Carrie
À noite do baile
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Vestiu o vestido pela primeira vez, no seu quarto, na manhã de 27 de maio. Tinha comprado um sutiã especial para usar com ele, que erguia o busto adequadamente (não que ela na verdade precisasse disto) e deixava a metade de cima descoberta. Dava-lhe uma sensação estranha de mistério e sonho, um misto de vergonha e excitação.
O vestido ia quase até o chão. A saia era folgada, o corpete justo, a fazenda de uma riqueza e toque que não eram familiares a sua pele, acostumada apenas ao contato de lã ou algodão.
O caimento parecia bom melhoraria ainda com os sapatos novos. Calçou-os, prendeu a gargantilha, e foi até a janela. Na vidraça conseguia ver apenas uma vaga e irritante imagem de si mesma, mas tudo parecia perfeito. Mais tarde talvez pudesse.
A porta se abriu de repente com um pequeno estalo do trinco. Carne virou-se e olhou para a mãe.
Estava vestida para o trabalho, de suéter branco e bolsa preta numa das mãos. Na outra, segurava a Bíblia.
Se encararam.
Quase inconscientemente, Carrie sentiu suas costas se empertigarem e ficou reta em pé na réstea de sol primaveril que entrava pela janela.
- Vermelho - murmurou a mãe. - tinha que ser vermelho.
Carrie não respondeu.
- Estou vendo seus travesseirinhos,todo mundo vai vê-los também.Vão olhar para o seu corpo.O livro diz...
- Isto são meus seios mãe.Toda mulher tem um.
- Tire este vestido - disse a mãe.
- Não.
Tire, Carrie.Vamos lá pra baixo queimá-lo no incinerador juntas, e depois rezar pedindo perdão.Vamos fazer penitência. - Seus olhos começaram a arder com aquele desprendido fervor que se apossava dela nas ocasiões em que punham sua fé a prova. - Eu não vou trabalhar e nem você vai a escola, vamos ficar em casa rezando.Pedindo um sinal divino.Vamos nos ajoelhar e pedir o fogo de Pentecostes
-Não, mãe.
A mãe levantou a mão e beliscou seu próprio rosto, deixando uma marca vermelha
Olhou para Carrie à procura uma reação, mas não vendo nenhuma, fechou a mão em forma de garra e arrancou sangue da face. Gemendo, oscilava nos canhares. Seus olhos ardiam de exaltação
- Deixe de se ferir, mãe Não vai me fazer desistir de qualquer maneira. A mãe soltou um grito. Com a mão direita fechada, aplicou violento murro na bota,
fazendo-a sangrar.Molhou dedos no sangue, ficou olhando para eles perdida em pensamentos, e manchou a capa da Bíblia.
- Lavada no Sangue do cordeiro - murmurou ela - Muitas vezes. Muitas vezes eu e
ele...
- Me deixa, mãe.
Olhou para Carrie, Os olhos brilhando Havia uma horrível expressão de ira e justiça
estampada em seu rosto.
- De Deus não se zomba - murmurou ela. - Pode estar certa de que seu pecado há de
revela-la. Queime-o, Carrie. Arranque este vermelho satânico de seu corpo e queime - oi.
Queime-o! Queime-o! Queime-o!
A porta abriu-se sozinha, violentamente.
- Vá embora, mãe.
A mãe sorriu. Sua boca ensangüentada tornava o riso grotesco, deformava-o. - Como Jezabel caiu da torre, assim seja com você disse ela. - E Os cães vieram
lamber-lhe o sangue. Esta escrito na Bíblia. Está...
Seus pés começaram a deslizar no chão - ela olhou eles estupefata. Era como se a
madeira tivesse se transformado em gelo.
- Pare com isto! gritou.
Já estava no corredor. Passando pelo umbral da porta segurou-se nele por um instante. Seus dedos foram soltos, aparentemente por nada.
- Gosto de você, mãe - disse Carrie com firmeza - Sinto muito.
Imaginou a porta se fechando, e foi exatamente o que ela fez, movida como por uma leve brisa. Cuidadosamente e para não feri-la, soltou as mãos mentais com as quais empurrara a mãe.
Um minuto mais tarde. Margaret esmurrava a porta. Carne manteve-a fechada. os lábios tremendo.
- Haverá um julgamento! - esbravejou Margareth White. - Eu lavo as minhas mãos. Tentei em vão.
- Pilatos disse o mesmo respondeu Carrie.
A mãe foi embora. Logo depois. Carrie viu-a descer a entrada, atravessar a rua a caminho do trabalho.
- Mãe - disse ela baixinho, encostan-do a testa na vidraça.
Do livro: The Shadow Exploded ( pagina 129)
Antes de passar a uma análise mais profunda da Noite do Baile em si, seria bom fazermos um resumo do que sabemos de Carrie White como pessoa.
Sabemos que era vítima do fanatismo de sua mãe. Sabemos também que possuía forças telecinéticas latentes, do que costumamos chamar de TC. Sabemos que estas forças, chamadas de “talento selvático”, são um traço hereditário, provocado por um gene que se, presente e via de regra recessivo. Suspeitamos que a faculdade TC seja de natureza glandular.Sabemos outrossim que em criança, quando colocada em situação de extrema tensão e culpabilidade, ela deu pelo menos uma demonstração desta sua faculdade. Sabemos que uma segunda situação de extrema tensão e culpabilidade foi provocada por um incidente desagradável no vestiário da escola .Segundo a teoria de William G, Throneberry e Julia Givens de Berkeley, a manifestação da faculdade TC a esta altura foi provocada por fatores psicológicos (isto é, a reação das colegas e da própria Carne a sua primeira menstruação). e por fatores fisiológicos (ou seja, o advento da puberdade ).
Finalmente sabemos que na Noite do Baile surgiu uma terceira situação de tensão, que veio causar os terríveis acontecimentos que agora passaremos a discutir. Começaremos com...
(não estou nervosa nem um pouco nervosa)
Tommy viera mais cedo lhe trazendo as flores que agora prendia no vestido, na altura do ombro. Evidentemente não tinha mamãe que fizesse isso por ela, que desse uma olhada para ver se estavam na posição certa. Sua mãe estava trancada na capela há duas horas, rezando histericamente, Sua voz crescia e decrescia em ciclos incoerentes, assustadores.
(sinto muito mãe, mas não consigo me arrepender)
Tendo acabado de ajeitá-las, deixou pender os braço ficou parada por um instante imóvel, de olhos fechados.Na casa não havia nenhum espelho onde se pudesse ver inteira
(vaidade, vaidade tudo é vaidade)
mas achava que devia estar bem. Tinha que estar. Ela...
Abriu os olhos novamente. O cuco da floresta Negra ganho na rifa, marcava sete e dez.
(ele deverá estar aqui dentro de vinte minutos)
Estaria?
Ou talvez tudo não passasse de uma brincadeira primorosamente arquitetada, o último lance, o golpe final. Deixá-la sentada ali a noite inteira em seu vestido de veludo molhado, com corte princesa, mangas julieta e saia reta - com as rosas-chá presas no ombro esquerdo.
Do outro quarto, agora em crescendo:
- ...na terra bendita! Sabemos que Teu Olho Vela, hediondo Olho de três lóbulos, e o som dos negros clarins. Nós nos arrependemos sinceramente...
Carrie não acreditava que alguém pudesse avaliar a enorme coragem que fora preciso para se reconciliar com isto, para expor às terríveis possibilidades que nesta noite poderiam concretizar. Levar o bolo, realmente, não seria a pior delas. Bem no íntimo até pensava que seria melhor se...
(não pare com isto)
Claro que seria mais simples ficar em casa com a mãe. Mais seguro. Sabia perfeitamente o que Elas pensavam da mãe. Na verdade, a mãe podia ser fanática e excêntrica, mas ao menos era previsível. E a casa também era. Nunca ela ai encontraria um bando de garotas gritando e jogando coisas nela.
E se ele não viesse, se ela tirasse o corpo fora e desistisse? Seu curso acabaria em um mês. E depois? Uma vida subterrânea, rastejante, sustentada pela mãe, passando o dia inteiro diante da televisão da sra. Garrison toda vezi que ela a convidasse (a sra. Garnison tinha oitenta e seis anos ), assistindo a competições esportivas ou novelas, indo até a cidade tomar uma cerveja maltada depois do jantar lá no Kelly Fruit, numa hora em que estivesse deserto, engordando cada vez mais, perdendo todas as esperanças, perdendo até a capacidade de pensar.
Não. Pelo amor de Deus. Não.
(por favor, faça com que tudo dê certo).
- . . . Protegei-nos Dele com o casco fendido. que está sempre à espera nos becos, nos estacionamentos de motéis, ó Salvador ...
Sete e vinte e cinco.
Nervosa, sem pensar no que estava fazendo, começou a erguer coisas com a mente e repô-las de novo exatamente como a mulher impaciente que, à espera de alguém num restaurante, fica dobrando e desdobrando o guardanapo. Conseguiu agüentar uma dúzia de objetos no ar ao mesmo tempo, sem o menor indício de cansaço ou dor de cabeça. Ficou esperando que a força esmorecesse, mas continuou em plena forma. Na noite passada. a caminho de casa, fizera com que um carro ali estacionado
(por favor, faça com que isto não seja brincadeira).
andasse uns sete metros ao longo do meio-fio, pela rua principal, sem que isto lhe custasse o menor esforço. Os ociosos em frente ao Palácio da Justiça arregalaram os olhos, a ponto de quase lhe saltarem das órbitas. e Carrie também, só que no íntimo, sorria.
O cuco saiu de sua casa e cantou uma vez. Sete e trinta.
Começou a tomar um pouco de cautela. A tensão que o uso desta força provocava em seu coração, pulmões e termostato interno era tremenda. Acreditava que seria bem possível seu coração vir a estourar, literalmente. Era como se estivesse dentro de outro corpo que a forçasse a correr, correr e correr cada vez mais. Não era o seu corpo que pagaria as custas, seria o outro. Aos poucos, foi tomando consciência de que sua força era bem semelhante à dos faquires indianos que passeiam sobre carvões em brasa, enfiam agulhas dentre dos olhos, se enterram alegremente por até seis semanas. A mente sobre a matéria, seja em que forma for, é um terrível sangradouro dos recursos do corpo.
Sete e trinta e dois.
(ele não vem)
(não pense nisto, água que se controla não ferve,ele vem sim)
(não, não vem não, esta lá com os amigos zombando de você e dai a pouco passarão
num daqueles carros velozes barulhentos rindo buzinando e berrando).
Derrotada, começou a erguer e descer a maquina de costura, balançando-a no ar em arcos cada vez maiores.
- . . . e protegei-nos das filhas rebeldes imbuídas dos caprichos do Malvado...
- Ca/e a boca! - gritou Carrie de repente.
Por um momento houve um silêncio de espanto, depois a cantilena recomeçou.
Sete e trinta e três
Não vem.
(então vou destruir a casa)
A idéia lhe ocorreu clara e simples. Primeiro a máquina de costura, atravessando a parede da sala O sofá pela janela Mesas, cadeiras, livros e folhetos tudo voando. Os encanamentos arrancados ainda esguichando, como artérias arrancadas da carne viva. Até o telhado, se tivesse forças para tanto, as ripas se partindo, explodindo na noite como um bando de pombos assustados.
Luzes faiscavam garridas pela janela.
Outros carros já tinham passado, fazendo seu coração bater acelerado, mas este estava diminuindo a marcha.
(oh)
Correu ate a janela, incapaz de se conter era ele, Tommy. Acabara de saltar do carro, e mesmo a luz da lâmpada da rua era alinhado, lépido, quase, estalando. A estranha idéia lhe deu vontade de rir.
A mãe tinha parado de rezar.
Pegou o leve chale de seda das costas da cadeira, enrolou os ombros nus. Mordeu os lábios, tocou o cabelo, teria dado a alma em troca de um espelho. A campainha na entrada gritava estridente.
Ela se obrigou a esperar pelo segundo toque, controlando o tremor das mãos. Depois foi andando lentamente, com um farfalhar sedoso.
Abriu a porta e lá estava ele, quase ofuscante em seu Summer branco e calças pretas.
Entreolharam-se em silêncio.
Carne sentiu que seu coração se partiria se ele dissesse uma palavra errada. Se risse, ela morreria. Sentiu - na carne, de verdade - toda sua desgraçada vida se estreitar, se reduzir a um ponto que poderia ser o início ou o fim de um raio que se abria.
Finalmente, perdida, ela disse:
- Então, gostou?
- Você está linda! - disse ele.
E estava mesmo.
Do livro: The Shadow Exp/oded (pagina 131)
Enquanto Os convidados do Baile da Primavera de Ewen estavam se reunindo na escola ou fazendo sua boquinha de antes-da-festa, Christine Hargensen e William Nolan tinham se encontrado num quarto de uma taberna nos limites da cidade, no The Cavalier. Sabemos que eles já vinham se encontrando) há tempos; isto consta nos relatórios da Comissão White. O que não sabemos é se os planos estavam completa e irrevogavelmente traçados, ou se eles iam se desenrolando quase a capricho...
- Já está na hora? - perguntou ela no escuro.
- Não - disse ele olhando para o relógio.
Através do assoalho de madeira soava vagamente a musica da vitrola tocando She’s got to be a Saint, de Ray Price. Pensando bem, The Cavalier não tinha trocado de discos desde a primeira vez que estivera ali há dois anos, com identidade falsa. Evidente que naquela época estivera lá em baixo na sala de danças e não aqui num dos “reservados de Sam Deveaux
O cigarro aceso de Billy piscava no escuro como o olho inquieto do demônio. Ficou olhando introspectiva. Desde segunda-feira não consentira em dormir com ele, quando lhe prometera que junto com seus amigos de oficina lhe ajudaria a mexer os pauzinhos em relação a Carrie White, se esta realmente ousasse ir à festa com Tommy Ross. Mas eles já tinham estado aí antes, já tinham tido umas boas e quentes sessões de carícias amorosas que ela chamava de amor à escocesa e ele, na sua qualidade de acertar infalivelmente no vulgar de ávidas corcoveadas.
Pretendia fazê-lo esperar até que ele realmente tivesse feito alguma coisa
(mas claro que ele tinha feito ele apanhara o sangue)
mas foi perdendo o controle da situação e começou a ficar inquieta Se ela não se tivesse entregue na segunda, ele a tinha tomado a força.
Billy não era seu primeiro amante, mas era o primeiro que não dançava conforme ela assobiava. Os outros tinham sido hábeis bonecos de rosto liso sem espinhas, pais bem relacionados, membros do Country Club. Dirigiam seus próprios Volkswagens, Javelins ou Dodge Chargers Iam à missa, freqüentavam o Boston College. No outono usavam blusas das fraternidades, e no verão camisas de malha justas com letras vivas. Fumavam uma boa dose de maconha, e contavam coisas cômicas que lhes aconteciam sob seu efeito. A principio a tratavam com condescendente camaradagem. e sempre acabavam correndo atrás dela ofegantes, como cachorros no cio. Depois de terem corrido bastante tempo, ela acabava permitindo que a levassem para a cama. Muitas vezes ficava deitada impassiva debaixo deles, sem ajudar nem impedir, esperando que terminasse. Mais tarde, enfocando o incidente como um elo isolado em sua memória, ela alcançava solitária seu próprio clímax.
Encontrara Billy Nolan depois de uma batida à procura de drogas num apartamento em Portland. Quatro estudantes, inclusive seu par daquela noite, tinham sido apanhados. Chris e as outras garotas foram fichadas por freqüentarem o local.Com discreta eficiência o pai de Chris se encarregou do caso e perguntou-lhe se ela imaginava o que seria de sua reputação e de sua clientela se a filha tivesse que responder a processo por uso de droga. Ela lhe respondeu que duvidava muito que afetasse qualquer uma das duas, fato que levou o pai a tirar-lhe o carro
Uma semana mais tarde, ao sair da escola, à tarde, Billy lhe ofereceu carona para levá-la em casa. Aceitou.
Apesar de toda sua vulgaridade, alguma coisa nele a excitava e agora, deitada na modorra desta cama ilícita (sentindo no entanto o despertar da excitação e um temor prazeroso), pensou que talvez fosse seu carro - ao menos a principio.
Não tinha a menor semelhança com os carros anônimos, rotulados de fábricas dos outros namorados, com janelas sem ventilação, volantes dobráveis, um cheiro meio desagradável de estofo de plástico e líquido de limpar pára-brisa.
O carro de Billy era velho, escuro, sinistro. O pára-brisa leitoso nas bordas, como se a catarata estivesse começando a se formar nele.Os assentos soltos e desen-ganchados.Garrafas de cerveja rolavam batendo umas nas outras no fundo do carro, e ela tinha que ajeitar os pés ao lado de uma enorme caixa de ferramentas sem tampa, toda suja de graxa. As ferramentas eram das mais diversas marcas, o que fazia com que suspeitasse serem elas roubadas. O carro cheirava a óleo e gasolina. Através do fundo esburacado, soava alto e alegre o barulho dos canos de descarga abertos. Um fila de mostradores pendia do painel onde estava escrito ampères, pressão do óleo, tacom (seja lá o que for). As rodas traseiras estavam empenadas. e o capô parecia estar apontando para a estrada.
E, evidentemente, ele andava como louco.
Na terceira vez que a levou de carona para casa, um dos pneus carecas da frente estourou a cem quilômetros por hora. Cantando, o carro foi derrapando. ela gritou alto de repente, certa de sua morte. Uma imagem de seu corpo rebentado e ensangüentado, atirado contra a base de um poste da rede telefônica como um amarrado de trapos, passou-lhe pela mente, numa perfeita fotografia de jornaleco. Xingando, Billy jogava o volante empoeirado de um lado para outro.
Quando o carro finalmente parou, e ela saltou, Os joelhos ameaçando dobrar a cada passo, viu no asfalto os dois metros de marca em espiral de borracha queimada.
Billy já estava abrindo a mala do carro, arrancando o macaco e murmurando consigo mesmo. Nenhum fio de cabelo estava fora do lugar.
Ele lhe entregou um cigarro pendurado no canto da boca dizendo:
- Traga aquela caixa de ferramentas, bem.
Ficou pasma. Sua boca se abriu e fechou duas vezes como um peixe fora d"água, antes que conseguisse dizer qualquer coisa
- Eu. . . eu não! Você quase me m... você quase... seu cretino, maluco! Além disto está suja!
Virou-se e olhou para ela decidido:
- Ou você traz ou amanhã à noite não levo você àquela merda de luta.
- Detesto lutas! - Ela nunca havia assistido a nenhuma mas sua raiva e o desaforo exigiam uma resposta categórica. Seus namorados anteriores a levavam para apresentações de rock, que ela abominava. Sempre acabava ficando perto de alguém que não tinha tomado banho há semanas.
Billy deu de ombros, voltou para a frente do carro começou a suspendê-lo.
Chris apanhou a caixa sujando de graxa seu suéter novinho. Ele deu um grunhido sem ao menos se virar. Sua camisa tinha saído da calça, as costas eram bronzeadas, musculosa pele lisa. Ficou fascinada, a língua se arrepiou no canto boca. Ajudou-lhe a mudar a roda, ficando com as mãos negras.O carro balançava ameaçador em cima do macaco, e o estepe estava com a lona aparecendo em dois lugares.
Quando o serviço estava terminado e ela instalada novamente no carro, todo o suéter e a saia vermelha, que tinham custado uma nota, estavam sujos de graxa.
- Se você acha que... - começou ela, quando ele sentou ao volante.
Ele se ajeitou e a beijou, as mãos apertando-a e subindo da cintura aos seios. Cheirava a Brylcream e suor, com hálito de tabaco. Por fim ela se afastou, olhando para sua roupa agora ainda mais suja, com manchas de óleo e poeira. Duzentas pratas, que agora só serviam para a lata de lixo. Sua excitação era tão intensa que chegava a doer.
- Como é que você vai explicar isto? - perguntou beijando-a novamente. Sentia como se sua boca estivesse rindo.
- Me apalpa - disse ela a seu ouvido. - Me apalpa toda. Me lambuza.
Ele obedeceu. Uma meia de náilon estourou como boca escancarada. Sua saia que já era curta foi puxada violentamente até acima da cintura. As mãos ávidas não tinham requinte algum. Alguma coisa - talvez a repentina proximidade morte - fez com que subitamente se sacudisse em violento orgasmo. Ela tinha entrado em luta com ele.
- Quinze para as oito - disse ele, sentando-se na cama. Acendeu a luz e começou a se vestir. Seu corpo ainda a fascinava. Lembrou-se da noite de sexta-feira, e do que tinha sentido. Ele tinha.
(não)
Mais tarde haveria tempo de sobra para isto, quando talvez pudesse lhe trazer mais alguma coisa do que a excitação inútil. Jogou as pernas para fora da cama e vestiu as calcinhas rendadas.
- Talvez a idéia não seja das melhores - disse ela. sem saber se estava testando a ele ou a si própria. - Talvez seja melhor voltarmos para a cama e...
- A idéia é boa sim - respondeu ele, e uma sombra de humor lhe passou pelo rosto. - Sangue de porco para uma porca.
O quê?
- Nada não. Vamos. Se arruma.
Ela obedeceu. Ao saírem pela escada dos fundos, sentiu em suas entranhas uma enorme excitação crescendo para desabrochar ávida como alva rainha-da-noite.
Do livro: Eu Me Chamo Susan Snell (página 45):
Sabe de uma coisa, eu francamente não me sinto tão desolada por tudo que aconteceu como as pessoas acham que deveria estar. Não que elas o digam francamente, mas são elas que sempre vêm me dizer o quanto ficaram desoladas. E isto geralmente acontece pouco antes de me pedirem um autógrafo. Mas acham que eu devia estar desolada, me lamentando, usando luto, bebendo demais, apelando para drogas. Vivem dizendo coisas como:
- Ë horrível, mas sabe o que aconteceu a ela. . . - e blá, blá, blá.
Estou desolada, sinto muito, desculpa, a palavrinha ‘sorrv’, em suma, é o lenitivo para as emoções humanas.É o que se diz ao derrubar uma xícara de café, ou quando, em companhia de garotas, a bola escapa no jogo de boliche. No entanto a compaixão autêntica é tão rara quanto a verdadeira amizade. Não sinto mais a morte de Tommy. Para mim parece mais um sonho de anos atrás. Vocês podem achar que eu seja cruel, mas já correu tanta água depois daquela Noite do Baile. Também não sinto ter comparecido diante da ComissãoWhite. Disse verdade. . .ao menos até onde sabia.
Por Carrie, sim, por ela eu sinto muito, e tenho pena.
Vocês sabem, ela foi esquecida, transformaram-na numa espécie de símbolo e esqueceram que ela era um ser humano tão real quanto você que está lendo estas linhas, com esperanças e sonhos e todo aquele blá, blá, blá. Não adianta nada disto agora, creio eu. Nada poderá modificar a pessoa em que a imprensa a transformou. Mas ela era, sim, e como doía. Doia mais do que qualquer de nós talvez possa ter imaginado.
Por ela eu sinto, e espero que a festa tenha sido boa para ela. Boa, formidável, fabulosa, encantadora, até que o horror começou...
Tommy levou o carro ate o estacionamento ao lado ala nova da escola, deixou o motor rodar mais uns segundos desligou-o. Carrie estava sentada a seu lado, o chale de seda nos ombros. De repente lhe pareceu como se estivesse vivendo num sonho de intenções ocultas, e que só agora tomava conhecimento deste fato. O que estava ela fazendo? Tinha deixado a mãe sozinha em casa!
- Nervosa? - perguntou ele, e Carrie se assustou.
- É.
Tommy riu e saltou. Ela ia abrindo a porta, quando se adiantou e abriu para ela saltar.
- Não fique nervosa. Você é como Galatéa.
- Como quem?
- Galatéa. Lemos sobre ela na aula do professor Ever Transformou-se de criada numa
bela moça que ninguém re nheceu.
Ficou pensativa.
- Mas eu quero que elas me reconheçam - disse fin~ mente.
- E tem toda razão. Vamos lá.
George Dawson e Frieda Jason estavam de pé ao lado máquina de coca-cola.
Frieda, uma misturada de tule cor de laranja, mais parecia uma tuba. Donna Thibodeau,
na porta recolhia entradas com David Bracken. Ambos eram membros da Sociedade
Honorífica Nacional, e da Gestapo pessoal de Miss Geer; usavam calças brancas e
blusões vermelhos - as cores da escola. Tina Blake e Norma Watson distribuíam
programas e instalavam as pessoas de acordo com o mapa. Ambas estavam de preto, e
deviam se achar muito alinhadas pensou Carrie, embora a seus olhos parecessem
vendedoras de cigarros dos velhos filmes de gangster.
Quando Tom e Carrie entraram, todos se viraram, e por um instante houve um silêncio forçado e constrangedor. Carne sentiu uma vontade louca de molhar seus lábios, mas se controlou. Depois George Dawson disse:
- Meu Deus, que cara mais esquisita, Ross.
Tommy sorriu.
- Quando foi que você desceu do alto das copadas árvores, Chita?
Dawson avançou de punhos erguidos. Carne se sentiu apavorada. Em seu estado de tensão, por um triz ergueu George e o jogou para fora do salão. Depois se lembrou de que este era um jogo antigo, muito comum e apreciado.
Os dois se preparam para a luta, a rosnar em círculo. George, então, que já tinha levado dois empurrões, começou a bramir e a gritar:
- Pega! Mata! - e Tommy derrubou-o, rindo.
- Não liga, não - disse Frieda, virando seu nariz de tucano e se aproximando. - Se eles se matarem, danço com você.
- São idiotas demais para isto - arriscou Carrie. -Parecem uns dinossauros. - E quando Frieda sorriu, ela sentiu como se algo muito velho e enferrujado se rompesse, trazendo consigo calor, alívio, tranqüilidade.
- Onde você comprou seu vestido? - perguntou Frieda. - Adorei.
- Eu fiz.
- Você fez? - Os olhos de Frieda se arregalaram em genuína surpresa. - Ora, deixa disso!
Carne sentiu-se enrubescer de raiva.
Fui eu sim... Eu... eu gosto de coser. Comprei a fazenda em Westover. O modelo é
bem simples.
- Vamos - disse George dirigindo-se a todos em geral. -O conjunto vai começar. - Revirou os olhos, e, num gesto macio e irônico de quem vai atacar, saiu dançando: - Vib, vib, vib, nós, malandros, gostamos é de vibração.
Quando entraram, George estava imitando Flash Bobby Pickett e fazendo caretas, Carrie falava com Frieda a respeito de seu vestido, e Tommy ria, as mãos enfiadas no bolso. Assim amarrota todo o seu paletó, Sue estaria dizendo, mas, bolas parecia que ia dar tudo certo. Até aí parecia que ia dar tudo certo.
Só que ele, George e Frieda, não teriam nem mais duas horas de vida.
Do livro The Shadow Exploded (página 132):
A posição da Comissão White em insistir nos dois baldes de sangue de porco sobre uma viga por cima do palco como chave de tudo, parece fraca e duvidosa demais, mesmo à luz da reduzida prova concreta. Se optarmos por acreditar nas testemunhas orais do circulo mais chegado dos amigos Nolan (e, para sermos inteiramente francos, eles não parecem ter inteligência suficiente para mentir convincentemente), então ele tirou esta parte da conspiração totalmente das mãos de Christine Hargensen, agindo inteiramente por iniciativa própria...
Quando dirigia, não conversava; e gostava de dirigir. Dava-lhe uma sensação de força que não se comparava a nada, nem mesmo a fornicação.
A estrada se desenrolava a sua frente em brancos e pretos fotográficos, e a agulha do velocímetro tremia beirando cento e vinte. Ele vinha de um lar destruído; seu pai fugira logo após o fracasso de um posto de gasolina mal administrado - Billy tinha então doze anos - e sua mãe, a última vez que contara, já tivera quatro amantes. Brucie era atualmente o favorito, e ela era hoje um traste velho e feio,
Mas o carro! Este lhe transmitia poder e glória por suas próprias linhas de força. Transformava-o em alguém com quem se podia contar, alguém com charme; e não era por acaso que a maior parte de suas conquistas eram resolvidas no banco traseiro do carro. O carro era seu deus, seu escravo. Ele dava e podia tirar. Muitas vezes Billy o usara para tirar. Nas longas noites insones quando Brucie e sua mãe estavam se debatendo Billy fazia pipoca e saía por aí à cata de cachorros sem dono Às vezes, de madrugada, de motor desligado, deixava o carro rolar silencioso para dentro da garagem que ele mesmo tinha construído atrás da casa, o pára-choque dianteiro pingando.
Ela, já conhecia seus hábitos bastantes bem, e não se preocupou em manter uma
conversa à qual ele não prestaria atenção de qualquer maneira. Sentada a seu lado com uma
perna encolhida. roia as juntas dos dedos. Os carros que passavam por eles com seus fachos
de luz brilhavam em seu cabelo de reflexos prateados.
Quanto tempo ainda duraria ela? - pensou Billy. Talvez não fosse muito além desta noite. De qualquer maneira, desde o inicio tudo levara a isto, e depois o adesivo que os mantivera unidos ficaria fraco, talvez se dissolvesse, deixando-os admirados, sem saber como tudo principiara. Talvez ela deixasse de ter aquele ar de deusa, voltando à antiga puta de sociedade e isto talvez o levasse a querer judiar dela um pouco ou muito. Esfregar seu nariz dentro.
Chegaram ao alto da colina de Brickyard e lá embaixo estava a escola, o estacionamento repleto de carrões brilhantes dos ricos papais. Como sempre, sentiu um nó" na garganta de nojo e ódio. Pode deixar, vamos lhes proporcionar algo
(uma noite inolvidável)
sim senhores. Nós o podemos fazer.
As alas das salas de aula estavam escuras, silenciosas, desertas. O salão iluminado com a luz amarela de sempre, e o painel de vidro que formava a pane leste do ginásio ardia em tênues reflexos alaranjados, meio etéreos, meio tétricos.Novamente aquele gosto amargo, aquela necessidade premente de atirar pedras.
- Estou vendo as luzes,as luzes da festa - murmurou..
- Hein? - ela se virou sobressaltada, acordando de seus próprios sonhos.
- Nada não. - Tocou-lhe a nuca dizendo: -Acho que vou deixar você apertar o gatilho.
Billy, no entanto se encarregou disso sozinho, pois sabia que não podia confiar cm ninguém. Era uma lição dura, muito mais do lhe haviam ensinado na escola, mas ele aprendera muito bem. Os rapazes que na noite anterior tinham ido com ele à fazenda de Henty,não faziam idéia para que ele queria aquele sangue.talvez suspeitassem de que Chrís estivesse envolvida. Mas nem disto tinham certeza.
Minutos depois da noite de quinta ter se transformado na madrugada de sexta, ele chegou a escola, deu duas voltas para se certificar de que os dois carros da patrulha de Chamberlain não estavam por lá.
De luzes apagadas entrou no estacionamento, deu a volta parando atrás do edifício. Mais ao longe se vislumbrava o campo de futebol mergulhado numa fina camada de névoa baixa.
Abriu a mala e destrancou a geladeira O sangue estava congelado; não importava. Teria ainda vinte e quatro horas para degelar.
Colocou os baldes no chão e apanhou urna série de ferramentas da caixa. Meteu-as no bolso da calça e pegou uma bolsa marrom no banco de trás. Parafusos tiniram dentro dela.
Trabalhava sem pressa, com a tranqüila concentração quem é incapaz de conceber qualquer interrupção. O ginásio onde iria se realizar a festa era ao mesmo tempo o auditório da escola, e a pequena fileira de janelas que dava para o lado onde ele tinha estacionado o carro abria para uma área de depósito atrás do palco.
Escolheu uma ferramenta chata com extremidade espatulada, e enfiou-a pela estreita junta entre o vidro inferior e o superior de uma das janelas. Era uma boa ferramenta. Ele mesmo a fizera na oficina de Chamberlain. Forçou-a até que o fecho cedesse. Abriu a janela; entrou.
Estava muito escuro. O cheiro predominante era o de tinta velha das telas dos cenários do Clube de Arte Dramática. As sombras solitárias das estantes de notas e das caixas de instrumentos de música da Sociedade de Conjuntos pareciam sentinelas em seus postos. Num canto. o piano do professor Downer.
Billy tirou uma pequena lanterna da bolsa e foi andando até o palco, atravessando a cortina de veludo vermelho. O do ginásio com a quadra de basquete marcada e a superfície envernizada brilhava como urna lagoa de âmbar. Iluminando parte do palco diante da cortina. Em giz branco tinham sido desenhados aí os contornos dos tronos do Rei e da Rainha que seriam colocados lá no dia seguinte. Toda esta parte seria coberta de flores de papel...por que, só Deus sabia.
Esticou o pescoço e ergueu o facho de luz, iluminando as sombras acima. Vigas se entrecruzavam em linhas sombrias, que ficavam diretamente por cima da pista de dança tinham sido decoradas com papel crepom; as da parte dianteira palco, não. Ali, uma curta cortina de correr encobria as vigas de modo que não eram visíveis quando olhadas da frente, do ginásio. Esta cortina abrigava ainda uma fileira que iluminariam profusarnente o mural da gôndola
Billy apagou a lanterna, dirigiu-se para a extremidade esquerda do palco e subiu urna escada de degraus de ferro fixos na parede. O conteúdo da bolsa, que por medida de segurança tinha escondido na camisa, tinia alegremente com um barulho oco no ginásio deserto.
No alto da escada havia uma pequena plataforma. Agora olhando para a parte dianteira do palco, o urdimento ficava a sua direita, e o ginásio à esquerda. No urdirnento guardavam-se os apetrechos do Clube de Arte Dramática, alguns deles ainda de 1920. Um busto de Palas, usado em alguma versão dramática antiga de “O Corvo”, de Poe, olhava para Billy com um olhar cego, flutuante, lá do alto de um estrado de molas enferrujado. Bem em frente, corria uma viga de aço até a extremidade do palco. Nela tinham sido fixadas as luzes que iluminariam o mural.
Foi andando por cima da viga, com calma, sem e menor medo, pela parte em balanço. Cantarolava baixinho uma musica popular A viga estava coberta por uma grossa camada de poeira e ele andando deixava grandes rastos. A meio caminho parou, ajoelhou-se e olhou para baixo.
Perfeitamente. Com a ajuda da lanterna podia distinguir o traçado a giz bem embaixo dele. Deu um assovio em surdina.
(nada de bombas)
Marcou com um X na poeira o local exato, depois voltou pela viga até a plataforma. Ninguém viria aí em cima antes da festa. As luzes que iluminariam o mural e os tronos onde seriam coroados o Rei e a Rainha do baile
(serão coroados sim senhor)
eram controladas por uma chave atrás do palco Qualquer pessoa que olhasse lá de baixo, diretamente para cima, ficaria ofuscada pelas luzes. Seu arranjo seria notado apenas por alguém que viesse apanhar qualquer coisa aí em cima. Não acreditava que viesse. Era um risco que poderia correr perfeitamente.
Abriu a bolsa marrom, retirou um par de luvas de borracha, vestiu-as. Em seguida pegou duas pequenas roldanas que, por via das dúvidas, havia comprado ontem numa loja de ferragem.
Enfiou uma porção de pregos na boca como se fossem cigarros, e apanhou o martelo Ainda cantarolando a boca cheia de pregos fixou a roldana direitinho num canto , trinta centímetros acima da plataforma ao lado dela atarraxou um pequeno pitão.
Desceu, atravessou o fundo do palco e subiu outra escada não longe da janela por onde entrara.Chegou ao sótão - um desses guarda tudo de escola.Aqui estavam pilhas de diários escolares, uniformes de educação física roído de traças, velhos livros didáticos comidos por camundongos.
Olhando para a esquerda, jogando o facho de luz por cima do urdimento, conseguiu identificar a pequena roldana que acabara de fixar. Olhou para a direita a suave brisa noturna que entrava por uma fresta de ventilação sopro-lhe no rosto. Sempre cantarolando, tirou a segunda roldana e pregou-a
Voltou. Saiu de quatro pela janela que havia forçado, pegou os dois baldes de sangue de porco Estava trabalhando há meia hora, mas o sangue não degelara nem um pouco, carregando os baldes voltou até a janela.No escuro parecia a silhueta do fazendeiro regressando da primeira ordenha. Levantou-os, enfiou-os pela janela e subiu atrás.
Era bem mais fácil equilibrar-se nas vigas com os dois baldes na mão. Quando chegou ao X marcado anteriormente descansou os baldes, deu mais uma olhada no traçado de giz lá embaixo, balançou a cabeça aprovadoramente, e foi até plataforma. Lembrou-se de passar um pano nos baldes, quando fosse lá pela última vez - as impressões digitais de Ken deviam estar nele, as de Dou e Steve também - mas era melhor não fazê-lo. Assim talvez no domingo de manhã eles teriam uma surpresinha. A astúcia da idéia fê-lo sorrir.
O último artigo dentro de sua bolsa era um rolo de corda trançada. Voltou até os baldes e amarrou a alça dos dois com nó corrediço. Passou a ponta pelo pitão. e depois pela roldana jogou a corda que foi se desenrolando, no sótão, onde a enfiou na outra roldana. Talvez não gostaria que lhe dissessem,mas naquela escuridão do auditório, coberto pela poeira de décadas, com morcegos cinzentos esvoaçando sonhadores em torno de sua cabeleira em ninho-de-rato, mais parecia um Rube Goldberg corcunda e semilouco concentrado na invenção uma ratoeira mais aperfeiçoada.
Enrolou a ponta solta da corda colocou a em cima uma pilha de caixotes perto do respiradouro. Desceu pela última vez, limpou a poeira das mãos. Pronto, o serviço estava feito.
Olhou para fora da janela, saiu espremendo-se, e com um baque surdo pulou para o chão. Fechou a janela com a ajuda do mesmo ferro de antes, trancou o fecho da melhor maneira que pôde. Voltou para o carro.
Chris tinha dito que havia muita chance de Tomny Ross e a White, aquela cachorra, ficarem debaixo do balde. Em surdina, ela havia feito sua promoçãozinha entre os amigos. Seria bom se fosse verdade. Mas para Billy qualquer um dos outros serviria também.
Estava até começando a achar que seria ótimo se fosse a própria Chris.
Partiu.
Do livro: Eu Me Chamo Susan Snell (pagina 48).
Um dia antes da festa Carrie foi procurar Tommy. Esperou por ele na porta da sala de aula, e Tommy declarou que Carrie estava realmente com cara de infeliz, como quem receasse que ele fosse recebê-la aos gritos, dizendo que parasse de azucriná-lo, que o deixasse em paz.
Falou-lhe que teria que estar de volta no máximo as onze e meia, senão a mãe ficaria preocupada. Disse que não queria estragar-lhe a festa, nem nada disso, mas que não achava certo deixar a mãe preocupada.
Tommy sugeriu que depois do baile dessem uma passada no Kelly Fruit para tomar uma cerveja e um hamhurger. Todos os outros iriam para Westover ou Lewinston, portanto o local seria só deles. O rosto de Carrie se iluminou, disse ele. Ela respondeu que seria ótimo, Ótimo mesmo.
Esta é a garota que eles insistem em chamar de monstro. Quero que gravem isto bem. Uma jovem que fica satisfeita com um copo de cerveja e um hamburger depois de seu único baile na escola, para que a mãe não fique preocupada...
A primeira coisa que impressionou Carrie ao entrar foi a Elegância. Não elegância, mas Elegância. Vultos graciosos frufulhavam pela sala, em seda, cetim, renda e gazes. O ar recendia a flores, surpreendendo sempre de novo o olfato. Vestidos de costas decotadas, de frente tão cavada que se viam até os regos, de corpetes da linha império, vestidos longos, sapatilhas, Summers de um branco ofuscando, reluzentes sapatos pretos.
Alguns pares na pista de dança, não muitos ainda; à meia luz, pareciam espectros etéreos. Não queria ver neles seus colegas de turma. Preferia que fossem elegantes estranhos.
A mão de Tommy segurava seu cotovelo com firmeza.
- O mural ficou bonito -. disse ele
- Ficou sim - concordou em voz baixa
O alaranjado espalhava uma luz suave e difusa, o barqueiro estava encostado com eterna indolência na cana leme, enquanto o pôr do sol ardia a seu redor, e as construções conspiravam juntas por sobre águas urbanas. Tranqüila veio-lhe a certeza de que este momento ficaria guardado para sempre em sua memória, ao alcance da mão
Será que todos sentiam a mesma coisa? Até o George calou-se por um instante, olhando. E a cena, o perfume, até som da banda tocando uma música de filme vagamente reconhecível, ficaram gravados para sempre dentro dela. Estava em paz. Seu espírito conhecera um momento de tranqüilidade, como se tivesse sido alisado, desamarrotado a ferro.
- Vamos - gritou George de repente, levando ela para dançar. De troça começou a dar uns passos de jitterbug das velhas músicas de banda, e alguém assoviou. George deu um sorriso velhaco, disse qualquer bobagem, e passou a rápida demonstração de dança cossaca, de braços cruzados quase aterrissando no traseiro
Carrie sorriu.
- George é engraçado - disse ela.
- Ë mesmo. Ë um bom sujeito. .Aliás tem uma porção de gente boa por aí. Quer sentar?
- Quero - respondeu agradecida.
Tommy foi até a porta e voltou com Norma Watson cujo cabelo tinha sido arranjado numa divertida explosão.
- É lá do outro lado -. disse ela, e seus olhos vivos de lince examinaram Carrie de alto a baixo, à procura de qualquer alça aparecendo, qualquer espinha brotando, qualquer coisa que pudesse levar fora como novidade lá para a porta, depois de voltar a seu lugar.
- Que amor de vestido, Carrie! Onde foi que você conseguiu?
Enquanto Norma atravessava com eles a pista de dança para lhes indicar a mesa, Carrie lhe contou do vestido.Norma exsudava aromas de sabonete Avon, perfume Woolworth e chicletes de frutas.
Junto à mesa havia duas cadeiras de dobrar (enfeitadas com fitas e laços do inevitável papel crepom) A mesa estava coberta com o mesmo papel, nas cores da escola.Em cima dela havia uma garrafa de vinho com uma vela dentro, um programa da festa, um pequenino lápis dourado, e duas prendas - gôndolas recheadas com nozes.
- Eu não CONSIGO me convencer - dizia Norma -Você está TÃO diferente. - Lançou um olhar estranho e furtivo para o rosto de Carne, o que a fez sentir-se nervosa. -Você está RADIOSA. Qual o seu SEGREDO?
- Sou a amante secreta de Don MacLean respondeu Carrie. Tommy deu uma risadinha mas se controlou logo. Norma sorriu muito sem graça, e Carrie ficou espantada com sua própria audácia e espírito. Então era assim a cara de quem ficava na berlinda. Como se uma abelha lhe tivesse picado o traseiro. Carrie constatou ter ficado satisfeita de ver Norma assim. Era uma atitude realmente anticristã.
- Bem, tenho que voltar - disse ela. - Não e EMOCIONANTE, Tommy? - seu sorriso era de compaixão - Não seria emocionante se...?
- Estou suando em bicas. O suor gelado me escorre pelas pernas - disse Tommy seriamente.
Norma foi andando, um sorriso estranho e enigmático nos lábios. As coisas não estavam saindo como ela esperava. Todo mundo sabia como as coisas deveriam se passar com Carrie. Tommy deu outra risadinha.
- Quer dançar? - perguntou.
Ela não sabia, mas ainda não estava em condições de admiti-lo.
- Vamos ficar sentados um pouco.
Enquanto ele segurava a cadeira para ela sentar, Carne viu a vela e pediu para Tommy acendê-la. Ao fazê-lo seus olhares se encontraram por cima da chama. Pegou-lhe a mão e ficou segurando. A música continuava a tocar...
Do livro: The Shadow Exploded (páginas 133-134):
Talvez algum dia façam um estudo detalhado da mãe de Carrie, quando a discussão do caso Carne se tornar mais acadêmica. Eu mesmo talvez tente fazê-lo, nem que seja apenas para ter acesso a árvore genealógica da família Brighan. Seria interessantíssimo constatar as estranhas ocorrências que se nos deparam duas ou três gerações atrás.
Além disso, existe evidentemente o fato de Carrie ter ido para casa na Noite do Baile. Por quê? E difícil dizer até que ponto, a esta altura, as razões de Carrie ainda eram sãs. E pode ter ido para conseguir a absolvição e o perdão, mas também com o firme propósito de cometer matricídio. De qualquer maneira a prova física parece indicar que Margaret White estava a sua espera.
A casa estava completamente silenciosa
Ela tinha partido.
À noite.
Partido.
Lentamente, Margaret White foi andando do quarto para sala. Primeiro viera o fluxo de sangue e as torpes fantasias que o Demônio envia junto. Depois o poder satânico que ele lhe dera. Este veio evidentemente na época do sangue e dos pêlos no corpo. Ah, ela conhecia esta força do demônio! Sua própria avó a possuíra. Era capaz de acender o fogo da lareira sem se mexer da cadeira de balanço junto à janela. Fazia os olhos brilharem com
(não permitirás que as feiticeiras vivam)
uma estranha luz de feiticeira. E, às vezes, na mesa do janela o açucareiro rodopiava como louco dervixe. Toda vez que acontecia a avó dava uma gargalhada louca de bruxa, coisas sem nexo, e fazia o sinal de Mau Olhado em seu redor. Por vezes respirava ofegante como cachorro em dia de sol e quando morreu de ataque cardíaco aos sessenta e seis anos já inteiramente senil, Carrie ainda não tinha um ano. Mas quase menos de quatro semanas após os funerais da avó, Margaret entrou no quarto, viu a filhinha no berço, rindo e gargarejando olhando para uma garrafa suspensa no ar, por cima de cabeça.
Na ocasião Margaret quis matá-la. Ralph o impedira.
Ela não devia ter-lhe dado ouvido.
Agora Margaret estava em pé no meio da sala. Cristo no Calvário olhava para ela com seu olhar magoado, padecente, reprovador. O cuco da floresta Negra tiquetaqueava.Era oito horas e dez minutos
Ela a chegara a se sentir, sentir de fato, a Força do Demônio trabalhando em Carrie. Rastejando, tomava conta das pessoas levantando e puxando como pequeninos dedos fazendo cócegas Mais uma vez ela decidira cumprir sua obrigação quando Carrie tinha três anos e ela a pegara em pecado, olhando para a prostituta do demônio, no quintal vizinho. Mas as pedras vieram e ela fraquejara. Agora, depois de treze anosa força se erguia novamente. De Deus não se escarnece
Primeiro o sangue, depois a força,
(você assina seu nome assina-o em sangue)
agora um rapaz e o baile, e depois ele a levaria para um motel,para um escuro estacionamento, para o banco traseiro do carro e...
Sangue. Sangue fresco. Sempre o sangue como raiz de todo mal que só com sangue pode sei expiado
Ela era um mulherão de braços maciços cotovelos reduzidos a duas covas, e uma cabeça surpreendentemente pequena no alto de um pescoço musculoso, sulcado de tendões Seu rosto tinha sido bonito. E ainda era, em certo misterioso ardor. Só os olhos tinham atualmente uma expressão estranha de delírio, e os traços eram cruelmente vincados em torno de uma boca que, apesar de recusadora, era de uma incrível fraqueza. Seu cabelo, que há um ano fora quase todo preto, era hoje branco.
A única maneira de exterminar o pecado, o autentico pecado negro, era sufocá-lo no sangue
(ela tem que ser sacrificada)
de um coração arrependido. Era evidente que Deus compreendera isto e que colocara Seu
dedo em cima dela. Não fora o próprio Deus quem ordenou a Abrão que ele levasse seu
filho para o alto da montanha?
Arrastando os pés, foi até a cozinha em seus velhos chinelos cambaios, e abriu a gaveta dos utensílios. A faca que usavam para cortar carne era longa e afiada, gasta no meio de tanto afiar. Sentou-se numa alta banqueta junto a banca, pegou o pedaço de pedra de amolar no pequeno prato de alumínio, e com a atenção fixa e apática dos condenados começou a passá-la no fio brilhante da lâmina.