As cinco feridas emocionais

Lise Bourbeau · Capítulo 5 de 15

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As cinco feridas emocionais

4. A humilhação

CAPÍTULO 4

A HUMILHAÇÃO

 

Examinemos o significado da palavra “humilhação”: ação ou efeito de humilhar-se, rebaixamento moral, aviltamento. Alguns de seus sinônimos são: vexame, afronta, ultraje. Essa ferida começa a se manifestar, ou despertar, entre 1 e 3 anos de idade. Uso o verbo “despertar” para relembrar que minha teoria se baseia no fato de que antes de nascer já decidimos as feridas a serem curadas, embora não tenhamos mais consciência disso após o nascimento.

A alma que vem extinguir essa ferida atrairá para si pais que a humilharão. Essa ferida está ligada principalmente ao mundo físico, do ter e do fazer. Ela desperta no momento do desenvolvimento das funções do corpo físico, período em que a criança aprende a comer sozinha, a ser asseada, a usar o banheiro, a falar, escutar e compreender o que os adultos lhe dizem, etc.

O despertar da ferida se produz no momento em que a criança sente que um de seus pais tem vergonha dela quando ela está suja, faz uma má-criação (sobretudo em público ou em família), está malvestida, etc. Independentemente da circunstância que leva a criança a sentir-se aviltada, degradada, ultrajada ou envergonhada em termos físicos, a ferida é despertada e ganha amplitude. Tomemos o exemplo do bebê que brinca com seu cocô, espalhando-o pelo colchão ou fazendo alguma outra arte nojenta. A ferida desperta quando ele ouve a mãe contar ao pai o que aconteceu chamando-o de “porquinho”. Mesmo em idade tenra, o bebê pode perceber o nojo nos pais e se sentir humilhado e envergonhado.

Lembro-me de um episódio quando eu tinha 6 anos e era interna num colégio de freiras. Dormíamos todas juntas num grande dormitório e, quando uma garotinha fez xixi na cama, a religiosa a obrigou a percorrer as salas de aula no dia seguinte com seu lençol sujo nas costas. Humilhando-a e mortificando-a daquela maneira, a freira julgava que aquilo não se repetiria mais. Todos sabemos que acontece justamente o contrário. Esse tipo de humilhação agrava a situação. Toda criança que tem uma ferida da humilhação e vive tal experiência verá sua ferida piorar.

A sexualidade também contribui com sua cota de potencial humilhação. Por exemplo, quando a mãe surpreende o filho se masturbando e exclama “Que vergonha! Isso não se faz!”, o menino se sente mortificado, envergonhado e mais tarde terá problemas no campo sexual. Se a criança surpreende o pai ou a mãe sem roupa e percebe que ele, ou ela, está constrangido, pois fica procurando se esconder, aprende que se deve ter vergonha do próprio corpo.

Essa ferida pode então ser vivida em diferentes domínios, dependendo do que aconteceu entre 1 e 3 anos de idade. A criança, achando que não tem liberdade para agir ou se movimentar como quer no nível físico, se sente rebaixada e excessivamente controlada pelos pais. Por exemplo, um pai repreende e coloca de castigo o filho que, com a roupa limpa, foi brincar na lama logo antes da chegada dos convidados. Se os pais contam o incidente aos convidados na frente da criança, a humilhação virá ainda mais forte. Esse comportamento pode levar a criança a acreditar que enoja seus pais. Sente-se então humilhada e tem vergonha do próprio comportamento. Em contrapartida, é frequente ouvir as pessoas contando todas as coisas “erradas” que fizeram quando jovens e adolescentes. É como se procurassem situações para reviver a humilhação.

Ao contrário das outras quatro feridas, vividas com um genitor específico ou com a pessoa que desempenhou esse papel, a ferida da humilhação é comumente vivida com a mãe. No entanto, pode ser vivida com o pai quando este exerce o controle e faz o papel de mãe ensinando a criança a ser asseada, etc. É possível também que a ferida da humilhação esteja ligada à mãe no campo da sexualidade e do asseio, e ao pai no campo do aprendizado, da audição e da fala. Nesse caso, o acerto de contas teria que ser feito com os dois pais.

A criança que vive a humilhação forjará para si a máscara do masoquista. O masoquismo é o comportamento de uma pessoa que encontra satisfação e até prazer em sofrer. Em geral, ela procura a dor e a humilhação de maneira inconsciente. Ela se planeja para se machucar ou castigar antes que outro o faça. Embora eu tenha dito que a humilhação ou a vergonha que o masoquista vive se situa nos domínios do ter e do fazer, por vezes ele faz de tudo para conseguir ser como os outros gostariam que ele fosse; mas é o que ele faz ou não faz, ou o que tem ou não tem, que desencadeia sua ferida da humilhação. Também observei que fazer e ter coisas se tornam meios para compensar a ferida.

A partir de agora, quando eu utilizar o termo “masoquista”, lembre-se de que estou me referindo à pessoa que sofre de humilhação e que veste uma máscara de masoquista para evitar sofrer e viver a dor associada à humilhação.

Repito o que escrevi nos capítulos anteriores. Uma pessoa pode viver uma experiência de vergonha ou de humilhação sem que a ferida da humilhação seja despertada. Por outro lado, uma pessoa masoquista pode viver uma experiência de rejeição e se sentir mais humilhada do que rejeitada. É verdade que os cinco tipos de pessoa mencionados aqui podem ter vergonha, entretanto, parece que é a pessoa com a ferida da humilhação que a sente com mais regularidade.

Devo esclarecer agora a diferença entre vergonha e culpa. Sentimo-nos culpados quando julgamos errado algo que fizemos ou deixamos de fazer. Temos vergonha quando nos consideramos incorretos com relação ao que acabamos de fazer. O oposto da vergonha é o orgulho. A partir do momento em que uma pessoa não sente orgulho de si mesma, ela sente vergonha, acusa a si própria e é levada a querer se esconder. Uma pessoa pode se sentir culpada sem ter vergonha, mas não pode ter vergonha sem se sentir culpada.

Na descrição física da máscara do masoquista, como este se julga sujo, sem coração, porco ou menor do que os outros, ele desenvolve um corpo grande que lhe dá vergonha. Um corpo grande é diferente de um corpo musculoso. Um indivíduo pode pesar 20 quilos a mais que o seu peso “normal” e não ser gordo. Talvez tenha a aparência de uma pessoa forte. O masoquista, por sua vez, é grande por conta do excesso de gordura. Seu corpo é rechonchudo, parece mais compacto do que largo. Podemos notar isso ao observá-lo de costas. A pessoa forte é mais musculosa, com um corpo mais largo do que compacto, e, vista de costas, não dá a impressão de ser gorda. Essa descrição se aplica tanto às mulheres quanto aos homens.

Se apenas uma parte do corpo é grande e protuberante (por exemplo, a barriga, as nádegas ou os seios), isso indica uma ferida da humilhação menos intensa. Podemos também associar à máscara de masoquista as seguintes características: estatura baixa; pescoço largo e inchado; tensões no pescoço, na garganta, nos maxilares e na pélvis. Ele costuma ter um rosto redondo e seus olhos são arregalados e inocentes como os de uma criança. É evidente que uma pessoa com todas essas características físicas sofre de uma ferida mais intensa.

Trabalhei com centenas de masoquistas, a maioria mulheres, que apresentavam uma ferida da humilhação evidente. Várias delas levaram até um ano para admitir que tinham vergonha de si mesmas ou se sentiam humilhadas. Se você reconhece em seu corpo as características físicas do masoquista e tem dificuldade em perceber sua ferida da humilhação, não se preocupe e gaste o tempo que for preciso para fazer isso. Aliás, não gostar de apressar as coisas constitui uma das características do masoquista. É difícil para ele, inclusive, acelerar o ritmo quando necessário, e sente vergonha por não conseguir chegar tão rápido quanto os outros. Ele precisa aprender a se dar o direito de avançar no próprio ritmo.

É difícil reconhecer a máscara do masoquista nas pessoas que conseguem controlar bem o peso. Se você é do tipo que ganha peso com facilidade e fica gordinho quando não controla a alimentação, é possível que tenha essa ferida da humilhação e ela esteja momentaneamente oculta. Essa rigidez que lhe permite controlá-la é explicada no Capítulo 6 deste livro.

Querendo se mostrar firme e não ser controlado por aqueles que o humilham, o masoquista passa a ser muito dinâmico e sua coluna sofre. Tomemos como exemplo o caso de uma mulher que, querendo agradar ao marido, aceita que a sogra venha morar em sua casa. Pouco tempo depois, a sogra fica doente e ela se julga então obrigada a cuidar dela. O masoquista tem o dom de se colocar em situações em que deve cuidar de alguém. Assim, esquece cada vez mais de si mesmo. Quanto mais coisas carrega nas costas, mais peso ganha.

Toda vez que o masoquista tenta fazer tudo pelos outros, ele deseja, na realidade, criar restrições e obrigações para si próprio. Ele acredita que despender tempo para ajudar os demais é algo que não lhe trará vergonha, no entanto, muitas vezes, sente-se humilhado porque os outros se aproveitam dele. Aliás, ele raramente se sente reconhecido pelo que faz. Ouvi várias mulheres masoquistas dizerem que estavam cheias de bancar a empregada. E, embora se queixassem, continuavam a agir assim, pois não percebiam que elas mesmas haviam criado tais obrigações. Também ouvi diversos desabafos, como por exemplo: “Após 30 anos de bons serviços, a direção me jogou na rua feito lixo!” Esse tipo de pessoa, que se considera dedicada, não se sente realmente reconhecida. Além disso, é fácil perceber o sentimento de humilhação exposto nessa frase. Uma pessoa não masoquista tenderia a dizer “Após 30 anos de serviço, eles me despediram”, sem usar o termo “lixo”.

O masoquista não compreende que, fazendo tudo para os outros, os degrada e humilha, fazendo-os sentir que, sem sua ajuda, não serão bem-sucedidos. É comum, inclusive, o masoquista afirmar perante a família e os amigos que determinada pessoa não faz nada sem ele; e isso diante da própria pessoa, que se sentirá duplamente humilhada.

É importante que ele se dê conta de que não precisa ocupar tanto espaço na vida de seus conhecidos. Mas, em geral, ele não percebe que age dessa forma, pois costuma fazê-lo de maneira sutil. Eis por que seu corpo físico ocupa muito espaço: ele reflete sua crença. Quando o masoquista conseguir se achar especial e importante, não terá mais que provar isso para os outros. Reconhecendo-se, seu corpo não precisará mais ocupar tanto espaço.

Ele parece controlar-se, mas esse controle é motivado principalmente pelo medo de ter vergonha dos que lhe são próximos ou de si mesmo. A mãe masoquista, por exemplo, tende a controlar o vestuário, a aparência e o asseio de seus filhos e de seu parceiro. É o tipo de mãe que quer que os filhos cuidem do próprio asseio desde muito pequenos. Se ela não conseguir isso, sentirá vergonha de si mesma como mãe.

Como o masoquista, homem ou mulher, é frequentemente apegado à mãe, ele vai fazer de tudo para não lhe causar vergonha. Ela tem bastante influência sobre um masoquista, mesmo que isso aconteça de modo inconsciente e involuntário. Ele vê a mãe como um grande peso a ser carregado, o que lhe fornece outra boa razão para se julgar um apoio bem sólido. Essa influência continua inclusive após a morte dela. Embora isso lhe provoque um sentimento de vergonha, em geral o masoquista se sente consolado ou libertado pela morte da mãe, pois ele costumava permitir que ela sufocasse sua liberdade. Apenas quando a ferida da humilhação está em vias de ser curada é que essa influência se atenua.

Mas há aqueles que são de tal forma apegados à mãe que, quando esta morre, têm uma forte crise de agorafobia. Infelizmente, esses indivíduos costumam ser medicados como se fossem depressivos. E, como não são tratados de modo correto, pela doença que de fato têm, levam muito tempo para se recuperar.

O masoquista tem dificuldade para exprimir suas reais necessidades e o que sente verdadeiramente. Desde jovem, evita falar com medo de se envergonhar ou causar vergonha a alguém. Os pais de uma criança masoquista lhe dizem frequentemente que o que acontece na família não é da conta de ninguém e que ela não deve falar sobre isso. Deve guardar tudo para si. As situações vexaminosas ou os membros da família dos quais temos vergonha devem ser mantidos em segredo. Não se fala, por exemplo, de um tio na prisão, de um irmão suicida, de um membro da família internado num hospital psiquiátrico, etc.

Certa vez um homem me contou que se envergonhava por ter feito sua mãe sofrer, quando ele era jovem, ao roubar dinheiro de sua bolsa. Ele considerava inaceitável fazer isso com uma mãe que já se privava de tudo em prol dos filhos. Ele nunca havia contado aquilo a ninguém. Se pensarmos nas centenas de pequenos segredos como esse que ele guarda dentro de si, compreenderemos por que esse homem tinha problemas na garganta e na voz.

Algumas pessoas me confidenciaram a vergonha que sentiam na adolescência quando desejavam coisas caras enquanto sua mãe se privava do essencial. Elas não ousavam falar desses desejos, principalmente com a mãe. Em geral, o masoquista chega ao ponto de perder contato com os próprios desejos para não desagradar a mãe.

O masoquista costuma ser hipersensível, qualquer coisa o afeta. Por isso, faz de tudo para não magoar os outros. Quando alguém, sobretudo seus entes queridos, se sente infeliz, ele se julga culpado. Acha que deveria, ou não deveria, ter dito ou feito alguma coisa. Não compreende que, ao se manter focado nas necessidades dos outros, não escuta as suas próprias. Dos cinco tipos de personalidade, o masoquista é o que menos ouve suas necessidades, embora quase sempre tenha consciência do que quer. Ele sofre com isso, o que contribui para alimentar sua ferida da humilhação e sua máscara de masoquista. Ele faz de tudo para se mostrar útil. É uma maneira de esconder sua ferida e ter a ilusão de que não sofre de humilhação.

O masoquista costuma ter a capacidade de fazer os outros rirem. Ele é muito expressivo e engraçado contando histórias. E coloca-se como alvo do riso das pessoas. É uma maneira inconsciente de se humilhar e se rebaixar. Assim, talvez ninguém adivinhe que, sob as palavras que despertam as risadas, se esconde o medo da vergonha.

A menor crítica feita a seu respeito o faz sentir-se degradado. Além disso, ele é um especialista em menosprezar a si mesmo. Vê-se muito menor e menos importante do que é na realidade. Para ele, é inconcebível que os outros o considerem uma pessoa especial e importante. Observei que o diminutivo está muito presente em seu vocabulário. Ele dirá coisas como “Tem um minutinho para mim?”, “Posso dar uma sugestãozinha”. Sua letra é miúda, assim como seus passos; ele gosta de carros pequenos, casas pequenas, objetos pequenos, pouca comida, etc. Se você se reconhece na descrição do masoquista e não tem consciência de falar dessa maneira, sugiro que peça a seus amigos que o observem e escutem. Em geral somos os últimos a nos conhecer de verdade.

Quando o masoquista usa o termo “grande”, é na verdade para se rebaixar e se humilhar. Se ele se sujar comendo, por exemplo (o que é bastante frequente), dirá ou pensará: “Que grande porco eu sou!” Certo dia, numa reunião social, eu estava na companhia de uma senhora do tipo masoquista que estava muito bem-vestida e usava joias deslumbrantes. Elogiei-a e ela me respondeu: “Pareço uma grande milionária, não acha? Mas só pareço.”

O indivíduo que sofre de humilhação é sempre levado a se recriminar por tudo e até mesmo a assumir a culpa pelos outros. É sua maneira de ser uma boa pessoa. Um homem masoquista me contou que, quando sua esposa se sente culpada de alguma coisa, ele se deixa facilmente convencer de que a culpa é dele. Por exemplo, ela lhe dá uma lista de compras e se esquece de anotar um item que é comprado regularmente. Ele volta da loja sem aquele item e é repreendido: “Por que não se lembrou? Você sabe muito bem que compramos isso toda semana!” Ele se sente culpado e se recrimina. Não compreende que ela o acusa porque se sente culpada. Mas, mesmo que ela tivesse lamentado o próprio esquecimento, ele se odiaria por não ter pensado em comprá-lo e se desculparia.

Esse exemplo ilustra fielmente o hábito que o masoquista tem de assumir a culpa e se recriminar por tudo, até mesmo pelo que não é de sua responsabilidade. Assumir a culpa e se desculpar nunca resolvem nada, pois todas as vezes que esse tipo de situação se repete ele se culpa novamente.

 

É importante ressaltar que os outros não podem nos fazer sentir culpados, pois a

culpa só pode vir de dentro de nós.

 

A pessoa masoquista em geral se sente impotente diante dos amigos mais chegados. Quando é repreendida (reação que ela atrai de maneira inconsciente), fica perplexa, não sabendo o que dizer para se defender. Censura-se e sofre pela situação. Em seguida, tentará encontrar justificativas e explicações, com a finalidade de fazer as pazes. Julgando-se culpada, acha que é seu dever conciliar as coisas. Todos os cinco tipos de caráter se sentem culpados por razões distintas. O masoquista, por sentir-se humilhado com facilidade, é mais suscetível à culpa.

A liberdade é muito importante para o masoquista. Ser livre significa não ter que prestar contas, não ser controlado por ninguém e fazer o que quer e quando quer. Em criança, o masoquista sentia-se preso, sobretudo aos pais. Estes o impediam de ter os amigos que ele queria ou de sair à vontade e lhe davam várias tarefas ou responsabilidades em casa, como cuidar das outras crianças. Em geral, o masoquista é induzido a criar obrigações para si mesmo com mais regularidade do que o normal.

Quando sente que não há ninguém para refreá-lo, ele explode, vive a vida a fundo, sem limites. E exagera. Come demais, compra demais, cozinha demais, bebe demais, transa demais, quer ajudar demais, trabalha demais, gasta demais, acha que tem coisas demais, fala demais. Quando adota um desses comportamentos, tem vergonha de si mesmo, sentindo-se mal com os olhares ou os comentários dos outros. Daí seu temor de chegar ao seu limite, pois está convencido de que fará coisas vexatórias, tanto no plano sexual quanto no social. Além disso, acha que, se cuidar muito de si, não será útil aos outros. Isso vem despertar a humilhação vivida na juventude, quando ele ousava se recusar a cuidar dos outros. Há muita energia bloqueada no corpo do masoquista. Se ele se permitisse, sem vergonha ou culpa, ser livre como precisa, seu corpo emagreceria, pois ele desbloquearia a energia.

O maior medo do masoquista é, portanto, a liberdade. No fundo, ele está convencido de que não saberia administrar o fato de ser livre. Logo, arranja inconscientemente um jeito de não sê-lo. Ele acha que, fazendo as próprias escolhas, não será controlado pelos outros; mas suas decisões costumam resultar no oposto, ou seja, em mais coerções e obrigações. Veja alguns exemplos de como isso acontece:

 

O rapaz se sente na prisão dentro de casa, por conta de sua esposa controladora. Arranja então dois ou três empregos extras à noite para escapar disso. Julga-se livre, mas na realidade não tem mais liberdade para se divertir e curtir o filho.

A moça está solteira e, para se sentir livre, compra a própria casa. E não tem mais tempo livre para si, pois ficou sobrecarregada com tantas tarefas que a situação exige.

 

O que o masoquista faz para se libertar em determinado domínio o aprisiona em outro. Além disso, ele cria diversas situações em seu cotidiano que o obrigam a fazer coisas que não correspondem às suas necessidades.

Outra característica do masoquista é punir-se julgando penalizar o outro. Uma mulher me contou que discutia muito com o marido porque ele costumava sair com os amigos e não ficava com ela. Essas discussões terminavam com ela dizendo para ele: “Se não está satisfeito, a porta é ali!” Ele rapidamente pegava o paletó e saía. E lá estava a mulher sozinha de novo. Julgando puni-lo, ela punia a si mesma, permanecendo sozinha em casa enquanto o marido, feliz da vida, ia para a rua. Eis um bom método de alimentar sua parte masoquista.

O masoquista também tem o dom de se castigar antes que outro o faça. Isso acontece principalmente quando ele tem vergonha de alguma coisa ou tem medo de ter vergonha perante outra pessoa. Ele tem tanta dificuldade em se proporcionar prazer que, quando se diverte em determinada atividade ou na companhia de alguém, culpa-se por estar feliz demais. O masoquista faz tudo que pode para que as pessoas não achem que ele desfruta das coisas boas. Quanto mais se acusa de ser assim, mais seu corpo ganha peso.

Certo dia, uma jovem mãe me confessou: “Acho que sempre dou um jeito de não ter tempo de me proporcionar prazer ou de não sentir prazer no que faço.” Ela acrescentou que, à noite, quando o marido e os filhos veem um programa na TV, ela para um pouco ao lado deles e presta atenção. Quando gosta do programa, fica de pé assistindo. Não se permite nem se sentar, pois, segundo ela, ficaria com preguiça, e isso não faria dela uma boa mãe. O senso do dever é muito importante para as pessoas masoquistas.

Muitas vezes o masoquista é o intermediário entre outras duas pessoas. Serve de “amortecedor”, o que é uma razão para criar uma boa camada protetora para si. A mãe masoquista intervirá, por exemplo, nas questões entre o pai – ou o professor – e as crianças, em vez de lhes ensinar a assumir suas responsabilidades. No trabalho, o masoquista escolhe um cargo em que se vê obrigado a intervir para conciliar tudo e deixar todos satisfeitos. Sem assumir um papel assim, ele sentiria vergonha de não fazer nada pela felicidade dos outros.

É possível ver no corpo do masoquista quanto ele está sobrecarregado. Ele sente dores na coluna e nos ombros arqueados.

Podemos também perceber em seu corpo em que momento ele não consegue mais lidar com determinada situação: temos a impressão de que sua pele está repuxada ao máximo, que não há mais espaço, que ele está comprimido. Se isso acontece com você, seu corpo está tentando lhe dizer que está mais do que na hora de começar a cuidar de sua ferida da humilhação, pois você não consegue mais suportar a situação.

Ao contrário do que se poderia pensar, a aparência é importante para as pessoas masoquistas; basta ver a maneira como algumas se vestem. No fundo, elas adoram as roupas descoladas e um visual moderno, mas, como acham que devem sofrer, não se permitem isso. Quando uma pessoa masoquista se veste com roupas muito coladas ao corpo, deixando bem à mostra umas gordurinhas a mais, é sinal de que sua ferida é mais grave. Ela se faz sofrer mais. Quando começa a se permitir comprar roupas vistosas e de boa qualidade, do tamanho certo e do seu gosto, sabemos que sua ferida está no caminho da cura.

O masoquista tem o dom de atrair para si situações capazes de humilhá-lo. Eis alguns exemplos:

 

A mulher arranja um homem que não sabe se comportar em público quando bebe muito.

A mulher arranja um parceiro que flerta com outras na sua frente. O homem arranja uma companheira mal-educada, sobretudo diante de seus colegas de trabalho.

O homem e a mulher têm o dom de sujar suas roupas quando se

alimentam em público: o homem entorna comida na gravata e a mulher, no peito. Ela dirá que seus seios grandes por vezes a atrapalham, mas, na verdade, não quer enxergar que atrai situações humilhantes ou vexatórias para ajudá-la a descobrir sua ferida. Quantas vezes ouvi mulheres masoquistas me dizerem durante o almoço: “Que grande tonta eu sou! Ainda por cima me sujei!” Quanto mais tentam limpar a mancha, mais ela parece aumentar.

O homem passa um período desempregado e, quando vai dar entrada no pedido de seguro-desemprego, nota que um ex-colega ou conhecido o vê entrar na fila. Ele tenta se esconder.

 

Só os indivíduos que sofrem de humilhação vivem as situações descritas nos exemplos anteriores dessa maneira. Outra pessoa poderia, na mesma circunstância, sentir-se rejeitada, abandonada, traída ou injustiçada.

Lembre-se: não é o que você vive que o faz sofrer, mas sim sua reação ao que

você vive, por causa de suas feridas não curadas.

 

O nojo é um sentimento muito vivenciado pelo masoquista. Ele tem nojo de si mesmo ou de outras pessoas. Ele cria situações em que sentirá nojo e sua primeira reação será rejeitar aquilo que lhe dá repulsa. Conheci várias pessoas masoquistas que tinham nojo dos pais: uma mãe suja, muito gorda, preguiçosa ou vulgar; um pai alcoólatra e fumante inveterado, que cheirava mal ou saía com más companhias ou outras mulheres. Quando crianças, essas pessoas não queriam convidar os amigos para irem à sua casa, o que diminuía a possibilidade de ter tantos amigos quanto os outros.

Para mostrar até que ponto o masoquista tem dificuldade para estar em contato com suas próprias necessidades, é muito comum vê-lo fazer pelos outros o que não faz por si mesmo. Eis alguns exemplos:

 

O homem ajuda o filho a pintar seu apartamento, mas não encontra tempo para realizar essa tarefa na própria casa. A mulher deixa a casa um brinco para os convidados, mas, quando está sozinha, não age da mesma forma. Ela julga não merecer aquilo. A mulher que gosta de estar bem-arrumada e se veste bem na presença dos outros, mas, sozinha, anda em “farrapos”. Se alguém chega

inesperadamente, ela sente vergonha e tem vontade de se esconder.

 

O ser humano faz de tudo para não ter consciência do sofrimento, pois tem muito medo de sentir a dor associada à sua ferida. O masoquista faz isso tentando ser digno a todo custo. Utiliza bastante as expressões “ser digno” ou “ser indigno”. Ele acredita que não merece, por exemplo, ser amado ou reconhecido. Dessa forma, supõe que não é digno de ser feliz, só de sofrer. Tudo isso se desenrola, em geral, de maneira inconsciente.

Na esfera da sexualidade, o masoquista também enfrenta dificuldades em virtude da vergonha que sente. Com todos os tabus transmitidos na educação sexual das crianças, é normal que a pessoa que se envergonha com facilidade seja influenciada pelas noções de pecado, indecência e sujeira ligadas à sexualidade.

Tomemos como exemplo o filho de uma mãe que engravidou na adolescência. Se essa gravidez gerou vergonha, a criança terá sua ferida despertada muito cedo, tão cedo que ela se tornará um adulto com uma ferida mais pronunciada. Desde a concepção, ela terá uma imagem deturpada do ato sexual. Sei que, em nossos dias, a sexualidade é muito mais livre do que antes, mas não se deixe enganar por isso. A vergonha sexual transmitida de geração em geração só será resolvida quando a ferida da humilhação for curada. Constatei, ao longo dos anos, que a maioria dos indivíduos que sofre de humilhação faz parte de famílias cujos membros têm problemas sexuais. Não foi à toa que todas essas almas se atraíram.

A garota masoquista tende a se reprimir sexualmente, em geral para não causar vergonha à mãe, que costuma ser controladora a esse respeito. A adolescente aprende que o sexo é nojento e mais tarde terá de trabalhar sua mente para conseguir se livrar dessa crença. Certa vez, uma menina de 14 anos me contou que morreu de vergonha quando deixou um menino beijá-la e tocá-la. No dia seguinte, na escola, tinha a impressão de que todo mundo olhava para ela, sabendo o que ela fizera.

Quantas adolescentes se sentem humilhadas no momento da chegada da primeira menstruação e do despontar dos seios! Algumas tentam inclusive comprimir os seios quando os acham grandes demais.

O garoto adolescente masoquista sente-se igualmente controlado no nível sexual. Morre de medo de ser surpreendido se masturbando. Mas quanto mais vergonhoso lhe parece o gesto, mais ele é impelido a repeti-lo. Atrairá assim situações humilhantes e vergonhosas com seus pais e amigos na esfera sexual.

A humilhação é mais forte em geral entre mães e filhas. Se uma pessoa acha o sexo vergonhoso e sujo, tende a atrair o assédio e os abusos, sobretudo durante a infância e a adolescência. Sentirá tanta vergonha que não ousará falar disso com ninguém.

Várias mulheres do tipo masoquista me contaram que, após reunirem toda a coragem para dizer às mães que estavam sofrendo assédio ou incesto, ouviram em resposta coisas como “A culpa é sua, você que é sexy demais”, “Quem manda provocar?” ou “Com certeza você fez alguma coisa para isso acontecer”. Esse tipo de reação materna só faz intensificar o sentimento de humilhação, vergonha e culpa da filha. Quando uma mulher adota uma grande proteção sob a forma de excesso de gordura em torno dos quadris, nádegas e barriga, ou seja, na região sexual, podemos presumir um medo com relação à sexualidade, causado pelos abusos de que foi vítima.

Não surpreende ver tantas meninas adolescentes, e cada vez mais meninos, começarem a engordar no momento em que o impulso sexual se manifesta com mais intensidade. É um bom método para não serem desejáveis, não serem assediados e, inconscientemente, se privarem do prazer sexual. Muitas mulheres já me disseram “Se eu tivesse um corpo bonito e magro, eu seria sexy demais e talvez enganasse meu marido” ou “Eu me vestiria mais sexy e meu marido teria ciúmes”. Constatei que a maioria das pessoas gordas, homens e mulheres, são muito sensuais.

As pessoas masoquistas não são apenas sensuais, são sexuais. Fariam amor com frequência se fossem capazes de dedicar um tempo a reconhecer suas verdadeiras necessidades nesse domínio (como em muitos outros, aliás). Ouvi diversas vezes mulheres dizerem que, quando sentem desejo de fazer amor, não ousam comunicar a seus parceiros. É inconcebível, segundo elas, importunar o outro com seu próprio desejo.

O homem masoquista tampouco tem o tipo de vida sexual que deseja. Ou é muito tímido frente ao sexo ou obcecado por ele. Pode ter dificuldades de ereção ou sofrer de ejaculação precoce.

Quando uma pessoa masoquista se dá o direito de gostar de sexo e encontra o parceiro com quem poderia se sentir à vontade, ela tem dificuldade de se entregar completamente. Sente vergonha de expor o que aprecia no sexo e de se permitir produzir sons, por exemplo, para mostrar a que ponto gosta daquilo.

A confissão, exigida pela religião, foi igualmente fonte de vergonha para aqueles obrigados a isso em sua juventude, mais especialmente para a adolescente compelida a expor sua vida sexual a um homem. No passado, as pessoas deviam inclusive confessar seus maus pensamentos. Imagine a dificuldade, principalmente para uma adolescente do tipo masoquista, de confessar ter feito amor antes de se casar. As mais religiosas morriam de vergonha perante Deus, pois consideravam inaceitável decepcioná-Lo e achavam humilhante ter de contar aquilo a um padre. Essa humilhação deixa uma marca profunda, que leva anos para desaparecer.

Também é um grande esforço, para o homem e a mulher masoquistas, despir-se diante de um novo parceiro. Temem sentir vergonha, embora, no fundo, sintam enorme prazer de passear nus quando conseguem se conceder esse direito. Sendo pessoas sensuais, tanto podem achar o sexo “sujo” como desejar ser ainda mais “sujos” em sua sexualidade. Isso talvez seja difícil de compreender para alguém que não é do tipo masoquista, mas os que o são compreendem. Acontece a mesma coisa com todos os tipos de ferida. Compreende melhor quem vive aquela mesma experiência.

Consequentemente, a ferida da humilhação afeta nossa maneira de nos comunicar. Os medos do masoquista que o impedem de se comunicar com clareza são: de magoar o outro, de parecer egoísta, de revelar suas necessidades ou desejos, de ser rebaixado ou humilhado, de que o outro o faça sentir-se como lixo, de se sentir ou ser tachado de indigno. Reconhecer-se nesses medos é um bom meio para descobrir que você não está sendo você mesmo e que é sua ferida da humilhação que prevalece.

Eis algumas indisposições e doenças que podem se manifestar no masoquista:

 

dores na coluna. Dores na coluna e sensação de peso sobre os ombros são muito frequentes, pois ele carrega muito “peso” nas costas. Sua dor na coluna deve-se principalmente a seu sentimento de falta de liberdade. A base da coluna é afetada quando o mal está ligado às coisas materiais e a parte superior, ao domínio afetivo.

problemas respiratórios. Ele pode sofrer desse problema caso se deixe sufocar pelos problemas dos outros.

problemas físicos. Problemas nas pernas e nos pés, como varizes, entorses e fraturas, são frequentes. Devido ao medo de ficar inválido, ele termina por atrair problemas físicos que o impedem de se mover. fígado. É comum ele sofrer de problemas no fígado, pois é do tipo que “filtra” a raiva (a sua própria e a dos outros).

garganta. Laringites e anginas são problemas que o masoquista enfrenta, pois ele costuma reprimir o que tem a dizer e sobretudo o que deseja pedir.

tireoide. Quanto maior sua dificuldade em ter consciência de suas necessidades, maior a probabilidade de problemas na tireoide. problemas dermatológicos. O fato de não saber escutar suas necessidades provoca frequentemente comichões na pele. Sabemos que a expressão “isso me dá uma coceira” significa “tenho muita vontade de...”, mas o masoquista não se permite isso, uma vez que seria vergonhoso querer se proporcionar prazer.

hipoglicemia e diabetes. Outro problema físico que pude observar nas pessoas masoquistas é o mau funcionamento do pâncreas, o que provoca hipoglicemia e diabetes. Essas doenças se manifestam nas pessoas que têm dificuldade de ter prazer ou nas que o aceitam mas se sentem culpadas.

problemas cardíacos. O masoquista é predisposto a problemas cardíacos porque não se ama o suficiente. Ele não se julga importante o bastante para desfrutar do prazer. A região do coração, no ser humano, tem um elo direto com a alegria de viver e a capacidade de se proporcionar prazer.

intervenções cirúrgicas. Por causa de sua crença no sofrimento, não é raro ver um masoquista passar por diversas cirurgias.

 

Se você estiver com um ou vários desses problemas físicos, há fortes chances de que eles sejam causados pelo comportamento ligado à sua máscara de masoquista. Essas doenças podem se manifestar em pessoas com outras feridas, mas parecem muito mais comuns nas que sofrem de humilhação.

Em relação à alimentação, o masoquista é frequentemente extremista. Ou come feito um glutão, ou só engole pequenas porções para fingir para si mesmo que não come muito e não sentir vergonha. Em contrapartida, ingere diversas pequenas porções, o que, somado, significa muito. Tem momentos de bulimia, em que comerá às escondidas, sem, no entanto, se dar conta do que está comendo. É do tipo que come de pé, junto à bancada da cozinha, por exemplo. Assim tem a impressão de não ter comido tanto quanto se tivesse se dado o tempo de sentar à mesa. Tem preferência pelos alimentos ricos em gordura.

Em geral, sente-se muito culpado e tem vergonha de comer praticamente qualquer coisa, inclusive o que engorda, como chocolate. Uma participante de uma oficina que ministrei me contou que, quando está na fila do mercado, prestes a pagar, olha todas as bobagens que colocou no carrinho e tem vergonha do que as pessoas em volta podem pensar. Fica convencida de que a consideram uma baleia.

O fato de achar que come demais não ajuda a pessoa masoquista a controlar o peso, pois, como se sabe, nossas crenças sempre se realizam. Quanto mais ela pensa e se sente culpada por ter comido demais, mais a comida ingerida a faz engordar. Se uma pessoa absorve uma grande quantidade de alimentos e não ganha peso, é porque não tem a mesma atitude interior, a mesma crença. Os cientistas dirão que essas duas pessoas têm um metabolismo diferente. Os indivíduos podem, de fato, ter um metabolismo ou um sistema glandular diferente que pode afetar o corpo físico, mas continuo convencida de que é o sistema de crenças que determina o tipo de metabolismo, de sistema glandular ou de sistema digestivo de uma pessoa, e não o contrário.

O masoquista busca recompensa na comida. É sua tábua de salvação, sua maneira de se gratificar. Quando começar a fazer isso por outros meios, sentirá menos necessidade de recorrer ao alimento. Ele não deve se odiar por esse comportamento, pois foi o que o salvou e o ajudou a sobreviver até aqui.

Segundo as estatísticas, 98% das pessoas que seguem um regime para emagrecer recuperam o peso perdido. Você já notou que a maioria dos que desejam emagrecer afirma querer perder peso? Ora, é da natureza humana querer recuperar aquilo que perdeu. Eis por que seria preferível dizer eliminar em vez de perder peso.

Pude observar que, após diversos regimes, as pessoas que perdem e recobram peso com muita frequência têm mais dificuldade de tornar a perder e cada vez mais facilidade de ganhar peso. O corpo físico parece cansar-se do trabalho exigido. É preferível aceitar seu corpo e trabalhar a ferida da humilhação, tal como indicado no último capítulo deste livro.

Para se tornar mais consciente de sua ferida da humilhação, o masoquista deve compreender a que ponto tem vergonha de si mesmo ou das outras pessoas. Além disso, deve reconhecer todas as ocasiões em que se humilhou ou se considerou indigno. Como ele costuma ser radical, a princípio não enxerga as situações vexatórias, mas logo admite várias delas. Quando isso acontece, sua primeira reação é ficar em choque, mas depois acha graça. É o início da cura.

Se você se reconhece na ferida da humilhação, lembre-se de que precisa trabalhar mais no nível da alma, libertando-se do sentimento de humilhação. Se você trabalha apenas no nível físico, controlando-se o tempo todo para não engordar ou para emagrecer, não está em harmonia com seu plano de vida e deverá reencarnar num novo corpo, talvez ainda mais gordo. Enquanto estiver aqui, é mais sensato planejar libertar sua alma do que controlar seu corpo.

É importante saber que sua mãe e/ou seu pai também vivem a ferida da humilhação. Ao sentir compaixão por eles, será mais fácil senti-la por você mesmo.

Lembre-se de que a principal causa de uma ferida é a incapacidade de perdoar o que infligimos a nós mesmos ou aos outros. É difícil nos perdoar, pois, em geral, não temos consciência de que nos autossabotamos. Quanto mais grave a ferida da humilhação, mais você se humilha (comparando-se aos outros) ou humilha outras pessoas (sentindo vergonha delas ou querendo fazer demais por elas).

Já mencionei que a máscara de masoquista parece ser a mais difícil de reconhecer e aceitar. Se você se vê na descrição física dessa máscara, mas não nas outras características, sugiro que releia o capítulo várias vezes nos próximos meses. Aos poucos, as situações de vergonha e humilhação que viveu virão à sua lembrança. Dê-se o tempo necessário para reconhecer essa ferida em você.

 

As características e os comportamentos mencionados neste capítulo só estão

presentes quando uma pessoa veste a máscara de masoquista para evitar viver a

humilhação. Conforme a gravidade da ferida e a intensidade da dor, essa

máscara pode ser usada alguns minutos por semana ou praticamente o tempo

todo.

CARACTERÍSTICAS DA FERIDA DA

HUMILHAÇÃO

 

DESPERTAR DA FERIDA: Entre 1 e 3 anos de idade, com o genitor responsável

por seu desenvolvimento físico, em geral a mãe. Falta de liberdade.

Sentir-se humilhado pelo controle desse genitor.

MÁSCARA: Masoquista.

CORPO: Gordo, arredondado, estatura baixa, pescoço largo e inchado,

tensões no pescoço, na garganta, nos maxilares e na pélvis. Rosto

redondo, franco.

OLHOS: Grandes, arregalados; abertos e inocentes como os de uma

criança.

VOCABULÁRIO: “Ser digno”, “ser indigno”, “pequeno”, “grande”.

CARÁTER: Sente vergonha de si mesmo e dos outros ou medo de causar

vergonha. Não gosta de ir muito depressa. Conhece suas necessidades,

mas não as escuta. Carrega muito peso nas costas. Controla-se para

evitar a vergonha. Julga-se sujo, sem coração, porco ou menor do que

os outros. Dependente. Dá um jeito de não ser livre, pois “ser livre”

significa “ilimitado”. Se não tiver limites, tem medo de se exceder.

Maternal. Hipersensível. Castiga-se julgando castigar o outro. Quer ser

digno. Sente nojo. Vergonha no âmbito sexual. Não escuta suas

necessidades sexuais. Compensa e se recompensa por meio da comida.

MAIOR MEDO: Liberdade.

ALIMENTAÇÃO: Gosta de alimentos ricos em gordura. Bulimia. Ingere

várias pequenas porções. Vergonha de comprar ou comer gulodices.

DOENÇAS POSSÍVEIS: Coluna • ombros • garganta • angina • laringite •

problemas respiratórios • pernas • pés • varizes • entorses • fraturas •

fígado • tireoide • comichões na pele • hipoglicemia • diabetes •

coração.

ASPECTO FÍSICO DO CONTROLADOR

(FERIDA DA TRAIÇÃO)