Celular

Stephen King · Capítulo 1 de 5 · parte 1/4

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Celular

A civilização entrou na sua segunda idade…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

A civilização entrou na sua segunda idade das trevas em um pouco surpreendente rastro de sangue, mas com uma rapidez que não poderia ser prevista nem mesmo pelo mais pessimista dos futurólogos. Era como se estivesse engatilhado. No dia 10 de outubro, Deus estava no céu Dele, a Bolsa de Valores estava em 10.140 pontos e a maioria dos aviões estava no horário (exceto os que chegavam e partiam de Chicago, o que era de se esperar). Duas semanas depois, os céus pertenciam aos pássaros novamente e a Bolsa de Valores era uma lembrança. Já no Dia das Bruxas, todas as grandes cidades, de New York a Moscou, fediam sob o céu vazio, e o mundo como ele havia sido antes era uma lembrança.

O PULSO

O evento que veio a ser conhecido como O Pulso começou às 15h03, horário da costa leste, na tarde do dia 10 de outubro. O termo era inapropriado, é claro, porém, dez horas depois do evento, a maioria dos cientistas capazes de apontar isso estava morta ou louca. Seja como for, o nome não tinha importância. O importante foi o efeito.

Às três da tarde daquele dia, um jovem sem grande importância para a história veio andando — quase quicando — na direção leste pela Boylston Street, em Boston. O nome dele era Clayton Riddell. Trazia uma expressão de inconfundível contentamento no rosto, que combinava com seu passo saltitante. Na mão esquerda, balançavam as alças de um portfolio, daquele tipo que fecha e prende para virar uma maleta. Enrolado nos dedos da mão direita, estava o cordão de uma sacola de compras de plástico marrom, com as palavras pequenos tesousos impressas nela para qualquer um que quisesse lê-las.

Dentro da sacola, balançando para frente e para trás, havia um pequeno objeto redondo. Um presente, arriscaria você, e teria razão. Talvez você também arriscasse dizer que este Clayton Riddell era um jovem que queria comemorar alguma pequena (ou talvez não tão pequena assim) vitória com um pequeno tesouro, e teria razão novamente. O item dentro da sacola era um peso de papel consideravelmente caro com uma nuvem cinza de penugem de dente-de-leão no centro. Ele o comprara ao voltar do Copley Square Hotel para o muito mais modesto Atlantic Avenue Inn, onde estava hospedado, com medo da etiqueta de 90 dólares na base do peso de papel e, de certa forma, com mais medo ainda da noção de que ele não tinha condições de comprar uma coisa daquelas.

Entregar o cartão de crédito para o balconista exigira quase coragem física. Achava que não teria conseguido se o peso de papel fosse para ele; teria balbuciado algo sobre ter mudado de idéia e saído correndo da loja. Mas era para Sharon. Sharon gostava daquele tipo de coisa, e ainda gostava dele — estou torcendo por você, querido, ela disse um dia antes de ele ir para Boston. Levando em conta os problemas que tinham causado um para o outro no decorrer do ano passado, aquilo tinha mexido com ele. Agora ele queria mexer com ela, se é que ainda era possível. O peso de papel era uma coisa pequena (um pequeno tesouro), mas ele tinha certeza que ela adoraria aquela delicada nuvem cinza enfiada no meio do vidro, como uma névoa de bolso.

O tilintar de um caminhão de sorvete atraiu a atenção de Clay. Estava parado na calçada oposta ao Four Seasons Hotel (que era ainda mais grandioso do que o Copley Square) e próximo ao Boston Common, que segue pela Boylston por duas ou três quadras naquele lado da rua. As palavras MISTER SOFTEE estavam pintadas nas cores do arco-íris sobre uma dupla de sorvetes dançantes. Três garotos estavam amontoados na janela, mochilas no chão, esperando suas guloseimas. Atrás deles estava uma mulher de terninho com um poodle em uma coleira e duas adolescentes vestindo jeans de cós baixo, com iPods e fones de ouvido em volta dos pescoços, para que pudessem ficar cochichando — sérias, sem risadinhas.

Clay ficou atrás delas, transformando o que era antes um pequeno grupo em uma fila curta. Comprara um presente para a sua ex-mulher; passaria na Comix Supreme no caminho de casa e compraria para o filho a nova edição do Homem-Aranha; lalvez também se desse um presente. Estava louco para contar a novidade para Sharon, mas ela estaria fora de contato até chegar em casa, por volta das 15h45. Ele achou que ficaria no Inn pelo menos até falar com ela, basicamente andando de um lado para o outro no seu quarto pequeno e olhando para o portfolio aberto. Enquanto isso, o Mister Softee seria um passatempo aceitável.

O cara no caminhão serviu aos garotos na janela dois Dilly Bars e um cascão enorme de chocolate e baunilha para o gastador do meio, que pelo visto estava pagando para todos. Enquanto ele arrancava um punhado de notas amassadas do bolso do seu jeans baggy da moda, a mulher com o poodle e o terninho de poderosa enfiou a mão na sua bolsa de ombro, tirou o celular — mulheres que vestem terninhos de poderosa já não saem de casa sem o celular do mesmo jeito que não saem sem seus cartões de crédito da Amex — e o abriu. Atrás deles, no parque, um cachorro latiu e alguém gritou. Não pareceu a Clay um grito de alegria, mas, quando olhou por sobre o ombro, tudo que pôde ver foram alguns pedestres, um cachorro correndo com um frisbee na boca (eles não deviam estar na coleira lá dentro?, pensou), acres de verde ensolarado e sombras convidativas. Parecia um bom lugar para um homem que acabara de vender sua primeira graphic novel — e a continuação dela, ambas por uma bela grana — se sentar e tomar uma casquinha de chocolate.

Quando voltou a olhar, os três meninos de jeans baggy tinham ido embora e a mulher de terninho pedia um sundae. Uma das duas garotas atrás dela tinha um celular cor de hortelã preso à cintura e a mulher do terninho de poderosa trazia o dela enganchado na orelha. Clay pensou, como quase sempre pensava em algum nível da sua mente quando via uma variação daquele comportamento, que estava vendo um ato que no passado teria sido considerado de uma má educação quase intolerável — sim, mesmo durante uma pequena transação comercial com um completo estranho — se tornar um comportamento cotidiano aceitável.

Coloque isso no Dark Wanderer, querido, disse Sharon. A versão dela que ele trazia na cabeça falava bastante e sempre tinha algo a di-zer. Isso valia para a Sharon do mundo real também, com separação ou sem separação. Mas não no celular dele. Clay não tinha celular.

O cçlalar cor de hortelã tocou as primeiras notas daquela música do Crazy Frog que Johnny adorava — o nome era Axel P. Clay não conseguia lembrar, talvez porque a bloqueara da sua mente. A dona do telefone o tirou da cintura e falou:

— Beth? — Escutou, sorriu e então disse para a amiga: — É a Beth.

Em seguida, a outra garota inclinou o corpo para frente e as duas ficaram ouvindo, os cabelinhos curtos quase idênticos (para Clay elas pareciam personagens de desenho animado, as Meninas Superpode-rosas, talvez) balançando juntos na brisa da tarde.

— Maddy? — disse a mulher vestindo o terninho de poderosa quase na mesma hora. O poodle dela estava sentado de modo contem plativo na ponta da coleira (a coleira era vermelha e salpicada de alguma coisa cintilante), observando o tráfego na Boylston Street. Do outro lado, no Four Seasons, um porteiro vestindo um uniforme marrom — eles sempre eram marrons ou azuis — acenava, provavelmente para um táxi. Um 1 Duck Boat repleto de turistas passava, parecendo fora de lugar em terra, o motorista berrando em

1 Veículo anfíbio remanescente da Segunda Guerra Mundial que, atualmente, serve para levar turistas pela cidade de Boston. (N. do T.) seu megafone sobre algo histórico. As duas garotas que ouviam o telefone cor de hortela olharam uma para a outra e sorriram por conta de alguma coisa que escutavam, mas ainda não deram risadinhas.

— Maddy? Está me ouvindo? Está me...

A mulher de terninho ergueu a mão que segurava a coleira e meteu um dedo de unha longa na orelha livre. Clay estremeceu, temendo pelo tímpano dela. Imaginou-se a desenhando: o cachorro na coleira, o terninho de poderosa, o cabelo curto chique... e uma pequena gota de sangue pingando do dedo na orelha. O Duck Boat acabando de sair do quadro e o porteiro ao fundo, aquelas coisas emprestando ao desenho uma certa verossimilhança. Dariam; ele sabia que sim.

— Maddy, a ligação está caindo! Só queria dizer que cortei o cabelo naquele novo... meu cabelo?... MEU...

O cara do Mister Softee se abaixou e estendeu uma taça de sundae. Um Alpe se erguia dela com calda de chocolate e morango escorrendo pelos lados. Seu rosto, com a barba por fazer, estava impassível. Dava para ver que ele já tinha visto aquilo antes. Clay tinha certeza que sim, e mais de uma vez. No parque, algtiém gritou. Clay voltou a olhar por sobre o ombro, dizendo a si mesmojque tinha que ser um grito de alegria. Às três da tarde, no Boston Common, tinha que ser um grito de alegria. Não tinha?

A mulher disse algo ininteligível para Maddy e fechou o telefone celular com uma bem treinada virada do pulso. Largou-o de volta na bolsa e então ficou parada, como se tivesse se esquecido do que estava fazendo ou talvez até mesmo de onde estava.

— São quatro dólares e cinqüenta — disse o cara do Mister Softee, ainda estendendo pacientemente o sundae. Clay teve tempo para pensar como tudo era caro pra cacete na cidade. Talvez a Mulher do Terninho de Poderosa também achasse... aquele, pelo menos, era seu primeiro palpite... porque ela continuou sem ação por um instante, simplesmente olhou para a taça com seu morro de sorvete e calda escorrendo como se nunca tivesse visto algo parecido.

Então veio outro grito do Common, e daquela vez não era huma-no, mas algo entre um latido de surpresa e um uivo de dor. Clay se virou para olhar e viu o cachorro que estivera correndo com o frisbee na boca. Era um cão marrom de bom porte, talvez um labrador. Ele não conhecia cachorros direito; quando precisava desenhar um, pegava um livro e copiava a gravura. Um homem de terno estava ajoelhado ao lado do cão, usava uma gravata e parecia estar — com certeza não estou vendo o que acho que estou vendo — mastigando a orelha dele. Então o cachorro uivou novamente e tentou se desvencilhar. O homem de ter-no o segurou firme e, sim, aquela era a orelha do cão na boca do homem e, enquanto Clay continuava a olhar, ele a arrancou do lado da cabeça do animal. Desta vez, o cão soltou um grito quase humano, e vários patos que estavam flutuando em uma lagoa próxima alçaram vôo grasnando.

"Rast.1", alguém gritou atrás de Clay. Pareceu rast. Poderia ter sido rato ou rastro, mas experiências futuras o fizeram se decidir por rast não uma palavra de verdade, apenas um som inarticulado de agressão.

Ele se virou na direção do caminhão de sorvete a tempo de ver a Mulher do Terninho de Poderosa investir contra a janela em um esforço para agarrar o Cara do Mister Softee. Ela conseguiu pegá-lo pelas dobras soltas do avental, mas bastou um pulinho para trás para que ele se libertasse. Os saltos altos da mulher deixaram a calçada por um instante e ele ouviu o som de tecido se rasgando e o tilintar de botões, à medida que a frente do casaco dela subia pela beirada do balcão e depois escorregava de volta para baixo. O sundae caiu, sumindo de vista. Clay viu uma mancha de sorvete e calda no pulso esquerdo e no antebraço da Mulher do Terninho de Poderosa enquanto seus saltos altos batiam de volta na calçada. Ela cambaleou, joelhos dobrados. A expressão reservada, polida, estou-empúblico no seu rosto — que Clay chamava de cara inexpressiva-para-usar-narua — tinha sido substituída por um rosnado convulsivo que transformou seus olhos em frestas e expôs ambas as carreiras de dentes. O lábio superior estava completamente do avesso, revelando um tecido rosa e aveludado, tão íntimo quanto uma vulva. O poodle correu para a rua arrastando a coleira vermelha atrás de si com a alça na ponta. Uma limusine preta o atro-pelou antes de ele conseguir atravessar a metade da rua. Fofura em um instante, entranhas no outro.

O pobrezinho já devia estar latindo no paraíso dos cãezinhos antes de descobrir que estava morto, pensou Clay. Compreendeu de uma maneira vagamente clínica que estava em estado de choque, mas aquilo não modificou a profundidade do seu assombro. Ficou parado com o portfolio pendendo de uma das mãos e a sacola de compras marrom da outra, boquiaberto.

Em algum lugar — talvez na esquina da Newbury Street — algo explodiu.

As duas garotas tinham o mesmíssimo corte de cabelo sobre os fo-nes de ouvido de seus iPods, mas a do celular cor de hortelã era loura e a amiga era morena; eram a Cabelinho Claro e a Cabelinho Escuro. A Cabelinho Claro deixou o telefone cair na calçada, onde ele se despedaçou, e agarrou a Mulher do Terninho de Poderosa pela cintura. Clay supôs (da melhor maneira que lhe era possível supor algo naqueles instantes) que ela queria impedir a Mulher do Terninho de Poderosa ou de ir atrás do Cara do Mister Softee de novo ou de sair correndo para a rua atrás do cachorro. Uma parte da sua mente chegou a aplaudir a presença de espírito da menina. A amiga dela, Cabelinho Escuro, estava se afastando dali, mãozinhas brancas juntas entre os seios, olhos arregalados.

Clay largou seus próprios itens, um de caía lado, e deu um passo à frente para ajudar a Cabelinho Claro. Do outro lado da rua — viu isso apenas de soslaio — um carro perdeu a direção e disparou pela calçada em frente ao Four Seasons, fazendo o porteiro sair correndo do caminho. Gritos vieram do pátio do hotel. E, antes que Clay pudesse começar a ajudar a Cabelinho Claro com a Mulher do Terninho de Poderosa, a garota jogou o rostinho bonito para frente com a velocidade de uma cobra, mostrou os dentes jovens e sem dúvida fortes e os fincou no pescoço da mulher. Um enorme jato de sangue apareceu. A menina de cabelo curto enfiou a cara nele, parecendo banhar-se — talvez tenha até bebido (Clay tinha quase certeza que sim) —, e então sacudiu a Mulher do Terninho de Poderosa como uma boneca. A mulher era mais alta e devia ter uns 20 quilos a mais, mas a menina a sacudiu com força o suficiente para jogar a cabeça dela para frente e para trás, fazendo mais sangue jorrar. Ao mesmo tempo, ergueu o próprio rosto manchado de sangue para o céu azul-celeste de outubro e uivou de uma maneira que parecia triunfante.

Ela está louca, pensou Clay. Completamente louca.

A Cabelinho Escuro gritou:

— Quem é você? O que está acontecendo?

Ao som da voz da amiga, a Cabelinho Claro virou a cabeça sanguinolenta. Sangue pingava das pontas de cabelo em forma de adaga que pendiam da sua testa. Olhos como lâmpadas brancas fitavam de órbitas salpicadas de sangue.

A Cabelinho Escuro olhou para Clay, os olhos arregalados.

— Quem é você? — ela repetiu... e então: — Quem sou eu?

A Cabelinho Claro largou a Mulher do Terninho de Poderosa, que desabou na calçada com a carótida aberta a dentadas ainda esguichando, e então saltou na direção da garota com quem ela estivera dividindo amigavelmente um telefone alguns poucos minutos atrás.

Clay não pensou. Se tivesse pensado, a Cabelinho Escuro talvez tivesse acabado com a garganta aberta como a mulher vestindo o terninho de poderosa. Nem chegou a olhar. Simplesmente se abaixou, agarrou a parte de cima da sacola de compras da pequenos tesouros à sua direita e a girou contra a nuca da Cabelinho Claro, enquanto ela pulava em tima da sua ex-amiga com as mãos esticadas, formando garras contra o céu azul. Se ele errasse...

Não errou; tampouco acertou a garota de leve. O peso de papel de vidro dentro da sacola atingiu a nuca da Cabelinho Claro em cheio, fazendo um barulho abafado. Ela deixou as mãos caírem, uma manchada de sangue, outra ainda limpa, e desabou na calçada aos pés da amiga como um saco de correio.

— Que porra é essa? — exclamou o Cara do Mister Softee. A voz dele era de um agudo improvável. Talvez o choque o tenha emprestado aquele alto tenor.

— Não sei — disse Clay. O coração dele estava retumbando. — Rápido, me ajude. Esta outra aqui está se esvaindo em sangue.

De trás deles, na Newbury Street, veio o inconfundível som oco de batida e estilhaços de um acidente de carro, seguido de gritos. Os gritos foram acompanhados por outra explosão, mais alta, abaladora, martelando o dia. Atrás do caminhão do Mister Softee, outro carro perdeu a direção, atravessou três pistas da Boylston Street e entrou no pátio do Four Seasons, ceifou uma dupla de pedestres e por fim se enfiou na traseira do carro anterior, que acabara com a frente enroscada nas portas giratórias. Aquela segunda batida empurrou o carro mais para dentro das portas, entortando-as para o lado. Clay não conseguia ver se havia alguém preso lá dentro — nuvens de fumaça subiam do radiador aberto do primeiro carro —, mas os gritos aterrorizados nas sombras sugeriam coisas ruins. Muito ruins.

O Cara do Mister Softee, que não conseguia ver aquele lado, estava debruçado na janela do caminhão, olhando para Clay.

— O que está acontecendo lá atrás?

— Não sei. Algumas batidas de carro. Pessoas feridas. Esqueça. Me ajude aqui, cara.

Ele se ajoelhou ao lado da Mulher do Terninho de Poderosa no meio do sangue e os restos despedaçados do celular da Cabelinho Claro. Àquela altura, os espasmos da mulher já tinham ficado bem fracos.

— Tem fumaça subindo da Newbury — observou o Cara do Mister Softee, ainda sem abandonar a relativa segurança do seu caminhão de sorvete. — Alguma coisa explodiu lá. Coisa séria. Talvez sejam terroristas.

Assim que a palavra saiu da boca dele, Clay teve certeza de que ele tinha razão.

— Me ajude.

— QUEM SOU EU? — a Cabelinho Escuro gritou de repente.

Clay tinha se esquecido completamente dela. Ergueu os olhos a tempo de ver a garota bater na própria testa com a base da mão, e então dar três voltas rápidas em torno de si, ficando quase na ponta dos tênis ao fazê-lo. A visão trouxe à tona a lembrança de um poema que ele lera em uma aula de literatura na faculdade — Descreva um círculo ao redor dele três vezes. Coleridge, não era? Ela cambaleou e, em seguida, correu depressa pela calçada e bateu de frente em um poste. Não tentou desviar, nem mesmo levantou as mãos. Meteu a cara nele, ricocheteou, cambaleou e fez de novo.

— Pare com isso! — vociferou Clay. Ele saltou de pé, começou a correr na direção dela, escorregou no sangue da Mulher do Terninho de Poderosa, quase caiu, voltou a correr, tropeçou na Cabelinho Claro e quase caiu mais uma vez.

A Cabelinho Escuro se virou para olhar para ele. O nariz dela estava quebrado e esguichava sangue até a parte inferior de seu rosto. Uma contusão vertical estava inchando na sobrancelha, como uma nuvem carregada em um dia de verão. Um dos olhos tinha se entortado na órbita. Ela abriu a boca, expondo os destroços do que provavelmente havia sido um tratamento dentário caro, e sorriu para ele. Ele nunca se esqueceu daquilo.

Então ela saiu correndo pela calçada, gritando.

Atrás dele, um motor deu partida e sinos amplificados começaram a badalar o tema de Vila Sésamo. Clay se virou e viu o caminhão do Mister Softee saindo rapidamente do meio-fio na hora em que, do último andar do hotel do outro lado da rua, uma janela se estilhaçava em uma ducha brilhante de vidro. Um corpo se atirava no dia de outubro. Caiu na calçada, onde mais ou menos explodiu. Mais gritos vindos do pátio. Gritos de horror; gritos de dor.

— Não!— gritou Clay, correndo do lado do caminhão do Mister Softee. — Não, volte e me ajude! Preciso que alguém me ajude aqui, seu filho-da-puta!

Não houve resposta do Cara do Mister Softee, que talvez nem tenha escutado por conta da música alta. Clay conseguia lembrar a letra de uma época em que não tinha motivos para acreditar que seu casamento não duraria para sempre. Naquele tempo, Johnny assistia a Vila Sésamo todos os dias, sentado na sua cadeirinha azul e com as mãos em volta do seu copinho de neném. Algo sobre um dia ensolarado, que mantinha longe as nuvens.

Um homem de terno veio correndo do parque, rugindo sons sem palavras a plenos pulmões, as abas do paletó batendo às suas costas. Clay o reconheceu por conta do cavanhaque de pêlo de cachorro. O homem foi correndo para a Boylston Street. Carros derrapavam ao redor dele, não o atropelando por pouco. Atravessou para o outro lado, sem parar de rugir e acenar com as mãos para o céu. Desapareceu nas sombras sob o toldo do pátio do Four Seasons e sumiu de vista, mas deve ter arranjado mais encrenca imediatamente, pois uma nova torrente de gritos irrompeu do lado de lá.

Clay desistiu de perseguir o caminhão do Mister Softee e ficou com um pé na calçada e outro enfiado na sarjeta, observando-o seguir até a pista do meio da Boylston Street, com o sino ainda tocando. Estava prestes a voltar para a menina inconsciente e a mulher moribunda quando outro Duck Boat apareceu. Aquele não estava vindo devagar, e sim disparando à velocidade máxima e balançando loucamente de bombordo a estibordo. Alguns dos passageiros estavam sendo jogados para frente e para trás e berrando — implorando — para que o piloto parasse. Outros simplesmente se agarravam aos suportes de metal que corriam pelas laterais abertas do trambolho enquanto ele vinha na direção da Boylston Street de encontro ao tráfego.

Um homem de suéter agarrou o motorista por trás e Clay ouviu outro daqueles gritos desarticulados através do sistema de amplificação primitivo do barco, enquanto o motorista atirou o cara longe, jogando os ombros para trás com força. Não foi Rastr daquela vez, e sim algo mais gutural, algo como Gluh! Então o motorista viu o caminhão do Mister Softee — Clay tinha certeza disso — e mudou de rumo, indo na direção dele.

— Oh Deus, por favor, não!— gritou uma mulher sentada perto da frente na embarcação para turistas e, à medida que ela se aproximava do caminhão de sorvete, que tinha quase um sexto do seu tamanho, Clay se lembrou com clareza de estar assistindo ao desfile de vitória dos Red Sox na tevê no ano em que eles ganharam a WUUTKI Series. O time veio em uma procissão lenta daqueles mesmos Duck Boats, acenando para as massas delirantes enquanto uma garoa gelada de outono caía.

— Deus, por favor, não!— a mulher voltou a gritar e, do lado de Clay, um homem disse, quase com brandura: — Jesus Cristo.

O Duck Boat atingiu o caminhão de sorvete com a parte lateral e o virou como um brinquedo de criança. Ele caiu de lado com o seu próprio sistema de amplifícação ainda tilintando o tema de Vila Sésamo e deslizou para trás na direção do Common, atirando para cima rajadas de faíscas geradas pelo atrito. Duas mulheres que estavam observando saíram correndo do caminho, de mãos dadas, e escaparam por um triz. O caminhão do Mister Softee entrou quicando na calçada, ficou suspenso no ar por um instante, atingiu a cerca de ferro batido em torno do parque e se deteve. A música pulou duas vezes e cessou em seguida.

Enquanto isso, o lunático que dirigia o Duck Boat perdera qualquer vago controle que tivera antes sobre o veículo. Ele disparou de volta pela Boylston Street com sua carga de passageiros aterrorizados, gritando e se agarrando às laterais abertas, subiu a calçada oposta a uns 50 metros do local onde o caminhão do Mister Softee tilintara pela última vez e se chocou contra o muro de sustentação debaixo da vitrine de uma loja de móveis chique chamada Citylights. Houve um estrondo enorme e dissonante à medida que a janela se despedaçava. A traseira grande do Duck Boat (Dama da Enseada estava escrito em letras rosa) subiu cerca de um metro e meio no ar. A força cinética queria que o trambolho sacolejante capotasse; a massa não permitia. Assentou-se de volta na calçada com o bico enfiado entre os sofás espalhados e as dispendiosas cadeiras de sala de estar, mas não sem antes atirar para frente pelo menos uma dúzia de pessoas, que desapareceram de vista.

Dentro da Citylights, um alarme começou a soar.

— Jesus Cristo — repetiu a voz branda do lado direito de Clay. Ele se virou e viu um homem baixinho com cabelo preto ralo, bigodlnho preto e óculos com armação dourada. — O que está acontecendo?

— Não sei — respondeu Clay. Era difícil falar. Muito difícil. Ele se viu tendo que quase empurrar as palavras para fora. Imaginou que fosse o choque. Do outro lado da rua, pessoas corriam, algumas saídas de dentro do Four Seasons, outras do Duck Boat acidentado. Enquanto ele observava, um fugitivo do Duck Boat colidiu com um dos que escaparam do hotel e ambos se espatifaram na calçada. Clay teve tempo de se perguntar se tinha enlouquecido e se aquilo tudo não seria uma alucinação dele em algum manicômio. Juniper Hill, na região de Augusta, talvez, entre injeções de Torazina. — O cara no caminhão de sorvete disse que talvez fossem terroristas.

— Não estou vendo homens armados — disse o baixinho de bigode. — Nem gente com bombas amarradas nas costas.

Clay também não, mas ele viu a sacola de compras da pequenos tesouros e o portfolio na calçada, e viu que o sangue da garganta aberta da Mulher do Terninho de Poderosa — bons deuses, pensou, tanto sangue— tinha quase alcançado o portfolio. Apenas uns dez desenhos seus do Dark Wanderer estavam lá dentro e era com os desenhos que ele estava preocupado. Ele começou a voltar para lá a passos rápidos e o baixinho o acompanhou no mesmo ritmo. Quando um segundo alarme contra roubos (bem, algum tipo de alarme) disparou no hotel, juntando seu zurro rouco ao som do alarme da Citylights, o sujeitinho deu um pulo.

— É o hotel — disse Clay.

— Eu sei, é só que... oh, meu Deus. — Ele acabara de ver a Mulher do Terninho de Poderosa, que estava deitada em um lago daquela coisa mágica que vinha fazendo tudo nela funcionar... há quanto tempo? Quatro minutos? Ou só dois?

— Ela está morta — Clay falou. — Tenho quase certeza. Aquela garota... — Apontou para a Cabelinho Claro. — Foi ela. Com os dentes.

— Tá brincando.

— Bem que eu queria.

Uma outra explosão veio de algum lugar mais adiante na Boylston Street. Os dois homens se abaixaram. Clay notou que sentia cheiro de fumaça. Pegou a sacola da pequenos tesouros e o portfolio e os tirou de perto do sangue que se espalhava.

— Essas coisas são minhas — falou, se perguntando por que sentiu necessidade de explicar.

O sujeitinho, que usava um terno de tweed — muito elegante, pensou Clay —, ainda estava olhando, aterrorizado, para o corpo enroscado da mulher que parará para comprar um sundae e perdera primeiro o cachorro e depois a vida. Atrás deles, três jovens passaram correndo pela calçada, rindo e fazendo algazarra. Dois estavam com bonés dos Red Sox virados para trás. Um deles estava segurando uma caixa de papelão contra o peito. Tinha a palavra panasonic escrita em azul na lateral. Este último pisou no sangue da Mulher de Terninho de Po-derosa com o tênis direito e deixou uma trilha de um pé só desaparecendo atrás de si, enquanto ele e os colegas corriam para a extremidade leste do Common e além, em direção a Chinatown.

Clay se agachou, apoiando-se em ura joelho, e usou a mão que não estava agarrando o portfolio (estava com mais medo ainda de perdê-lo depois que viu o menino correndo com a caixa de papelão da panasonic) para pegar o punho da Cabelinho Claro. Encontrou o pulso de imediato. Estava lento, mas forte e regular. Sentiu um grande alívio. Não importava o que ela tinha feito, era só uma menina. Não queria pensar que a matara com uma pancada do peso de papel que ia dar de presente para a mulher.

— Cuidado! Cuidado! — quase cantou o sujeitinho de bigode.

Clay não teve tempo de ter cuidado. Por sorte, daquela vez não era nem perto deles. O veículo, um daqueles enormes utilitários esportivos a gasolina, saiu da pista da Boylston e entrou no parque a uns 20 metros de onde ele estava agachado, emaranhando-se na cerca de ferro batido e indo parar com o pára-choque enfiado na lagoa dos patos.

A porta se abriu e um jovem saiu tropeçando de dentro do carro, gritando imprecações contra o céu. Caiu ajoelhado na água, bebeu um pouco dela com as duas mãos (um pensamento cruzou a cabeça de Clay sobre todos os patos que tinham cagado alegremente naquela lagoa anos a fio), então fez um esforço para se levantar e atravessou a água para o lado oposto. Desapareceu em um arvoredo, ainda brandindo as-jnãos e berrando seu sermão incoerente.

— Temos que encontrar ajuda para essa garota — disse Clay para o homem de bigode. — Está inconsciente, mas não corre risco algum de vida.

— O que temos que fazer é sair da rua antes de sermos atropelados — respondeu o homem e, como se para validar seu argumento, um táxi bateu em uma limusine perto do Duck Boat acidentado. A limusine estava na contramão, mas o táxi sofreu mais com o impacto; enquanto Clay olhava ainda ajoelhado na calçada, o motorista saiu voando pela janela subitamente sem vidro do carro e caiu na rua, segurando um braço ensangüentado para cima e gritando.

O homem de bigode estava certo, é claro. A racionalidade que Clay conseguiu juntar — só um pouquinho dela conseguiu atravessar a cortina de choque que abafava seu raciocínio — sugeriu que a ação mais sensata, de longe, seria dar o fora da Boylston Street e procurar abrigo. Se aquilo fosse um ato terrorista, não parecia com nada que ele tivesse visto ou lido. O que ele — eles — devia fazer era se esconder e ficar escondido até a situação se esclarecer. Aquilo provavelmente en-volveria encontrar uma televisão. Mas ele não queria deixar aquela menina inconsciente estirada em uma rua que de repente virará um manicômio. Todos os instintos do seu geralmente terno — e certamente civilizado — coração se ergueram contra essa idéia.

— Vá em frente — ele disse para o homenzinho de bigode. Falou aquilo com imensa relutância. Nunca vira o homenzinho mais gordo, mas pelo menos ele não estava berrando imprecações e jogando as mãos para o céu. Ou partindo para cima da garganta de Clay com os dentes para fora. — Procure algum abrigo. Eu vou... — Ele não sabia como terminar a frase.

— Vai o quê? — perguntou o homem e, em seguida, jogou os ombros para frente e se encolheu quando alguma outra coisa explodiu.

Aquela explosão parecia ter vindo logo de trás do hotel e então fumaça negra começou a subir de lá, manchando o céu azul antes de ficar alta o suficiente para o vento levar embora.

— Vou ligar para a polícia — disse Clay, subitamente inspirado. — Ela tem um celular. — Ele apqntou com o polegar para a Mulher do Terninho de Poderosa, que estava deitada em uma piscina do próprio sangue. — Ela estava usando antes... sabe, logo antes de a merda...

Ele se interrompeu, relembrando o que exatamente tinha acontecido antes de a merda bater no ventilador. Surpreendeu-se olhando primeiro para a mulher morta, depois para a garota inconsciente e então para os fragmentos do celular cor de hortelã da menina.

Sirenes de dois timbres diferentes encheram o ar. Clay supôs que um dos timbres pertencia a carros de polícia e o outro a caminhões de bombeiros. Supôs que saberia a diferença se morasse na cidade, mas ele não morava, vivia em Kent Pond, no Maine, e desejou de todo coração estar lá naquele momento.

O que aconteceu logo antes de a merda bater no ventilador foi que a Mulher do Terninho de Poderosa ligara para sua amiga Maddy para contar que tinha cortado o cabelo e uma das amigas da Cabelinho Claro tinha ligado para ela. A Cabelinho Escuro escutara essa última ligação. Depois disso, as três enlouqueceram.

Você não está pensando...

De trás deles, da direção leste, veio a maior explosão de todas: um som tremendo que mais parecia um tiro de escopeta. Clay saltou de pé. Ele e o homenzinho de terno de tweed se entreolharam desvairados e em seguida olharam na direção de Chinatown e do North End de Boston. Não conseguiam ver o que explodira, mas um penacho de fumaça muito mais largo e escuro subia para além dos prédios daquele lado do horizonte.

Enquanto olhavam para ele, uma radiopatrulha da polícia de Boston e um caminhão de bombeiro com escada pararam em frente ao Four Seasons do outro lado da rua. Clay olhou para a outra calçada a tempo de ver um outro suicida sair voando do último andar do hotel, seguido por mais dois do telhado. Para Clay, parecia que os dois últimos estavam brigando enquanto caíam.

— Meu Deus do Céu, NÃO!— gritou uma mulher. — Oh, não, CHEGA, CHEGA!

O primeiro do trio suicida caiu na traseira do carro de polícia, atirando cabelo e entranhas na lataria do portamala e estilhaçando a janela de trás. Os outros dois caíram no caminhão, enquanto bombeiros vestidpS com capotes amarelobrilhantes se espalhavam como pás-saros inverossímeis.

— NÃO!— berrou a mulher. — CHEGA! CHEGA! BOM DEUS, JÁ CHEGA!

Mas então uma mulher se jogou do quinto ou sexto andar, às cambalhotas como uma acrobata louca, atingindo um policial que estava olhando para cima e com certeza matando-o ao mesmo tempo em que matou a si mesma.

Do norte, veio outra daquelas explosões ensurdecedoras — o som do diabo atirando com uma escopeta no inferno —, e Clay olhou mais uma vez para o homenzinho, que olhava ansiosamente para ele. Mais fumaça subia até o céu e, apesar do vento forte, o azul estava quase encoberto.

— Eles estão usando aviões de novo — disse o homenzinho. — Os desgraçados estão usando aviões de novo.

Como que para reforçar essa idéia, o som de uma terceira explosão monstruosa veio rolando na direção deles da parte nordeste da cidade.

— Mas... o aeroporto é para lá. — Clay estava tendo dificuldades para falar de novo e mais dificuldade ainda para pensar. Tudo o que parecia haver na sua cabeça era uma espécie de piada pela metade: Já ouviu aquela dos terroristas (insira aqui o seu grupo étnico favorito) que decidiram acabar com a América explodindo o aeroporto?

— E?... — perguntou o homenzinho, de um jeito quase truculento.

— E por que não o Hancock Building? Ou o arranha-céu do Prudential Center?

O homenzinho curvou os ombros.

— Não sei. Só sei que quero sair dessa rua.

Como se para dar ênfase a esse argumento, meia dúzia de jovens passaram correndo por eles. Boston era uma cidade de gente jovem, notou Clay — com todas aquelas universidades. Aqueles seis, três homens e três mulheres, pelo menos não tinham roubado nada, e com certeza não estavam rindo. Enquanto corriam, um dos rapazes tirou o celular e o colou na orelha.

Clay olhou para o outro lado da rua e viu que uma segunda viatura preto-ebranca tinha estacionado atrás da primeira. Não havia necessidade de usar o celular da Mulher do Terninho de Poderosa, no fim das contas (o que era bom, já que ele decidira que não queria mesmo fazer aquilo). Poderia simplesmente atravessar a rua e falar com eles... só que não tinha certeza se teria coragem de atravessar a Boylston Street naquele instante. E mesmo que o fizesse, será que eles viriam para aquela calçada para atender uma garota inconsciente quando tinham só Deus sabe quantas mortes do lado de lá! E, à medida que observava, os bombeiros começaram a entrar de volta no caminhão; parecia que estavam indo para algum outro lugar. Para o aeroporto Logan, possivelmente, ou...

— Ai meu Jesus Cristo, olha só aquele — disse o homenzinho de bigode, falando com uma voz baixa e tensa. Estava olhando para o oeste, na Boylston em direção ao centro, de onde Clay tinha vindo quando seu maior objetivo na vida era conseguir ligar para Sharon. Ele até sabia como iria começar a ligação: Boas noticias, querida — não importa como as coisas estejam entre nós, sempre vai ter comida no prato para o garoto. Na cabeça dele, parecia alegre e engraçado — como nos velhos tempos.

Não tinha nada de engraçado naquilo. Na direção deles — sem correr, mas andando a passos largos e decididos — vinha um homem de uns 50 anos, vestindo calça social e os restos de uma camisa e gravata. As calças eram cinza. Era impossível saber quais eram as cores da camisa e da gravata, pois ambas estavam em farrapos e manchadas de sangue. O homem carregava na mão direita o que parecia ser um cutelo com uma lâmina de uns 45 centímetros. Clay achava de verdade que tinha visto aquele cutelo, na vitrine de uma loja chamada Soul Kitchen, quando estava voltando da reunião no Copley Square Hotel. O jogo de facas na vitrine (AÇO SUECO! proclamava o pequeno cartão impresso na frente dele) brilhara sob a luz atraente dos spots escondidos, mas aquele cutelo já tinha sido bem usado desde que saíra de lá — ou mal usado — e estava embaçado de sangue.

O homem de blusa esfarrapada brandiu o cutelo à medida que se aproximava dos dois com seus passos firmes, a lâmina descrevendo arcos curtos para cima e para baixo no ar. Ele quebrou o padrão somente uma vez, para golpear a si mesmo. Um novo córrego de sangue desceu pelo cqrte recém-aberto na camisa rasgada. Os restos da gravata se agitaram. Ao se aproximar, ele os intimidou como um pregador caipira falando no palavrório fervoroso de alguma revelação divina.

— Ailá! — gritou. — Eilá-ailá-ababala nazi Ababala hein? Abunalu ué? Kazald! Kazald-VAli FiufXl-fiuf— E então levou o cutelo de volta ao quadril direito e além dele e Clay, cujo senso visual era superdesenvolvido, viu o golpe arrebatador que viria em seguida. O golpe nas entranhas, dado ao mesmo tempo em que o homem continuava sua marcha insana para lugar nenhum pela tarde de outubro naqueles passos firmes e declamatórios.

— Cuidado! — gritou o homenzinho de bigode, mas ele não estava tomando cuidado, não o sujeitinho de bigode; o sujeitinho de bigode, a primeira pessoa normal com quem Clay Riddell falara desde o começo da loucura... que tinha, na verdade, falado com ele, que provavelmente juntara alguma coragem, dadas as circunstâncias... estava congelado, os olhos maiores do que nunca por trás das lentes dos seus óculos de aros dourados. E será que o maluco estava indo para cima dele porque, dos dois homens, o de bigode era menor e parecia uma presa mais fácil? Se fosse assim, talvez o senhor Palavrório-Fervoroso não fosse completamente louco, e de repente Clay ficou tanto com raiva quanto assustado, com a raiva que ficaria se tivesse olhado pelo portão do pátio de uma escola e visto um valentão batendo em um menino mais novo para se aquecer.

— CUIDADO! — quase chorou o homem de bigode, ainda imóvel enquanto a morte vinha correndo na direção dele, a morte libertada de uma loja chamada Soul Kitchen, onde os cartões Diner's Club e Visa sem dúvida eram aceitos, e também o seu Cheque se Acompanhado do Cartão do Banco.

Clay não pensou. Simplesmente pegou de volta o portfolio pela alça dupla e o enfiou entre o cutelo que se aproximava e seu novo amigo de terno de tweed. A lâmina o cortou inteiro com um som oco, mas a ponta se deteve a 10 centímetros da barriga do homenzinho. O sujeitinho finalmente se tocou e tomou um passo medroso pelo lado, na direção do Common, gritando por ajuda a plenos pulmões.

O homem de camisa e gravata esfarrapadas — começando a ficar meio bochechudo e com papada, como se sua matemática pessoal de boa alimentação e bom exercício tivesse parado de dar certo há uns dois anos — interrompeu de súbito a peroração sem sentido. O rosto dele assumiu uma expressão de perplexidade vazia que parecia muito com surpresa, e mais ainda com assombro.

O que Clay sentiu foi uma espécie de ultraje desolador. A lâmina cortara todos os seus retratos do Dark Wanderer (para ele aqueles eram retratos, jamais desenhos ou ilustrações), e lhe parecia que aquele som oco era o barulho da lâmina penetrando em uma câmara especial do seu coração. Era uma bobagem, pois ele tinha reproduções de tudo, incluindo as quatro splash-pages coloridas, mas isso não o fazia se sentir melhor. A lâmina do maluco rasgara John, o Feiticeiro (em homenagem ao seu filho, é claro), Flak, o Mago, Frank e os Posse Boys, Gene Dorminhoco, Sally Venenosa, Lily Astolet, a Bruxa Azul e, claro, Ray Damon, o próprio Dark Wanderer. As criaturas fantásticas dele, que viviam na caverna da sua imaginação e estavam prontas para libertá-lo da chatice que era ensinar arte em uma dúzia de escolas rurais do Maine, dirigir milhares de quilômetros e praticamente viver no carro.

Ele poderia jurar que tinha ouvido os personagens gemerem quando a lâmina sueca do louco os perfurou enquanto dormiam o sono dos inocentes.

Furioso, sem se preocupar com o cutelo (pelo menos por ora), ele empurrou o homem de camisa rasgada rapidamente para trás, usando o portfolio como uma espécie de escudo, ficando cada vez mais irado à medida que ele se entortava em um grande V ao redor da lâmina.

— Blet!— urrou o lunático e tentou puxar o cutelo de volta. Estava preso demais. — Blet qui-iã dô-rã kazalá ababalá!

— Eu vou meter o ababalá no seu a-kazalá, seu merda! — gritou Clay e enfiou o pé esquerdo atrás das pernas agitadas do lunático. Mais tarde ocorreu-lhe que o corpo sabe como lutar quando precisa. Que aquele é um segredo que o corpo guarda, do mesmo jeito que o faz com os segredos de como correr ou pular um riacho, ou dar uma trepada ou, muito possivelmente, morrer quando não há outra escolha. Que sob situações de estresse extremo, o corpo simplesmente assume o controle e faz o que tem que ser feito, enquanto o cérebro sai de cena, incapaz de fazer outra coisa que não assobiar, bater o pé e olhar para o céu. Ou então contemplar o som de um cutelo rasgando o portfolio que sua mulher dera para você no seu aniversário de 28 anos.

O lunático tropeçou no pé de Clay na hora que o corpo esperto dele quis que o homem tropeçasse e caiu de costas na calçada. Clay ficou em cima dele, resfolegando, ainda agarrando o portfolio com as duas mãos, como um escudo entortado em uma batalha. O cutelo ainda estava preso nele, cabo para um lado, lâmina para o outro.

O lunático tentou se levantar. O novo amigo de Clay veio em disparada e chutou-lhe o pescoço, com muita força. O sujeitinho estava chorando alto, as lágrimas jorrando pelas faces e embaçando as lentes dos seus óculos. O homem caiu de volta na calçada com a língua saindo da boca. Produziu sons de sufocação que Clay achou parecidos com o palavrório fervoroso de antes.

— Ele tentou nos matar! — chorou o homenzinho. — Ele tentou nos matar.

— Sim, sim — disse Clay. Ele estava ciente de que havia dito sim, sim para Johnny da mesmíssima forma na época em que eles ainda o chamavam de Johnny-Gee e ele vinha na direção dos dois pelo caminho de entrada da casa com as canelas ou cotovelos ralados berrando eu tenho SANGUE!

O homem na calçada (que tinha bastante sangue) estava apoiado nos cotovelos, tentando se levantar de novo. Clay fez as honras daquela vez, tirando um dos cotovelos dele do chão com um chute e fazendo-o voltar para o asfalto. O chute parecia no máximo um quebra galho, e dos piores. Clay agarrou o cabo do cutelo, retraiu-se por conta da sensação pegajosa do sangue meio gelatinoso nele — era como passar a palma da mão por um pedaço de gordura fria de bacon — e puxou. O cutelo se soltou um pouco, mas depois ou ficou preso ou sua mão escorregou. Imaginava ter ouvido os personagens murmurando em agonia de dentro da escuridão do portfolio e ele mesmo produziu um som de dor. Não pôde evitar. E não pôde deixar de pensar no que pretendia fazer com o cutelo assim que o soltasse. Esfaquear o lunático até a morte com ele? Pensou que talvez tivesse conseguido fazê-lo no calor do momento, mas provavelmente não naquele instante.

Continuar: parte 2 de 4