Carrie
No caso de Carne White, a única…
No caso de Carne White, a única testemunha de um possível prólogo dos eventos finais em clímax foi Margaret White, mas ela, evidentemente, está morta.
Henry Grayle, diretor da Ewen High School, vinha esperando por ele a semana inteira, mas o pai de Chris Hargensen apenas se apresentou na sexta-feira - um dia depois de Chris ter deixado de cumprir a retenção com a terrível Miss Desjardin.
- Pronto, Miss Fish - dizia ele formalmente ao interfone, embora pudesse ver o homem lá fora através de sua janela, e evidentemente o conhecesse pelos retratos em jornais locais.
- John Hargensen quer falar com o senhor.
- Mande-o entrar, por favor. Ora bolas Fish, para que esta voz de quem está tão impressionada?
Grayle era um incurável entortador de clips, rasgador de guardanapos, enrolador de papeizinhos. Para enfrentar John Hargensen, a luz da legalidade que dominava a cidade, preparara-se com munição pesada, uma caixa inteirinha de clips enormes, colocada bem no meio do mata-borrão que cobria sua mesa.
Hargensen era um homem alto, uma figura imponente, de andar confiante, e traços fisionômicos que revelavam segurança que diziam que aí estava um ser que, no convívio social, era mestre no jogo do “mais-um-passo-à-frente”.
Usava terno marrom com sutis reflexos de verde e ouro entremeados na teia que causava vergonha à fatiota de Gray, obra de carregação de uma loja local. Sua pasta era fina, de couro autêntico, emoldurada por um friso brilhante de aço inoxidável. O sorriso impecável deixava à mostra uma fileira de dentes recapeados e faria derreter o coração de um júri de mulheres, como manteiga em frigideira quente. Seu aperto de mão era firme, cálido, demorado.
- Sr. Grayle. Há tempos venho querendo conhecê-lo.
- É sempre um prazer a presença de pais interessados - disse Grayle com um sorriso seco. - Por isto é que todo mês de outubro temos o dia de audiência para os pais.
- É claro - sorriu Hargensen. - Acredito que o senhor seja um homem ocupado, e eu tenho que estar de volta ao tribunal dentro de quarenta e cinco minutos Vamos ao que interessa?
- Certamente. - Grayle mergulhou os dedos na caixa de clips, e começou a deformar o primeiro. - Presumo que o senhor esteja aqui em virtude da medida disciplinar tomada contra sua filha Chnistine. O senhor deve saber que a escola tem um regulamento, e, sendo o senhor mesmo pessoa que lida com a justiça, deverá compreender que é difícil torcer leis regulamentos e...
Hargensen agitou a mão, impaciente.
- Aparentemente deve estar havendo um engano, sr. Grayle. Estou aqui porque minha
filha foi maltratada fisicamente pela professora de ginástica deste estabelecimento, Miss Rita Desjardin. Insultada também, receio eu. Creio que a professora usou um vocabulário meio violento.
Grayle suspirou por dentro.
- A professora já foi chamada à atenção.
O sorriso de John Hargensen esfriou trinta graus
- Receio que chamar a atenção não será o suficiente. Pelo que ouvi, creio que é o
primeiro ano de magistério desta senhora?
- Realmente. Mas estamos sobremaneira satisfeitos com ela.
- Ao que me parece sua concepção de sobremaneira satisfeitos inclui jogar alunas
contra escaninhos, e praguejar com chofer de caminhão.
Grayle defendeu-se:
- Como advogado o senhor deve saber que este Estado reconhece à escola o direito de in loco parcntis - isto é, além de assumirmos inteira responsabilidade, gozamos de plenos direitos paternos durante as horas de funcionamento da escola. Se o senhor não estiver bem familiarizado com o assunto lhe aconselharia a consultar o caso.
- Estou perfeitamente familiarizado com esta concepção - disse Hargensen. Mas sei também que nenhum destes casos que os senhores gostam tanto de mencionar tem a menor relação com ofensa ou agressão. Existe no entanto outro caso do Distrito Escolar 4 vs. David. Conhece-o, por acaso? Grayle o conhecia muito bem. George Kramer, subdiretor do colégio de 5. D. 14, era um grande parceiro de pôquer.Hoje ele quase não joga mais. Trabalha para uma companhia de seguros depois de ter se metido a cortar o cabelo de um aluno. A escola acabou tendo que pagar sete mil dólares de indenização, ou seja, cerca de mil cada tesourada.
Grayle pegou outro clips.
- Vamos deixar de citar casos um para o outro, sr. Grayle. Somos homens ocupados. Só quero evitar aborrecimentos. Não quero complicações. Minha filha está em casa, e lá permanecerá segunda e terça-feira. Com isto completará seus três dias de suspensão. Perfeito.
Com a mão indicou que esta parte estava encerrada.
(coragem garotão que aí vem um osso duro)
- O que eu quero é o seguinte - continuou Hargensen. -- Primeiro: entradas para o baile para minha filha. Um baile de formatura é importante para ela, e Chris está muito aflita.
Segundo: que não haja renovação de contrato para aquela mulher, a Desjardin. Isto é para satisfação minha. Creio que se eu fosse à justiça, sairia com a demissão da moça no bolso, além de uma altíssima indenização. No entanto, não quero ser vingativo.
- Quer dizer então que se eu não satisfizer as suas exigências a justiça será a minha
alternativa?
- Pelo que eu saiba deverá haver antes uma reunião com o Comitê da Escola, mas
apenas como formalidade. E, como o senhor diz, finalmente acabaremos na justiça.
Meio desagradável para os senhores.
Outro clips.
- Por ofensa e agressão, se não me engano?
- Exatamente.
- Sr. Hargensen, por acaso o senhor sabia, que sua filha e mais dez do seu grupo jogaram toalhas higiênicas numa menina que estava tendo seu primeiro período de menstruação? Menina esta que pensava estar se esvaindo em sangue?
Hargensen franziu ligeiramente o cenho, como se estivesse ouvindo alguém falar de uma sala distante.
- Não acho que isto venha ao caso. Estou me referindo aos atos que se seguiram. .
- Não importa - disse Grayle. - Não importa a que o senhor esteja se referindo. A menina, Carrietta White, foi chamada de “gorda balofa”; “tampa” gritaram para ela, acompanhando os gritos de gestos obscenos. Esta semana toda ela ainda não veio à escola. Será que isto para o senhor tem algum relação com ofensa e agressão? Para mim tem.
- Não pretendo ficar sentado aqui - disse_ Hargensen ouvindo uma série de meias-verdades, e muito menos uma lição de moral de um professorzinho, sr. G rayle. Conheço minha filha muito bem para...
- Olhe aqui. - Grayle apanhou um maço de fichas diciplinares do cesto ao lado do livro de ocorrências; atirou-a sobre a mesa. - Duvido um pouco que o senhor conheça tão bem a filha retratada aqui nestas fichas. Se conhecesse, já tinha chegado à conclusão de que estava mais do que na hora de dar um pulo até aqui. Está na hora também de ela levar uma chamada, antes que venha a causar um dano maior.
- O senhor não está...
- Há quatro anos freqüenta a Ewen High School -foi lendo Grayle, ignorando-o. - ~Está na lista dos formandos de vinte e sete de junho; daqui a um mês. Teste de Q.1., uma média de oitenta e três em cento e quarenta. Mesmo assim, vejo que foi admitida em Oberlin. Creio que alguém - provavelmente o senhor mesmo - deva ter mexido seus pauzinhos ou pauzões. Setenta e quatro retenções, sendo vinte por perseguir e implicar com colegas desajustados. E ela e sua claque achando isto tudo hilariante. Em Chamberlain Junior High foi suspensa uma vez por ter colocado uma bombinha do sapato de uma menina. . . Uma observação na ficha diz Irma Swope, assim se chamava a menina, quase perdeu dedos do pé em conseqüência da pequena travessura. Note sr. Hargensen, estou falando de sua filha. Isto lhe diz coisa?
- Diz sim - respondeu Hargensen, se erguendo.Um leve rubor lhe cobria o rosto - diz que nos veremos no tribunal. E depois do caso liquidado o senhor dará graças a se ainda conseguir ser vendedor de livros, batendo de porta em porta.
Grayle levantou-se irritado e os dois homens se encarando por cima da mesa.
- Que a justiça decida, então - disse Gravle.
Uma centelha de surpresa passou pelo rosto de Hargensen mas Grayle cruzou os dedos, e partiu para o que achava iria ser o golpe final - ou, com o qual, pelo menos, salvar o emprego da Desjardin e fazer este janota filho da puta meter o rabo entre as pernas.
- Ao que me parece o senhor ainda não se deu conta das implicações in loco parentis neste seu caso. A mesma sombrinha que cobre sua filha cobre também Carietta White. E assim que o senhor entrar com processo por ofensa e agressão nós responderemos com outro nos mesmos termos, em favor de Carrietta White.
Hargensen abriu a boca e fechou-a novamente.
- Ora, o senhor não vai querer levar a melhor com um truquezinho barato desses,
seu...
- Rábula? Não é esta a palavra que o senhor estava procurando? - sorriu Grayle furioso. - Creio que não preciso acompanhá-lo. As sanções contra sua filha continuam de pé. Se o senhor quiser levar o caso adiante, é um direito que lhe assiste.
Hargensen atravessou a sala, teso, parou como quem quer dizer mais alguma coisa, depois saiu, tendo que se controlar muito para não bater a porta violentamente.
Grayle respirou aliviado. Não era difícil adivinhar de onde Chris tinha toda aquela sua obstinada arrogância.
Logo depois entrou A. P. Morton.
- Então, como foi?
- O tempo nos dirá, Morty - respondeu Grayle. Olhou com uma careta para o monte de clips retorcidos. - De qualquer maneira custou sete clips. Um bom recorde.
- E ele vai para a justiça?
- Não sei. Ficou meio abalado quando lhe disse que responderíamos com outro processo.
- Acredito que tenha ficado mesmo. - Morton olhou de relance para o telefone em cima da mesa de Grayle.
- Acho que está na hora de comunicarmos esta porcaria ao superintendente.
- Ë - fez Grayle pegando o fone. - Graças a Deus estou com meu seguro de emprego em dia.
- Eu também - confirmou Morton, o amigo leal.
Do livro: The Shadow Exploded (“Apêndice II1"):
Carietta White apresentou o versinho que se segue como trabalho de poesia na sétima série, e foi aprovada. O professor King, que ensinava inglês nesta série, disse:
Não sei por que o guardei. Ela de maneira alguma ficou gravada na minha mente
como aluna excepcional, e menos é esta uma poesia de valor. Era quieta e não me lembro nunca de ter se manifestado em aula, mas havia qualquer coisa nestas linhas que implorava:
Jesus me observa da parede,
O seu rosto fria pedra,
Se ele me ama
Como ela diz,
Por que estou tão infeliz?
As margens do papel onde vinha escrito este versinho eram decoradas com figuras em forma de cruz que pareciam dançar..
Segunda à tarde. Tommy estava praticando beisebol, e foi até a cidade, à Kelly Fruit Company. esperar por ele.
A Kelly era o que havia de mais parecido com um autêntico antro de estudantes do qual se orgulhava a pequena comunidade de Chamberlain, tão irregularmente espalhada. O centro de recreação onde eles se reuniam antes havia sido fechado pelo xerife Doyle depois de ali estourar violenta “boca-de-fumo” A Kelly"s era dirigida por Hubert Kelly. um gordo moroso, tingia o cabelo de preto e vivia se lamentando que o marca-passo eletrônico estava a ponto de eletrocutá-lo.
O local era um misto de mercearia, bar e posto de gasolina .Lá na frente havia uma bomba de gasolina enferrujada, Hubert nunca se dera o trabalho de trocar Ele também vendia cerveja, vinho barato, livros sebosos, e uma grande variedade de cigarros de marcas obscuras.
O bar consistia numa pedra de mármore autêntico, e há quatro ou cinco espécies de cabines para aqueles que, por estarem na fossa ou por falta de amigos, não sabiam onde ir enche a cara. Um velho jogo de bolas, que na terceira jogada sempre virava, lançava luzes que acendiam e apagavam, lá no fundo ao lado da prateleira dos livros sebosos.
Assim que Sue entrou, viu Chris Hargensen. Estava sentada numa das cabines do fundo. Billy Nolan. seu amor na época dava uma olhada no último numero da revista Popular Mechanics. Sue não entendia o que uma garota rica, popular, como Chris, via em Nolan. que parecia um daqueles hippies de 1950,de cabelo gorduroso. Calças enfeitadas de tachas,blusão de couro preto, e um Chevrolet que cuspia por todos os lados.
- Sue! - gritou Chris. - Vem até aqui.
Sue concordou acenado com a mão embora uma certa aversão fosse logo subindo dentro dela. Olhar para Chris era o mesmo que olhar por uma porta entreaberta e ver Carrie encolhida, as mãos cobrindo a cabeça. Como um prenúncio ela achava sua própria hipocrisia (inerente até no aceno da mãe) incompreensível e revoltante Por que ela não a ignorava simplesmente?
- Um chope - pediu ela a Hubie
Hubie tinha um chope gostosíssimo, servido em grandes canecos gelados de 1890. Ela vinha sonhando com uma boa cervejinha enquanto lia seu romance, esperando por Tommy. Mesmo sabendo o mal que a cerveja fazia a sua pele, não conseguia resistir. Não ficou surpresa, no entanto, ao constatar que até já perdera a vontade.
- Como vai o coração, Hubie? - perguntou ela.
- Ë, moçada - disse ele, cortando o excesso de espuma com uma faca de mesa e completando o caneco. E, vocês não entendem nada disto. Hoje de manhã liguei meu barbeador elétrico e uma descarga de cento e dez volts atravessou o marca-passo direto. Vocês é que não conhecem nada disto, não é verdade?
- Acho que não.
- E queira Deus que nunca tenham que passar por isto.
Por quanto tempo ainda este aparelhinho irá me agüentar?Vocês todos vão descobrir logo,
assim que aqueles urbanistas aparecerem por aí para transformar isto em estacionamento. São dez cents.
Sue empurrou a moeda por cima do mármore
- São cinqüenta milhões de volts que passam por este velho encanamento - disse Hubie sombriamente, os olhos fixos no volume dentro do bolsinho do paletó.
Sue deu a volta e escorregou para o lugar vazio ao lado de Chris, que estava excepcionalmente bonita, o cabelo negro presos por uma fita verde e uma blusa justa que lhe acentuava o busto firme e rijo.
- Como vai, Chris?
- Fabulosamente bem - disse esta, um pouco alegre demais. - Sabe da última? Estou
fora do baile. Mas garanto que aquele filho da mãe, o Grayle, vai perder o emprego.
Sue já tinha ouvido a novidade. Todo mundo em Ewe ,aliás, também.
- Ele está sendo processado por meu pai - continuou Chris. Virando-se: - Billeee! vem até aqui dizer oi a Sue.
Ele largou a revista e veio gingando, os polegares enganchados no cinto de exército de alça do lado, os dedos moles pendurados em direção à braguilha recheada de sua Levis enfeitada de tachas. Sue sentiu uma onda de irrealidade envolvê-la, e reprimiu uma vontade louca de cobrir o rosto com as mãos e gargalhar como louca.
- Oi. Sue - disse Billy. Instalou-se ao lado de Chris logo começou a massagear seu ombro. Seu rosto era completamente sem expressão. Era como se estivesse testando a consistência de um peso de carne.
- De qualquer maneira acho que a gente vai acabar com aquele baile - disse Chris. - Em sinal de protesto ou qualquer coisa parecida.
- Você acha isto direito? - Sue estava realmente assustada.
- Não - respondeu Chris, abandonando o assunto. Não sei não. Seu rosto ficou transtornado, com expressão de fúria tão repentina e surpreendente como o redemoinho de um furacão. - Aquela desgraçada da Carrie White! Só queria ela pegasse toda aquela sua santidade e enfiasse pelo cu dentro!
- Daqui a pouco você esquece - disse Sue.
- Se ao menos o resto de vocês tivesse ficado do meu lado... Puxa, Sue, por que você
não ficou? Teríamos apanhado eles pela perna. Nunca imaginei que você se prestasse pra boneco.
Sue sentiu o calor subir-lhe ao rosto.
- Eu não servi de boneco. Quanto às outras, não sei. Aceitei o castigo porque achei que era merecido. O que fizemos foi o fim. E ponto final.
- Ora, merda! Aquela filha da mãe anda por aí dizendo que todo mundo, a não ser ela
e a mãezinha de ouro, vai pro inferno, e você ainda a defende? Devíamos ter pegado aqueles trapos e lhe metido pela goela abaixo.
- Claro que sim. Tchau, Chris. - Foi se levantando
Desta vez foi Chris quem enrubesceu. Numa onda súbita o sangue lhe afluiu ao rosto, como se urna nuvem vermelha lhe tivesse passado por um sol interno.
- Vejam só a Sta. Joana D"Are! E, se eu não me engano, você estava lá arremessando
coisas com a gente.
- Estava - disse Sue. - Mas parei.
- Ora vejam só! - disse Chris admirada. - Quem diria? Leve a sua cerveja junto.
Tenho até medo de tocar nela e ela virar ouro.
Sue mão pegou a cerveja. Deu meia volta e saiu, meio andando, meio cambaleando. Sua revolta era imensa, grande demais para lágrimas ou raiva. Era uma garota que se dava com todo mundo, e esta era sua primeira briga, de fato ou por palavras, desde os puxões de trança no primário. E era a primeira vez na vida que estava defendendo um Princípio ativamente.
Além disso, Chris evidentemente acertara no alvo, exatamente no ponto em que ela era mais vulnerável: ela estava sendo hipócrita, não havia como negá-lo, e, lá no fundo, oculta e odienta, estava a certeza de que uma das razões de ter ido para as aulas de calistenia e exaustivas corridas em volta do ginásio nada tinha de nobreza de caráter. Ela não ia, por nada, perder seu último Baile da Primavera. Por nada mesmo.
Tommy não estava à vista.
Sue foi andando de volta para a escola, o estomago remoendo em desventura. A Miss Fraternidade. Pequena Suzy Santinha. A Boa Menina que apenas O faz com garotos com os quais pretende casar - e com a devida cobertura do suplemento dominical. Duas crianças.
Baile da Primavera. Vestido azul. O buquê de flores guardado a tarde inteira na geladeira. Tommy num Summer branco, calças e sapatos pretos. Pais munidos de Kodaks e Polaroids tirando fotografias no sofá da sala. Dois conjuntos: um de rock e um de música suave. Nada de maus elementos. Apenas futuros membros do Country, futuros residentes em Kleeu Korners.
Finalmente vieram as lágrimas e ela começou a correr.
Do livro: ‘lhe Shadow Exploded (página 60):
O extrato abaixo é tirado de uma carta de Christine Hargensen a Donna Kellogg, que se mudara de Chamberlain para Providence, Rhode lsland, no outono de 1978. Aparentemente uma das poucas amigas intimas de Chris Hargensen. e sua confidente. A carta traz no selo o carimbo de 17 de maio de 1979:
E. assim, fiquei fora do baile. O covarde do meu pai dirá que não vai tomar as
medidas que eles mereciam. Mas isto não vai ficar assim não. Ainda não sei bem o que vou fazer, mas posso lhe garantir. Vai ser aquela surpresa.
Era dia dezessete. Dezessete de maio. Riscou o dia no calendário de seu quarto. Assim que vestiu sua longa camisola branca. Riscava cada dia que passava com uma grossa pena de feltro preta. e achava mostrar, com isto, sua atitude vingativa diante da vida. Na verdade não estava ligando. O que a afligia realmente era saber que amanhã a mãe a obrigaria a voltar para a escola e ela teria que enfrentar a Todas.
Sentou-se ao lado da janela, na pequena cadeira de balanço (comprada e paga com seu próprio dinheiro ), fechou os olhos, varrendo de sua mente todas Elas junto com e tumulto de pensamentos conscientes. Era como se estivesse varrendo o chão. Levante a ponta do tapete do seu subconsciente e varra todo lixo lá pra baixo! Pronto.
Abriu os olhos. Olhou para a escova de cabelos em cima de sua mesa.?
Vergar.
Ela estava erguendo a escova. Era pesada. Era como levantar halteres com braços fracos.Geme.Grunhe.
A escova escorrega até o canto da mesa, e continua passando do ponto em que pela lei da gravidade deveria ter caído, depois fica pendurada como suspensa por um fio invisível. Os olhos de Carrie são apenas estreitas nesgas. As veias pulsam em suas têmporas. Um médico talvez se interessasse em saber o que estava acontecendo a seu corpo neste momento; racionalmente, não fazia o menor sentido, O ritmo da respiração baixara para dezesseis por minuto. A pressão subira a 19/10. As pulsações cardíacas a mais 140 do que a dos astronautas sob a pesada carga G da ascensão. Sua temperatura baixou para 34.6?. Seu corpo parecia estar queimando energia aparentemente vinda de nada e indo para o nada. Um eletroencefalograma teria revelado que as ondas alfa já não eram mais ondas, porém pontudas setas serrilhadas.
Com todo cuidado ela desceu a escova. Ótimo. Na noite anterior deixara-a cair.
66
Fechou os olhos novamente e se acalmou.As funções físicas foram voltando ao
normal; a respiração acelerou até ela ficar quase ofegante. A cadeira de balanço rangia
ligeiramente. Não chegava, entretanto a incomodar. Era até calmante Vai e vem; vai e
vem. Clareia a mente.
- Carrie? -- a voz da mãe. Levemente perturbada. Veio flutuando até ela. ela está recebendo interferências exatamente como um rádio ótimo ,ótimo - Você já fez suas orações. Carrie?
- Estou fazendo agora - gritou ela em resposta
Olhou para a cama em seu cubículo
Vergar.
O peso era enorme. Tremendo. lnsuportável.
A cama estremeceu e depois uma das pontas se ergueu uns dez centímetros. Caiu com um estrondo. Esperou, um sorriso lhe brincar nos lábios, que a mãe
reclamasse, aos gritos, lá de baixo. Não houve nada. Carrie então levantou, foi até a
cama e se enfiou nos lençóis fresquinhos. Sua cabeça doía e ela se sentia zonza, como
sempre depois de uma dessas sessões de treino. Seu coração batia violento e assustado.
Esticou-se, apagou a luz e se ajeitou. Nada de travesseiros. A mãe nunca os
permitira.
Pensou em duendes e outros espíritos.Em feiticeiras (sou feiticeira e a mãe a prostituta do demônio)
atravessando a noite, azedando leite, virando desnatadeiras, queimando colheitas,
enquanto Elas estavam encolhidinhas em suas casas, com o sinal da bruxa rabiscado
em Suas portas.
Fechou os olhos, adormeceu e sonhou com enormes Pedras vivas, varando a noite,
atingindo a mãe e a Elas. Tentavam fugir, em vão, esconder-se. Mas os rochedos não
as ocultavam, as arvores mortas não lhes davam abrigo.
Extraído do livro: My Name is Susan SnelI (Eu Me Chamo Susan Snell) -- Simon &
Schuster: Nova lorque. 1986. paginas I a IV:
Uma coisa ninguém entendeu em relação aos acontecimentos em Chamberlain
naquela noite do baile. A imprensa não entendeu. nem os cientistas da Duke University; Davidi Congress tampouco --- embora The Shadow Exploded seja talvez o único livro razoavelmente decente escrito sobre o assunto -, e muito menos ainda a Comissão White que me usou para bode expiatório.
Existe um fato que é fundamental: éramos crianças.
Carre tinha dezessete anos, eu e Chnis Hargensen também Tommy Ross, dezoito, Billy Nolan (que repetiu a nona série antes de aprender a dar seus golpes durante os exames), dezenove.
A garotada mais velha reage de maneira mais aceitável pela sociedade do que os menores, mas mesmo assim ainda toma decisões erradas, se exagera, se subestima.
Na primeira parte que se segue a esta introdução, quero mostrar estas tendências em mim mesma do melhor modo possível. O assunto, no entanto, que vou discutir fica bem na raiz do meu envolvimento na Noite do Baile, e para eu conseguir limpar meu nome devo começar a recordar cenas que considero particularmente desagradáveis.
Já contei esta história antes, notoriamente diante da Comissão White, que a recebeu incrédula. Em meio ao luto por duzentos mortos, diante da destruição de uma cidade inteira é tão fácil esquecer uma coisa: éramos crianças! Apenas crianças. Crianças, tentando resolver um problema da melhor maneira possível.
- Você deve estar maluca.
Ele olhou para ela, os olhos piscando, sem querer acreditar no que tinha ouvido. Estavam em sua casa, a televisão ligada e esquecida. Sua mãe tinha ido visitar uma amiga em frente. Seu pai estava na oficina, no porão, fazendo uma gaiola de passarinho.
Sue sentia-se pouco à vontade, mas tinha uma expressão decidida.
- E isso que eu quero, Tommy.
- Bem, mas eu não. Puxa, acho que é a coisa mais louca que já ouvi alguém dizer. Dessas que se se propõe em apostas.
Seu rosto se retesou.
- Não diga? Não foi você que outro dia andou aí fazendo grandes discursos? Mas
quando chega a hora de trocar palavras pomposas por ações, aí...
- Espere aí, ora. - Sorria, sem se mostrar ofendido, Eu não disse que não, ou disse?
Ao menos por enquanto ainda não.
- Então você...
- Espere. Espere um pouco. Deixe-me falar. Você quer que eu leve Carrie White para
o Baile da Primavera. Muito bem, isto eu peguei. Mas há uma porção de outras coisas que eu não entendi.
- Vá dizendo. - E ela se inclinou para frente.
- Primeiro, que adiantaria isto? Segundo, por que você acha que ela ia aceitar meu
convite?
- Aceitar, ora. - Ela hesitou. - Você é... todo mundo gosta de você e...
- Tanto eu quanto você sabemos muito bem que Carrie não tem a menor razão para
ligar para pessoas de quem todo mundo gosta.
- Com você ela iria.
- E por quê?
Imprensada, ela se mostrou desafiadora e orgulhosa ao mesmo tempo.
- Eu já vi o jeito dela olhar para você. Ela está caidinha por você. Como, aliás, a
metade das garotas de Ewen.
Ele revirou os olhos.
- Ora, só estou lhe contando - disse Sue na defensiva. - Ela não saberá como negar.
- Vamos que eu acredite em você -- disse ele - e o resto?
- Você quer saber de que adiantaria? Ora... vai fazer com que ela saia da sua casca. Que ela... - perdeu o fio.
- Faça parte das coisas? Ora, Suze. Você mesma não acredita nesta merda.
- Muito bem. Talvez não acredite mesmo. Mas talvez continue a achar que lhe devo
alguma compensação.
- Pelo que houve no vestiário?
- Por muito mais ainda. Talvez, se fosse apenas isto, eu podia esquecer, mas acontece que desde o primário ela vem sendo alvo destas brincadeiras de mau gosto. Não entrei em muitas, mas participei de algumas. Garanto que se fosse da turma dela teria sido pior. Era como se fosse... uma só gargalhada de gozação. Você não sabe como menina pode ser nojenta. Garoto não entende muito destas coisas. Implicavam com Carrie um momento, mas logo esqueciam. As meninas. no entanto. . continuavam, insistiam; nem me lembro mais de quando começou. Se eu Carrie não teria nem mais coragem de mostrar minha cara ao mundo ia procurar buraco enorme para mête-la dentro.
- Vocês eram crianças - disse ele- Crianças não sabem o que fazem. Não têm nem
idéia de que suas reações possam magoar alguém.Não tem, digamos, empatia. Morou?
Sue se esforçava para encontrar palavras que exprimissem a idéia que isto lhe evocava,
pois de repente lhe pareceu fundamental, predominando sobre o incidente do chuveiro como o céu sobre as montanhas.
- Mas dificilmente alguém descobre que suas ações chegam realmente a ferir os outros! As pessoas não vão se tornando melhores, apenas mais espertas. E não e por ficarem mais espertas que param de arrancar as asas das moscas.O que fazem é apenas achar uma justificativa a melhor para fazê-lo. Uma porção de meninas diz que tem pena de Carne White - quase sempre são meninas, o que é até engraçado, mas que nenhuma delas realmente tem idéia do que é ser Carrie White todos os segundos do dia. E no fundo elas estão pouco se importando.
-- E você?
Não sei! Gritou ela. . Mas alguém devia tentar e ter pena de alguma maneira
válida... de uma maneira realmente importasse.
- Muito bem.Eu falo com ela.
-- Fala mesmo? - a afirmação pegou-a de surpresa. Na verdade nunca pensara que ele
fosse concordar
-. Falo. Mas acha, que ela vai dizer não Acho que você me superestima na minha
qualidade de sucesso de bilheteria. Esse negócio de popularidade é uma merda. Você é que cisma com isto.
- Obrigada - disse ela, com voz estranha, era como estivesse agradecendo a um
Inquisidor pela tortura sofrida.
- Adoro você - disse ele.
Sue olhou para ele, surpresa. Era a primeira que vez dizia isto
Do livro: Eu Me Chamo Susan Snell (pagina 6):
Existe uma porção de pessoas homens principalmente - que não se mostram nem um
pouca surpresas por eu ter pedido a Tommy para convidar Carrie para o baile.O que os surpreende é o fato de Tommy ter concordado, o que prova que a mente masculina acredita muito pouco no altruísmo de seu sexo.
Tommy a levou porque me amava, e porque eu havia pedido. Como sabe, pergunta o cético do alto do seu balcão, como sabe que ele a amava? Ora, porque ele me disse. Se o tivesse conhecido, garanto que seria o bastante para o senhor também...
Ele a convidou na quinta-feira depois do almoço, e ficou tão nervoso como qualquer
garotinho na primeira festa de bolo e sorvetinho.
Estava sentada na sua frente na sala de estudos,no quinto tempo de aula, e, ao tocar o sinal, ele foi abrindo caminho por entre a massa de apressados. Na mesa o professor Stephen... um homem alto que estava começando a engordar dobrava distraidamente sua papelada para guarda-la em sua velha pasta marrom.
- Carrie?
- Ahn?
Levantou os olhos do livro encolhendo-se assustada como para se defender de um tapa. O dia estava encoberto e a fileira de luzes fluorescentes embutidas no teto não era especialmente favorável à sua tez clara. Mas pela primeira vez ele viu (também era a primeira vez que olhava a para ela) que ela não tinha nada de repulsivo. Seu rosto era mais para redondo da que para oval, os olhos, de tão escuros, criavam sombras que até pareciam contusões. Seus cabelos de um louro escuro meio duros, puxados para trás num coque que não lhe assentava bem; Os lábios cheios, os dentes brancos. O corpo tinha uma forma mais ou menos indeterminada. Um suéter largão lhe ocultava os seios, deixando perceber apenas uma saliência.A saia, de cores vivas, porém horrível, descia-lhe ate o meio da canela, a moda 1958, num talhe estranho e desajeitado. Os tornozelos eram fortes e bem torneados; ( a tentativa de ocultá-los com meias mescladas três-quartos era bizarra e mal sucedida)
Olhava para ele com uma expressão meio assustada, mas que revelava outra coisa mais. Ele tinha quase certeza do que era. Sue tivera razão, e por um instante ficou cismando se estava lhe fazendo algum bem ou apenas piorando as coisas.
Se você ainda não estiver comprometida, quer ir ao baile comigo?
Ela piscou, e uma coisa estranha aconteceu. Não 1evou mais do que o limiar de um segundo porem ele se lembrava nitidamente, como nos sonhos ou nas sensações do já-visto. Sentiu uma tonteira como se tivesse perdido o controle sobre corpo - a mesma sensação detestável que ele associava com o ponto de vômito resultante do excesso de bebida.
Logo passou.
- Que foi? O que, héin!
Ao menos ela não se zangara. Ele estava preparado para uma descarga de raiva, seguida de um retraimento súbito. Mas ela não se zangou, parecia-lhe apenas impossível captar o que ele havia dito. Estavam agora a sós na sala de estudos, exatamente em meio à vazante de uma leva de alunos e a enchente de outra.
- O Baile da Primavera - disse ele meio abalado -na próxima sexta-feira; sei que é meio tarde. mas...
- Eu não gosto que me preguem peças - disse ela em voz baixa, abaixando a cabeça.
Hesitou um instante, e passou por ele. Parou, voltou-se, e de repente ele viu dignidade em seu rosto, mas tão natural que ela parecia nem ter consciência do fato.
- Vocês acham então que vão me gozar para o resto da vida? Sei muito bem com quem você anda agora.
- Só ando com quem eu quero - disse Tommy toda calma. - Se estou convidando você, também é porque quero. - E no fundo isto era verdade. Se Sue com seu gesto visava reparar algum mal, ela o fazia apenas em segunda mão.
Os alunos do sexto tempo de aula começaram a entrar; alguns olhavam para eles com curiosidade. Dale Ullman disse qualquer coisa para um colega que Tommy não entendeu mas ambos deram risadinhas.
- Vamos andando - disse Tommy, e saíram da sala.
Estavam a meio caminho da Ala Quatro - a sala dele ficava em outra direção - andando um ao lado do como se fosse por acaso, quando Carrie disse em voz imperceptível:
- Eu adoraria. Adoraria mesmo.
Ele tinha percepção bastante para sentir que com isto ela não estava concordando, e novamente ficou em dúvida, já que tinha se metido nessa, disse:
- Pois então venha. Vai dar tudo certo. Vai ser ótimo. Vai ver só.
- Não - respondeu ela, e perdida em pensamentos como estava, poderia até ser considerada bonita. - Vai ser um pesadelo...
- Eu ainda não tenho entradas - continuou ele como se não tivesse ouvido. - Hoje é o último dia que estão à venda.
- Hei, Tommy, você está indo pro lado errado! - gritou Brent Gilliam.
Ela parou.
- Você vai se atrasar.
- Você vem?
- Sua aula - disse ela, aflita. - Olhe sua aula. A campainha já vai tocar.
- Você vem?
- Vou - disse ela zangada, sem ver outra saída. - Você sabia que eu ia. - Com um gesto brusco passou as costas da mão nos olhos.
- Sabia não - disse ele. - Agora sim, sei. - Ela parecia que ia desmaiar.
E aí, cada vez mais inseguro de si, ele tocou sua mão.
Do livro: The Shadow Exploded (páginas 74-76)
Provavelmente nenhum outro aspecto do caso Carrie White tenha sido tão mal entendido, mal interpretado, envolvido em tanto mistério como o papel representado por Thomas Everett Ross, o desafortunado parceiro de Carrie no Baile da Primavera da Ewen High School.
Morton Cratzchbarken disse no ano passado, durante o Simpósio Nacional de Fenômenos Psíquicos, num discurso reconhecidamente sensacionalista, que os dois acontecimentos que mais abalaram o mundo no século vinte foram o assassinato de John F. Kennedy em 1963, e a destruição da cidade de Chambenlain em maio de 1979. Cratzchbarken salienta que ambos os acontecimentos foram provocados pelos meios de comunicação em massa, sendo que ambos também apresentavam um fato bastante assustador: enquanto uma coisa terminava, outra era posta em movimento, irrevogavelmente, para o bem ou para o mal. Comparando, portanto, Thomas Ross representou o papel de um Lee Harvey Oswald - foi ele quem acionou o gatilho de toda a catástrofe.Uma pergunta, no entanto continua sem resposta:Ele o teria feito consciente ou inconscientemente?
Susan Snell, e ela mesmo o admite, ia ser levada ao baile por Ross. Ela afirma ter
sugerido a Ross convidar Carrie para compensar sua atuação no incidente da sala de banho. Os são contrários a este ponto de vista, e a sua frente está George Jerome da Universidade de Harvard,asseveram ser isto uma distorção muito romântica ou então uma mentira deslavada. Jerome argumenta com grande força e eloqüência, aliás, que não é típico de adolescentes desta idade o sentimento de “compensação - especialmente se tratando de uma ofensa a colega que tenha colocada no ostracismo por todas as facções...
- Seria dignificante se pudéssemos crer que a natureza humana do adolescente fosse,
capaz de, com tal gesto, salvar picadas uma pobre gralha, restituindo-lhe e orgulho e a auto- confiança - disse Jerome em um número recente do Atlantic Monthly - mas nós sabemos o que acontece: a pobre gralha não é levantada do chão com ternura por seus companheiros. Pelo contrário, é abandonada rapidamente sem a menor paixão.
É óbvio que Jerome tem toda razão - sobretudo no que diz respeito às galhas - e a sua
eloqüência é, sem dúvida responsável, em grande parte, pela apresentação da teoria sobre o “autor da brincadeira de mau gosto” abordada pela Comissão do caso White. Esta teoria formula a hipótese de que Ross e Christsne Hargensen (veja-se paginas 10 e 18) eram o centro de uma conspiração que visava levar Carrie White para o baile da Primavera e ali acabar de humilhá-la. Alguns teóricos ( sobretudo os que se ocupam de crimes) afirmam ainda que Snell também era membro ativo dessa conspiração. Esta teoria coloca o misterioso Tommy Ross na pior posição possível, de autor da brincadeira de mau gosto, a manobrar deliberadamente uma garota insegura para colocá-la, numa situação tensão extrema.
Já o autor dele não encara o caráter de Tommy sob este aspecto.É uma faceta que foi
muito pouco explorada, aliás por seus detratores, que preferem retrata-lo como um atleta estulto,o líder de uma facção.”Moleque Paspalho” exprime perfeitamente esta concepção de Tommy Ross.
Tommy era na verdade um atleta de excepcional habilidade. Seu esporte preferido era beisebol, e fazia parte da equipe da escola. Dick O"Connell, presidente da Boston Red Sox, declarou que se Ross fosse vivo ter-lhe-iam oferecido uma boa quantia para assinar um contrato.
Mas Ross era, além disso, o aluno conceito A (coisa que dificilmente condiz com a
imagem do “moleque paspalho”), e seus pais diziam que ele decidira que o beisebol devia esperar até que ele acabasse estudos e se formasse em inglês. Gostava também de escrever
poesia e um poema escrito por ele, seis meses antes de sua morte, foi publicado numa
“pequena revista” chamada Everleaf. Este poderá ser encontrado no “Apêndice V”.
Os colegas sobreviventes também o tinham em alta estima, o que é muito importante. Houve apenas doze sobreviventes do sinistro que ficou conhecido pela imprensa popular como A Noite do Baile. Entre os que não estiveram presentes à festa figuram principalmente os alunos impopulares das classes mais altas e das mais baixas. E se estes se recordam de Ross como um sujeito amigo, sempre bem-humorado (muitos deles se referiam a ele como “um cara legal paca”), será que isto não vem afetar a teoria do professor Jerome?
As fichas escolares de Ross - que em virtude de lei não podem ser reproduzidas aqui -, reunidas às recordações dos colegas, aos comentários de parentes, vizinhos e professores, nos fornecem um quadro de uma pessoa extraordinária Este é um fato que se coaduna muito mal com o retrato fornecido por Jerome, do líder negativo, hipócrita, celerado. Ao que parece ele era muito tolerante no que diz respeito a injurias e se impunha a seu grupo conservando para si a independência de poder convidar Carrie. De fato, Thomas Ross parece ter sido uma espécie de raridade: um rapaz socialmente consciente.
Não pretendemos criar um caso em torno de sua santidade. Não é esta a questão. A pesquisa intensiva, no entanto me deu a satisfação de constatar não ter sido ele nenhum poltrão a participar irresponsavelmente da destruição de uma pobre desgraçada.
Ela estava deitada na cama,
(não tenho medo não tenho medo dela)
os olhos cobertos com o braço. Era sábado à noite Se quisesse fazer o vestido que tinha imaginado teria que começar no máximo
(não tenho medo da mãe)
amanhã. Já tinha comprado a fazenda em Westlatest, na loja John"s. A riqueza do veludo pesado a assustara. O preço também a assustara, e tinha ficado intimidada pelo tamanho da loja, pelas freguesas alinhadas que passeavam por lá, examinando os rolos de fazenda. Havia um estranho eco no ar, e lugar era o extremo oposto da loja em Chamberlain, onde costumava comprar suas fazendas.
Ficou intimidada, mas não recuou. Não podia ela, se quisesse, fazer com que todas elas saíssem correndo para a rua? Não podia derrubar manequins, arrancar a instalação elétrica arremessar para o ar rolos de fazenda que se desenrolariam como serpentina? Como Sansão no templo, ela podia fazer chover a destruição sobre todos, se assim o desejasse.
(não tenho medo)
O embrulho estava agora guardado num canto seco de uma prateleira no porão. Esta noite ia trazê-lo para cima.
Abriu os olhos.
Vergar.
A mesa ergueu-se no ar, tremeu por um instante, continuou a subir até chegar quase até o teto. Abaixou-a. Sub novamente e desceu. Para cima e para baixo. Como um elevador.
Quase não estava cansada. Só um pouco. Um pouquinho só. A habilidade que duas semanas atrás, estivera quase perdida florescia em todo esplendor. Progredira num ritmo que era.
Bem, era quase assustador.
E agora, como que intuitivamente - como a consciência da menstruação -, veio-lhe à memória uma dezena de recordações, como se uma barreira mental tivesse sido destruída, deixando jorrar estranhas águas. Eram recordações dela quando menina, difusas e contorcidas, mas apesar disso muito reais. Os quadros dançavam na parede, torneiras esguichavam. A mãe lhe pedindo
(Carrie feche a janela vai chover)
para fazer qualquer coisa e de repente todas as janelas da casa, começaram a bater; os quatro pneus do Volkswagen de Miss Macaferty esvaziaram-se ao mesmo tempo, por terem sido desatarraxadas as válvulas; as pedras...
(!!não não não não!!)
...mas agora não havia como negar esta memória, tampouco a do fluxo menstrual, e a
lembrança desta não estava envolta em neblina, esta não; era áspera e brilhante como raios fulminantes: a garotinha,
(mãe pare mãe não eu não consigo mais respirar oh minha garganta ó mãe desculpe por ter olhado ó minha língua tem sangue na minha boca)
a pobre garotinha,
(gritando: sua desgraçada já sei o que houve sei o que fizeram com você) a pobrezinha deitada na porta do cubículo, metade do corpo para fora, vendo estrelas negras dançando diante de seus olhos, ouvindo um doce e distante zumbido, sentindo a língua inchada, aparecendo entre os dentes, a garganta cingida por uma gargantilha de carne inflada e esfolada onde a mãe a esganara, e depois a mãe voltando, se aproximando dela, brandindo a comprida faca de açougueiro do pai
(vou cortar fora tenho que cortar fora o mal a sordidez os pecados da carne conheço isto tenho os olhos estes seus olhos)
na mão; o rosto da mãe desfigurado, os músculos trabalhando, a baba lhe escorrendo pelo queixo, segurando a Bíblia do pai na outra mão
(você nunca mais há de olhar para aquela sórdida nudez) e alguma coisa vergou, não apenas vergara, mas VERGARA algo enorme, informe, titânico, uma fonte de poder que não era sua nem nunca seria, e qualquer coisa caiu em cima do telhado. A mãe deu um grito. Deixou cair a Bíblia do pai; ótimo. Seguiram-se mais baques e pancadas; a casa começou a jogar a mobília para todos os lados, e a mãe, largando a faca, caindo de joelhos, começou a rezar, os braços erguidos, mal se equilibrando enquanto cadeiras passavam assoviando e, lá em cima, as camas eram viradas de pernas para o ar, a mesa da sala tentava se espremer para passar pela janela, e os olhos da mãe aumentando cada vez mais, se esbugalhando desvairados, o dedo apontando para a garotinha,
(é você é você prole do demônio feiticeiro duende filha do diabo é você que está fazendo isto)
e aí vieram as pedras, e a mãe desmaiara quando o telhado rachara e rebentara como sob as passadas de Deus, e aí...
Aí também ela desmaiou. Depois não se recordava de nada. A mãe não tocara no assunto. A faca do açougueiro estava de volta em sua gaveta. A mãe tinha passado remédio nos enormes lanhos pretos e azuis em seu pescoço e Carrie imaginava se lembrar de ter perguntado a causa das manchas e a mãe apertara os lábios, sem nada responder. Pouco a pouco o incidente foi esquecido. Os olhos da memória apenas se abriam em sonho. Os quadros já não dançavam mais na parede. As janelas não batiam. Carrie nem se recordava de que as coisas tivessem sido diferentes. Ao menos até aquele dia, nunca.
Deitada na cama olhava para o teto. Suava.
- Jantar, Carrie!
- Obrigado,
(não tenho medo)
mãe.
Levantou, amarrou o cabelo com uma fita azul-marinho. Desceu.
Do livro: The Shadow Exploded (página 59):
Até que ponto era o aparente “talento selvático” de Carrie, e o que pensava Margaret White dele com sua exagerada ética cristã? Provavelmente nunca saberemos a resposta. Somos no entanto levados a crer que sua reação tenha sido violentíssima.
-Você nem tocou na torta, Carrie. - A mãe levantou os olhos do folheto que lia
atentamente, enquanto tomava o chá. - Foi feita em casa.
- Me dá espinhas, mãe.
- Suas espinhas são um castigo de Deus. Agora vamos coma a torta.
- Mãe?
- Que é?
Carrie foi em frente:
- Tommy Ross me convidou para o Baile da Primavera na próxima sexta...
No mesmo instante o folheto foi esquecido. A mãe levantou para ela, os olhos arregalados de quem não acredita no q está ouvindo. Suas narinas se dilataram como as de um cava ao ouvir o seco chocalho de uma cascavel.
Carrie engoliu tentando desobstruir a garganta, mas só o
(não tenho medo que nada tenho sim)
conseguiu parcialmente.
- ...é um rapaz muito simpático. Prometeu passar aqui para conhecer a senhora antes
de...
- Não.
- ...vir me apanhar às onze... Eu...
- Não. Não. E não!
- ...aceitei. Por favor, mãe procure entender, eu tenho que começar a... a acompanhar
o mundo. Não sou como você. Sou esquisita... quero dizer, o pessoal acha que sou. E eu não quero ser. Quero tentar ser uma pessoa normal antes que seja tarde...
Margaret White jogou a xícara de chá no rosto de Carrie.
Estava apenas morno, mas se estivesse pelando não teria se calado mais depressa. Ficou sentada, muda, o líquido âmbar a lhe escorrer pelas faces e pelo queixo, pingando na blusa branca, que o absorvia. Era pegajoso e cheirava a canela.
Margaret White ficou sentada, tremendo, o rosto paralisado exceto as narinas que continuavam a se dilatar. De repente jogou a cabeça para trás e bradou, fixando o teto:
- Deus! Deus! Oh Deus!
A cada palavra seu maxilar se trancava violentamente
Carrie ficou sentada, imóvel.,
Margareth levantou e deu a volta a mesa.Seu rosto trazia uma expressão meio louca de
ódio e compaixão.
- Vá para o quarto - disse ela - Vá para o quarto rezar
- Não vou mãe.
- Rapazes .Isto mesmo,são eles que vem logo depois.Primeiro o sangue,depois
eles.Como cães a farejar,babando de dentes arreganhados,tentando descobrir de onde vem aquele cheiro.Aquele ...cheiro.
Estendeu o braço todo para desferir o golpe, e o estalo de sua mão espalmada contra o rosto de Carrie
(meu deus, estou com tanto medo)
soou como o barulho de um cinto de coura a ser estalado no ar.A marca em seu rosto ficou primeiro branca, depois vermelho como sangue.
- A marca - disse Mangareth White. Seus olhos estavam enormes, mas sem expressão. Respirava rapidamente. Inspirando o ar em golfadas. Parecia estar falando consigo mesma, quando a mão em garra desceu sobre o ombro de Carrie, arrancando-a da cadeira.
- Eu já a vi, sim senhora. Se vi. Mas. Eu nunca. O fiz. A não ser por ele. Ele. Me. Possuiu. . . - Fez uma pausa, os olhos caminhando perdidos pelo teto. Carrie ficou aterrada. A mãe parecia estar na agonia de alguma grande revelação que a destruiria.
- Mãe...
- Nos carros. Oh, eu sei para onde eles as levam em seus carros. Fora da cidade. Motéis de beira de estrada. Uísque. Cheiradas. .. isto mesmo, eles sentem o cheiro em vocês! - Sua voz foi se transformando em gritos. Os tendões saltaram-lhe no pescoço, sua cabeça se torceu, num movimento giratório ascendente.
- Mãe, é melhor você parar.
Estas palavras a fizeram voltar a uma realidade meio nebulosa. Seus lábios se crisparam, numa surpresa ingênua, e ela estancou como que tateando por novos pontos de apoio num outro mundo.
- Para o quarto - murmurou ela. - Vá para o quarto rezar.
- Não vou.
A mãe ergueu a mão para novo golpe.
- Não!
A mão ficou parada no alto, imóvel. A mãe olhava para ela, fixamente, como para se certificar de que ainda estava lá e inteira.
De repente a torta se ergueu do descanso em cima da mesa, e se projetou pela sala indo espatifar-se ao lado da porta, a framboesa respingando e escorrendo pela parede.
- Pois eu vou, mãe.
A xícara vazia de chá ergueu-se e passou voando pela cabeça da mãe, indo estilhaçar-se por cima da lareira. Com um grito ela caiu de joelhos, as mãos cobrindo a cabeça.
- Filha do demônio - disse ela gemendo. - Filha do demônio. Prole satânica.
- Levante, mãe.
- Lascívia e libertinagem, a sede da carne...
- Levante!
A voz da mãe falhou, mas ela levantou, as mãos ainda por cima da cabeça, como um prisioneiro de guerra. Seus lábios se moveram. Carrie tinha a impressão de que estivesse recitando o Padre Nosso.
- Não quero lutar com você, mãe - disse Carrie com voz entrecortada, quase sumida. Fez um esforço para se controlar - Só quero que me deixem viver a minha vida Eu... eu não gosto da sua.
Ela parou. horrorizada diante de si mesma. A blasfêmia tinha sido proferida. Mil vezes pior do que os palavrões.
- Feiticeira - sussurrou a mãe. -- Diz no Livro do Senhor: “Não permitirás que a feiticeira sobreviva”. Seu pai serviu ao Senhor...
- Não quero ouvir falar nisto - disse Carrie. Sempre a incomodava ouvir a mãe falar
do pai. - Só quero que entenda que as coisas aqui em casa vão mudar, mãe. - Seus olhos brilhavam. - Seria melhor que elas entendessem isto também.
A mãe, no entanto estava novamente murmurando sozinha.
Insatisfeita, com uma sensação de anticlímax a lhe subir pela garganta, e a desagradável agitação de distúrbio emocional no estômago, desceu ao porão para apanhar a afazenda do vestido.
Aqui era melhor do que lá dentro do quarto. Não havia dúvida. Qualquer coisa era melhor do que aquele cubículo com a luz azul e o deprimente mau cheiro de suor e pecado. Qualquer coisa. Fosse o que fosse.
Parada, o embrulho apertado contra o peito, fechou os olhos, impedindo com isto a entrada da bruxuleante luz da lâmpada do porão, festonada de teia de aranha. Que Tommv Ross não a amava, ela sabia. Era apenas uma estranha forma de compensação, que ela entendia e a que respondia. Desde que começara a raciocinar, vira-se defrontada com a concepção de penitência. Ele havia dito que seria bom - que eles se encarregariam de que assim fosse.Bem,ela encarregaria E seria melhor que os outros não se metessem a inventar novidades. Muito melhor. Ela não sabia se o seu dom lhe tinha sido concedido pelo senhor da luz ou das trevas, e, constatando que isto também lhe era indiferente, foi tomada de uma indescritível.sensação de alívio,como se lhe tivessem tirado das costas um peso que há muito carregava.
Do livro: Eu Me Chamo Susan Snell (pagina 23)
Acabaram até fazendo um filme sobre o tema.Eu o vi em abril do ano passado. Saí do cinema me sentindo mal. Toda vez que ocorre algo de sério nos Estados Unidos a pílula tem que ser dourada, para que o fato possa ser esquecido. No entanto, esquecer o caso Carrie White talvez \seja um erro maior do que muita gente imagina...
Segunda-feira de manhã: O diretor Grayle e seu assistente Peter Morton estavam tomando café no gabinete d Grayle..
- Nenhuma palavra de Hargensen por enquanto? - perguntou Morton, um malicioso sorriso a la John Wavne nos lábios, (com uma ligeira ponta dc medo)
- Nada. Até Christine parou de contar vantagens como o pai iria nos botar na nua. -
Grayle deu uma longa soprada no café.
- Ora, e nem assim você está a dando cambalhotas?
- Você sabia que Carne White vai ao baile?
- Com quem? - perguntou Morton piscando. - Com o Bicanca? - O Bicanca era Freddy Holt, outro desajustado de Ewen. Ele devia pesar uns cinqüenta quilos quando encharcado e um observador despreocupado talvez fosse levado a acreditar que só o nariz já pesava trinta.
- Não - disse Grayle. - Com Tommy Ross.
Morty se engasgou com o café e teve um acesso de tosse.
- Foi exatamente isto que eu senti - disse Grayle.
- E o que é feito da namorada dele? A pequena Snell.
- Pelo que ouvi dizer, foi quem o convenceu a isto.Na verdade, quando falei com ela parecia realmente se sentindo culpada em relação a Carrie. Agora faz parte do Comitê Decoração, feliz da vida como se o Baile de Formatura representasse absolutamente nada para ela.
- Não diga! - respondeu Morty com grande sabedoria
- Quanto a Hargensen, creio que deve ter falado com alguém que lhe disse que, se quiséssemos, poderíamos realmente processá-lo por causa do que houve com Carrie. Acho que já desistiu. Quem me preocupa é a filha.
- Você acha que poderá ocorrer qualquer coisa sexta-feira à noite?
- Não sei. Só sei que Chnis tem um monte de amigos que irão à festa. E ela
atualmente anda com aquele mau elemento, Billy Nolan, que tem todo um jardim zoológico de amigos. Daqueles que têm por profissão meter medo em senhoras grávidas. Pelo que ouço dizer, Chnis faz dele gato e sapato.
- Você receia qualquer coisa em especial?
Grayle fez um gesto de impaciência.
- Em especial? Não. Mas já estou metido nisto há bastante tempo para saber que a
situação não é lá das melhores.Você lembra do jogo dos Stadler em setenta e seis?
Morty aquiesceu. Seriam necessários bem mais do que três anos para fazer esquecer o jogo Ewen x Stadler. Bruce Trevor, como aluno, era um péssimo elemento, mas um fantástico jogador de basquete. O treinador Gaines não gostava dele, mas pela primeira vez em dez anos, graças a Trevor, Ewen ia participar de um torneio. Uma semana antes do jogo decisivo de Ewen contra os Stadler Bobcats, Trevor foi cortado do time. Numa inspeção de rotina nos escaninhos dos alunos fora encontrado um quilo de maconha atrás dos livros de moral e cívica de Trevor. Ewen perdeu o jogo - o resultado do torneio foi de 104 x 48. Ninguém se lembra mais do escore; lembram-se no entanto do tumulto que interrompeu o jogo no quarto tempo, e que, liderado por Bruce Trevor, resultou em quatro entradas no hospital. Uma das vítimas foi o treinador da equipe Stadler, que foi golpeado na cabeça com uma caixa de primeiros socorros.
- Tenho como que um pressentimento - disse Grayle -de que alguém vai aparecer por lá com ovos podres e tomates ou qualquer coisa assim.
- Ë, quem sabe se você não é vidente? - disse Morton.
Do livro: The Shadow Exploded(páginas 92-93):
Hoje em dia é amplamente aceito que o fenômeno de TC seja uma manifestação geneticamente recessiva, porém o oposto de uma doença como a hemofilia que apenas se manifesta em linha masculina. Nesta doença, antigamente conhecida como “Mal do Rei”, o gene é recessivo entre as mulheres, que são portadoras inofensivas. Já os descendentes masculinos são “sangradores”. A doença se manifesta quando um homem afetado pelo mal casa com uma mulher portadora do gene recessivo.Se, desta união, houver um filho homem, ele poderá ser hemofílico; se for mulher, ela será apenas portadora E importante frisar que o gene da hemofilia poderá ser recessivo no homem como parte de sua constituição genética. Se ele, no entanto casar com uma mulher portadora deste mesmo gene maligno o resultado será uma descendência hemofílica na linha masculina.
No caso das famílias reais, onde era comum o casamento dos diferentes membros entre si,
a probabilidade de reprodução deste gene, uma vez que penetrasse na árvore genealógica, altíssima - daí o nome “Mal do Rei”. No princípio deste século a hemofilia também se manifestou em larga escala entre os Apalaches, sendo comumente observada entre culturas o é normal o incesto e o casamento entre primos de primeiro grau.
Já no caso da TC, o homem ao que parece é o portador podendo o gene da TC ser recessivo na mulher, mas sendo dominante apenas na mulher. Ralph White ao que tudo indica era portador deste gene. Por mero acaso, Margareth Brigham também era portadora deste gene maligno, mas podemos ter plena certeza de que este era recessivo, já que nunca foi encontrada nenhuma referência a qualquer poder telecinético semelhante ao da filha. A vida de Sadie Cochran, avó de Margareth Brigham, está atualmente sendo investigada - pois se o padrão dominante/recessivo prevalece na TC como na hemofilia, Sadie Cochran pode ter sido TC dominante.
Se do casamento dos White tivesse nascido um filho homem, este seria outro portador do gene. As probabilidades este gene morrer com ele teriam sido muito grandes, já que do lado de Margareth nem do de Ralph White existiam primos que pela idade pudessem vir a casar com este descendente rico de linha masculina. Também as possibilidades de encontrar e casar com outra mulher de gene TC seriam muito remotas. Nenhum dos grupos ocupados com este problema conseguiu no entanto até hoje isolar o gene.
À luz do holocausto do Maine, certamente ninguém duvidará de que o isolamento deste gene deverá se tornar a. prioridade número um da medicina. O gene hemofílico ou gene H é responsável por uma prole masculina com falta de glóbulos vermelhos. Já o gene telecinético ou gene TC produz Marias Tifóides, capazes de, pela força de vontade, destruírem...
Quarta-feita à tarde.
Susan e mais quatorze colegas - o Comitê de Decoração do Baile da Primavera - trabalhavam num enorme mural que na sexta-feira à noite deveria ficar pendurado atrás dos palanques geminados. O tema era Primavera em Veneza. Quem será que escolhe estes temas cafonas?, pensava Sue. Já estudava em Ewen há quatro anos, tinha ido a dois bailes, e ainda não descobrira. Bolas, por que afinal tinha que haver um tema? Por que não faziam simplesmente. um arrasta e pronto? George Chizmar, o aluno de maior pendor artístico da escola, fizera um pequeno esboço a giz de gôndolas flutuando num canal ao pôr do sol, e o gondoleiro, com um enorme chapéu de palha, encostado na cana do leme; uma orgia de cor-de-rosa, laranja e vermelho cobrindo o céu e o mar. Era bonito; não havia a menor dúvida. George havia redesenhado o esboço numa enorme tela de quatro por seis, numerando as diversas seções de acordo com as tonalidades do giz. Agora o Comitê estava pacientemente colorindo tudo, como crianças engatinhando por cima de uma página enorme de um gigantesco álbum de colorir. Apesar de tudo, pensou Sue, olhando para suas mãos e braços, sujos de giz cor-de-rosa, este ia ser o baile mais bonito de todos.
Acocorada a seu lado, Helen Shyres se esticou, gemendo ao endireitar as costas. Com as costas da mão afastou uma mecha de cabelo da testa, deixando uma marca cor-de-rosa.
- Gostaria de saber como foi que você conseguiu me meter nisto.
- Vocês não querem que fique tudo bonito? - disse Sue imitando Miss Geer, a presidente do Comitê de Decoração (muito apropriadamente chamada de Miss Bigode).
- Sim, mas por que não no Comitê das Bebidas ou das Diversões? Qualquer coisa onde tivesse que usar mais a cabeça.
O intelecto, essa é que é minha área. Além disso você... -Engoliu as palavras.
- Nem vai - completou Susan dando de ombros e pegando novamente o giz, depois de uma violenta cãibra na mão. - Não vou mesmo, mas apesar disto quero que fique tudo bonito. - Acanhada, acrescentou: - Tommy vai.