Cidade e Campo: Olhares de Brasil e Portugal
Capítulo 11 – Atuação da rede de gestão empresarial no território brasileiro no início do século XXI
Capítulo 11
Atuação da rede de gestão
empresarial no território
brasileiro no início do século
XXI
Paulo Wagner Teixeira Marques
Miguel Ângelo Ribeiro
Considerações iniciais
Uma das principais preocupações atuais da Geografia é a busca
de entendimento sobre as formas de organização do território. Nesse sentido, é inegável que as formas de organização em rede ganharam destaque no período histórico atual, em grande parte impulsionadas pelo acentuado avanço nas tecnologias de comunicação e de transportes. Entretanto, o padrão clássico centro-periferia não perdeu por completo a sua utilidade e é, em muitos casos, a melhor forma de explicação para as influências exercidas sobre o território. A descrição desses padrões e o entendimento de sua lógica e de suas propriedades tornam-se fundamentais para a compreensão do próprio território.
Simplificadamente, o Estado e o Mercado são as duas
instituições com o maior poder estruturador do espaço, atuando por meio de suas organizações: de um lado, os organismos públicos criados para atender a população, levantar dados e informações e recolher tributos; de outro, as empresas, sejam elas privadas, estatais ou sob qualquer outro arranjo societário funcionando no mercado, com suas estratégias particulares.
Tais empresas configuram uma das manifestações da rede
urbana brasileira em seu arranjo espacial, no qual os nós dessa rede – as cidades – apresentam papel de gestão (controle do território), materializando articulações entre si em diferentes setores da economia e escalas espaciais (Corrêa, 2018).
Nesse contexto, o presente capítulo aborda o tema dos nós e
das conexões entre as cidades brasileiras e a articulação entre os espaços baseado na atuação das empresas, tanto privadas quanto públicas, desde que possuam sedes e filiais localizadas em municípios distintos, e em sua rede de filiais espalhadas pelo país. Interessa-nos analisar de que maneira o mercado, ao atuar por meio de empresas multilocalizadas, estabelece e cristaliza centralidades e hierarquias, organizando o território segundo interesses específicos que, muitas vezes, diferem da lógica de atuação do Estado na realização de suas tarefas específicas.
A principal questão que se buscará responder aqui é a de como
se apresenta estruturada a rede de gestão empresarial no território brasileiro neste início de século XXI. Tal questão está fundamentalmente atrelada ao papel de gestão dos centros (organização) que configuram essa rede e sua atuação (escalas espaciais).
Sendo assim, este capítulo é dividido em três partes. Na primeira
encontram-se as bases históricas e conceituais que o ancoram, nas quais o conceito de rede tem papel de destaque, organizando e reorganizando o território nacional a partir dos nós e de suas articulações em diferentes escalas espaciais. A segunda diz respeito à operacionalização, a qual se constitui na apresentação da metodologia empregada (fontes e procedimentos) e da base de dados utilizada, enquanto a terceira mostra os resultados da articulação entre teoria, operacionalização e empiria. Por fim, nas considerações finais, novas indagações serão apontadas, bem como uma agenda para futuras pesquisas.
Uma visão geográfica do conceito de
redes
Convém de imediato explicitar o que estamos entendendo por
redes geográficas. Para tal, apoiamo-nos em Corrêa (2018, p. 50) quando, de forma breve, aponta que se trata do “conjunto de localizações humanas articuladas entre si por meio de vias e fluxos”, ou seja, de uma rede social que se torna geográfica quando esta é considerada em sua espacialidade, expressa em localizações qualificadas e articulações espaciais entre elas. Como aponta o autor, “as redes geográficas estão em toda parte” (p. 52).
Após essa breve conceituação das redes geográficas, convém
explicitar o nosso entendimento sobre o que seriam as redes de gestão. Segundo Ribeiro (2001), a partir de Miossec (1976), os lugares, ao mesmo tempo que apresentam uma hierarquia nacional e internacional que interage com a organização do trabalho e com as formas organizacionais de produção das grandes firmas, especializam-se num processo de divisão territorial do trabalho que vem se acentuando, e estão cada vez mais submetidos a um controle centralizado em alguns raros pontos do território. Esse controle advém das decisões tomadas por dois entes que interagem no espaço: o Estado e a empresa privada.
A figura 1 apresenta a distinção entre as três possibilidades de
um centro (nó) exercer seu papel em uma das três redes identificadas por Miossec (1976) e esquematizadas por Ribeiro (2001). Conforme aponta Corrêa (2018, p. 60), “a inserção de um centro urbano em diversas redes geográficas traz à tona o problema de suas posições relativas em cada rede”. Essa afirmativa ratifica o papel dos centros urbanos nos três tipos de rede.
Figura 1 – Tipos de redes
Fonte: Organizado por Ribeiro, 1995.
Desenho: Paulo A. M. Silva.
Nesse sentido, a ascensão de novas formas de organização
empresarial e as políticas de localização das redes de filiais das empresas, com a consequente influência exercida até mesmo sobre a atuação do Estado, tornam o tema da rede de gestão essencial para o entendimento do comportamento da sociedade e das formas e fluxos que se estabelecem no território brasileiro (Santos, 2002). Entretanto, apesar de sua centralidade para a compreensão das relações de poder, o tema permaneceu à margem de estudos aprofundados no Brasil nos últimos anos, a despeito de sua importância e dos trabalhos e avanços ocorridos no exterior e do próprio histórico de pesquisas sobre o tema realizados no país nas décadas de 1960, 1970 e 1980. As poucas exceções, que não podemos deixar de mencionar, incluem as pesquisas de Roberto Lobato Corrêa (1982, 1997a, 1997b, 1997c, 1997d, 2006), do IBGE (1987) e de Milton Santos (1979, 1999, 2002, 2008a, 2008b).
No contexto atual, fortemente influenciado pela evolução das
formas gerenciais e de produção, consequência lógica da mobilidade e da facilidade de comunicação proporcionada pela revolução da eletrônica e da informática, os agentes econômicos – as empresas – passaram a se aproveitar dos recursos dispersos pelas diversas localidades, contornando as barreiras espaciais. Testemunha-se esse processo observando-se o padrão locacional formado pelas unidades locais das empresas, ou seja, a rede de filiais dispersas pelo país que se relacionam com as suas sedes nacionais, configurando os centros de gestão e comando da rede nacional. Ainda que existam variações nesse padrão em rede devido às diversas estratégias particulares de atuação no mercado, os padrões agregados de atuação são, ao mesmo tempo, uma configuração influenciada pelos padrões espaciais pretéritos e uma força modeladora sobre a organização do espaço, em um movimento contínuo de reforço mútuo.
De acordo com Hall (1996), a geografia regional e a geografia
urbana resultante das organizações em rede caracterizam-se por nítidas divisões espaciais de trabalho, com a descentralização das funções de produção. Entretanto, cada vez mais as funções de comando e gestão encontram-se concentradas em poucos lugares: poucas cidades comandam as cadeias produtivas cruciais e de maior rentabilidade, e o poder de decisão de alto nível acha-se cada vez mais centralizado; outras atividades acabam descentralizadas ou situadas localmente, dentro das áreas metropolitanas principais, ou espalham-se de forma mais aberta pelo território nacional, pelas cidades médias e outras categorias de cidades (Corrêa, 1989b, 2007) ou por outros países (Castells, 1989).
Dessa forma, a tendência da reorganização espacial das
empresas, que já vem ocorrendo desde o final do século XX, é a dispersão de unidades pelo território nacional e fora dele, em uma incessante busca por melhores condições de rentabilidade. Essa dispersão indica uma fuga da produção dos antigos centros industriais, que já não oferecem um retorno satisfatório. Paralelamente, ocorre uma descentralização local do trabalho de escritório, embora a atividade financeira e as transações de serviços, especialmente os avançados, tornem-se cada vez mais concentradas em poucas cidades (Sassen, 1991). No caso brasileiro, essa concentração acontece principalmente nas metrópoles nacionais e regionais.
Quanto mais central for a posição de uma cidade na hierarquia
urbana, maior será a possibilidade de desenvolver uma infraestrutura técnica e social sofisticada, capaz de atender às necessidades de sua população e das populações vizinhas. Obviamente, ocorrem justaposições no território, ou seja, ao mesmo tempo que o Estado age em consonância com padrões clássicos de conformação de hinterlândias, o mercado atua no estabelecimento de redes. Assim, a centralidade passa a ser definida não apenas pelo acúmulo de funções urbanas, mas também pela capacidade das cidades de atrair, desenvolver e consolidar novas infraestruturas, permitindo maiores interações com outras cidades, configurando uma complexidade que se manifesta em múltiplos circuitos, na qual o ciclo de reprodução do capital tem papel expressivo e, em se tratando da rede de empresas, entre elas, as corporações, há uma divisão territorial do trabalho, na qual cada centro especializa-se em dado papel, no qual produção, circulação e consumo capitalista são realizados (Corrêa, 2018). Serão essas estruturas que possibilitarão um aumento da oferta de bens e serviços para a população dispersa no território, atraindo o mercado e o próprio Estado e viabilizando a implantação de serviços cada vez mais sofisticados, capazes de abrigar novas funções de alto nível. Consequentemente, essa centralidade “reforçada” tenderá, a longo prazo, a ampliar as desigualdades entre as cidades, reforçando o desenvolvimento desigual entre elas.
De uma forma geral, as empresas, sejam elas públicas ou
privadas, podem se territorializar de duas maneiras distintas e não excludentes entre si: em ligações curtas, que reforçam centralidades preexistentes; e em ligações mais distantes, por meio das redes descritas por Miossec (1976). Essa dupla orientação, que se reflete de diversas formas no território brasileiro, gera implicações específicas para as populações envolvidas. Grosso modo, no primeiro caso, o das ligações curtas, o acúmulo de empresas cria pressões consideráveis na rede de transportes e nos sistemas de saúde, habitação e educação das aglomerações urbanas; no segundo caso, é possível que as pressões sobre o território ocorram na rede de escoamento da produção, havendo concomitantemente a subordinação da população e da política local a decisões que ocorrem a dezenas, centenas ou milhares de quilômetros de distância.
Obviamente, esses são exemplos não exaustivos das possíveis
consequências da ação das empresas em distintas localidades, sendo necessário um exame aprofundado das demais variáveis presentes para se chegar a uma análise mais próxima da realidade de cada uma delas.
Após essas breves considerações teórico-conceituais, passemos
à operacionalização.
A operacionalização: fontes e
procedimentos
A metodologia empregada neste trabalho foi proposta
inicialmente por Corrêa (1968). Utilizando o Registro Industrial de 1962, o autor pesquisou 42 mil fichas, anotando a localização da sede e do município em que se encontrava a sua filial, sempre que elas estivessem dissociadas espacialmente. Além dessa informação, ele também anotava a quantidade de trabalhadores da filial, o que constituiria um dos principais indicativos do alcance do comando de cada metrópole sob o território nacional.
Com essa abordagem, Corrêa buscou identificar o número de
“assalariados externos” comandados pelas metrópoles, a sua distribuição espacial e os tipos de indústrias em que trabalhavam. Dessa forma, ele descortinava as relações de dependência dos municípios brasileiros em relação a cada uma das metrópoles brasileiras da época e o alcance espacial do poder de comando destas.
O trabalho desse pesquisador apresentou algumas limitações
que se devem à qualidade e à quantidade dos dados disponíveis à época e à tecnologia de processamento existente no final dos anos 1960. Resumidamente, as principais restrições da pesquisa estão na sua abrangência, que se limitou às metrópoles brasileiras, e no tipo de empresa pesquisada – apenas indústrias. O autor reconheceu a dificuldade de avaliar a localização das empresas filiais, pois o Registro Industrial indicava apenas uma ligação estática entre os estabelecimentos locais e a sede da empresa, conforme apontou:
vale assinalar também que o Registro Industrial indica apenas uma ligação estática entre estabelecimento e empresa, não havendo considerações sôbre a absorção de uma emprêsa por outra, nem a transferência da sede da emprêsa do lugar de produção, onde permaneceu o estabelecimento, para uma metrópole, como se verificou em diversos casos através de informações obtidas diretamente em algumas empresas ou em outras fontes (Corrêa, 1968, p. 58).
A metodologia utilizada por ele foi replicada, com poucas
mudanças, em dois importantes trabalhos do IBGE, já no século XXI: Região de Influência das Cidades – REGIC 2007 (2008) e Gestão do Território (2014). Ambos se beneficiaram de uma extensa base de dados e da capilaridade do Instituto na coleta de informação sobre os municípios brasileiros.
Para este artigo, a base de dados que permitirá avançar no tema
proposto é o Cadastro Central de Empresas – CEMPRE, divulgado anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. O CEMPRE é um acervo de dados sobre as empresas e demais organizações formais do Brasil. Nele encontram-se informações cadastrais e econômicas derivadas de pesquisas anuais do IBGE (Indústria, Construção Civil e Comércio e Serviços) e da Relação Anual de Informações Sociais – RAIS, do Ministério do Trabalho e Emprego. Essas informações apresentam-se desagregadas de acordo com os níveis de detalhamento da Classificação Nacional de Atividades Econômicas – CNAE 2.0 (ver
quadro 1 e anexo 1) e podem ser pesquisadas por Grandes Regiões, Unidades da Federação e Municípios. Estão disponíveis informações sobre pessoal ocupado total, pessoal ocupado assalariado, salários e outras remunerações e salários médios mensais, em salários mínimos. Outras informações importantes incluídas no CEMPRE são os indicadores de diversificação de atividade econômica e espacial e de concentração de pessoal ocupado total, relativos a indústria, comércio e serviços.
Quadro 1 – Classificação Nacional de Atividades Econômicas – Grandes Categorias
Seções
A Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura B Indústrias extrativas
C Indústrias de transformação D Eletricidade e gás
E Água, esgoto, atividades de gestão de resíduos e descontaminação
F Construção
G Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas H Transporte, armazenagem e correio I Alojamento e alimentação J Informação e comunicação K Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados L Atividades imobiliárias M Atividades profissionais, científicas e técnicas N Atividades administrativas e serviços complementares O Administração pública, defesa e seguridade social P Educação
Q Saúde humana e serviços sociais R Artes, cultura, esporte e recreação S Outras atividades de serviços T Serviços domésticos
U Organismos internacionais e outras instituições extraterritoriais
Fonte: IBGE.
Obs.: No nível mais agregado, as categorias individuais da CNAE 2.0 estão organizadas em 21 seções.
A estrutura do CEMPRE permite compor um quadro detalhado
das relações de controle e subordinação de pontos do território nacional e estabelecer uma hierarquização entre esses pontos. Considera-se, conforme mencionado anteriormente, o município como a escala de análise, e, consequentemente, os pontos representados serão o somatório das empresas cujas sedes ou filiais estejam presentes em um dado município.
O cadastro CEMPRE 2013, ano base utilizado neste trabalho,
apresenta 5,2 milhões de empresas e outras organizações formais ativas para o ano de referência de 2012, que ocuparam, em 31 de dezembro, 53,4 milhões de pessoas, sendo 46,2 milhões (86,6%) como pessoal ocupado assalariado e 7,1 milhões (13,4%) na condição de sócio ou de proprietário.
Por fim, do cadastro inicial, foram selecionadas apenas as
informações referentes às empresas multilocalizadas, ou seja, aquelas que possuíam filiais em municípios diferentes dos municípios de suas sedes.
Os resultados produzidos pela agregação por município dos
dados contidos no cadastro CEMPRE 2013, bem como a análise dos resultados, serão apresentados na próxima parte deste capítulo.
Análise da rede de gestão empresarial
no território brasileiro
A metodologia empregada permitiu elaborar dois mapas distintos
da atuação das empresas sobre o território brasileiro: o primeiro apresenta a situação atual da cadeia de comando e controle das empresas multilocalizadas no Brasil; o segundo apresenta os espaços opacos, ou seja, aqueles onde as empresas multilocalizadas estão ausentes ou não têm uma presença considerável a ponto de exercer uma influência significativa sobre esses espaços.
Basicamente, o que foi representado é o equivalente ao que é
denominado “Intensidade” no trabalho Gestão do Território (IBGE, 2014). A “Intensidade” seria o equivalente ao somatório das empresas sediadas em um dado município X, das filiais dessas empresas localizadas em outros municípios diferentes de X, das filiais de empresas com sede em municípios diferentes de X localizadas em X e das respectivas sedes dessas empresas (ver
anexo 2).
Assim, o mapa 1 apresenta a dimensão espacial da gestão
empresarial no Brasil para o ano de 2013. Ele representa o somatório das sedes e filiais de empresas multilocalizadas presentes em cada município brasileiro. A tabela contendo os 50
municípios com maior “Intensidade” encontra-se no anexo 2, ao final do livro.
Mapa 1 – Principais cidades da rede de gestão empresarial no Brasil – 2013
Fonte: Estatísticas do Cadastro Central de Empresas 2013. Rio de Janeiro: IBGE, 2016.
Para a confecção do mapa 1, foi adotada uma divisão dos
municípios brasileiros em sete classes. Os municípios que apresentavam intensidade igual ou inferior a 100 estarão
representados no mapa 2. As classes principais, ou seja, aquelas que efetivamente comandam a gestão empresarial no Brasil e que possuem a mais extensa rede de empresas representadas em seus territórios, aparecem concentradas na Região Sudeste e, em alguma medida, nas Regiões Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Com exceção da Região Sudeste, nas demais regiões, a concentração de empresas ocorre nas capitais ou próximo a elas.
Mapa 2 – Cidades desconectadas da rede de gestão empresarial no Brasil – 2013
Fonte: Estatísticas do Cadastro Central de Empresas 2013. Rio de Janeiro: IBGE, 2016.
Em uma análise mais detalhada, tal mapeamento, grosso modo,
distingue um padrão litorâneo na localização das cidades controladoras de empresas, principalmente municípios localizados próximo ao litoral das regiões Sul e Sudeste, do Rio Grande do Sul se estendendo até Minas Gerais e destacando-se São Paulo e Rio de Janeiro; um eixo litorâneo de menor intensidade da Bahia a Pernambuco; um interior esvaziado, com pequenos pontos, destacando-se a capital federal, mas concentrado a partir do sul de Minas Gerais em direção ao Rio Grande do Sul, ratificando o papel da região concentrada identificada por Santos e Silveira (2001).
No tocante às 50 maiores cidades controladoras, podemos
distinguir São Paulo como principal centro de gestão do país, superando em mais de duas vezes o Rio de Janeiro. Em segundo, destaca-se o Rio de Janeiro, em decorrência da presença, principalmente, da Petrobras, seguida de Brasília, com empresas controladoras federais. Em seguida, aparece Belo Horizonte. Podemos afirmar que, de modo geral, nesse conjunto das 50 maiores controladoras, 44,6% dos assalariados externos são controlados pelas quatro metrópoles: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte.
A tabela 1 corresponde ao agregado, por Unidade da Federação,
das cidades desconectadas da rede de gestão empresarial no Brasil
para o ano de 2013, simbolizadas no mapa 2 e que representam os municípios que possuem intensidade igual ou inferior a 100 e
ficaram ausentes do mapa 1. Essas cidades desconectadas da rede de gestão empresarial estão concentradas no oeste catarinense, noroeste gaúcho, no oeste e noroeste paranaense, em especial próximo à divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, sul e sudeste de Minas Gerais e no interior dos estados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Sergipe.
Tabela 1 – Cidades desconectadas da rede de gestão empresarial no Brasil – 2013
Região UF N.º de N.º de Municípios com Intensidade
Municípios igual ou inferior a 100
Norte 7 450 398
Rondônia 52 42
Acre 22 20
Amazonas 62 60
Roraima 15 14
Pará 144 116
Amapá 16 14
Tocantins 139 132
Nordeste 9 1794 1600
Maranhão 217 198
Piauí 224 213
Ceará 184 153
Rio Grande 167 152 do Norte
Paraíba 223 212
Pernambuco 185 152
Alagoas 102 92
Sergipe 75 65
Bahia 417 363
Sudeste 4 1668 1217
Minas Gerais 853 713
Espírito Santo 78 54
Rio de 92 45 Janeiro
São Paulo 645 405
Sul 3 1191 879
Paraná 399 307
Santa 295 201 Catarina
Rio Grande 497 371 do Sul
Centro-4 466 365
Oeste
Mato Grosso 79 49 do Sul
Mato Grosso 141 106
Goiás 246 210
Distrito - -Federal
Brasil 27 5570 4459
Fonte: ESTATÍSTICAS do Cadastro Central de Empresas 2013. Rio de Janeiro: IBGE, 2016.
A adoção da intensidade 100 como ponto de ruptura para que
uma cidade fosse ou não incluída na relação das cidades
conectadas ou não à rede de gestão empresarial é discricionária 1. Porém, a escolha não é aleatória. Levando-se em consideração a natureza do indicador, que é composto pelas empresas multilocalizadas com sede em uma dada cidade X e suas filiais no Brasil, bem como pelas empresas com sede em outros municípios, mas que possuem filiais naquela cidade, uma intensidade igual ou inferior a 100 significa que a cidade em questão possui pouca interação econômica, estando desconectada do circuito superior da economia brasileira (Santos, 2008).
Em números absolutos, 4.459 cidades apresentam valor de
intensidade inferior ou igual a 100 (tabela 1). O somatório dos valores de intensidade dessas 4.459 cidades representa 15,4% do total da intensidade empresarial no Brasil, o que equivale ao valor de 127.402. Em contraposição, os demais 1.106 municípios representam 84,6% do total da intensidade empresarial no Brasil e somam o equivalente a 697.652 de intensidade. Esse valor é próximo ao de dez vezes a intensidade da cidade de São Paulo, principal nó da gestão empresarial no Brasil, calculada em 69.889.
O conjunto das cidades desconectadas da economia nacional
compõe um quadro esclarecedor da concentração espacial da
riqueza no Brasil. Analisando-o em conjunto com o mapa 1, tem-se um panorama da permanência das forças históricas que privilegiaram a ocupação e o desenvolvimento do litoral em detrimento do interior brasileiro.
Ainda que tenha ocorrido um constante e intenso movimento de
ocupação do interior brasileiro a partir das últimas décadas do século XX, em especial após a construção da nova capital, Brasília, ele ainda não foi suficientemente poderoso para configurar uma nova formação econômica no território brasileiro. Ou seja, a economia brasileira permanece fortemente ancorada próximo ao litoral, em especial no quadrilátero formado pelas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte, que concentram boa parcela da riqueza e, principalmente, do poder de decisão nas esferas econômica e política no Brasil.
O mapa 3 apresenta os municípios que detêm o controle sobre
os maiores contingentes de assalariados externos no Brasil. Entende-se assalariados externos como os empregados de empresas com sede em um município diferente daquele em que eles exercem o seu trabalho. Assim, se uma empresa é sediada no município de São Paulo, todos os empregados de suas filiais que não estejam no município de São Paulo são contabilizados como assalariados externos. Mais uma vez, observamos que os municípios de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte respondem pelo maior quantitativo de assalariados externos. Em outras palavras, esses são os municípios que detêm o maior controle econômico sobre o território nacional, e as empresas sediadas em um desses quatro municípios são aquelas que empregam o maior contingente de trabalhadores fora dos limites territoriais de seus respectivos municípios-sede. A tabela contendo os 50 principais municípios com maior quantidade de assalariados
externos encontra-se no anexo 3, ao final do livro.
Mapa 3 – Assalariados Externos: Municípios controladores no Brasil – 2013
Fonte: Estatísticas do Cadastro Central de Empresas 2013. Rio de Janeiro: IBGE, 2016.
Algumas considerações podem ser feitas quanto à análise dos
referidos mapas, sendo nítida a importância assumida pelos eixos de transporte para a conexão do território à rede empresarial brasileira. No caso da Amazônia, o padrão rio é observado, com municípios e sedes municipais localizados na calha do rio Amazonas e seus afluentes, estando eles subordinados a Belém e Manaus, configurando uma rede regional, além dos vínculos com centros de gestão de outras porções do Brasil. Por outro lado, o padrão rodovia pode ser confirmado com os municípios litorâneos que estão sob a influência de metrópoles regionais e sob o comando de São Paulo, Rio de Janeiro e de outras metrópoles. Para clarificar tal assertiva, citemos o exemplo do estado de Pernambuco, no qual os municípios de menor intensidade de comando estão ligados à metrópole regional de Recife, mas podem estar também sob a influência de outras metrópoles externas, como São Paulo, metrópole nacional.
Sendo assim, quanto mais importante a hierarquia da cidade,
seja quando atua como nó em uma das incontáveis redes possíveis ou como centro urbano fornecedor de bens e serviços em uma dada região, maior a sua influência no conjunto das cidades brasileiras. Como não poderia deixar de ser, os padrões atuais representam uma herança espacial do desenvolvimento histórico das forças econômicas que atuaram no país ao longo de mais de 500 anos. Entretanto, as dinâmicas econômica, demográfica e espacial no Brasil continuam a promover mudanças na territorialização de empresas e na ocupação do território do país. Afinal, o sistema capitalista, em sua busca por novas fontes de recursos naturais e mercados consumidores, longe de apenas “padronizar” o território, alimenta-se das diferenças para a sua reprodução. E é justamente nas diferenças que pontos opacos do território podem se iluminar, e hierarquias há muito tempo cristalizadas podem ser subvertidas.
Arremates
Em um país com as dimensões do Brasil, marcado por profundas
desigualdades socioespaciais e onde o poder público tem tradição de atuar tanto na economia quanto na sociedade, a gestão do território pode ser vista como um mosaico formado pela justaposição das redes empresariais e da organização centrada no Estado (IBGE, 2014). Portanto, mesmo que se pretenda analisar a maneira como as empresas organizam o território e, dentro dessa organização, busque-se identificar os principais nós de comando da rede empresarial, a compreensão da configuração desse território “das empresas” guarda profunda relação com o território do “Estado” (Marques, 2019).
A rede de gerenciamento empresarial das empresas
multilocalizadas cujas sedes se encontram em território brasileiro representa a forma de territorialização do capital em busca de sua própria reprodução. Como mencionado anteriormente, de uma maneira geral, as empresas, sejam elas privadas, estatais ou qualquer outra situação societária intermediária que possam vir a ter, buscam, em geral, a melhor condição possível de lucratividade. Mesmo nos casos específicos em que essa premissa possa ser contestada, como ocorre com algumas empresas estatais, quando a lógica da ocupação do território e da prestação de serviços, ainda que em condições deficitárias, sobrepuja a necessidade de lucro, usualmente são situações transitórias que não persistem no longo prazo.
Obviamente, o padrão em rede não é o único modelo de gestão
atuando em um dado território em um momento específico no tempo. De fato, uma grande parte da gestão empresarial ocorre dentro de Concentrações Urbanas (IBGE, 2015) e assume um padrão regional ou contíguo no espaço. Assim, a dupla maneira pela qual o espaço é abordado, em rede e em contiguidade, demonstra a alta maleabilidade e adaptabilidade de algumas cidades às atuais formas de comando do território. Certamente, existem pontos de atrito entre as cidades, que em muitos casos sugerem uma competitividade por recursos e capitais, e é clara a existência de pontos mais luminosos ou mais opacos dentro das fronteiras brasileiras. Porém, os vencedores desses verdadeiros embates terminam por aprofundar as possibilidades de atração de novos investimentos e por incrementar sua influência em áreas ampliadas do território. Dessa maneira, o Brasil apresenta-se como um mosaico de redes empresariais, onde a forma centro-periferia permanece relevante. Partes do território, de acordo com essa lógica, passam a se conectar diretamente ao mercado global, enquanto outras retêm uma dinâmica mais baseada na contiguidade. Conceitualmente, Santos (1996) já havia descrito como, por meio de verticalidades e horizontalidades, o espaço se conforma a essa dupla influência das forças produtivas. Dependendo da força desses pontos, captada pela sua hierarquia na rede urbana nacional (IBGE, 2008), a influência se propagará por maiores ou menores distâncias.
Se o desenvolvimento capitalista ocorre de maneira desigual e
combinada, seu reflexo no território é especialmente acentuado em condições de incompletude da rede urbana, fator essencial para se compreender a forma que essa mesma rede urbana adquire no Brasil, e potencializado pelas deficiências estruturais existentes em um país a meio termo entre a riqueza e a pobreza.
Fruto do processo histórico de ocupação, a forma adquirida pela
distribuição das cidades brasileiras ao longo de um território continental obedece a fatores e a agentes que têm interesses, na maioria das vezes, díspares e conflitantes. Somem-se a isso os diferentes atributos de poder de cada um desses agentes e as configurações adquiridas pelos arranjos existentes entre eles, coordenados ou não, que transparecem na rede urbana brasileira e que se materializam nas cidades na própria forma que o urbano adquire, considerando-se os pontos de maior riqueza ou pobreza da urbanização imposta e as segregações sociais e espaciais daí advindas.
A rede urbana brasileira, consequentemente, adquire uma forma
cujo epicentro encontra-se em São Paulo. Brasília e Rio de Janeiro completam a tríade de cidades com maior influência na economia brasileira e onde se concentra a maioria das empresas multilocalizadas de abrangência nacional do Brasil. Belo Horizonte, gradativamente, aproxima-se dessas três cidades, anunciando a emergência de um quadrilátero de comando empresarial no Brasil. A porção meridional do território brasileiro apresenta-se densificada, em especial no litoral e próximo às capitais dos estados do sul. As ligações empresariais aí são, em sua maioria, de curta distância, em geral, dentro dos próprios arranjos populacionais. O Nordeste brasileiro, nessa configuração, surge com empresas locacionadas nas capitais e, pontualmente, no interior da região, mas com poucas ligações multilocalizadas em âmbito nacional. Por último, as Regiões Centro-Oeste e Norte apresentam-se com poucas empresas de âmbito nacional, o que não significa ausência completa destas.
É importante, todavia, recordar que as flutuações conjunturais da
economia do país aparecem refletidas no território no curto prazo. Porém, a forma da rede de gestão das empresas brasileiras apresenta uma surpreendente permanência estrutural, de longo prazo, quando se comparam os resultados de Corrêa (1968) e o atual, mesmo levando-se em consideração a diferença nas abrangências territoriais das duas pesquisas. Tal fato não significa que novos empreendimentos não tenham sido desenvolvidos ao longo dos quase 50 anos entre um trabalho e outro, mas que os locais onde foram implantados esses novos empreendimentos, em geral, não mudaram ao longo do tempo. Isso corrobora a permanência do formato da rede de gestão das empresas multilocalizadas no Brasil e reafirma o seu caráter estrutural.
Nesse contexto, no Brasil, cuja rede urbana encontra-se em
processo de consolidação em largas porções do território, as regiões e redes possuem um papel fundamental para o entendimento da forma e da organização constituídas. As variáveis atuantes na constituição das regiões e redes, entre elas, os vetores externos, possuem arranjos específicos, onde se misturam influências políticas e interesses diversos, como os de acesso a mercados de mão de obra, matérias-primas e consumidores. Assim, as formas finais assumidas em cada localidade são resultado desse jogo de forças e de interesses distintos, onde as horizontalidades e as verticalidades irão desempenhar papel fundamental na hierarquia urbana nacional (Santos, 2008a). Posto isso, conforme aponta Corrêa (2018, p. 54), “a rede urbana pode, assim, ser vista como a rede-síntese das demais redes geográficas, ela própria sendo uma rede geográfica”.
Resta, como sugestão para trabalhos futuros que aprofundem a
temática aqui abordada, a realização de novos trabalhos sobre a natureza das ligações econômicas dos quatro principais centros de comando da rede urbana brasileira. Essas futuras pesquisas poderiam ser feitas tendo em vista a distância média do alcance das ligações empresariais oriundas dessas cidades, ou seja, se elas são majoritariamente curtas, internas às suas respectivas concentrações urbanas, médias ou de longa distância. Uma outra possibilidade é analisar em que setor se concentram as empresas dos maiores centros econômicos do Brasil e a sua ligação com centros fora do país. Pensando-se nas cidades desconectadas da rede empresarial brasileira, é desejável a realização de trabalhos que verifiquem as razões para que elas se encontrem nessa condição e de simulações que possam apontar um caminho que as leve a romper o isolamento econômico atual. Enfim, as possibilidades de novas pesquisas sobre esse tema são inúmeras.
Por fim, espera-se que este trabalho seja uma contribuição à
compreensão e à análise da dimensão espacial do território brasileiro. Embora inscrito em uma área da geografia que tem larga tradição no país, não são muitos os artigos e dissertações que o abordam sob o viés da gestão empresarial e, sobretudo, na escala nacional nos dias atuais.
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