Carrie

Stephen King · Capítulo 8 de 9

Páginas do PDF

Carrie

Kenny abriu o porta-luva, tirou um peixe…

Kenny abriu o porta-luva, tirou um peixe articulado cheio de ornatos (propriedade de Chris) e prendeu o lado aceso uma guimba entre uma das juntas. Achou a operação engraçadíssima e deu novamente sua risadinha aguda.

Passavam em disparada pelas placas de “Propriedade Particular - Entrada Proibida” fixadas em ambos os lados da estrada, por arame farpado e campos recém-arados. O cheiro de terra fresca era forte, penetrante e doce no ar quente daquela noite de maio.

Logo que chegou ao alto da colina seguinte, Billy apagou as luzes, colocou a alavanca de mudança em ponto morto desligou a chave. Como silencioso batelão de metal, o carro foi descendo em direção à entrada da fazenda.

Billy conseguiu fazer a curva sem o nenhum problema, ao enfrentarem outra elevação menor, foram perdendo a velocidade, passando pela escura casa vazia. Agora já distinguiam o vulto enorme do celeiro e, mais além, o luar brilhando tranqüilo nas águas do tanque para o gado e no pomar de macieira.

No chiqueiro duas porcas enfiavam o focinho chato por entre a grade. No estábulo, uma vaca mugiu baixinho, em sonhos talvez.

Billy parou o carro acionando o freio de emergência - operação na verdade desnecessária uma vez que a chave estava desligada, mas um gesto agradável de comando. Saltaram.

Lou Garson passou a mão na frente de Kenny e tiro qualquer coisa de dentro do porta-luva. Billy e Henry deram a volta e abriram a mala do carro.

- O desgraçado vai se cagar todo quando voltar e der com os olhos naquilo - disse Steve regozijante.

- Para Freddy - disse Henry tirando o martelo da mala.

Billy não respondeu mas era evidente que não fazia isto para Freddy Overlock, aquele filho da mãe. Fazia-o para Chris Hargensen, como tudo aliás na vida, desde o dia em que ela se dignou a descer de seu Olimpo de estudante e se tornou vulnerável a ele. Por ela mataria, faria coisa pior até.

Só para experimentar, Henry rodou no ar o malho de cinco quilos. O pesado bloco da extremidade a ser utilizada zuniu portentoso no ar da noite, e os outros rapazes se reuniram em torno de Billy quando este abriu a tampa da geladeira retirando dois baldes de ferro galvanizado. Estavam cobertos por uma fina camada de gelo, e os dedos ficavam entorpecidos ao tocá-los.

- Muito bem - disse ele.

Todos os seis se dirigiram rapidamente ao chiqueiro a respiração curta de excitação. As duas porcas eram mansas como gatos, e o velho varão estava deitado de lado, dormindo, na outra extremidade. Mais uma vez Henry vibrou o malho no ar, mas desta vez sem grande convicção. Estendeu-o a Billy.

- Não dá - disse com voz fraca. - Pegue ai.

Billy pegou-o e olhou interrogador para Lou, que segurava a larga faca de açougueiro que havia tirado do porta-luva.

- Não se preocupe - disse ele, passando o polegar na afiada lâmina.

- A garganta - lembrou Billy.

- Eu sei.

Cantarolando e rindo, Kenny dava os restos de um saco de batata frita para os porcos.

- Não liguem não, porquinhos, não liguem não. Billy, o grandão. vai rachar os crânios de vocês, e nunca mais vão ter que se preocupar com a bomba. - Coçava seus focinhos cobertos de cerdas, e os porcos grunhiam e mastigavam satisfeitos da vida.

- Lá vai - disse Billy quando o malho desceu.

O ruído lembrou-lhe a vez em que ele e Henry tinham jogado uma abóbora do alto da passarela de Claridge Road no 495 a oeste da cidade. Uma das porcas caiu morta de língua de fora, os olhos ainda abertos, com migalhas de batata frita penduradas no focinho.

Kenny ria como imbecil:

- Ela não teve nem tempo de arrotar.

- Rápido, Lou - disse Billy.

O irmão de Kenny se esgueirou por entre as ripas, levantou a cabeça do animal em direção à lua - os olhos vidrados fixavam o crescente com enlevado desinteresse - e enfiou a faca.

Na mesma hora o sangue esguichou assustador. Alguns dos rapazes ficaram respingados e deram um salto para trás com exclamações de nojo.

Billy se esticou para dentro e segurou um dos baldes debaixo do jato maior. O balde encheu rápido e foi colocado de lado. Quando o sangue começou a pingar e parou de correr o segundo balde estava cheio pela metade.

- O outro - disse Billy.

- Meu Deus, Billy - disse Jackie se lamentando. Será que isto não .....

- O outro - repetiu Billy.

Vem, porquinho, vem - chamou Kenny,, rindo e sacudindo o saco vazio de batata.

O porco foi chegando até o ripado. O malho vibrou. O segundo balde ficou cheio e o resto do sangue escorreu pela terra. Um cheiro forte, cúprico. encheu o ar. Billy notou que estava com o antebraço todo lambuzado de sangue.

Carregando os baldes de volta para a mala, a mente Billy fez urna associação confusa, simbólica. Sangue de porco Chris tinha razão. Isto era bom. Era ótimo. Consolidava tudo.

Sangue de porco para aquela porca.

Ajeitou os baldes no meio do gelo picado, tampou-os, fechou a geladeira com violência.

- Vamos embora - disse ele.

Instalou-se ao volante, soltou o freio. Os cinco rapazes meteram os ombros no carro, e foram empurrando-o por trás. Em silêncio descreveu um círculo bem fechado, passou pelo estábulo, galgou a colina em frente à casa de Henty

Quando o carro começou a descer sozinho, foram correndo a seu lado e saltaram para dentro, soprando e bufando.

O Biscayne foi ganhando velocidade, chegando a derrapar um pouco quando Billy, com um golpe de direção, o fez dobrar da entrada da fazenda para Henty Road. Ao pé da colina, passou a alavanca de mudança para terceira e soltou a embreagem. Com um ronco o motor pegou.

Sangue de porco para uma porca. Grande idéia, sim, senhor. Muito boa mesmo. Sorriu e Lou Garson ficou surpreso e temeroso. Não se lembrava de ter visto Billy Nolan sorrir em ocasião alguma. Nem ouvira jamais falar em tal coisa.

- Pro enterro de quem foi o velho Henty? - perguntou Steve.

- Da mãe dele - respondeu Billv.

- Da mãe? - disse Jackie Talbot perplexo. - santo Deus, devia ser mais velha que Matusalém.

A risada aguda de Kenny foi levada pela fragrante escuridão que tremia no limiar do verão.

 

PARTE II