As Quatro Estações

Eliane Nascimento · Capítulo 7 de 13

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As Quatro Estações

Capítulo V

Terceira parte:

Inverno

 

"E no meio de um inverno eu finalmente

aprendi que havia dentro de mim

um verão invencível."

Albert Camus

V

Luciana

Só de pensar que Elisa está fingindo estar bem há meses já acaba comigo. Conheço minha amiga há dez anos e eu sei muito bem quando ela está bem ou não. E ela não está. Cansei de ficar a vendo amuada pelos cantos, tanto no trabalho quanto em casa. Por mais que ela diga que está tudo bem, eu vejo em seus olhos que não está.

Resolvi passar minhas férias agora para o mês de Julho e tentar entender toda essa história. Talvez não seja da minha conta e eu esteja fazendo uma grande besteira, mas eu tenho a Elisa como uma irmã e dentro de mim me sinto na obrigação de cuidar dela.

Elisa chegou à capital há dez anos e eu a conheci poucos dias depois da sua chegada. Eu a encontrei na faculdade com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar e meu coração se feriu imediatamente. Eu tentei ajudá-la de todas as formas, mas ela sempre se esquivava de mim quando eu chegava perto. Até que um dia ela gritou comigo, mandou-me deixá-la em paz e disse que só queria um novo lar e uma nova vida. Foi então que eu a surpreendi dizendo que a queria como colega de quarto em uma quitinete que já estava de olho. Eu menti, é claro, mas isso não me impediu de chegar à casa dos meus pais e começar a procurar quitinetes que estavam á venda. Eu realmente pensava em sair da casa dos meus pais, era muito longe da faculdade, só precisava de um incentivo para isso. Bom, esse foi um e tanto e Deus foi tão bom que me fez procurar no lugar certo!

Depois de alugarmos a pequena casinha, não demorou muito e acabamos criando um laço de ami-zade, ela sentiu confiança para me contar tudo que tinha acontecido. Eu sei que eu não conhecia o Rodrigo e na verdade ainda não o conheço, mas alguma coisa me dizia que tinha algo errado na forma como ele terminou com ela.

Como alguém estaria planejando o casamento, uma vida juntos e tantas

promessas de amor sendo feitas para depois o cara dizer que é melhor ela ir embora sem ele porque ele não podia ir e não a amava o suficiente para pedi-la para ficar com ele? Por que ele pediria para que ela ficasse se sabia do sonho dela, afinal? Elisa sempre me pareceu o tipo de pessoa decidida que corre atrás dos seus sonhos. Alguma coisa, talvez a mesma da outra vez, dizia-me que Rodrigo teve um motivo forte que o fez ficar e ele não queria que Elisa desistisse do sonho dela por ele. Posso estar sendo ingênua, mas eu tenho certeza de que não vi uma má pessoa no Rodrigo quando o vi, mesmo que rapidamente.

E é por esse motivo que eu estou aqui, na sala de espera da prefeitura da cidade natal da Elisa, exata-mente para tirar toda essa história a limpo.

— Senhorita Luciana? — A recepcionista sim-pática que me atendeu alguns minutos mais cedo e me pediu para esperar me chama. — O senhor prefeito disse que pode atendê-la agora.

Eu me levanto da cadeira que estava esperando, coloco minha bolsa sobre o ombro e entro na sala que ela me indicou ser o escritório do Rodrigo.

— Bom dia, senhor prefeito — saúdo Rodrigo, que me olha com curiosidade.

— Bom dia, Luciana. Aconteceu alguma coisa com a Elisa? Por favo-

— Não, não aconteceu nada — apresso-me em dizer, vendo sua preocupação genuína.

Esse homem ama a minha amiga, disso eu tenho certeza. Ninguém é tão bom ator a ponto de fazer seus olhos atuarem. Sento-me na cadeira em frente sua mesa enquanto o alívio toma conta do seu rosto e me preparo para começar o discurso que ensaiei durante o caminho.

— Na verdade, aconteceu sim. — Rodrigo faz menção de se manifestar de alguma forma, mas o paro com a minha mão, como um pedido para que eu continue. — Eu vim aqui exatamente porque eu conheço a Elisa há anos e sei quando ela não está bem. Eu só quero entender tudo isso. Preciso saber se devo te ajudar a se entender com ela, porque eu sinto que você a ama. Ou se você não está disposto a acertar tudo isso e preciso ajudá-la a te esquecer. Eu estou confusa, Rodrigo, então, por favor, ajude-me a entender.

Durante alguns segundos, Rodrigo apenas me olha com uma expressão que varia um pouco entre divertida e pensativa. Até que ele dá uma gargalhada e se ajeita na cadeira de modo que debruça os cotovelos sobre a mesa.

— Luciana, você não tem noção do quanto eu pedi para Deus que você fosse uma boa pessoa e amasse a Elisa de verdade. E agora você está aqui demonstrando para mim que minhas orações foram atendidas com muito sucesso. — Fico um pouco confusa com o que ele disse, mas resolvo não interromper. — Eu amo a Elisa desde que entendi o significava de amar. Desde que a conheço, eu sonho com o dia em que a levarei para o altar e a chamarei de minha esposa com a bênção de Deus. Durante todos esses anos, meu coração ansiava por revê-la e eu tenho me preparado há dez anos para reconquista-la. Ela não tem facilitado muito isso, é verdade, entretanto, eu venho orando por ela há 10 anos e não é agora que vou desistir.

— Então você realmente a ama, certo? — Pergunto apenas para deixar tudo claro.

— Com todo o meu coração — ele responde com naturalidade.

— E por que a deixou ir? Por que você terminou com ela quando tinham planos para se casarem?

— Porque eu precisava ficar aqui e ela precisava ir. Eu estava disposto a ir com ela, mas algo inesperado me fez ficar e eu sabia que se contasse para a Lis, ela ia querer ficar também e não ir atrás do seu sonho, então, eu preferi terminar tudo com ela na esperança de nos reencontrarmos e eu contar tudo. Eu só não esperava que se passasse tanto tempo ou que ela estivesse tão cética e diferente.

— Você partiu o coração dela, o que esperava? Elisa nunca mais foi a mesma depois que chorou um mês inteiro por você. O que era tão inadiável que te fez ficar, afinal?

— Um problema de família — ele diz simples-mente. E acho que diria só isso se eu não cruzasse os braços e o incitasse com os olhos a falar mais. Rodrigo passa uma mão pelos cabelos e suspira de forma pesada. — Meu pai foi diagnosticado com Esclerose Múltipla depois de ter sido levado ao hospital por uma perna "falhar" no trabalho. Ele era Mestre de obras e descobriu naquele dia que não poderia mais trabalhar porque a doença já existia, mas ele escondia os pequenos sintomas, então, estava avançando rápido. Assim que eu soube disso, soube também que seria o responsável por sustentar a minha família. Fiz faculdade à noite, trabalhei de dia e cuidei do meu pai nas horas vagas.

— Meu Deus! — Exclamo já em lágrimas.

— Poucos anos depois ele já não andava mais e precisava de tratamentos sérios e caros. Eu tive que largar a faculdade para trabalhar ainda mais em bicos nas lojas pela cidade. Apenas com 23 anos recebi a proposta para entrar na política e eu vi que ajudaria muito meu pai, então o fiz. Com isso tudo, não consegui ir atrás da Lis, mas Deus a trouxe até mim agora e não estou disposto a perdê-la outra vez.

— Mas ela tem o trabalho dela e você o seu aqui. Pretende tirá-la da capital? — Pergunto porque sei o quanto Elisa ama o trabalho. E eu também amo tê-la por perto, confesso.

— Claro que não. Durante todos esses anos eu procurei saber dela e sei o quanto ela é apaixonada pelo que faz e fico feliz com o que ela conquistou. Esse é meu último ano de mandato e não vou mais me eleger a nada. Terminei minha faculdade quando meu pai faleceu, há três anos, e agora pretendo focar no meu segundo maior sonho: a arquitetura. E eu posso levar minha mãe comigo agora, é a única família que me resta.

— Sinto muito pelo seu Pai, que Deus o conforte.

— Ele já faz isso, obrigado.

— Desculpe, você disse o segundo maior sonho? — Pergunto curiosa. Rodrigo sorri com alegria.

— O primeiro é e sempre será me casar com a Elisa. Ela é a mulher da minha vida.

Essas palavras confortam o meu coração. Eu posso sentir o quanto esse homem ama a minha amiga.

— Desculpe, senhor prefeito! — A recepcionista simpática, Estefani, adentra a sala em desespero. — Acabam de ligar da igreja do pastor Celso. Sua mãe foi levada para o hospital.

Rodrigo se levanta apressado e segue para fora da sala. Eu não pergunto se posso ir junto, simplesmente o sigo.

Chegamos ao hospital apressados e tudo acontece muito rápido. Achamos o médico que cuidou da mãe dele e este diz que, infelizmente chegamos tarde demais. A mãe do Rodrigo faleceu alguns minutos atrás logo após ter feito sua oração semanal. Rodrigo se apoia na parede e deixa as lágrimas saírem com liberdade, eu apenas o abraço e tento conforta-lo. Não consigo nem imaginar o que ele está sentindo nesse momento.