Carrie

Stephen King · Capítulo 1 de 9

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Carrie

Parte I

 

 

Sangue e

 

divertimento

 

Notícia do semanário Enterprise de Westover (Estado do Maine), 19 de agosto de 1966:

 

CHUVA DE GRANITO

 

Violenta chuva de granito caiu em plena luz do dia, na Carlton Street, na cidade de Chamberlain, no dia 17 de agosto p.p. Várias pessoas testemunharam o fato. As pedras atingiram principalmente a casa da sra. Margaret White, danificando seriamente o telhado, e destruindo duas calhas e um condutor, avaliados em cerca de vinte e cinco dólares. A sra. White, viúva, reside aí com sua filha Carrietta de três anos.

Não foi possível, entretanto, entrevistar a referida senhora.

 

Ninguém ficou realmente surpreso com o fato, pelo menos não no nível do subconsciente, onde se desenvolve tudo que é selvagem. Aparentemente todas as meninas na sala de banhos ficaram chocadas, emocionadas ou apenas satisfeitas por ter a White, aquela filha da mãe, levado novamente a pior. Algumas alunas podem ter fingido surpresa, mas, evidentemente, não era autêntica. Carrie já era colega delas desde o primeiro ano, e tudo isto vinha se acumulando lentamente desde aquela época, sem nenhuma alteração, de acordo com todas as leis que governam a natureza humana, com a constância de uma reação em cadeia, que está se aproximando do ponto crítico.

O que nenhuma delas, no entanto, sabia é que Carrie White fosse telecinética.

 

Rabiscado numa carteira da Barker Street Grammar School de Chamberlain, lia-se:

Carrie White come bosta.

 

O vestiário ecoava com gritos e o som subterrâneo da água dos chuveiros batendo nos ladrilhos. As meninas tinham jogado vôlei no primeiro tempo; o suor matutino era farto e leve.

As alunas se esticavam e se torciam debaixo da água quente, gritando, espirrando água, brancos pedaços de sabão passando de mão em mão. Plantada flegmática no meio delas estava Carrie, um sapo entre cisnes. Era uma garota troncuda, com espinhas no pescoço, nas costas e nas nádegas. O cabelo molhado, completamente sem cor, colado no rosto, em encharcada deprimência ela ficava ali em pé, a cabeça ligeiramente inclinada, deixando a água bater contra seu corpo e escorrer. Parecia um animal a ser sacrificado, o eterno alvo de gozações, a acreditar em coisas inexistentes, a abominada; e ela realmente o era. Sempre desejou perdidamente que Ewen High tivesse chuveiros individuais privativos, como os outros ginásios de Westover ou Lewinston. Todo mundo vivia olhando. Olhavam sempre.

Os chuveiros foram se fechando um a um, garotas saíam tirando as toucas de banho de cores pastel se enxugavam, passavam desodorantes, consultavam o relógio por cima da porta, fechavam sutiãs, vestiam calcinhas. Vapor pairava no ar; o lugar mais parecia uma casa de banhos egípcia, exceto pelo constante zumbir da bomba centrífuga no canto. Gritos e assobios repercutiam como os estalos e reflexos de bolas de bilhar depois de uma forte tacada.

"''"""" ...e Tommy disse que detestava me ver assim e eu..."

"''"""" ...vou com minha irmã e o marido dela. Ele vive de dedo no nariz, mas ela também, por isso são muito..."

"''"""" ... um banho de chuveiro no fim das aulas e..."

"''"""" ...não vale nem a pena gastar um vintém, por isto eu e Cindi..."

 

Miss Desjardin, a magra professora de ginástica de peito chato, entrou, esticou o pescoço olhando em volta rapidamente, bateu palmas uma vez, energicamente.

 

" ''"""" O que é que você está esperando, Carrie? Dia do Juízo Final? A campainha vai tocar em cinco minutos!

Seu short era de um branco impecável, suas pernas ligeiramente curvas, surpreendentes em sua discreta musculatura. Pendurado no pescoço, trazia um apito de prata, ganho na faculdade, numa competição de arco e flecha.

Diante das risadinhas das meninas, Carrie levantou os olhos num olhar lento, atordoada pelo calor e pelo constante troar da água a correr.

''"""" ''"""" Ahn?fez ela.

Um estranho som de sapo, grotescamente condizente com ela. As risadinhas se renovaram. Com um movimento rápido de mágico a realizar um número fantástico, Sue Snell tirou a toalha da cabeça e começou a se pentear ligeira. Miss Desjardin olhou para Carrie, e com um gesto brusco e irritado saiu.

Carne desligou o chuveiro, que morreu no gorgolejar de um pingo.

Saiu. Só então todas viram o sangue escorrendo por suas pernas.

 

Extraído de: The Shadow Exploded (A Sombra Explodiu):

Fatos documentados e conclusões específicas tiradas do caso Carrietta White, por David R. Congress (Tulane University Press, (1981), página 34:

Dificilmente poderá ser contestado que a ausência de manifestações telecinéticas específicas durante os primeiros anos de vida da pequena White deva ser atribuída à conclusão apresentada por White e Stearns em seu trabalho: Telecinética: Um Poder Espantoso Reexaminado. Afirmam eles que esta capacidade de mover objetos apenas com o uso da vontade se manifesta somente em momentos de extrema tensão pessoal. É um poder realmente bem oculto pois, do contrário, como poderia ele ter permanecido submerso há séculos, com apenas o cume do iceberg apontando num mar de charlatanismo?

Temos apenas vagas provas de pessoas que ouviram falar no caso para nos servir de

base, mas mesmo estas nos bastam coma indícios de que Carrie White era portadora de um potencial de “TC” de imensa magnitude. A grande tragédia é que agora todos nós somos como beques, numa segunda-feira de manhã.

 

''"""" RE-gra!

 

O primeiro grito foi dado por Chris Hargensen. Bateu contra as paredes azulejadas, ressoou e voltou novamente. Ofegante, Sue Snell gargalhava procurando respirar pelo nariz, sentindo um misto estranho e aflitivo de ódio, repulsão, exaspero e pena. Carrie tinha uma cara tão idiota, parada lá no meio, sem saber o que estava acontecendo. Meu Deus, podia-se pensar até que ela nunca...

''"""" RE-gra!

Soava como um cantochão, um encantamento. Alguém no fundo (talvez fosse Hargensen novamente, Sue não podia afirmar naquele emaranhado de ecos) gritava impulsiva, em voz rouca, desinibida:

''"""" Tampa!

''"""" RE-gra! RE-gra! RE-gra!!

Carrie ficou parada feito idiota no meio do círculo que se formava, a água escorrendo em bagas de sua pele. Parecia um boi paciente cônscio de que era (como sempre) o alvo da gozação; estúpida e desconcertada, mas não surpresa.

Sue sentiu náuseas quando os primeiros pingos escuros do sangue menstrual caíram no ladrilho, em gotas do tamanho de um níquel.

''"""" ''"""" ''"""" Pelo amor de Deus, Carrie, sua regra chegou ! exclamou ela . Limpa isso!

''"""" Ahn?

Lançou um olhar bovino à sua volta. Seu cabelo grudava-lhe no rosto como se fosse um elmo curvo; no ombro um monte de acne. Aos dezesseis anos, já trazia claramente estampada nos olhos a marca enganadora da mágoa.

''"""" ''"""" Ela acha que serve para pintar os lábios!gritou de repente Ruth Regan em secreto regozijo, pana depois estourar em alta gargalhada. Mais tarde Sue se lembrou do comentário e o encaixou no quadro geral, mas agora era apenas outro som sem sentido em meio a toda a confusão. Dezesseis anos? Pensava ela. Ela deve saber o que está acontecendo, ela...

Mais pingos de sangue. Carne continuava a piscar, olhando em volta para as colegas em lento aturdimento.

''"""" ''"""" Você está sangrando! berrou Sue de repente furiosa. - Você está sangrando, sua gorda balofa, idiota!

Carrie olhou para suas pernas.

Soltou um grito.

 

Sua voz soou alta no úmido vestiário.

Súbito um Modess lhe foi acertado no peito e caiu no chão ''"""" plop! Uma flor rubra manchou o algodão absorvente e se espalhou.

A gargalhada revoltante, insolente, horrorizada, pareceu crescer para desabrochar em algo áspero e torpe, e as meninas começaram a bombardeá-la com Modess e toalhas higiênicas, que algumas tiravam de suas bolsas, ou do porta-toalha-higiênica quebrado, na parede. Voavam como neve e a cantilena era :

''"""" Tam-pa, tam-pa, tam-pa!

 

Sue jogava também, fazendo coro com o rosto, sem saber ao certo o que estava fazendo ''"""" tinha-lhe vindo à mente um encantamento que ali brilhava como um anúncio luminoso:

''"""" Não há mal nenhum, na verdade não há mal nenhum...

 

Continuava a reluzir e arder tranqüilamente, quando de repente Carrie começou a rugir, recuando, agitando os braços, grunhindo e gorgolejando.

As colegas pararam, conscientes de que o ponto de ruptura, de explosão tinha sido finalmente alcançado. Foi a esta altura que algumas delas, fazendo um retrospecto, pretendem ter sentido surpresa. No entanto todos aqueles anos tinham se passado, anos de vamos-fazer-cama-de-gato para Carrie no Acampamento da Juventude Cristã: encontrei esta carta de amor de Carrie para Flash Bobby, vamos copiá-la e passar adiante, vamos esconder suas calças, meter uma cobra dentro do seu sapato, vamos dar-lhe um caldo, mais um, outro. E Carrie seguindo-as obstinadamente nos passeios de bicicleta, um ano conhecida como baleia, no outro como cara-de-bonde, sempre cheirando a suor, incapaz de acompanhar a turma, pegando urticária de urinar no mato e todo mundo descobrindo (ei! coça-bunda, seu traseiro está comichando?). Billy Preston lambuzando seus cabelos com manteiga de amendoim no dia em que ela adormeceu na sala de estudos. Os beliscões, as pernas esticadas pelos corredores da escola para lhe passar rasteiras, os livros varridos de sua carteira, os cartões obscenos que metiam em sua pasta! Carrie no piquenique da escola, ajoelhada desajeitadamente numa igreja para rezar e a costura de sua velha saia de algodão estourando ao longo do zíper com um barulho que parecia uma rajada de vento. Carrie nunca conseguindo acertar a bola, nem jogando pelada, caindo de cana no chão na aula de dança moderna no segundo ano ginasial e lascando um dente. Carrie se enfiando pela rede de vôlei a dentro; usando meias de fio sempre corrido, correndo, ou por correr; sempre com rodelas de suor nas blusas, debaixo do braço, mesmo no dia em que Chris Hargensen telefonou depois da escola lá da Kelly Fruit Company, na cidade, para lhe perguntar se ela sabia que peido de porco se soletrava C-A-R-R-I-E. De repente tudo isto se avolumou, chegando ao ponto crítico. A humilhação, a ofensa, o espezinhamento final, há tanto tempo procurados, tinham sido encontrados. A ruptura.

Recuou, rugindo no silêncio que se fez, os braços cruzados na frente do rosto, um Modess no meio do pêlo púbico.

As colegas ficaram olhando para ela, os olhos brilhando solenemente.

Carrie se refugiou no lado de um dos quatro grandes boxes de chuveiro e lentamente desmoronou, caindo sentada. Gemidos lentos de abandono sacudiam-na convulsivamente. Revirava os olhos, o branco úmido como os de um porco a ser abatido.

Lentamente, hesitando ainda, Sue disse:

''"""" Acho que é a primeira vez que ela...

Nesse instante a porta foi aberta violentamente e Miss Desjardin entrou precipitada para ver o que estava acontecendo.

 

Extraído de: The Shadow Exploded (página 41):

Tanto os médicos como os psicólogos que se ocuparam do caso estão de pleno acordo que o início traumático e excepcionalmente tardio do ciclo menstrual de Carne White podem muito bem ter sido a mola que acionou seus poderes latentes.

Parece inacreditável que, até 1979, Carrie nada soubesse a respeito do ciclo menstrual da mulher. E é igualmente absurdo uma mãe permitir à filha chegar a ter quase dezessete anos sem consultar um ginecologista a respeito da sua ausência de menstruação.

No entanto os fatos são incontestáveis. Quando Carrie constatou que estava sangrando pela vagina, não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Desconhecia inteiramente toda a concepção da menstruação.

Uma das colegas sobreviventes, Ruth Gogan, conta que, um ano antes do acontecimento acima relatado, ela entrou no vestiário das meninas da Ewen High School, e viu Carrie usando um Modess para tirar a pintura. Na época Ruth Gogan disse:

"'""" Bolas, o que você está fazendo"?

""""" ''"""" Eu? Por quê? Algo errado ? retrucou Carrie.

""""" ''"""" Nada não. Nada- respondeu Ruth Gogan.

Contou o caso a algumas amigas (mais tarde disse a este entrevistador que tinha achado aquilo 'bacana'), e toda vez que depois disto alguém tentou explicar a Carrie a verdadeira finalidade daquilo que ela estava usando para sua maquilagem, ela aparentemente desprezava a explicação achando que estavam querendo caçoar dela, faceta em sua vida à qual se tornara especialmente sensível.

Depois de a campainha ter tocado e de todas as colegas terem ido para o segundo tempo de aula (diversas entre elas tinham saído sorrateiramente pela porta dos fundos antes que Miss Desjardin começasse a anotar nomes), a professora empregou a tática padrão para histerismo: aplicou-lhe um violento tapa no rosto. Ela dificilrnente teria admitido o prazer que este ato lhe deu, e certamente teria negado considerar Carrie um gordo e lamuriento saco de banha.

Carrie olhou para ela com expressão idiota, o rosto ainda contorcido, os músculos trabalhando. Em seu primeiro ano de profissão, a professora ainda acreditava pensar que todas as crianças fossem boas.

""""""""" M-M-Miss D-D-Des-D.

""""""""" """" " Levante - disse ela friamenteLevante e componha-se.

""""""""" """""" Estou me esvaindo em sangue ! gritou Carne, e uma mão cega subiu tateando, agarrando o short branco da professora. Uma mão de sangue ficou estampada em sua calça.

"""""""" Eu... sua... - seu rosto se contraiu numa careta de nojo, e de repente ela agarrou Carrie e a colocou em pé, cambaleando:

""""""""" Vai pra lá!

Ela ficou oscilando entre os chuveiros e a parede com a caixa de toalhas-higiênicas, inclinada para a frente, os seios apontando para o chão, os braços pendurados inertes. Parecia um macaco. Seus olhos brilhavam sem expressão.

""""""""" """""""""" Agora - disse Miss Desjardin com implacável ênfase desaprovadora pegue uma destas toalhas. . . não.... deixe a fenda e a moeda pra lá, o negócio não funciona de qualquer maneira... pegue uma.., ora, droga, ande logo! Ate parece que você nunca teve uma regra.

"""""""""" """"""""" Regra? exclamou Carrie

Sua expressão de absoluta ignorância era tão autêntica, tão cheia de mudo e total horror que não podia ser ignorada ou negada. Uma terrível e negra presciência foi crescendo na mente de Rita Desjardin. Era inacreditável, não podia ser! Ela mesma tinha ficado menstruada logo depois de completar onze anos, e tinha corrido até o topo da escada para gritar excitada para a mãe lá em baixo:

"""""""""" Ei, mãe, já sou mocinha!

"""""""""" ''"""" """"""" Carrie ?- disse ela agora, e foi chegando para perto da menina . Carrie ?

Carrie recuou assustada. No mesmo instante uma prateleira com bolas e raquetes caiu com tremendo estrondo. Corria bola para tudo que era lado, fazendo Desjardin pular.

"""""""""" Esta é a sua primeira regra Carrie ?

No instante em que a idéia foi admitida, ela nem precisaria mais ter perguntado. O sangue corria grosso e pesado.As duas pernas de Carne já estavam lambuzadas e respingadas: era como se ela tivesse atravessado um rio de sangue.

"""""""""" """""""" """"""""" Dói gemeu CarrieMinha barriga...

""""""""" """""""" Isto passa disse a professora. A compaixão e a vergonha de si mesma se encontraram dentro dela num misto constrangedor. """""""""" Você tem que... ih, tem que parar o fluxo do sangue. Você...

Um rápido clarão no alto foi seguido por um estampido como de um tiro; uma lâmpada apagou com um chiado. Miss Desjardin deu um grito de susto, ocorreu-lhe que

(esta droga toda vai desabar)

esse tipo de coisa sempre acontecia perto de Carrie quando estava transtornada. Era como se o azar lhe seguisse os passos. Pegou uma das toalhas da caixa quebrada, desdobrou-a e disse:

- Olhe aí. Ê assim...

 

Do livro The Shadow Exploded (página 54)

A mãe de Carrie White, Margaret White, deu à luz a sua filha em 21 de setembro de 1963, em circunstâncias que só podem ser chamadas de bizarras. De fato, uma revisão do caso Carrietta White deixa nos estudiosos um sentimento que domina sobre todos os outros: Carrie foi o único rebento de uma

família das mais estranhas, dessas que chamam a atenção do público.

Como foi citado antes, Ralph White morrera em fevereiro de 1963 quando uma viga de aço escapou de um guindaste numa obra em Portland, onde trabalhava. A sra. White continuou a viver só, numa casinha de subúrbio em Chamberlain.

Devido à crença religiosa quase fanática dos White, Marganet não teve o apoio de nenhum amigo durante o período de luto. E quando, sete meses mais tarde, começou seu trabalho de parto, ela também estava só.

Cerca de l3h3Omin do dia 21 de setembro, os vizinhos da Carlin Street começaram a ouvir gritos vindos do bangalô dos White. A polícia no entanto só foi chamada depois das 1 8h. Temos apenas duas alternativas pouco atraentes para explicar tal demora: ou os moradores da vizinhança não queriam se envolver numa investigação policial, ou então a aversão a ela era tão grande, que deliberadamente assumiram a posição de vamos-esperar-para-ver-como-é-que-fica. A sra. Georgia McLaughlin, a única das três vizinhas que ainda moravam lá (e que estava na rua na ocasião, disposta a falar comigo), disse que não chamou a polícia porque pensava que os gritos tivessem alguma relação com os “rituais sagrados"".

Às 1 8h22min, quando a polícia chegou, os gritos tinham se tornado mais irregulares. A sra. White foi encontrada em cima, na cama, e o investigador a princípio pensou que ela tivesse sido vítima de um assalto. A cama encharcada de sangue e uma faca de cozinha no chão. Só então viu o bebê, ainda parcialmente envolto na placenta, no peito da sra. White. Ao que parece ela mesma cortara o cordão umbilical com a faca.

Ë difícil crer ou imaginar a hipótese de que Margaret White ignorasse estar grávida ou que até mesmo desconhecesse o sentido dessa palavra; por isso, estudiosos recentes como J. W. Bankson e George Fielding propõem uma hipótese mais plausível, admitindo que o conceito associado intimamente com

o “pecado” da relação sexual tenha sido inteiramente bloqueado em sua mente. Ela pode simplesmente ter-se recusado a admitir que tal coisa lhe pudesse acontecer.

Temos o registro de no mínimo três cartas a uma amiga em Kenosha, Wisconsin, que parecem provar decisivamente que desde o quinto mês a sra. White estava convencida de ter “câncer nas partes femininas”, e que logo iria se juntar ao marido no céu.....

 

Quando quinze minutos mais tarde Rita Desjardin levou Carrie para o gabinete, os corredores felizmente estavam desertos. Atrás das portas fechadas, as aulas continuavam em sua ladainha monótona.

Carrie finalmente tinha acabado de gritar, mas continuava a chorar, sem parar. Desjardin colocara o Modess para ela, limpara o sangue com papel-toalha, e a enfiara nas calças de algodão ordinário.

Duas vezes eia havia tentado explicar a realidade trivial da menstruação, mas Carrie tampara os ouvidos com as mãos e continuara a chorar.

Morton, o subdiretor, tinha dado uma rápida saída quando elas entraram. Billy de Lois e Henry Trennant, dois alunos à espera do merecido sermão por terem matado o primeiro tempo de aula, francês, arregalaram os olhos, esticando-se nas cadeiras.

"""""""" """""""""" """"""""" """"""""" Entrem disse Morton animado . Entrem . Por sobre os ombros da Desjardin, lançou um olhar furioso aos rapazes que não tiravam os olhos da mão de sangue estampada no short da professora.-"""""""" O que vocês estão olhando?

"""""""" """"""""" Sanguedisse Henry, e sorriu com estúpida surpresa.

-"""""""" """"""""" Retidos dois temposdisse Morton bruscamente. Olhou espantado para a mancha de sangue.

Fechou a porta e sem jeito começou a remexer a gaveta superior do arquivo, à procura de uma ficha para acidentes escolares.

""""""""" Você está bem?

"""""""""" ''"""" """"""""" """"""""" Carrie informou Desjardin . Carrie White. Morton finalmente encontrou a ficha. Havia uma grande mancha de café em cima dela.

"""""""""" Não vai precisar dela, sr. Morton.

""""""""" Deve ter sido o trampolim. Nós vamos... como não vou precisar?

""""""""" Não. Acho que Carrie deve ser dispensada pelo resto do dia. Houve um incidente meio desagradável com ela. ''"""" Fez um sinal para ele com os olhos, que ele percebeu mas não conseguiu interpretar.

""""""""" Muito bem. Perfeitamente. Se a senhora acha. Ótimo.

""""""""" Monton guardou a ficha novamente amassando-a toda; fechou a gaveta bruscamente, prendendo O\polegar; soltou um grunhido.Dirigiu-se rápido até a porta, abriu-a com um arranco, olhou furioso para Billy e Henry e chamou:

"""""""" Miss Fish, podia me dar um papel de dispensa por favor? Para Carrie Wnight.

"""""""" """"""""" Whitecorrigiu Desjardin.

""""""""" ''"""" White concordou Morton.

Billy de Lois deu uma risadinha.

""""""""" """""""" ''"""" Retido uma semana ! berrou Morton . Uma bolha de sangue estava se formando debaixo da unha de seu polegar. Doía pra diabo. O choro regular e monótono de Carrie continuava sem parar.

Miss Fish trouxe o papel amarelo de dispensa. Morton o rubricou com sua lapiseira de prata, estremecendo de dor pela pressão no polegar machucado.

""""""""" ''"""" """""""" Você precisa de condução, Carne ? perguntou ele . Podemos chamar um táxi, se quiser.

Ela sacudiu a cabeça e ele notou com repugnância que uma grande bolha de mucosa verde se formara numa das narinas de Carrie. ''"""" Morton olhou para Miss Desjardin por cima da cabeça da menina.

""""""""" """"""""" Pode deixar - disse a professoraCarne mora logo ali na Carlin Street. Um pouco de ar puro fará bem a ela.

Morton lhe entregou o papelzinho amarelo.

"""""""" ''"""" Pode ir, Cassie disse ele magnânimo.

"""""""" ''"""" Eu não me chamo assim! berrou ela de repente.

Morton recuou. Desjardin deu um pulo como se tivesse levado uma lambada pelas costas. O pesado cinzeiro de cerâmica na mesa de Morton (representava O Pensador de Rodin, a cabeça transformada num recipiente para pontas de cigarro) de repente foi parar no chão, como para se proteger da violência do grito. Guimbas e cinzas do cachimbo de Morton se espalharam no tapete verde-claro de náilon.

""""""""" ''"""" Escute aqui - disse Morton, tentando mostrar severidade. Sei que você está transtornada, mas isto não é motivo para que eu...

""""""""" ''"""" Por favor disse Míss Desjardin calmamente.

Morton olhou para ela e concordou com um rápido movimento de cabeça. Tentava projetar a imagem de um amável John Wayne, durante o exercício do controle disciplinar - sua principal função na escola ''"""" mas não se saia muito bem. A administração geralmente o chamava de "o amável Mort”.Já o corpo discente era mais inclinado a se referir a ele como “aquele tagarela maluco lá de baixo”. No entanto, como poucos alunos da espécie de Billy de Lois e Henry Trethnant se manifestassem oficialmente, a opinião da administração parecia ser a vencedora.

Continuando a alisar furtivamente o polegar imprensado, "o amável Morton” sorriu para Carne e disse: ''"""" Pode ir se quiser, Miss Wright. Ou prefere ficar sentada aí um instante até se acalmar?

"""""""""" """""""""" Eu voumurmurou ela, dando um violento puxão no cabelo. Levantou, olhou ao redor e fixou Miss Desjardin. os olhos arregalados, tristes de sofrimento: """""""" Elas riram de mim. Jogaram coisas. Sempre vivem rindo.

Desjardin ficou olhando para ela, sem saber o que dizer.

Carne saiu.

Por um momento houve silêncio Morton e Desjardin acompanharam-na com os olhos. Depois, com um estranho pigarro, Morton abaixou-se cuidadosamente e começou a juntar as cinzas do cinzeiro.

"""""""" Que história é essa?

Ela deu um suspiro, olhou com repugnância para as marcas de um marrom avermelhado, secando em seu short.

"""""""" A regra dela veio. Pela primeira vez. No banho.

Morton pigarreou novamente, as faces rubras. A folha de papel que usava para juntar o lixo se moveu mais rápida. -Será que ela não está meio...

"""""""" Velha, para ser a primeira vez? Está sim. E daí o trauma todo. Embora eu não consiga entender por que a mãe... """"""" A idéia se perdeu, ficou esquecida por um instante. """""" Acho que não me saí muito bem. Morty, mas não entendi o que estava acontecendo. Ela pensou que estivesse se esvaindo em sangue.

Ele ergueu os olhos, surpreso.

""""""" Não acredito que ela soubesse da existência de uma coisa chamada menstruação, até meia hora atrás.

""""""" """"""" Quer me passar aquela escovinha, por favor. Esta mesma . Ela lhe entregou uma escovinha, propaganda da Companhia de Ferragens e Madeira Chambenlain. Começou a escovar o monte de cinzas para cima da folha. ''"""" Acho que ainda vai sobrar coisa para o aspirador.Este pelo grosso é horrível ''"""" Pensei que tivesse colocado o cinzeiro mais para dentro.

''"""" ''"""" En graçado como as coisas caem. Bateu com a cabeça na mesa e sentou-se repentinamente. ''"""" É difícil acreditar que uma garota do ginásio, daqui ou de outro colégio qualquer, ''"""" tenha passado estes três anos completamente alheia ao fato da menstruação. ''"""" Para mim é mais difícil ainda. ''"""" respondeu ela ''"""" Mas é a única coisa que posso admitir para explicar sua reação Aliás, ela sempre foi o bode expiatório do grupo ''"""" ''"""" Hum. fez um canudo com o papel e por ele desceram as cinzas e as pontas de cigarro

para dentro do cesto de papel. Limpou as mãos. ''"""" Acho que a sei quem é. White. A filha de Margaret White. Só pode ser. Ai já é mais fácil acreditar ''""""Sentou-se a mesa e sorriu como para se desculpar ''"""" São tantas! Depois de cinco ou seis anos todas se fundem em rostos de grupo. A gente começa a chamar a garotada pelo nome dos irmãos, e coisas assim. É tão difícil!

 

""""""" Claro que é.

"""""""- """"""" Espere até estar vinte anos nesta brincadeira como eudisse ele taciturno,

contemplando a bolha de sangue no dedo- Aparecem garotos que você acha que conhece,e

de repente descobre que o pai foi aluno da escola no seu primeiro ano de ensino. Margaret

White foi anterior a mim, pelo que dou graças a Deus. Ela disse a Sra.Bicente, que Deus a

tenha em paz,que o Senhor estava reservando um lugar especial para ela no inferno, por ter

feito um esboço geral para a garotada, do que era a teoria da evolução, de Darwin, foi

suspensa duas vezes enquanto esteve aqui...uma das vezes por ter batido numa colega com

a mala. Consta que ela tinha visto a colega fumando. Pontos de vista religiosos meio

estranhos!Muito estranhos, aliás."""""""""- Sua expressão de John Wayne de repente

desmoronou."""""""As outras garotas ....elas realmente riram dela?

"""""""" Pior ainda. Quando entrei estavam um e e bombardeando Carrie com tolhas

higiênicas...como quem atira amendoim.

"""""""" """""""" """""""" Meu Deus ! John Wayne desapareceu. Morton ficou escarlate . Tem os nomes?

"""""""" Tenho. Não de todas, mas elas vão... vão denunciar as colegas. Christine Hargensen parecia ser a líder... como sempre.

"""""""" Chris e o grupo dela.

"""""""" Ë. Tina Blake, Rachel Spies. Helen Shyres. Donna Thibodeau, e a irmã Mary Lila Grace, Jessica Upshaw. E Sue Snell. """""""" Desjardin franziu o cenho """""""" Nunca pensei ver Sue Snell metida numa brincadeira dessas. Ela não me parece garota para este tipo de...de proeza.

""""""""Você falou com elas?

Desjardin deu um sorriso triste.

""""""""Fiz uma barulheira infernal para botá-las pra fora. Estavam muito agitadas. Carrie ainda por cima estava dando ataques histéricos.

"""""""" """""""" ''"""" Hum fez ele brincando com os dedos . Pretende falar com elas?

"""""""" """""""" Sim . A resposta foi meio relutante.

"""""""" Será que estou percebendo um tom de - - -

"""""""" '"""" Talvez esteja - disse ela sombriamente Estou numa situação meio delicada. Entendo o que as garotas sentiram. Toda aquela cena só me deu vontade de pegar a menina e sacudi-la. Talvez haja uma espécie de instinto em relação à menstruação que faça com que as mulheres tenham vontade de arrumar confusão; não sei. O jeito de Sue Snell não me sai da cabeça.

"""""""" """"""""- Humrepetiu Morton sabiamente. Ele não entendia nada de mulheres e não tinha a menor disposição para discutir menstruação.

""""""""Vou falar com elas amanhã - prometeu ela, levantando-se

- Muito bem. Que o castigo seja proporcional ao crime. E se achar que alguma delas deva ser mandada... é, mandada a mim, não tenha constrangimento...

"""""""" """"""" " """""""" Pode deixar . disse ela amavelmente . Por falar nisto, uma lâmpada queimou enquanto eu estava tentando acalma-la. Foi o toque final!

"""""""" """""""" """""""" Vou mandar um zelador lá agora mesmo prometeu ele . E muito obrigado pelo seu esforço. Míss Desjardin. Quer pedir a Miss Fish para mandar Billy e Henry entrarem?

''"""" Pois não.

Saiu.

Ele se recostou e deixou que tudo aquilo deslizasse de sua mente. Quando Billy de Lois e Henry Trennant gazeteadores por excelência, foram entrando cabisbaixos encarou-os-feroz, feliz da vida, resolvido a dar um duro neles.

Como sempre dizia a Hank Grale saboreava gazeteiros no almoço.

 

Rabiscando numa carteira da Chamberlain Junior High School:

 

Rosas são vermelhas, violetas são azuis Carrie Whitc come bosta.

 

Carrie foi descendo a Ewen Avenue e na esquina da Carlin atravessou no sinal. De cabeça baixa,tentava pensar no nada. A cólica ia e vinha em grandes ondas espasmódicas, fazendo com que ela diminuísse e aumentasse a marcha corno um carro de carburador entupido. Andava de olhes fixos na calçada. Quartzo brilhando no meio do cimento. Traçados de amarelinha em fantasmagórico giz, lavado pela chuva. Chicletes amassados com o pé.Pedaços de folha de estanho,embalagens de balas ordinárias. Todos odeiam e não param nunca. Nunca se cansam de odiar. Uma moedinha presa numa fresta. Chutou-a.Imaginem Chris Hargensen toda ensangüentada gritando por misericórdia. Com ratos andando por cima de seu rosto. Ótimo. Seria ótimo! Cocô de cachorro com uma pisada no meio. Chapinhas escuras que algum garoto tinha amassado com uma pedra. Pontas de cigarro. Estourar sua.cabeça com uma pedra . Estourar á cabeça de todas elas. Ótimo. Ótimo

(Jesus salvador meigo e afável)

Seria bom para a mãe: bem feito para ela. Não teria que sair todos os dias do ano no meio de lobos, no meio de um carnaval de zombadores,contadores de piadas. palpiteiros, cínicos gozadores. E não dizia a mãe que havia um dia de Juízo Final?

(o nome daquela estrela será losna e eles serão flagelados por escorpiões) e um anjo com uma espada?

Se este dia fosse hoje, e Jesus viesse. não com um cordeiro e um cajado, mas com uma pedra em cada mão para esmagar os zombadores e cínicos gozadores, para exterminar o mal e destruí-lo aos gritos ,- com sangue e eqüidade.

E se ela pudesse ser Seu braço e Sua espada!

Tinha tentado se adaptar. Tinha desafiado a mãe numa centena de coisinhas, tinha tentado apagar o círculo de peste vermelha traçado em seu redor desde o dia em que saíra do ambiente controlado da pequena casa da Carlin Street e subira até a Escola Primária de Barker Street. a Bíblia debaixo do braço. Nunca se esquecera daquele dia. dos olhares, do súbito e angustiante silêncio quando se ajoelhara antes do almoço no refeitório da escola. . - As risadas tinham começado naquele dia e vinham ecoando pelos anos afora.

O círculo de peste vermelha era come o próprio sangue podia-se esfregar, esfregar sem parar, que ele continuava lá, indelével, resistindo. Nunca mais ela havia se ajoelhado em público, embora não tivesse dito nada à mãe. Mesmo assim a lembrança original permanecia em sua mente e na deles. Com unhas e dentes ela havia lutado com a mãe para ir ao Acampamento da Juventude Cristã; ela mesma conseguira o dinheiro com costura. A mãe lhe havia dito sombriamente que era Pecado. Que eram Metodistas, Batistas e Congregacionalistas, que era Pecado e Apostasia. Proibiu Carrie de nadar no Acampamento. E embora ela tivesse nadado e tivesse rido quando lhe deram caldo (até que ficasse sem fôlego e eles continuassem, e ela em pânico começasse a gritar), embora tivesse tentado tomar parte nas atividades do acampamento. Carrie, a beata, tinha sido alvo de tanta molecagem, que voltou de ônibus urna semana antes, os olhos vermelhos e inchados de chorar, para ser apanhada na estação pela mãe, que lhe disse impiedosamente que para o futuro ela deveria se lembrar do castigo corno prova de que a mãe tinha sabido, que a mãe tinha razão. que a única esperança de segurança e salvação estava dentro do círculo vermelho. Pois “reto é o caminho", continuou a mãe severa dentro do táxi e, chegando em casa, Carrie tinha sido mandada para o quartinho por seis horas.

Ë evidente que a mãe também lhe proibira os banhos junto com as outras. Carrie escondera seus apetrechos no escaninho da escola e entrava no chuveiro com as outras, tomando parte no ritual de nudismo, diante do qual se sentia envergonhada e embaraçada, na esperança de que o circulo desbotasse um pouco, um pouquinho só...

(mas hoje meu Deus)

Tommy Erbter, de cinco anos um de idade, vinha subindo de bicicleta pelo outro lado da rua. Era um garoto pequeno de olhar vivo, montado numa Schwinn de vinte polegadas, de rodinhas laterais vermelhinhas. Vinha cantarolando uma canção. Assim que viu Carrie, seu rosto se iluminou e esticou a língua para ela:

 

"""""""" Ei, cara de traque! Carrie, velha beata!

Carne olhou para ele espumando de ódio. Apesar das rodinhas laterais. a bicicleta balançou e de repente virou. Tommy deu um grito, a bicicleta por cima dele. Carrie sorriu e continuou a andar. Os gemidos de Tommy eram doce música para seus ouvidos.

Se ela pudesse fazer estas coisas acontecerem sempre que quisesse!

(sem mais nem menos)

Sete casas antes da sua estancou, os olhos fixos no nada. Atrás dela, Tommy subia choramingando na bicicleta, o joelho todo ralado. Gritou qualquer coisa para ela. Ignorou-o. Gente muito mais categorizada já havia gritado tanta Coisa para ela...

Tinha apenas pensado:

(cai desta bicicleta garoto, te arranco desta bicicleta e te)

racho essa porcaria de crânio)

e tinha acontecido qualquer coisa.

Sua mente tinha...tinha... ela procurava por urna palavra. Tinha se vergado. Não era bem isto, mas quase isto. Houve uma estranha flexão, como se fosse um cotovelo entortando um haltere. Também não era isto, exatamente, mas era a melhor imagem que ela conseguia. Um cotovelo sem força. um fraco cotovelo de bebê.

Vergar.

De repente olhou furiosa para a bonita janela da casa da sra. Yorraty. Pensou:

(puta rabugenta idiota quebra aquela janela)

Nada. A janela continuou a brilhar serenamente no suave resplendor das nove horas da

manhã. Outro espasmo de cólica contraiu a barriga de Carne e ela continuou a andar.

Mas...

A lâmpada. E o cinzeiro. Não podia esquecer o cinzeiro

Olhou para trás

(pula de uma figa odeia minha mãe)

por cima de seu ombro. Mais uma vez qualquer coisa pareceu se vergar... muito ligeiramente. O fluxo de suas idéias estremeceu como se tivesse havido um borbulhar repentino de urna nascente lá no seu íntimo.

 

A janela tremeu ligeiramente. Nada mais. Podia ser até sua vista. Podia...

Sua cabeça começou a se sentir cansada e zonza, pulsava com o inicio de uma dor de cabeça. Seus olhos ardiam como se tivesse lido o Livro das Revelações do princípio ao fim.

Continuou a descer a rua em direção à casinha branca de venezianas azuis. A sensação familiar de ódio-amor-medo turbilhonava dentro dela. A hera tinha subido pelas paredes do bangalô (sempre o chamavam de bangalô, pois com o nome White, White House """""""" Casa Branca """""""" soava como uma pilhéria política e a mãe dizia que os políticos eram todos uns vigaristas e pecadores que acabariam entregando o país aos Ateus Vermelhos, que encostariam no paredão todos os crentes em Jesus """""""" mesmo os católicos); a hera tinha um aspecto pitoresco, ela sabia disto, mas às vezes tinha ódio. Às vezes, como agora por exemplo, ela lhe parecia uma grotesca mão de gigante sulcada de grossas veias que brotara da terra para agarrar sua casa. Aproximou-se de casa, arrastando os pés.

Claro que também tinha havido as pedras.

Parou novamente, piscando apática para o dia. As pedras. A mãe nunca falava nelas; Carrie nem sabia se ela ainda se lembrava do dia das pedras. Era surpreendente que ela mesma ainda se lembrasse. Era muito pequena. Que idade teria? Três? Quatro? Tinha aquela menina de maiô branco, e aí vieram as pedras. As coisas dentro de casa começaram a voar. Nesse ponto sua memória era subitamente clara e nítida. Era como se estivesse lá o tempo todo, logo abaixe da superfície, esperando por uma espécie de puberdade mental.

Esperando, talvez, por hoje.

 

De: Carne - O Negro Alvorecer da T. C. (revista Esquire, 12 de setembro de 1980) por Jack Gaver:

Estelle Horan vive há doze anos em Panrish, o bonito subúrbio de San Diego. De aspecto, é a típica californiana: usa camisas de estampados vivos e óculos de sol, de lentes cor âmbar; seu cabelo é louro de mechas pretas; dirige um Volkswagen Fórmula V marrom-avermelhado, com decalque no capô e uma flâmula verde de ecologia colada no vidro de trás. Seu marido é um executivo na filial local do Banco da América; seu filho e sua filha, criaturas morenas queimadas de sol, membros da Sun ‘n Fun Crowd (Grupo Sol e Divertimento) da Califórnia do Sul. No pequeno e bem tratado quintal tem um hibachi, e a campainha da porta toca tinindo um verso de “Hey, Jude”.

Mas dentro de si a sra. Horan ainda traz a terra pobre e madrasta de New England e, quando fala em Carrie White, seu rosto adquire um estranho olhar de dor que nada tem de Kerouac da Califórnia do Sul.

"""""""" """""""" Ë claro que era esquisitaconta Estelle Horan acendendo seu segundo cigarro logo após apagar o primeiro. """""""" A família toda era esquisita. Ralph era operário de obra, e o povo dizia que todos os dias levava uma Bíblia e um revólver para o trabalho. A Bíblia era para o intervalo do almoço e do café. O 38 para um possível Anticristo que encontrasse no serviço. Eu mesma me lembro da Bíblia. O revólver,quem sabe? Era um homem grandalhão, de pele cor de oliva, o cabelo aparado como o de um marinheiro. Sempre tinha cara de mau, e não se podia encaná-lo nunca. Seu olhar era tão intenso que chegava a arder. Ninguém tinha coragem de esticar a língua para ele, nem pelas costas, nunca. Tão sinistro era ele.

Faz uma pausa, soprando nuvens de fumaça contra as vigas de madeira fingida que atravessam o teto. Stelle Horan morou na Carlin Street até os vinte anos e lembra nitidamente o incidente das pedras.

¨¨¨¨¨¨¨ """""""" """""""" Às vezes fico imaginando diz elase eu poderia ter sido a causa de tudo aquilo. O quintal delas era vizinho do nosso. A sra. White tinha mandado plantar urna sebe que ainda não estava crescida. Dezenas de vezes ela chamou a atenção de minha mãe sobre o “espetáculo" que eu estava dando no quintal. Ora, meu maiô era perfeitamente decente """""""" recatado até para a concepção de hoje em dia -, nada mais que um simples Jantzen inteiro A sra. White falava sem parar no escândalo que aquilo era para “seu bebê". Minha mãe...... bem, ela procurou ser delicada, mas tem um gênio tão estourado! Eu não sei bem o que Margaret White acabou dizendo para que ela perdesse a calma """""""" acho que me chamou de Meretriz da Babilônia """""""" e minha mãe disse a ela que o nosso quintal era nosso, e que se desse prazer a ela e a mim eu poderia até dançar nua a dança negra do ula-ula. Disse-lhe também que era uma velha de mente suja, com uma lata cheia de vermes no lugar de miolos. Houve uma porção de xingamentos, mas este foi o arremate.

¨¨¨¨¨¨¨¨Na mesma hora quis parar de tomar banhos de sol. Detesto confusão. Me embrulha o estômago. Mas quando a mãe cisma com uma coisa é horrível. Trouxe da cidade um minúsculo biquíni branco. Disse-me para tomar quanto sol quisesse: ¨¨¨¨¨¨- Afinal estamos no nosso quintal, é privativo e tudo mais.

Lembrando-se disto, Stella Horan dá um lese sorriso e apaga o cigarro. ¨¨¨¨¨¨¨Tentei argumentar, disse-lhe que não queria mais confusão, não queria servir de motivo para aquela guerra de sebe. Não levava a nada. Mas tentar convencer a mãe quando ela mete uma idéia na cabeça é a mesma coisa que tentar parar um daqueles caminhões enormes quando perde os freios numa ladeira. Além disso, tinha mais: o meu pavor dos White. Com fanáticos religiosos não se brinca! Bem verdade que Ralph estava morto, mas se Margaret ainda tivesse aquele 38?

¨¨¨¨¨¨ Apesar de tudo, lá estava eu num sábado à tarde, esticada em cima de uma lona no quintal, untada de óleo de bronzear, ouvindo os “Quarenta Melhores” no rádio. Minha mãe detestava esse tipo de programa, sempre gritava umas duas ou três vezes para eu baixar o volume antes que ela enlouquecesse. Mas naquele dia ela mesma aumentou o volume duas vezes. Comecei a me sentir a própria Meretriz da Babilônia.

¨¨¨¨¨¨¨Ninguém no entanto apareceu no quintal vizinho. Nem mesmo a velha, para pendurar a roupa. Ainda tinha um detalhe: ela nunca pendurava roupa de baixo na corda do quintal. Nem mesmo a de Carrie que, na época, só tinha três anos... Era sempre dentro de casa.

¨¨¨¨¨¨¨ Comecei a me sentir mais à vontade. Acho que pensei que Margaret tinha ido levar Carrie para o parque para adorar a Deus em plena natureza ou qualquer coisa assim. De qualquer maneira, em alguns instantes eu me virei de costas, cobri o rosto com o braço e adormeci.

¨¨¨¨¨¨ Quando acordei Carrie estava em pé a meu lado, olhando para meu corpo.

Stella Horan faz uma pausa. Franze o cenho, olha para o espaço. Lá fora passam carros num zumbido constante. Ouço o zunido ininterrupto do meu gravador. Tudo, no entanto parece inconsistente demais, lustroso demais, uma pátina ordinária a cobrir um mundo obscuro um mundo real de pesadelos.

¨¨¨¨¨¨¨ ''"""" ''"""" Ela era uma garotinha tão bonita prossegue acendendo outro cigarro. Vi alguns retratos dela no ginásio, inclusive aquele horrível, meio apagado. em preto e branco, da capa da Newsweek. Olho para eles e só consigo pensar uma coisa: meu Deus, como é possível? O que conseguiu aquela mulher fazer dela? Sinto repulsa e pena. Era tão bonita: faces rosadas, olhos castanhos brilhantes. O cabelo do tom de ouro que mais tarde escurece e fica tom de rato.Um amor é a palavra exata. Um amor; viva e inocente. A doença materna ainda não a atingira muito fundo.

¨¨¨¨¨¨¨ Acordei meio assustada e tentei sorrir. Era difícil pensar o que fazer. Estava mole por causa do sol, a idéia lenta e pegajosa ¨¨¨¨¨¨¨ Oi- fiz eu. Ele usava um vestidinho amarelo, muito engraçadinho, mas horrívelrnente comprido para uma garotinha em pleno verão. Descia-lhe até a canela.

¨¨¨¨¨¨¨ Ela não devolveu o sorriso. Apontou para mim e perguntou:

¨¨¨¨¨¨¨ O que é isto?

Olhei para mim e vi que durante o sono a parte de cima do biquíni tinha

escorregado. Ajeitei-o e disse - São meus seios, Carrie.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Aí ela disse muito solenemente :Queria ter também.

¨¨¨¨¨¨¨ Você tem que esperar, Carrie, respondi eu. Só vão aparecer daqui a uns...sete ou oito anos.

''"""" ''"""" Não vão não , respondeu ela. A mãe disse que menina boazinha não tem Seu olhar era estranho para uma garotinha; meio triste, meio convencida de sua virtude.

¨¨¨¨¨¨¨ Era difícil acreditar, e a primeira coisa que me ocorreu foi logo saltando de minha boca: Eu sou uma menina boazinha, disse eu. E sua mãe, não tem seios também?

Baixou a cabeça e murmurou qualquer coisa que eu não consegui entender. Quando lhe pedi para repetir,olhou para mim desafiadora e disse que a mãe tinha sido má quando a fizera, por isso é que tinha seios. Chamava-os de travesseirimundos, como se fosse uma palavra só.

¨¨¨¨¨¨¨ Não conseguia acreditar no que tinha ouvido. Estava muda de espanto. Não me ocorreu nada que pudesse dizer. Ficamos olhando uma para a outra; a única coisa que eu tinha vontade de fazer era agarrar aquela pobrezinha e fugir com ela.

- Foi aí que Margaret White saiu pela porta dos fundos e nos viu.