Carrie

Stephen King · Capítulo 2 de 9

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Carrie

Por um instante ela parou de olhos…

Por um instante ela parou de olhos arregalados, sem acre ditar no que via. Depois abriu a boca e soltou um berro. Foi o som mais horrendo que já ouvi em toda minha vida. Parecia o grito de um enorme jacaré no pântano. Ela só berrava. De ódio. Ódio cego, insano. Seu rosto ficou vermelho como a lataria de um carro de bombeiro, fechou os punhos e bradou aos céus. Pensei que ela fosse ter um colapso. Seu rosto, contorcido, era o de um monstro.

¨¨¨¨¨¨ Pensei que Carne fosse desmaiar ou morrer na hora. Ficou com a respiração presa, branca como queijo de Minas.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨ CAAAARRRRIEEEEEE!berrou a mãe.

¨¨¨¨¨¨¨ Ergui-me de um salto e berrei também: Não grite com ela desse jeito! A senhora devia até ter vergonha! Qualquer besteira dessas ;não me lembro direito. Carrie começou a voltar, parou, deu mais uns passos e pouco depois de atravessar do nosso quintal para o seu, virou-se e me olhou com um olhar... horrível, meu Deus. Nem sei como. De ódio, medo... e desgraça. Como se a própria vida tivesse desmoronado em cima dela, e isto tudo na idade de três anos.

¨¨¨¨¨¨¨Minha mãe apareceu na porta dos fundos, o desespero no rosto, ao ver a criança. E Margaret. . . continuava a gritar, falando em sem-vergonha, prostituta, que os pecados dos pais recairão sobre os filhos até a décima geração. A língua ressecada me colava na boca.

¨¨¨¨¨¨ Por um instante só, Carne ficou indecisa, oscilando entre os dois quintais, quando

Margaret White olhou para o alto, e. (juro) por Deus. uivou ao céu. Depois começou a...a se ferir, se flagelar. Arranhava as faces e o pescoço; fazendo lanhos e vergões vermelhos. Rasgou a roupa.

¨¨¨¨¨¨¨Mãe! , gritou Carne, e correu para ela.

¨¨¨¨¨¨¨A sra. White se agachou como um sapo, os braços abertos. Pensei que fosse esmagá-la. Dei um grito. A mulher estava de dentes arreganhados. Ria e a baba lhe escorria pelo queixo. Eu estava enojada. Meu Deus, que nojo sentia!

¨¨¨¨¨¨¨Ela a agarrou nos braços e entraram. Desliguei o rádio para poder ouvir. Entendia algumas palavras, nem todas. Também não era necessário entender tudo para saber o que se passava. Rezas, soluços, guinchos. Ruídos loucos. E Margaret mandando a menininha para o quartinho, para rezar. Esta, chorando e gritando, pedindo desculpas, dizendo que tinha esquecido. Depois, nada. Eu e minha mãe ficamos olhando uma para a outra. Nunca vi mamãe com aspecto tão arrasado nem quando papai morreu. Dizia apenas: - A criança - mas nada. Entramos.

Ela levanta, vai até a janela, urna mulher bonita com vestido amarelo de verão, sem costas.

¨¨¨¨¨¨¨ - ¨¨¨¨¨¨¨ É como se eu estivesse revivendo tudo mais uma vez diz ela voltando-se para mim. ¨¨¨¨¨¨ Estou agitadíssirna ¨¨¨¨¨¨Da uma risada curta, apoiando os cotovelos na palma da mão.

¨¨¨¨¨¨¨ Ela era tão bonita! Por estes retratos não da nem para ter idéia.

Carros passam lá fora, indo e vindo, e eu. sentado, esperando que ela prossiga. Ela me faz lembrar um desportista preste a dar um salto de vara, olhando em dúvida se não é alto demais.

¨¨¨¨¨¨¨ Minha mãe preparou um chá quente para nós, bem forte, com leite, (igual ao que costumava fazer quando nas minhas peraltices alguém me empurrava para dentro) de um pé de urze, ou quando caia da bicicleta. Estava horrível, mas tomamos assim mesmo, sentadas no nicho da cozinha, uma em frente à outra. Ela usava um vestido velho de andar em casa, a bainha despencada atrás, e eu, meu duas-peças de Meretriz da Babilônia. Quis chorar, mas a situação era real demais para se chorar; aquilo não era filme. Certa vez em Nova York vi um velho bêbado levando pela mão uma menininha de vestido azul. A menina estava de nariz sangrando de tanto chorar. O velho tinha papeira, seu pescoço parecia uma câmara de ar. No meio da testa, um galo vermelho e um comprido cordão branco no blusão de sarja azul. Todo mundo passava rápido, passava e voltava, porque assim em breve não perceberia mais a dupla. Isto era real também.

''"""" Ia contar o fato a minha mãe, estava abrindo a boca para falar, quando aconteceu aquilo. . . que é justamente o que você quer que eu lhe conte. Houve um grande baque surdo lá fora que fez os copos tinirem no armário de louça. Era um ruído sólido e grosso, uma sensação como se alguém tivesse empurrado um cofre de ferro através de um telhado, por exemplo.

Acende novo cigarro e solta rápidas baforadas.

¨¨¨¨¨¨¨Fui até a janela, olhei para fora, não vi nada. Quando ia me virar, caiu mais alguma coisa, que brilhava ao sol. Por um instante pensei que fosse uma grande bola de vidro. Bateu no canto do telhado da casa dos White, despedaçou-se. Não era vidro coisa alguma. Era um enorme bloco de gelo ia me virar para mostrar a mamãe, quando começara cair. de repente, numa saraivada.

¨¨¨¨¨¨Caíam no telhado da casa dos White, no jardim da frente e no quintal. lá fora na porta do celeiro.Era um puxado de telhado de zinco, e a primeira pedra a atingí-lo ecoou como sino de igreja. Eu e minha mãe gritávamos agarradas urna a outra como meninas durante um temporal.

¨¨¨¨¨¨¨ Depois parou. O silêncio na casa era agora completo.Via-se o gelo derretido pingar

das telhas de ardósia com a luz do sol. Um grande bloco de gelo ficou preso entre o telhado

e a chaminé. Ofuscava tanto que minha vista doía ao olhar para ele.

¨¨¨¨¨¨ Um grande bloco de gelo ficou preso entre o telhado e a minha mãe estava começando a perguntar o que tinha sido aquilo, quando Margaret deu um berro Ouvimos nitidamente. Talvez tenha até sido pior do que antes, pois agora havia terror em sua voz. Logo depois começou o barulho de coisas batendo e quebrando, como se ela estivesse jogando tudo que era prato e panela na menina.

¨¨¨¨¨¨A porta dos fundos abriu e fechou violentamente. Ninguém saiu. Os gritos se repetiam. Mamãe me pediu para chamar a polícia, mas eu não consegui sair do lugar. O sr. Kirk apareceu no quintal com a mulher, para olhar. Os Smiths vieram também. Em pouco tempo todos os que estavam dentro de casa saíram, mesmo a velha sra. Warwick, lá do fim do quarteirão, que era surda de um ouvido.

¨¨¨¨¨¨Coisas começaram a ser quebradas, aos estrondos, tinindo. Copos e garrafas e nem sei mais o quê. A janela do lado foi rebentada e uma mesa de cozinha atravessou-a, ficando pendurada. Juro por Deus. Era uma mesa grande de mogno que arrancou a esquadria. Devia pesar uns cento e cinqüenta quilos. Como podia uma mulher , mesmo que fosse grande e forte,jogar aquilo?

¨¨¨¨¨¨A senhora está insinuando alguma coisa?

¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨ Não; apenas contando insiste ela . de repente agitada. Não estou lhe pedindo para acreditar.

Respira fundo e continua calmamente:

¨¨¨¨¨¨ Durante uns cinco minutos não aconteceu nada. A água pingava das calhas da casa dos White. O geIo cobria todo o gramado e ia se derretendo rapidamente.

Dá uma risada curta, nervosa, e apaga o cigarro.

¨¨¨¨¨¨E por que não? Era agosto.

 

Distraída volta até o sofá, depois muda de direção.

¨¨¨¨¨¨Aí vieram as pedras. Caídas do céu, em plena luz do dia. Desciam assobiando e silvando como bombas. Minha mãe deu um grito: ¨¨¨¨¨¨ Pelo amor de Deus! ¨¨¨¨¨¨e cobriu a cabeça com as mãos. Eu não conseguia me mexer. Fiquei olhando tudo. Imóvel. Que importava. de qualquer maneira só estavam caindo na propriedade dos White.

¨¨¨¨¨¨Uma delas atingiu um condutor, arrancou-o e jogou no gramado. Outras fizeram rombos no telhado, indo cair no sótão. Cada vez que uma pedra atingia o telhado, havia um estrondo e nuvens de poeira se levantavam. As que caiam no chão faziam estremecer tudo. Sentia-se o baque sob os pés.

¨¨¨¨¨¨Nossa louça tinia, a cristaleira estremeceu, a xícara de chá de minha mãe caiu no chão e quebrou.

¨¨¨¨¨¨As pedras abriram grandes crateras no quintal da casa dos White. Ela teve que alugar um caminhão na cidade para levá-las, e Jerry Smith, lá do final da rua, pagou um dólar ao motorista para tirar uma lasca. Mandou examiná-la e lhe disseram que era granito comum.

¨¨¨¨¨¨Uma das últimas a cair acertou uma pequena mesa no quintal e a despedaçou. Mas nada, absolutamente nada que estivesse fora da propriedade delas foi atingido.

Faz uma pausa. volta-se da janela, olha para mim. o rosto pálido de recordações. Uma de suas mãos brinca perdida com o cabelo de corte displicentemente elegante.

¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨ Pouca coisa apareceu nos jornais. Quando Billy Harrís chegou era ele quem colhia as noticias de Chamberlain ¨¨¨¨¨¨o telhado já havia sido consertado, e quando lhe contaram que as pedras o tinham atravessado achou que estávamos brincando.

¨¨¨¨¨¨Ninguém quer acreditar, nem mesmo hoje. O Senhor e todos os outros que lerem o que está escrevendo custariam de dar uma gargalhada me chamando de mais uma dessas malucas que pegou sol demais na cabeça. Mas o fato é que aconteceu. Uma porção de gente viu e foi tão real quanto o velho bêbado com a garotinha de nariz sangrando. E tem outra coisa, que ninguém pode desprezar com uma simples gargalhada: o número de mortos é grande demais...E estes não se restringem apenas à propriedade dos White.

Stella Horan sorri, sem achar a menor graça, e continua:

¨¨¨¨¨¨Ralph White tinha seguro e, por ocasião de sua morte,a sra. White recebeu um bom dinheiro...,indenização em dobro. Deixou a casa segurada também, mas ela nunca recebeu um tostão pelo estrago. O dano foi causado por forças da natureza, por um ato de Deus. Justiça poética, heín?

Dá mais uma risada, não por ter achado graça...

 

Encontrado escrito num dos cadernos de Carrie White da Ewen Consolidated High School:

Todos devem ter adivinhado/que ela não será abençoada/ até que veja finalmente que em nada é diferente...

 

Carrie entrou e fechou a porta atrás de si. A luz do dia desapareceu, substituída por sombras escuras, pelo frio e o cheiro sufocante de talco. O único ruído era o tique-taque do cuco da floresta Negra, na sala. A mãe tinha ganhado o relógio numa rifa. Certa vez, na sexta série. Carrie decidira perguntar à mãe se rifa não era pecado, mas não tivera coragem.

Atravessou o corredor, pendurou o casaco no armário. Uma figura luminosa por cima dos cabides retratava um Cristo tétrico, pairando com olhar furioso por sobre uma família reunida à mesa da cozinha. Abaixo, a legenda (também luminosa):

O Hóspede Invisível.

Entrou na sala, ficou em pé no meio do tapete desbotado, quase esgarçado. Fechou os olhos, e ficou observando os pequeninos pontos de luz passarem em disparada na escuridão. Uma dor de cabeça maçante latejava-lhe as têmporas.

Só.

A mãe trabalhava no centro da cidade, na tinturaria Blue Ribbon, que passava e dobrava automaticamente. Tinha este emprego desde que Carrie tinha cinco anos, quando o dinheiro recebido pelo seguro de acidente do pai foi escasseando. Seu horário era das sete e trinta da manhã até às quatro da tarde. Todos na tinturaria eram hereges, especialmente o sr. Elton Mott, o supervisor. A mãe lhe havia dito isto uma porção de vezes. Dizia também que Satã havia reservado, no inferno, um canto especial para Elt (assim era chamado na tinturaria).

Só.

Abriu os olhos. Na sala havia duas cadeiras de espaldar reto. Havia ainda uma mesa de costura com uma lâmpada, onde Carrie às vezes fazia seus vestidos à noitinha, enquanto a mãe tecia paninhos de mesa e falava sobre O Futuro. O cuco da floresta Negra ficava na parede dos fundos.

Havia muitos quadros religiosos, mas Carrie gostava mais do que ficava na parede por cima de sua cadeira. Representava Jesus guiando seus cordeiros por uma colina verde e macia como o campo de golfe do Riverside. Havia outros menos tranqüilos: Jesus expulsando os mercenários do templo; Moisés arremessando suas Tábuas contra os adoradores do bezerro de ouro; Tomé, o incrédulo, colocando sua mão nas feridas de Cristo (meu Deus, que fascínio e que pesadelos este quadro lhe havia causado em criança! ); a arca de Noé flutuando em meio aos pecadores agonizantes que se afogavam; Lot e sua mulher fugindo do grande incêndio de Sodoma e Gomorra.

Numa pequena mesa de madeira havia urna lâmpada e uma pilha de folhetos. O primeiro mostrava um pecador (condição óbvia diante da expressão de agonia em seu rosto) tentando se esconder, rastejando para debaixo de uma grande pedra. E um título berrante: Nem a pedra o escondera NAQUELE DIA!

Mas o que dominava o quarto era um grande crucifixo de gesso na parede dos fundos, com metro e meio de altura. Tinha sido encomendado especialmente em St. Louis. O Cristo nele sacrificado trazia estampado no tosto um grotesco ricto de dor, os músculos retesados, a boca escancarada, retorcida em lamentos. Sua coroa de espinhos fazia o sangue escorrer rubro pela fronte e têmporas Os olhos revirados em expressão medieval de agonia. As mãos igualmente encharcadas de sangue, os pés pregados num pequeno apoio de gesso.Também esta figura havia provocado em Carrie pesadelos sem fim, nos quais o Cristo mutilado a caçava pelos corredores do sonho, segurando pregos e martelo, pedindo-lhe para que ela pegasse sua cruz e o seguisse. Recentemente estes sonhos haviam se transformado em algo menos compreensível, porém mais sinistro ainda. A intenção Dele não parecia ser assassina-la mas algo muito pior ainda.

Só.

A dor nas pernas, na barriga e no ovário haviam diminuído um pouco. Não mais pensava que fosse se esvair em sangue. Menstruação era a palavra que, de repente, lhe pareceu lógica e inevitável. Eram os seus Dias do Mês. Soltou urna risada estranha, assustada, em meio ao silêncio solene daquela sala. Parecia até nome de programa de auditório: Também você poderá ganhar uma viagem às Bermudas com todas as despesas pagas a seus Dias do Mês. Como a lembrança das pedras, também o conhecimento da menstruação parecia ter estado sempre lá, bloqueado, mas latente.

Voltou-se e subiu a escada a passos pesados O piso do banheiro era de madeira,quase branco de tanto esfregar (limpeza vem logo depois de devoção), e uma banheira apoiada e patas com garras. Manchas de ferrugem escorriam ao longo esmalte, pelo registro cromado. Não havia chuveiro. A mãe dizia que chuveiros eram pecaminosos.

Carrie entrou, abriu o armário das toalhas e começou procurar resoluta, porém com muito cuidado, sem deixar nada fora do lugar, pois a mãe tinha um olho...

A caixa azul estava lá no fundo atrás das toalhas velhas, já fora de uso. Num dos lados havia a silhueta meio apaga de uma mulher usando um longo vestido de gaze.

Tirou um Modess e examinou-o curiosa. Certa vez numa esquina tinha usado um desses em público para tirar o excesso de batom que trazia escondido no bolso. Agora se lembrava (ou imaginava lembrar) dos olhares estranhos, surpresos. Enrubesceu violentamente. Elas lhe tinham dito. De vermelha, ficou branca de ódio.

Foi para seu minúsculo quarto. Aí havia mais um sem número de gravuras religiosas, porém com mais cordeiros e menos cenas de cólera e justiça. Uma flâmula da escola esta presa por cima de sua penteadeira. Em cima do móvel havia uma Bíblia e um Cristo em gesso fosforescente.

Mudou de roupa... Primeiro tirou a blusa, depois a odiada saia que lhe descia abaixo dos joelhos, a combinação, cinta, as calças, as ligas, as meias. Com olhar de ódio e infelicidade contemplou aquele monte de roupas pesadonas, os botões e os elásticos. Na biblioteca da escola havia uma pilha de Seventeen velhas (figurinos para adolescentes) que muitas vezes folheava, uma expressão idiota de fingida naturalidade no rosto. Aqueles modelos pareciam tão simples e fáceis, tão suave aquelas fabulosas sainhas curtas, as saias-calça, a roupa de baixo estampada, cheia de preguinhas. Claro que fácil era uma das palavras prediletas da mãe (Carrie sabia perfeitamente qual seria a opinião dela a respeito) para descrever os manequins. Sabia também que ela se sentiria muito envergonhada. Nua, má, maculada pelo pecado do exibicionismo, a brisa lhe soprando lascívia nas pernas, excitante, sensual. Carrie sabia que elas também saberiam o que ela estava sentindo. Sempre sabiam. Elas sempre encontravam um jeito de embaraça-la, de empurra-la de volta para sua ridícula posição de palhaço. Era o jeito delas.

Podia, sabia perfeitamente que podia ser

(o quê)

em qualquer outro lugar. Tinha cintura grossa, só porque se sentia tão infeliz, vazia , entediada, que a única maneira de preencher esse vazio, de satisfazer esta ânsia, era comer, comer sem parar ''"""" mas também não era tão gorda assim. Sua estrutura química não lhe permitia ir além de um certo ponto. Achava até que suas pernas eram realmente bonitas, quase tão bonitas quanto às de Sue Snell ou Vicky Hanscom.

Podia ser

(o que o que meu Deus)

podia parar da comer chocolate, e as espinhas melhorariam. Sempre tinham melhorado. Podia ajeitar o cabelo. Comprar saias-calça e colantes verdes e azuis. Podia fazer sainhas e vestidos pelos moldes Simplicity. Não custavam mais que uma passagem de ônibus ou de trem. Podia, podia ser, podia estar...

Viva.

Desenganchou o sutiã de algodão grosso e deixou-o cair no chão. Seus seios eram de

um branco leitoso, rijos, lisos. Os bicos ligeiramente cor de café. Correu as mãos por cima

deles; um estremecimento atravessou-lhe o corpo. Era o mal, a ruindade. A mãe havia lhe

dito que existia Qualquer Coisa. E esta Coisa era perigosa, antiqüíssima inexprimivelmente

má. Fazia a gente se sentir Fraca. Cuidado, dissera-lhe a mãe. Ela vem à noite. Fará você se

lembrar do mal que se passa em carros estacionados por aí, nos hotéis em beira de

estrada.

Agora eram apenas nove e vinte da manhã, mas Carrie achava que a Coisa tinha vindo

até ela. Passou a mão pelos seios

(travesseirimundos)

novamente; a pele fresca, suave, mas os bicos duros e quentes, e ao beliscar um deles se sentiu Fraca, dissolvendo.Isto mesmo era a Coisa.

Suas calças estavam manchadas de sangue.

De repente sentiu necessidade de chorar, de gritar, de arrancar esta Coisa de dentro de

si,inteira,palpitante. esmagá-la, matá-la.

O Modess que Miss Desjardin lhe havia colocado já estava todo mole. Mudou-o cuidadosamente, consciente de sua ruindade, sua e deles, do ódio que sentia deles e de si mesma. Só mãe era boa. A mãe, que havia lutado com o Homem Negro e o vencera. Carrie o havia visto em sonhos. Com uma vassoura a mãe o expulsara pela porta da frente, e o Homem Negro tinha fugido pela noite adentro, subindo a Carlin Street, seus pés em casco arrancando fagulhas do cimento.

Sua mãe conseguira arrancar a Coisa, e era pura.

Carrie a odiava.

Vislumbrou seu rosto num pequeno espelho barato d moldura de plástico verde, pendurado atrás da porta, e que servia apenas para ela poder se pentear.

Tinha ódio de seu rosto, daquela cara estúpida, bovina idiota; dos olhos sem expressão, das espinhas brilhantes, de montes de cravos. Como o odiava!

Sua imagem de repente se partiu num estalido argênteo de vidro. O espelho estilhaçou-se a seus pés, deixando apenas a moldura de plástico verde a olhar para ela como olho de cego.

 

Do Dicionário de Fenômenos Psíquicos

De Ogílvie:

Telecinética é a capacidade de mover objetos ou modificá-los pela força da mente. Este fenômeno se manifesta durante crises ou tensões nervosas, havendo provas de carros que foram levitados libertando corpos presos por baixo deles, ou de escombros de prédios que ruíram, etc.

O fenômeno é freqüentemente confundido com a obra dos poltergeists, que são duendes folgazões. Deve-se lembrar ainda que os poltergeists são seres astrais de realidade questionável enquanto a telecinética é considerada uma função empírica da mente, possivelmente de natureza eletroquímica...

 

Depois de terem se amado, ao ajeitar lentamente sua roupa no banco dos fundos do Ford 1963 de Tommy Ross, Sue Snell sentiu seus pensamentos se voltarem para Carrie White.

Era uma sexta-feira à noite e Tommy (que olhava pensativo pela janela, as calças ainda arreadas __um quadro um tanto cômico mas de uma estranha ternura) a havia convidado para jogar boliche. Clamo que era apenas urna desculpa mutuamente aceita, pois desde o inicio eles só pensavam em fornicação.

Desde outubro ela vinha saindo em companhia de Tommy com certa freqüência (agora era maio ),e eram amantes há apenas duas semanas. Sete vezes, alíás, corrigiu ela. Esta noite havia sido a sétima. Até aí ainda não tinha havido foguetório, nem bandas de musica tocando hinos cívicos. mas já tinha sido um pouco melhor.

A primeira vez tinha doído pra diabo. Helen Shyres e Jeanne Gault. suas amigas. já o haviam feito antes e ambas haviam lhe garantido que a dor era apenas rnomentânea __como uma injeção de penicilina __ e que depois tudo era um mar de rosas. Mas, para Sue. a primeira vez foi como se lhe introduzissem um cabo de enxada. Com urna risada meio amarela, Tommy lhe havia confessado, depois, que ele também tinha colocado a borracha errado.

Esta noite, pela segunda vez, ela começara a sentir algum prazer, mas logo tudo terminara. Tommy tinha agüentado o mais que pôde, mas aí simplesmente..., acabara. Era muita fricção para pouco calor,

Depois ela se sentiu deprimida e melancólica. e neste estado de espírito seu pensamento se voltou para Carrie. Uma onda de remorso se abateu sobre ela, (num momento em que estava sem qualquer defesa emocional, e quando Tommy , que estivera contemplando Bríckard Hill, se virou. ela estava chorando.

__Hei __ fez ele alarmado. __ O que houve? __Abraçou-a desajeitado. Nada não. __ disse ela ainda chorando. __ Não é com você. Eu hoje fiz um troço meio

chato. Estava me lembrando agora.

__ alisou carinhosamente sua nuca. Que foi"? __

E assim, de repente, ela se viu mergulhada no incidente que ocorrera aquela manhã, mal acreditando estar ouvindo sua própria voz. Constatou que, honestamente falando, a principal razão em ter deixado Tommy possuí-la era

(amor? paixão"? pouco importava pois o resultado dava

na mesma)

e agora assumir uma posição desta __ de participante de uma sórdida brincadeira numa sala de banho dificilmente era o método acertado para fisgar um sujeito E Tommy era sem dúvida Popular. Como ela mesma tivesse sido Popular a vida inteira, parecia até que estava escrito que iria encontrar e se apaixonar por alguém igualmente Popular. Era quase certo eles serem escolhidos Rei e Rainha do Baile da Primavera da escola; as classes mais altas até já os haviam eleito para Dupla do Ano. Eles haviam se tornado uma estrela fixa no firmamento instável dos relacionamentos escolares, aceitos por todos como Romeu e Julieta. Com certo ódio reconheceu de repente que em cada ginásio de brancos, em todos os subúrbios da América do Norte, havia uma dupla igual a eles.

Tendo conseguido algo pelo qual sempre ansiara __ uma certa posição, segurança e status - constatou que isto lhe trazia, no entanto, urna certa sensação de mal-estar, como a de ter uma irmã de pele mais escura. Não era bem assim que ela tinha imaginado as coisas. Havia algo sinistro preso àquele seu cálido círculo de luz, como por exemplo ela ter se deixado futricar

(também não é preciso usar estes termos sim desta vez é) apenas porque ele era Popular. Ou porque faziam boa figura juntos e que, ao olhar para sua imagem na vitrina, ela pudesse pensar: Lá vai um belo casal. Tinha quase certeza

(ou ao menos a esperança)

de que não era tão fraca nem tão submissa para satisfazer docilmente as complacentes expectativas de pais. irmãos e até dela mesma. Mas havia o caso do chuveiro no qual mergulhara com um prazer selvagem. A palavra que ela realmente estava evitando era Conformar-se, no infinitivo, pois lhe trazia à mente imagens acabrunhadoras de cabelos enrolados, de tardes sem fim passadas diante de uma tábua de passar, assistindo a novelas de televisão, enquanto o maridinho estava fora levando vilões à bancarrota num escritório anônimo qualquer. Ou tornar-se membro da Associação de Pais e Professores, e mais tarde sócio do Country Club, quando o ordenado tivesse um zero a mais. Ou as pílulas sem conta, em redondas caixinhas amarelas, para não perder seu manequim de menina-moça antes que fosse realmente necessário; lutando contra a intrusão de pequenos seres estranhos, repulsivos, que sujavam fraldas e berravam pedindo socorro às duas da manhã. De lutar com decoro desesperador para manter os negros afastados de Kleen Korners, de ficar em pé ombro a ombro com Terri Smith (Miss Flor de Batata 1975) e Vicki Jones (vice-presidente da Liga Feminina), armada de letreiros e petições, de sorrisos encantadores com uma ponta de desespero.

Carrie, era aquela maldita Carrie a culpada de tudo isto. Talvez antes ela tivesse ouvido o ruído de passos distantes rondarem seu lugar ao sol, mas hoje escutando sua própria história, sórdida e torpe, viu a silhueta real de todas estas coisas, os olhos amarelos, brilhando como lanternas no escuro.

Seu vestido para o baile da escola já estava comprado. Era azul. Era bonito.

__Tem razão __ disse ele quando ela terminou __também não gostei. Nem parece coisa sua. __ Seu rosto estava grave e ela sentiu uma nesga de terror. Depois ele sorriu -seu sorriso alegre __e o sentimento sombrio recuou um pouco.

__Certa vez dei um chute num garoto que estava derrotado no chão. Alguma vez lhe contei?

Sacudiu a cabeça negativamente.

__Foi. __ Esfregou o nariz, recordando, tez um ruído com a bochecha, um tique, como na hora em que lhe confessou ter colocado a borracha errado.

__O garoto se chamava Dannv Patrick. Quando estávamos no terceiro ano ele um dia me deu uma tremenda surra. Tinha ódio dele, porém medo também. Fiquei de tocaia. Sabe como, não é?

Ela não sabia, mas disse que sim de qualquer maneira.

__Finalmente, um ou dois anos mais tarde ele escolheu o garoto errado. Pete Taber. Era um garoto miúdo mas musculoso. Danny engrossou com ele por causa de bolas de gude ou sei lá o quê, e Peter acabou se enfurecendo, com toda razão, e Danny apanhou que não foi brincadeira. Foi no pátio da escola. Danny caiu, bateu com a cabeça e desmaiou. Todos fugiram. Pensávamos que ele poderia estar morto. Corri também, mas primeiro lhe acertei um bom pontapé nas costas. Mais tarde me arrependi, me senti mal, tremendamente mal. Você vai pedir desculpas a ela?

A pergunta pegou Sue desprevenida e tudo que ela conseguiu fazer foi perguntar indecisa:

__Você pediu?

__ Ora, claro que não! Tinha mais que fazer do que gastar meu tempo com retratações. Mas seu caso é completamente diferente, Susie.

__ É? Por quê?