As Quatro Estações
Capítulo III
Segunda parte:
Outono
"Brisa de outono como flechas de sombras
Os pássaros voltam."
Jorge Lescano
III
— O que você está fazendo aqui? — Grito assim que recupero o equilíbrio.
— Lis, eu-
— Vai embora agora! — Eu não posso suportar que ele me chame assim de novo com tanta naturalida-de. A raiva me consome por inteira.
— Elisa, ele é o prefeito! — Explica Hermano parecendo bem confuso com a situação.
Como é? Rodrigo Castilho se tornou o prefeito dessa cidade mequetrefe?
Uma gargalhada escapa da minha garganta. Acho que é por isso que ele me dispensou tão de repente. Ele mesmo sabia que eu merecia muito mais!
— Bom, se você é o prefeito então pode rasgar o contrato. Você não vai ter nada do que é meu! — Volto para as escadas e subo o mais rápido que o salto e o tecido longo e justo permitem.
Entro no quarto que era da Judite, a filha do Antenor e fecho a porta com força. De jeito nenhum vou fazer qualquer negócio que seja com o Rodrigo, prefiro doar o parque para um mendigo!
Ouço as batidas delicadas na porta novamente. Estou jogada na poltrona ao lado da cama e só quero que esse pesadelo acabe logo.
— Hermano, vá embora. Não estou a fim essa noite. — Grito sem nem olhar para a porta.
O ranger da porta se abrindo, porém, faz com que eu vire a cabeça o suficiente para gritar com esse latino safado e mandá-lo ir pastar de uma vez por todas.
O grande problema é que o moreno que entrou não é o Hermano.
— Lis, por favor, vamos conversar. — Rodrigo pede com a maior cara de pau do mundo.
— Vai embora daqui agora ou eu chamo a polícia! — Grito com o meu coração saltando dentro de mim. E eu tenho certeza de que isso é somente por toda a raiva e mágoa que eu guardo desse homem que está ainda mais lindo do que eu me lembrava, e não porque seus olhos parecem ter o mesmo brilho de antes enquanto ele me olha tão fixamente.
— Lis, eu só quero conversar.
— Pare de me chamar assim!
— Elisa, por favor, escuta o que eu tenho para te dizer e eu prometo que vou embora.
A primeira coisa que eu penso é em pegar o telefone e ligar para a polícia, mas ele é o prefeito dessa maldita cidade, afinal! Do que isso adiantaria? Respiro fundo e controlo toda a vontade que eu estou sentindo de esbofeteá-lo e me endireito na poltrona.
— Você tem cinco minutos.
— Obrigado. — Ele sorri vitorioso e pega a cadei-ra que deixo na penteadeira para se sentar em frente a mim. Ele está perto demais. — Por favor, reconsidere sobre vender o parque.
Então é isso? Depois de todos esses anos, a única coisa que o interessa é esse maldito parque?
— Eu não vou vender nada para você! — Cuspo as palavras com toda a raiva que consigo, tentando ignorar completamente qualquer pontada de decepção que possa ter aparecido por ele não querer conversar sobre nós dois. Aliás, não existe “nós dois”.
— Não é para mim. É para a prefeitura. Venda o parque para a cidade. Você sabe que todo mundo sempre sonhou que aquele parque fosse completamente público. Inclusive você. — Ele acrescenta a última parte com um brilho diferente no olhar. Desgraçado.
— Saia da prefeitura que eu vendo para ela — provoco-o.
— É sério? — Ele pergunta incrédulo. — Você só não vai mesmo vender porque eu estou envolvido? — Assinto, e dessa vez a vitoriosa sou eu. — Por que isso?
— E você ainda pergunta? Eu não quero nada que esteja envolvido com você! — Respondo com a voz alterada.
— Lis, por favo-
— NÃO ME CHAME ASSIM! — Grito, descontrolada. Estou cansada de gritar! — Você matou a Lis de dez anos atrás. Ela já não existe mais. Agora saia daqui!
Viro o rosto para que ele não vejo os meus olhos marejados. Eu sei que ele não se levanta imediatamente, ouço o som do seu suspiro antes de ele se levantar e colocar a cadeira de volta no lugar.
O ranger da porta anuncia que ela está sendo aberta e eu fico na expectativa dela se fechar por completo para enfim poder chorar à vontade.
— Só para você saber — Rodrigo diz ainda da porta. — Minha Lis nunca morreu para mim. Ela continuar viva e ainda é a dona do meu coração.
A porta se fecha e eu jogo a primeira coisa que toco nela. Era um abajur que cai no chão em vários cacos minúsculos, incontáveis, exatamente como está o meu coração.
***
Eu não aguentei ficar um minuto a mais sequer naquela cidade. Falei apenas com o Sérgio sobre ele cuidar da mansão como se fosse a casa dele e peguei o primeiro avião disponível.
Eu sou paisagista como sempre sonhei e tenho uma empresa junto com a minha amiga Luciana, ela é decoradora de interiores e oferecemos o trabalho completo para uma casa. Luci sabe de toda a história com o Rodrigo e ficou completamente chocada quando contei sobre a herança e sobre ele ser o prefeito.
— Amiga eu não acredito que fugiu desse jeito! — Ela reclama no meu escritório, ele é em frente ao seu.
— Eu não fugi de lugar algum. E vamos esquecer isso, por favor? Já faz três meses que eu tento fingir que isso nunca aconteceu.
— Porque está fugindo! Deus uniu vocês outra vez com algum propósito, nunca acreditei nesse término sem explicação do Rodrigo.
Luciana é cristã e não acredita em acasos, só no mover de Deus. Não que eu seja ateia nem nada, só prefiro viver a minha realidade a acreditar que Ele se preocuparia com coisas mínimas como nossas vidas amorosas, afinal, Rodrigo sempre foi temente a Deus, do tipo certinho que até esperava o casamento para fazermos amor, mas ele fez o que fez, não é mesmo? Sua fé não o livrou da cafajestagem.
— Luci, por favor, vamos parar de falar disso? Minha vida não é uma novela, pelo amor de Deus!
Estamos quase no mês de Abril e desde tudo aconteceu, no começo de Janeiro, Luciana insiste em voltar no assunto. Nas primeiras semanas eu recebi algumas ligações do Hermano, ele até se ofereceu para vir até aqui, mas eu já tinha enjoado dele e já resolvemos tudo que tinha ficado pendente. Quer dizer, tirando a parte do parque, já que Rodrigo insistia em querer comprar e enchia Hermano de recados para serem passados para mim. E todos foram ignorados com sucesso.
O outono chegou e a única coisa que eu quero fazer é esquecer sobre o verão passado. Eu tenho péssimas recordações sobre verões...
— Eu ainda acho que você devia vender o parque para ele. Afinal, é para a cidade toda, não é? Por que deixar um problema pessoal atrapalhar isso?
Eu sei que ela tem razão, mas só de pensar na possibilidade de deixar o Rodrigo vencer nessa me sobe um ódio descontrolado!
— Senhorita Elisa? — Minha secretária aparece na porta de repente. — Tem um homem querendo vê-la e insiste que é urgente.
— Quem é, Penélope?
— Ele disse que se chama Rodrigo Castilho e a senhorita sabe quem é — Luciana começa a bater pal-mas enquanto meu coração bate descontroladamente.
— Pode dizer a ele que eu morri! — Grito para Penélope, que arregala os olhos para mim.
— Você está viva e perfeitamente bem, Lis. — Rodrigo diz bem atrás da Penélope, assustando a nos três. Ele tem um sorriso no rosto. Um maldito e lindo sorriso.