As Quatro Estações

Eliane Nascimento · Capítulo 8 de 13

Páginas do PDF

As Quatro Estações

Capítulo VI

Eu não sei por que ainda dou ouvidos à Luciana. Ela é uma cabeça de vento e coração de manteiga, mas eu faria tudo por aquela mulher.

Luci me ligou há umas duas horas pedindo que eu viesse urgentemente para a minha cidade natal porque ela precisava de mim aqui. Eu nem sei o que ela veio fazer nesse fim de mundo, mas cá estou eu, no táxi que está me levando direto para o hospital público da cidade.

O que será que ela aprontou? Estou com os nervos à flor de pele! Essa maluca me liga e apenas diz: "por favor, vem me buscar, estou no hospital público da sua cidade". Ela joga uma bomba dessa em cima de mim e simplesmente desliga. É claro que eu larguei tudo e corri para cá!

O taxista fez o favor de ir o mais rápido que conseguiu e eu não demorei muito para chegar ao hospital. Dei o nome da Luci na recepção e a tonta atrás do computador está me irritando dizendo que nenhuma Luciana de Castro Menezes deu entrada aqui.

— Como assim não deu entrada? Ela pediu para que eu a buscasse aqui! Você pode conferir mais uma vez? – A mulher já me olha com cara de poucos amigos, mas não estou me importando com isso. Eu só quero saber da doida da Luciana que não atende a porcaria do celular.

A mulher começa a digitar com uma expressão nada simpática e eu aguardo impaciente. Estou a ponto de saltar sobre o balcão quando algo me impede.

— Lis? — Diz a voz que está presente nos meus pesadelos. — O que você está fazendo aqui?

Viro-me para gritar com Rodrigo por ele me chamar desse jeito, mas o que vejo me desarma por completo. Rodrigo está com a roupa social comple-tamente desalinhada, os cabelos pretos com o topete que o acompanha por quase toda a vida está uma bagunça e seus olhos estão vermelhos como se ele estivesse chorando há uma semana. O que será que aconteceu com ele?

— O que aconteceu? — Pergunto, ignorando a sua pergunta. Minhas pernas criam vida própria e se aproximam dele. — Digo, o que aconteceu? — Chama-lo pelo apelido da adolescência parece surpreendê-lo tanto quanto surpreende a mim mesma.

Por que raios eu o chamei assim?

Rodrigo leva o apelido como uma deixa para quebrar o espaço ínfimo que existia entre a gente e me abraça. Eu ia empurra-lo, juro que ia, mas sentir que ele treme enquanto soluça de chorar só faz com que eu o aperte mais contra mim e tente o consolar seja lá pelo que for.

— Eu só a tinha, Lis. — Ele fala em meio aos soluços. — Eu só a tinha comigo e agora ela também se foi. Todos se foram! Você também se foi.

Eu nunca o vi desse jeito. Rodrigo chora copio-samente abraçado a mim bem no meio de uma recepção de hospital. Percebo os olhares curiosos para nós dois, afinal, ele é o prefeito, é claro que todos olhariam.

— Vem, vamos sair daqui e você me conta o que aconteceu.

Rodrigo não protesta apenas me segue enquanto eu o levo para o único lugar que eu consigo pensar e é perto daqui. O lugar onde tudo terminou anos atrás.

***

Não foi muito fácil praticamente carregar um homem como Rodrigo até aqui, mesmo que por uns poucos 10 minutos. Eu o sentei em um dos bancos do jardim e Sérgio foi muito gentil em oferecer um chá de camomila sem perguntar nada sobre o ocorrido. Ele sumiu mansão adentro enquanto eu olho um Rodrigo estático à minha frente.

— Quer me falar o que aconteceu? — Pergunto preocupada por ele não dizer uma única palavra.

— Minha mãe faleceu. — Ele diz simplesmente.

Meus olhos começam a lacrimejar imediata-mente. Eu nunca me esqueci dos pais do Rodrigo, eles me tratavam como uma filha de uma forma que eu nunca fui tratada pelos meus pais. Dona Laura era um exemplo de mulher e eu realmente lamento a morte dela.

Sem pensar muito, abraço-o devagar e permito que algumas lágrimas caiam dos meus olhos.

— Eu sinto muito, Digo. Sinto muito de coração. Imagino que o seu Augusto deva estar muito mal. — Falo enquanto choro e sou surpreendida com um riso sem força ou sentimento algum. Apenas uma risada vazia.

— Você não sabe mesmo, não é? Não faz ideia do que aconteceu depois que você foi embora, não é mesmo? — Ele pergunta depois desse som esquisito que saiu da sua boca.

Eu ia responder com outra pergunta, mas Sérgio aparece com uma bandeja com os chás e também alguns biscoitos amanteigados que eram os meus preferidos quando vinha passar as tarde com o seu Antenor. E é claro que Sérgio se lembra disso. Ofereço a ele um sorriso grato e ele deixa a bandeja antes de se retirar mais uma vez.

— O que eu deveria saber? — Finalmente faço a minha pergunta para Rodrigo.

— A gente precisa mesmo conversar. Eu preciso te contar tudo e você vai decidir o que fazer depois que souber, mas, por agora, enquanto preparam o corpo da minha mãe para o enterro, eu posso só ficar com você um pouco? — Rodrigo pede com tanta urgência que eu não nego. Eu não quero negar, essa é a realidade.

Eu lamento muito pela morte da dona Laura. Lamento que tudo tenha acontecido da forma como aconteceu entre nós. Lamento que tenhamos perdido dez anos de uma história que tinha tudo para ser linda. Lamento que seu Antenor tenha morrido com uma esperança vazia de que eu retornaria. Lamento por muitas coisas, de fato. Essa noite, porém, a única coisa que eu quero é não lamentar e compartilhar minha árvore com o Rodrigo mais uma vez, com a ideia utópica de que tínhamos 18 anos de novo, que podíamos sentar sob aquela árvore e fingir que nada mais importava no mundo.

Talvez, se eu fechar os olhos, eu consiga voltar àquela noite de primavera em que prometemos que o que havia entre nós seria eterno e me esquecer do vazio que pairava nessa promessa. Só talvez.