Celular

Stephen King · Capítulo 1 de 5 · parte 3/4

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Celular

A civilização entrou na sua segunda idade…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Você conseguiu falar com ela — disse Clay, querendo esclarecer bem aquele ponto.

— Ela estava muito assustada. Me pediu para ir para casa. Falei que tinham me aconselhado a ficar no hotel com as portas trancadas. A polícia tinha me aconselhado. Falei para ela fazer o mesmo. Tranque as portas e fique... bem, fique na encolha. Ela implorou que eu fosse para casa. Disse que tinha ouvido tiros na rua e uma explosão a uma rua de distância. Falou que viu um homem nu correndo pelo quintal dos Benzyck. Os Benzyck são nossos vizinhos.

— Sim — disse Tom com brandura. Docemente, até. Clay não falou nada. Estava um pouco envergonhado pela raiva que sentira do Sr. Ricardi, mas Tom ficara com raiva também.

— Ela disse que achava que o homem nu talvez... talvez, ela só disse talvez... estivesse carregando o corpo de uma... mmm... uma criança nua. Mas provavelmente era só uma boneca. Ela me implorou de novo para deixar o hotel e voltar para casa.

Clay já tinha conseguido o que precisava. Os telefones fixos eram seguros. O Sr. Ricardi estava em estado de choque, e não louco. Clay colocou a mão no aparelho. O Sr. Ricardi colocou a mão sobre a dele antes de Clay levantar o fone. Os dedos do Sr. Ricardi eram longos, pálidos e muito frios. Ele ainda não terminara. Estava inspirado.

— Ela me chamou de filho-da-puta e desligou. Sei que estava com raiva de mim e é claro que entendo o porquê. Mas a polícia me disse para trancar tudo e ficar onde estava. A polícia me disse para ficar fora das ruas. A polícia. As autoridades.

Clay assentiu.

— As autoridades, claro.

— Você veio de metrô? — perguntou o Sr. Ricardi. — Eu sempre uso o metrô. Fica a duas quadras daqui. É muito conveniente.

— Não seria conveniente nesta tarde — falou Tom. — Depois do que acabamos de ver, nada me faria ir lá para baixo.

O Sr. Ricardi olhou para Clay com uma impaciência chorosa.

— Está vendo?

Clay assentiu mais uma vez.

— Você está mais seguro aqui — falou. Sabendo que queria ir para casa ver o filho. Sharon também, é claro, mas principalmente o filho. Sabendo que não deixaria nada impedi-lo, a não ser que fosse inevitável. Era como um peso na sua mente que lançava uma sombra real sobre seus olhos. — Muito mais seguro.

Então pegou o fone e discou 9 para uma linha externa. Não tinha certeza se iria conseguir uma, mas conseguiu. Discou 1, depois 207, que era o código de área para todo o Maine, e então 692, que era o prefixo para Kent Pond e para as cidades vizinhas. Discou três dos quatro números — quase alcançando a casa na qual ainda pensava como lar — antes de os característicos três toques o interromperem. Uma voz feminina gravada entrou em seguida. "Desculpenos. Todos os circuitos estão ocupados. Por favor, tente fazer sua chamada mais tarde."

Logo em seguida, veio um tom de discagem, como se um circuito automático o tivesse desconectado do Maine... se é que era de lá que vinha a voz da máquina. Clay deixou o fone cair até a altura do ombro, como se tivesse ficado muito pesado. Então o colocou de volta no gancho.

Tom disse que ele era louco de querer sair dali.

Em primeiro lugar, apontou Tom, eles estavam relativamente seguros no Atlantic Avenue Inn, especialmente com os elevadores desativados e o acesso ao saguão pelas escadas bloqueado. Tinham feito isso empilhando caixas e malas que estavam na sala de bagagens em frente à porta no fim do corredor curto depois da área dos elevadores. Mesmo se alguém dotado de uma força extraordinária empurrasse a porta do outro lado, conseguiria apenas arrastar a pilha até a parede oposta, criando uma brecha de talvez 15 centímetros. Insuficiente para uma pessoa passar.

Em segundo lugar, o tumulto na cidade além do porto seguro deles parecia estar aumentando. Havia uma zoeira constante de alarmes que se misturavam, gritos e berros, motores em disparada e, às vezes, o cheiro apavorante de fumaça, embora parecesse que o vento forte do dia estivesse levando a maior parte dela para longe dali. Até agora, pensou Clay, mas não disse em voz alta, pelo menos não por ora — não queria deixar a garota mais assustada do que já estava. Havia explosões que nunca pareciam vir individualmente, e sim em espasmos. Uma delas foi tão perto que todos se agacharam, certos de que a janela da frente iria explodir. Não aconteceu, mas, depois daquilo, eles foram para o santuário do Sr. Ricardi.

O terceiro motivo que Tom deu para achar que Clay estava louco de simplesmente pensar em deixar a precária segurança do hotel era que já eram 17hl5. O dia estava para terminar. Ele argumentou que tentar sair de Boston de noite seria loucura.

— Dê uma olhada lá fora — ele disse, gesticulando para a pequena janela do Sr. Ricardi, que dava para a Essex Street. A Essex estava repleta de carros abandonados. Havia pelo menos um corpo, de uma jovem vestindo jeans e uma camiseta dos Red Sox. Estava de bruços na calçada, com os dois braços estirados, como se tivesse morrido tentando nadar. VARITEK, dizia a camiseta. — Você está pensando que vai conseguir dirigir seu carro? Se estiver, é melhor pensar de novo.

— Ele está certo — disse o Sr. Ricardi. Ele estava sentado atrás da mesa com os braços cruzados mais uma vez sobre o peito estreito, um estudo em desalento. — O seu carro está no estacionamento da Tamworth Street. Acho que você não vai conseguir nem recuperar as chaves.

Clay, que já havia considerado o carro uma causa perdida, abriu a boca para dizer que não estava pensando em dirigir (pelo menos não em um primeiro momento), quando outro baque veio do andar de cima, daquela vez, forte o bastante para fazer o teto tremer. Alice Maxwell, que estava sentada na cadeira em frente à mesa do Sr. Ricardi, olhou nervosa para cima e então começou a se encolher mais ainda.

— O que tem lá em cima? — perguntou Tom.

— Logo acima da gente fica a Sala Iroquois — respondeu o Sr. Ricardi. — A maior das nossas três salas de reunião e onde guardamos todas os nossos materiais: cadeiras, mesas, equipamento audiovisual. — Ele fez uma pausa. — E, embora não tenhamos um restaurante, organizamos bufês ou coquetéis, se os clientes requisitarem esse tipo de serviço. O último baque...

Ele não completou a frase. Na opinião de Clay, não precisava. Aquele último baque foi de um carrinho com uma pilha de utensílios de vidro sendo virado no chão da Sala Iroquois, onde vários outros carrinhos e mesas já tinham sido derrubados por algum louco que estava andando de um lado para o outro furiosamente lá em cima. Zunindo pelo segundo andar como um inseto preso entre a janela e a tela, algo sem inteligência para descobrir a saída, algo que só sabia correr e parar, correr e parar.

Alice falou pela primeira vez em quase meia hora e, pela primeira vez desde que a encontraram, sem que alguém a incitasse.

— Você disse alguma coisa sobre uma mulher chamada Doris.

— Doris Gutierrez. — O Sr. Ricardi assentia com a cabeça. — A chefe da limpeza. Excelente funcionária. Provavelmente a melhor. Ela estava no terceiro andar na última vez que falei com ela.

— Ela estava com... — Alice não falou. Em vez disso, fez um gesto que se tornara quase tão familiar para Clay quanto o indicador na frente dos lábios indicando Shh. Alice colocou a mão direita do lado do rosto com o polegar perto da orelha e o dedinho na frente da boca.

— Não — disse o Sr. Ricardi, quase afetadamente. — Os funcionários são obrigados a deixá-los nos seus armários durante o expediente. Uma violação e eles ganham uma advertência. Duas e podem ser despedidos. Digo isso a eles quando são contratados. — Ele meio que deu de ombros com um só ombro magro. — A política é da casa, não minha.

— Ela poderia ter descido para o segundo andar para investigar aqueles sons? — perguntou Alice.

— Provavelmente — disse o Sr. Ricardi. — Não tenho como saber. Só sei que não tive notícias de Doris desde que fui comunicado do fogo na lata de lixo, e ela não respondeu ao bipe. Eu a bipei duas vezes.

Clay não queria dizer: Viram, aqui também não é seguro, em voz alta, então olhou para Tom, que estava atrás de Alice, tentando passar para ele a idéia básica com os olhos.

Tom falou:

— Quantas pessoas você diria que ainda estão nos andares de cima?

— Não tenho como saber.

— Se tivesse que adivinhar.

— Não muitas. Em se tratando do pessoal da limpeza, provavelmente só Doris. Os funcionários do dia saem às três e os da noite só chegam às seis. — O Sr. Ricardi apertou os lábios com força. — É um gesto de economia. Não se pode dizer medida, porque não funciona. Quanto aos hóspedes...

Ele pensou.

— A tarde é parada para nós, muito parada. Os hóspedes da noite anterior já saíram todos, é claro, a diária acaba ao meio-dia no Atlantic Inn, e os hóspedes da noite não começam a se registrar antes das quatro, mais ou menos, em uma tarde comum. O que certamente não é o caso desta. Os hóspedes que ficam vários dias geralmente estão aqui a negócios. Como imagino que você esteja, Sr. Riddle.

Clay assentiu sem se preocupar em corrigi-lo.

— No meio da tarde, os homens de negócio geralmente estão fazendo o que quer que os trouxe até Boston. Então, como pode ver, estamos quase sozinhos.

Como que para contradizer aquela afirmação, outro baque soou sobre a cabeça deles, mais vidro quebrando e um rosnado feroz baixo. Todos olharam para cima.

— Clay, ouça — disse Tom. — Se o cara lá de cima encontrar as escadas... Não sei se essa gente é capaz de raciocinar, mas...

— A julgar pelo que vimos nas ruas — disse Clay —, até chamá-los de gente pode estar errado. Estava pensando que o cara lá em cima é mais como um inseto preso entre uma janela e uma tela. Um inseto assim pode sair, se achar um buraco, e o cara lá em cima pode até achar as escadas, mas se isso acontecer, acho que vai ser por acidente.

— E quando ele descer e descobrir que a porta para o saguão está travada, vai usar a porta de incêndio do corredor — falou o Sr. Ricardi com o que, para ele, era um tom de animação. — Vamos escutar o alarme, está programado para soar sempre que alguém empurra a barra, e saberemos que ele foi embora. Menos um doido para nos preocuparmos.

Em algum lugar ao sul de onde estavam, algo grande explodiu e todos se encolheram. Clay pensou que agora sabia como devia ser viver em Beirute durante a década de 1980.

— Estou tentando provar uma coisa — disse Clay com paciência.

— Eu não acho — disse Tom. — Você vai sair de qualquer jeito, porque está preocupado com sua mulher e seu filho. Está tentando nos convencer porque quer companhia.

Clay soltou um suspiro de frustração.

— É claro que quero companhia, mas não é por isso que quero convencê-los a vir comigo. O cheiro de fumaça está ficando mais forte, mas quando foi a última vez que vocês ouviram um alarme?

Ninguém respondeu.

— Eu também não — falou Clay. — Não acho que as coisas vão melhorar em Boston, não por agora. Vão piorar. Se foram os telefones celulares...

— Ela tentou deixar uma mensagem para papai — disse Alice. Falou depressa, como se quisesse garantir que as palavras todas saíssem antes que a lembrança fosse embora. — Só queria confirmar que ele tinha pegado a roupa na lavanderia, porque precisava do vestido amarelo de lã para a reunião do comitê e eu precisava do meu uniforme extra para o jogo fora de casa do sábado. Isso foi no táxi. E então nós batemos! Ela estrangulou o homem e mordeu o homem e o turbante dele caiu e o rosto dele estava cheio de sangue e nós batemos!

Alice olhou em volta para os três rostos que a observavam, então colocou o próprio rosto entre as mãos e começou a soluçar. Tom fez menção de confortá-la, mas o Sr. Ricardi surpreendeu Clay ao dar a volta na mesa e passar um braço magrelo em volta da garota antes de Tom a alcançar.

— Passou, passou — ele disse. — Tenho certeza de que foi tudo um mal-entendido, minha jovem.

Ela levantou a cabeça para olhar para ele, os olhos arregalados e furiosos.

— Mal-entendido?— Ela indicou o babador de sangue seco na frente do vestido. — Isso parece um mal-entendido? Usei o caratê que aprendi nas aulas de defesa pessoal da escola. Dei golpes de caratê na minha própria mãe! Quebrei o nariz dela, acho... tenho certeza... — Alice balançou a cabeça rapidamente, o cabelo se agitando. — E mesmo assim, se eu não tivesse conseguido esticar o braço para trás para abrir a porta...

— Ela teria matado você — disse Clay categoricamente.

— Ela teria me matado — concordou Alice com um sussurro. — Ela não sabia quem eu era. Minha própria mãe. — A garota olhou de Clay para Tom. — Foram os celulares — ela disse com o mesmo sussurro. — Foram os celulares, sem dúvida.

— Quantas dessas pragas existem em Boston? — perguntou Clay. — Qual é a penetração de mercado?

— Considerando o grande número de estudantes universitários, eu diria que é enorme — respondeu o Sr. Ricardi. Ele voltara ao seu lugar atrás da mesa e agora parecia um pouco mais animado. Deve ter sido por ter confortado a garota, ou talvez por conta da pergunta sobre negócios. — No entanto, o alcance vai muito além dos jovens abastados, é claro. Li um artigo na Inc. há um ou dois meses que afirmava que hoje em dia o número de celulares na China continental é igual à população da América. Dá pra imaginar uma coisa dessas?

Clay não queria imaginar.

— Certo. — Tom assentia com relutância. — Estou vendo aonde você quer chegar com isso. Alguém, alguma organização terrorista, dá um jeito de manipular os sinais de celular. Se você fizer ou receber uma ligação, recebe um tipo de... o quê?... um tipo de mensagem subliminar, sei lá... que te deixa maluco. Parece ficção científica, mas acredito que há 15 ou vinte anos os telefones celulares como eles são hoje em dia pareceriam ficção científica para a maioria das pessoas.

— Tenho quase certeza de que é algo do gênero — disse Clay. — basta entreouvir uma ligação e você está completamente ferrado. — Ele estava pensando na Cabelinho Escuro. — Mas o mais traiçoeiro é que quando as pessoas vêem algo de errado ao redor...

— O primeiro impulso delas é pegar o celular e tentar descobrir a causa — disse Tom.

— Exatamente — falou Clay. — Eu vi gente fazer isso.

Tom olhou para ele com desânimo.

— Eu também.

— O que tudo isso tem a ver com você sair da segurança do hotel, principalmente com a noite chegando, eu não sei — disse o Sr. Ricardi.

Como se para responder à pergunta, houve outra explosão. Seguida por outra meia dúzia, marchando para o sudeste como as passadas de um gigante indo embora. De cima deles veio outro baque e um grito fraco de raiva.

— Não acho que os malucos sejam inteligentes o bastante para sair da cidade da mesma forma que o cara lá de cima não consegue achar o caminho para as escadas — disse Clay.

Por um instante ele pensou que a expressão no rosto de Tom fosse de choque, mas então percebeu que era de outra coisa. Estupefação, talvez. E uma esperança nascente.

— Oh, meu Deus — ele disse e chegou a dar um tapa no rosto com uma das mãos. — Eles não vão sair. Não tinha pensado nisso.

— Acho que tem outra coisa — falou Alice. Estava mordendo o lábio e com os olhos baixados para as mãos, que estavam embaralhadas em um nó inquieto. Ela se forçou a erguer os olhos para Clay. — Talvez seja mais seguro sair à noite.

— Por que, Alice?

— Se não conseguirem te ver, se você for para trás de alguma coisa, se conseguir se esconder, eles esquecem de você quase na mesma hora.

— O que te faz pensar assim, querida? — perguntou Tom.

— Eu me escondi do homem que estava me seguindo — ela disse baixinho. — O cara de camisa amarela. Foi logo antes de eu ver vocês. Me escondi em um beco. Atrás de uma daquelas caçambas. Fiquei com medo porque achei que estava sem saída se ele viesse atrás de mim, mas foi a única coisa que consegui pensar em fazer. Eu o vi parado na entrada do beco, olhando em volta, andando de um lado para o outro... fazendo círculos de preocupação, como diria meu avô... e primeiro achei que ele estava de sacanagem comigo, sabe? Porque ele tinha que ter me visto entrar no beco, eu estava a poucos centímetros dele... só alguns centímetros... quase ao alcance da mão... — Alice começou a tremer. — Mas, assim que entrei ali, era como se eu estivesse... sei lá...

— Longe dos olhos, longe da mente — disse Tom. — Mas se ele estava tão perto, por que você parou de correr?

— Por que eu não agüentava mais — respondeu Alice. — Simplesmente não agüentava mais. Minhas pernas pareciam de borracha e era como se eu fosse despedaçar por dentro. Mas acabou que nem precisava correr. Ele fez mais alguns círculos de preocupação, murmurando aquela falação maluca, e foi embora. Mal pude acreditar. Achei que ele estivesse tentando blefar... mas ao mesmo tempo sabia que era louco demais para uma coisa daquelas. — Ela olhou de relance para Clay e então voltou a baixar os olhos para as mãos. — Meu azar foi encontrar com ele de novo. Devia ter ficado com vocês na primeira vez que os vi. Às vezes eu sou uma idiota.

— Você estava assus... — Clay começou a falar, e então a maior explosão até o momento veio de algum lugar a leste de onde estavam, um KER-WHAM ensurdecedor, que fez com que todos se abaixassem e tapassem os ouvidos. Ouviram a janela do saguão se estilhaçar.

— Meu... Deus— disse o Sr. Ricardi. Para Clay, aqueles olhos arregalados debaixo da careca deixaram-no parecido com Daddy Warbucks, o preceptor de Annie, a Pequena Órfã. — Deve ter sido aquele novo posto da Shell que eles construíram na Kneeland. Aquele que todos os táxis e Duck Boats usam. Veio da direção dele.

Clay não fazia idéia se Ricardi tinha razão, não sentia cheiro de gasolina (pelo menos ainda não), mas sua mente visualmente direcionada podia ver um triângulo de concreto urbano queimando como um maçarico no entardecer.

— Uma cidade moderna pode se incendiar? — ele perguntou para Tom. — Uma cidade feita quase toda de concreto, metal e vidro? Ela pode se incendiar como Chigaco depois que a vaca da Sra. O'Leary derrubou o lampião2 ?

— Essa história de vaca derrubando o lampião não passa de uma lenda urbana — disse Alice. Ela esfregava a nuca como se estivesse ficando com uma dor de cabeça forte. — Foi o que a Sra. Myers disse, na aula de história americana.

— Claro que pode — disse Tom. — Veja o que aconteceu com o World Trade Center, depois que aqueles aviões o atingiram.

— Aviões cheios de combustível — disse o Sr. Ricardi incisivamente.

Como se o recepcionista careca o tivesse invocado, o cheiro de gasolina queimando chegou a eles, soprando pelas janelas estilhaçadas do saguão e deslizando por baixo da porta do escritório como sinal de más vibrações.

— Parece que você acertou na mosca em relação ao posto da Shell — observou Tom.

O Sr. Ricardi foi até a porta que separava o escritório do saguão. Ele a destrancou e abriu. O que Clay conseguia ver do saguão à sua frente já parecia deserto, sombrio e, de certa forma, irrelevante. O Sr. Ricardi deu uma fungada ruidosa e então fechou a porta e a trancou novamente.

— Já está mais fraco — falou.

— Bem que você queria — disse Clay. — Ou o seu nariz já está se acostumando com o cheiro.

— Acho que ele pode ter razão — disse Tom. — Um vento forte está vindo do oeste lá fora, o que quer dizer que o ar está se movendo na direção do mar, e se o que acabamos de ouvir foi o novo posto que eles

 

2 Na noite de 8 de outubro de 1871, o Grande Incêndio de Chicago teria começado com a queda de um lampião no estábulo da Sra. Catherine O'Leary. (N. do T.) colocaram na esquina da Kneeland com a Washington, em frente ao New England Medical Center...

— É esse mesmo — disse o Sr. Ricardi. Seu rosto registrando uma satisfação abatida. — Oh, os protestos! O dinheiro deu um jeito neles, pode cre...

Tom passou por cima dele.

— ... então o hospital deve estar pegando fogo a essa altura... junto com todo mundo que ainda estiver dentro dele, é claro...

— Não — disse Alice, e em seguida cobriu a boca com a mão.

— Acho que sim. E o Wang Center vai ser o próximo. O vento pode parar quando acabar de escurecer, mas, se não parar, até as dez da noite tudo que estiver a leste da Mass Pike vai virar churrasco.

— Nós estamos a oeste — observou o Sr. Ricardi.

— Então estamos a salvo — disse Clay. — Pelo menos disso.

Ele foi até a janelinha do escritório, ficou na ponta dos pés e olhou para a Essex Street.

— O que está vendo? — perguntou Alice. — Está vendo gente?

— Não... sim. Um homem. Do outro lado da rua.

— É um dos malucos? — ela perguntou.

— Não dá para saber. — Mas Clay achava que sim. Pelo jeito que ele andava e a maneira convulsiva como ficava olhando por sobre o ombro. Uma vez, logo antes de dobrar a esquina para a Lincoln Street, o cara quase bateu em um arranjo de frutas em frente a uma mercearia. E, embora Clay não pudesse ouvi-lo, conseguia ver os lábios do homem se mexendo. — Agora ele sumiu.

— Mais ninguém? — perguntou Tom.

— Não no momento, mas tem fumaça. — Clay fez uma pausa. — Fuligem e poeira também. Não dá para saber quanto. O vento está soprando tudo.

— Ok, você me convenceu — disse Tom. — Sempre fui devagar para aprender as coisas, mas nunca fui burro. A cidade vai queimar e só os malucos vão ficar por aqui.

— Acho que vai ser isso mesmo — falou Clay. E ele não achava que aquilo valia só para Boston, mas, por ora, Boston era tudo que suportaria levar em conta. Depois, poderia até ser capaz de ampliar sua visão, mas não antes de Johnny estar em segurança. Ou talvez o quadro mais amplo ficasse sempre fora do seu alcance. Afinal de contas, ele desenhava quadrinhos para viver. Porém, apesar de tudo, o sujeito egoísta que ficava agarrado na sua mente como um carrapato teve tempo de enviar um pensamento claro. Ele veio em azul e dourado cintilante. Por que isso teve que acontecer justamente hoje? Logo depois de eu finalmente dar uma dentro?

— Posso ir com vocês, se vocês forem? — perguntou Alice.

— Claro — respondeu Clay. Olhou para o recepcionista. — Você também pode vir, Sr. Ricardi.

— Eu vou ficar no meu posto — disse o Sr. Ricardi. Ele falou com arrogância, mas, antes de se afastarem do olhar de Clay, seus olhos pareceram doentes.

— Não acho que você vai ter problemas com a gerência se fechar o hotel e ir embora sob essas circunstâncias — disse Tom. Ele falou daquele jeito cavalheiro de que Clay estava começando a gostar bastante.

— Eu vou ficar no meu posto — ele repetiu. — O Sr. Donnelly, o gerente do dia, saiu para fazer o depósito da tarde no banco e me deixou responsável pelo hotel. Se ele voltar, talvez...

— Por favor, Sr. Ricardi — falou Alice. — Ficar aqui não vai adiantar.

Mas o Sr. Ricardi, que tinha mais uma vez cruzado os braços sobre o peito estreito, apenas balançou a cabeça.

Eles tiraram uma das cadeiras Queen Anne do caminho e o Sr. Ricardi destrancou as portas da frente. Clay olhou para fora. Não via pessoas se movendo em nenhuma direção, mas era difícil ter certeza, pois o ar estava cheio de poeira fina e preta. Ela bailava no vento como neve negra.

— Vamos — ele disse. Para começar, eles iriam apenas para o prédio vizinho, o Metropolitan Café.

— Vou trancar de novo a porta e colocar a cadeira de volta no lugar — disse o Sr. Ricardi —, mas estarei ouvindo. Se tiverem problemas, se mais daquelas... pessoas... estiverem escondidas no Metropolitan, por exemplo, e vocês tiverem que voltar, lembrem-se de gritar: "Sr. Ricardi, Sr. Ricardi, precisamos de ajuda!" Assim eu fico sabendo que é seguro abrir a porta. Entendido?

— Sim — disse Clay. Ele apertou o ombro magro do Sr. Ricardi. O recepcionista se retraiu, e então ficou firme (embora não tenha demonstrado sinal algum de prazer por ter sido cumprimentado daquela forma). — Você é gente boa. Não achei que fosse, mas estava errado.

— Tento fazer o melhor que posso — disse o careca com austeridade. — Lembre-se...

— Nós vamos lembrar — falou Tom. — E vamos ficar lá uns dez minutos. Se alguma coisa der errado por aqui, você grita.

— Certo.

Mas Clay não achou que ele gritaria. Não sabia por que pensou isso, não fazia sentido pensar que um homem não gritaria para salvar a própria vida se estivesse encrencado, mas Clay pensou.

Alice disse:

— Por favor, mude de idéia, Sr. Ricardi. Boston não é seguro, o senhor já deve ter percebido isso.

O Sr. Ricardi apenas desviou o olhar. E Clay pensou, não sem espanto: É assim que um homem fica ao decidir que correr o risco de morrer é melhor do que correr o risco de mudar.

— Venham — disse Clay. — Vamos fazer uns sanduíches enquanto ainda temos eletricidade para enxergar.

— Algumas garrafas de água mineral seriam uma boa, também — disse Tom.

A luz oscilou enquanto eles embrulhavam o último sanduíche na cozinha bem %rfumada e de azulejos brancos do Metropolitan Café. Àquela altura, Clay já havia tentado ligar mais três vezes para o Maine: uma para sua antiga casa, outra para a Escola Primária de Kent Pond, onde Sharon dava aulas, e outra para a Escola Secundária Joshua Chamberlain, que Johnny freqüentava. Nenhuma das vezes conseguiu ir além do código de área 207.

Quando as luzes do Metropolitan se apagaram, Alice gritou no que a princípio pareceu a Clay uma escuridão total. Então as luzes de emergência se acenderam. Isso não tranqüilizou muito Alice. Ela se apoiava em Tom com um braço. Na outra mão, empunhava a faca de pão que usara para cortar os sanduíches. Os olhos dela estavam arrega-lados e, de certa forma, apáticos.

— Alice, largue essa faca — disse Clay, com um pouco mais de rispidez do que queria. — Antes que você corte um de nós com ela.

— Ou a si mesma — disse Tom com aquela sua voz branda e confortante. Seus óculos cintilavam com o brilho das luzes de emergência.

Ela largou a faca e então a apanhou de volta.

— Quero ficar com ela — falou. — Quero tê-la comigo. Você tem uma, Clay. Eu também quero.

— Tudo bem — ele disse —, mas você não tem um cinto. Vamos fazer um com uma toalha de mesa. Por enquanto, só tenha cuidado.

Metade dos sanduíches era de rosbife e queijo, a outra de presunto e queijo. Alice os embrulhou com filme de PVC. Debaixo da caixa registradora, Clay encontrou uma pilha de sacos e ele e Tom jogaram os sanduíches em dois deles. Em um terceiro, colocaram três garrafas d'água.

As mesas haviam sido preparadas para um jantar que nunca iria acontecer. Duas ou três tinham sido viradas, mas a maioria estava per-feita, com as taças e talheres brilhando na luz dura das lâmpadas de emergência nas paredes. Algo naquela ordenação calma partiu o coração de Clay. A brancura dos guardanapos dobrados e as pequenas lâmpadas elétricas em cada mesa. Os abajurzinhos estavam apagados e ele imaginava que demoraria bastante para as lâmpadas dentro deles se acenderem novamente.

Ele viu Alice e Tom olhando em volta com rostos tão infelizes quanto o seu parecia estar, e um desejo de animá-los — quase frenético de tão urgente — o invadiu. Lembrou-se de um truque que costumava fazer para o filho. Voltou a pensar no celular de Johnny e o rato surtado deu uma outra mordida nele. Clay esperava de todo coração que o maldito telefone estivesse esquecido debaixo da cama de Johnny-Gee entre bolinhas de poeira, com a bateria mortamortamorta.

— Preste bastante atenção nisso — ele falou, largando o seu saco de sanduíches —, e note que em nenhum momento minhas mãos saem do lugar. — Ele pegou a ponta de uma toalha de mesa.

— Não é hora para truques de mágica.

— Eu quero ver — disse Alice. Pela primeira vez desde que eles a encontraram, ela estava com um sorriso no rosto. Era pequeno, mas estava lá.

— Precisamos da toalha de mesa — disse Clay —, vai ser rápido e, além do mais, a dama quer ver. — Ele se virou para Alice. — Mas você vai ter que falar uma palavra mágica. Shazam serve.

— Shazam — ela disse, e Clay puxou com força com as duas mãos.

Não fazia o truque há dois, talvez três, anos e quase deu errado. Porém, ao mesmo tempo, o erro — uma pequena hesitação na hora de puxar, sem dúvida — acabou acrescentando charme à coisa. Em vez de ficar onde estavam enquanto, debaixo deles, a toalha simplesmente desaparecia, todos os utensílios na mesa andaram uns 10 centímetros para a direita. Na verdade, a taça mais próxima de onde Clay estava ficou com metade da sua base circular na mesa e outra metade fora dela.

Alice aplaudiu, agora rindo. Clay fez uma mesura com as mãos estendidas.

— Podemos ir agora, ó grande Vermicelli? — perguntou Tom, mas até ele estava sorrindo. Clay conseguia ver seus dentes pequenos sob as luzes de emergência.

— Assim que eu ajeitar isso — respondeu Clay. — Ela pode carregar a faca de um lado e um saco de sanduíches do outro. Você pode levar a água.

Ele dobrou a toalha em um triângulo e então a enrolou rapidamente na forma de um cinto. Passou o cinto pelas alças de um dos sacos de sanduíches e então o colocou em volta da cintura fina da garota, precisando dar uma volta e meia e amarrar o nó nas costas dela para deixar firme. Arrematou enfiando a faca serrada de pão no seu lugar, do lado direito.

— Ei, você é bem jeitoso — disse Tom.

— Jeitoso é vistoso — falou Clay, e então alguma outra coisa explodiu lá fora, próximo o bastante para fazer o Café tremer. A taça que estava metade na mesa, metade fora dela, perdeu o equilíbrio, caiu no chão e quebrou. Os três olharam para ela. Clay pensou em dizer que não acreditava em presságios, mas aquilo só pioraria as coisas. E além do mais, ele acreditava.

Clay tinha seus motivos para querer voltar ao Atlantic Avenue Inn antes de eles partirem. Um deles era reaver seu portfolio, que deixara no saguão. Outro era ver se conseguiam achar algum tipo de bainha improvisada para a faca de Alice — ele calculou que mesmo um estojo de barbear serviria, se fosse longo o bastante. O terceiro era dar ao Sr. Ricardi mais uma chance de se juntar a eles. Ele ficou surpreso ao descobrir que queria isso mais do que o portfolio de desenhos esquecido. Desenvolvera uma simpatia estranha e relutante pelo homem.

Quando confessou isso a Tom, este o surpreendeu com um assentimento.

— É assim que eu me sinto em relação a anchovas na pizza — ele falou. — Digo a mim mesmo que há algo de nojento em uma combinação de queijo, molho de tomate e peixe morto... mas às vezes um impulso vergonhoso toma conta de mim e não consigo enfrentá-lo.

Uma tempestade de cinza preta e fuligem soprava pela rua e entre os prédios. Alarmes de carro trinavam, alarmes contra roubo zurravam e alarmes de incêndio grasniam. Não parecia haver calor no ar, mas Clay ouvia fogo estalando nas direções sul e leste. O cheiro de queimado estava mais forte, também. Eles ouviram vozes gritando, mas elas vinham do caminho de volta para o Common, onde a Boylston Street se alargava.

Quando chegaram ao Atlantic Avenue Inn, Tom ajudou Clay a empurrar uma das cadeiras Queen Anne da frente de um dos painéis de vidro quebrados. O saguão se tornara um mar de escuridão no qual o balcão e o sofá do Sr. Ricardi eram apenas sombras mais escuras se Clay já não tivesse estado ali, não faria idéia do que aquelas sombras representavam. Sobre os elevadores, uma única luz de emergência piscava, a bateria na caixa atrás dela zumbindo como uma mosca.

— Sr. Ricardi? — chamou Tom. — Sr. Ricardi, nós viemos ver se você mudou de idéia.

Não houve resposta. Um instante depois, Alice começou a derrubar os dentes de vidro que ainda se projetavam da armação da janela.

— Sr. Ricardi!— Tom chamou novamente e, quando continuou sem resposta, virou na direção de Clay. — Você vai entrar, não vai?

— Sim. Para pegar meu portfolio. Meus desenhos estão nele.

— Você não tem cópias?

— Aqueles são os originais — disse Clay, como se aquilo explicasse tudo. Para ele, explicava. E, além do mais, havia o Sr. Ricardi.

Ele disse: Estarei ouvindo.

— E se o Barulhento do andar de cima o tiver pegado? — perguntou Tom.

— Se fosse o caso, acho que o teríamos escutado fazendo barulho aqui embaixo — disse Clay. — Além disso, ele viria correndo na direção do som das nossas vozes, tagarelando como o cara que tentou nos retalhar lá no Common.

— Você não tem como saber isso — disse Alice. Ela estava mordendo o lábio inferior. — É cedo demais para achar que sabe todas as regras.

É claro que ela estava certa, mas eles não podiam ficar parados lá discutindo, aquilo também não iria adiantar nada.

— Vou ter cuidado — ele falou e passou uma perna por sobre a parte de baixo da janela. Era estreita, mas larga o suficiente para ele passar. — Vou só enfiar a cabeça dentro do escritório. Se ele não estiver por lá, não vou sair atrás dele como uma menina de filme de terror. Só vou pegar meu portfolio e a gente cai fora.

— Fique gritando — disse Alice. — Diga apenas: "Ok, estou bem", ou algo do gênero. O tempo todo.

— Certo, mas se eu parar de gritar, vão embora. Não venham atrás de mim.

— Não se preocupe — ela disse, sem sorrir. — Eu também vi todos esses filmes. A gente tem Cinemax lá em casa.

— Estou bem — gritou Clay, pegando o portfolio e colocando-o no balcão. Prontinho, ele pensou. Mas ainda não.

Ele olhou por sobre o ombro ao dar a volta no balcão e viu a única janela desbloqueada tremeluzir, parecendo flutuar na escuridão cada vez mais densa, com duas silhuetas recortadas na última luz do dia.

— Estou bem, ainda estou bem, só vou dar uma olhada no escritório agora, ainda estou bem, ainda es...

— Clay? — a voz de Tom estava inquieta, mas por um instante Clay não pôde responder para acalmá-lo. Havia um lustre no meio do teto alto do escritório. O Sr. Ricardi estava pendurado nele pelo que parecia ser uma corda para amarrar cortinas. Seu rosto estava coberto por uma sacola branca. Clay achou que fosse o tipo de saco plástico que o hotel dá para os hóspedes colocarem a roupa suja e para lavagem a seco. — Clay, você está bem?

— Clay?— A voz de Alice saiu esganiçada, à beira da histeria.

— Estou bem. — Clay ouviu a própria voz dizer. Sua boca parecia estar funcionando sozinha, sem ajuda do cérebro. — Ainda estou bem aqui. — Ele estava pensando na expressão do Sr. Ricardi quando disse: Eu vou ficar no meu posto. As palavras foram arrogantes, mas os olhos estavam assustados e, de certa forma, humildes, os olhos de um guaxinim encurralado em um canto da garagem por um cachorro grande e furioso. — Já estou saindo.

Ele se afastou andando de costas, como se o Sr. Ricardi pudesse tirar o garrote improvisado do pescoço e vir atrás dele no instante em que Clay virasse. De repente, sentiu mais medo por Sharon e Johnny; a saudade deles era tão profunda que o fez pensar no seu primeiro dia na escola, a mãe o deixando no portão do playground. Os outros pais tinham entrado com os filhos. Entre lá, Clayton, é a primeira sala, vai dar tudo certo, meninos têm que fazer essa parte sozinhos. Antes de fazer o que ela mandou, ele a observou ir emSora, subindo de volta a Cedar Street. O casaco azul dela. Agora, parado no escuro, ele se deparava novamente com a idéia de que as pessoas não diziam morrer de saudade à toa.

Tom e Alice eram legais, mas ele queria as pessoas que amava.

Assim que deu a volta no balcão, ele ficou de frente para a rua e atravessou o saguão. Chegou perto o bastante da longa janela quebrada para ver os rostos assustados dos seus novos amigos, e então se lembrou que tinha esquecido a porra do portfolio de novo e teria que voltar. Ao alcançar o portfolio, teve certeza de que a mão do Sr. Ricardi sairia da escuridão cada vez maior atrás da mesa e se fecharia sobre a dele. Isso não aconteceu, mas outro daqueles baques veio do andar de cima. Algo ainda estava lá em cima, algo ainda andava às cegas no escuro. Algo que havia sido humano até as três da tarde daquele dia.

Daquela vez, quando ele estava a meio caminho da porta, a solitária luz de emergência à bateria do saguão piscou brevemente e então se apagou. Isto é uma violação do Código de Incêndio, pensou Clay. Eu deveria fazer a denúncia.

Ele estendeu o portfolio. Tom o pegou.

— Onde está ele? — perguntou Alice. — Ele não estava lá dentro?

— Morto — disse Clay. Passara pela cabeça dele mentir, mas não achou que seria capaz. Estava chocado demais pelo que vira. Como um homem poderia se enforcar sozinho? Ele nem conseguia entender como era possível. — Suicídio.

Alice começou a chorar e ocorreu a Clay que ela nem sabia que, se dependesse do Sr. Ricardi, provavelmente ela mesma estaria morta àquela altura. Na verdade, ele próprio sentiu um pouco de vontade de chorar. Porque Sr. Ricardi acabara sendo gente boa. Talvez a maioria das pessoas o fosse, tendo a chance.

Um grito que pareceu forte demais para ter saído de pulmões humanos veio da direção do Common, a oeste de onde eles estavam na rua cada vez mais escura. Clay achou que parecia quase um barrido de elefante. Não havia dor nele, tampouco alegria. Apenas loucura. Alice se apertou contra Clay, que passou o braço em volta dela. A sensação do corpo da garota era como a de um fio elétrico conduzindo uma corrente forte.

— Se vamos dar o fora daqui, é melhor irmos logo — disse Tom.

— Se a gente não se meter em muito problema, consegue chegar até Malden e pode passar a noite na minha casa.

— Excelente idéia — disse Clay.

Tom sorriu com cautela.

— Você acha mesmo?

— Com certeza. Quem sabe, talvez o oficial Ashland já esteja lá.

— Quem é o oficial Ashland? — perguntou Alice.

— Um policial que encontramos no Common — disse Tom. — Ele... bem, ele nos ajudou. — Os três estavam andando para o leste na direção da Atlantic Avenue, em meio às cinzas que caíam e o som de alarmes. — Mas ele não vai estar por lá. Clay só está tentando fazer graça.

— Ah — ela disse. — Que bom que alguém está tentando.

Um celular azul com a capa quebrada estava caído na calçada do lado de uma lata de lixo. Alice o chutou para a sarjeta sem alterar o passo.

— Bom chute — disse Clay.

Alice deu de ombros.

— Cinco anos de futebol — ela falou e, naquele mesmo instante, as luzes da rua se acenderam, com uma promessa de que nem tudo estava perdido.

 

MALDEN

Milhares de pessoas pararam na ponte do Mystic River e observaram tudo entre a Commonwealth Avenue e o porto de Boston ser consumido pelo fogo. O vento oeste continuou forte e quente mesmo depois de o sol se pôr, e as chamas rugiam como em uma fornalha, borrando as estrelas. A lua nascente estava cheia e basicamente hedionda. Por vezes, a fumaça a escondia, mas a maior parte do tempo aquele olho de dragão saliente voava livre e olhava para baixo, projetando uma luz laranja turva. Clay achou que ela parecia uma lua de revista em quadrinhos de horror, mas não falou nada.

Ninguém tinha muito a dizer. As pessoas na ponte simplesmente olhavam para a cidade que tinham acabado de abandonar, observando as chamas alcançarem os condomínios luxuosos de frente para o porto e começarem a engoli-los. Do outro lado da água, vinha uma intricada tapeçaria de alarmes — alarmes de incêndio e de carros na sua maioria, com diversas sirenes barulhentas para completar. Por algum tempo, uma voz amplificada disse aos cidadãos para SAIR DAS RUAS e, em seguida, outra voz os aconselhou a ABANDONAREM A CIDADE A PÉ PELAS PRINCIPAIS AVENIDAS AO OESTE E AO NORTE. Esses dois conselhos contraditórios competiram por vários minutos e então o aviso para SAIR DAS RUAS cessou. Cinco minutos depois, o que dizia para as pessoas ABANDONAREM A CIDADE A PÉ também foi interrompido. Agora havia apenas o rugido faminto do fogo impulsionado pelo vento, os alarmes e um estampido distante e contínuo que Clay imaginou ser de janelas implodindo por conta do calor enorme.

Ele imaginou quantas pessoas estariam presas do lado de lá. Entre o fogo e a água.

— Lembra quando você perguntou se uma cidade moderna podia se incendiar? — disse Tom McCourt. Sob a luz do fogo, seu rosto pequeno e inteligente parecia cansado e doente. Havia uma mancha de cinza em uma de suas bochechas. — Lembra?

— Ah, cale a boca — disse Alice. Ela estava claramente irritada, mas, como Tom, falou em voz baixa. Parece que estamos em uma biblioteca, pensou Clay. E depois, Não... em uma funerária. — Vamos embora, por favor? Isso está me deixando louca.

— Claro — disse Clay. — Pode crer. A que distância fica a sua casa, Tom?

— Daqui, pouco mais de 3 quilômetros — ele disse. — Mas sinto dizer que ainda não deixamos tudo para trás.

Eles tinham virado para o norte, e Tom apontou para frente e para a direita. O brilho que vinha de lá poderia até ser o da luz alaranjada das lâmpadas de sódio dos postes em uma noite nublada, só que a noite estava limpa e os postes de luz estavam apagados. De qualquer forma, postes não soltavam colunas de fumaça.

Alice gemeu e então cobriu a boca, como se esperasse que aiguém em meio à multidão silenciosa que observava Boston queimar a repreendesse por fazer muito barulho.

— Não se preocupe — disse Tom com estranha calma. — Nós estamos indo para Malden, e aquilo parece Revere. Do jeito que o vento está soprando, ainda deve estar tudo bem em Malden.

Pare de falar agora mesmo, Clay exigiu em silêncio, mas Tom não parou.

— Por enquanto — ele acrescentou.

Havia dezenas de carros abandonados na pista de baixo e um caminhão dos bombeiros com EAST BOSTON escrito na sua lateral verde-abacate, que tinha sido atingida por um caminhão de cimento (os dois estavam abandonados), mas no geral aquele nível da ponte pertencia aos pedestres. Só que agora provavelmente vamos ter que chama-los de refugiados, pensou Clay, e então percebeu que não fazia sentido falar na terceira pessoa. Nós. Nos chamar de refugiados.

Ainda não havia muita conversa. A maioria das pessoas ficava parada olhando a cidade queimar em silêncio. Os que estavam se mexendo o faziam muito devagar, olhando com freqüência por sobre os ombros. Então, quando eles chegaram ao final da ponte (ele enxergava o 3 Old Ironsides — pelo menos achava que era o Old Ironsides — ancorado no porto, ainda a salvo das chamas), Clay notou uma coisa estranha. Muitos deles também estavam olhando para Alice. A princípio, a idéia paranóica de que as pessoas

3 Apelido do navio de guerra USS Constitution, o mais antigo navio ainda em atividade no mundo e um dos mais famosos da história naval americana. Construído no fim do século XVIII, sobreviveu a várias guerras por conta de seu casco de carvalho muito duro. (N. do T.) estivessem pensando que ele e Tom tinham raptado a garota e a estavam levando para Deus sabe que tipo de intenções imorais lhe passou pela cabeça. Então ele teve que lembrar a si mesmo que aqueles fantasmas na ponte estavam em estado de choque, que haviam sido arrancados de suas vidas normais com mais violência do que os refugiados do furacão Katrina — aqueles infelizes pelo menos tiveram algum aviso — e possivelmente não seriam capazes de reflexões tão elaboradas. Muitos deles estavam muito imersos nos próprios pensamentos para fazer juízos morais. Então a lua subiu mais um pouco, apareceu com um pouco mais de clareza e ele entendeu: ela era a única adolescente à vista. Mesmo o próprio Clay era jovem, se comparado à maioria dos seus colegas refugiados. A maioria das pessoas que olhava embasbacada para a tocha que havia sido Boston ou que se arrastava em direção a Malden e Danvers tinha mais de 40 anos, e muitos pareciam poder utilizar a fila de idosos no supermercado. Ele viu poucas pessoas com crianças e uns dois bebês em carrinhos, mas o grupo de jovens se resumia praticamente a isso.

Continuar: parte 4 de 4