As Quatro Estações

Eliane Nascimento · Capítulo 6 de 13

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As Quatro Estações

Capítulo IV

— Será que eu vou precisar ter uma restrição judicial? — Cruzo os braços sobre o peito.

— Eu só quero conversar com você, Lis. E como seu advogado parece não conseguir isso para mim, resolvi tentar pessoalmente.

Penélope ia dizer alguma coisa, mas Luciana se aproxima dela e a arrasta para fora da sala, deixando-me sozinha com o Rodrigo.

Traidora.

— Como você sabe onde eu trabalho? — Pergun-to mantendo minha pose. Rodrigo fecha a porta e se aproxima um pouco mais de mim.

— Eu sempre soube. Sempre acompanhei cada passo seu desde que saiu da nossa cidade.

— Devo me preocupar com você sendo um stalker, então? — Arqueio uma sobrancelha. Minha fala está carregada de sarcasmo, mas meus pulsos estão acelerados como o diabo ao fugir da cruz.

— É claro que não. Eu só fiz isso porque queria saber se estava bem. Sempre me preocupei com você e isso nunca vai mudar, Lis. — Rodrigo está próximo de-mais agora.

— Não me chame assim, eu já disse! — Descruzo os braços e vou para trás da minha mesa. Eu preciso de distância. — O que quer de mim, afinal? — Pergunto por impulso. — Ah, o parque, é verdade...

— O parque é para a cidade, você sabe disso. — Rodrigo chega mais perto de mim contornando a minha mesa. Eu já estou ficando claustrofóbica. — De você eu quero o que sempre quis.

— O quê? — Sussurro.

— Você, meu amor. — Ele já está tão próximo que nossas respirações sé embolam. — Eu sempre quis levar você para o altar e fazer de nós um só, como manda a vontade de Deus. Eu quero você para sempre.

E bastam essas palavras para que me fizessem acordar para a realidade.

— Engraçado — começo a dizer e me afastar dele ao mesmo tempo —, foi você que deixou bem claro que o "para sempre" sempre acaba. — Caminho até a porta e a abro. — Saia do meu escritório e não volte mais aqui. Suma da minha vida, como você deixou claro que queria fazer há dez anos.

— Lis, eu-

— NÃO ME CHAME ASSIM! — Falo mais alto do que gostaria. — Por favor, saia.

— Um dia você vai me deixar explicar o porquê de eu ter feito o que fiz e eu não vou desistir de nós até esse dia chegar. Eu ainda acho que você é o pedido que sempre fiz a Deus. — Depois dessas palavras, Rodrigo sai da minha sala e mais uma vez me pego chorando descontroladamente por causa dele.

***

Já estamos no final de Julho e parece que ainda sinto o seu cheiro do Rodrigo por toda parte no meu escritório. Ele ainda usa o mesmo perfume cítrico e amadeirado de quando éramos adolescentes. Fui eu que dei esse perfume para ele e sempre fiz questão de deixar claro o quanto adorava o seu cheiro. E esse miserável ainda consegue me desarmar com isso.

Ele esteve tão próximo de mim quando esteve aqui que eu quase cedi. Quase.

Eu sempre quis levar você para o altar e fazer de nós um só como manda a vontade de Deus. Eu quero você para sempre.

Essas palavras não saem da minha cabeça. Como ele tem a coragem de me dizer coisas assim quando ele me deixou do jeito mais cruel possível? Nós tínhamos planos e ele simplesmente recuou e me deixou!

— Desgraçado! — Grito ao jogar a taça em que eu bebia um vinho na parede. Por pouco não acerta Luciana que estava abrindo a porta na mesma hora.

— Será que eu devo voltar em outro momento? — Ela pergunta com a testa franzida.

— Não Luci, entre. Desculpe por isso, só estou um pouco estressada.

Luciana entra e se senta em uma das cadeiras que ficam em frente a minha mesa. Ligo rapidamente para Penélope pedindo para que alguém da limpeza venha retirar uns cacos da minha sala.

— Estou preocupada com você. — Luciana diz de repente.

Seus olhos realmente demonstram muita preocu-pação.

— Ah, vamos lá! Já se esqueceu de que não precisa se preocupar com Elisa Fernandes? Eu te ensinei isso há muito tempo.

— É, me "ensinar" não foi bem a palavra. Acho que foi mais sobre "demonstrar". — Luci dá uma gargalhada como só ela sabe e minha mente vagueia para os primeiros anos em que eu passei aqui na capital.

Luci já me viu esbofetear um professor porque ele tentou abusar da sua autoridade comigo, no entanto, eu já tinha feito a promessa de que nunca mais nenhum homem brincaria comigo de novo. De nenhuma forma.

Conheci Luci ainda no primeiro ano, por causa da faculdade. Fazíamos o mesmo curso, só seguimos por especializações diferentes, acabamos alugando a mesma quitinete e moramos juntas desde então porque mesmo depois de termos condições de alugar uma casa maior, resolvemos continuar com a nossa parceria que fluir tão bem. Aprendemos a ser família.

Às vezes eu me esqueço de que ela me conhece tão bem que sempre sabe exatamente o que eu estou sentindo.

— Eu estou bem, Luci. Só estou estressada e-

— Eu já vi você estressada, Elisa. Eu não sou idiota e sei muito bem porque você está assim. Você está igual daquela vez.

— O quê? Não sei do que você está falando. Se me der licença, tenho alguns documentos para preen-cher. — Tento me esquivar dessa conversa imediata-mente.

— Eu te dou licença agora, mas saiba que vou continuar me preocupando porque eu amo você. Sei muito bem quem é a verdadeira Elisa por trás desse muro que você criou em volta de si. Tenha a certeza de que não vou desistir de você e vou fazer de tudo para que eu nunca mais te veja como vi há dez anos. — Luciana se levanta e sai apressada.

Eu conheço a minha amiga e sei que ela está chorando. E por minha causa.

Droga, Rodrigo! Por que você tinha que reapa-recer na minha vida desse jeito?