Celular
A civilização entrou na sua segunda idade…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— O que houve? — perguntou o homenzinho com uma voz lacrimosa. Clay, mesmo aflito, não pôde deixar de se sentir tocado pela preocupação que detectou naquela pergunta. — Ele te pegou? Você o tapou por alguns segundos e não consegui ver. Ele te pegou? Você está ferido?
— Não — respondeu Clay. — Estoij b...
Outra explosão gigantesca veio do norte, quase certamente do aeroporto Logan, do outro lado do porto de Boston. Os dois curvaram os ombros e se encolheram.
O lunático aproveitou para se sentar e estava lutando para ficar de pé quando o homenzinho de terno de tweed deu um desajeitado, porém eficiente, chute enviesado, cravando um sapato bem no meio da gravata esfarrapada do homem, nocauteando-o mais uma vez. O lunático rugiu e agarrou o pé do homenzinho. Poderia tê-lo derrubado no chão e talvez lhe dado em seguida um quebra-costelas, se Clay não tivesse pegado seu novo amigo pelo ombro e o puxado para longe.
— Ele pegou meu sapato!— gritou o homenzinho. Atrás deles, mais dois carros bateram. Houve mais gritos, mais alarmes. Alarmes de carro, alarmes de incêndio, alarmes contra roubos esporrentos. Sirenes soavam a distância. — O desgraçado pegou meu sa...
De repente, lá estava um policial. Um dos que estiveram do outro lado da rua, Clay supôs, e, à medida que o policial se agachou apoiando-se em um joelho azul do lado do lunático tagarela, Clay sentiu algo muito parecido com amor pelo tira. Ele tinha se dado o trabalho de ir até lá! Ele tinha notado!
— É melhor tomar cuidado — disse o homenzinho nervosamente. — Ele é...
— Eu sei o que ele é — respondeu o policial, e Clay viu que ele estava com sua pistola automática na mão. Não fazia idéia se o policial a tirara depois de se ajoelhar ou se estivera com ela em punho o tempo todo. Clay estava muito ocupado se sentindo agradecido para notar.
O policial olhou para o lunático. Aproximou-se do lunático. Pareceu quase se oferecer para o lunático.
— E aí, meu caro, como vai? — ele murmurou. — Quero dizer, tudo em cima?
O lunático investiu contra o policial e colocou as mãos na garganta dele. No momento em que fez isso, o policial meteu a boca da arma na cavidade da têmpora do homem e puxou o gatilho. Um grande jato de sangue jorrou através do cabelo grisalho do outro lado da cabeça do lunático e ele caiu de volta na calçada, estirando os dois braços de forma melodramática: Olhe só mamãe, estou morto.
Clay. olhou para o homenzinho de bigode e o homenzinho de bigode olhou para ele. Então os dois olharam de volta para o policial, que tinha colocado a arma no coldre e estava tirando uma carteira de couro do bolso da frente da blusa do uniforme. Clay ficou feliz em ver que a mão que ele costumava usar para fazer aquilo estava tremendo um pouco. Estava com medo do policial, mas teria ficado com mais medo ainda se as mãos dele estivessem firmes. E o que acabara de acontecer não era um caso isolado. O tiro parecia ter tido algum efeito na audição de Clay, limpado um circuito ou algo do gênero. Ele passou a ouvir outros tiros, estampidos isolados pontuando a cacofonia cada vez maior daquele dia.
O policial tirou um cartão — Clay achou que fosse um cartão de apresentação — da carteira fina de couro e então a colocou de volta no bolso da frente. Segurou o cartão entre os dois primeiros dedos da mão esquerda enquanto a direita havia descido novamente para a coronha da arma. Perto dos seus sapatos bem polidos, sangue da cabeça estraçalhada do lunático empoçava na calçada. Próximo de lá, a Mulher do Terninho de Poderosa estava caída em outra poça de sangue, que começava a coagular e passar para um tom mais escuro de vermelho.
— Qual é seu nome, senhor? — perguntou o policial para Clay.
— Clayton Riddell.
— O senhor sabe me dizer quem é o presidente?
Clay disse para ele.
— Senhor, sabe me dizer a data de hoje?
— É dia 10 de outubro. Você sabe o que está?...
O policial olhou para o homenzinho de bigode.
— Seu nome?
— Eu sou Thomas McCourt, 140 Salem Street, Malden. Eu...
— Sabe me dizer o nome do homem que concorreu contra o presidente na última eleição?
Tom McCourt disse.
— Quem é a mulher do Brad Pitt?
McCourt jogou as mãos para cima.
— Como é que eu vou saber? Uma estrela de cinema qualquer, eu acho.
— Ok. — O policial entregou para Clay o cartão que estava entre seus dedos. — Eu sou o oficial Ulrich Ashland. Este é o meu cartão. Os senhores talvez sejam chamados para testemunhar sobre o que aconteceu aqui. O que aconteceu é que os senhores precisaram da minha ajuda, eu os ajudei, fui atacado e me defendi.
— Você quis matá-lo — disse Clay.
— Sim, senhor, estamos mandando-os dessa para a melhor o mais rápido possível — concordou o oficial Ashland. — E se o senhor disser para qualquer tribunal ou comitê de inquérito que eu falei isso, vou negar. Mas tinha que ser feito. Esse pessoal está aparecendo em tudo quanto é canto. Alguns apenas cometem suicídio. Muitos outros atacam. — Ele hesitou e então prosseguiu: — Até onde sei, todos os outros atacam. — Como se para reforçar aquele argumento, ouviu-se outro tiro do outro lado da rua, uma pausa e então mais três, em rápida sucessão, do pátio coberto de sombras do Four Seasons Hotel, que se tornara um emaranhado de vidro quebrado, corpos quebrados, veículos acidentados e sangue derramado. — É como a porra do A Noite dos Mortos-vivos. — O oficial Ulrich Ashland seguiu de volta para a Boylston Street com a mão ainda na coronha da arma. — Só que essas pessoas não estão mortas. Quero dizer, a não ser que a gente as ajude.
— Rick! — Era um policial do outro lado da rua, chamando insistentemente. — Rick, temos que ir para o Logan! Todas as viaturas! Vem para cá!
O oficial Ashland olhou para ver se havia trânsito, mas não havia. Com exceção dos veículos acidentados, a Boylston Street estava momentaneamente deserta. Porém, o som de mais explosões e batidas vinha das cercanias. O cheiro de fumaça estava ficando mais forte. Ele começou a atravessar a rua, chegou até a metade do caminho e se virou.
— Procurem algum abrigo — falou. — Protejam-se. Já tiveram sorte uma vez. Talvez não tenham da próxima.
— Oficial Ashland — disse Clay. — O seu pessoal não usa telefones celulares, usa?
Ashland o observou do meio da Boylston Street — um lugar não muito seguro para ficar, na opinião de Clay. Ele estava pensando no Duck Boat fora de controle.
— Não, senhor — respondeu ele. — Temos rádios nos nossos carros. Esses aqui — ele deu uma batidinha no rádio que carregava no cinto, no lado oposto ao coldre. Clay, um rato de histórias em quadrinhos desde que aprendera a ler, pensou brevemente no maravilhoso cinto de utilidades do Batman.
— Não os use — disse Clay. — Diga aos outros. Não usem os telefones celulares.
— Por que diz isso?
— Por que eles estavam usando. — Ele apontou para a mulher morta e para a garota inconsciente. — Logo antes de enlouquecerem. Aposto o que você quiser que o cara do cutelo...
— Rick! — o policial do outro lado da rua voltou a gritar. — Anda logo, porra!
— Procurem abrigo — repetiu o oficial Ashland e correu para a calçada do Four Seasons. Clay queria ter repetido o que falou sobre os celulares, mas no geral estava feliz de ver que o policial estava a salvo. Não que ele achasse que qualquer pessoa em Boston estivesse de fato, não naquela tarde.
— O que você está fazendo? — Clay perguntou a Tom McCourt. — Não encoste nele, pode ser, sei lá, contagioso.
— Não vou encostar nele — disse Tom —, mas preciso do meu sapato.
O sapato, perto dos dedos abertos da mão esquerda do lunático, pelo menos estava longe de onde jorrava o sangue. Tom enganchou com cuidado os dedos na parte de trás dele e o puxou na sua direção. Então se sentou no meio-fio da Boylston Street — bem onde o caminhão do Mister Softee tinha estacionado no que parecia a Clay uma outra vida — e o calçou no pé.
— O cadarço está rasgado — ele disse. — Aquele maluco rasgou o cadarço. — E começou a chorar de novo.
— Faça o melhor que puder — falou Clay. Começou a tentar tirar o cutelo do portfolio. Ele tinha sido enfiado com uma força tremenda, e Clay descobriu que teria que sacudilo para cima e para baixo até soltá-lo. Saiu com relutância, após uma série de puxões, e com uns rangidos feios que lhe deram vontade de se encolher. Ele não parava de imaginar quem tinha sofrido mais lá dentro. Pensar naquilo era idiotice, tudo culpa do estado de choque, mas ele não conseguia evitar.
— Não dá para amarrar mais embaixo?
— É, acho que s...
Clay começou a ouvir um zumbido de mosquito mecânico que aumentou até virar um ronco mais próximo. Tom levantou o pescoço do seu lugar no meio-fio. Clay se virou. A pequena caravana de carros do Departamento de Polícia de Boston que saía do Four Seasons parou em frente à Citylights e ao Duck Boat acidentado com suas luzes piscando. Policiais colocaram a cabeça para fora das janelas à medida que um avião particular — de tamanho médio, talvez um Cessna ou o tipo que chamam de Twin Bonanza, Clay não conhecia aviões direito — veio seguindo lentamente por sobre os prédios entre o porto de Boston e o Boston Common, caindo rápido. O avião fez uma curva trôpega sobre o parque, a asa inferior quase raspando o topo de uma árvore outonal, e então se estabilizou no desfiladeiro da Charles Street, como se decidisse que aquilo era uma pista. Depois, a menos de 6 metros do solo, se inclinou para a esquerda e a asa daquele lado se chocou contra a fachada de um prédio de ardósia cinza, talvez um banco, na esquina da Charles com a Beacon. Qualquer ilusão de que o avião se movia lentamente, quase deslizando, desapareceu naquele instante. Ele girou ao redor da asa presa com um tranco violento, bateu no prédio de tijolo vermelho do lado do banco e desapareceu por entre pétalas brilhantes de fogo laranja-avermelhado. A onda de choque martelou pelo parque. Patos levantaram vôo diante dela.
Clay olhou para baixo e viu que estava segurando o cutelo na mão. Ele o havia soltado enquanto ele e Tom McCourt observavam o avião bater. Limpou primeiro um lado da lâmina e depois o outro com a parte da frente da camisa, tomando cuidado para não se cortar (agora as mãos dele estavam tremendo). Então o enfiou — com muito cuidado — no cinto, até o cabo. Ao fazer aquilo, uma das suas primeiras tentativas de criar uma história em quadrinhos lhe veio à mente... uma pequena juvem, na verdade.
— Joxer, o pirata, ao seu dispor, belezinha — ele murmurou.
— O quê? — perguntou Tom. Ele estava do lado de Clay, olhando para aquele inferno borbulhante que se tornara o avião no lado oposto ao Boston Common. Somente a cauda estava fora do fogo.
Nela, Clay conseguia ler o número LN6409B. Encimando-a, havia algo que parecia um logotipo de alguma equipe esportiva.
Então aquilo também desapareceu.
Ele sentia as primeiras ondas de calor começando a bater contra o seu rosto.
— Nada — ele disse para o homenzinho de terno de tweed. — Vamos ralar.
— Hein?
— Vamos cair fora.
— Ah, ok.
Clay começou a andar pelo lado sul do Common, na direção que estava indo às três da tarde, 18 minutos e uma eternidade antes. Tom McCourt apertou o passo para acompanhá-lo. Ele era um homem muito baixinho mesmo.
— Me diz uma coisa — ele falou —, você fala muita besteira?
— Sem dúvida — disse Clay. — Pergunte pra minha mulher.
— Para onde estamos indo? — perguntou Tom. — Eu estava a caminho do metrô. — Ele apontou para um quiosque pintado de verde a cerca de uma quadra de distância. Uma pequena multidão se misturava lá. — Mas já não acho que estar debaixo da terra seja uma boa idéia.
— Eu também não — disse Clay. — Estou em um quarto em um lugar chamado Atlantic Avenue Inn, a umas cinco quadras mais adiante.
Tom se animou.
— Acho que eu conheço. Fica na Louden, na verdade, saindo da Atlantic.
— Isso. Vamos para lá. Podemos ver a tevê. E eu quero ligar para a minha mulher.
— Do telefone do quarto.
— Do telefone do quarto, entendido. Eu nem tenho um celular.
— Eu tenho um, mas deixei em casa. Está quebrado. Rafe, meu gato, o derrubou de cima do aparador. Ia comprar um novo hoje mesmo, mas... peraí. Sr. Riddell...
— Clay.
— Clay, então. Tem certeza que é seguro usar o telefone do seu quarto?
Clay parou. Não tinha nem mesmo considerado essa possibilidade. Mas se os telefones fixos não estivessem ok, o que estaria? Ia dizer aquilo para Tom quando uma confusão começou de repente na estação do metrô logo adiante. Ouviam-se exclamações de pânico, gritos e mais daquele palavrório enlouquecido — agora ele reconhecia aquilo pelo que era, a assinatura mal traçada da loucura. O pequeno emaranhado de pessoas que se misturava ao redor do abrigo de ardósia cinza e dos degraus que desciam para o metrô se dispersou. Alguns correram para a rua, dois deles com os braços ao redor um do outro, lançando olhares furtivos por sobre os ombros no caminho. Outras pessoas — a maioria delas — correram para o parque, todas em direções diferentes, o que partiu um pouco o coração de Clay. Ele sentiu um pouco mais de simpatia pelos dois que se abraçavam.
Ainda na estação do metrô e de pé estavam dois homens e duas mulheres. Clay tinha quase certeza de que eram eles que tinham saído da estação e afugentado os demais. Enquanto Clay e Tom observavam a meia quadra de distância, aqueles quatro restantes começaram a lutar entre si. Aquela briga possuía a crueldade histérica e assassina que ele já tinha visto antes, mas não havia um padrão discernível. Não eram três contra um, dois contra dois e certamente não eram meninos contra meninas; na verdade, uma das "meninas" era uma mulher que parecia ter uns 65 anos, com um corpo atarracado e corte de cabelo sisudo que fez Clay pensar em várias professoras que ele conhecera e que estavam perto de se aposentar.
Eles brigavam com pés, punhos, unhas e dentes, grunhindo, gritando e circundando os corpos de talvez meia dúzia de pessoas que já estavam no chão desmaiadas, ou talvez mortas. Um dos homens tropeçou em uma perna esticada e caiu de joelhos. A mais jovem das duas mulheres se jogou em cima dele. O homem de joelhos pegou algo da calçada no patamar da escada — Clay notou sem surpresa alguma que era um celular — e golpeou o lado do rosto da mulher com ele. O celular se despedaçou, abrindo um rasgo na bochecha da mulher e fazendo um jato de sangue jorrar no ombro do seu casaco leve, mas seu grito foi mais de raiva do que de dor. Ela agarrou as orelhas do homem ajoelhado como se fossem um par de alças, enfiou os próprios joelhos no colo dele e o empurrou para trás, jogando-o na penumbra do fosso da escada do metrô. Eles saíram de vista encalacrados e se engalfinhando como gatos no cio.
— Vamos — murmurou Tom, puxando a camisa de Clay com uma estranha delicadeza. — Vamos. Para o outro lado da rua. Vamos.
Clay se deixou ser levado pela Boylston Street. Imaginou que ou Tom McCourt estava atento ao caminho ou era sortudo, pois chegaram ao outro lado a salvo. Pararam novamente em frente à Colonial Books (Os Melhores Livros Antigos, os Melhores Livros Novos), observando a improvável vencedora da batalha da estação de metrô entrar no parque na direção do avião em chamas, com sangue pingando no colarinho, das pontas do seu cabelo grisalho estilo tolerância zero. Clay não ficou nem um pouco surpreso que a última pessoa de pé tivesse sido a senhora que parecia uma bibliotecária ou uma professora de latim a um ano ou dois da aposentadoria. Dera aulas com bastante senhoras daquele tipo e as que chegavam àquela idade eram muitas vezes quase indestrutíveis.
Ele abriu a boca para falar algo do gênero para Tom — na cabeça dele, parecia muito espirituoso — e o que saiu foi um grasnido choroso. Sua visão também ficou tremida. Ao que parecia, Tom McCourt, o homenzinho de terno de tweed, não era o único tendo problemas com o sistema hidráulico. Clay esfregou um braço sobre os olhos, tentou falar mais uma vez e não conseguiu nada além de outro daqueles grasnidos chorosos.
— Está tudo bem — disse Tom. — É melhor deixar sair.
E assim, de pé em frente a uma vitrine cheia de livros velhos em volta de uma máquina de escrever Royal que mandava suas saudações de uma época muito anterior à era das comunicações celulares, Clay deixou sair. Chorou pela Mulher do Terninho de Poderosa, pela Cabelinho Claro e pela Cabelinho Escuro e chorou por si mesmo, pois Boston não era seu lar, e seu lar nunca pareceu tão distante.
Depois do Common, a Boylston Street se estreitou e ficou tão entu-lhada de carros — tanto acidentados quanto simplesmente abandonados — que eles não precisavam mais se preocupar com limusines kamicases ou Duck Boats fora de controle. O que era um alívio. Por todo lado, a cidade pipocava e explodia como um réveillon no inferno. Também havia muito barulho nas proximidades — alarmes de carro e contra roubo, em sua maioria —, mas a rua em si estava sinistramente deserta pelo momento. Protejam-se, disse o oficial Ulrich Ashland, já tiveram sorte uma vez. Talvez não tenham da próxima.
Porém, duas quadras à direita da Colonial Books e ainda a uma quadra do hotel nem-tão-fuleiro-assim de Clay, eles tiveram sorte mais uma vez. Outro lunático, daquela vez um rapaz de uns 25 anos, com músculos que pareciam esculpidos por aparelhos de ginástica, irrompeu de um beco bem na frente deles e saiu correndo pela rua, saltando por cima dos pára-choques enganchados de dois carros e despejando um fluxo incessante daquela língua sem sentido no caminho. Segurava uma antena de carro em cada mão e as brandia rapidamente para frente e para trás no ar como adagas, enquanto seguia seu curso letal. Estava nu, com exceção do que parecia um par de Nikes novinho em folha, com seus logos vermelhos brilhantes. O pau dele balançava de um lado para o outro, como o pêndulo de um relógio antigo à base de anfetamina. Ele chegou à calçada oposta e dobrou para a esquerda, seguindo de volta para o Common, sua bunda subindo e descendo em um ritmo fantástico.
Tom McCourt agarrou o braço de Clay, com força, até aquele último lunático desaparecer, e então o soltou devagar.
— Se ele tivesse visto a gente... — começou a falar.
— É, mas não viu — disse Clay. Ele sentiu de repente uma felicidade absurda. Sabia que a sensação iria passar, mas, por ora, a aproveitava com prazer. Sentia-se como um jogador conseguindo uma seqüência interna em uma partida de pôquer com o maior pote da noite bem na sua frente.
— Tenho pena de quem ele vir — disse Tom.
— E eu de quem o vir — disse Clay. — Venha.
As portas do Atlantic Avenue Inn estavam trancadas.
Clay ficou tão surpreso que por um instante tudo que fez foi ficar parado ali, tentando girar a maçaneta e sentindo-a escorregar pelos dedos, tentando fazer a idéia entrar na sua cabeça: trancada. As portas do seu hotel, trancadas contra ele.
Tom foi para o seu lado, encostou a testa no vidro para evitar o reflexo e olhou para dentro. Do norte, certamente do Logan, veio outra daquelas explosões monstruosas e, dessa vez, Clay apenas se encolheu. Não achou que Tom McCourt houvesse tido reação alguma. Ele estava muito compenetrado no que estava vendo.
— Um cara morto no chão — anunciou por fim. — Com um uniforme, mas parece velho demais para ser o carregador.
— Não quero que ninguém carregue a minha bagagem, porra — disse Clay. — Só quero subir para o meu quarto.
Tom deu uma bufadinha esquisita. Clay achou que ele talvez estivesse começando a chorar de novo, mas então percebeu que o som era de uma risada abafada.
As portas duplas traziam ATLANTIC AVENUE INN escrito em um dos vidros e uma mentira cabeluda — O MELHOR HOTEL DE BOSTON — escrita no outro. Tom espalmou a mão sobre o vidro da esquerda, entre O MELHOR HOTEL DE BOSTON e uma série de adesivos de cartões de crédito.
Agora Clay também estava olhando lá para dentro. O saguão não era muito grande. À esquerda ficava o balcão da recepção. À direita, dois elevadores. No chão, havia um tapete vermelho-alaranjado. O velho de uniforme estava em cima dele, de bruços, com um pé sobre uma poltrona e uma gravura emoldurada de um veleiro sobre a bunda.
Os bons sentimentos de Clay o deixaram rapidamente e, quando Tom começou a esmurrar o vidro em vez de só bater nele, ele pousou a mão sobre o punho de Tom.
— Não vai adiantar — ele falou. — Eles não vão nos deixar entrar, mesmo se estiverem vivos e sãos. — Pensou sobre aquilo e assentiu. — Especialmente se estiverem sãos.
Tom olhou para ele, pensativo.
— Você não entende, não é?
— Hein? Não entendo o quê?
— As coisas mudaram. Eles não podem deixar a gente aqui fora.
— Ele tirou a mão de Clay de cima da dele, mas, em vez de esmurrar, encostou a testa no vidro de novo e gritou. Clay achou que ele gritava bem para um cara tão pequeno. — Ei! ô de casa!
Uma pausa. Nada mudou no saguão. O velho carregador continuou morto com uma gravura em cima da bunda.
— Ei, se vocês estão aí, é melhor abrirem a porta! O homem que está comigo é um hóspede do hotel e eu sou convidado dele! Abram ou eu vou pegar um paralelepípedo e quebrar o vidro, estão me ouvindo?
— Um paralelepípedo — disse Clay. Ele começou a rir. — Você disse paralelepípedo} Que supimpa. — Riu mais forte. Não conseguia evitar. Então notou um movimento à esquerda com o canto do olho. Olhou em volta e viu uma adolescente parada um pouco mais à frente na rua. Estava olhando para eles com os olhos azuis abatidos de uma vítima de desastre. Usava um vestido branco e havia um grande babador de sangue na parte da frente dele. Mais sangue estava incrustado debaixo do nariz, da boca e do queixo. Fora o nariz sangrando, ela não parecia estar ferida, nem tampouco louca, apenas chocada. Chocada quase até a morte.
— Você está bem? — perguntou Clay. Deu um passo na direção dela e ela respondeu com um passo para trás. Dadas as circunstâncias, não podia censurá-la. Ele parou, mas levantou uma das mãos para a garota como um guarda de trânsito: Fique parada.
Tom olhou brevemente em volta e então voltou a esmurrar a porta, daquela vez com força o bastante para chocalhar o vidro na moldura de madeira velha e fazer seu reflexo tremer.
— Ultima chance, depois nós vamos entrar!
Clay se virou e abriu a boca para falar que aquele tom de ordem não iria adiantar nada, não naquele dia, e então uma cabeça careca subiu lentamente de trás do balcão. Era como olhar um periscópio saindo da água. Clay reconheceu aquela cabeça mesmo antes de enxergar o rosto; era do recepcionista que fizera o registro dele no dia anterior e que carimbara o seu tíquete do estacionamento, que ficava a uma quadra de distância; o mesmo recepcionista que lhe dera informações sobre como chegar ao Copley Square Hotel naquela manhã.
Ele ainda ficou pelo balcão por um instante, e Clay ergueu a chave do quarto com o pingente de plástico verde do Atlantic Avenue Inn. Então ergueu também o portfolio, achando que o recepcionista poderia reconhecê-lo.
Talvez tenha reconhecido. Era mais provável que houvesse apenas decidido que não tinha escolha. Fosse como fosse, ele levantou a parte com dobradiça do final do balcão e veio rapidamente na direção da porta, dando a volta no corpo. Clay Riddell pensou que talvez estivesse vendo a primeira disparada relutante da sua vida. Quando o recepcionista chegou ao outro lado da porta, olhou de Clay para Tom e de volta para Clay. Embora não parecesse particularmente tranqüilizado pelo que viu, retirou um molho de chaves de um bolso, passou os dedos depressa por ele, encontrou uma e a usou no seu lado da porta. Quando Tom foi pegar a maçaneta, o recepcionista careca levantou a mão quase da mesma maneira que Clay levantara a sua para a menina suja de sangue atrás deles. O recepcionista encontrou uma segunda chave, a utilizou em outra tranca e abriu a porta.
— Entrem — ele falou. — Rápido. — E então viu a garota, parada um pouco mais adiante e observando. — Ela não.
— Ela sim — disse Clay. — Venha, querida.
Mas ela não vinha, e quando Clay deu um passo na direção dela, a menina deu meiavolta e começou a correr, a saia do vestido balançando às suas costas.
— Ela pode morrer lá fora — disse Clay.
— Não é problema meu — disse o recepcionista. — Vai entrar ou não, sr. Riddle?
Ele tinha um sotaque de Boston, não o tipo proletariado-de-South-Boston a que Clay estava mais acostumado no Maine, onde de cada três pessoas que você encontrava uma parecia ter sido expatriada de Massachusetts, mas um sotaque metido, do tipo eu-bem-que-queria-ser-inglês.
— É Riddell.
Ele iria entrar sim, aquele cara não iria deixá-lo de fora de jeito nenhum agora que a porta estava aberta, mas ficou mais um tempo parado na calçada, procurando a garota.
— Entre — disse Tom baixinho. — Não podemos fazer nada.
E ele estava certo. Não podiam fazer nada. Aquela é que era a agonia. Ele entrou depois de Tom e o recepcionista voltou a fechar as duas trancas do Atlantic Avenue Inn atrás deles, como se aquilo bastasse para protegê-los do caos nas ruas.
— Aquele era o Franklin — disse o recepcionista enquanto ia à frente, dando a volta no homem uniformizado estirado de bruços no chão.
Ele parece velho demais para ser um carregador, Tom havia dito, enquanto olhava pela janela, e Clay pensou que parecia mesmo. Era um homem pequeno, com cabelos brancos bastos e viçosos. Para o azar dele, a cabeça na qual eles ainda cresciam (cabelos e unhas demoravam a receber a notícia, pelo que Clay tinha lido em algum lugar) estava virada em um terrível ângulo torto, como a de um enforcado.
— Ele trabalhava há 35 anos no hotel, como tenho certeza que disse a todos os hóspedes que registrou. Quase sempre duas vezes.
O sotaquezinho forçado dava nos nervos em frangalhos de Clay. Ele pensou que se fosse um peido, seria do tipo que faz o som de uma cometa soprada por uma criança com asma.
— Um homem saiu do elevador — disse o recepcionista, voltando para trás do balcão, de volta ao local em que parecia se sentir em casa. A luz da lâmpada do teto bateu no seu rosto e Clay notou que ele estava muito pálido. — Um dos malucos. Franklin deu o azar de estar parado bem na frente das portas...
— Pelo visto não passou pela sua cabeça ao menos tirar a droga da gravura de cima da bunda dele — disse Clay. Agachou-se, pegou o quadro e o colocou sobre o sofá. Aproveitou para empurrar o pé do recepcionista morto da almofada, onde ele havia parado. O pé caiu com um som que Clay conhecia muito bem. Já o tinha transcrito em várias revistas em quadrinhos como CLUMP.
— O homem do elevador só acertou um soco nele — falou o recepcionista. — Fez o pobre Franklin sair voando até a parede. Acho que ele quebrou o pescoço. De qualquer forma, foi isso que fez a gravura cair, a batida de Franklin na parede.
Na cabeça do recepcionista, aquilo parecia justificar tudo.
— E o que aconteceu com o homem que bateu nele? — perguntou Tom. — O maluco? Para onde ele foi?
— Para a rua — respondeu o recepcionista. — Foi quando achei que trancar a porta seria de longe a atitude mais sensata. Depois que ele saiu. — Ele olhou para os dois com uma mistura de medo e avareza lasciva e linguaruda que Clay achou especialmente de mau gosto. — O que está acontecendo lá fora? É muito grave?
— Parece que você tem uma boa idéia do que está acontecendo — falou Clay. — Não foi por isso que trancou a porta?
— Sim, mas...
— O que estão falando na tevê? — perguntou Tom.
— Nada. A tevê a cabo está fora do ar... — Ele olhou para o relógio. — Há quase meia hora.
— E o rádio?
O recepcionista lançou um olhar afetado que dizia você só pode estar brincando. Clay estava começando a pensar que aquele sujeito poderia escrever um livro: Como Ser Detestado em Três Tempos.
— Rádio neste lugar? Em qualquer hotel do centro? Você só pode estar brincando.
Lá de fora, veio um urro agudo de dor. A garota de vestido manchado de sangue voltou a aparecer na porta e começou a bater nela com a palma da mão, olhando por sobre o ombro ao fazê-lo. Clay foi para lá, depressa.
— Não, ele trancou a porta de novo, lembra? — Tom gritou para ele.
Clay não tinha se lembrado.
— Destranque-a.
— Não — disse o recepcionista e cruzou os dois braços com firmeza sobre o peito estreito para mostrar como se opunha a agir daquela forma. Do lado de fora, a menina de vestido branco olhou por sobre o ombro de novo e bateu com mais força. Seu rosto raiado de sangue retesado de terror.
Clay tirou o cutelo do cinto. Tinha quase se esquecido dele e ficou um tanto espantado com a velocidade e a naturalidade com que ele lhe voltou à mente.
— Abra a porta seu filho-da-puta — ele falou para o recepcionista —, ou vou cortar sua garganta.
— Não vai dar tempo — gritou Tom e pegou uma das cadeiras Queen Anne falsas de espaldar alto que ladeavam o sofá do saguão. Enfiou-a nas portas duplas com as pernas para cima.
A garota notou que ele estava vindo e se afastou encolhida, erguendo as duas mãos para proteger o rosto. No mesmo instante, o homem que a perseguia apareceu na frente da porta. Fazia o tipo peão, enorme, com um bom pedaço da barriga saltando da frente da camisa amarela e um rabo-de-cavalo grisalho e seboso subindo e descendo às suas costas.
As pernas da cadeira se chocaram com os painéis das portas duplas, as duas da esquerda estilhaçando o vidro que dizia ATLANTIC AVENUE INN, e as duas da direita, o que dizia O MELHOR HOTEL DE BOSTON. As da direita atingiram o ombro carnudo e vestido de amarelo do peão no momento em que ele agarrava a garota pelo pescoço. A parte de baixo do assento da cadeira bateu na junção sólida em que as duas portas se encontravam e Tom McCourt foi cambaleando para trás, atordoado.
O peão estava rugindo aquele palavrório desconexo e sangue começara a descer pela carne sardenta do seu bíceps esquerdo. A garota conseguiu se livrar dele, mas tropeçou nos próprios pés e caiu, metade na calçada e metade na sarjeta, gritando de dor e medo.
Clay estava emoldurado em um dos painéis de vidro estilhaçados, sem se lembrar de ter atravessado o saguão e apenas com uma vaga lembrança de ter tirado a cadeira do caminho.
— Ei, babaca! — gritou, e se sentiu um pouquinho encorajado quando a torrente de palavras sem sentido do homenzarrão parou por um instante e ele se deteve. — É, você mesmo — gritou Clay. — Estou falando com você. — E então, por ser a única coisa em que conseguiu pensar: — Eu comi a sua mãe, e foi uma trepada e tanto!
O maníaco enorme de camisa amarela gritou algo que parecia sinistramente com o que a Mulher do Terninho de Poderosa gritara logo antes de morrer — parecia sinistramente com Rast!— e se virou de volta para o prédio que tinha criado de repente dentes e voz para atacá-lo. O que quer que tenha visto, não pode ter sido um homem feroz e suado com um cutelo na mão saindo de dentro de um painel retangular que antes era envidraçado, pois Clay nem precisou atacá-lo. O homem de camisa amarela pulou em cima da lâmina projetada para frente do cutelo. O aço sueco deslizou com facilidade para dentro da papada queimada de sol sob seu queixo, liberando uma cascata vermelha. Ela inundou a mão de Clay com uma quentura surpreendente — quase tão quente quanto uma xícara de café recém-servida —, obrigando-o a refrear um impulso de se afastar. Em vez disso, fez força para frente, sentindo por fim que a faca encontrava resistência. Ela hesitou, mas aquela belezinha não empenava. Varou a cartilagem e então saiu pela nuca do homenzarrão. Ele caiu para frente — Clay não tinha como segurá-lo com um braço, de jeito nenhum, o cara devia ter uns 115 quilos, talvez até uns 130 — e por um instante ficou apoiado na porta como um bêbado em um poste, com os olhos castanhos saltando para fora, a língua manchada de nicotina pendendo de um canto da boca e o pescoço cuspindo sangue. Então os joelhos dele falharam e ele desabou. Clay segurou o cabo do cutelo e ficou impressionado com a facilidade com que ele se desprendeu. Muito mais fácil do que arrancá-lo do couro e do aglomerado reforçado do portfolio.
Com o lunático no chão, ele podia ver a garota novamente, um joelho na calçada e outro na sarjeta, gritando por trás da cortina de cabelo que pendia sobre o seu rosto.
— Querida — ele disse. — Querida, pare — mas ela continuou gritando.
O nome da menina era Alice Maxwell. Pelo menos isso ela conseguiu dizer a eles. E também que tinha vindo de trem junto com a mãe para Boston — de Oxford, ela disse — para fazer umas compras. Isso costumavam fazer nas quartas, que chamavam de "dia curto" na escola secundária que freqüentava. Ela falou que as duas tinham descido do trem na South Station e pegado um táxi. Disse que o motorista estava usando um turbante azul, e o turbante era a última coisa de que conseguia se lembrar até o recepcionista careca finalmente destrancar as portas duplas estilhaçadas do Atlantic Avenue Inn e deixá-la entrar.
Clay achava que ela se lembrava de mais. Baseou esse palpite na maneira como a garota começou a tremer quando Tom McCourt perguntou se ela ou a mãe estavam com celulares. Ela disse que não se lembrava, mas Clay tinha certeza que uma delas estava, ou as duas. Parecia que todo mundo tinha um naqueles dias. Ele era a exceção que confirmava a regra. E havia Tom, que talvez devesse a vida ao gato que derrubara o dele de cima do balcão.
Eles conversaram com Alice (a conversação consistiu basicamente em Clay fazer perguntas enquanto a garota ficava calada, baixando os olhos para os joelhos ralados e balançando a cabeça de vez em quando) no saguão do hotel. Clay e Tom tinham levado o corpo de Franklin para trás do balcão, ignorando o protesto veemente e bizarro do recepcionista careca de que "assim eu vou ficar pisando nele". Desde então, o recepcionista, que dissera se chamar simplesmente Sr. Ricardi, havia se retirado para o seu escritório particular. Clay o seguira o suficiente para se certificar de que o Sr. Ricardi tinha dito a verdade sobre a tevê estar fora do ar, e então o deixou sozinho. Sharon Riddell diria que o Sr. Ricardi estava meditando na sua tenda.
No entanto, o homem não deixou Clay ir embora sem uma provocação de despedida.
— Agora estamos vulneráveis — disse ele com azedume. — Espero que você esteja feliz.
— Sr. Ricardi — disse Clay, o mais pacientemente possível —, eu vi um avião cair do outro lado do Boston Common há menos de uma hora. Parecia que mais aviões, aviões grandes, estavam fazendo a mesma coisa no Logan. Talvez eles até estejam realizando ataques suicidas nos terminais. Explosões estão acontecendo em todo o centro. Eu diria que esta tarde toda a cidade de Boston está vulnerável.
Como que para frisar esse argumento, um baque muito pesado soou sobre a cabeça deles. O Sr. Ricardi não olhou para cima. Apenas fez um gesto com a mão que dizia vá embora na direção de Clay. Sem tevê para assistir, ele se sentou à mesa e ficou olhando severamente para a parede.
Clay e Tom colocaram as duas cadeiras Queen Anne falsas contra a porta, e seus espaldares altos taparam bem as molduras estilhaçadas que antes sustentavam os vidros. Embora Clay tivesse certeza que obstruir a entrada do hotel ofereceria uma segurança frágil ou completamente inútil, achou também que bloquear a vista da rua seria uma boa idéia, e Tom concordara. Uma vez que as cadeiras estavam no lugar, eles baixaram a persiana da janela principal do saguão. Isso escureceu bastante o local e fez com que sombras fracas na forma de barras de cela de prisão marchassem pelo tapete vermelho-alaranjado.
Com aquelas coisas resolvidas e a história radicalmente resumida de Alice Maxwell contada, Clay finalmente se dirigiu ao telefone atrás do balcão. Ele olhou para o relógio. Eram 16h22; uma hora perfeitamente lógica, exceto que qualquer sensação normal de tempo parecia ter sido eliminada. Horas pareciam ter passado desde que ele vira o homem mordendo o cachorro no parque. Também era como se não houvesse tempo algum. Mas havia tempo, da maneira como os humanos o mediam, pelo menos, e, em Kent Pond, Sharon com certeza já teria voltado para a casa na qual ele ainda pensava como lar. Precisava falar com ela. Para se certificar de que ela estava bem e dizer que ele também estava; mas aquilo não era o importante. Certificar-se de que Johnny estava bem, isso sim é que importava, mas havia uma coisa mais importante ainda. Vital, na realidade.
Ele não tinha um celular e estava quase certo de que Sharon também não. Imaginava que talvez ela tivesse comprado um desde que eles se separaram em abril, mas os dois ainda viviam na mesma cidade, ele a via quase todos os dias e achou que se Sharon tivesse comprado um, ele saberia. Para começo de conversa, ela teria lhe dado o número, certo? Certo. Mas...
Mas Johnny tinha um celular. Foi aquilo que o pequeno Johnny-Gee, que já não era tão pequeno assim, 12 anos não era tão pequeno, quis no seu último aniversário. Um celular vermelho que tocava o tema do programa de tevê favorito dele quando chamava. É claro que ele era proibido de ligá-lo ou até mesmo tirá-lo de dentro da mochila enquanto estivesse na escola, mas as aulas já tinham terminado àquela hora. E, além disso, Clay e Sharon na verdade o incentivaram a levar o aparelho para o colégio, em parte por causa da separação. Poderiam acontecer emergências ou pequenos contratempos, como perder um ônibus. A esperança de Clay era que Sharon tinha falado que, quando entrava no quarto de Johnny ultimamente, quase sempre via o celular esquecido em cima da mesa ou no peitoril da janela ao lado da cama, fora do carregador e morto como um cocô de cachorro.
Ainda assim, a idéia do celular vermelho de John tiquetaqueava na cabeça dele como uma bomba.
Clay tocou o telefone fixo no balcão do hotel e então tirou a mão. Lá fora, algo explodiu, mas aquela explosão foi longe dali. Era como ouvir um projétil explodir quando se está bem longe das linhas inimigas.
Não levante essa hipótese, ele pensou. Nem mesmo levante a hipótese de existirem linhas inimigas.
Ele olhou através do saguão e viu Tom se agachando ao lado de Alice enquanto ela se sentava no sofá. Estava murmurando algo baixinho, tocando um de seus mocassins e erguendo os olhos para o rosto dela. Aquilo era bom. Ele era bom. Clay se sentia cada vez mais grato por ter encontrado Tom McCourt... ou por Tom McCourt tê-lo encontrado.
Provavelmente, não teria problema usar os telefones fixos. A questão era se provavelmente era bom o bastante. Ele tinha uma esposa pela qual ainda se sentia de certa forma responsável, e quanto ao filho, não havia essa história de "de certa forma". Simplesmente pensar em Johnny era perigoso. Todas as vezes que sua mente se voltava para o garoto, Clay sentia um rato surtar na sua cabeça, pronto para se libertar da gaiola frágil que o prendia e sair mordendo tudo que encontrasse pela frente com seus dentinhos afiados. Se ele conseguisse se certificar de que Johnny e Sharon estavam bem, poderia manter o rato na gaiola e planejar o que fazer em seguida. Mas se fizesse alguma idiotice, não serfa capaz de ajudar ninguém. Na verdade, tornaria as coisas mais difíceis para as pessoas que estavam ali. Pensou um pouco naquilo e então chamou o nome do recepcionista.
Quando não obteve resposta do escritório, chamou de novo. Quando continuou sem resposta, disse:
— Sei que está me ouvindo, Sr. Ricardi. Se me obrigar a ir buscá-lo, vou ficar chateado. Talvez fique chateado o bastante para considerar a hipótese de jogar você na rua.
— Não pode fazer isso — disse o Sr. Ricardi em um tom rude de ordem. — Você é um hóspede deste hotel.
Clay pensou em repetir o que Tom dissera para ele quando ainda estavam lá fora — as coisas mudaram. Em vez disso, algo o fez ficar calado.
— O que é? — disse o Sr. Ricardi finalmente. Soando mais rude do que nunca. Do andar de cima, veio um baque mais alto, como se alguém tivesse derrubado uma mobília pesada. Uma escrivaninha, talvez. Daquela vez, até mesmo a garota olhou para cima. Clay achou que tinha ouvido um grito abafado, ou talvez um uivo de dor, mas, se fosse o caso, não houve continuidade. O que ficava no segundo piso?
Não era um restaurante, ele se lembrava que alguém lhe disse (o próprio Sr. Ricardi, quando Clay chegara) que o hotel não tinha restaurante, mas o Metropolitan Café ficava logo ao lado. Salas de reunião, ele pensou. Tenho quase certeza de que são salas de reunião com nomes indianos.
— O que é?— perguntou novamente o Sr. Ricardi. Parecia mais rabugento do que nunca.
— Você tentou ligar para alguém depois que tudo isso começou?
— Mas é claro. — disse o Sr. Ricardi. Ele apareceu na porta entre o escritório e a área atrás do balcão, com seus escaninhos, monitores do circuito de segurança e computadores. Então olhou indignado para Clay. — Os alarmes de incêndio dispararam, eu os desliguei, Doris falou que uma lixeira tinha pegado fogo no terceiro andar, e eu liguei para os Bombeiros para dizer que não precisavam se preocupar. A linha estava ocupada! Ocupada, imagine só!
— Você deve ter ficado bastante irritado — disse Tom.
O Sr. Ricardi pareceu ficar mais calmo pela primeira vez.
— Liguei para a polícia quando as coisas lá fora começaram a... bem... a degringolar.
— Sim — falou Clay. Degringolar era uma bela maneira de colocar a questão. — Conseguiu falar com eles?
— Um homem disse que eu tinha que desocupar a linha e desligou na minha cara — disse o Sr. Ricardi. A indignação estava voltando à sua voz. — Quando liguei de novo, depois de o maluco ter saído do elevador e matado Franklin, uma mulher atendeu. Ela disse... — A voz do Sr. Ricardi começou a tremer e Clay viu as primeiras lágrimas descerem pelos desfiladeiros estreitos que marcavam os lados do nariz do homem — ... disse...
— O quê? — perguntou Tom, naquele mesmo tom de solidariedade. — O que ela disse, Sr. Ricardi?
— Ela disse que se Franklin estava morto e o homem que o matara tinha ido embora, eu não tinha problemas. Foi ela quem aconselhou que eu me trancasse aqui dentro. Também me disse para chamar os elevadores do hotel para o saguão e desligá-los, o que eu fiz.
Clay e Tom trocaram um olhar que expressava um pensamento: Boa idéia. Clay vislumbrou uma imagem vivida de insetos presos entre uma janela fechada e uma tela, zumbindo furiosamente, mas sem conseguirem sair. Aquela imagem tinha algo a ver com os baques que tinham vindo de cima das cabeças deles. Ele imaginou brevemente quanto tempo levaria para a pessoa — ou pessoas — que estava fazendo o barulho lá em cima achar a escada.
— Então ela desligou na minha cara. Depois disso, liguei para minha mulher em Milton.