muito enriquecedora.
Lembre-se de que a principal causa de uma ferida advém de nossa incapacidade de perdoar o que fazemos a nós mesmos ou o que impomos aos outros. Temos dificuldade em nos perdoar porque, em geral, não percebemos que nos recriminamos. Quanto mais grave a ferida da traição, mais frequente é o seu hábito de trair os outros ou a si mesmo não confiando ou não cumprindo o que prometeu a si próprio. Recriminamos nos outros tudo que nós mesmos fazemos mas não queremos enxergar.
Ressalto que as características e os comportamentos descritos neste capítulo só estão presentes quando uma pessoa veste sua máscara de controlador, julgando assim evitar viver a traição. Conforme a gravidade da ferida e a intensidade da dor, essa máscara pode ser usada apenas alguns minutos por semana ou praticamente o tempo todo.
CARACTERÍSTICAS DA FERIDA DA
TRAIÇÃO
DESPERTAR DA FERIDA: Entre os 2 e os 4 anos com o genitor do sexo oposto.
Quebra de confiança ou expectativas não correspondidas na conexão
amor/sexualidade. Manipulação.
MÁSCARA: Controlador.
CORPO: Exibe força e poder. No homem, ombros mais largos que os
quadris. Na mulher, quadris mais largos e fortes que os ombros. Peito
estufado. Barriga proeminente.
OLHOS: Olhar intenso e sedutor. Vê tudo rapidamente.
VOCABULÁRIO: “Dissociado”, “Você entendeu?”, “Sou capaz”, “Deixa que
eu faço sozinho”, “Eu já sabia”, “Confie em mim”, “Eu não confio
nele”.
CARÁTER: Julga-se responsável e forte. Procura ser especial e importante.
Falha em cumprir seus compromissos ou promessas. Mente com
facilidade. Manipulador. Sedutor. Tem muitas expectativas. Humor
instável. Convicto de ter razão, tenta convencer o outro. Impaciente.
Intolerante. Compreende e age rapidamente. Eficiente, a fim de ser
notado. Engraçado. Fechado. Não mostra sua vulnerabilidade. Cético.
Medo de trair e ser traído.
MAIOR MEDO: A dissociação; a separação; a renegação.
ALIMENTAÇÃO: Bom apetite. Come depressa. Acrescenta sal e temperos em
tudo. Consegue se controlar quando está ocupado, mas perde o
controle depois.
DOENÇAS POSSÍVEIS: Doenças em que se perde o controle das funções do
corpo • agorafobia • espasmofilia • problema no sistema digestivo •
doenças de natureza inflamatória • herpes bucal.
ASPECTO FÍSICO DO RÍGIDO
(FERIDA DA INJUSTIÇA)