As Quatro Estações

Eliane Nascimento · Capítulo 4 de 13

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As Quatro Estações

Capítulo II

— Então, senhorita Elisa, vamos falar do que a traz aqui.

— Por favor, eu dispenso a formalidade — sorrio abertamente para o homem que será meu mais novo brinquedo em breve.

— Ótimo — ele concorda com um sorriso safado. Meu preferido até agora, só para deixar bem claro. O latino se ajeita em seu lugar e toma postura de advogado antes de continuar: — Elisa, Antenor faleceu e não tinha ninguém próximo, como uma família ou amigo de verdade. Portanto, alguns anos antes de morrer, ele deixou um novo testamento comigo. Eu era um advo-gado recentemente licenciado, mas ele não se importou com isso e deixou tudo em minhas mãos e agora, depois da sua morte, o seu desejo era que você recebesse tudo que lhe pertencia.

Comecei a divagar com coisas que poderia fazer com ele assim que começou a falar, mas essas últimas palavras chamam a minha atenção.

— Espera aí. O quê? — Pergunto espantada. Acho que não entendi direito.

— Exatamente o que eu falei. Antenor Soares de Moraes deixou toda a sua fortuna e propriedades no nome de Elisa Duarte Fernandes.

— Não, deve haver algum engano! — Minha cabeça gira em um ângulo de 360 graus! — Eu sei que nós éramos próximos e tudo o mais, mas ao ponto dele me deixar tudo de herança? Eu não o via há dez anos! Deve ter alguma coisa errada.

— Elisa, Antenor me entregou esse testamento há cinco anos. Ele disse que esperava que você voltasse e pretendia te presentear com o parque particular. Quando ele percebeu que você não voltou três anos antes e a prefeitura tentou comprar de novo o parque dele, ele afirmou que o mesmo seria seu e que você resolveria o que fazer.

Eu não sabia que Antenor estava esperando que eu voltasse. É claro que continuamos nos falando vez ou outra, principalmente nas datas comemorativas, mas ele nunca mencionou nada disso. Muito menos sobre eu ser a sua herdeira mesmo sem ter seu sangue.

O que ele tinha na cabeça? Ele sabia muito bem o que o parque tinha se transformado para mim. Ele era o único que sabia! Foi para ele que eu corri e chorei quando o desgraçado do Rodrigo partiu meu coração em mil pedaços. Eu não posso ficar aqui. Não posso ter nada disso.

— Você disse que a prefeitura estava tentando comprar o parque? — Pergunto ao Hermano, já com uma ideia formada na cabeça.

— Sim, o prefeito tenta comprá-lo há anos para tornar oficialmente público, mas Antenor nunca vendeu, ele dizia que aquele parque já tinha dona.

— Bom, eu não sei qual a piada que o Antenor quis fazer com isso, mas ele sabia muito bem que eu não poderia aceitar esse parque, então, pode vender para a prefeitura.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Tudo bem, então. Amanhã mesmo eu marco uma reunião com o prefeito e você negocia a venda. Vamos falar das outras propriedades e o valor da fortuna? — Hermano está no modo profissional ainda e eu não gostei disso. Quero os sorrisos safados de volta.

— Imagino que seja muita coisa que tenhamos que discutir. Talvez fosse melhor se jantássemos hoje para conversarmos, que tal? — Sorrio maliciosamente. Um daqueles sorrisos volta ao seu rosto. Bingo!

— Eu não tenho objeção alguma contra isso. Já pensou em algum lugar?

— Talvez na sua casa, já que a minha fica a quilômetros daqui. — Hermano dá uma risada muito gostosa e obtenho a confirmação que queria: Esse homem já é meu!

***

Depois de uma noite extremamente deliciosa com o advogado latino, o mesmo sai cedo, deixando-me na mansão do seu Antenor, que agora é minha. Resolvemos ficar por aqui mesmo e aproveitar o “jantar”. Logo cedo pela manhã, ele já disse que ia marcar um jantar com o prefeito ainda essa noite, aqui mesmo na mansão.

Eficiente como ele é, ligou ainda há pouco para o Sérgio e deixou as instruções para o jantar de hoje à noite e eu só devia me preocupar em aparecer e assinar o contrato se estivesse de acordo. Claro que eu assinaria imediatamente, independente do valor. Eu já estava com dinheiro demais e não suportaria ficar mais tempo perto daquele maldito parque. Ele não faz nada bem para a minha sanidade mental. E sentimental também.

A única coisa que eu quero é assinar logo esses papéis e ir embora dessa cidade outra vez. Já decidi que vou deixar a mansão nas mãos do Sérgio, sei que ele tem esse lugar como um lar e ninguém melhor do que ele para cuidar. Eu só quero não precisar pisar aqui nunca mais. Apesar de respeitar o lugar que Antenor chamou de lar por toda uma vida, não suporto a ideia de enfrentar todas as lembranças que essas paredes me oferecem.

Já estava quase terminando de me arrumar quando ouço o barulho da campainha. Escolhi para a ocasião um lindo e longo vestido verde-musgo para combinar com os meus olhos. Prendi meus cabelos castanhos em um coque alto e estava finalizando com o batom vinho.

Alguém bateu na porta com delicadeza e posso apostar que é o latino me chamando para o jantar.

— Você está deslumbrante, cariño — ele elogia depois de entrar no quarto. Não suporto esses apelidos carinhosos, não importa o quanto seja sexy ouvi-lo falar em espanhol.

— Já está tudo pronto lá embaixo? Estou pronta para descer.

— Está sim. Vim justamente te acompanhar — ele se aproxima para me beijar e eu me afasto.

— Ótimo, então vamos! — Passo meu braço pelo seu cotovelo e nos guio até a porta. — E tenha em mente que a noite passada não significou nada. Foi só sexo. A única coisa que eu quero de qualquer um ou qualquer coisa dessa cidade, é distância.

Ele tenta dizer alguma coisa, mas eu o calo e descemos as escadas para a sala de jantar. Entretanto, antes mesmo de chegar ao local planejado, sinto minhas pernas cederem e, se não fosse pelo Hermano ao meu lado, com certeza estaria no chão agora.

O que diabos o Rodrigo está fazendo na mansão?