As Drogas, as Pessoas e as Cidades

Thiago Godoi Calil · Capítulo 3 de 8 · parte 2/2

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As Drogas, as Pessoas e as Cidades

Primeira parada – O contexto latino-americano

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Falamos um pouco sobre o ouro. Agora, é a coca-cocaína (Figura

4).

Figura 4 – Atravessando o rio Atrato de canoa. Ao fundo,

Catedral San Francisco de Asis, Quibdó. Abril de 2019

 

Fonte: desenho elaborado pelo autor.

 

Coca: entidade e fetiche sul-

 

americano

 

La coca es buena para el hambre, para la sed, para la fatiga, para el calor, para el frío, para el dolor, para la alegría, para todo es buena. Es buena para la vida. […] La coca es sabia y benéfica.

Alegría, 1971 apud Santoni e

Torres (2010, p.28)

 

Para começar, a coca vem do campo, mas são os derivados das folhas de coca, como o cloridrato de cocaína refinado, a pasta-base e o crack/basuco, que são consumidos principalmente nos centros urbanos. A produção dessas substâncias se inicia com o cultivo do arbusto de coca em regiões campesinas de países da América do Sul, como Peru, Equador, Bolívia, norte da Argentina e Colômbia.

Pois bem, estar na Colômbia foi sentir a visceral ligação dessas duas riquezas ancestrais e atuais, o ouro e a coca. Para a cultura indígena dos Kogi, da Sierra Nevada no norte da Colômbia, por exemplo, o ouro representa o sangue menstrual da mãe-terra. Os homens exclusivamente fazem conexões íntimas entre a coca e o precioso metal em seus lendários poporos de ouro. Os poporos são recipientes utilizados como instrumento para dispor o pó (alcaloide) feito de conchas tostadas e moídas para maior absorção na mascagem das folhas de coca. O acúmulo de cinzas e saliva seca nas bordas dos poporos representa o pagamento à Mãe terra pela desonra de extração do profundo metal. A proposta é absorver coca e “escrever pensamentos” calcados em grossas crostas que se juntam em suas bordas. Conexões entre os homens e os poporos são capazes de rivalizar com as mulheres do grupo devido à relação inseparável dos homens e esses objetos (Reichel-Dolmatoff, 1985 apud Taussig, 2013), do homem com o ouro e a cocaína. Dessa forma, apesar de o objeto ser útil na utilização da coca, segundo Taussig (2013, p.21, tradução minha), “o poporo é mais uma extensão viva do corpo, ou devo dizer, da mente, que um artefato mecânico”.

A utilização das folhas de coca marca culturas milenares, tradicionais e dotadas de considerável valor cultural para distintos povos das regiões amazônica e andina. Segundo uma exaustiva pesquisa arqueológica e revisão de crônicas do período da conquista espanhola, as antropólogas argentinas Mirta Santoni e Graciela Torres (2010) apontam distintos sentidos atribuídos à folha de coca, entre eles os seguintes: oferendas; rituais de iniciação, de sacrifícios humanos e cerimônias fúnebres; medicinal; adivinhatório; também moeda de troca. As estimativas mais antigas do uso e cultivo da coca datam de 3.000 a.C. em peças de cerâmicas da cultura Valdivia encontradas no Equador; entretanto, sua presença alarga-se pelas Américas Central e Sul, onde existem evidências de seu uso desde a Nicarágua até o noroeste da Argentina (Santoni; Torres, 2010).

A forma mais recorrente de uso tradicional da folha de coca é por meio da “insalivação”, como nos poporos colombianos, que consiste em insalivar um bolo de folhas e manter na bochecha por 2 ou 3 horas. Essa via de administração possibilita que os alcaloides contidos nas folhas atuem no organismo humano de forma benéfica, já que “removem o cansaço, a fome, a sede e o sono, propriedades da folha que os indígenas, sem nenhuma dúvida, já haviam descoberto empiricamente ” (Santoni; Torres, 2010, p.10, tradução minha).

O fato é que a coca permaneceu onipresente na cultura andina ao longo do tempo, evidenciando seu profundo enraizamento simbólico, mítico e mágico entre os povos sul-americanos. No início de 2017 estive no norte da Argentina, na cidade de Salta, e era possível comprar folhas de coca em grandes quantidades no mercado central da cidade. Eram sacos enormes cheios de folhas de coca em que homens enfiavam seus braços inteiros enquanto enchiam outros sacos menores para venda a granel no varejo. A venda no mercado acontecia de forma bastante natural, ou seja, relação intrínseca ao cotidiano desse povo aos pés orientais da Cordilheira dos Andes – uma relação entre homem e planta, que muitas vezes associada aos contextos rituais consolidam laços comunitários, constituindo-se como um marcador de identidade étnica do mundo andino, além de oferecer seus benefícios pessoais e coletivos sobre a saúde física, emocional e social de seus povos (Santoni; Torres, 2010). Afirmam as mesmas autoras:

 

Poderíamos dizer que a coca – considerada uma planta sagrada –, como a batata, a quinoa, o milho, a abóbora e outras plantas nativas de nosso continente, todas de grande valor econômico, nutricional e simbólico, formam parte importante da história e da cultura dos povos americanos, a ponto de se tornarem um verdadeiro marcador de identidade, especialmente milho, batata e coca. Sua entidade para o imaginário coletivo andino é tal que deram origem à criação de lendas que explicam sua origem, lendas que são transmitidas oralmente entre as gerações e sobreviveram até hoje. (ibidem, 2010, p.3, tradução minha)

 

Além dos valores simbólicos, em 1975 a Universidade de Harvard publicou um interessante estudo sobre o significativo valor

nutricional da folha de coca, 8 afirmando que a ingestão de 100 g da folha poderia mais que satisfazer as necessidades diárias de cálcio, ferro, fósforo, Vitamina E, Vitamina B2 e principalmente Vitamina A, pois apresenta índices surpreendentemente elevados. Quando ingerida em forma de farinha de coca, ou com a possível ingestão das folhas além da mastigação, o informe afirma que “não há essencialmente nenhuma diferença entre o uso da coca e o consumo direto de alimentos, em termos de nutrição” (James; Aulik; Plowman, 1975, p.116).

Contudo, suas propriedades estimulantes despertaram o interesse comercial muito antes da colonização espanhola. Segundo o historiador Hermes Tovar Pinzón (1999), entre 1250 e 1315, o império Inca, em uma das suas ações expansionistas, enviou um contingente de 15 mil guerreiros para conquistar terras propícias para o cultivo da planta. Com a chegada dos espanhóis não foi diferente.

Antes de ser proibida, o economista Andrés López Restrepo (2018) resgata o momento de bonanza proporcionado pelo mercado legalizado que a folha de coca e a cocaína experimentaram na segunda metade do século XIX. O desenvolvimento tecnológico promovido pela Revolução Industrial do fim do século XVIII inovou as possibilidades de transporte com ferrovias e barcos a vapor, e a diminuição de custos e a agilidade no deslocamento de mercadorias favoreceu significativamente o comércio internacional (Restrepo, 2018; Bértola; Ocampo, 2010). A circulação global de mercadorias possibilitou a manipulação das folhas de coca para além da região andina, e em 1855 o químico alemão Friedrich Gaedecke extraiu o princípio ativo da cocaína, um dos 14 alcaloides presentes na folha de coca (Marez, 2018). Entretanto, às margens das economias centrais com maior infraestrutura, mais uma vez a América Latina foi submetida às relações de exploração pelas metrópoles europeias (Bértola; Ocampo, 2010) e por atores internos que também submeteram e submetem as populações locais. Com o avanço da exploração do período colonial, as elites locais nascidas na América Latina também se tornaram empreendedores do mercado de produtos, e assim passaram a proporcionar pressões de submissão e violência internamente no continente. O avanço do mercado e da produção de cocaína possibilitada pelas folhas de coca dos espanhóis estava diretamente relacionado ao regime escravocrata imposto aos indígenas, principalmente peruanos (Marez, 2018).

Entretanto, a descoberta dos efeitos psicofarmacológicos da coca motivou pouco interesse médico na época, não passando de uma curiosidade excêntrica, mais utilizada na produção de tônicos estimulantes e vinhos, como o “Vinho Mariani” (Restrepo, 2018). Além de a mistura com álcool conservar os efeitos do princípio ativo, a repulsa europeia pela mascagem da folha de coca proporcionou maior adesão e reconhecimento desas bebidas no mercado europeu. A mascagem, como hábito indígena, supostamente não era bem aceita nos modos de consumo europeus, marcando mais uma vez as clivagens coloniais que não se expressam somente na exploração econômica, mas também por visões e relações étnicas e eurocentristas de mundo (De Oto; Catelli, 2018). A empresa produtora do vinho Mariani foi a maior importadora mundial folhas de coca bolivianas entre 1863 e 1885. Com grande apelo publicitário como característica da “mercadotecnia” do emergente capitalismo, os vinhos com base de coca foram divulgados e legitimados por diversas celebridades da realeza europeia, como os escritores Julio Verne e H. G. Wells, a atriz Sarah Bernhardt e inclusive o papa León XIII da igreja Católica, que exerceu seu pontificado por 25 anos, de

1878 a 1903 (Marez, 2018) (Figura 5). No anúncio, que inclusive indica o vinho de coca para revigorar a saúde e a força por meio da estimulação do corpo e do cérebro, o papa reconheceu os efeitos benéficos do preparado premiando seu criador com o mérito de uma medalha de ouro como honra do Vaticano.

Figura 5 – A divulgação do Vinho Mariani em 1878 contou

com o apelo do Papa León XIII

 

Fonte:

https://www.propagandashistoricas.com.br/2013/07/vinho-

mariani-papa-leao-xiii-1878.html.

 

A chegada das folhas à Europa logo foi capturada pela emergente indústria farmacêutica do velho mundo. A Empresa Alemã Merck, por exemplo, já despontava como a primeira produtora de morfina, e também protagonizou pioneirismo comercial como maior importadora das folhas de coca e produtora de cocaína da época A Merck iniciou sua produção em 1862 e manteve-se ativa até a década de 1920 (Restrepo, 2018). Restrepo ressalta como o Peru foi o maior exportador para Alemanha, principalmente após a descoberta do farmacêutico franco-peruano Alfredo Bignon, em 1884, de um modo mais barato de processar uma cocaína bruta com qualidade. No mesmo ano de 1884, o jovem médico austríaco, Sigmund Schlomo Freud, que anos depois elaborou a teoria psicanalítica, publicou o texto “Über-coca” (“Sobre a coca” em português). No artigo, Freud traz um pouco do que era o uso de cocaína na época e expõe brevemente o uso tradicional da folha de coca, além de descrever as propriedades da planta e narrar alguns experimentos de seu “breve” contato com a cocaína.

 

Don Cipión e a “substância mágica”

 

Freud gostava de espanhol. O professor Curtis Marez resgata o interesse de Freud pela cultura e língua hispânica ao analisar cartas escritas em espanhol trocadas com um amigo de infância como forma de estudos da língua. Nessas cartas, Freud assinava sistematicamente como Don Cipión, e a partir daí, fazemos alusões às suas pretensões científicas assim como às virtudes e possíveis êxitos da cocaína destacados por Freud na época.

Em seu primeiro texto sobre a cocaína, “Über Coca” de 1884, além de apresentar alguns dados botânicos, Freud faz breve referência ao uso tradicional da folha de coca pelos indígenas latino-americanos. O jovem médico menciona que inicialmente o uso da folha de coca foi proibido por espanhóis e crioulos pois era visto como elemento pecaminoso vinculado às práticas religiosas dos nativos. Porém, ao perceberem a baixa produtividade dos recém-escravizados indígenas nas minas de ouro e prata, permitem o uso com finalidades de estimulá-los e otimizar a produção do Império. Os conquistadores europeus passaram a controlar os indígenas com a racionalização da distribuição e consumo de coca em determinados momentos do dia (Marez, 2018; Freud, 1884 apud Byck, 1989). Essa prática permitiu uma forma mais barata e eficiente de exploração; afinal o uso das folhas de coca diminuiria a fome e a necessidade de alimentação. A relação custo-tempo-benefício parece encaixar na lógica da produção e lucro do capital. Porém, em paralelo, temos já uma transição e ressignificação do uso tradicional indígena da folha de coca para formas de exploração do regime escravocrata imposto pelos espanhóis.

Apesar de alguns dados interessantes, como a data de chegada da planta na Europa em 1749, Freud conteve seu foco nos possíveis benefícios médicos do uso da planta. A partir de análises de estudos experimentais em animais, como coelhos, rãs e cachorros, o jovem médico de Viena também detalhou algumas observações clínicas em humanos. Em suas palavras: “Eu mesmo experimentei cerca de uma dúzia de vezes esse efeito da coca, que afasta a fome, o sono e a fadiga e robustece a pessoa para o esforço intelectual; não tive oportunidade de me ocupar com trabalho físico” (Freud, 1884 apud Byck, 1989, p.76).

Curiosa a forma de uso descrita por ele em 1884 – via oral: beber 0,05g de uma viscosa cocaína líquida. O texto de Freud apresenta uma vasta revisão bibliográfica da época (Byck, 1989), e segundo Curtis Marez (2018), já em 1885 a revista científica British Medical Journal havia publicado uma única edição contendo surpreendentes 67 artigos sobre a cocaína. Apesar de estudos apontarem benefícios para determinados casos e situações, as dúvidas em relação à padronização dos recém-preparados da indústria farmacêutica dificultavam análises precisas, plantando assim muitas incertezas sobre possíveis danos e potencial terapêutico da planta (Freud, 1884 apud Byck, 1989). Entretanto, mesmo considerando estudos que sugeriam efeitos negativos de seu uso, Freud parece se entusiasmar mais com a possibilidade de seus benefícios. Para além de estimulante, afrodisíaco e anestésico local, os argumentos do austríaco relatam o uso de cocaína para o cuidado de diferentes enfermidades da época, como tuberculose, indigestão, asma, melancolia e uso problemático de álcool e morfina. Nessa época já havia alguns indícios de que o uso abusivo poderia resultar em relação problemática com a substância como o álcool e a morfina, e assim já se iniciava a construção do peso moral em torna da coca e da cocaína (Byck, 1989).

Ao ler o escrito do jovem Freud de 27 anos, surpreendi-me com uma das descrições referentes ao revigorante efeito da planta, que ao evitar a fadiga e a fome proporcionava invejável vitalidade vinda do Novo Mundo. Segue a descrição:

 

O homem em questão realizou um penoso trabalho de escavação durante cinco dias e cinco noites, sem dormir mais de duas horas por noite, e não consumiu nada além de coca. Depois que o trabalho estava terminado, ele acompanhou Tschudi em uma viagem de dois dias, correndo ao lado de sua mula. Assegurou que de bom grado executaria de novo o mesmo trabalho, se lhe dessem coca suficiente. O homem tinha 62 anos e nunca estivera doente. (Freud, 1884 apud Byck, 1989, p.67)

 

Minha surpresa é por Freud focar a atenção no prodigioso efeito das folhas de coca e omitir considerações sobre as gritantes formas de exploração escravocrata nas colônias espanholas. Na leitura de Curtis Marez (2018, p.76, tradução minha), segundo Freud, “em vez de converter os europeus em escravos, a cocaína promete a experiência de domínio e controle de si mesmo”. Os possíveis ganhos para a medicina com a utilização da cocaína pareciam ser mais fascinantes do que questionar seus métodos desumanos de exploração. Era uma mercadoria que concentrava apostas terapêuticas, de reconhecimento, fama e recompensas econômicas capazes de ocultar trechos significativos da história.

Nas palavras de Marez (ibidem, p.77, tradução minha): “Freud estava disposto a ‘cosificar’ a exploração da mão de obra indígena da qual dependia seu projeto de ascensão. De fato, Freud generalizou seu uso da cocaína indígena, sugerindo que o valor extraído do Outro em forma de fármaco permitira aos europeus abstrair os verdadeiros contextos político-econômicos”.

É compreensível ao considerarmos o contexto e o parcial acesso à informação nos tempos de Freud. Mas vale acrescentar, segundo Rojas-Jara, que a biografia de Freud indica que nessa época o doutor vislumbrava reconhecimento no meio médico, apostando essa possibilidade na cocaína e dedicando três anos de sua vida a estudos com preparados da planta (Jones, 1963 apud Rojas-Jara, 2018, p.2). Entretanto, é relevante também ponderar que promover o avanço da cocaína como medicamento era também apoiar a exploração escrava indígena no recém-mercado global de coca e cocaína. As inúmeras movimentações de resistência indígenas à exploração espanhola (Marez, 2018) também não são descritas pelo jovem médico. Sugere-se que explicitar esses processos poderia comprometer as pretensões de incluir a substância no leque de medicamentos psicofarmacológico modernos. Nesse processo de ocultamento da história, parece haver alguma similaridade com a problemática do Museo del Oro de Bogotá trazida por Taussig (2013).

Há quem acredite que essa fase tenha sido um breve lapso no trajeto de Freud antes de iniciar a construção da teoria psicanalítica. Entretanto, tendo a acompanhar Marez (2018) ao considerar que a experiência com a coca pode ser um crivo importante na carreira de Freud, atuando como uma “dobradiça” entre obra fisiológica e psicológica. O psicólogo Rodrigo Alencar faz pesquisas contundentes na aproximação entre as drogas e a psicanálise, e em sua tese de doutorado, A fome da alma, ele pontua que os três anos de estudos de Freud com a cocaína “nos levam a crer que parte desse aprendizado tem marcas definitivas no trabalho psicanalítico. Dentre elas podemos identificar o conceito de pulsão ganhando fundamento a partir da leitura dos trabalhos de Freud sobre a coca e suas cartas sobre o tabaco” (Alencar, 2016, p.76)

A omissão desses controversos estudos de Freud em suas Obras completas, que apresentam suas reflexões desde 1886, pode colaborar para a consolidação de seu corpus teórico, evitando a relação da moral associada à cocaína ilegal dos tempos atuais à notável compreensão psicanalítica. Todavia, experimento também em minha posição de estudante investigativo a influência dos percursos prévios em produções atuais, e dessa forma, Claudio Rajas-Jara (2018, p.5, tradução minha) destaca que os episódios de Freud com a coca e a cocaína clamam por “reconhecimento e valor toda vez em que sua profunda leitura permite situá-la mais como um prelúdio em sua busca pela cura por meio da palavra do que um mero acidente ou revés em sua trajetória”.

O fato é que o olhar minucioso de Freud em seu genuíno interesse pela cocaína, a meu ver, trouxe colaborações significativas para o avanço de ciências médicas como a farmacologia psiquiátrica, pois já intuía que o uso de uma substância, no caso as drogas, poderia ser experimentada não somente com fins de atenuar enfermidades físicas ou biológicas, mas também em situações de dor e sofrimento psíquico (ibidem). Além disso, tais produções certamente despontam avanço científico para alguma compreensão sobre as relações de abuso de uma substância absolutamente proibida nos dias de hoje.

Freud divulgou-a no meio científico; receitou-a para pacientes e amigos; foi acusado e chegou a defendê-la publicamente, até que frustrações pessoais o fizeram abandonar a ênfase nos estudos da cocaína. Para além dos ganhos terapêuticos e científicos, o envolvimento de Freud com a cocaína e seu interesse em propagá-la no meio médico se deu justamente por sua grande capacidade de mercantilização. No final do século XIX, o mercado legal da coca integrou a expansão do comércio latino-americano a nível mundial no momento conhecido como primeira globalização. Hoje a cocaína está proibida, mas a mudança de seu status legislativo não impediu sua aptidão por ganância, fetiche, controle e poder.

 

Farinha genérica de uso global

 

(informal commodity)

 

Com o isolamento do princípio ativo da cocaína na Europa em meados do século XIX, as folhas de coca entraram no rol dos produtos exportados pela América Latina durante a primeira globalização entre 1870 e 1929. Nesse primeiro auge legal da coca-cocaína, a maior parte da produção era para consumo interno nos países produtores, e consequentemente os preços de exportação eram elevados (Byck, 1989). Após o colapso da economia da prata no Peru no início do século XIX, o país iniciou uma diversificação de seus produtos básicos para exportação a partir dos anos 1840 (Bértola; Ocampo, 2010). As folhas de coca foram uma alternativa, fazendo com que o país se destacasse nessa produção, chegando a exportar 1500 toneladas por ano no início do século XX (Restrepo, 2018).

O valor do produto estimulou a competitividade, e a partir de 1910 a Holanda intensificou seus cultivos de coca em uma de suas colônias na ilha de Java, atual Indonésia. Após a Primeira Guerra

Mundial, 9 os holandeses assumiram protagonismo na produção de cocaína, causando rápida curva decrescente na produção peruana. A ilha de Java no sudeste asiático, que não possuía consumo local tradicional da folha, rapidamente produziu 1300 toneladas de folhas de coca anuais já em 1913 e 1914, tornando-se responsável por 78% da produção global de cocaína na segunda década do século XX. A ágil produção holandesa contribuiu para a maior produção de cocaína bruta no período de bonanza no início da década de 1920, exportando a matéria-prima para a Suíça, França, Estados Unidos e Japão (ibidem).

Na primeira década do século XX, os Estados Unidos começaram a apresentar excessivo uso recreativo, tornando-se rapidamente um contraponto importante para as economias exportadoras de folha de coca. Ainda segundo Restrepo, entre 1904 e 1910 os laboratórios do país eram responsáveis por 34% da produção mundial de cocaína. No início do século XX, a economia legal da coca-cocaína desfrutava auge em voo pleno em um contexto de globalização moderna. Entretanto, por razões sanitárias, morais, políticas, religiosas e provavelmente de mercado, uma sequência de acordos internacionais como a Convenção de Xangai em 1909, e posteriormente a Convenção Internacional do Ópio de 1925, restringiram o comércio de variadas substâncias. Os impactos foram imediatos, e esse fluxo de mercado legal da coca terminou por completo até os anos 1930 (ibidem). Restrepo adiciona que “a saga do boom legal da coca e da cocaína viveu seu auge até os últimos anos da década de 1920. Mas não foi um movimento de oscilação cíclica típica de qualquer produto econômico, mas o fim definitivo da economia legal da coca e da cocaína” (ibidem, p.256, tradução minha). Por sucessiva pressão dos Estados Unidos na escalada do ideal de guerra às drogas, até o uso tradicional da folha de coca foi proibido nos países de uso tradicional, Peru e Bolívia em 1948 e 1961, respectivamente (Bergman, 2016).

O historiador Hermes Tovar Pinzón aponta que após as ações restritivas no começo do século XX até 1975, o uso da folha de coca concentrou-se majoritariamente na região andina. Segundo o autor, mesmo antes da proibição em seu auge legal, as cifras de coca-cocaína exportadas para Europa e Estados Unidos eram menores que o uso interno dos países latinos: “a coca que saía para além do espaço regional andino no início do século XX correspondia a apenas 1% do total produzido, e era realizado por casas comerciais de La Paz diretamente para os Estados Unidos e a Europa” (Pinzón, 1999, p.56, tradução minha). No entanto, neste primeiro momento de bonanza da coca legal, a Colômbia manteve tímida participação (Restrepo, 2018), ganhando protagonismo somente na década de 1970, no período da segunda onda de globalização. E nesse momento, o mercado da coca-cocaína aflorou em um contexto distinto, agora de caráter ilícito, mas ainda de circulação global.

A partir de 1975, coincidindo com o fracasso dos Estados Unidos na guerra do Vietnã, aumentou mais uma vez o consumo de cocaína nesse país norte-americano. Porém, a atual ilegalidade desencadeou uma inédita etapa na história do arbusto de uso tradicional, a Erythroxylum coca. Mais uma vez, da folha de coca para cocaína, da América Latina para o mundo, porém agora em uma economia ilícita. Outra vez, esse produto, que por anos circulou regionalmente, passa a ser alvo do interesse comercial internacional (Salgado, 2012; Pinzón, 1999), porém a partir de então com significativa inversão nas cifras entre consumo interno e exportação. Com a ilegalidade atual, a maior parte da produção certamente é para exportação, para suprir a incessante demanda de distribuição global da droga.

O Relatório Global sobre Drogas de 2019 publicado anualmente pelo United Nations Office of Drugs and Crime Escritório de Drogas e Crime da ONU (UNODC, ou Escritório de Drogas e Crime da ONU), estimou que naquele ano 18,1 milhões de pessoas fizeram uso de cocaína no planeta, cerca de 0,4% da população mundial. Curiosamente, a maior prevalência de uso é na Oceania (2,2 por cento), e logo depois desponta a América do Norte (2,1%), seguida de Europa (1,3%) e América do Sul (1,0%). Na Europa, Estados Unidos e Austrália, o uso cresce a cada ano; já na África e Ásia os números permanecem modestos, com prevalência de 0,04 na Ásia, mas há de se considerar a fraca coleta e produção de dados de determinadas regiões (UNODC, 2019b).

O relatório acrescenta que após uma queda de 45% na produção mundial de cocaína entre 2000 e 2013, o cenário atual é bem distinto, aumentando mais de 100% nos últimos sete anos (ibidem). Diferente dos tempos da coca legal, atualmente o cultivo das folhas de coca se dá exclusivamente nas Américas, ocupando aproximadamente 245.400 hectares de áreas de cultivo, equivalente a 343.137 campos de futebol. Somente no ano de 2017 foi estimado o recorde de todos os tempos na produção global de cocaína: 1.976 toneladas de cloridrato de cocaína com 100% de pureza, lembrando que a produção peruana e holandesa no auge da coca legal passava as 1000 toneladas, mas na ocasião, de folhas brutas de coca. Ainda segundo o relatório da UNODC de 2019, apesar de os três países andinos – Colômbia, Peru e Bolívia – terem apresentado aumento na produção de cocaína, o papel da Colômbia é determinante em tamanha expressividade entre 2013 e 2017. A produção colombiana praticamente quadruplicou, chegando ao total de 1.379 toneladas, ou seja, 70% da manufatura mundial de cocaína.

Em países latinos que apresentam condições sociais complicadas como a Colômbia e o Brasil, com extrema desigualdade e consequente criminalização da pobreza, a cadeia do tráfico de drogas vem modificando a vida de povos tradicionais, como os campesinos da região andina, ou também os experientes barqueros da ilha de San Andrés na costa caribenha da Colômbia, que infelizmente utilizam os tradicionais conhecimentos do mar para transportar dezenas de quilos de cocaína para a Costa de los Misquitos no Norte da Nicarágua, para dali seguirem via transporte terrestre rumo aos Estados Unidos (Abello Vives, 2005).

O fato é que a cocaína é ilegal, e esse fator determina o ponto de virada na história dessa planta. A ilegalidade transfaz o caminho das pedras. Para chegar até as cidades é preciso circular, e rotas historicamente estabelecidas pelo contrabando de esmeraldas e eletrônicos via Panamá, Venezuela ou Brasil não dificultaram a rápida expansão do negócio ilícito (Salgado, 2012; Abreu, 2017). A presença de cocaína na Oceania explicita rotas por grandes metrópoles, desde os países andinos às remotas e distantes ilhas do Pacífico.

Em setembro de 2018 as autoridades australianas apreenderem 500 kg de cocaína em um iate de luxo em Honiara, nas ilhas Salomão, mas ainda assim, a região apresenta quantidades ínfimas de apreensão de cocaína em todo o planeta (0,3%). Nas apreensões, a América do Sul figura no topo, com 59% das apreensões, perseguida de longe pela América do Norte, incluindo México, com 19%; Europa e América Central apresentam 11% e 10% respectivamente (UNODC, 2019b). O Brasil como entreposto de trânsito não é novidade. A maior apreensão em solo brasileiro se deu em Tocantins em 1994, em uma fazenda que estocava 7,3 toneladas de cocaína pertencente ao cartel colombiano de Cali, que teria como destino os Estados Unidos. Entretanto, atualmente o interior do estado de São Paulo roubou a cena. Nas apreensões concretizadas na América do Sul, Colômbia e Brasil atuam como protagonistas.

O jornalista Allan de Abreu, autor do livro Cocaína – a rota caipira, retrata com detalhes a magnitude do mercado global de cocaína que, depois de abastecer o mercado brasileiro atravessando o interior do estado de São Paulo, ganha o mundo. O caminho é básico. Após deixar zonas produtoras na Colômbia, Peru e Bolívia, a cocaína entra no Brasil pelos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, que fazem fronteira com Bolívia e Paraguai. Os pequenos aviões são adaptados com bomba auxiliar de combustível, dois galões de cinquenta litros para aumentar a autonomia de voo e ajustados para acomodar até quinhentos quilos de cloridrato de cocaína ou pasta-base. São essas aeronaves que pousam, praticamente diariamente, em curtas e empoeiradas pistas de pouso clandestinas entre monoculturas de cana que pouco diversificam o verde do interior do estado de São Paulo (Abreu, 2017). Dali, após suprirem as demandas dos grandes centros, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, o produto é despachado pelo porto da cidade de Santos para diversos países da Europa, Leste Europeu e África.

O transporte é variado: cartas, mulas em aviões comerciais ou pelo modo que possibilita o envio de maiores quantidades: navio. Nos navios o modus operandi também é múltiplo: em seu interior, escondidas em contêineres dentre os mais diversos produtos, inclusive misturada em óleo para posterior separação, técnica desenvolvida por químicos colombianos que como único contratempo acarreta a perda de 10% da droga; ou ainda em caixas de metais acopladas externamente por imãs gigantes nos cascos de navios cargueiros, como já fez a máfia italiana Ndrangheta (ibidem). Só em 2019, foram apreendidas 57 toneladas de cocaína em solo brasileiro, e somente no Porto de Santos foram 27 (Jornal Nacional, 2020). A Colômbia, a maior produtora. O Brasil, além de rota, figura como o segundo maior consumidor de cocaína no mundo. Atualmente, o cartel de Cali já possui bases em São Paulo por razões de mercado e proteção, enquanto o Primeiro Comando da Capital (PCC) já possui participação e controle de todas as partes da cadeia do tráfico: plantio, transporte internacional e venda no atacado e varejo (ibidem).

Ainda segundo Abreu (ibidem, p.21), nenhum produto proporciona lucro a curto-prazo equivalente aos ganhos da cocaína e sua “liquidez fabulosa”. Em zonas de cultivo na Colômbia, um quilo de cocaína pura pode ser adquirido por no máximo US$ 2 mil, já nas regiões fronteiriças o preço praticamente dobra. Em São Paulo, a mesma quantidade pode chegar aos US$ 10 mil. Ao tocar solo europeu o mesmo quilo pode apresentar valor superior US$ 50 mil. Na longínqua Oceania, o preço chega aos US$ 200 mil, um aumento de aproximadamente 9000% em relação ao ponto de origem (Bergman, 2016; GFI, 2019; Abreu, 2017). No varejo, varia entre os US$ 10,00 o grama na América do Sul para aproximadamente US$ 400 na Oceania. Quanto mais difícil o trajeto, seja pela distância seja pela forte fiscalização, maior o preço – e o lucro é proporcional ao risco da vida. Mais risco, maior lucro. O valor da vida é negociado pelo brilho da cocaína. A relação preço-risco-distância reforça a contradição da política de drogas proibicionista, pois quanto mais investimentos e estrutura de combate ao tráfico, mais altos os preços e consequentemente maiores os lucros dos empresários da produção e distribuição internacional de drogas ilícitas (Bergman, 2016). Além disso, a economia do tráfico paradoxalmente subverte as leis clássicas da economia, pois não apresenta oscilações naturais de mercado. Com a cocaína ilícita a demanda é sempre sólida (Abreu, 2017). O produto capitalista ideal.

Sempre há risco de perda, porém, no caso da cocaína, a inelasticidade da demanda garante o sucesso do negócio, isto é, a demanda pela cocaína se altera muito pouco em relação à variação de preço (ibidem). O caso da Oceania, que apresenta maior prevalência de uso, ilustra bem que o significativo aumento do preço pouco influencia na demanda pelo produto. De fato, é um commodity fabuloso na ótica de mercado. Segundo o relatório Transnational Crime and the Developing World (crimes transnacionais e o mundo em desenvolvimento) da Global Financial Integrity (GFI, 2017, p.4), o tráfico internacional de drogas é um crime transnacional por excelência – afinal, nenhum país escapa de sua variada e engenhosa cadeia de produção, distribuição, comércio e/ou consumo.

Segundo o relatório, somente em relação à cocaína estimou-se uma movimentação financeira entre US$ 94 e US$ 143 bilhões de dólares em 2014. Na Colômbia, uma estimativa realizada entre 1981 e 2009 aponta um fluxo de capital ilícito com o mercado das drogas ilegais em 44 bilhões de dólares, apontando uma média de 1,6 bilhões ao ano (ibidem, p.7). Vale ressaltar que esses dados são estimativas calculadas somente a partir do volume apreendido e da desigual disponibilidade de dados de cada região e/ou país. Assim, certamente podemos inferir que a circulação e as cifras financeiras são substancialmente maiores.

Ainda assim, nem todos ganham com o negócio das drogas. Em geral, os benefícios são distribuídos entre poucas pessoas nas etapas intermediárias de comercialização e distribuição global. Nas extremidades da cadeia do tráfico, os riscos são atomizados entre campesinos nas zonas de cultivo e pessoas que fazem uso da substância em condições de vulnerabilidade social, principalmente nos centros urbanos.

Como discutido, o uso tradicional e milenar da folha de coca torna evidente que nem todos os campos de cultivo da planta possuem a cocaína/basuco como produto final. Porém, a partir de então, inevitavelmente o fetiche, o dinheiro, a bonanza, a criminalização, a violência e o estigma invadem agressivamente o escopo social, imaginário e mercantil relacionado à cocaína e ao crack nas cidades, e consequentemente marcam as pessoas que fazem uso dessas substâncias. Na outra ponta da cadeia, a violência invade também inevitavelmente a matéria-prima da cocaína, a folha de coca, e por consequência, a vida dos campesinos que a respeitam e que dela sobrevivem.

 

As psicotropias de ciclo curto da

 

coca-cocaína: efeito rebote em

 

territórios urbanos

 

Apesar de a Colômbia ter se mantido tímida no primeiro auge da cocaína no final do século XIX, a partir dos anos 1970 o país desponta com relevante protagonismo na economia do “ouro branco”. Dentre os 32 departamentos do país, 22 apresentam cultivo do arbusto de coca. Também aumentou o número de laboratórios para o refino da substância desmantelados pela força policial no país, de 2.334 em 2013 para 4.820 em 2016. Em relação às apreensões da substância não foi diferente, de 167 toneladas em 2013 para 435 em 2017 (UNODC, 2019b).

O processo do tráfico de cocaína é marcado pela característica da exportação. Inicialmente, comerciantes colombianos importavam a pasta base de coca de países como Peru e Bolívia, e já em território colombiano a processavam para cloridrato de cocaína em laboratórios longínquos na floresta, onde a presença do Estado é extremamente defasada. Os primeiros campos de cultivo surgem no sul e sudeste colombiano, nos departamentos de Caquetá, Guaviare e Guainía, e logo avançaram para outras regiões pelo país (Salgado, 2012). Entre 2006 e 2016, apenas em 2012 e 2013 a Colômbia figurou atrás do Peru como principal país com maiores extensões de campos de cultivo do arbusto de Coca (UNODC, 2018). Nesse cenário, como vimos, a Colômbia desponta simultaneamente como o principal país cultivador de coca e produtor-exportador de cocaína.

Essa transformação substancial no mercado, principalmente pela demanda da folha de coca para produção de pasta-base, mudou o cotidiano de milhares de campesinos e indígenas dos países andinos. Na Colômbia não foi diferente. Entretanto, diferentemente do Peru e da Bolívia, onde a atividade predomina entre povos indígenas, na Colômbia a prática é realizada por campesinos, sejam campesinos historicamente pertencentes a essas terras, sejam imigrantes que chegaram pouco antes ou justamente motivados pelo boom de possibilidades do mercado da coca. A partir da década de 1970, muitas zonas de cultivo de milho, mandioca e outras culturas passaram a destinar-se à produção de coca com as oportunidades abertas pelo segundo momento de bonanza cocalera, agora ilegal. Para além de motivações e desejos de ascensão social, obviamente a estratégia se apresenta como legítima questão de sobrevivência em um sistema pautado pelo capital.

Na dimensão de mercado, Hermes Pinzón aponta a discrepância aterradora na possibilidade de lucros que surge aos olhos de campesinos historicamente marginalizados. Segundo o autor, no momento do segundo boom da cocaína no final dos anos 1970 e início dos 1980, um produtor rural poderia arrecadar 12 mil pesos colombianos por ano com a produção de milho. No mesmo espaço de terra, era possível produzir cem arrobas de folhas de coca, podendo render até 350 mil pesos colombianos (Pinzón, 1999). Uau! Pinzón (ibidem, p.77, tradução minha) acrescenta: “Não é tentador, então, mudar uma cultura para outra quando os lucros são trinta vezes mais? Mas aqui termina o raciocínio elementar de um camponês envolvido nesse redemoinho de renda nunca imaginado”.

Por que elementar? É o gatilho de um raciocínio que aparenta vantagens, mas inevitavelmente cai nas armadilhas de ilusão e esperança proporcionadas pelas economias de ciclo curto. Segundo Álvaro Camacho Guizado (1989), apesar de os lucros referentes à produção de coca superarem facilmente qualquer outro tipo de cultura, as flutuações constantes do mercado podem produzir efeitos devastadores sobre algumas economias familiares e territórios. Nesses contextos de explosão de oportunidades ofertadas pela produção da coca, os preços de alimentos e bens de consumo também são elevados, subtraindo possíveis excedentes de campesinos em momentos de crise, e mantendo ciclos excludentes (ibidem).

A baixa na demanda pelo produto cria pressões para que empresários comprem suas terras. Assim, os grupos guerrilheiros se apresentam como efetiva forma de defesa contra as desapropriações forçadas pelo capital. A guerrilha tenta frear o avanço das engrenagens capitalistas por meio do controle e da violência. Porém, o panorama se complica em algumas regiões devido à relação entre a presença de guerrilheiros e a atividade de produção de coca (ibidem, p.194). Nesse cenário, os grandes traficantes-empresários tornam-se latifundiários, e certamente a súbita injeção de investimentos nas zonas rurais afeta significativamente as economias locais. Guizado aponta como a desapropriação de campesinos – consequência da ampliação das fronteiras de cultivo – proporciona a valorização da terra, pois os novos proprietários entram com altos investimentos em infraestrutura em suas fazendas pecuaristas de fachada, uma das principais formas de justificar riquezas apresentadas pelos traficantes. A valorização da terra e a conformação de grandes latifúndios acaba por proporcionar uma “contrarreforma” agrária, acentuando desigualdades nas comunidades afetadas.

São dois os principais marcos que diferenciam as dinâmicas de cultivo em solo colombiano. Primeiro, a época da bonanza, quando grandes fazendeiros instalaram enormes cultivos até o final dos anos 1990, e segundo, a economia de produção familiar campesina da coca que se instituiu a partir de 2004. Essa mudança ocorreu devido às grandes fumigações ocorridas em 2003, quando muitos produtores e campesinos migraram para diferentes regiões que ainda apresentavam possibilidades e bom valor de comércio da folha coca (González, 2014). As fumigações orquestradas pelos Estados Unidos pulverizaram glifosato de pequenos aviões em amplas regiões de cultivo de coca. Porém, as pulverizações afetaram também outros cultivos além da coca, produzindo vulnerabilidade e fome pelas zonas rurais afetadas. A partir da vaga ideia de bonanza que surge a partir dos anos 1980, muitas famílias de campesinos foram atraídas por esse comércio e entraram nesse brilhante redemoinho de incertezas, e após décadas ficou evidente que pouca mobilidade social de fato se concretizou. Lorena González (ibidem, p.207, tradução minha), em estudo sobre as consequências do cultivo de coca no cotidiano campesino, aponta que

 

[…] hoje já não há vestígios de tal bonanza e dela há apenas poucas lembranças de “como as pessoas viviam bem”, os preços exagerados dos alimentos e algumas manifestações do que muitos líderes camponeses chamam de “cultura da coca”: prostituição, álcool, desperdício, e uma ideia de dinheiro fácil. Uma cultura que, segundo um líder camponês de Remolinos del Caguán, é típica de qualquer economia extrativa em que haja dinheiro em circulação: café, petróleo, carvão, palma, mineração etc.

 

Realmente, entre as bonanzas e fumigações, são os campesinos que mais sofreram os golpes dessas mudanças, interesses e conflitos no campo. González explica como são os prejuízos desde questões ambientais e socioculturais até a racionalidade econômica campesina. As intensas fumigações de glifosato entre 2003 e 2004 dizimaram não apenas os cultivos de coca, mas também inúmeras culturas de milho, arroz, banana, mandioca e cana. Ou seja, como instinto, passou a pairar na mentalidade campesina a decisão de não apostar em outros cultivos, já que a fumigação acabaria com tudo (ibidem).

Há também argumentos de que o cultivo da coca é que fez com que as famílias campesinas perdessem a tradição de produção de outros alimentos. Afinal, com a entrada de dinheiro tudo se comprava, diminuindo a necessidade de cultivo de outros produtos. Porém, segundo Lorena González, o contexto é mais complexo que isso. No momento da bonanza da coca, as famílias tiveram que se adaptar a um sistema de produção com caráter empresarial, que “transformou não só a dinâmica da produção, mas também o modo de vida e as dimensões socioculturais das famílias camponesas” (ibidem, p.216, tradução minha).

No caso da coca, a ilegalidade traz instabilidade constante ao mercado. Certamente o valor associado ao risco influencia todos os envolvidos no processo, porém, o camponês que cultiva – a ponta mais frágil e substituível da cadeia – é quem recebe a menor parcela dos lucros, apesar de compartilhar de forma igualitária os riscos da ilegalidade (Salgado, 2012). Inclusive, quando alguma área de cultivo familiar é descoberta com plantações de coca, a família campesina pode ser presa como traficante, além de poder perder sua terra pela legislação de “extinción del dominio” (extinção de domínio) (González, 2014, p.213).

Temos também que considerar que o interior colombiano apresenta zonas de difícil acesso, com pouca infraestrutura viária para escoação de produtos e precárias dinâmicas de comércio regional. Nesse cenário, o cultivo ilícito ganha importância, pois além de os traficantes buscarem a mercadoria na área de cultivo, as famílias campesinas afirmam que mesmo com possíveis três fumigações na mesma zona em um mês e o alto custo de insumos de produção, as entradas proporcionadas pelo cultivo da coca possibilitam pelo menos a cada dois meses cobrir suas necessidades básicas e acrescentar ao cardápio cotidiano alguma proteína (ibidem). Assim, a coca torna-se o único cultivo de fato rentável para o sustento dessas famílias que de modo algum devem ser consideradas criminosas.

Contudo, a época de bonanza da coca não seria eterna, e o modo de erradicação por meio de fumigações prejudicou toda a fauna e a flora local e consequentemente a possibilidade de outros cultivos. Vale reforçar que a geração de condições e oportunidades econômicas para a substituição da coca por cultivos lícitos nessas zonas remotas deveria ser responsabilidade do Estado (ibidem).

Ainda segundo González (ibidem, p.217, tradução minha), “O Estado colombiano está em dívida com aquela região do país, pois a erradicação da coca não resolve o problema subjacente que tem a ver não só com a adequação de cultivos rentáveis, mas também com o fornecimento de estradas de acesso, subsídios e descontos aos altos custos de insumos agrícolas”.

Podemos afirmar que as famílias campesinas cultivam coca por necessidade. Isso foi o que Lorena González escutou de diversos produtores durante seu trabalho de campo. Os campesinos afirmavam que essa era a estratégia possível para sobreviver. É uma realidade que criminaliza a pobreza em zonas rurais e que explora por migalhas a mão de obra campesina na produção de uma substância que atrai fetiches e milhões de dólares ao redor do mundo. Em uma dinâmica que apresenta diversas mudanças no contexto rural, González (ibidem, p.216, tradução minha) destaca a valiosa e resistente tradição da cultura andina quando afirma que

 

a relação das famílias camponesas com a terra é mantida, seu vínculo com o território não é rompido, por isso a resistência das comunidades camponesas afro-colombianas, como alguns mencionaram, e seu desejo de permanecer em suas terras apesar das duras circunstâncias que enfrentam e o desejo de continuar, e em alguns casos retomar, seus métodos tradicionais de produção camponesa.

 

Segundo resgate histórico crítico de Pinzón, a partir de 1978, homens brancos interessados em comprar as colheitas de coca chegaram ao vale do Vaupés na região sudeste da Colômbia. Para Pinzón (1999, p.72, tradução minha), esses “Os empresários da coca atraíam outras pessoas que vinham comprar terras dos índios. Com esse assalto à sua propriedade territorial, os indígenas, envolvidos nesse turbilhão de demanda crescente por coca, acabaram se tornando peões e serventes em seus próprios territórios tradicionais”.

Assim, as economias de ciclo curto mais uma vez apresentam o caráter de dominação pelo capitalismo na América Latina ao proporcionar a acumulação de bens para poucos empresários às custas da mão de obra da população, e assim contribuem para a manutenção de uma sociedade industrial e de consumo. No caso da cocaína, para além do comércio ilegal da substância, diversas empresas da indústria química internacional se beneficiam legalmente desse nicho de mercado ao fornecer insumos para o processo de extração do princípio ativo.

A economia da coca-cocaína integra o balaio de outras economias de ciclo curto precedentes na América Latina, como tabaco, borracha, cana, guano, ouro e prata. São economias que se desenvolvem distantes das centralidades das economias capitalistas, e que a partir da sedução pelo enriquecimento fácil e rápido introduzem degradação social e transformações nos padrões culturais locais, mantendo lógicas de exploração alinhadas aos interesses e demandas de países do hemisfério norte (Pinzón, 1999; Bértola; Ocampo, 2010). O cultivo ilegal de coca inicialmente aparenta vantagens, mas inevitavelmente cai nas armadilhas de ilusão e esperança proporcionadas pelas economias de ciclo curto (Pinzón, 1999; Gonzáles, 2014). Nos diversos países latinos que apresentam condições sociais de extrema desigualdade e consequente criminalização da pobreza, a cadeia do tráfico de drogas vem modificando acentuadamente o tecido social.

Como outras economias de ciclo curto do final do século XIX, a cocaína se converteu no novo produto de exploração e exportação mundial. Segundo Pinzón (1999, p.82, tradução minha), “Essa inversão do mundo da riqueza e do poder passageiro confirma como a introdução do capital sem planejamento deforma os centros de produção e gera cenários de violência e ruptura de padrões culturais”. Porém, como já apontamos, a cocaína tem um diferencial determinante: a ilegalidade. A categoria de produto de demanda ilegal traz consigo a criminalidade, a clandestinidade, a violência e consequentemente a instabilidade. Essa combinação coloca a população envolvida com essa dinâmica em condição de dupla marginalização, seja por participarem ativamente em processos de produção, venda ou consumo, seja indiretamente por habitarem os territórios vulnerabilizados que lhes restam. Por um lado, confirmam-se modos de sobrevivência em condições de extrema violação de direitos básicos em contextos indignos, de pobreza, estigmatização e precariedade sanitária/estrutural. Por outro, experimentam a exclusão da ordem cívica cidadã por meio da ilegalização e consequentemente criminalização de pessoas e lugares.

Vejamos a seguir alguns elementos importantes apontados por Pinzón (ibidem) sobre a dinâmica das economias de ciclo curto:

 

A irrupção de demanda e produção vem acompanhada de capital, com o qual se compram novas terras, se instalam centros de transformação do produto e se proporcionam novas relações de trabalho.

A acumulação de capital proporciona possibilidade de satisfação de necessidades e frustrações contidas, capazes de deformar o ordenamento social, dando lugar à proliferação de atividades como a prostituição, o jogo e o exagerado consumo de álcool e de bens de luxo. Esse reordenamento da demanda e consumo proporciona excedentes para uma pequena camada de empresários e comerciantes que se beneficiam do auge curto.

As comunidades envolvidas nessa dinâmica compartilham um clima de violência e apresentam escassez de investimentos em infraestrutura social, apresentando paulatinamente abandono, precariedade e isolamento.

O fluxo de capital proporciona endividamentos e, como consequência, certa dependência de algumas pessoas com o território.

A maior parte do capital gerado nesses pontos não permanece no território, é transferido para outras pessoas e regiões.

 

Essas características aportadas por Pinzón estão agudamente relacionadas a contextos rurais de produção da folha de coca, mas são elementos que denunciam arranjos políticos, econômicos e sociais facilmente encontrados também em ambientes urbanos. A potência de exploração em torno do mercado da folha de coca pode ser aplicada a outras etapas do processo de distribuição e consumo da cocaína. Na cidade, a folha de coca chega transformada em pasta base, cocaína em pó para aspirar ou crack/basuco/paco para ser fumada.

Perseguindo a linha de raciocínio, podemos pensar como as consequências associadas à folha de coca em ambiente rural podem se relacionar ao mercado dos derivados de cocaína (crack/basuco) em ambientes urbanos. A instauração do mercado dessas substâncias ocorre em bairros que acolhem dinâmicas populares e de sobrevivência como a prostituição, a criminalidade e a violência, e que a médio prazo consequentemente se deterioram e se submetem, como veremos a seguir, a interesses de novos empresários e novas colonizações. Porém, segundo Guizado (1989, p.197, tradução minha), a violência física não é o único e nem o principal efeito das atividades do tráfico de drogas em contexto urbano: “Ao seu lado, desenvolveu-se também um fenômeno de notável incidência, tanto no manejo das relações econômicas e políticas na cultura quanto nas dimensões interpessoais”.

Um dos aspectos referentes à dimensão interpessoal e social é a ideia de “terrorismo moral” pautada pelos agentes do tráfico em toda Colômbia, mas principalmente pela atuação do Cartel de Medellín, no departamento de Antioquia. Muito da ineficácia de funcionários públicos, sejam eles das polícias ou do Exército, é justificada facilmente pelo temor ou pelo lucro (ibidem). A corrupção e o extermínio são fatores presentes no intuito de aquecer e proteger o negócio da coca.

Soma-se a isso o fato de a imagem atribuída às pessoas envolvidas com o mercado das drogas ilícitas ser particularmente complexa, pois segundo Guizado (ibidem, p.198, tradução minha), “Se considerarmos a opulência, o risco e a violência implícitos nas atividades que lhes proporcionam sua riqueza, não é de surpreender que provoquem reações que misturam problematicamente repulsa e atração”. Existem sentimentos de repulsa escancarados pelo “terrorismo moral” e pela violência, com comportamentos que afrontam costumes tradicionais, mas simultaneamente ponderados por uma atração pela possibilidade de ascensão social e enriquecimento rápido. Por um lado, a repulsa por representar o “mal”, a ideia de vício associada a danos morais para toda a sociedade; por outro, a atração por proporcionar oportunidades para muitas outras pessoas que se beneficiam da grande circulação de dinheiro (ibidem, p.198).

Destaco três territórios latino-americanos. Um em São Paulo, Brasil, e outros dois na Colômbia – Bogotá e Medellín –, separados por aproximadamente quatro mil quilômetros de distância em linha reta, e que, surpreendentemente, apresentam aspectos em comum. Os percursos históricos de regiões como a da Luz, em São Paulo, e a de Los Mártires, no centro de Bogotá, confundem-se em curiosidades e determinantes políticos, econômicos e sociais. Medellín segue a mesma trilha. São territórios que acolhem a dinâmica em torno do comércio e uso da cocaína fumada e apontam novos formatos de economias de ciclo curto e exploração contemporânea em contextos urbanos.

 

A questão das drogas, a economia

 

global e a cooperação internacional

 

Apesar da rica heterogeneidade cultural, na América Latina certamente compartilhamos uma característica comum: a desigualdade econômica, social e política (Aravena, 2016). É de extrema relevância compreender o processo histórico-econômico que transformou o arbusto de coca de uso tradicional, e agora ilícito, em um grande commodity no mercado global. A produção de contextos de vulnerabilidade social e violência como consequência das atuais políticas de drogas nos exige refletir de forma ampla sobre as possibilidades de cooperação internacional para oferecer uma resposta mais humana ao tema hoje, enquanto no fim do século XIX, no auge da economia legal da coca, seu uso suprimiu a fome e tornou a exploração indígena mais eficiente, na Europa figurou entre estimulante exótico e experimentos científicos (Marez, 2018).

Hoje o cenário não é muito distinto. A violência e o fortalecimento do crime organizado são implicações decorrentes de política de drogas que criminalizam as pessoas que consomem e/ou participam da cadeia de produção e comercialização da substância. Interferências nas soberanias nacionais de países produtores evidenciam tendenciosos interesses políticos e econômicos (Scott; Marshall, 1991). Seguem marcadas as relações de classe, raça e poder entre Europa, Estados Unidos e América do Sul, condicionadas pelas forças do capital, que criam mapas subjetivos das extremas desigualdades econômicas, políticas e sociais (Marez, 2018).

A crise econômica mundial a partir de 2008 rompeu o boom da economia latino-americana que crescia desde 2003 (Ocampo, 2015b), e essas mudanças na economia global trouxeram impactos negativos para a realidade social regional, como o “aumento da criminalidade, alimentado pelo encorpamento do crime organizado, este lastreado principalmente na produção e comércio de drogas ilícitas e que já se encontrava em franca progressão desde o final do século passado” (Dallari, 2016, p.93).

As recentes transformações na economia mundial exigem aprendizados e reflexões sobre os processos históricos da economia latino-americana. As relações de poder e a instabilidade política herdadas do regime colonial perpetuam desigualdades econômicas históricas em nosso continente (Bértola; Ocampo, 2010). Como vimos, os números de zonas de cultivo estão em aclive desde 2013, evidenciando crescimento da economia ilegal da cocaína em contraponto à crise da economia global formal. Em muitos países latinos, a taxa de empregos informais chega a 70% da economia (Aravena, 2016), e nessa conjuntura, modos de vida que esbarram em atividades ilícitas, como o tráfico de drogas, tornam-se estratégias viáveis de sobrevivência. Atualmente, os processos de integração regional encontram-se fragmentados e a corrupção crescente é considerável ameaça (ibidem), além de disputas ideológicas e morais que criam significativos obstáculos na condução da temática das drogas e garantia dos direitos humanos econômicos, sociais e culturais.

É urgente problematizar quais são as responsabilidades da cooperação internacional nas políticas de drogas que perpetuam as fontes de desigualdades. Quais as possibilidades regionais para transformação de realidades precarizadas e submetidas à violência das economias ilícitas? Qual a força dos movimentos sociais na transformação política, econômica e social latina? (Dallari, 2016; Ocampo, 2015a, 2015b).