Celular
A civilização entrou na sua segunda idade…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Um pouco mais adiante, ele notou outra coisa. Havia telefones celulares largados pela rua. Eles passavam por um depois do outro, e nenhum estava inteiro. Tinham sido ou esmagados ou pisoteados até virarem um monte de fios e lascas de plástico, como cobras perigosas aniquiladas antes que voltassem a morder.
— Qual é o seu nome, querida? — perguntou uma mulher gorducha que cruzou a rua na direção deles. Isso foi cerca de cinco minutos depois de terem deixado a ponte. Tom disse que mais 15 e eles chegariam à saída da Salem Street e, de lá, estariam a apenas quatro quadras da sua casa. Ele falou que o gato ficaria felicíssimo em vê-lo e aquilo trouxe um sorriso abatido ao rosto de Alice. Clay pensou que um sorriso abatido era melhor do que nada.
Alice olhava com desconfiança reflexiva para a mulher gorducha que havia se separado dos grupos mais silenciosos e das pequenas fileiras de homens e mulheres — pouco mais que sombras, na realidade, alguns com malas, outros carregando sacolas de compras ou mochilas - que atravessaram a ponte e seguiam na direção norte pela Route One, para longe do grande incêndio ao sul e plenamente conscientes do outro que se formava em Revere, mais adiante ao nordeste.
A mulher gorducha retribuiu o olhar com um interesse terno. Seu cabelo grisalho estava arrumado em cachinhos de salão de beleza bem feitos. Ela usava óculos de gatinha e o que a mãe de Clay chamaria de "casaquinho". Carregava uma sacola de compras em uma das mãos e um livro na outra. Parecia inofensiva. Certamente não era um daqueles fonáticos — eles não viram um deles que seja desde que saíram do Atlantic Avenue Inn com seus sacos de comida —, mas Clay sentiu que estava na defensiva de qualquer jeito. Serem abordados como se estivessem em uma festinha em vez de fugindo de uma cidade em chamas não parecia normal. Mas, sob aquelas circunstâncias, o que era normal? Ele provavelmente estava ficando doido, mas, se fosse o caso, Tom também estava. Ele lançava para a mulher gorducha e maternal o mesmo olhar de "cai fora".
— Alice — disse finalmente Alice, na hora em que Clay tinha decidido que a garota não iria falar nada. Ela soava como uma criança com medo de responder a uma pergunta que podia ser uma pegadinha, em uma aula que era difícil demais para ela. — Meu nome é Alice Maxwell.
— Alice — disse a mulher gorducha, e os lábios dela se curvaram em um sorriso maternal tão terno quanto o seu interesse. Não havia motivo para aquele sorriso deixar Clay mais desconfiado do que ele já estava, mas deixou. — É um nome adorável. Significa "abençoado por Deus".
— Na verdade, senhora, significa "da realeza", ou "de berço nobre" — disse Tom. — Agora, a senhora nos dá licença? A garota perdeu a mãe hoje e...
— Todos nós perdemos alguma coisa hoje, não é Alice? — falou a mulher gorducha sem olhar para Tom. Ela acompanhou o ritmo de Alice, seus cachinhos de salão de beleza pulando a cada passo. Alice a olhava com uma mistura de inquietude e fascinação. Ao redor deles, algumas pessoas andavam, apertavam o passo e, na maioria das vezes, se arrastavam cabisbaixos, pouco mais que fantasmas naquela escuridão pouco familiar, e Clay continuava sem ver gente jovem, exceto por algumas crianças, alguns bebês e Alice. Nenhum adolescente, porque a maioria dos adolescentes tinha celulares, como a Cabelinho Claro no caminhão do Mister Softee. Ou seu próprio filho, que tinha um Nextel vermelho com um toque do Clube dos Monstros e uma mãe professora workaholic que pode estar com ele ou em praticamente qualquer out...
Pare. Não deixe aquele rato sair. Aquele rato não pode fazer nada além de correr, morder e perseguir o próprio rabo.
Enquanto isso, a mulher gorducha continuava assentindo. Seus cachinhos seguiam saltitantes.
— Sim, todos nós perdemos alguém, porque esta é a hora da grande Tribulação. Está tudo lá, no Apocalipse.
Ela ergueu o livro que estava carregando, e é claro que era uma Bíblia; Clay achou que estava entendendo melhor o brilho nos olhos por trás dos óculos de gatinha da mulher gorducha. Não era interesse bondoso, era loucura.
— Ah, já chega, pode ir tirando o cavalinho da chuva — disse Tom. Clay notou na voz dele uma mistura de revolta (consigo mesmo, muito provavelmente por ter deixado a mulher gorducha se aproximar para começode conversa) e desânimo.
A gorducha não deu ouvidos, é óbvio; grudara os olhos em Alice, e quem poderia tirá-la dali? A polícia estava ocupada com outros assuntos. Havia apenas os refugiados que se arrastavam em estado de choque, e eles pouco se importavam com uma velha maluca com uma Bíblia e um permanente.
— O Véu da Insanidade recaiu sobre a mente dos maus e a Cidade do Pecado foi incendiada pela chama purificadora de Je-o-vá! — gritou a mulher gorducha. Ela usava batom vermelho. Os dentes eram certinhos demais para não serem dentaduras. — Agora vemos os impenitentes fugirem, sim, é fato, como os vermes fogem da barriga aberta de...
Alice colocou as mãos sobre os ouvidos.
— Faça-a parar! — ela gritou, e os vultos fantasmagóricos dos ex-moradores da cidade continuaram passando, apenas alguns lançando um olhar apático e sem curiosidade, para em seguida voltarem a olhar para a escuridão onde, mais adiante, em algum lugar, ficava New Hampshire.
A mulher gorducha estava começando a suar, Bíblia erguida, olhos acesos, cachinhos de salão de beleza assentindo e balançando.
— Baixe as mãos, garota, e ouça a Palavra de Deus antes de deixar esses homens te levarem embora e fornicarem com você diante dos próprios portões do Inferno! "Pois eu vi uma estrela arder no céu e o nome dela era Absinto, e todos aqueles que a seguiam, seguiam Lúcifer, e aqueles que seguiam Lúcifer o seguiam até a fornalha do..."
Clay bateu nela. Ele retraiu o soco no último segundo, mas ainda foi um belo golpe no queixo, e ele sentiu o impacto subir até o seu ombro. Os óculos da gorducha saltaram do nariz de buldogue e então caíram de volta no lugar. Atrás deles, os olhos perderam o brilho e rolaram para cima nas órbitas. Seus joelhos falharam e ela se curvou, a Bíblia caindo da mão cerrada. Alice, embora ainda parecesse estar chocada e horrorizada, tirou as mãos de cima das orelhas com rapidez o bastante para pegar a Bíblia. E Tom McCourt agarrou a mulher pelas axilas. O soco e as duas pegadas que se seguiram foram tão caprichadas que poderiam ter sido coreografadas.
Clay de repente estava mais perto de um colapso do que nunca, desde que as coisas começaram a dar errado. Porque aquilo era pior do que a adolescente vampira ou do que o homem de negócios com o cutelo, pior do que encontrar o Sr. Ricardi enforcado em um lustre com um saco sobre a cabeça, ele não sabia, mas era. Ele chutara o homem de negócios com o cutelo, Tom também, mas aquele homem era um outro tipo de maluco. A velha com cachinhos de salão de beleza era só...
— Meu Deus — disse Clay. — Ela era só uma doida e eu a nocauteei. — Ele estava começando a tremer.
— Ela estava aterrorizando uma jovem que perdeu a mãe hoje — disse Tom, e Clay notou que não era calma o que ouvia na voz do homenzinho, mas uma extraordinária frieza. — Você fez exatamente a coisa certa. Além do mais, é impossível derrubar um boi desses por muito tempo. Ela já está acordando. Ajude-me a carregá-la até o acostamento.
Eles tinham chegado à parte da Route One — chamada às vezes de estrada dos Milagres e às vezes de beco da Cafonice — em que a via de acesso limitado dava lugar a um amontoado de hipermercados de bebida, lojas de roupas com descontos, pontas de estoque de artigos esportivos e estabelecimentos de comida com nomes como Fuddruckers. Lá, as seis pistas estavam abarrotadas, se não congestionadas, de veículos que tinham engavetado ou simplesmente sido abandonados quando seus motoristas entraram em pânico, tentaram usar os celulares e enlouqueceram. Os refugiados traçaram suas diversas rotas em silêncio por entre os destroços, fazendo Clay imaginar um grupo de formigas evacuando um formigueiro que tivesse sido demolido pela pisada desatenta de algum humano.
Havia uma placa verde com refletores, que dizia MALDEN SALEM ST. SAÍDA A 400M pertinho de um prédio rosa baixo que fora invadido; a fachada era um rodapé de vidros quebrados pontiagudos, e um alarme contra roubo a bateria continuava soando seus últimos estertores. Um olhar para a placa apagada no telhado bastou para Clay entender o que fez daquele estabelecimento um alvo na esteira do desastre: MERCADÃO DE BEBIDAS MISTER BIG.
Ele pegara um dos braços da gorducha. Tom pegara o outro e Alice segurava a cabeça da mulher murmurante à medida que eles a colocavam sentada com as costas apoiadas contra um dos suportes da placa. Assim que a baixaram, a mulher abriu os olhos e olhou para eles desnorteada.
Tom estalou os dedos na frente do rosto dela, duas vezes, rapidamente. Ela piscou e olhou para Clay.
— Você... me bateu — ela disse. Seus dedos subiram para tocar a parte do queixo que inchava depressa.
— Sim, eu sint... — começou a falar Clay.
— Ele pode sentir muito, mas eu não — disse Tom. Ele falou naquele mesmo tom enérgico e frio. — Você estava aterrorizando nossa pupila.
A mulher gorducha riu baixinho, mas havia lágrimas nos seus olhos.
— Pupila! Eu já ouvi muitas palavras para isso, mas é a primeira vez que ouço esta. Como se eu não soubesse o que homens como vocês querem com uma garota meiga como ela, especialmente numa hora dessas. "Eles não se arrependeram pelas fornicações, ou pelas sodomias, ou pelas..."
— Cale a boca — disse Tom —, ou eu mesmo vou te dar uma porrada. E, diferentemente do meu amigo, que parece ter tido a sorte de não crescer entre carolas e, portanto, não reconhece você pelo que é, não vou retrair meu soco. Está avisada... mais uma palavra. — Ele ergueu o punho diante dos olhos da mulher e, embora Clay já tivesse concluído que Tom era um homem educado, civilizado e provavelmente não muito bom de soco em circunstâncias normais, não pôde deixar de se sentir abatido diante daquele punho pequeno, cerrado, como se estivesse vendo um presságio dos tempos vindouros.
A mulher olhou e ficou calada. Uma lágrima gorda desceu pela sua bochecha avermelhada de ruge.
— Já chega, Tom, eu estou bem — disse Alice.
Tom depositou a bolsa de compras da mulher gorducha no seu colo. Clay nem tinha percebido que Tom a resgatara. Então ele pegou a Bíblia de Alice, agarrou uma das mãos cheias de anéis da mulher e enfiou o livro nela, cora a lombada para dentro. Começou a se afastar e então voltou.
— Tom, já chega, vamos embora —- disse Clay.
Tom o ignorou. Inclinou-se na direção da mulher recostada no suporte da placa. As mãos dele estavam nos joelhos e, para Clay, os dois — a gorducha de óculos que olhava para cima e o homenzinho de óculos que se apoiava nos joelhos — pareciam gravuras de alguma paródia enlouquecida das ilustrações antigas dos romances de Charles Dickens.
— Vou te dar um conselho, irmã — disse Tom. — A polícia não vai mais protegê-la como nas passeatas que você e seus amigos hipócritas e papa-hóstias fizeram nos centros de planejamento familiar ou na Clínica Emily Cathcart em Waltham...
— Aquela fábrica de abortos! — ela exclamou e ergueu a Bíblia, como se bloqueasse um golpe.
Tom não bateu nela, mas estava sorrindo com ferocidade.
— Não sei quanto ao Véu da Insanidade, mas com certeza tem beatos malucos por aí esta noite. Fui claro? Os leões estão soltos e pode acreditar que eles vão comer os cristãos desbocados primeiro. Alguém anulou seu direito à liberdade de expressão por volta das três da tarde de hoje. Só estou dando um conselho. — Ele olhou para Alice e Clay, e Clay viu que seu lábio superior sobre o bigode tremia um pouco. — Vamos?
— Sim — disse Clay.
— Uau — disse Alice, quando eles já haviam voltado a andar em direção à rampa para Salem Street, deixando o Mercadão de Bebidas Mister Big para trás. — Você se criou com alguém assim?
— Minha mãe e as duas irmãs dela — disse Tom. — Primeira Igreja de Cristo Redentor da Nova Inglaterra. Elas viam Jesus como um salvador particular, enquanto a igreja as considerava seus trouxas particulares.
— Onde está sua mãe agora? — perguntou Clay.
Tom olhou brevemente para ele.
— No céu. A não ser que aqueles desgraçados a tenham enganado sobre isso também. Tenho quase certeza que sim.
Perto do semáforo no pé da rampa, dois homens brigavam por um barril de chope. Se tivesse que adivinhar, Clay diria que ele provavelmente fora roubado do Mercadão de Bebidas Mister Big. Agora estava no acostamento, esquecido, amassado e vazando espuma, enquanto os dois homens — ambos fortes e ambos sangrando — se esmurravam.
Alice apertou o corpo contra Clay e ele passou o braço ao redor dela, mas havia algo quase tranqüilizador naqueles brigões. Eles estavam com raiva — furiosos —, mas não loucos. Não como aquelas pessoas na cidade.
Um deles era careca e usava um casaco dos Celtics. Ele acertou um gancho de cima para baixo no outro que esmagou os lábios do oponente e o nocauteou. Quando o homem de casaco dos Celtics avançou sobre o homem caído, ele se arrastou para longe e então se levantou, ainda se afastando. Cuspiu sangue.
— Pode ficar, seu merda! — ele gritou com um sotaque gutural e choroso de Boston. — Tomara que morra engasgado.
O careca de casaco dos Celtics fez menção de atacá-lo e o outro subiu correndo a rampa na direção da Route One. O Casaco dos Celtics começou a se abaixar para apanhar seu prêmio, notou a presença de Clay, Alice e Tom, e se empertigou de novo. Eram três contra um, ele estava com um olho roxo e sangue descia pelo seu rosto de uma orelha estraçalhada, mas Clay não viu medo na expressão dele, embora só tivesse a luz cada vez mais fraca do incêndio de Revere para poder enxergar. Ele pensou que seu avô teria dito que a sorte daquele cara tinha acabado, o que combinava bem com o trevo nas costas do casaco.
— Tá olhando o quê, caralho? — ele perguntou.
— Nada... só estou de passagem, se não tiver problema — disse Tom com brandura. — Moro na Salem Street.
— Para mim, você pode ir pra Salem Street ou para o inferno — disse o careca com o casaco dos Celtics. — Ainda é um país livre, não é?
— Hoje à noite? — falou Clay. — Livre até demais.
O careca refletiu e então gargalhou, um rá-rá duplo sem humor.
— O que aconteceu, porra? Cês tão sabendo?
Alice disse:
— Foram os celulares. Eles deixaram as pessoas malucas.
O careca pegou o barril. Ele o manujeou com facilidade, inclinando-o para cessar o vazamento.
— Essas merdas — falou. — Nunca quis ter um. Programa de minutos acumulados. Que porra é essa?
Clay não sabia. Talvez Tom, sim — ele tinha celular, então era capaz de saber —, mas não falou nada. Provavelmente não queria entrar em uma discussão longa com o careca, o que provavelmente era uma boa idéia. Clay pensou que aquele homem tinha algumas das características de uma granada não detonada.
— A cidade tá queimando — disse o careca. — Não tá?
— Está sim — respondeu Clay. — Acho que os Celtics não vão jogar no Fleet este ano.
— Eles estão uma merda mesmo — falou o homem. — Doe Rivers não serve pra treinar nem a Liga Atlética da Polícia. — O homem ficou olhando para eles, barril no ombro, sangue descendo por um lado do rosto. No entanto, parecia bastante pacífico, quase sereno. — Vão — ele disse. — Mas não fiquem tão perto da cidade por muito tempo. A coisa vai piorar antes de melhorar. Vai haver muito mais incêndios, pra começo de conversa. Vocês acham que todo mundo que fugiu para o norte lembrou de desligar o gás da cozinha? Eu duvido.
Os três começaram a andar, e então Alice parou. Ela apontou para o barril.
— Isso era seu?
O careca lançou um olhar sensato para ela.
— Não tem mais era numa hora dessas, docinho. Não tem mais essa de era. Só tem o agora e o amanhã-quem-sabe. Agora ele é meu e, se tiver mais algum sobrando, vai ser meu também amanhã-quem-sabe. Agora, vão. Caiam fora.
— Até loguinho — disse Clay, e ergueu a mão.
— Não queria estar na pelinha de vocês — respondeu o careca, sem sorrir, mas levantou a própria mão em resposta. Eles tinham passado do semáforo e estavam atravessando para a outra calçada do que Clay supunha ser a Salem Street quando o careca os chamou de novo: — Ei, bonitão.
Tanto Clay quanto Tom viraram para olhar, e então trocaram olhares, achando graça. O careca com o barril já tinha virado apenas um vulto na ladeira; podia ser um homem das cavernas carregando um tacape.
— Onde foram parar os doidos? — perguntou o careca. — Não venha me dizer que estão todos mortos. Porque eu não vou acreditar.
— Essa é uma boa pergunta — disse Clay.
— Pode crer que sim. Tomem conta dessa belezinha aí. — E, sem esperar resposta, o homem que vencera a batalha do barril de cerveja deu meia volta e se misturou às sombras.
— Cá estamos — disse Tom, menos de dez minutos depois, e a luz surgiu de trás das nuvens e fumaça esparsas que a haviam escondido por cerca de uma hora, como se o homenzinho de óculos e bigode tivesse dado uma deixa para o Diretor de Iluminação Celestial. Seus raios, agora prateados, em vez daquele terrível laranja infecto, iluminavam a casa que era ou azul-escura, ou verde, ou até mesmo cinza; sem a ajuda das luzes da rua, era difícil ter certeza. O que Clay conseguia ver era que a casa era bem conservada e bonita, embora não tão grande quanto a primeira impressão dava a entender. O luar ajudava a criar a ilusão, mas ela era causada principalmente pela maneira como os degraus subiam do gramado bem cuidado de Tom McCourt até a única varanda coberta da rua. Havia uma chaminé de pedra à esquerda. De cima da varanda, uma água-furtada dava para a rua.
— Oh, Tom, ela é linda — disse Alice com uma voz extasiada demais. Para Clay, ela parecia exausta e à beira da histeria. Ele próprio não a achava linda, mas certamente parecia a casa de um homem que tinha um celular e todos os outros apetrechos do século XXI. Assim como todas as demais casas naquela parte da Salem Street. E Clay duvidava que muitos moradores tivessem tido a fantástica sorte de Tom. Ele olhou apreensivo à sua volta. Todas as casas estavam escuras, não havia energia, e talvez estivessem desertas, embora ele tivesse a sensação de que olhos os observavam.
Os olhos dos lunáticos? Dos fonáticos? Ele pensou na Mulher do Terninho de Poderosa e na Cabelinho Claro; no louco de calças cinza e gravata em frangalhos; no homem de terno que arrancara com os dentes a orelha do cachorro. Pensou no homem nu brandindo as antenas de carro para frente e para trás enquanto corria. Não, tocaiar não fazia parte do repertório dos fonáticos. Eles simplesmente vinham para cima de você. Mas, se houvesse pessoas normais escondidas naquelas casas — algumas delas, pelo menos —, onde estavam os fonáticos? Clay não sabia.
— Não sei se eu a chamaria de linda — disse Tom —, mas ainda está de pé, e isso já está de bom tamanho para mim. Eu já tinha metido na cabeça que a gente ia chegar aqui e encontrar um buraco fumegante no chão. — Ele enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno molho de chaves. — Entrem. Mesmo sendo um lar humilde, e por aí vai.
Eles foram andando pela passagem e tinham subido apenas uma meia dúzia de degraus quando Alice gritou:
— Esperem!
Clay deu meia volta, sentindo-se ao mesmo tempo assustado e exausto. Ele achou que estava começando a entender um pouco a fadiga de combate. Até sua adrenalina parecia combalida. Mas não havia ninguém lá — nenhum fonático, nenhum careca com sangue escorrendo pelo rosto de uma orelha rasgada, nem mesmo uma velhinha tagarelando sobre o Apocalipse. Só Alice, apoiando-se em um joelho no local onde a entrada da casa de Tom saía da calçada.
— O que foi, querida? — perguntou Tom.
Alice se levantou e Clay viu que ela segurava um tênis muito pequeno.
— É um Nike de bebê — ela disse. — Você tem...
Tom balançou a cabeça.
— Eu moro sozinho. Fora Rafe, quero dizer. Ele acha que é o rei do pedaço, mas é só o gato.
— Então quem o perdeu? — Ela olhou de Tom para Clay com um olhar pensativo e cansado.
Clay balançou a cabeça.
— Impossível saber, Alice. É melhor jogar fora.
Mas Clay sabia que ela não o faria, era um déjà-vu na sua forma mais desconcertante. Ela ainda o trazia nas mãos, enroscado contra a cintura, quando foi para trás de Tom, que estava nos degraus, passando os dedos devagar pelas chaves na luz escassa.
Agora vamos ouvir o gato, pensou Clay. Rafe. E, sem dúvida, lá estava o gato que tinha sido a salvação de Tom McCourt, miando boas-vindas do lado de dentro.
Tom se agachou e Rafe ou Rafer — ambos diminutivos de Rafael — pulou nos braços dele, ronronando alto e esticando a cabeça para cheirar o bigode bem aparado do dono.
— É, eu também senti sua falta — disse Tom. — Tudo está perdoado, acredite.
Ele carregou Rafer pela varanda coberta, acariciando o topo da cabeça do gato. Alice o seguiu. Clay entrou por último, fechando e trancando a porta antes de ir atrás dos outros dois.
— Sigam-me até a cozinha — falou Tom quando eles já estavam dentro da casa propriamente dita. Havia um cheiro agradável de lustra móveis e, Clay pensou, couro, um cheiro que ele associava a homens que viviam vidas tranqüilas que não necessariamente envolviam mulheres. — Segunda porta à direita. Fiquem juntos. O corredor é largo e não tem nada no chão, mas há mesas dos dois lados e está um breu. Como vocês podem ver.
— Por assim dizer — disse Clay.
— Rá-rá.
— Você tem lanternas? — perguntou Clay.
— Lanternas e um lampião que deve servir melhor ainda, mas vamos chegar à cozinha antes.
Eles o seguiram pelo corredor, Alice andando entre os dois homens. Clay podia ouvi-la respirar rápido, tentando não ficar apavorada com o ambiente desconhecido, mas era obviamente difícil. Diabos, era difícil para ele. Desorientador. Seria melhor se eles tivessem pelo menos um pouquinho de luz, mas...
Ele topou com o joelho em uma das mesas que Tom mencionara e algo que parecia muito propenso a quebrar fez um barulho de dentes tiritando. Clay se preparou para ouvir a coisa se despedaçar e para o grito de Alice. Era quase garantido que ela iria gritar. Então, o que quer que fosse, um vaso ou alguma quinquilharia, decidiu viver um pouco mais e ficou no lugar. Ainda assim, pareceu que eles andaram bastante até Tom falar:
— Aqui, ok? Virem à direita.
A cozinha estava quase tão escura quanto o corredor, e Clay teve apenas um instante para pensar em todas as coisas de que estava sentindo falta e de que Tom devia estar sentindo mais falta ainda: o painel digital do microondas, o zumbido da geladeira, talvez uma luz da casa vizinha entrando pela janela sobre a pia e fazendo reflexos na torneira.
— Aqui está a mesa — disse Tom. — Alice, vou pegar na sua mão. Aqui está uma cadeira, ok? Desculpe se parece que estou brincando de cabra-cega.
— Tudo b... — ela começou a falar, então soltou um gritinho que fez Clay pular. Sua mão foi parar no cabo do seu cutelo (agora Clay pensava no cutelo como dele), antes mesmo de ele perceber que o havia alcançado.
— O quê? — perguntou Tom bruscamente. — O quê?
— Nada — ela respondeu. — Foi só... nada. O gato. O rabo dele... na minha perna.
— Oh. Desculpe.
— Tudo bem. Que idiota — ela acrescentou com um ódio de si mesma que fez Clay se encolher no escuro.
— Não — ele disse. — Não seja tão dura consigo mesma, Alice. Foi um dia difícil no escritório.
— Um dia difícil no escritório! — repetiu Alice, e riu de uma maneira que Clay não gostou, pois o fez lembrar da voz dela quando chamou a casa de Tom de linda. Ele pensou: Ela vai ter que deixar disso, mas o que eu posso fazer? Nos filmes, a garota histérica leva uma bofetada e isso sempre coloca a cabeça dela no lugar, mas nos filmes a gente consegue enxergá-la.
Ele não teve que estapeá-la, sacudi-la ou abraçá-la, o que seria, provavelmente, a sua primeira opção. Ela talvez tenha escutado aquela inflexão na própria voz, controlou-a e a subjugou: transformando-a primeiro em um gargarejo sufocado, depois em um arquejo e, por fim, em silêncio.
— Sente-se — disse Tom. — Você deve estar cansada. Você também, Clay. Vou trazer uma luz para cá.
Clay saiu em busca de uma cadeira e sentou-se em uma mesa que mal conseguia enxergar, embora seus olhos já estivessem totalmente habituados ao escuro àquela altura. Sentiu algo roçar a perna da sua calça por um instante. Um miado baixinho. Rafe.
— Ei, adivinha só? — ele falou para o vulto da garota à medida que os passos de Tom se afastavam. — O velho Rafe acabou de me dar um susto também. — Embora não tivesse sido o caso, não exatamente.
— Temos que perdoá-lo — ela disse. — Sem o gato, Tom estaria tão maluco quanto aqueles outros. E isso seria uma pena.
— Seria mesmo.
— Estou com tanto medo — ela disse. — Você acha que vai melhorar amanhã, à luz do dia, essa coisa de sentir medo?
— Não sei.
— Você deve estar morrendo de preocupação com a sua mulher e o garotinho.
Clay suspirou e esfregou o rosto.
— A pior parte é suportar a sensação de impotência. Nós estamos separados, sabe, e... — Ele parou de falar e balançou a cabeça. Não teria prosseguido se ela não tivesse pegado a sua mão. Os dedos dela estavam firmes e gelados. — Nós nos separamos na primavera. Ainda moramos na mesma cidadezinha, o que minha mãe chamaria de casamento de portão. Minha mulher é professora primária.
Ele se inclinou para frente, tentando ver o rosto dela na escuridão.
— Sabe o que é pior? Se isso tivesse acontecido um ano atrás, Johnny estaria com ela. Mas nesse setembro ele passou para o ensino médio, e a escola fica a 8 quilômetros de distância. Fico tentando calcular se ele já estava em casa quando tudo foi pelos ares. Ele e os amigos vêm de ônibus. Acho que ele já devia estar em casa. E acho que teria ido direto atrás da mãe.
Ou tirado o celular da mochila e ligado para ela!, sugeriu alegremente o rato surtado... e então mordeu. Clay sentiu seus dedos apertarem a mão de Alice e se forçou a parar. Mas não conseguia impedir o suor de brotar no rosto e nos braços.
— Mas você não tem certeza — ela disse.
— Não.
— Meu pai tem uma loja de reproduções e molduras em Newton — ela disse. — Tenho certeza de que ele está bem. Papai sabe se virar bem sozinho, mas deve estar preocupado comigo. Comigo e com a minha. A minha você-sabe-quem.
Clay sabia.
— Não paro de pensar em como ele fez para jantar — ela disse. — Sei que é loucura, mas ele não sabe fritar um ovo.
Clay pensou em perguntar se o pai dela tinha celular, mas algo o avisou para não fazê-lo. Em vez disso, perguntou:
— Você está bem agora?
— Sim — ela falou e deu de ombros. — O que aconteceu com ele aconteceu. Não posso fazer nada.
Ele pensou: Preferia que você não tivesse dito isso.
— Já contei que o meu filho tem um celular? — A voz dele soou tão rouca quanto o grasnido de um corvo aos seus próprios ouvidos.
— Sim, contou. Antes de cruzarmos a ponte.
— É verdade. — Ele estava mordendo o lábio inferior e se forçou a parar. — Mas ele não estava sempre carregado. Eu devo ter falado isso também.
— Falou.
— Não tenho como saber. — O rato surtado tinha saído da gaiola. Correndo e mordendo.
As duas mãos dela se fecharam sobre as de Clay. Ele não queria sucumbir ao consolo da garota — era difícil abdicar do autocontrole e sucumbir —, mas o fez, achando que talvez ela precisasse mais dar do que ele receber. Eles estavam daquele jeito, as mãos unidas perto do saleiro e do pimenteiro de metal na mesa da pequena cozinha de Tom McCourt, quando Tom voltou do porão com quatro lanternas e um lampião ainda na caixa.
A luz do lampião era forte o bastante para tornar as lanternas desnecessárias. O brilho era intenso e branco, mas Clay gostava dele, da ma-neira como ele acabava com todas as sombras, exceto as deles próprios e a do gato — que saltou de um jeito fantástico parede acima como uma decoração de Dia das Bruxas feita de papel crepom preto.
— Acho que você devia fechar as cortinas — disse Alice.
Tom estava abrindo um dos sacos plásticos do Metropolitan Café. Ele parou e olhou para ela com curiosidade.
— Por quê?
Ela deu de ombros e sorriu. Clay achou que aquele era o sorriso mais estranho que já vira no rosto de uma adolescente. Ela limpara o sangue do nariz e do queixo, mas havia olheiras de cansaço debaixo dos seus olhos e o lampião descoloriu-lhe o restante do rosto, deixando-o pálido como o de um cadáver, e a artificialidade adulta daquele sorriso, que mostrava um pedacinho dos dentes entre lábios trêmulos que já não tinham mais batom algum, era desconcertante. Ele pensou que Alice parecia uma atriz de cinema do fim da década de 1940 fa-zendo o papel de uma socialite à beira de um colapso nervoso. O tênis em miniatura estava diante dela na mesa. Ela o girava com um dedo. A cada volta, os cadarços rodavam com um estalo. Clay começou a dese-jar que ela desmoronasse logo. Quanto mais segurasse as pontas, pior seria quando finalmente se entregasse. Ela havia deixado um pouco daquilo vir à tona, mas ainda estava longe de ser o suficiente. Até o momento, quem tinha deixado vir mais à tona era Clay.
— Não acho que as pessoas deviam ver que estamos aqui, só isso — ela disse. Girou o tênis. O que ela chamava de Nike de bebê. Ele deu uma volta. Os cadarços rodaram com um estalo na mesa bem lustrada de Tom. — Talvez seja... ruim.
Tom olhou para Clay.
— Ela pode ter razão — disse Clay. — Não gosto da idéia de sermos a única casa iluminada no quarteirão, mesmo sendo a luz dos fundos.
Tom se levantou e fechou as cortinas sobre a pia sem falar mais uma palavra. Havia outras duas janelas na cozinha e ele fechou as cortinas delas também. Começou a voltar para a mesa, mas então mudou de rumo e fechou a porta entre a cozinha e o corredor. Alice girou o Nike de bebê à sua frente. Sob o brilho intenso e profuso do lampião, Clay pôde ver que ele era rosa e púrpura, cores que só mesmo uma criança gostaria. E ele rodou. Os cadarços saltaram com um estalo. Tom olhou para ele com a cara fechada ao sentar, e Clay pensou: Diga para ela tirar o tênis da mesa. Diga que ela não sabe por onde ele andou e que você não o quer em cima da mesa. Isso deve bastar para ela explodir e então poderemos começar a tirar essa parte do caminho. Diga a ela. Acho que é isso que ela quer. Acho que é por isso que está girando o tênis.
Porém, Tom apenas tirou os sanduíches da sacola — rosbife e queijo, presunto e queijo — e os distribuiu. Ele pegou um jarro de chá gelado do refrigerador ("Ainda está bem gelado", ele disse) e então colocou os restos de uma caixa de hambúrgueres crus no chão para o gato.
— Ele merece — ele falou, quase na defensiva. — Além do mais, ia acabar estragando com a falta de energia.
Havia um telefone pendurado na parede. Clay o testou, mas era apenas uma formalidade, e daquela vez não conseguiu nem um tom de discagem. A coisa estava morta feito... bem, a Mulher do Terninho de Poderosa, lá no Boston Common. Ele voltou a sentar e se ocupou do seu sanduíche. Estava com fome, mas sem vontade de comer.
Alice largou o dela depois de apenas três mordidas.
— Não consigo — ela disse. — Agora não. Acho que estou cansada demais. Quero dormir. E quero tirar esse vestido. Acho que não dá pra lavar, não muito bem, mas daria qualquer coisa para poder jogar essa porra de vestido fora. Está fedendo a suor e sangue. — Ela girou o tênis. Ele rodou do lado do papel amassado embaixo do sanduíche quase intocado. — Sinto o cheiro da minha mãe nele também. Do perfume dela.
Por um instante, ninguém falou nada. Clay se sentia desconfortável. Ele visualizou momentaneamente Alice sem o vestido, vestindo sutiã e calcinhas brancas, com aqueles olhos arregalados e fundos fazendo-a parecer uma boneca de papel. Sua imaginação de artista, sempre obediente e prestativa, acrescentou alças nos ombros e na parte de baixo das pernas da figura. Era perturbador não por ser sexy, mas por não ser. Ao longe — muito baixinho — algo explodiu com um foomp surdo.
Tom quebrou o silêncio, e Clay lhe agradeceu por isso.
— Aposto que um jeans meu serviria em você, se enrolar as pontas. — Ele se levantou. — Sabe, acho que você vai até ficar bonitinha com ele, como Huck Finn em uma montagem de Big River em uma escola para meninas. Vamos subir. Vou separar umas roupas para você usar de manhã e pode passar a noite no quarto de hóspedes. Tenho um monte de pijamas, minha casa é infestada de pijamas. Quer ficar com o lampião?
— Só... acho que posso ficar só com uma lanterna. Tem certeza?
— Claro — disse ele. Tom pegou uma lanterna e entregou outra para ela. Deu a impressão de estar prestes a falar alguma coisa sobre o tênis em miniatura quando a garota o pegou, mas pareceu reconsiderar. O que disse foi: — Pode se lavar, também. Talvez não tenha muita água, mas deve sair um pouco da torneira mesmo sem energia, e tenho certeza de que podemos gastar uma bacia. — Ele olhou por sobre a cabeça dela para Clay. — Sempre deixo um engradado de garrafas d'água no porão, então não vai faltar, para beber.
Clay assentiu.
— Durma bem, Alice — falou.
— Você também — ela respondeu vagamente. E depois, mais vagamente ainda: — Foi um prazer.
Tom abriu a porta para ela. As luzes das lanternas oscilaram e então a porta voltou a fechar. Clay escutou passos na escada e depois no andar de cima. Ouviu água corrente. Esperou o barulho do ar nos canos, mas o fluxo de água parou antes que o ar começasse. Clay também queria lavar sangue e sujeira do corpo — assim como Tom, ele imaginava —, mas achou que deveria ter outro banheiro no primeiro piso. E se Tom fosse tão caprichoso em relação à higiene quanto o era consigo mesmo, a água da privada estaria limpa. E havia também a água do tanque, é claro.
Rafer pulou na cadeira de Tom e começou a lamber as patas sob a luz branca do lampião. Mesmo com o zumbido baixo e constante do lampião, Clay conseguia ouvi-lo ronronar. Na opinião de Rafe, a vida ainda era tranqüila.
Ele pensou em Alice girando o tênis em miniatura e imaginou, quase distraidamente, se era possível para uma garota de 15 anos ter um colapso nervoso.
— Não seja idiota — ele falou para o gato. — É claro que sim. Acontece o tempo todo. Eles fazem filmes sobre isso.
Rafer olhou para ele com olhos verdes e sábios e continuou lambendo a pata. Conte-me mais, aqueles olhos pareciam dizer. Você apanhava quando era criança? Tinha pensamentos sssexuais sobre a mãe?
Sinto o cheiro da minha mãe nele. Do perfume dela.
Alice é uma boneca de papel, com alças saindo dos ombros e das pernas.
Não ssseja bobo, os olhos de Rafer pareciam dizer. As alças das etiquetasss ficam nas roupas, não na boneca. Que tipo de artista você é?
— O tipo desempregado — ele disse. — Por que você não cala a boca?
Ele fechou os olhos, mas foi pior. Os olhos de Rafer flutuavam descarnados no escuro, como os do Gato Risonho de Lewis Carroll: Somos todos loucos aqui, querida Alice. E sob o zumbido constante do lampião, ele ainda conseguia ouvir o ronronar.
Tom demorou 15 minutos. Quando voltou, empurrou Rafe para fora da cadeira sem cerimônia e deu uma mordida grande e convincente no seu sanduíche.
— Ela está dormindo — ele disse. — Se enfiou em um dos meus pijamas enquanto eu esperava no corredor e então jogamos o vestido no lixo juntos. Acho que ela apagou quarenta segundos depois de bater no travesseiro. Estou convencido de que jogar o vestido fora foi o que resolveu o problema. — Uma pequena pausa. — Estava fedendo mesmo.
— Enquanto você estava lá em cima — disse Clay —, nomeei Rafe presidente dos Estados Unidos. Ele foi eleito por unanimidade.
— Ótimo — falou Tom. — Boa escolha. Quem votou?
— Milhões. Todo mundo que ainda está são. Eles mandaram os votos por telepatia. — Clay arregalou bem os olhos e cutucou as têmporas. — Eu leio meeentesss.
Tom parou de mastigar, então voltou... porém lentamente.
— Sabe — ele disse —, dadas as circunstâncias, isso não é tão engraçado assim.
Clay suspirou, bebericou um pouco de chá gelado e se forçou a comer um pouco mais do sanduíche. Ele disse a si mesmo para pensar na comida como gasolina para o corpo, se era o que precisava para empurrá-la goela abaixo.
— Não. Acho que não. Desculpe.
Tom fez um gesto com o copo dele na direção de Clay antes de beber.
— Tudo bem. Agradeço o esforço. Ei, onde está o seu portfolio?
— Deixei na varanda. Queria estar com as duas mãos livres enquanto passávamos pelo Corredor da Morte de Tom McCourt.
— Então está tudo bem. Ouça, Clay, lamento mesmo pela sua família...
— Não lamente ainda — disse Clay, com um pouco de rispidez. — Não há nada para lamentar ainda.
— ... mas fico muito feliz por ter encontrado você. Era só o que eu queria dizer.
— Igualmente — falou Clay. — Agradeço pelo lugar tranqüilo para passar a noite e tenho certeza de que Alice também.
— Contanto que Malden não fique turbulenta e queime à nossa volta.
Clay assentiu, sorrindo um pouco.
— Contanto que isso não aconteça. Você tirou aquele sapatinho sinistro dela?
— Não. Ela foi para cama com ele como... sei lá, um ursinho de pelúcia. Ela vai estar melhor amanhã se dormir a noite inteira.
— Você acha mesmo?
— Não — disse Tom. — Mas se acordar assustada no meio da noite, vou dormir com ela. Entrar na cama junto, se for preciso. Você sabe que eu não faria nada com ela, não é?
— Claro. — Clay sabia que ele também não, mas entendeu sobre o que Tom estava falando. — Vou para o norte amanhã assim que o dia raiar. Talvez seja uma boa idéia vocês dois virem comigo.
Tom pensou sobre a proposta por um instante, então perguntou:
— E o pai dela?
— Ela falou que o pai, abre aspas, "sabe se virar bem sozinho". A maior preocupação dela era sobre como ele fez para jantar. O que entendi disso é que Alice não está pronta para saber. É claro que teremos que esperar para ver a reação dela, mas prefiro mantê-la com a gente e não quero ir para aquelas cidades industriais do oeste.
— Você não quer ir para o oeste de jeito nenhum?
— Não — admitiu Clay.
Clay pensou que Tom talvez fosse discutir sobre aquilo, mas não discutiu.
— E hoje à noite? Você acha que devemos ficar vigiando?
Clay não tinha pensado sobre o assunto até aquele momento. Ele disse:
— Não sei se vai adiantar muito. Se uma turba enlouquecida descer a Salem Street brandindo armas e tochas, o que nós poderemos fazer a respeito?
— Descer para o subsolo?
Clay pensou naquela opção. Descer para o subsolo lhe parecia terrivelmente extremo — o refúgio final do bunker como defesa —, mas havia a possibilidade de a hipotética turba enlouquecida em questão achar que a casa estivesse deserta e passar direto. Ele imaginou que seria melhor descer do que ser massacrado na cozinha. Talvez depois de ver Alice ser estuprada por um grupo de homens.
Não vai chegar a esse ponto, ele pensou, apreensivo. Você está se deixando levar pelas hipóteses, só isso. Ficando apavorado no escuro. Não vai chegar a esse ponto.
Só que Boston estava em chamas atrás deles. Lojas de bebidas estavam sendo saqueadas e homens se esmurravam até sangrar por barris de alumínio de cerveja. Já tinha chegado àquele ponto.
Enquanto isso, Tom o observava, deixando-o digerir a idéia... o que significava que Tom talvez já tivesse feito isso. Rafe pulou no colo dele. Tom largou o sanduíche e acariciou as costas do gato.
— Por que a gente não faz o seguinte? — falou Clay. — Se você tiver umas mantas para eu me enrolar, posso passar a noite lá fora, na varanda. Ela é coberta e mais escura do que a rua. O que significa que é mais provável que eu veja qualquer pessoa vindo bem antes de ela notar que eu estou observando. Principalmente se for um daqueles fonáticos. Eles não me pareceram ser muito bons de tocaia.
— Não, eles não são do tipo que atacam de surpresa. Mas e se alguém vier pelos fundos? A Lynn Avenue fica a uma quadra daqui.
Clay deu de ombros, tentando indicar que eles não tinham como se defender de tudo — ou mesmo de muita coisa — sem precisar dizer em voz alta.
— Tudo bem — disse Tom, depois de comer um pouco mais do seu sanduíche e dar um pedaço de presunto para Rafe. — Mas você poderia me chamar lá pelas três. Se a Alice não tiver acordado até essa hora, é bem provável que durma a noite inteira.
— Vamos esperar para ver o que acontece — disse Clay. — Veja bem, acho que sei a resposta para essa pergunta, mas você não teria uma arma?
— Não — falou Tom. — Nem uma solitária lata de spray de pimenta. — Ele olhou para o sanduíche e o largou. Quando ergueu os olhos para Clay, eles estavam extraordinariamente tristes. Falou baixinho, como as pessoas falam quando conversam assuntos secretos. — Você se lembra do que o policial falou logo antes de atirar naquele maluco?
Clay assentiu. E aí, meu caro, como vai? Quero dizer, tudo em cima? Ele jamais se esqueceria daquilo.