As cinco feridas emocionais

Lise Bourbeau · Capítulo 8 de 15

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As cinco feridas emocionais

7. Cura das feridas e transformação das máscaras

CAPÍTULO 7

 

CURA DAS FERIDAS E

TRANSFORMAÇÃO DAS MÁSCARAS

 

Antes de descrever as etapas terapêuticas indicadas para cada tipo de ferida e máscara, acho importante dividir com você minhas observações relativas às maneiras como cada tipo fala, senta, dança, etc. Elas tornam mais claras as diferenças de comportamento ligadas às máscaras.

 

A maneira de falar e a voz diferem conforme a máscara:

 

O escapista tem uma voz apagada e fraca.

O dependente adota uma entonação infantil, bem como um tom lamuriante.

O masoquista costuma dissimular sentimentos em sua voz a fim de parecer uma pessoa interessada.

O controlador tem uma voz potente e de grande alcance. O rígido fala de maneira mais mecânica e contida.

 

Eis a maneira de dançar de cada tipo de caráter:

 

O escapista não gosta muito de dançar. Quando isso acontece, movimenta-se pouco e de maneira discreta para não se fazer notar. O que emana dele é Não olhem muito para mim. O dependente prefere as danças de contato, porque lhe dão

oportunidade de grudar no parceiro. Às vezes, parece se pendurar em seu par. O que emana dele é Olhem como meu parceiro gosta de mim. O masoquista adora dançar e aproveita-se disso para mostrar sua sensualidade. Dança pelo prazer de dançar. O que emana dele é Olhem quão sensual posso ser.

O controlador ocupa muito espaço. Gosta de dançar e utiliza-se disso para seduzir. É uma oportunidade para ser o centro das atenções. O que emana dele é Olhem para mim. O rígido é um exímio dançarino; apesar da rigidez das pernas, ele esbanja ritmo. Fica sempre atento para não errar. É aquele que mais faz aulas de dança. Os muito rígidos são sérios, mantêm-se empertigados e parecem inclusive contar os passos enquanto dançam. O que emana dele é Olhem como danço bem.

 

Que tipo de carro você prefere? A descrição abaixo indica a personalidade que influencia sua escolha:

 

O escapista gosta de carros com cores escuras, que passam despercebidos.

O dependente prefere um carro confortável e original. O masoquista escolhe um veículo pequeno, onde ele se sinta comprimido.

O controlador compra um carro potente e chamativo. O rígido prefere um carro clássico, de alto desempenho, pois quer ser compensado pelo que gastou.

 

Você pode aplicar essas características a outras categorias de compras, bem como à maneira de se vestir.

 

A maneira de sentar-se indica o que uma pessoa vivencia enquanto fala ou escuta:

 

O escapista se apequena em sua cadeira e gosta muito de esconder os pés sob as coxas. Não encostando no chão, pode fugir com mais facilidade. O dependente afunda na cadeira ou se apoia no braço da poltrona ao seu

lado, por exemplo. Inclina o torso para a frente. O masoquista senta-se com as pernas abertas. Quase sempre escolhe uma cadeira ou poltrona que não lhe convém; ele parece desconfortável. O controlador, quando escuta, senta-se e joga o corpo para trás com os braços cruzados. Quando fala, se debruça para convencer melhor seu interlocutor.

O rígido senta-se bem aprumado. Às vezes fecha bem as pernas e as alinha com o corpo, o que acentua seu aspecto rígido. Quando cruza as pernas e braços, é para não sentir o que ocorre à sua volta.

 

Em diversas entrevistas que fiz, pude constatar que um indivíduo se

senta de modos diferentes dependendo do que está vivenciando. Vejamos uma pessoa portadora das feridas da injustiça e do abandono. Enquanto me conta seus problemas, seu corpo relaxa e a parte superior da coluna desce; ela está refletindo sua ferida do abandono. Instantes depois, quando lhe faço uma pergunta sobre algo que quer evitar, seu corpo se apruma, enrijece e ela me diz que, nesse aspecto, está tudo bem. O mesmo acontece com sua maneira de falar, que pode mudar várias vezes durante uma conversa.

Observando atitudes físicas e psicológicas das pessoas ao seu redor,

você será capaz de reconhecer em que momento você mesmo ou alguém do seu convívio está usando uma máscara. E saberá o tipo de medo vivenciado naquele instante.

Pude notar um fato muito interessante com relação aos medos. Já

mencionei aqui o maior medo de cada tipo de caráter. E constatei que a pessoa que veste determinada máscara não se dá conta de seu medo, mas as pessoas à sua volta percebem facilmente o que ela quer a todo custo evitar.

 

O maior medo do escapista é o pânico. Ele não se dá conta disso, pois foge antes de entrar em pânico e, quase sempre, evita situações em que isso aconteceria. Em contrapartida, as pessoas ao seu lado percebem sua agitação, pois seus olhos o traem o tempo todo. O maior medo do dependente é a solidão. Ele não a vê, pois faz de tudo para não ficar sozinho. Quando está só, pode fingir que está bem, sem, no entanto, notar que busca ansiosamente alguma ocupação para passar

o tempo. Sem a presença física de alguém, a televisão e o telefone lhe farão companhia. Para seus amigos, é fácil ver e sentir esse grande medo da solidão nele, mesmo quando está cercado de pessoas. Seus olhos tristes também o traem.

O maior medo do masoquista é a liberdade. Ele se julga livre, pois é muito solicitado pelos outros e dispõe-se a ajudá-los. Muitas vezes, inclusive, faz mais do que lhe pedem. Ele não percebe, contudo, que cria várias imposições ou obrigações que o impedem de escutar as próprias necessidades. Seus amigos e parentes, em contrapartida, veem como ele se sacrifica pelos outros. Seus olhos arregalados para o mundo indicam que está sempre à espreita das necessidades alheias. Os maiores medos do controlador são a dissociação e a renegação. Quando não quer mais falar com alguém, cria situações de conflito. Embora atraia para si separações ou situações em que renega uma pessoa, não percebe que teme isso. Ao contrário, julga que tais separações ou renegações são melhores para si, pois acha que assim não será mais enganado. O fato de ser muito sociável e receptivo o impede de ver o número de pessoas que ele descartou na vida. Aqueles que o cercam se dão conta disso com mais facilidade. Seus olhos também o traem. Severos, chegam a dar medo, podendo inclusive afastar os outros quando demonstram raiva.

O maior medo do rígido é a frieza. Ele tem dificuldade em reconhecê-la, pois se considera uma pessoa calorosa, que faz o possível para que tudo seja justo e harmonioso à sua volta. É também muito fiel aos amigos. Em contrapartida, os que o cercam veem frequentemente essa sua frieza, não apenas em seus olhos, como em sua atitude seca e severa, sobretudo quando se sente acusado injustamente.

 

A primeira etapa para curar uma ferida é reconhecê-la e aceitá-la, sem, no entanto, resignar-se a ela. Aceitar significa olhar e observar, sabendo que resolver pendências faz parte da experiência de ser humano.

Criar máscaras para não sofrer, no fundo, é um ato heroico, um gesto de amor para com você mesmo. Essa máscara ajudou-o a sobreviver e a adaptar-se ao ambiente familiar que você escolheu antes de nascer.

A verdadeira razão pela qual nascemos em determinada família ou somos atraídos por pessoas com feridas iguais às nossas é que apreciamos que os outros sejam como nós. Assim, conseguimos não nos considerar piores do que eles. Então começamos a achar defeitos nos outros, não os aceitamos mais como são. Procuramos mudá-los, sem perceber que rejeitamos neles o que não queremos ver em nós, com medo de nos sentirmos obrigados a mudar. Na verdade, não precisamos mudar: precisamos nos curar. Por isso é tão importante conhecer nossas feridas.

Além disso, lembre-se de que cada uma dessas feridas decorre de um acúmulo de experiências vividas em várias existências passadas, sendo portanto absolutamente normal sua dificuldade de enfrentá-la novamente agora. Tendo fracassado nas vidas passadas, você não espera que isso aconteça dizendo simplesmente: “Quero me curar.” Entretanto, a vontade e a decisão de curar suas feridas são os primeiros passos rumo à compaixão, à paciência e à tolerância consigo mesmo.

Essas qualidades, que vou ensiná-lo a desenvolver, são dádivas que você colhe em seu caminho rumo à cura. Tenho certeza de que, lendo os capítulos anteriores, você identificou as feridas presentes em seus familiares e conhecidos. Isso provavelmente o ajudou a compreender melhor o comportamento deles, logo, a ter uma tolerância maior para com eles.

Como já mencionei, é importante não se prender às palavras para identificar as feridas ou as máscaras. Por exemplo, você pode viver uma experiência de rejeição e se sentir traído, abandonado e humilhado, ou mesmo percebê-la como uma injustiça. Alguém pode ser injusto com você e despertar sentimentos de rejeição, humilhação, traição ou abandono. Como pode ver, não é a experiência que importa, mas sim o que você sente diante dela.

Por isso é tão importante estudar a descrição das características do corpo físico antes de ater-se às características comportamentais. O corpo não mente. Ele reflete o que se passa no plano emocional e mental. Sugiro que você releia diversas vezes a descrição física de cada ferida para assimilar melhor as diferenças entre elas.

Sei que cada vez mais pessoas recorrem à cirurgia plástica para corrigir certos aspectos de seu corpo. A meu ver, isso é inútil, pois não é porque deixamos de ver as características de uma ferida no corpo que ela está necessariamente curada. Várias pessoas que recorreram à cirurgia confessaram sua decepção ao verem reaparecer, dois ou três anos depois, o que haviam pretendido retirar ou esconder. Eis, aliás, a razão pela qual os especialistas em cirurgia estética nunca dão uma garantia de satisfação em relação ao seu trabalho. Em contrapartida, se, por amor a si mesmo, você escolhe cuidar do seu corpo físico por meio da cirurgia plástica, estando consciente de suas feridas e fazendo um trabalho emocional, mental e espiritual, há fortes chances de que ela seja benéfica para você e de que seu corpo a aceite melhor.

Se algumas pessoas se iludem no plano físico, outras caem em armadilhas no âmbito comportamental, isto é, em suas atitudes interiores. É muito comum isso acontecer nas minhas oficinas, quando explico essas feridas em detalhes. Os participantes se reconhecem fielmente na descrição do comportamento de um tipo, ao passo que seu corpo demonstra uma realidade completamente diferente.

Lembro, entre outros casos, de um rapaz de uns 30 anos que me dizia viver a rejeição desde sua mais tenra infância. Sofria por não ter uma relação estável por conta das inúmeras rejeições por que passara. Seu corpo físico, no entanto, não demonstrava qualquer sinal de rejeição. Após um momento, eu lhe disse: “Tem certeza de que é rejeição que você vivencia, e não injustiça?” Em seguida, expliquei a ele que seu corpo exibia mais sinais de uma ferida da injustiça.

Esse tipo de exemplo não surpreende, pois o ego faz de tudo para não enxergarmos nossas feridas. Ele está convencido de que, tocando nelas, não saberemos gerir a dor que isso provoca. Foi ele que nos persuadiu a criar máscaras, com o objetivo de nos poupar desse sofrimento.

 

O ego julga sempre tomar o caminho mais fácil, mas, na realidade, complica nossa vida. Quando é a inteligência que governa nossas vidas – o que pode parecer difícil no começo, pois exige certo esforço –, tudo fica mais simples.

 

Quanto mais esperamos para tratar de nossas feridas, mais elas se agravam. Sempre que vivemos uma situação que desperta e afeta uma ferida, nós lhe acrescentamos outra camada. É como uma chama que se expande. Quanto mais grave, mais medo temos de tocar nela. Isso vira um círculo vicioso. Pode inclusive levar a pessoa a uma espécie de obsessão, acreditando que todos estão aqui para nos fazer sofrer. Por exemplo, o indivíduo muito rígido verá injustiça em toda parte e se tornará um perfeccionista exagerado. O escapista se sentirá rejeitado por todos e se convencerá de que ninguém irá amá-lo, e assim por diante.

A vantagem de reconhecer sua (ou suas) ferida é passar a olhar para o lugar certo. Antes, agíamos como uma pessoa que vai ao médico para tratar o fígado, quando, na realidade, é o coração que tem problemas. Essa situação pode durar anos, como no caso desse rapaz que tentava achar uma solução para a rejeição que julgava viver, sem que nada se resolvesse. Após diagnosticar o que efetivamente o importunava, ficou em condições de solucionar seu problema e iniciar o processo de cura da ferida.

Convém esclarecer que há uma diferença entre ter a máscara de dependente e sofrer de dependência afetiva. Não são apenas as pessoas que têm a ferida do abandono (e, portanto, a máscara de dependente) que sofrem de carência afetiva. Toda pessoa, qualquer que seja sua ferida, pode ser dependente no nível afetivo. Por quê? Porque nos tornamos dependentes afetivos quando sofremos de carência afetiva e sofremos de carência afetiva quando não nos amamos o bastante. Logo, procuramos o amor do outro para conseguir nos convencer de que podemos ser amados. A função das máscaras é mostrar que nos impedimos de ser nós mesmos porque não nos amamos o suficiente. Com efeito, lembre-se de que todos os comportamentos associados a cada uma das máscaras representam reações, e não comportamentos baseados no amor por si mesmo.

Antes de seguir adiante, recapitulemos as explicações anteriores relativas ao genitor com quem geralmente vivemos cada uma das feridas. Isso é importante para conseguir curá-las.

 

A rejeição é vivida com o genitor do mesmo sexo (menina mãe;

menino pai). O escapista sente-se rejeitado pelas pessoas do mesmo

sexo que ele. Ele as acusa de rejeitá-lo e sente mais raiva delas do que de si mesmo. Em contrapartida, quando vive uma situação de rejeição com alguém do sexo oposto, está rejeitando a si mesmo. É igualmente possível que o que ele julga ser rejeição nessa experiência (com as pessoas do sexo oposto) seja, na verdade, abandono. O abandono é vivido com o genitor do sexo oposto (menina pai;

menino mãe). O dependente sente-se facilmente abandonado pelas

pessoas do sexo oposto e tende a acusá-las em vez de acusar a si mesmo.

Quando vive uma experiência de abandono com alguém do mesmo sexo, ele acusa a si mesmo, julgando não ter dado suficiente atenção ao outro ou não ter sido solícito. É muito comum que o que ele julga ser uma experiência de abandono com as pessoas do mesmo sexo seja, na verdade, rejeição.

A humilhação é geralmente vivida com a mãe (menina/menino mãe).

O masoquista sente-se facilmente humilhado diante das pessoas do sexo feminino. Ele se põe a acusá-las. Se vive uma experiência de humilhação com alguém do sexo masculino, acusa a si mesmo e sente vergonha de seu comportamento ou de seus pensamentos com relação ao outro. Às vezes essa ferida pode ser vivida com o pai, se este se ocupava das necessidades físicas da criança, ensinando-lhe a cuidar de sua higiene, a comer, a se vestir, etc. Se é esse o seu caso, você deve inverter o que acaba de ler a respeito do feminino e do masculino.

A traição se manifesta com o genitor do sexo oposto (menina pai;

menino mãe). O controlador sente-se facilmente traído pelas pessoas

do sexo oposto e tende a acusá-las por sua dor ou por suas emoções. Quando vive uma experiência de traição com alguém do mesmo sexo, acusa a si mesmo e se odeia por não ter percebido a tempo essa experiência a fim de impedi-la. É mais provável que o que ele julga ser traição da parte das pessoas do mesmo sexo seja, na verdade, uma experiência que ativa sua ferida da injustiça.

A injustiça é vivida com o genitor do mesmo sexo (menina mãe;

menino pai). O rígido sofre então de injustiça com as pessoas do

mesmo sexo e as acusa de serem injustas com ele. Se vive uma situação que considera injusta com alguém do sexo oposto, ele não acusa o outro de ser injusto ou incorreto, mas sim a si mesmo. Há fortes chances de que essa experiência de injustiça vivida com as pessoas do sexo oposto seja, na verdade, traição. Ele pode inclusive desenvolver uma raiva destrutiva se sofrer muito.

 

Quanto mais essas feridas doem, mais normal e humana se torna a reação de recriminar o genitor que julgamos responsável por nos fazer sofrer. Mais tarde, transferimos esse rancor ou esse ódio para as pessoas do mesmo sexo do genitor acusado de nos ter feito mal. É normal, por exemplo, um adolescente odiar o pai por quem sempre se sentiu rejeitado. Mais tarde, ele transferirá esse ódio para os homens ou para seu filho, por quem se sentirá igualmente rejeitado.

Recriminamos igualmente esse genitor, de maneira inconsciente, por ter a mesma ferida que nós. Isso faz com que ele se torne, a nosso ver, o modelo de alguém com essa ferida, o que nos obriga a olhar para nós mesmos. Desejamos, também de forma inconsciente, ter outro modelo. Isso explica por que não queremos de jeito nenhum nos assemelhar a ele. Não gostamos do que ele reflete para nós. As feridas só serão curadas quando perdoarmos verdadeiramente a nós mesmos e aos nossos pais.

Em contrapartida, quando não importa qual das cinco feridas é vivida com as pessoas do sexo oposto ao genitor que julgamos responsável por nossa ferida, é a nós mesmos que recriminamos. É em momentos como esse que procuramos nos punir, seja por meio de um acidente ou de alguma coisa que nos faça mal fisicamente. O ser humano acredita na punição como um meio para expiar a culpa. Na realidade, a lei espiritual do amor afirma justamente o contrário. Quanto mais culpados nos julgamos, mais nos castigamos e mais atraímos para nós o mesmo tipo de situação. Isso equivale a dizer que quanto mais nos acusamos, mais revivemos os mesmos problemas. Por conseguinte, sentir-se culpado dificulta o autoperdão, etapa importante rumo à cura.

Além da culpa, é comum nos sentirmos envergonhados quando nos acusamos de ferir um semelhante ou quando os outros nos criticam por lhes termos feito sofrer. Privilegiei o tema da vergonha no capítulo sobre a ferida da humilhação, pois, no masoquista, é a vergonha o lado mais visível. No entanto, todo mundo sente vergonha num ou noutro momento. Ela é ainda mais intensa quando nos recusamos a aceitar que fazemos os outros sofrerem justamente aquilo que não queremos.

Quando graves abusos são cometidos ou a violência prevalece, isso indica que os indivíduos carregam feridas tão intensas que perdem o controle. É por isso que digo: Não existem pessoas más neste mundo, apenas doentes. Não se trata aqui de desculpá-las, e sim de aprender a ter compaixão por elas. Condená-las ou acusá-las não irá ajudá-las. Podemos ter compaixão, mesmo quando não estamos de acordo. Essa é uma das vantagens de sermos conscientes não apenas de nossas próprias feridas, mas também das dos outros.

Observei que é raro uma pessoa ter apenas uma ferida. No que me diz respeito, já mencionei que tenho duas principais para administrar nesta vida: a injustiça e a traição. Vivencio a injustiça com pessoas do mesmo sexo que eu e a traição com pessoas do sexo oposto. Como a injustiça é vivida com o genitor do mesmo sexo, percebi que, quando vivo essa emoção com uma pessoa do sexo feminino, acuso-a de estar sendo injusta. Quando a injustiça vem do sexo masculino, considero-me injusta e sinto raiva de mim mesma. Às vezes sinto inclusive vergonha. E me acontece também de perceber essa injustiça com os homens como uma traição.

Podemos então ver a máscara de controlador e a de rígido no corpo daqueles que, como eu, sofrem de ambas as feridas.

Observei também que muitos portam as feridas da rejeição e do abandono ao mesmo tempo. Vestem, por conseguinte, as máscaras de escapista e de dependente. Às vezes, a parte superior do corpo reflete uma ferida e a inferior, outra. Em alguns, a diferença é vista nos lados direito e esquerdo. Com o tempo e a prática, fica cada vez mais fácil discernir as máscaras ao primeiro relance. Quando confiamos em nossa intuição, nosso “olho interno” as percebe quase instantaneamente.

Quando uma pessoa tem a silhueta correspondente à máscara de controlador e, além disso, seu corpo é flácido ou ela tem os olhos do dependente, pode-se deduzir que ela vive as feridas da traição e do abandono.

Há, evidentemente, muitas outras combinações. Uma pessoa pode ter o corpo mais gordo do masoquista e, ao mesmo tempo, ser empertigada e rígida. Sabemos, portanto, que ela tem as feridas da humilhação e da injustiça.

Aqueles que têm o corpo volumoso do masoquista e as pernas curtas e os tornozelos pequenos do escapista são pessoas que sofrem de humilhação e rejeição.

É possível que alguns tenham três, quatro ou mesmo cinco feridas. Uma das cinco pode predominar, enquanto as outras ficam menos evidentes. Ou podem ser todas irrelevantes. Quando uma máscara predomina, é sinal de que a pessoa a utiliza com mais frequência do que as outras para se proteger. Quando a máscara ocupa pouco espaço no corpo da pessoa, isso significa que ela não sente com muita frequência a ferida ligada a essa máscara. No entanto, não é porque uma máscara é dominante que ela exprime a ferida mais importante a ser curada.

Com efeito, tentamos esconder as feridas que nos fazem sofrer mais. Já mencionei nos capítulos anteriores que desenvolvemos a máscara de rígido (injustiça) e a de controlador (traição), que são máscaras de controle e força, a fim de esconder a ferida da rejeição, do abandono ou da humilhação. Essa força serve para camuflar o que machuca mais. Daí ser tão frequente ver uma dessas três feridas surgir com a idade – pois o controle tem seus limites. É principalmente a máscara de rígido, graças à sua capacidade de se controlar, que tem a maior possibilidade de esconder outra ferida. A pessoa masoquista e rígida, por exemplo, pode conseguir vigiar seu peso durante certo tempo. Quando não consegue mais se controlar, ela engorda logo.

A alma que vem à Terra para curar a ferida da traição procura um genitor do sexo oposto forte, sólido, que sabe ocupar seu lugar, que não perde o controle e não é excessivamente emotivo. Ao mesmo tempo, o controlador quer que esse pai seja compreensivo, confiável e que corresponda a todas as suas expectativas e necessidade de atenção, o que lhe evitaria sentir-se abandonado e traído. Se esse pai mostra indiferença, ele se sente abandonado, mas, se demonstra uma fraqueza qualquer ou uma falta de confiança nele, o controlador vivencia isso como uma traição. Se o genitor do sexo oposto é muito autoritário, agressivo ou violento, não raro se estabelece uma relação de força entre eles na adolescência, o que alimenta a ferida da traição de ambos.

O ser humano é um especialista em encontrar todo tipo de desculpas e explicações quando seu corpo muda. Podemos notar que ele não está preparado para se olhar e, sobretudo, que tem muita dificuldade em aceitar a ideia de que o corpo humano seja tão inteligente. Ele se recusa a admitir que a mais ínfima modificação em seu corpo físico é uma maneira de chamar a sua atenção para alguma coisa que ele vive intimamente, mas que não quer examinar naquele momento. Seria muito bom se as pessoas compreendessem que, quando seu corpo decide chamar sua atenção para um de seus comportamentos interiores, é na realidade seu Deus interior que utiliza seu corpo físico para ajudá-las a se tornar consciente de que já possuem as ferramentas necessárias para enfrentar o que receiam encontrar. Em vez disso, preferimos continuar a ter medo de descobrir nossas feridas e continuamos a carregar as máscaras criadas para escondê-las, julgando assim que tais feridas irão desaparecer.

Lembre-se: usamos nossas máscaras para nos proteger quando temos medo de sofrer, de reviver uma ferida. Todos os comportamentos descritos nos capítulos anteriores só são adotados quando portamos nossas máscaras. Tão logo as incorporamos, deixamos de ser nós mesmos, adotando o comportamento ligado à máscara utilizada. O ideal é conseguir detectar rapidamente a máscara assim que a colocamos e, sem nos julgar ou criticar, identificar a ferida que tentamos esconder. Talvez você seja uma daquelas pessoas que muda de máscara uma ou várias vezes ao dia; talvez seja do tipo que usa a mesma máscara por meses ou anos a fio antes que outra ferida aflore.

No momento em que você se der conta disso, fique feliz por ter percebido e agradeça o incidente ou a pessoa que tocou sua ferida, pois lhe permitiu enxergar que ainda não conseguiu curá-la. Você está consciente de sua ferida. Assim, você se dá o direito de ser humano. É de suma importância dar-se o tempo necessário para a cura. Quando você conseguir pensar de modo natural “Ih, vesti tal máscara, foi por esse motivo que reagi dessa forma”, sua cura estará bem avançada.

Recapitulo agora a maneira de saber se você ou outra pessoa acaba de colocar uma máscara para se proteger.

 

Quando sua ferida da rejeição está ativada, você veste a máscara de escapista. Esta o leva a querer fugir da situação ou da pessoa com quem você acha que vivenciará a rejeição, temendo entrar em pânico e se sentir impotente. Essa máscara também pode convencê-lo a ficar o mais invisível possível, evitando dizer ou fazer algo que possa fazê-lo ser ainda mais rejeitado pelo outro. Essa máscara faz com que você acredite que não é suficientemente importante para ocupar seu lugar, que não tem o mesmo direito de existir que os outros.

Quando sua ferida do abandono é impulsionada, você veste a máscara de dependente. Ela o leva a se comportar como uma criança, que procura chamar a atenção com choro, queixa ou submissão, pois acha que não pode conseguir alcançar nada sozinho. Essa máscara lhe fornece os meios para evitar que o abandonem e para obter mais atenção. Pode inclusive convencê-lo a ficar doente ou a arranjar um monte de problemas para atrair o apoio que procura.

Quando a ferida da humilhação é despertada, você veste a máscara de masoquista. Esta o faz esquecer suas necessidades para só pensar nas dos

outros, sendo uma pessoa boa, generosa e sempre disposta a prestar favores, mesmo que além dos seus limites. Também dá um jeito de assumir as responsabilidades e os compromissos dos que parecem ter dificuldade em cumprir com seus deveres – e isso antes mesmo que lhe peçam algo. Faz de tudo para ser útil, para não se sentir humilhado, rebaixado. Assim, acaba sem a sua liberdade, que você preza tanto. Sempre que suas ações ou iniciativas são motivadas pelo medo de sentir vergonha ou de ser humilhado, você está vestindo sua máscara de masoquista.

Quando você vivencia a ferida da traição, adota a máscara de controlador, que o torna desconfiado, cético, autoritário e intolerante devido às suas expectativas. Você faz de tudo para mostrar que é uma pessoa forte e não se deixa enganar facilmente, em especial quando decide pelos outros. Essa máscara o leva a fazer de tudo para evitar perder sua reputação – até mesmo a mentir. Você se esquece das suas necessidades e faz o que for preciso para que os outros pensem que é uma pessoa confiável. Além disso, essa máscara lhe permite exibir uma aura de pessoa segura de si, mesmo que você não esteja muito confiante em suas próprias decisões ou ações.

Quando a ferida da injustiça é ativada, você veste a máscara de rígido, que o torna uma pessoa fria, brusca e seca no que se refere ao tom de voz e aos movimentos. Assim como sua atitude, seu corpo também se torna rígido. Essa máscara faz com que você se torne muito perfeccionista e faz vivenciar muita raiva, impaciência, crítica e intolerância para consigo mesmo. Você é muito exigente e não respeita seus limites. Todas as vezes que se controla, se reprime e é severo em relação a si, é sinal de que colocou sua máscara de rígido.

 

Vestimos uma máscara sempre que temos medo de viver uma ferida com outra pessoa e também quando receamos perceber que nós mesmos fazemos os outros viverem uma ferida. Logo, agimos sempre com o intuito de ser amados ou com medo de perder o amor dos outros. Adotamos um comportamento que não corresponde ao que somos. Nós nos tornamos outra pessoa. Como o comportamento ditado pela máscara exige esforços de nossa parte, criamos expectativas com relação aos outros.

O que somos e o que fazemos devem ser a fonte de nosso bem-estar, e não os elogios, a gratidão, o reconhecimento ou o apoio que os outros nos dão.

Não se esqueça, contudo, de que o seu ego pode lhe pregar peças a fim de que você não tenha consciência de suas feridas. O ego está convencido de que, se o ser humano se tornar consciente delas e as eliminar, ele não será mais protegido e sofrerá. Eis como cada tipo de caráter se deixa iludir pelo seu ego:

 

O escapista imagina que cuida bem de si mesmo e dos outros para não sentir as diferentes rejeições vividas.

O dependente gosta de bancar o independente e dizer, a quem quiser ouvir, que se sente bem sozinho e que não precisa de ninguém. O masoquista se convence de que tudo o que faz pelos outros lhe dá imenso prazer e que ele escuta efetivamente suas necessidades ao fazê-lo. Adora dizer e pensar que tudo está bem e arranjar justificativas para as situações ou as pessoas que o humilharam.

O controlador está convencido de que nunca mente, de que cumpre sempre com sua palavra e de que ninguém o amedronta. O rígido gosta de alardear como é justo, como leva uma vida sem problemas; ele gosta de acreditar que tem muitos amigos que o apreciam do jeito que ele é.

 

Curamos nossas feridas interiores da mesma forma que nos restabelecemos de nossas feridas físicas. Você já não ficou tão impaciente para eliminar uma espinha no rosto que passou a cutucá-la sem parar? O que aconteceu? A espinha provavelmente durou muito mais tempo, certo? É o que acontece quando não temos confiança no poder de cura do nosso próprio corpo. Para que um problema (seja qual for) desapareça, é preciso primeiro aceitá-lo, dar-lhe amor incondicional, em vez de querer fazê-lo desaparecer. Suas feridas profundas também precisam ser reconhecidas, amadas e aceitas.

 

Amar incondicionalmente é aceitar mesmo que você não concorde e mesmo

que não compreenda o porquê de determinadas situações.

 

Amar uma ferida ou amar as espinhas no seu rosto significa, portanto, aceitar que você as criou por uma razão específica e, sobretudo, com o objetivo de se ajudar. Em vez de querer fazê-las desaparecer, utilize-as para se tornar consciente de um aspecto da sua personalidade que você se recusa a ver. Na verdade, elas querem fazê-lo perceber, entre outras coisas, que, naquele momento, talvez você receie ser ridicularizado e esse receio o impeça de ser você mesmo. Adotando essa nova atitude, você pode olhar suas espinhas de outra forma. E pode, inclusive, vir a agradecer a elas. Se você escolher viver essa experiência adotando esse tipo de atitude mental, é certo que suas espinhas desaparecerão muito mais depressa, pois terão sido reconhecidas e amadas por sua utilidade.

Compreenda que o que você receia receber dos outros, ou o que neles recrimina, também impõe a eles, assim como a si mesmo.

 

Eis alguns exemplos que demonstram a que ponto podemos fazer mal a nós mesmos:

 

Aquele que sofre de rejeição alimenta sua ferida sempre que se julga inútil ou imprestável, sempre que acha que não faz qualquer diferença na vida dos outros ou foge de uma situação.

Aquele que sofre de abandono alimenta sua ferida todas as vezes que desiste de um plano que prezava muito, quando não se preocupa o suficiente consigo mesmo e quando não provê suas necessidades. Ele amedronta os outros ao se mostrar excessivamente dependente deles. Ele se machuca bastante, atraindo doenças para chamar a atenção. Aquele que sofre de humilhação alimenta sua ferida todas as vezes que se rebaixa, que se compara aos outros, que se diminui e que se acusa de ser gordo, mau, apático, aproveitador, etc. Ele se humilha usando roupas que o desvalorizam e maltrata seu corpo dando-lhe comida demais para digerir e assimilar. Atormenta-se assumindo as responsabilidades alheias, o que tira sua liberdade e o impede de reservar tempo para si. Aquele que sofre de traição alimenta sua ferida mentindo para si próprio, acreditando em coisas falsas e não cumprindo seus compromissos consigo mesmo. Ele se pune fazendo tudo sozinho porque não consegue delegar nem confiar nos outros. Mas, se resolve dar um voto de confiança às pessoas, fica tão ocupado verificando o que fizeram que se priva de dedicar um bom tempo a si. Aquele que sofre de injustiça estimula sua ferida sendo excessivamente exigente em relação a si mesmo. Ele não respeita seus limites e se estressa

em demasia. É injusto com tudo que lhe diz respeito, pois vive se recriminando e se recusando a ver suas qualidades e tudo aquilo que faz bem. Ele sofre quando enxerga apenas o que não foi feito ou o erro cometido. E tem dificuldade para encontrar prazer nas coisas.

 

Já mencionei a importância de aceitarmos de modo incondicional as nossas feridas. É igualmente necessário aceitar as máscaras. Amar e aceitar uma ferida significa reconhecê-la, saber que você retornou a esta Terra para curá-la e aceitar que seu ego quis protegê-lo criando uma máscara. Portanto, agradeça a você mesmo por ter tido a coragem de criar e cultivar uma máscara que contribuiu para ajudá-lo a sobreviver.

Hoje, entretanto, essa máscara o prejudica mais do que ajuda. Chegou a hora de se convencer de que pode sobreviver mesmo sentindo-se ferido. Você não é mais aquela criança incapaz de administrar sua ferida. É um adulto experiente e maduro, com uma visão diferente da vida, que tem a intenção de se gostar mais.

No primeiro capítulo, afirmei que passamos por quatro etapas quando criamos uma ferida. Na primeira, ainda somos nós mesmos. Na segunda, sofremos ao descobrir que não podemos ser nós mesmos, pois isso não interessa aos adultos à nossa volta. Infelizmente, os adultos não percebem que a criança tenta descobrir quem é e, em vez de deixarem-na ser ela mesma, ficam mais preocupados em lhe dizer quem ela deve ser. Na terceira etapa, reagimos à dor vivida. É nesse momento que a criança começa a ter crises e a resistir aos pais. Na última etapa, a da resignação, decidimos adotar uma máscara para tentar não decepcionar os outros e, sobretudo, não reviver o sofrimento decorrente de não termos sido aceitos quando éramos nós mesmos.

A cura será realizada quando você conseguir inverter essas quatro etapas, retornando à primeira, quando ainda é você mesmo. Nesse processo, a primeira coisa a ser feita é tornar-se consciente da máscara à qual você recorre.

Nesse processo de cura, a segunda etapa é vivida quando você se revolta ao ler esses capítulos ou resiste a assumir sua responsabilidade, preferindo acusar os outros pelo seu sofrimento. Tenha em mente que essa resistência é normal, afinal de contas você está descobrindo um lado seu que não aprecia, o que é desagradável. Essa etapa é vivenciada de modo diferente por cada um. Alguns sentem mais revolta e resistência que outros. A intensidade da sua revolta depende do seu grau de aceitação, de abertura, bem como do grau de sua ferida no momento em que você toma consciência do que está acontecendo em seu íntimo.

A terceira etapa é aquela em que você deve se dar o direito de se ressentir com um dos seus pais, ou com ambos. Quanto mais sentir o sofrimento que a criança em você viveu, mais compaixão terá por ela e maior será a intensidade com que atravessará essa etapa. É também durante essa fase que você se libertará de seus pais, sentindo compaixão pelo próprio sofrimento deles.

Por fim, a quarta etapa da cura é aquela em que volta a ser você mesmo, em que deixa de acreditar que precisa vestir suas máscaras para se proteger. Você aceita que a vida seja entremeada de experiências que servem para lhe ensinar o que é benéfico e inteligente para a sua jornada. É o que se chama de amor-próprio. Como o amor tem um grande poder de cura e reposição de energia, prepare-se para observar diversas transformações e melhorias na sua vida: tanto em suas relações com os outros quanto em seu corpo físico.

Lembre-se de que gostar-se significa dar-se o direito de ser exatamente como você é aqui e agora e se aceitar mesmo fazendo aos outros o que censura em si mesmo. O amor não tem nada a ver com o que você faz ou possui. Amar-se é, então, permitir-se às vezes magoar os outros, rejeitando-os, abandonando-os, humilhando-os, traindo-os ou sendo, involuntariamente, injusto com eles. Essa é uma etapa importante na cura de suas feridas.

 

O amor verdadeiro é a experiência de ser você mesmo.

 

Para alcançar essa etapa mais rápido, sugiro que, ao fim de cada dia, você faça um balanço de tudo que aconteceu. Descubra a máscara que prevaleceu em você, fazendo-o reagir em determinada situação ou ditando sua conduta com os outros ou consigo mesmo. Em seguida, registre essas observações sem esquecer de incluir como se sentiu. Para terminar, perdoe-se, dando-se o direito de ter utilizado essa máscara, sabendo que naquele momento você acreditava, do fundo do coração, ser o único meio de se proteger. Ressalto que sentir-se culpado e acusar-se é o melhor meio para continuar a reagir da mesma forma sempre que uma situação análoga se apresentar.

Nenhuma transformação é possível sem aceitação.

 

Como você sabe que vivencia plenamente essa aceitação? Quando percebe que seu comportamento, que acaba de afetar outra pessoa ou você mesmo, é natural em qualquer ser humano e que você está disposto a assumir as consequências, sejam quais forem. Essa noção de responsabilidade é primordial no processo de aceitação. O fato de ser humano significa que você não pode agradar a todos e que tem direito a certas reações que podem desagradar: aceite-se sem julgar-se ou criticar-se.

A aceitação é, então, o elemento desencadeador da cura.

Para sua grande surpresa, você descobrirá que, quanto mais se permitir trair, rejeitar, abandonar, humilhar e ser injusto, menos o fará! Surpreendente, não é mesmo? Bem, se você entendeu tudo o que eu expliquei neste livro, não deve ter se espantado muito. Caso contrário, não lhe peço que acredite em mim, pois essa noção não pode ser compreendida intelectualmente. Ela deve ser vivenciada.

Repito essa grande lei espiritual em todos os meus livros, oficinas e conferências, pois ela precisa ser ouvida diversas vezes para ser assimilada. Ao se dar o direito de fazer aos outros o que você teme viver, a ponto de ter criado uma ou várias máscaras para se proteger, será mais fácil permitir que os outros ajam da mesma forma e às vezes tenham comportamentos que venham despertar suas feridas.

Tomemos o exemplo do pai que decide deserdar uma filha rebelde que se recusa a prosseguir os estudos e a se tornar “alguém na vida”. Ela pode perceber essa decisão como uma traição, um abandono, uma rejeição, uma humilhação ou uma injustiça. Tudo depende do que ela veio curar nesta Terra. Conheci uma adolescente que viveu essa experiência e a sentiu como uma traição, pois nunca teria imaginado que o pai chegaria a tal extremo. Esperava que ele aceitasse suas escolhas e acabasse admitindo que ela tinha o direito de fazer o que bem entendesse de sua vida.

O único modo de ela curar essa ferida e parar de atrair situações em que vive a traição com outros homens é, em primeiro lugar, compreender que seu pai também se sentiu traído por ela. O fato de a filha não corresponder às suas expectativas é uma forma de traição para ele. Ele pensa que ela deveria lhe ser grata por tudo que fez por ela, tornando-se uma jovem mais responsável e respeitosa. Também espera que um dia ela retorne para lhe pedir perdão e dizer que ele tinha razão. O que se passa entre o pai e a filha nos indica que esse homem viveu esse mesmo tipo de traição com a própria mãe e que esta, por sua vez, a experimentou com ele.

Verificando o que nossos pais viveram quando jovens, percebemos que a história se repete de geração em geração, até que um perdão seja obtido. Isso nos ajuda a ter mais compaixão e compreensão em relação a nossos pais. Quando você tiver descoberto suas feridas, sugiro que investigue se seus pais padeceram delas também. Lembre-se de que, embora não tenham necessariamente vivenciado experiências idênticas às suas, eles terão sentido as mesmas feridas e acusado os pais das mesmas coisas de que você os culpa.

Esse processo se torna mais fácil quando paramos de nos acusar pelos comportamentos ditados por nossas feridas e aceitamos que isso é parte de nossa condição humana. Sentimo-nos então mais à vontade para interpelar nossos pais sem medo de sermos acusados, e eles, não se sentindo julgados, têm mais facilidade de se abrir conosco. Ao conversar com eles, você os ajudará a consumar seu processo de perdão em relação aos próprios pais, ou seja, seus avós. Isso também os ajudará a se permitir ter feridas que os fazem reagir e se comportar como não pretendiam.

Quando conversar com o genitor com quem você viveu a ferida, sugiro que questione se ele experimentou a mesma ferida que você. Se, por exemplo, você é uma mulher e diz à sua mãe que viveu uma rejeição com ela desde a adolescência, pergunte-lhe se ela se sentiu rejeitada por você. Isso lhe permitirá liberar emoções represadas por muito tempo e quase sempre inconscientes. Graças a você, sua mãe poderá tornar-se consciente disso. Em seguida, tente fazê-la falar do que ela viveu com a mãe dela (esse exemplo se dirige igualmente aos homens com seus pais).

Ressalto que, se você idealizou o pai com quem viveu uma ferida e, principalmente, se o considerava um santo, é normal achar difícil recriminá-lo. Pense que, se esse pai era como um santo para você, era provavelmente porque ele tinha a ferida da injustiça e se controlava para não mostrar o que sentia. Em virtude do seu grande devotamento, as pessoas do tipo masoquista também podem passar a imagem de santos.

Eis algumas técnicas para você saber se suas feridas estão no caminho da cura:

Sua ferida da rejeição está no caminho da cura quando você ocupa cada vez mais o seu lugar, quando ousa se afirmar. Mesmo quando alguém parece esquecer-se de sua existência, você consegue se sentir bem consigo mesmo. Tornam-se raras as situações em que você receia entrar em pânico.

Sua ferida do abandono está em vias de desaparecer quando você se sente bem mesmo estando sozinho e procurando menos atenção. A vida é menos dramática. Você tem cada vez mais vontade de realizar projetos e, mesmo sem o apoio dos outros, consegue ir em frente. Sua ferida da humilhação está diminuindo quando você arranja tempo para observar suas necessidades antes de dizer sim aos outros. Você assume menos responsabilidades e se sente mais livre. Deixa de criar limites para si. É capaz de pedir ajuda sem se julgar importuno, ou mesmo chato.

Sua ferida da traição está no caminho da cura quando você já não se sente tão mal quando alguém ou alguma coisa vem atrapalhar seus planos. Você relaxa com mais facilidade. Esclareço que relaxar significa deixar de se prender aos resultados, deixar de querer que tudo aconteça de acordo com o nosso planejamento. Você não busca mais ser o centro das atenções. Quando experimenta orgulho após uma conquista, consegue sentir-se muito bem mesmo que os outros não a reconheçam. Sua ferida da injustiça está em vias de cura quando você se permite ser menos perfeccionista, cometendo seus erros sem vivenciar a raiva ou a crítica. Você se dá o direito de mostrar sua sensibilidade, se permite chorar na frente dos outros sem perder o controle e sem medo da opinião deles.

 

Outra maravilhosa vantagem de curar nossas feridas é deixarmos de ser dependentes afetivos. A autonomia afetiva é a capacidade de saber o que queremos e de empreender as ações necessárias para realizá-lo; e, se precisarmos de ajuda, sabermos pedi-la sem esperar que uma pessoa em especial nos auxilie. A pessoa autônoma não pensa “O que vai ser de mim sozinha?” quando alguém desaparece de sua vida. Passa um mau momento, mas sabe, no fundo, que pode sobreviver por conta própria.

Espero que a descoberta de suas feridas lhe proporcione muita compaixão por você mesmo e que isso o ajude a alcançar uma paz interior maior, vivenciando menos raiva, vergonha e rancor. Reconheço que não é fácil enfrentar o que nos faz mal. O ser humano inventou tantos meios para reprimir suas lembranças dolorosas que é muito tentador recorrer a um deles.

Em contrapartida, quanto mais reprimimos nossas lembranças dolorosas, mais elas se alojam em nosso inconsciente. E então, um dia, quando tudo se torna insuportável e atingimos o limite do nosso controle, essas lembranças afloram e nossa dor fica ainda mais difícil de administrar. Enfrentando essas feridas e curando-as, toda a energia que servia para reprimir e esconder nossa dor é finalmente liberada e pode ser utilizada para fins muito mais produtivos: para levarmos a vida que queremos, sem deixar de sermos nós mesmos.

Não se esqueça de que todos nós estamos neste planeta para nos lembrarmos de quem somos e de que somos todos Deus, vivendo experiências no plano terreno. Infelizmente esquecemos disso durante o caminho, ao longo de todas as nossas inúmeras encarnações desde o começo dos tempos.

Para nos lembrar de quem somos, devemos nos tornar conscientes do que não somos. Não somos nossas feridas. Sempre que sofremos, julgamos ser o que não somos. Quando, por exemplo, você sente culpa porque acaba de rejeitar alguém ou acaba de ser injusto, julga ser a rejeição ou a injustiça. Você não é a experiência, você é Deus vivendo uma experiência num planeta material. Outro exemplo: quando seu corpo está doente, você não é a doença; é uma pessoa vivendo a experiência de um bloqueio de energia numa parte de seu corpo, e chamamos essa experiência de doença.

A vida é uma série contínua de processos que nos conduzem à nossa única razão de ser:

NOS LEMBRARMOS DE QUE SOMOS DEUS.

 

Para terminar este livro, faço questão de listar para você os aspectos positivos, as forças dentro de nós que estão ligadas aos diferentes tipos de personalidade. Essas forças estão sempre presentes, escondidas em cada um de nós. No entanto, como já mencionei, elas são muitas vezes ignoradas ou mal utilizadas, devido à excessiva importância atribuída às nossas máscaras; tudo isso para evitar enxergá-las ou senti-las. Mas uma vez curadas as feridas, ou seja, quando voltamos a ser nós mesmos, eis o que podemos deduzir:

 

Por trás do escapista (ferida da rejeição), esconde-se alguém muito capaz, com boa resistência ao trabalho:

 

Habilidoso, dotado de boa capacidade de criar, inventar, imaginar. Aptidão especial para trabalhar sozinho.

Eficiente, pensa em inúmeros detalhes.

Apto a reagir diante de emergências.

Não precisa dos outros incondicionalmente. Pode muito bem ser feliz sozinho.

 

Por trás do dependente (ferida do abandono), existe alguém habilidoso, que sabe muito bem realizar suas demandas:

 

Sabe o que quer. Tenaz e perseverante.

Não desiste quando está determinado a obter alguma coisa. Tem dom para a comédia. Sabe atrair a atenção dos outros. Naturalmente engraçado, animado e sociável, reflete a alegria de viver. Capacidade de ajudar os outros, pois se interessa por eles e sabe como se sentem.

Aptidão para utilizar seus dons quando os medos estão controlados. Talentos artísticos.

Sociável. Mesmo assim, precisa de momentos de solidão para repor as energias.

 

Por trás do masoquista (ferida da humilhação), camufla-se alguém audacioso, aventureiro, talentoso em muitos domínios:

 

Conhece as próprias necessidades.

Sensível às necessidades dos outros, também é capaz de respeitar a liberdade de cada um.

Bom mediador, conciliador.

Jovial, gosta do prazer e deixa os outros à vontade.

É de natureza generosa, solícita e altruísta.

Talento organizador. Reconhece os próprios talentos. Sensual, sabe desfrutar do amor.

De grande dignidade, demonstra orgulho.

 

Por trás do controlador (ferida da traição), esconde-se alguém que possui qualidades de líder:

 

Com sua força, sabe ser tranquilizador e protetor. Muito talentoso e sociável.

Grande capacidade de falar em público.

Aptidão para perceber e valorizar os talentos dos outros, ajudando-os a adquirir mais confiança em si mesmos.

Capacidade de delegar, o que ajuda os outros a se valorizarem. Entende rapidamente como os outros se sentem e destensiona o ambiente, fazendo-os rir.

Capaz de administrar várias coisas ao mesmo tempo. Toma decisões rapidamente. Encontra aquilo de que precisa e se cerca das pessoas certas para entrar em ação.

Capaz de grandes performances em diversos níveis. Confia no Universo e em sua força interior. Consegue relaxar completamente.

 

Por trás do rígido (ferida da injustiça), se esconde alguém criativo, com muita energia e dotado de grande capacidade de trabalho:

 

Organizado; excelente para realizar um trabalho que exija precisão. Tende a se preocupar e zelar pelos detalhes.

Capacidade de simplificar, de explicar com clareza quando ensina. Muito sensível, sabe o que os outros sentem, analisando os próprios sentimentos.

Sabe o que deve saber no momento oportuno.

Encontra a pessoa certa para realizar uma tarefa específica e a coisa exata a ser dita.

Entusiasta, vivo e dinâmico.

Não precisa dos outros para se sentir bem.

Assim como o escapista, em caso de urgência, sabe o que fazer e faz por conta própria.

Consegue enfrentar as situações difíceis.

 

Como você pôde constatar, algumas forças se encontram em mais de uma ferida. Elas se tornam então trunfos extraordinários para ajudá-lo a conseguir o que você quiser. Inclusive a se libertar das máscaras.

Repito que a criação de nossas máscaras exprime a maior traição de todas: a de termos esquecido que somos Deus.

Termino este livro oferecendo-lhe um poema do poeta sueco Hjalmar Söderberg:

 

Todos queremos ser amados,

Ou admirados,

Ou temidos,

Ou odiados e desprezados.

Queremos despertar uma emoção

no outro, seja ela qual for.

A alma estremece diante do vazio e busca

o contato a todo custo.