Carrie

Stephen King · Capítulo 3 de 9

Páginas do PDF

Carrie

Não estamos mais na quarta série.…

__ Não estamos mais na quarta série. E eu pelo menos ainda tinha uma desculpa, mesmo que fosse muito esfarrapada mas era uma desculpa. Já no seu caso, que mal lhe fez aquele pobre-diabo desgraçado?

Ela nada respondeu porque não tinha o que responder. Em toda sua vida não havia trocado mais de cem palavras com Carrie e, destas, umas quarenta tinham sido ditas hoje. Depois que terminaram o ginásio, a única aula que tinham tido em comum era educação física. Carrie seguia o curso de comércio e contabilidade. Sue, evidentemente, o de letras.

De repente ela se achou abominável.

Como a idéia lhe fosse insuportável, para se livrar começou a atacá-lo:

__Quando é que você começou a tomar todas estas decisões moralistas? Depois que começamos a trepar?

O bom humor desapareceu de seu rosto e ela se arrependeu,

__Acho que devia ter calado a boca__ disse ele ajeitando suas calças.

__Você não; eu. __ Colocou a mão no seu braço. __Desculpa, ouviu?

__Ouvi. Mas de qualquer maneira não devia ter me metido a dar conselhos. Não sou bom nisto.

__Tommy, você alguma vez teve ódio de ser tão Popular?

__Eu?! __ a surpresa estava escrita em seu rosto. -Você se refere ao fato de ser representante de turma, presidente da equipe de futebol e coisas assim?

__ Ë.

__Não. Não é coisa de importância. O ginásio todo, aliás, não tem grande importância. Quando você está para entrar, acha que é uma grande coisa. Mas, depois que acaba, ninguém realmente acha que foi grande coisa, a não ser que se esteja com a cuca cheia de cerveja como meu irmão e a turma dele sempre estão.

Nada disso era conforto para ela, e só lhe aumentava os receios. A pequena Susie, a figura popular de Ewen High School, a líder de todo aquele regimento, com o vestido de festa guardado para sempre no armário, embrulhado em plástico protetor.

À noite em sua escuridão comprimia-se violenta contra as janelas embaçadas do carro.

__Eu provavelmente acabarei trabalhando com meu pai,com carros __disse ele. __ Passando as noites de sexta e sábado no Uncle Bill"s ou lá no The Cavalier, tomando cerveja e falando sobre aquele sábado à tarde em que peguei aquela bolada de Saunders e os transtornos que causamos em Dorchester. Casarei com alguma liberal chata, andarei sempre em carros do ano, votarei nos democratas.

__ Pare com isto__ disse ela, num tom de repente cheio de negro e doce horror. Ela o puxou para junto de si. __ Me ame. Minha cabeça anda tão ruim esta noite. Me ame!

E desta vez tudo foi diferente. Finalmente parecia haver espaço, não era mais aquela esfregação cansativa, mas uma fricção deliciosa que subia cada vez mais: duas vezes ele teve que parar, ofegante, refrear-se e continuar novamente,

(ele era virgem antes de me possuir o que admitiu pensei que fosse mentira) com força; sua respiração vinha aos arrancos e depois começou a gritar, segurando-se firme nas costas dele, incapaz de parar, suando, o gosto ruim lavado de sua boca, cada célula de seu corpo parecendo atingir seu próprio clímax, o corpo transbordando em luz, música em sua mente, borboletas esvoaçando dentro do crânio, a prisão da mente.

Mais tarde, a caminho, de casa, ele lhe perguntou com toda formalidade se ela gostaria de ir ao Baile da Primavera com ele. Aceitou. Perguntou-lhe também se tinha decidido o que fazer com Carrie. Disse que não sabia. Ele respondeu que não importava, mas ela achava que sim. Importava e muitíssimo.

 

Do livro: “Telecínética - Sua análise e conseqüências" (Anuário de Ciências de 1981), do reitor D. L. McGuffin:

Evidentemente, hoje em dia ainda existem cientistas tendo infelizmente o grupo da Universidade de Duke na vanguarda __ que rejeitam as terríveis implicações que envolvem o caso Carrie White. Como por exemplo a Sociedade da Planície, os Rosacrucianos, ou os Corlies do Arizona, que são positivos em afirmar que a bomba atômica não funciona, estes pobres infelizes que __ com desculpas pela metáfora __ voam diante da lógica com as cabeças enfiadas dentro da areia.

É evidente que se pode entender muito bem a consternação, o alarido, as cartas de protesto e os argumentos contra simpósios. A própria idéia da telecinética, com todos os requintes de filme de horror, as mesas oujia,, os médiuns, as batidas na mesa, as coroas de nobreza flutuando ao ar, já é em si uma pílula amarga para a comunidade científica. Entender, no entanto, não é desculpa para irresponsabilidades científicas.

O caso White e suas conseqüências suscitam questões graves e difíceis. Um verdadeiro terremoto abalou essas Concepções ordenadas de como um mundo normal deve agir e reagir. Por isto não se pode culpar um físico de renome como Gerald Luponet quando ele alega que tudo isso não passa de fraude e mistificação, mesmo diante das provas esmagadoras fornecidas pela Comissão White. Pois se Carrie White for a verdade, que faremos de Newton?...

 

Carne estava sentada com a mãe na sala ouvindo Tenessee Ernie Ford cantar Que as Luzes Inferiores Continuem a Arder, num fonógrafo de marca Webcor (que a mãe chamava de vitrola, ou quando estava especialmente bem humorada de vic). Instalada na máquina de costura Carne pedalava, pregando as mangas num vestido novo. A mãe estava sentada debaixo do crucifixo de gesso tecendo paninhos, com o pé marcando o compasso do hino que era um de seus favoritos, P. P. Bliss, autor do hino, e um sem-número de homens iguais a ele eram para a mãe o exemplo vivo e radioso de Deus a labutar na face da Terra. P. P. Bliss tinha sido marujo e pecador (duas palavras sinônimas no vocabulário da mãe), um blasfemador, que ria na cara do Senhor. Certa vez uma grande tempestade ameaçava fazer virar o barco e ele, o fraco pecador, tinha caído de joelhos, diante da visão do Inferno escancarada no fundo do mar, aberta para recebê-lo, e tinha orado a Deus. Prometera-lhe que se fosse salvo dedicaria a Ele o resto de sua vida. É claro que imediatamente a tempestade amainou.

Como todos seus hinos, também este tinha sempre presente um sabor de mar, falava no farol da divina misericórdia, (no litoral) por cuja iluminação os homens teriam que velar.

O vestido que Carrie cosia era bonito, cor de vinho escuro __a cor mais próxima do vermelho que a mãe lhe permitia -, tinha até mangas bufantes. Esforçava-se por manter suas idéias fixas estritamente à costura, mas era evidente que elas divagavam.

A luz acima de sua cabeça era forte, violenta e amarela, o pequeno sofá de veludo empoeirado e obviamente deserto (Carrie nunca tivera permissão para trazer qualquer rapaz pra dentro de casa ), e, na extremidade oposta, dois vultos irmãos : Jesus crucificado, e, abaixo Dele, sua mãe.

A escola tinha mandado chamar a mãe na lavanderia e ao meio-dia ela estava em casa. Carrie a tinha visto chegar, e tremeu por dentro.

Margaret White era uma mulher grande sempre de chapéu na cabeça. Ultimamente suas pernas andavam inchadas, e os pés pareciam estar sempre transbordando por cima dos sapatos Usava um casaco de fazenda preta, com gola de pele, olhos azuis pareciam enormes atrás das lentes bifocais sem aro Sempre carregava urna grande sacola preta dentro da qual estavam sua bolsinha de níqueis, a carteira de notas (ambas pretas, uma grande Bíblia __também preta) com seu nome gravado na capa, e uma pilha de folhetos presos por um elástico.Eram geralmente cor de laranja, muito mal impressos.

Carrie sabia vagamente que a mãe e o pai tinham sido batistas e que tinham abandonado a igreja quando se convenceram de que estavam fazendo o trabalho do anticristo. Desde então, todo o culto era em casa. Havia cultos aos domingos, terças e sextas, que eram chamados de santificados. A mãe era o ministro e Carrie a congregação. A cerimônia religiosa durava de duas a três horas.

A mãe abriu a porta e entrou com toda calma __ Carrie e ela ficaram olhando fixamente para o pequeno corredor que se estendia a sua frente, como artilheiros antes de começarem a disparar. Foi um desses breves instantes que em retrospecto pareciam

(medo seria realmente medo o que se via nos olhos da mãe) muitos mais longos.

A mãe fechou a porta.

__Você agora é mulher __disse ela em voz baixa.

Carrie sentiu seu rosto se contrair ,sentiu-se desmoronar e não e pôde se controlar:

__Por que você não me falou? __exclamou ela __Puxa, mãe, fiquei tão assustada, e as garotas todas não teriam zombado de mim, jogado coisas e...

A mãe veio se encaminhando para ela e de repente sua mão ergueu-se e desceu ágil e rápido, uma mão dura, musculosa, cheia de calos do terno. Com as costas acertou o maxilar de Carrie que caiu no limiar da porta, entre a entrada e a sala, soluçando alto.

__E Deus fez Eva de uma costela de Adão - disse ela. Seus olhos estavam enormes por detrás das lentes sem aro; pareciam dois ovos pochés. Acertava-lhe chutes com o lado do pé, e Carrie gritava.

__Vamos, mulher, levanta. Vamos entrar para rezar. Vamos orar a Cristo por nossas almas de mulher, fracas, más e pecadoras.

__Mãe!...

Os soluços eram violentos demais para poder falar. O histerismo latente explodira em palavras desarticuladas e risadas de escárnio. Não conseguiu se pôr de pé. Engatinhava pela sala, o cabelo caído no rosto, urrando em altos, ásperos soluços. Volta e meia levava um chute. Assim prosseguira pela sala, até onde ficava o altar, num cubículo que antes tinha sido quarto de dormir.

__E Eva foi fraca e... anda mulher, repete!

__Não, mãe, por favor...

Um pontapé vibrou. Grito de Carrie.

__E Eva foi fraca e soltou o negro corvo o pelo mundo __ continuou a mãe. __E o corvo se chamava Pecado, e o primeiro Pecado foram as Relações. E o Senhor fez cair uma Maldição sobre Eva, e esta Maldição foi a Maldição do Sangue. E Adão e Eva foram expulsos do Paraíso para o mundo, e Eva descobriu que seu ventre estava inchado com um filho.

Um novo chute atingiu as nádegas de Carrie. Seu nariz raspou no assoalho de madeira. Estavam entrando no recinto do altar. Na mesa coberta com uma toalha de seda via-se uma cruz, ladeada de velas brancas. Atrás havia diversos quadros, desses pintados em série, de Jesus e seus apóstolos. À direita estava o pior lugar de todos, a morada do terror, o covil onde toda esperança, toda resistência à vontade de Deus - e da Mãe - se extinguia completamente. A porta aberta do quartinho ria maliciosa. Lá dentro, debaixo de uma hedionda luz azul eternamente acesa, estava uma reprodução da concepção de Derrault, do famoso sermão de Jonathan Edward, Pecadores nas Mãos de um Deus irado.

¨¨¨¨¨ E houve uma segunda Maldição, e esta foi a Maldição da Concepção, e Eva gerou Caim em sofrimento e dor.

Meio em pé, meio rastejando, a mãe arrastou-a até o altar, onde ambas caíram de joelhos. Com toda torça. a mãe segurava o braço de Carrie.

¨¨¨¨¨ E, depois de Caim, Eva deu a luz a Abel, não tendo ainda se arrependido do Pecado das Relações Sexuais. Assim sendo, Deus fez cair a terceira Maldição sobre Eva, e esta foi a de Homicídio. Caim ergueu-se e matou Abel com uma pedrada. Mas nem assim Eva se arrependeu, nem todas as suas filhas, e, sobre Eva, a Astuciosa Serpente fundou seu reino de prostituição e pestilência.

¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨ Mãe! gritou Carrie. Mãe, por favor! Não foi minha culpa!

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Abaixe a cabeça respondeu esta . Vamos rezar.

¨¨¨¨¨¨¨Você deveria ter-me dito!

E a mão materna desceu sobre a nuca de Carrie com o força muscular de onze anos de erguer pesados sacos de roupa, de carregar pilhas de lençóis molhados. O rosto de Carrie, os olhos esbugalhados com o tranco, foi jogado para a frente e a testa bateu no altar, onde deixou uma marca; as velas tremeram.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Vamos rezar continuou a mãe, implacável, em voz baixa.

Chorando e fungando, Carrie baixou a cabeça. Grosso ranho lhe pendia do nariz e ela

(se eu ganhasse um tostão toda vez que ela já me fez chorar aqui) o limpou com as costas da mão.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Senhor declamou a mãe solenemente, a cabeça jogada para trás . Ajude esta pecadora aqui a meu lado a ver os seus pecados. Mostre-lhe que se tivesse permanecido sem pecados, a Maldição do Sangue não a teria atingido. Em pensamentos ela deve ter cometido o Pecado de Luxúria. Deve ter ouvido músicas de rock no rádio. Deve ter sido tentada pelo Anticristo. Mostre-lhe que esta é a Sua benévola e vingativa mão em ação e...

¨¨¨¨¨¨¨ Não! Me largue!

Tentou pôr-se de pé, porém a mão, dura e impiedosa, como algemas de ferro, fê-la ajoelhar-se novamente.

¨¨¨¨¨¨¨... o seu Sinal que de agora em diante deverá seguir pela trilha reta e estreita, se quiser evitar as agonias das chamas da Cova Eterna. Amém.

Virou-se, os olhos ardentes, ampliados, fixos na filha;

¨¨¨¨¨¨¨ Agora vá para seu quarto.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Não !Ela sentiu sua respiração pesada de terror.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Vá para seu quarto! Reze em segredo. Peça perdão por seu pecado.

¨¨¨¨¨¨¨Mas eu não pequei mãe. Foi você quem pecou. Foi você que não me contou nada, e fez com que elas rissem de mim.

Mais uma vez ela sentiu o medo passar como um relâmpago pelos olhos da mãe, rápido e silencioso como um corisco de verão. E a mãe começou a empurrar Carrie para o quarto de luz azul.

¨¨¨¨¨¨ Reze e talvez seus pecados possam ser apagados.

¨¨¨¨¨¨¨ Me solte, mãe!

¨¨¨¨¨¨¨ Reze, mulher!

¨¨¨¨¨¨¨ Olha que eu faço as pedras voltarem, mãe.

A mãe estancou.

Até sua respiração pareceu ficar paralisada dentro da garganta. Depois a mão apertou o pescoço de Carrie, apertou cada vez mais, até que viu pontos vermelhos e fúnebres dançando diante de seus olhos, e sentiu sua mente enevoar-se, o cérebro distanciar-se.

Os olhos aumentados pelas lentes, flutuavam diante dela.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Oh, fruto do demônio ! murmurou a mãe . Por que fui eu tão amaldiçoada?

A mente turbilhonante de Carrie procurou algo bastante grande para exprimir toda sua agonia, vergonha, terror, Ócio e medo. Era como se toda sua vida se tivesse reduzido a este miserável ponto de derrota e rebelião Cota olhos esbugalhados de louca, a boca escancarada, cheia de saliva, gritou.

¨¨¨¨¨¨¨CHUPA, sua desgraçada!

A mãe soltou um grito como se lhe tivessem jogado água fervendo.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Pecado! gritou ela Oh, pecado E desandou a espancar Carrie, as costas. o pescoço e a cabeça. Cambaleando, foi arrastada para o tétrico azul do quarto próximo.

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ FUTRICA! gritava ela.

(isto, isto mesmo foi assim ou como você acha então que foi concebida meu Deus)

Foi lançada de cabeça para dentro do cubículo., bateu contra a parede dos fundos, e caiu no chão semiconsciente. A porta bateu; a chave foi passada.

Estava a sós com o Deus da Ira do mãe.

A luz azul incidia sobre a figura de um enorme e barbado Jeová, lançando ululantes multidões humanas dentro de um nebuloso abismo de fogo. Lá em baixo, medonhas figuras negras lutavam em meio às chamas da perdição enquanto o Homem Negro permanecia sentado num enorme trono cor de fogo, um tridente numa das mãos. Seu corpo era de homem, porém a cauda terminava em seta, e a cabeça era de chacal.

Desta vez ela não iria apelar.

Mas apelou. Levou seis horas, mas depois não agüentou mais: chorando, pediu à mãe para abrir a porta e deixá-la sair. A necessidade de urinar era tremenda. O Homem Negro olhava para ela escarnecedor, seus olhos escarlates cônscios de todos os segredos do sangue da mulher.

Uma hora depois de Carrie começar a gritar, a mãe a deixou sair. Desesperada, foi tateando para chegar ao banheiro.

Somente agora, passada três horas, sentada ali, de cabeça baixa como penitente, junto à máquina de costura, lembrou-se da expressão de medo que vira nos olhos da mãe, e pareceu-lhe também saber o porquê.

Houve tempos em que tinha sido mantida presa naquele quartinho até por um dia inteiro ¨¨¨¨¨ quando roubou aquele anelzinho ordinário lá da loja, por exemplo, ou quando a mãe encontrara o retrato de Flash Bobby Picket debaixo de seu travesseiro ¨¨¨¨¨¨¨, e uma vez Carrie até chegou á desmaiar por falta de comida e pelo cheiro de seus próprios excrementos. Hoje ela até havia xingado. No entanto a mãe a soltara logo que começara a chamar.

Isto. O vestido estava pronto. Tirou o pé do pedal e segurou-o para dar uma olhada. Era comprido. Era feio. Detestava-o

Sabia por que a mãe a deixara sair.

¨¨¨¨¨¨¨Posso ir pra cama, mãe?

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Pode respondeu sem levantar os olhos de seu trabalho.

Dobrou o vestido por cima do braço. Olhou para a máquina de costura. De repente o pedal começou a se mover.A agulha subia e descia refletindo a luz em reflexos metálicos.O

carretel zunia, girando aos arranques. A roda lateral se pôs em movimento.

Assustada, a mãe levantou a cabeça, os olhos esgazeados. A renda em volta do paninho, de um desenho lindo e complicado, certinho e perfeito, ficou toda emaranhada.

¨¨¨¨¨¨ ¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Apenas distorcendo a linha disse Carrie

¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨¨ Vá pra cama disse a mãe rispidamente, o medo novamente estampado nos olhos.

¨¨¨¨¨¨¨ Já vou indo

(ela ficou com medo de eu arrancar a porta das dobradiças) mãe.

(acho até que poderia ,acho que poderia que mesmo)

 

Do livro: The Shadow Exploded (página 58):

Margaret White nasceu e cresceu em Motton, uma pequena cidade vizinha de Chambenlain, que envia todas as crianças em idade escolar para os primários e ginásios desta cidade. Seus pais estavam relativamente bem de vidas Eram donos de uma casa próspera situada logo nos limites da cidade de Mott e que se chamava The Jolly Roadhouse (A Alegre Casa de Beira de Estrada). John Brigham, pai de Margaret, foi morto numa rixa de bar, no verão de 1959.

Margaret Brigham, que na época estava com quase 30 anos, começou a freqüentar um círculo de orações dos fundamentalistas. Sua mãe conhecera outro homem (Harold com quem iria se casar mais tarde) e ambos queriam afastar Margaret de casa ¨¨¨¨¨ pois ela achava que Judith, sua mãe e Harold Allison estavam vivendo em pecado e manifestava seu ponto de vista abertamente. Judith Brigham por sua vez achava a que a filha ia continuar solteirona para o resto da vida, no fraseado mais pungente do futuro padrasto “Margaret tinha cara de traseiro de tanque de gasolina, e um que corpo combinava perfeitamente”. Referia-se a ela também como “pequeno Jesus rezador”.

Margaret, no entanto se recusou a sair de casa até que 1960, numa reunião de caráter religioso, conheceu Ralph.Em setembro daquele mesmo ano, deixou sua casa em Motton para ir viver num pequeno apartamento em Chamberlain Center.

O namoro de Margaret Brigham e Ralph White terminou em casamento, em 23 de março de 1962. Logo depois, em de abril, Margaret White foi internada por alguns dias no Westover Doctors Hospital.

Que nada, ela nunca disse o que teve ¨¨¨¨¨ declarou Harold Allison. ¨¨¨¨¨ Uma única vez que fomos visitá-la, ela nos disse que estávamos vivendo em adultério, apesar de estarmos comprometidos, e que ambos iríamos para o inferno. Disse ainda que Deus havia posto uma marca invisível na nossa testa, mas que ela podia ver. Procedeu realmente como maluca, como um morcego dentro de um galinheiro. Sua mãe tentou ser amável, tentou descobrir o que estava acontecendo com ela. Ficou histérica, delirava falando em anjo armado de espada que passaria pelos estacionamentos dos motéis decapitando os maus. Fomos embora.

No entanto, Judith Allison tinha uma vaga idéia do que poderia ter acontecido à filha; achava que ela tivera um aborto. Se assim fosse o bebê tinha sido concebido extra matrimonialmente.Uma confirmação deste fato seria realmente um aspecto bem interessante do caráter da mãe de Carrie.

Numa carta longa e um tanto histérica dirigida a sua mãe, datada de 19 de agosto de 1962, Margaret diz que ela e Ralph estavam vivendo sem pecado, sem “a Maldição das Relações”. Insistia para que Judith e Harold fechassem sua “morada do mal”, e fizessem a mesma coisa. Quase no final da carta Margaret declara que “e a única maneira de você & Aquele Homem conseguirem evitar a Chuva de Sangue que está para vir. Eu & Ralph, à semelhança de Maria & José, fazemos questão de ignorar e não poluir a carne um do outro Se, houver um fruto, que ele seja Divino”.

O calendário, no entanto prova que Carne foi concebida mais tarde, neste mesmo ano.

 

Na segunda-feira de manhã, as meninas se vestiram rápidas para o primeiro tempo de aula, educação física, sem brincadeiras de mau gosto, nem gritos ou vaias, e nenhuma delas ficou surpresa quando Miss Desjardin de repente abriu a porta do vestiário e entrou. O apito de prata pendia entre seus pequenos seios, e se o short era o mesmo que usara na sexta-feira, não se via nele nenhum vestígio das marcas de sangue da mão de Carrie

Sem olhar para ela, as meninas continuaram a se vestir mal-humoradas.