As Quatro Estações

Eliane Nascimento · Capítulo 9 de 13

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As Quatro Estações

Capítulo VII

Quarta parte:

Primavera

"E assim como a primavera,

eu me deixei cortar para vir mais forte..."

Clarice Lispector

VII

Tudo aconteceu rápido demais. Confesso que não foi nada fácil acompanhar o Rodrigo enquanto ele ia enterrar a mãe. Dona Laura foi como uma mãe para mim desde que eu e Digo começamos a namorar de verdade. E foi um choque também saber que seu Augusto também tinha falecido. O que aconteceu nesses anos em que eu estive fora? Rodrigo não me deu detalhes, apenas disse que depois conversaríamos e esclarecerí-amos tudo.

Encontrei Luciana no cemitério da cidade, ela também veio ao enterro e disse que estava com Rodrigo quando ele recebeu a notícia. Eu não entendi o que ela fazia com ele e ela também não quis me contar. Disse apenas que me ligou assim que soube e preferiu omitir que me chamou para o Rodrigo e não para ela porque sabia que eu poderia não vir. Talvez ela estivesse certa, no final das contas.

Na noite passada, Digo e eu ficamos pelo jardim que agora me pertence, embaixo da árvore, que costu-mava ser nossa, enquanto ele chorava vez ou outra e eu disponibilizava meu ombro ou usava o dele, até que caímos no sono ali mesmo, na grama.

Acordamos com o sol nos dando bom dia e confesso que não sei descrever o que senti ao perceber que o som de batidas do coração que eu ouvia eram do Rodrigo. O meu Rodrigo. Ou o que era meu no passado. Eu senti meu corpo inteiro arrepiar quando levantei meu rosto na altura do seu e vi um sorriso meio triste quando ele me desejou bom dia e depositou um beijo rápido na minha boca. Eu preferi acreditar que se tratava de um gesto involuntário ou impensado.

Não tive muito tempo para descobrir ou fazer algo a respeito de qualquer forma porque seu celular não parou de tocar depois disso. A única ligação que ele atendeu foi a do seu assessor dizendo que estava tudo pronto para o velório.

E aqui estamos nós.

Bom, eu estou um pouco afastada com a Luciana enquanto ele está perto do caixão. Algumas pessoas me reconheceram e vieram me cumprimentar, lamentando que tenham me visto só nessa circunstância. Confesso que fiquei muito surpresa porque achei que depois que meus pais saíram da cidade com o meu irmão pouco depois de eu ter me mudado, eu seria apenas mais uma pessoa passageira de uma cidade pequena. No entanto, eles lembravam mesmo de mim. Ouvir a dona Guilhermina, a grande matriarca da família Alves, os mais populares de toda a cidade, chamar-me de "menina Elisa" e dizer o quanto eu estou bonita como ela sempre soube que eu ficaria, emocionou-me demasiadamente.

Talvez eu conheça cada pessoa que está aqui hoje se despedindo da dona Laura. Alguns cresceram comigo, outros eu vi crescer até o momento em que parti e ainda tem aqueles que são frutos da geração que eu fazia parte. Comecei a me perguntar como seria se eu nunca tivesse ido embora. Se eu tivesse apenas estudado e voltado como pretendia no início. Se eu tivesse me casado com o amor da minha vida, como meu tolo coração costumava pensar. É realmente torturante olhar para cada canto dessa cidade e pensar em tudo que perdi e sentir saudade de uma coisa que nem ao menos cheguei a viver. É lamentável.

— Você a conhecia bem? — Luciana pergunta ao meu lado.

— Sim — respondo secando uma lágrima que ameaçava cair. — Na verdade, ela acabou se tornando a mãe que eu sentia falta por um tempo.

Luci sabia o quanto meu relacionamento com a minha família era complicado. Meus pais nunca me amaram só pelo fato de eu não ser como o meu irmão. Eles sempre tiveram muito dinheiro e esperavam que eu fosse a filha perfeita e seguisse os passos de todos da família, só que eu odiava me imaginar dentro de uma empresa de cristais, presa por causa do legado dos Duarte Fernandes. Não, eu preferi seguir meu sonho e deixar tudo pro meu irmão, que era a cópia do meu pai, só que meu sonho me custou minha família. Eles se recusaram a ter uma filha paisagista e agora fingem que eu não existo. É ruim demais olhar para o espelho e ver que da família eu só tenho olhos verdes.

— Você deveria ir lá se despedir, então — diz Luci, tirando-me das minhas lembranças ruins.

— Acho que está bom eu ficar por aqui.

— Elisa, o Rodrigo precisa de você agora. Não banque a teimosa e orgulhosa e vá dar apoio ao homem que você ama e se despeça de alguém que você amava também.

Luciana tem o poder de resumir tudo que precisa ser dito a mim em poucas palavras. Se fosse qualquer outra pessoa dizendo esse tipo coisa e nesse tom para mim, eu certamente ignoraria ou responderia de maneira bem rude, mas Luci não. Ela tem o meu respeito e tem o meu amor também, do meu jeito, mas tem.

Sem pestanejar muito, saio do lado da minha amiga e vou pedindo licença até chegar ao lado do Rodrigo, bem em frente ao caixão. Eu sei que vim aqui para consola-lo, mas ver o rosto da mulher que costumava ser tão sorridente estático, pálido e sem vida é demais para mim. Ela que costumava fazer chocolate quente para mim nos dias frios ou simplesmente quando eu aparecia na casa dela para poder conversar. Ver o rosto da mãe que eu amei rodeado de narcisos brancos, suas flores preferidas que bem me lembro, faz-me ter uma vontade louca de chorar, como há muito tempo eu não sentia. E eu só percebo que meu corpo inteiro tremia e soluços estridentes saiam de mim quando Rodrigo me ampara e choro no seu peito, molhando toda a sua camisa social preta. Ele quem me consola no final de tudo.

***

Luciana, Rodrigo e eu estamos no carro que aluguei indo em direção à mansão. O enterro acabou há poucos minutos e eu sei que o que precisamos agora é um banho. Nada vai apagar a perda ou a saudade nos nossos corações, mas Rodrigo foi o primeiro a dizer que Deus recolheu sua mãe porque ela já O pertencia e tinha chegado a hora de ela voltar para casa. Luci resolveu voltar para a nossa empresa, mas achei melhor que ela ficasse por essa noite e fosse de manhã. Eu ofereci um quarto na mansão e eu ficarei novamente no quarto que era da Judite. Rodrigo perguntou se podia vir e passar a noite no parque, claro que eu não recusaria o seu pedido e a gente também precisava conversar.

Depois que todos tomamos banho, Luci pediu licença e se retirou para um dos quartos de hóspedes. Rodrigo e eu permanecemos na varanda que eu costumava ficar om o seu Antenor, meu coração está do tamanho de uma noz.

— Você pode usar um dos quartos, se quiser — ofereço ao Rodrigo que está na cadeira ao lado da minha. — Não precisa dormir na grama, quero dizer.

— Obrigado, Lis. Na verdade eu acho que a gente precisa conversar.

Eu também acho, penso imediatamente.

— Eu sei, mas não precisa ser agora. O dia foi muito puxado.

— Se você não se importar, prefiro que seja agora — Rodrigo me olha com intensidade e sinto meu corpo inteiro se arrepiar. O que esse homem faz comigo?

— Tudo bem então.

Ele parece procurar as palavras para começar a falar enquanto coça a nuca, um gesto que eu reconheço como um sinal de nervosismo da sua parte.

— Lis, eu nunca deixei de te amar — ele começa. — Eu nunca imaginei a minha vida sem você como minha esposa.

— Então por que você me mandou embora? — Minha voz sai como um sussurro que eu nem sequer sei se ele entendeu, mas minha garganta está fechada demais com o choro compulsivo que eu tento controlar para falar de modo decente.

— Eu precisei. Eu precisava te mandar embora para que você fosse atrás do seu sonho. — Rodrigo começa a narrar a história da doença do seu pai, de como teve que recusar a bolsa na faculdade da capital para ficar e cuidar da sua família e de como foi difícil até mesmo confluir a faculdade aqui.

— Por que você não me contou? Eu poderia ter ficado e te ajudado. — A essa altura, eu já não tinha controle nenhum sobre o choro.

— Porque eu sabia o quanto era importante para você se tornar uma paisagista e eu nunca me perdoaria se você recusasse isso por minha causa. Eu achei que seria melhor se você fosse e depois voltaríamos aos nossos planos.

— E você não pensou que eu tinha o direito de decidir?

— Você não ia decidir com a razão, Lis.

— Que se dane a razão! — Grito, de repente. — Eu amava você, Digo. Amava! Nós tínhamos planos! Íamos nos casar! Você tem noção do quanto eu te odiei por todos esses anos?

— Eu não me importo. Eu ainda amo você, Lis. Sempre vou amar.

— Você acha que é assim tão fácil? Você diz que me ama e agora o quê? Vamos recomeçar como se nada tivesse acontecido?

Eu não estava conseguindo controlar meus nervos. Talvez ainda houvesse raiva dentro de mim. Mágoa. Eu não sei. Levanto-me bruscamente e vou em direção à porta para entrar, mas Rodrigo pega o meu braço e me puxa para si.

— Não acho que devamos fingir que nada aconteceu, mas acho que merecemos a chance de recomeçar — Rodrigo me olha com intensidade e nesse momento a única coisa que eu penso é que eu quero beija-lo. E como quero...

E assim o faço. Sumo com qualquer espaço que havia entre nós e colo minha boca na sua. Rodrigo me retribui na mesma intensidade e sussurra meu apelido vez ou outra. O beijo é repleto de ansiedade, saudade e de anos de uma paixão reprimida. Beijamo-nos como se não houvesse amanhã e eu só quero mais. Eu quero o Rodrigo por completo. Começo a desabotoar o primeiro botão da sua blusa quando suas mãos param o meu movimento.

— Não, Lis. Assim não. Eu quero que você seja minha mulher por completo. Eu quero te levar para o altar e ter a bênção de Deus.

Sinto-me rejeitada. Eu sei que ele sempre foi assim, eu mesma tentei me aproximar sexualmente dele por várias vezes, mas ele sempre deixou claro que queria fazer o certo comigo porque eu era a mulher certa, contudo, agora, nesse instante em que minha vulnerabilidade ficou tão exposta, só consigo pensar em como me sinto rejeitada com a sua recusa.

Viro-me de costas e abraço a mim mesma, ele tenta se aproximar, mas eu recuo e deixo claro o quanto ele me magoou.

— Elisa, por favor, não faz assim. Eu amo você. — Ouvi-lo me chamar pelo nome dói mais do que a rejeição.

— Eu quero fazer o certo com você, Lis. Sempre quis. Eu quero te leva para o altar, ter a benção de Deus e nos transformarmos em um só. Por favor, olhe para mim.

— Não tenho tanta certeza disso, Rodrigo.

Eu não olho, pelo menos de imediato. Parte de mim só queria ter a certeza de que ele realmente me ama e de que podemos recomeçar. Eu não posso enganar a mim mesma pelo resto da vida dizendo que não o amo, porque eu o amo. Eu o amo com loucura. E eu só queria uma chance de recomeçar. De perdoar o passado verdadeiramente.

Solto um suspiro pesado e encaro a porta, sem saber o que mais poderia fazer.

Rodrigo aparece em meu campo de visão e por um instante eu acho que ele vai embora, mas na verdade ele somente se afasta um pouco, tira uma corrente do pescoço e se ajoelha sobre um joelho na minha frente.

— Lis, hoje eu perdi a mulher que me deu à luz, que me ensinou a ser o homem que eu sou, mas eu sei que Deus a acolheu e agora ela está em um lugar melhor. Contudo, em meio a essa perda, você está aqui e eu não quero te perder outra vez. — Rodrigo mexe na corrente e é só então que eu percebo um anel ali. — Durante esses 10 anos eu carreguei essa aliança perto do meu coração porque eu tinha comigo a certeza de que você voltaria para mim e eu esperei por você. Por esse momento. Elisa Duarte Fernandes, você aceita final-mente se casar comigo?

Rodrigo é um borrão na minha frente de tantas lágrimas que saem dos meus olhos. Eu choro e sorrio e nesse momento apenas uma palavra resumiria tudo que estou sentindo:

— Sim.