Como anda Salvador e sua região metropolitana
Os espaços públicos da Salvador contemporânea
Os espaços públicos da Salvador
contemporânea
Angelo Serpa *
Introdução
Salvador, como outras metrópoles do Brasil e do mundo, vem conduzindo políticas de requalificação urbana seletivas e segregacionistas, que reforçam e tornam visíveis as desigualdades sócio-espaciais no tecido urbano-metropolitano. Depois da segunda metade dos anos 1990, a cidade empreendeu uma política sistemática de criação e reabilitação de parques e jardins públicos. Não por acaso, esse período coincide com duas importantes mudanças relativas ao conjunto das grandes cidades do mundo e, em particular, daquelas situadas nos países ditos "emergentes", onde esses fenômenos vão ocorrer com mais intensidade (Serpa, 2006; 2007a).
A primeira corresponde a uma nova ideologia cuja origem situa-se no continente europeu: as noções de desenvolvimento e da cidade "sustentáveis" (Emelianoff, 2004). O princípio de base se apóia na idéia de que a melhoria da qualidade de vida urbana valoriza a imagem e a atratividade das cidades, as áreas "verdes" e públicas servindo a esse fim.
A segunda mudança está relacionada com a evolução sócio-econômica do Brasil. Se os anos 1970-1980 foram marcados pelo aumento do poder (econômico e político) das classes médias, em meados dos anos 1990 assiste-se, nas maiores aglomerações urbanas do país, a um aumento expressivo das desigualdades entre ricos e pobres.
Esta evolução encontra reflexo na paisagem urbana, que testemunha o surgimento de novos bairros residenciais servidos de centros comerciais e boa infra-estrutura urbana, do mesmo tipo que aqueles encontrados nas cidades dos países mais prósperos.
A estratégia de promoção de uma imagem positiva de Salvador através da revalorização de seus espaços públicos faz parte do receituário do planejamento estratégico, modelo que aposta na criação de holdings, consórcios ou empresas mistas para executar ações de desenvolvimento urbano. Tanto a requalificação como a adoção de espaços públicos por empresas privadas segue a lógica da visibilidade e da expectativa de retorno através da propaganda e do marketing. O problema é que esses programas não atendem, via de regra, às áreas periféricas e de urbanização popular da cidade, onde o abandono de parques e praças é notório.
Agentes públicos e privados vêm conduzindo desde então uma política urbana que consiste na "encenação" de determinados espaços públicos, que passam a desempenhar um papel de "vitrine" no contexto urbano. É evidente que estes projetos, programas e intervenções são realizados em função de estratégias de valorização do solo urbano, em bairros com maior concentração de população de melhor poder aquisitivo.
Estas estratégias baseiam-se em um modelo ideal de cidade, onde a criação de espaços públicos, o "embelezamento urbano", entre outros, constituem estratégias de marketing urbano, de acordo com o paradigma de Barcelona. As opções de desenho urbano adotadas e a estética desses espaços reforçam seu caráter mercadológico.
Neste capítulo, pretende-se abordar as questões relativas à gestão dos espaços públicos da cidade do Salvador, evidenciando as estratégias diferenciadas do poder público com relação a estes espaços, discutindo-se, em um primeiro momento, suas funções e distribuição no tecido urbano e, depois, ressaltando as diferentes estratégias de apropriação espacial entre bairros ricos e pobres.
Um prólogo necessário: espaços políticos ou
espaços de consumo cultural?
As questões norteadoras do meu livro "O espaço público na cidade contemporânea" (Serpa, 2007a), podem também servir de mote inicial para este prólogo necessário: Qual é o papel desempenhado pelo espaço público na cidade contemporânea? Que variáveis analisar? E a partir de que teorias e conceitos?
No livro, tal discussão foi encarada como um desafio para a Geografia e para todas as ciências que se pretendam políticas e ativas, já que o espaço público é considerado como o espaço da ação política ou da possibilidade da ação política na contemporaneidade. Esta característica fundamental contrasta, nas cidades contemporâneas, com o processo de incorporação dos espaços públicos urbanos como mercadorias para o consumo, dentro da lógica de produção e reprodução do sistema capitalista na escala mundial. Pois ainda que sejam adjetivados como públicos, poucos se beneficiam desses espaços teoricamente comuns a todos.
Antes de tudo, é necessário discutir o sentido da ação, da ação política,
Angelo Serpa que consideramos pertinente para a análise do espaço público no período contemporâneo. Concorda-se aqui com Hannah Arendt, de que a ação é a única atividade que se exerce entre os seres humanos, sem mediação das coisas ou da matéria, correspondendo à "condição humana da pluralidade" (Arendt, 2000, p. 15). Para Arendt, a ação é a atividade política por excelência. Desse modo, razão e vontade, baseadas em princípios universais, estão na base da ação e fundamentam o agir político.
Em Habermas (1984), o espaço público, como sinônimo de esfera pública enquanto espaço de mediações, exprime o ideal de uma opinião pública esclarecida, levando a cabo a idéia de uso da "razão como emancipação". Aqui, a utopia iluminista repaginada dá ao espaço público os contornos de uma arena para articulação de consensos, a partir do livre entrechoque de argumentos racionais. Em Habermas, o uso da razão como emancipação deve também se basear em princípios éticos universais, seguindo a tradição kantiana que relaciona moralidade e legalidade, ações políticas e ações morais. Assim, a soberania das leis deve ser conseguida através da publicidade, ou seja, através de um espaço público, cuja capacidade funcional é imposta, sobretudo, com a base natural do estado de direito.
Entretanto, questiona-se: pode-se abordar o espaço público na Salvador contemporânea como o espaço por excelência da ação e do discurso? Como esfera de mediação de iguais na sua diferença, a partir do uso da razão como emancipação?
Essas questões mostram toda sua pertinência, ao verificarmos a (imensa!) dificuldade de muitos pesquisadores no campo das ciências humanas e sociais, quando se trata de relacionar as dimensões políticas e sociais de uma esfera pública urbana e os aspectos formais e estruturais dos espaços públicos "concretos". Dialeticamente, forma e conteúdo são a um só tempo produtos e processos: são auto-condicionantes, auto-referentes e historicamente determinados. Portanto, na análise do espaço público urbano, forma e conteúdo são indissociáveis, e uma discussão sobre essa temática passa necessariamente pela difícil articulação entre os aspectos que dão "concretude" à esfera pública urbana e aqueles de cunho mais abstrato, que denunciam seu caráter intersubjetivo e a necessidade de uma abordagem multifacetada do problema.
Uma abordagem assim passa necessariamente pela discussão da noção de acessibilidade, que está estreitamente vinculada, na demarcação dos territórios urbanos, à alteridade, contrapondo uma dimensão simbólica (e abstrata) à concretude física dos espaços públicos urbanos. Pois, a acessibilidade não é somente física, mas também simbólica, e a apropriação social dos espaços públicos urbanos tem implicações que ultrapassam o design físico de ruas, praças, parques, largos e prédios públicos (Serpa, 2004).
Se for certo que o adjetivo "público" diz respeito a uma acessibilidade generalizada e irrestrita, um espaço acessível a todos deve significar, por outro lado, algo mais do que o simples acesso físico a espaços "abertos" de uso coletivo. Afinal, que qualidades norteiam a apropriação social do espaço público na cidade contemporânea? Como explicar a apropriação seletiva e diferenciada de espaços, que, em tese, seriam - ou deveriam ser -acessíveis a todos? (Serpa, 2007a).
Muitos dos "novos" e requalificados espaços públicos urbanos de Salvador permanecem "invisíveis" para a maioria da população, que não dispõe de "capital escolar" (Bourdieu, 1979) para se apropriar das linguagens projetuais e do repertório utilizados no desenho urbano contemporâneo. Pode-se mesmo afirmar que as clivagens sociais ganham aqui status de "segregação social" ou mesmo de exclusão. Tudo isso contribui para a "invisibilidade" desses equipamentos - em contradição com seu "princípio projetual de base", a visibilidade completa e espetacular -, tornando-os exclusivos para o uso de "iniciados". Existe, portanto, uma distância mais social que física, separando os "novos" espaços públicos urbanos daqueles com baixo capital escolar (Serpa, 2004).
Esses espaços surgem a partir da lógica do "consumo cultural" que parece se constituir no novo paradigma para o desenvolvimento urbano na contemporaneidade. As cidades são reinventadas a partir da reutilização das formas do passado, gerando uma urbanidade que se baseia, sobretudo, no consumo e na proliferação (desigual) de equipamentos culturais. Esta nova (velha) cidade folcloriza e industrializa a história e a tradição dos lugares, roubando-lhes a alma. É a cidade das requalificações e revitalizações urbanas, a cidade que busca vantagens comparativas no mercado globalizado das imagens turísticas e dos lugaresespetáculo. A lógica do "consumo cultural" atualiza o já bem conhecido "duplo caráter da centralidade capitalista: lugar de consumo e consumo de lugar" (Lefebvre, 1991, p. 130).
O outro lado da moeda: a invisibilidade e o
abandono das áreas de urbanização popular e de
seus espaços públicos
Na capital baiana, com a "reforma urbana" de 1967, acentua-se o processo de valorização fundiária dos bairros localizados na orla atlântica ou nas suas proximidades em detrimento daqueles situados na orla suburbana e no chamado "miolo". Naquele ano, a prefeitura municipal, grande (e única) proprietária de terrenos localizados às margens da atual Avenida Paralela vende barato seu patrimônio fundiário a (poucas) empreiteiras e construtoras fazendo "explodir" o preço do metro quadrado nessa área da cidade. Surgem novos bairros verticalizados, como o Imbuí. Única via expressa de Salvador, a Avenida Paralela representa, segundo corretores de imóveis, o novo pólo de expansão residencial e comercial da cidade. Bem projetada e com canteiros centrais que possibilitam ainda uma maior ampliação das pistas, a avenida corta áreas remanescentes de Mata Atlântica, o que aumenta seu valor imobiliário. Segundo algumas incorporadoras, o metro quadrado na Avenida Paralela já é o mais caro na cidade, considerando-se as dimensões de lotes que são oferecidos, geralmente numa dimensão não inferior a cinco campos de futebol.
Até meados da década de 1970, a cidade abrangia um território equivalente a 30% da área continental do município. Com a implantação dos parques industriais e das grandes avenidas, a malha urbana é ampliada em mais de três vezes. A intensidade deste crescimento favoreceu a descentralização das atividades e a predominância dos processos informais de criação do espaço urbano. Em 1995, um estudo elaborado pela CONDER (2002) com base em dados do IBGE constatava os seguintes números para o déficit quantitativo de novas moradias no Estado da Bahia: 108.165 na Região Metropolitana de Salvador, 180.999 nas demais áreas urbanas e 209.374 na área rural. O mesmo estudo apontava no Estado a existência de 527.058 domicílios carentes de infra-estrutura, 251.385 com infraestrutura inadequada, e mais 176.328 domicílios com adensamento excessivo ou uso de materiais precários na construção. O perfil do déficit habitacional no Estado da Bahia indicava a concentração nas famílias com renda até dois salários mínimos, que correspondiam a 70,90% do déficit.
A partir de 1995, o Programa Viver Melhor vem ao encontro desse déficit, levando melhorias habitacionais a bairros periféricos e carentes, com a construção, em alguns casos, de novas unidades habitacionais. A lógica do programa, no entanto, permanece fiel à idéia de fixar a população de baixa renda em áreas sem amenidades físicas e distantes das áreas centrais e turísticas da cidade, como no Projeto Cajazeiras - constituído de cooperativas habitacionais populares, implantadas ao longo dos anos 1970-1980 na periferia da cidade pela URBIS - Habitação e Urbanização da Bahia S/A -, com o objetivo de instituir um subcentro regional (de equipamentos, comércio e serviços), que contribuísse para evitar a hipertrofia da área central.
As áreas de urbanização popular resultam em sua maior parte do esforço e do trabalho dos moradores, já que são deficientes as políticas habitacionais para a população de baixa renda na cidade e no país. O bairro de Cajazeiras, no miolo da cidade, é um exemplo de conjunto habitacional popular, caracterizado por edificações com baixo padrão construtivo e precariedade arquitetônica e urbanística. Como nesse bairro, hoje, as áreas de urbanização popular em Salvador caracterizamse por uma mistura de habitações auto-construídas e conjuntos habitacionais edificados por iniciativa da prefeitura e do Estado, freqüentemente afastados das áreas centrais, o que implica em altos custos de transporte para seus habitantes. Por outro lado, os bairros populares mais antigos, localizados na orla da Baía de Todos os Santos, atraem também setores médios da população, que usufruem de alguma infra-estrutura e preços mais vantajosos nas áreas mais consolidadas. Muitos trabalham na indústria, na construção civil ou no setor de comércio e serviços, alguns até no serviço público (Serpa, 2007b).
Os Programas de requalificação dos espaços públicos urbanos em Salvador, mencionados no início deste capítulo, não atendem, via de regra, as áreas de urbanização popular da cidade, onde o abandono e a invisibilidade de parques e praças são notórios. É este exatamente o caso do Parque de São Bartolomeu, localizado no Subúrbio Ferroviário, um remanescente de Mata Atlântica que abriga a nascente do Rio do Cobre, considerado espaço sagrado para os praticantes do Candomblé (Serpa, 1996; 1998). O estado de abandono, os assaltos freqüentes, o descaso e a ausência de políticas públicas para o parque inviabilizam os ritos do Candomblé, afastando seus praticantes do local. Contudo, o Subúrbio Ferroviário inteiro poderia ter sido beneficiado com o Parque, caso o equipamento tivesse sido requalificado para a população desta área da cidade. Seus moradores não precisariam atravessar a cidade para ter acesso a uma área pública de lazer, já que há uma evidente concentração de espaços públicos nas áreas mais centrais e valorizadas da cidade, como as regiões administrativas Centro, Barra, Pituba, Boca do Rio e Itapuã, como mostra a Tabela a seguir.
Tabela 1 -Distribuição de Parques, Praças e Largos por Região
Administrativa -Salvador
Fonte: Estudo de Lazer - PDDU Salvador, 2002.
Em Salvador, das três milhões e 691 mil viagens feitas diariamente pelos habitantes da cidade, um milhão e 70 mil são feitas a pé, de acordo com uma pesquisa da Superintendência de Transportes Públicos, da Prefeitura Municipal. As causas apontadas pelo estudo- que contemplou 600 mil domicílios - para este fato são, além das dificuldades financeiras (a principal), as necessidades de deslocamentos curtos, a deficiência do sistema de transportes e a tradição das caminhadas em festas populares. Apenas 21% dos domicílios pesquisados têm um carro estacionado na garagem (Rocha, 1998). Deste modo, ao priorizar a implantação de novos parques e praças na orla atlântica de Salvador, em detrimento da orla suburbana - onde a renda média da população é de um a três salários mínimos - o governo e a prefeitura acabam discriminando grande parte da população soteropolitana, justamente aquela com mais dificuldades de deslocamento e falta de opções de lazer.
Uma simples comparação a partir dos dados contidos na Tabela 1 mostra um desequilíbrio evidente entre o número de praças existentes nas regiões administrativas I, V, VI, VII, VIII, IX, X, com predominância de população de maior poder aquisitivo, e as Regiões administrativas II, III, IV, XII, XII, XIII, XIV, XV, XVI, XVII, de perfil mais popular e com população de baixa renda: são 108 contra 68. No que tange aos parques públicos a lógica é exatamente a mesma, com a concentração desses equipamentos em áreas com infra-estrutura consolidada e população com maior renda e
escolaridade, como pode ser visualizado no Mapa 1.
Mapa 1 - Sistema de parques públicos - Salvador 2006
Fonte: Base Cartográfica 1992 - Conder. Elaboração Ana Rosa Iberti
e Angelo Serpa
Em Salvador, pesquisa realizada por Brito (1997) mostra que as Regiões administrativas XVI (Subúrbio Ferroviário) e XIV (Cajazeiras) dividem o metro quadrado mais barato da cidade, em contraste com as Regiões administrativas mais centrais e/ou localizadas na orla atlântica, como Barra, Rio Vermelho, Pituba, Boca do Rio e Itapuã. Como não há estudos sistemáticos e detalhados sobre o preço do metro quadrado na capital baiana, o autor acompanhou durante os anos de 1970, 1980, 1990 e 1996 a publicação de anúncios classificados de vendas de terrenos, casas e apartamentos em Salvador, no jornal A Tarde, para escrever sua dissertação de mestrado sobre a escassez de terrenos para construção na capital baiana (Brito, 1997).
A cidade, que cresceu de sul para norte, se desenvolveu inicialmente a partir da entrada da Baía de Todos os Santos ao longo de sua borda leste. A análise da dinâmica de sua expansão urbana permite individualizar dois vetores principais de crescimento. Um primeiro vetor, ao longo da BR-324, engloba uma mancha urbana de baixa renda, que pressiona os ambientes estuarinos da Baía de Todos os Santos. O segundo vetor se desenvolve ao longo da Avenida Paralela, englobando uma mancha urbana de renda média alta, compreendida entre esta via e a orla atlântica. Enquanto na orla atlântica investimentos em infra-estrutura estão na ordem do dia, nas praias da Baía a situação é de abandono e degradação. Embora o Programa de Recuperação das Áreas Degradadas de Salvador e dos Parques Metropolitanos seja uma tentativa de repensar a cidade em termos urbanísticos, o que vem sendo priorizado pela CONDER é a vocação turística da capital baiana, com a valorização de grandes parques, próximos à orla atlântica.
Os novos parques da orla atlântica vêm, portanto, alimentar e "coroar" um processo de valorização imobiliária das áreas nobres da cidade, acrescentando novas amenidades físicas aos bairros que já possuem melhor infra-estrutura de comércio e serviços, bem como vias expressas para circulação de veículos particulares. A lógica da localização dos parques em Salvador obedece também ao princípio de priorizar áreas com algum interesse turístico, próximas a grandes equipamentos como o Aeroporto Internacional, o Centro de Convenções e os shoppings centers Iguatemi e Aeroclube Plaza. Esta é também a lógica que norteia a adoção de praças, parques e outros espaços livres de edificação por empresas privadas, no contexto de um programa desenvolvido desde 1997 pela Prefeitura Municipal de Salvador, o Programa de Adoção de Praças, Áreas Verdes, Monumentos e Espaços Livres. Uma análise dos espaços "adotados" pela iniciativa privada através desse programa corrobora mais uma vez a tese do desinteresse por praças e parques localizados em áreas de urbanização popular da cidade. A adoção concentra-se nas Regiões administrativas com população de maior poder aquisitivo e escolaridade, como é o caso das Praças Marconi e Nossa Senhora da Luz (ambas localizadas no bairro da Pituba), a Praça do Iguatemi, o Parque da Cidade (localizado no bairro do Itaigara) e a Avenida Antônio Carlos Magalhães (Serpa, 2003). Os espaços adotados acabam funcionando como grandes outdoors tridimensionais, como estratégia de publicidade das empresas "adotantes", que não se interessam por praças, avenidas e parques localizados em áreas de perfil popular e com concentração de
população de baixa renda, destacadas no Mapa 3.
Mapa 2 - Valor médio dos terrenos em US$/m 2 por Região
Administrativa - Salvador 1996
Fonte: Elaborado por Cristovão Brito; com base em classificados do
jornal A Tarde de 1996. Reelaborado por Ana Rosa Iberti e Angelo
Serpa
Mapa 3 - Responsáveis por domicílios sem rendimento ou com
renda até 2SM por setor censitário Salvador - 2000
Fonte: CONDER/IBGE, Censo Demográfico, 2000. Base
cartográfica SICAR/RMS, 1992. Mapa elaborado pelo autor.
Por meio do Programa "Adote uma Praça" a iniciativa privada pode manter os espaços públicos e, em contrapartida, placas com o nome das empresas adotantes são colocadas nas praças, parques ou avenidas adotados. Até hoje, desde a implantação do programa, são 90 contratos assinados com a Prefeitura. O prazo de adoção é de dois anos, podendo os contratos serem prorrogados. As empresas adotantes não precisam ter gastos contínuos, podendo optar por recuperar os espaços e deixar sua manutenção por conta da Prefeitura. Durante o processo de adoção, a Prefeitura se encarrega de elaborar um projeto de recuperação e o encaminha à empresa interessada. É a Superintendência de Parques e Jardins quem fiscaliza o cumprimento dos contratos pelas instituições adotantes. O Programa não é inédito no país e já existe em outras cidades do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco (A Tarde, 25/6/2006).
Na capital baiana, a Região da Pituba é a preferida para adoção de praças. No final de linha do Itaigara, por exemplo, uma rede de supermercados investiu um milhão de reais na construção da Praça Ana Luísa Magalhães. A Superintendência de Parques e Jardins admite que as empresas preferem adotar espaços naqueles bairros ou regiões onde se encontram seus maiores estabelecimentos, em detrimento dos bairros ou regiões com população de baixa renda e pouca densidade de estabelecimentos comerciais e de serviços. O resultado é que várias praças continuam a espera de adoção, como a Praça dos Dendezeiros, no bairro do Bonfim, e as Praças Wilson do Carmo Pires e Joanes Leste, no bairro do Lobato, localizado no Subúrbio Ferroviário (A Tarde, 25/6/2006).
As classes médias vão ao paraíso... mas evitam
os espaços públicos urbanos
Minhas pesquisas mostram que a concepção e implantação de novos espaços públicos (parques e grandes praças) em Salvador, a partir dos anos 1990, estiveram sempre subordinadas a diretrizes econômicas, políticas e ideológicas. Na Salvador contemporânea, como em outras metrópoles do mundo ocidental, os espaços públicos urbanos são meios de controle social, sobretudo das novas classes médias, destino final das políticas públicas, que, em última instância, procuram multiplicar o consumo e valorizar o solo urbano nos locais onde são aplicadas.
Mais precisamente, as novas classes médias são representadas pelos novos grupos de trabalhadores qualificados, engenheiros e técnicos, que surgem em função da evolução das condições de produção, pelas classes médias assalariadas com um nível elevado de estudos, pelas novas (ou renovadas) categorias profissionais, ou, simplesmente, pelo setor terciário inteiro, salvo evidentemente o "novo proletariado" terciário, constituído por categorias de trabalhadores pouco qualificados, mal remunerados e/ ou com empregos precários. Trata-se de posições sócio-econômicas equivalentes, onde as relações e representações estão "socialmente referenciadas". Pensa-se aqui no conceito de "habitus", naquilo que concerne aos comportamentos das classes médias ao se apropriarem do espaço público contemporâneo (Bourdieu, 1979; Serpa, 2007a).
O consumo e o lazer das novas classes médias são, afinal, os "motores" de complexas transformações urbanas, modificando áreas residenciais e comerciais decadentes, recuperando e "integrando" waterfronts, desenvolvendo novas atividades de comércio e de lazer "festivo". Os exemplos se sucedem em Salvador: o Parque Costa Azul foi implantado no lugar de um antigo hotel em ruínas, margeando a orla atlântica, enquanto o Jardim dos Namorados foi projetado para dar origem a uma zona de pedestres e ciclistas na beira do mar. A implantação dos parques na década de 1990 na capital baiana foi iniciada com a inauguração do Parque do Abaeté. O exemplo do Parque do Abaeté é emblemático para demonstrar a uniformização visual e funcional dos espaços públicos urbanos, onde os parques se assemelham cada vez mais aos shopping-centers, com a valorização do consumo como atividade de lazer. Restaurantes e bares parecem ser a principal atração do lugar para os moradores da cidade, embora a lagoa continue a atrair turistas de procedências diversas (Serpa, 2001; 2007a).
Com relação às praças, que em geral não oferecem as opções de lazer encontradas nos parques públicos (shows musicais, feiras de artesanato, restaurantes, áreas esportivas e de lazer infantil, entre outras), pode-se dizer que são ainda menos utilizadas que os parques, principalmente nas áreas nobres da cidade. Mesmo assim, praças continuam a ser adotadas por empresas nessas áreas e outras novas são criadas, muitas vezes para valorizar o solo urbano ou para promover a "limpeza" desses locais de usos e usuários indesejáveis, como é o caso da Praça Catarina Paraguaçu, localizada no bairro da Graça, um dos redutos da classe média alta soteropolitana. A Praça foi inaugurada em 2007, com áreas de estar e de lazer infantil, mas é difícil encontrar alguém que se aproprie dos equipamentos disponibilizados. Com a implantação da Praça, foram expulsos dali seus antigos usuários, lavadores de carro que trabalhavam no local, usufruindo da água de uma fonte ali existente.
Parques e praças sofrem com a concorrência dos shopping-centers, vistos atualmente pelos estratos médios da população soteropolitana como uma forma "segura" de lazer e consumo frente à "insegurança" dos espaços públicos urbanos, que passam a ser evitados até mesmo pelas classes populares. Yázigi (2000) lembra que o primeiro shopping brasileiro - o Iguatemi - foi inaugurado em 1966 na cidade de São Paulo. Mas é nos anos 1980 que eles vão se estabelecer definitivamente nas cidades brasileiras - inclusive em muitas cidades médias - representando a realização de um modelo norte-americano de comodidade e status social. Para o autor, os primeiros shoppings no Brasil não eram ainda uma resposta à violência urbana, mas talvez já denunciassem "a clarividência de seus empreendedores sobre um futuro próximo e sombrio" (Yázigi, 2000, p. 254). A segregação do consumo resultaria, sob essa ótica, da incapacidade da sociedade brasileira em equacionar o fosso entre as classes sociais, que levaria a "situações de perda para o espaço público" (Yázigi, op. cit., p. 257). Assim, os shoppings tornam-se redutos de pessoas de diferentes estratos médios, particularmente em finais de semana, onde há "encontros, paqueras, 'derivas', ócio, exibição, tédio, passeio, consumo simbólico" (Yázigi, op. cit., p. 258)
É preciso, pois, admitir a possibilidade de encontros de naturezas diversas nos shoppings centers, entendendo-os também como espaços urbanos de sociabilidade, embora isso pareça à primeira vista algo contraditório, já que, na sua origem, esses equipamentos baseiam-se, como princípio de concepção, na segmentação e no controle da acessibilidade. Lugar específico de determinados grupos, o shopping aparece como local preferido para o passear a pé para jovens mulheres e representantes da denominada "classe
C", mas também é o lugar da galera,1 dos jovens namorados, dos pais com os filhos, etc.
Conclusão
Os exemplos analisados neste capítulo mostram que a crise da modernidade é uma crise nos domínios público e privado: A erosão do equilíbrio entre a vida pública e a vida privada destrói o pilar que sustentava a sociedade nos primórdios do capitalismo (Sennet, 1998). Caminhamos para a consagração do individualismo como modo de vida ideal, em detrimento de espaços públicos cada vez mais decadentes.
Nossas relações de vizinhança são condicionadas de uma forma determinante pela densidade populacional do local que habitamos, pelo nível econômico e pelo grau de cooperação dos seus habitantes, bem como pela distância entre as unidades de habitação (Keller, 1979). As relações de vizinhança na Salvador contemporânea são também ainda muito condicionadas pelas diferenças entre classes sociais. Nos bairros populares, a limitação de oportunidades, a pobreza e o isolamento relativos, a insegurança e o medo acabam por fortalecê-las e torná-las parte fundamental da trama de relações familiares. Nos bairros de classe média, as relações entre vizinhos são mais seletivas e pessoais, já que o maior poder aquisitivo faz diminuir a necessidade de ajuda mútua e aumentar a necessidade individual de espaço.
Sofrem as metrópoles contemporâneas, especialmente no Brasil, com a fragmentação do tecido sócio-político espacial e a formação de enclaves territoriais no tecido urbano, sofisticando as formas de auto-segregação dos habitantes. Esses enclaves formam, nos bairros com urbanização de status, circuitos exclusivos, cada vez mais restritos, de residências (condomínios), lazer (parques temáticos) e consumo (shopping centers), constituindo o processo que Souza (2001) denomina de "involução metropolitana". Se é evidente a polarização social e espacial na cidade, por outro lado, e mais recentemente, processos de fragmentação também estão em curso na capital baiana. Se, antes, a segregação espacial era mais facilmente identificável no espaço soteropolitano, hoje há também, e isso em todos os municípios da região metropolitana, áreas de urbanização popular convivendo lado a lado com condomínios de classe média. Como para outras metrópoles do país, também para a aglomeração soteropolitana, a fase de concentração da população no município-sede vem sendo paulatinamente substituída por um processo generalizado de suburbanização, visível no crescimento acelerado dos municípios mais próximos de Salvador e localizados na RMS, como é o caso de Lauro de Freitas (Serpa, 2007b).
Se nos bairros populares da cidade contemporânea falta espaço para intervenções paisagísticas e urbanísticas "de monta", é necessário afinar o olhar para o sistema de ações que se operacionaliza sobre um sistema de objetos (Santos, 1996), aparentemente inadequado para o lazer e as manifestações culturais e festivas de seus moradores. É necessário abandonar a perspectiva tradicional que no fundo desejaria o extermínio de paisagens classificadas a priori como "não-cidadãs" ou, sob essa mesma ótica, como paisagens sem "qualidade ambiental". É necessário se ocupar dos espaços ocultos e residuais, das "lajes" de uma paisagem que "espontaneamente" se verticaliza, dos interstícios das construções, dos "restos" de espaços dos becos e vielas, onde a população dos bairros populares compartilha seus encontros, seu lazer e sua diversão (Serpa, 2007c).
Para a Geografia e também para o Planejamento resta a reflexão de como se debruçar sobre estes espaços urbanos residuais e intersticiais, sobre as "sobras" e "restos" de cidade, não "aproveitados" pelas estratégias dos agentes hegemônicos de produção do espaço. Isso coloca para ambas as áreas do conhecimento uma agenda de pesquisa que busque qualificar os encontros e as trocas na cidade contemporânea, se debruçando sobre a densidade de ocorrência das manifestações culturais nos espaços livres de edificação/urbanização, refletindo sobre a adequação entre formas e conteúdos urbanos. É necessário qualificar nossas análises e nossos levantamentos, dando visibilidade àquilo que está oculto para a produção e o consumo cultural de massa. Trata-se de explicitar as manifestações da cultura popular em nossa cidade e suas formas de organização, resgatando o sentido lúdico e a ludicidade do urbano no período contemporâneo (Serpa, 2007c).
Mesmo com déficits evidentes de infra-estrutura, com o quadro generalizado de pobreza, desemprego e problemas ambientais, os bairros populares da metrópole são centrais para a diversidade social e cultural no espaço metropolitano. E isso acontece apesar da concentração dos espaços públicos e equipamentos culturais nos bairros de classe média em Salvador e nos demais municípios da Região Metropolitana. Importante observar nesse contexto que não se trata de modo algum de uma idéia hegemônica de cultura, de uma idéia de "cultura erudita", mas, ao contrário, de idéias de cultura alternativas à cultura dominante, que se manifestam no dia-a-dia das áreas de urbanização popular da metrópole (Serpa, 2007d).
É necessário reconhecer a existência de culturas dominantes e subdominantes ou "alternativas", não apenas no sentido político, como também, em termos de sexo, idade e etnicidade, já que o poder é expresso e mantido através da reprodução da cultura (Cosgrove, 1998). Nos bairros populares da cidade, muitas vezes à margem de qualquer subsídio ou lei de apoio à cultura, manifestações populares "alternativas" vão surgindo ou "teimosamente" persistindo. São manifestações "esquecidas" pela mídia e pelo marketing turístico, como a capoeira, as rendeiras, a costura artesanal, as festas de pescadores, os grupos de teatro popular, as festas promovidas pelas associações de moradores, os autos de natal, os corais, os carnavais de bairro, o maculelê, os blocos e as danças afro. Na maioria das vezes, é no espaço das associações de moradores, das paróquias e dos terreiros de candomblé, que essas manifestações encontram algum espaço de expressão. Ao mesmo tempo, muitas delas vão desaparecendo, permanecendo vivas apenas na memória de alguns moradores.
Se levarmos a sério a idéia de "cultura popular", então seria necessário também questionar a inadequação dos espaços públicos urbanos e a política que norteia sua implantação e gestão na metrópole soteropolitana. De modo paradoxal, as áreas de urbanização popular das periferias metropolitanas transformam-se em centros de cultura urbana em Salvador, no "coração" de diferentes manifestações da cultura afro-brasileira, como os blocos afro Ilê Aiyê e Araketu, por exemplo. Como local de nascimento de muitos artistas, que encontram grande sucesso na indústria cultural do país, as áreas de urbanização popular das periferias soteropolitanas desempenham um papel central na maior festa de rua do planeta: o Carnaval de Salvador (Serpa, 2007b).
Espaços públicos urbanos esvaziados nos bairros de classe média e abandonados ou inexistentes nas áreas de urbanização popular comprovam a disseminação também em Salvador de um estilo de vida que exclui a possibilidade do encontro e da emergência de uma esfera pública como espaço de expressão das sociabilidades urbanas e da mediação dos conflitos. Quando apropriados, esses espaços revelam-se como uma justaposição de territórios privatizados, onde não há nem encontros nem um espaço compartilhado por seres humanos iguais em sua diferença, mas, sobretudo, um espaço dividido entre os diferentes grupos de usuários. Conseqüentemente, a acessibilidade não é mais generalizada, mas limitada e controlada simbolicamente.
Falta interação entre esses territórios, percebidos (e utilizados) como uma maneira de neutralizar o "outro" em um espaço que é acessível a todos. Os usuários do espaço contribuem assim para a amplificação da esfera privada no espaço público, fazendo emergir uma sorte de estranhamento mútuo de territórios privados, expostos, no entanto, a uma visibilidade completa. Também na Salvador contemporânea, toda cultura da exposição pública é ao mesmo tempo uma cultura do desengajamento, pois o espaço público "neutraliza-se" do interior, através da percepção simultânea e constante das diferenças (Joseph, 1998).
Isso significa também, retomando as idéias de Arendt e Habermas, que, no espaço público soteropolitano, o comportamento e a norma substituem e, em alguns casos, eliminam totalmente a ação e a espontaneidade. O que resta são espaços de uso coletivo (quando de fato usados), esvaziados de sua dimensão lúdica e política, transformados em mercadorias, em tempos de consumo cultural e de requalificação urbana.
Referências
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* Professor associado do Departamento de Geografia da Universidade Federal da Bahia. Doutor em Geografia. Pesquisador do CNPq.
1 Baseando-se em um estudo de Armando Silva (1992), que aponta uma preferência da ordem de 78,9% entre os jovens paulistanos -sem distinções de classe social - por centros comerciais como locais de encontro, Yázigi (op. cit.) vai mais longe, vislumbrando o futuro dos shoppings como lugares da cultura urbana.