Crianças, adolescentes e crack

Simone Gonçalves de Assis · Capítulo 6 de 14 · parte 1/2

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Crianças, adolescentes e crack

3. A (des)atenção às crianças e adolescentes usuários de crack de Manaus

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

3 – A (des)atenção às crianças

 

e adolescentes usuários de

 

crack de Manaus

 

Patricia Constantino, Luciana Alencar Peixoto

 

Este capítulo tem como objetivo mapear as ações destinadas à

atenção a crianças e adolescentes usuários de crack ou cujos pais/responsáveis utilizam esta substância no município de Manaus, principal centro financeiro, corporativo e econômico da região Norte do Brasil. Serão apresentados dados socioeconômicos da cidade, destacando-se o uso de drogas no território. A institucionalização de crianças e adolescentes por uso de crack e/ou pelo uso de seus pais/responsáveis será aqui analisada, assim como a visão de gestores, profissionais das áreas da saúde, assistência social e justiça. Destacam-se também no capítulo a representação de adolescentes e mães de usuários sobre o consumo e seus efeitos e a avaliação das instituições e serviços destinados aos usuários de crack e seus familiares.

 

A cidade de Manaus

 

Manaus, capital do estado do Amazonas, é uma cidade portuária,

localizada no centro da maior floresta tropical do mundo. Situa-se na confluência dos rios Negro e Solimões. É uma das cidades brasileiras mais conhecidas mundialmente, principalmente pelo seu potencial turístico, o que faz do município o décimo maior destino de turistas no Brasil. Destaca-se pelo seu patrimônio arquitetônico e cultural, com numerosos templos, palácios, museus, teatros, bibliotecas e universidades.

É a cidade mais populosa do Amazonas e da Amazônia, com uma

população de 1.861.838 habitantes, de acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2012,

sendo também a 131 a metrópole mais populosa do mundo. Manaus aumentou gradativamente a sua participação no produto interno bruto (PIB) brasileiro nos últimos anos, passando a responder por 1,4% da economia do país. No ranking da revista América Economía, Manaus aparece como uma das 20 melhores cidades no ramo de negócios da América Latina, ficando à frente de capitais nacionais, como São Salvador, Caracas e La Paz.

Originalmente fundada em 1669 com o forte de São José do Rio

Negro, foi elevada à vila em 1832 com o nome de Manaus, em homenagem à nação indígena dos manaós, sendo legalmente transformada em cidade no dia 24 de outubro de 1848, com o nome de Cidade da Barra do Rio Negro. Somente em 1856 voltou a ter seu nome atual. Ficou conhecida no começo do século XX, na época áurea da borracha, quando foi batizada como “Coração da Amazônia’ e “Cidade da Floresta”. Atualmente seu principal motor econômico é o Polo Industrial de Manaus.

Sexta cidade mais rica do Brasil, Manaus possui a maior região

metropolitana do norte do país e a décima do Brasil, com 2.210.825 habitantes (IBGE, 2011). Apesar de sua relevância histórica, populacional e econômica, Manaus apresenta grandes disparidades intramunicipais.

 

O espaço urbano de Manaus, como a maioria dos municípios brasileiros, é

extremamente desigual, e a perversidade dessa desigualdade é que ela é

completamente explícita. Praticamente não existe barreira alguma (nem

mesmo ruas) que dividem esses espaços. Assim, realidades em

desenvolvimento humano só encontradas em países de terceiro mundo

convivem, lado a lado, com outras que, muitas vezes, ultrapassam os

parâmetros dos países mais desenvolvidos. Se são regiões desiguais em

renda, são mais ainda em indicadores sociais e principalmente educação.

(Amazonas, 2005)

 

Manaus ocupa o 850o lugar no ranking nacional do Índice de

Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM = 0,737 em 2010). Entre 2000 e 2010, o maior crescimento foi em educação (0,215), seguido por longevidade e renda. Em 2000, as Unidades de Desenvolvimento Humano (UDHs) de Manaus (81 unidades espaciais análogas aos bairros dentro do município) com IDH mais alto tinham o mesmo valor da Noruega, país com o mais alto índice segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Entretanto, as UDHs do município com os índices mais baixos aproximam-se do valor encontrado para a Bolívia.

 

Educação

 

Em Manaus, assim como no Amazonas e no Brasil, a dimensão

com o subíndice mais alto é educação. Um dos indicadores levados em conta no IDHM Educação é a taxa de analfabetismo das pessoas acima de 15 anos, entendendo-se por analfabeto aquele que se declara incapaz de ler e escrever um bilhete simples, conforme a definição para a pesquisa do Censo.

Observando inicialmente o percentual das pessoas de 15 anos e

mais, com menos de quatro anos completos de estudo, chamados analfabetos funcionais, nota-se que, enquanto o total de analfabetos do município de Manaus é de 6%, a taxa de analfabetismo funcional é quase três vezes maior, 17%, o que representa um contingente de 161 mil pessoas.

Em 63% das UDHs, as taxas são melhores ou iguais à taxa de

Manaus (17%), que, por sua vez, é o município do Amazonas com a taxa mais baixa. Contudo, em 14 UDHs, a taxa de analfabetismo funcional está acima de um quarto da população de 15 anos e mais.

Se o IDHM fosse calculado com as taxas de alfabetização

funcional, o índice de Manaus, como o de todas as suas UDHs, cairia de modo expressivo, principalmente naquelas em que o IDHM já era mais baixo. O número de UDHs na categoria médio-médio aumentaria (de 14 para 23 UDHs), diminuindo a participação das categorias médio-alto (de 44 para 41 UDHs) e alto (de 24 para 17 UDHs).

Quanto à taxa de analfabetismo fundamental da população adulta

(pessoas de 25 anos e mais que têm menos de oito anos de estudo), Manaus é o município com a melhor taxa do estado, que, porém, chega quase à metade de sua população adulta (49%). Em 53% das UDHs, o índice é ainda mais alto. Portanto, na maioria das UDHs, a taxa de analfabetismo fundamental corresponde a mais de 50% das respectivas populações adultas. Constituem um contingente de 303 mil pessoas, ou seja, superior ao triplo da população total do município de Parintins. Entretanto, constata-se uma queda do número de pessoas com mais de 15 anos analfabetas: em 1991, 8,5% da população com essa faixa etária não era alfabetizada. Esse número caiu para 5,6% em 2000 e 3,9% em 2010.

 

Mortalidade infantil

 

A taxa de mortalidade infantil em Manaus no ano de 2010 foi de

14,2 para cada 1.000 nascidos-vivos, menor que a do estado do Amazonas (17,1) e menor que a taxa nacional (16,7).

 

Renda

 

Em 2000, a renda familiar per capita de Manaus era de R$

262,40, o que o classificava na 864a posição entre todos os municípios brasileiros. Esse valor estava bem acima do verificado para o estado do Amazonas (R$ 173,92) e mais próximo à média encontrada para o país (R$ 297,23). A desigualdade social manifesta-se claramente: em 2000, as UDHs Nossa Senhora das Graças - Vieiralves, Adrianópolis e Flores - Parque das Laranjeiras tinham as maiores rendas per capita do município, R$ 1.356,87. Esse valor era 16 vezes maior que a menor renda per capita das UDHs Jorge Teixeira - Val Paraíso e Chico Mendes (R$ 86,00). Nesse ano, verificou-se também que 40% das UDHs apresentavam renda per capita menor que a média do estado do Amazonas, 62% menor que a média de Manaus e 70% menor que a média do Brasil.

Para o município de Manaus, a desigualdade aumentou, como

mostra a observação de qualquer um dos indicadores de desigualdade de renda considerados (Gini, Theil e relação 20/40). Considerando que o Brasil apresenta uma das piores desigualdades de renda do mundo, os indicadores de Manaus são praticamente iguais aos do país pelo Gini e pela relação 20/40. Em 2000, enquanto para o Brasil o Gini era de 0,65, e a relação 20/40 (quanto, em média, os 20% mais ricos ganham em relação aos 40% mais pobres) era de 21 vezes, em Manaus esses indicadores eram respectivamente de 0,64 e de 20 vezes.

Outra forma de abordar a questão da desigualdade na distribuição

de renda do município como um todo é por meio da apropriação da renda por estratos da população. Em 2000, 20% mais pobres da população apropriam-se de apenas 1,6% da renda gerada no município, os 20% mais ricos ficavam com 68%. Subdividindo esse grupo, observa-se que apenas os 10% mais ricos detinham mais da metade, ou 52%.

Tomando-se então a proporção de pobres, consideradas assim as

pessoas que vivem com menos de meio salário mínimo no ano 2000 (R$ 75,50), constata-se que eles representam uma proporção de mais de um terço da população de Manaus, um contingente de 445 mil pessoas; desse total, 209 mil podem ser consideradas indigentes (viviam com menos de um quarto do salário, R$ 37,75) – contingentes bem superiores à população total de qualquer um dos outros municípios do Amazonas.

Acrescenta-se a esse quadro da pobreza dois fatos: primeiro, ela

aumentou substancialmente durante a década de 1990, tendo passado de 24% em 1991 para 35% em 2000. Segundo, o percentual de indigentes dobrou durante esse mesmo período (8% para 17%).

Dados mais recentes sobre o Amazonas mostram que é o estado

com a 11ª menor renda domiciliar per capita do país (Censo Domiciliar 2000-2010, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE). O Censo Demográfico 2010 indica que, apesar de uma renda média de R$ 668,00, 25% das pessoas tinham rendimento médio nominal mensal domiciliar per capita de até R$188,00, e metade da população recebia até R$ 375,00, valor inferior ao salário mínimo em 2010 (R$ 510). Entre os municípios das capitais brasileiras, mantém-se a tendência histórica de melhores níveis de rendimento domiciliar per capita nos estados das regiões Sul e Sudeste. Os valores dos rendimentos domiciliares per capita médios de Manaus representavam em 2010, 40% do rendimento observado em Florianópolis. Tais informações indicam que, mesmo tendo havido mudanças sociais e econômicas no Brasil na última década, com redução das camadas mais pobres da população, a cidade de Manaus continua com padrão socioeconômico inferior ao observado em boa parte do país. Este quadro de forte desigualdade social ajuda a entender o frágil atendimento dispensado às crianças, adolescentes e famílias em situação de uso de crack, apresentado mais adiante.

 

Questões relativas às drogas lícitas e ilícitas

 

O V Levantamento sobre Consumo de Drogas Psicotrópicas entre

Estudantes do Ensino Fundamental e Médio, realizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid), em 27 capitais brasileiras (Gálduroz et al., 2005), mostra que 23,7% dos estudantes entrevistados em Manaus usaram drogas (excluindo álcool e tabaco) na vida. Importante notar que o percentual de Manaus é maior que a média das capitais da região Norte (21,6%) e maior do que a média brasileira (22,6%). Na região Norte, Manaus perde apenas para Boa Vista (27,6%). O uso na vida analisado por faixa etária apresenta Manaus com percentuais maiores que a média da região: 10-12 anos (13,6%); 13-15 anos (24,4%) e 16-18 anos (25,7%). O uso no ano aparece em 19,8% dos estudantes, novamente com percentual acima da média das capitais do Norte (18,2%) e da média nacional (19,6%). O uso no mês segue a mesma tendência: Manaus (15,8%) com o segundo percentual mais alto da região Norte, menor apenas que Boa Vista (17,3%), acima da média das capitais da região (13,8%) e da média nacional (14,8%). Já em relação ao uso frequente, a tendência muda e Manaus apresenta percentual similar à média da região Norte (2,4%) e menor que a média brasileira (3%).

Os dados levantados na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar

– Pense (2009) sobre o uso de drogas, tais como: maconha, cocaína, crack, cola, loló, lança perfume, ecstasy, evidenciam que 8,7% dos escolares já experimentaram alguma dessas substâncias ilícitas, sendo o maior percentual encontrado na capital Curitiba (13,2%) e o menor em Macapá (5,3%). Em Manaus o uso de drogas ilícitas na vida alcançou o percentual de 7,5%.

Um estudo realizado com estudantes universitários do Amazonas

(Lucas et al., 2006) mostra que as drogas psicotrópicas mais utilizadas foram as legais. O uso na vida de álcool foi relatado por 87,7% dos estudantes, não havendo diferença significativa entre o consumo por alunos do sexo feminino e masculino. O uso na vida de tabaco foi relatado por 30,7% dos estudantes, sendo maior entre estudantes do sexo masculino. Já entre as drogas psicotrópicas ilegais, as mais usadas na vida foram solventes (11,9%), maconha (9,4%), anfetamínicos (9,2%), cocaína (2,1%) e alucinógenos (1,2%). Também foi mencionado por 2,1% dos estudantes a utilização de esteroides e anabolizantes. As faixas etárias com as maiores proporções de uso inicial da droga foram as de: 16 a 18 anos para álcool e tabaco; acima de 18 anos para ansiolíticos, solventes, anfetamínicos e cocaína; e para maconha a propoção se dividiu igualmente entre essas duas faixas.

O Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas entre Crianças

e Adolescentes em Situação de Rua nas 27 Capitais Brasileiras, realizado pelo Cebrid e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mapeou em Manaus, em 2003, instituições que ofereciam assistência a crianças e adolescentes em situação de rua (Noto, 2003). Foram realizadas 234 entrevistas. Em relação às drogas utilizadas, o tabaco foi a droga com os maiores índices (62,1% no ano e 44,8% no mês), seguido pelas bebidas alcoólicas (59,1% no ano e 37,5% no mês). Entre os solventes/inalantes, predominou o uso da cola (29,3% no ano e 19% no mês). Em relação às drogas ilícitas, o consumo de cocaína e derivados apareceu com 10,8% no ano e 5,6% no mês. O uso de crack ocorreu em três casos (1,3%) no ano e em dois casos (0,9%) no mês.

O Relatório Brasileiro sobre Drogas (Brasil, 2009) analisou a

evolução do número de internações, para todas as faixas etárias, decorrentes do uso de drogas por 100.000 habitantes no período de 2001 a 2007. As menores taxas de internação foram observadas nas capitais da região Norte e variaram de 2,6 internações por 100.000 habitantes (Macapá) a 20,6/100.000 hab. (Rio Branco). Entre todas as capitais do país, apenas cinco apresentaram tendência de crescimento de internações: Manaus, Boa Vista, Fortaleza, João Pessoa e São Paulo. Uma análise sobre o número de leitos psiquiátricos no Sistema Único de Saúde (SUS) em hospital geral mostrou que em Manaus, em 2008, não havia nenhum leito disponível.

Em relação à mortalidade decorrente do uso de drogas, o relatório

aponta que as capitais com maior número absoluto de óbitos são: São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Manaus é a capital da região Norte que mais contribui para o total de óbitos. No período de 2001 a 2007, Manaus somou 197 óbitos em decorrência do uso de drogas, representando 2,1% dos óbitos do país por essa causa. Esse número perfaz 0,4% dos óbitos por todas as causas ocorridas no somatório dos anos (2001 a 2007). Esse percentual é igual à média da região Norte e muito próximo da média nacional (0,5%).

O documento sobre uso de drogas analisou ainda os crimes de

posse e ráfico de drogas. Em relação à posse de drogas para o consumo, o período analisado foi de 2004 a 2007. No estado do Amazonas foram registradas 739 ocorrências no somatório dos anos. Esse número corresponde a 21,3 ocorrências por 100.000 habitantes, número maior que a média da região Norte, que é de 16,4/100.000 hab. O número de ocorrências por esse delito no Amazonas correspondeu a 0,8% do total de crimes no período. Tal percentual foi o segundo mais alto da região Norte (perde apenas para Rondônia – 0,9%) e é maior que a média da região Norte (0,6%).

No que concerne ao tráfico de drogas, o estado do Amazonas

apresentou 954 ocorrências no período de 2001 a 2007. Esse número corresponde a 7,4 ocorrências por 100.000 habitantes, menor que a média da região Norte, que é 12,0/100.000 hab. O tráfico de drogas no Amazonas durante o período estudado correspondeu a 0,3% do total de crimes (menor que a média da região que representa 0,4%). No entanto, percebeu-se um aumento desse tipo de crime no ano de 2007.

Em Manaus, o número total de crimes de posse de drogas no

período correspondeu a 0,9%; no ano de 2007 essa relação foi a menor do período – 0,5%. O tráfico de drogas teve uma participação ainda menor: 0,3% do total de crimes do período – menor que a média das capitais do Norte (0,4%) e do Brasil (0,6%). A taxa de ocorrências por tráfico de drogas em Manaus é de 12,8 por 100.000 habitantes – bem menor que a média das capitais da região Norte (20,1/100.000 hab.) e a média nacional (25,3/100.000 hab.).

O Relatório Brasileiro sobre Drogas também analisou a apreensão

de drogas com base nos dados fornecidos pela Polícia Federal. No que diz respeito à cocaína e seus derivados, São Paulo se destaca das demais unidades da federação, apresentando maior quantidade capturada durante o período, mas alguns estados registraram apreensão significativa: Amazonas, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Goiás, Ceará e Minas Gerais com apreensão superior a 2.000 kg no somatório do período. O estado do Amazonas mostrou tendência de aumento, passando da apreensão de 347,7 kg em 2001 para 2.455,3 kg em 2007, configurando-se como os percentuais mais elevados da região Norte.

No Brasil observou-se um aumento acentuado na apreensão de

crack em 2007. Esse aumento ocorreu em todas as regiões exceto na região Norte. No Amazonas não foi registrado nenhuma captação de crack no período de 2001 a 2007. Em junho de 2010, noticiou-se o que seria a primeira apreensão de crack de Manaus.

Destacam-se na região, predominantemente no Amazonas, Pará

e Acre as apreensões de pasta base de cocaína. No estado do Amazonas foi confiscada a maior quantidade de pasta base no período de 2001 a 2007 (650,9 kg). É importante mencionar que em uma única operação em agosto de 2012, foram encontrados 180 kg

de pasta base em um barco em Manaus (acrítica.com, 10 ago. 2012).

O estado do Amazonas conforma uma dupla fronteira tríplice do

limite internacional do Brasil com Venezuela e Colômbia, e do Brasil com Colômbia e Peru. De acordo com o superintendente da Polícia Federal do Amazonas, Sérgio Fontes, na chamada borda fronteiriça, encontram-se as três principais cidades que participam da rota internacional de tráfico de entorpecentes: Tabatinga e Tefé (no Alto e Médio Solimões) e São Gabriel da Cachoeira (no rio Negro). A droga proveniente da Colômbia é trazida por traficantes, que se estabelecem nas cidades de Tabatinga e Letícia e é geralmente enviada a Manaus por barco. Quando a pasta base e/ou a maconha chegam à cidade, é processada para ser distribuída ao restante do país.

 

Mapeamento das instituições de

 

atenção às questões relacionadas so

 

consumo de álcool e outras drogas

 

O Relatório Brasileiro sobre Drogas (Brasil, 2009) apresenta as

instituições governamentais e não governamentais destinadas ao atendimento de pessoas com problemas referentes ao uso de substâncias legais e ilegais, mapeadas pela Secretaria Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas em 2006/2007. No estado do Amazonas estão, segundo o mapeamento, 241 instituições, o que corresponde a 2,7% do número total do país. Na região Norte localizam-se 9% das instituições e na Centro-Oeste estão apenas 5%. No Sudeste está a maioria das unidades (47%). As regiões Sul (19%) e Nordeste (20%) apresentam valores intermediários.

Segundo o mesmo relatório, a maior parte das instituições do país

tem como projeto a autoajuda (6.367 instituições – 70% do total das entidades mapeadas). Nos estados do Norte e Nordeste registram-se os maiores percentuais de instituições com foco na autoajuda que se pautam nos fundamentos do Programa de Recuperação de Alcoólicos Anônimos (AA). Importa salientar que a região Norte apresenta a menor porcentagem de instituições com atividades de prevenção (5%), tem poucas unidades para tratamento que realizam atividades de ensino e pesquisa, além de possuir menor número de Programas de Redução de Danos Sociais e da Saúde, em comparação com as outras regiões brasileiras. Nota-se, portanto, a evidente fragilidade do atendimento para usuários de drogas nessa região.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2011) avaliou seis

Comunidades Terapêuticas em Manaus. Em 2010, cinco delas recebiam adolescentes, no entanto, somente uma atendia exclusivamente adolescentes: o Sítio Esther, que recebia meninas de 12 a 18 anos. Todas as outras atendiam homens a partir de 15 anos de idade. Apenas duas comunidades tinham o título de utilidade pública municipal e/ou estadual, quatro unidades mantinham convênio com a Secretaria Estadual de Assistência Social e uma alegou estar conveniada também com a Secretaria de Saúde. Todas as comunidades eram de origem religiosa.

O CFP encontrou inúmeras irregularidades em todas as unidades,

entre elas o desrespeito às crenças religiosas e o uso de mão de obra não remunerada. A fragilidade do atendimento técnico também foi apontada: duas delas não tinham equipe técnica e nas demais o atendimento era pontual, apenas com uma visita semanal. Nas quatro comunidades que atendiam adolescentes e adultos, não havia espaço exclusivo para os adolescentes e as atividades escolares não eram garantidas. Em três delas havia indícios de internação compulsória. A metodologia dos Doze Passos, utilizada no AA, estava presente em todas as unidades.

Das seis comunidades visitadas pelo CFP, uma havia sido

fechada em 2011 (no momento do trabalho de campo da pesquisa) e apenas a que atendia jovens continuava aceitando essa clientela. A seguir apresenta-se uma descrição de uma comunidade que recebeu a avaliação do CFP e que foi visitada na pesquisa em foco.

 

A comunidade pertence à Sociedade Beneficente Cristã do Amazonas;

possui convênio com a Secretaria Estadual de Assistência Social; possui

voluntários que desenvolvem atividades no local; valor pago mensalmente

pode chegar até R$ 700,00; há recebimento de doações de alimentos. Tem

como proposta de cuidado o Programa “Amor Exigente” e o livro Código da

Inteligência, de Augusto Cury; não foi identificada articulação estruturada com

Políticas de Assistência Social, mesmo tendo convênio com a SEAS

[Secretaria Estadual de Assistência Social]; usuários desempenham

atividades laborais, dividindo-se em equipes para os cuidados com a horta,

com os animais que são criados no local, com a casa e o preparo dos

alimentos; quando as regras da comunidade são desobedecidas, há a

tentativa de sensibilização por meio do diálogo, mas é prevista a suspensão

de atividades de lazer e o aumento de algumas das atividades laborais;

atendimento psicológico não é oferecido. A avaliação do CFP aponta

condições indignas de assistência (os quartos não possuem janelas e, com

isso, não há iluminação natural nem ventilação adequada, higienização

inadequada); uso de mão de obra não remunerada e metodologia de cuidado

contrária às normas do Ministério da Saúde; desrespeito à escolha ou

ausência de credo; apropriação indébita de documentos; medicamentos

armazenados em caixa, guardada nos pertences do responsável pela

unidade; a estrutura física da entidade apresenta condições precárias de

funcionamento. As pessoas internadas relataram que dormem em redes,

camas e até em colchões no chão, pois não há camas para todos; internos

reclamam da falta de acompanhamento psicológico e de acompanhamento

médico. Não há equipe de saúde (médicos, farmacêuticos, enfermeiros e/ou

técnicos de enfermagem); durante a internação, os internos não têm acesso a

seus documentos de identificação (RG, CPF, etc.), que ficam em poder da

instituição no escritório central, em Manaus; somente os familiares podem

visitar os usuários, quinzenalmente; indícios de situações de constrangimento

e vexatórias: homossexual saiu da instituição por pressão do pastor

responsável. (CFP, 2011)

 

É importante registrar que, em visita realizada por nossa equipe

durante a pesquisa à comunidade descrita, algumas mudanças foram percebidas: o atendimento psicológico que era inexistente passou a acontecer uma vez por semana; um pequeno prédio estava sendo construído para atender exclusivamente os adolescentes e a estrutura física estava muito bem cuidada, inclusive a dos dormitórios. No entanto, algumas irregularidades apontadas pelo CFP puderam ser confirmadas na fala do adolescente entrevistado: ausência de atividades escolares e comunitárias e fragilidade do atendimento médico.

A rede de atenção ao uso de álcool e outras drogas no SUS

também foi mapeada no Relatório Brasileiro de Drogas. Em 2009, o Brasil contava com 57% de cobertura dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Em 17 estados brasileiros a cobertura Caps foi considerada boa ou muito boa, e apenas o estado do Amazonas apresenta cobertura insuficiente ou crítica. O indicador por região revela que a cobertura da região Sul é muito boa (76%); do Nordeste (68%) e Sudeste é boa (50%); do Centro-Oeste é regular/baixa (44%) e do Norte é baixa (35%). Já em dezembro de 2012, o estado do Amazonas contava com cinco Caps I, quatro Caps II e um Caps III. Tinha apenas um Caps i e não havia nenhum Caps ad. Destes, apenas dois Caps I e o Caps i estão localizados em Manaus. Na capital não há leitos psiquiátricos em hospitais gerais. Pode-se, desde já, depreender a escassez de serviços para atender os usuários de drogas da cidade.

Relatam-se no documento as seguintes unidades de saúde em

Manaus, distribuídas nos distritos de saúde: saúde da família (167 polos); unidades básicas de saúde (52); policlínicas (9); saúde rural (21 polos); centro de especialidade odontológica (5); hospitais (32); leitos hospitalares (3.175); leitos clínicos (964); leitos obstétricos (675); leitos pediátricos (549); leitos cirúrgicos (987); Caps I (2); Caps i (1), inaugurado em dezembro de 2012, voltado para o atendimento exclusivo de crianças e adolescentes (até 16 anos) portadores de transtornos mentais graves e persistentes, ou usuários de crack, álcool e outras drogas. Há diferente distribuição de serviços entre os distritos de saúde da cidade.

Algumas ações relacionadas ao uso de crack começaram a ser

desenvolvidas em 2012. A Secretaria Municipal de Saúde promoveu, no segundo semestre desse ano, um curso de capacitação para os médicos da Estratégia Saúde da Família:

 

Como parte das ações que estão sendo executadas pela Prefeitura de

Manaus para estruturar a rede de atendimento aos dependentes químicos (de

crack, álcool e outras drogas), a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa)

promove (...) um curso de aperfeiçoamento, voltado para médicos que atuam

na Estratégia Saúde da Família. O curso será realizado por meio de parceria

da Semsa com o Centro Regional de Referência na Formação Permanente

para o Atendimento aos Usuários de Crack e Outras Drogas do Estado do

Amazonas (CRRFP-AM/Ufam) e Conselho Estadual de Políticas sobre

Drogas, da Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos (Sejus). O

secretário municipal de Saúde, Francisco Deodato, afirma que a capacitação

e a sensibilização dos profissionais da Estratégia Saúde da Família,

considerada a principal porta de entrada da Atenção Primária, no SUS, é de

fundamental importância no processo de organização da rede de atendimento

aos dependentes químicos. (www.manaus.am.gov.br)

 

Na área da assistência social, são relatadas as seguintes

unidades que, em tese, poderiam atender a clientela dos usuários de drogas: 18 Centros de Referência de Assistência Social (Cras), dois Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), oito Serviços de Acolhimento Institucional (SAIs) e um Serviço de Acolhimento Institucional Emergencial (SAIE).

O estado do Amazonas conta com o Centro Regional de

Referência na Formação Permanente para o Atendimento aos Usuários de Crack e Outras Drogas do Estado do Amazonas (CRRFP-AM/Ufam) e com o Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas, da Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos (Sejus).

Em fevereiro de 2013, o governo do Amazonas e a Prefeitura de

Manaus iniciaram o processo de adesão ao programa federal Crack, É Possível Vencer. De acordo com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), dos 62 municípios do Amazonas, em 35 deles foi constatado o uso da droga em 2012. O programa tem objetivo de prevenir o consumo de drogas, realizar tratamento médico, combater o tráfico e reabilitação social. A meta proposta era implantar as ações na capital em 2013.

 

Os serviços de acolhimento

 

institucional e as crianças e

 

adolescentes usuários de crack

 

acolhidos e suas famílias

 

A pesquisa apresentada neste capítulo, cuja metodologia está

detalhada no Anexo, englobou uma abordagem quantitativa, com a aplicação de questionários nos oito SAIs existentes na cidade, respondidos pelos gestores, versando sobre a atuação dos serviços. Nesses locais, foram ainda preenchidos instrumentos a partir de dados de prontuários das sete crianças ou adolescentes com uso pessoal ou familiar de crack.

O estudo contou também com abordagem qualitativa, por meio da

realização de dez entrevistas com profissionais da Secretaria Estadual de Assistência Social, Secretaria Municipal de Saúde da área da Saúde Mental, programa Portas Abertas da Secretaria Municipal de Assistência Social, Comunidade Terapêutica, Creas, Conselho Estadual de Entorpecentes do Amazonas (Conen), Fiocruz Manaus, Conselho Tutelar e Promotoria da Vara da Infância e Juventude. Também foram entrevistados três adolescentes em programa para população de rua e em Comunidade Terapêutica e dois familiares de crianças e adolescentes que usam crack.

Todos os SAIs investigados atendem crianças, mas apenas seis

tinham adolescentes acolhidos. Como se pode constatar na Tabela

1, em apenas um serviço, no momento da entrevista, havia criança com uso de drogas e em dois havia adolescentes. A presença de adolescentes que usam crack foi mencionada por apenas dois serviços. Constatou-se um número maior de pais/responsáveis usuários de drogas em geral, porém o consumo de crack pelos responsáveis foi relatado por apenas um serviço.

 

Tabela 1 – Serviços de Acolhimento Institucional que atendem

crianças e adolescentes e seus responsáveis com história de uso de

crack e outras drogas. Manaus – dezembro 2011*

Consumo de drogas SAIs que SAIs que

atendem atendem crianças adolescentes

(N=8) (N=6)

N % N %

 

Uso de drogas em 1 12,5 2 33,3 geral pela criança ou

adolescente

 

Uso de crack pela 0 - 1 16,7 criança ou

adolescente

 

Responsáveis com 7 87,5 4 66,7 história de uso de

drogas em geral

 

Responsáveis com 0** - 1 16,7 história de uso de

crack

* Informação dada pelo gestor do serviço.

** Dois SAIs não informaram.

Para verificar o número de crianças, adolescentes e seus

responsáveis que utilizam crack nos serviços apresentados, é

necessário observar a Tabela 2. Constata-se que existem 282 crianças e adolescentes acolhidos nos oito SAIs visitados: 147 crianças e 135 adolescentes. O uso de variadas drogas foi mencionado para 2,7% das crianças e 7,4% dos adolescentes. O consumo de crack só foi apontado para dois adolescentes. Entre os responsáveis de crianças, a utilização de drogas em geral aparece com maior frequência (13,6%) do que entre adolescentes (5,2%). Responsáveis usuários de crack só foram informados para dois adolescentes.

 

Tabela 2 – Uso de uso de crack e outras drogas por crianças e

adolescentes em Serviços de Acolhimento Institucional e por seus

responsáveis. Manaus – dezembro 2011

Consumo de drogas Crianças Adolescentes Total

N=147 N=135 N=282

N % N % N %

 

Uso de drogas em geral 4 2,7 10 7,4 14 5,0 pela criança ou

adolescente

 

Uso de crack pela 0 0,0 2 1,5 2 0,7 criança ou adolescente

 

Responsáveis com 20 13,6 7 5,2 27 9,6 história de uso de

drogas em geral

 

Responsáveis com 0 0,0 2 1,5 2 0,7 história de uso de crack

 

A baixa frequência de adolescentes usuários de crack (dois) nos

SAIs e de seus responsáveis também consumidores desta substância (dois) nas oito unidades visitadas não nos permitiu a realização de entrevistas no momento da visita ao serviço de acolhimento. Em todos os serviços constatamos dois discursos unânimes: o crack não se configura como um problema em Manaus; e o segundo, relacionado ao primeiro, não há nenhuma ação voltada para o atendimento a crianças e adolescentes usuários de crack na cidade. Outra fala muito presente é que crianças e adolescentes com esse perfil não são encaminhados para os SAIs, apesar de termos encontrado alguns poucos casos nessas unidades. O oxi, na opinião dos entrevistados, é mais presente do que o crack, mas a droga predominante no município é a pasta base de cocaína (merla ou mel).

Ainda mais surpreendente foi a afirmação de que o uso de drogas

por crianças e adolescentes é pouco expressivo e por esse motivo não é uma prioridade das instâncias públicas. Alguns informantes identificaram um pequeno grupo de crianças/adolescentes que fazia uso de drogas embaixo de uma ponte da cidade, reconhecidos como “os meninos da ponte”. Eventualmente esses jovens dão entrada no SAIE e são encaminhadas ao Projeto Criança Cidadã. Por ser um grupo pequeno, as instituições os conheçem nominalmente e também suas histórias. É interessante como a questão do consumo de drogas por crianças e adolescentes no município, na fala dos profissionais da rede, se restringe a essa parcela da população. Em consonância com essa informação, percebe-se a visão de que em Manaus não há um número significativo de crianças e adolescentes em situação de rua.

 

Caracterização e funcionamento dos serviços de

 

acolhimento

 

Todos os oito SAIs visitados já funcionam há vários anos: a maior

parte tem entre oito e 16 anos de atividades e o mais antigo existe há mais de 25 anos. Seis deles são em formato de abrigo tradicional, um em Casa Lar em aldeia e outro em casa de passagem. Um dos abrigos funciona acoplado a um centro social aberto à comunidade e atende adolescentes que necessitam cumprir medidas socioeducativas em meio aberto. Todos os serviços são organizações não governamentais, apenas o SAIE é uma unidade pública municipal. Funciona na modalidade casa de passagem. Anteriormente denominada Central de Resgate, recebia crianças em qualquer situação de vulnerabilidade e risco social, inclusive em situação de rua e drogadição. No momento da pesquisa atendia crianças e adolescentes de 0-17 anos, vítimas de maus-tratos, negligência, abandono, violência física, psicológica e sexual, exploração do trabalho infantil e sexual, retirando-os da situação de risco e encaminhando-os aos programas sociais e à rede de proteção. Cinco SAIs têm orientação religiosa: dois católicos, dois evangélicos e um espírita.

O atendimento oferecido às crianças e adolescentes em situação

de risco social está voltado para algumas clientelas mais específicas: seis SAIs recebem população de rua e ameaçados de morte; cinco atendem os que têm transtornos mentais; três, os portadores de doenças infectocontagiosas; e apenas dois recebem crianças e adolescentes com uso de crack e outras drogas. Importante pontuar uma contradição: na pesquisa qualitativa, todas as instituições foram unânimes em afirmar que, quando há informação de que a criança/adolescente é usuário de drogas, o encaminhamento é feito para a Secretaria Estadual de Assistência Social e que nenhum SAI acolhe criança/adolescente com esse histórico.

Todos os SAIs têm assistentes sociais na equipe e em sete deles

se agregam psicólogos. Fisioterapeutas, enfermeiros, pedagogos, sociólogos, educadores, dentistas e estagiários integram as equipes de seis serviços.

É declarada pelos gestores a precariedade de capacitação das

equipes dos SAIs para lidar com crianças e jovens usuários de substâncias psicoativas: a existência de capacitação no que diz respeito ao crack foi mencionada por apenas três serviços. Chama atenção o fato de a equipe técnica, que deveria estar preparada para lidar diretamente com essa população infantojuvenil, não estar capacitada para questões relativas ao uso de drogas: apenas três técnicos foram qualificados em dois serviços. A realidade é similar, ou ainda mais precária, entre os demais profissionais que atuam nos SAIs, principalmente quando se refere aos cuidadores (apenas um capacitado). Três pessoas em funções de direção/coordenação e uma de administração relataram tal estratégia formativa em dois serviços.

Esse quadro pôde ser constatado na visita aos serviços durante a

coleta de dados da pesquisa. Presenciamos em uma instituição destinada à população infantojuvenil em situação de rua uma cena em que um adolescente drogado escalou um poste localizado no pátio da unidade e começou a insultar a equipe e os demais adolescentes. Em resposta, todos os profissionais se trancaram em uma sala e acionaram a polícia. A psicóloga relacionou a falta de manejo em situações decorrentes do uso de substâncias à ausência de capacitação, a “não saber fazer de outra forma”. A profissional declarou que ninguém da equipe tem formação para lidar com a problemática da dependência química e que estavam naquele momento buscando parcerias para cursos. Na sua visão, trabalhar com o adolescente usuário de drogas já é um grande desafio e se torna uma tarefa titânica quando não se está qualificado para o trabalho.

 

O maior desafio é lidar com a dependência química. Você não sabe o que

esse menino [referindo-se à cena descrita] usou lá fora. Eles misturam: pasta

base, maconha, crack, cocaína. Esta mistura causa uma pane no organismo.

Então a nossa maior dificuldade é que nós não temos ninguém da saúde que

possa nos dar um auxílio nessa parte. Já aconteceu do menino surtar por

problemas de drogas e nós não sabemos o que fazer. (psicóloga – SAI)

 

A falta de recursos teóricos e práticos para lidar com o

adolescente dependente químico favorece a leitura de que as situações do cotidiano são exclusivamente “caso de polícia”:

 

Eles chegam agressivos, acham que nós estamos aqui para trabalhar para

eles, eles lidam dessa forma. Aí começam a quebrar tudo. Tanto é que temos

essas barras na janela. É a única forma de contê-los e aí chamamos a polícia

para nos ajudar, mas muitas vezes ela não vem. (psicóloga – SAI)

 

É preocupante a visão da psicóloga, que não é capaz de

mensurar que o objetivo final de sua ação é trabalhar para e pelo adolescente, assim como a falta de apoio da assistência social, aos profissionais que ali atuam e aos acolhidos que usam drogas, e do setor Saúde.

Perfil de crianças, adolescentes e famílias

 

usuárias de crack em serviços de acolhimento

 

Como visto anteriormente, entre as 282 crianças e adolescentes

presentes nos SAIs durante a pesquisa, o uso de crack só foi referenciado pelos gestores para dois adolescentes e dois responsáveis. Todavia, sete crianças e adolescentes foram reconhecidos pela equipe técnica como usuários de crack e tiveram questionários individuais preenchidos. Esse fato mostra a maior proximidade dos técnicos em relação aos acolhidos e suas famílias, bem como a falta de informações fidedignas sobre a real frequência da droga pelos serviços de acolhimento.

Alguns dados desses sete acolhidos com história pessoal de uso

de crack ou seus responsáveis são apresentados a seguir: quatro eram crianças (6, 9, 10 e 11 anos de idade) e três, adolescentes (13, 14 e 17 anos); cinco eram meninas; todas as crianças frequentavam a escola (ensino fundamental), mas os três adolescentes não o faziam; quatro moravam com um usuário de crack/outras drogas nos últimos 30 dias antes do acolhimento; seis apresentavam algum problema de saúde: três com comportamento agressivo, igual número com comportamento depressivo ou ansioso, um com desatenção/hiperatividade e um com transtorno psicótico. Outros problemas mencionados sobre quatro acolhidos foram: crise convulsiva, doença sexualmente transmissível, comportamento “frio e maquiavélico”; e cinco têm trajetória de rua.

Em relação aos dados sobre o acolhimento, entre as sete

crianças/adolescentes identificados pelos técnicos como usuários de crack, tem-se o seguinte tempo de institucionalização no serviço no momento da pesquisa: dois estavam de dois a cinco meses no SAI visitado, dois há um ano, dois há dois anos e um há quatro anos. Apenas cinco acolhidos tinham procedimento administrativo na Vara da Infância e Juventude, como, por exemplo, pasta especial ou processo; o uso do crack consta de documentos de quatro crianças/adolescentes.

O motivo de ingresso no SAI deveu-se especialmente ao uso de

drogas legais e ilegais pelos responsáveis (seis acolhidos, especialmente crianças), configurando um ciclo em que o uso dessas substâncias se perpetua nas famílias. Negligência na família, vivência de rua e carência de recursos materiais são causas mencionadas em prontuários de cinco crianças/adolescentes. Vale destacar que, na visão dos profissionais entrevistados, todos esses fatos podem estar relacionados à carência de recursos financeiros da família, e que tal população não deveria recorrer ao acolhimento institucional, considerando-se as políticas públicas redistributivas hoje existentes. Outras formas de violência são causas frequentes de ingresso nos SAIs: doméstica de natureza psicológica (quatro acolhidos); física (três); abuso (dois) e exploração sexual (um); prostituição e pornografia (um); abandono pelos pais ou responsáveis (três); e violência extrafamiliar (um). Contribuíram ainda como motivos para o acolhimento a exploração no trabalho ou mendicância (três), a entrega voluntária da criança/adolescente pela família de origem (três), a ausência dos pais ou responsáveis por prisão (dois), pais ou responsáveis com problemas psiquiátricos/psicológicos (dois), uso e/ou abuso de substâncias por parte da criança ou adolescente (um).

Quatro acolhidos com história relacionada ao uso de drogas/crack

já haviam sido abrigados anteriormente na mesma instituição ou em outro SAI, evidenciando uma circularidade nos processos de internação.

As crianças e os adolescentes chegaram ao SAI encaminhadas

pelo Poder Judiciário (dois), Conselho Tutelar (dois), família (dois) e por outros serviços de acolhimento (um). Nenhum deles foi encaminhado para tratamento de saúde devido ao consumo de crack; apenas um responsável foi orientado nesse sentido pelo SAI. Tais dados reiteram a precariedade dos cuidados em saúde para os dependentes de substâncias no cenário municipal.

No que se refere à situação legal da criança ou adolescente

usuário de drogas, ou dos responsáveis que utilizam drogas, constata-se a precária possibilidade de adoção. Nenhuma criança ou adolescente acolhido nessa situação estava legalmente encaminhado para adoção (aguardando colocação); nenhuma estava em processo de colocação para adoção, ou seja, iniciando a aproximação com adotantes; e nenhuma tinha a destituição do poder familiar concluída. Isso significa que não havia crianças e adolescentes usuários de drogas, ou responsáveis que utilizavam drogas, que preenchessem critérios para a condição legal de adoção na cidade de Manaus. A situação legal das sete crianças mencionadas era a seguinte: três em fase de avaliação/preparação para reintegração/retorno ao convívio com os responsáveis; seis com suspensão do poder familiar; uma com a destituição do poder familiar em tramitação; uma em processo tramitando de guarda/tutela ou com sentença pendente de recurso. É importante ressaltar que cada acolhido podia ter mais de um procedimento em andamento. Nenhum adolescente envolvido com o uso de drogas/crack estava em cumprimento de medida socioeducativa.

Todos os acolhidos tinham família morando na cidade de Manaus,

a maioria com vínculo durante o período de acolhimento (cinco). Em dois casos não havia mais vínculo familiar e em um deles havia impedimento judicial de contato. Os irmãos eram os familiares que mais os visitavam, seguidos por ambos os pais.

 

Adolescentes usuários entrevistados

 

Raíssa

 

Raíssa tinha 14 anos e frequentava um programa voltado para a

população em situação de rua. Morava na rua desde os 10 anos de idade e considerou estar nessa situação porque trabalhava com a mãe na feira e “acostumou” com esse espaço. Desde que foi para a rua parou de estudar, tendo concluído o 5º ano do ensino fundamental. Consumia todas as drogas, incluindo oxi e crack. Iniciou o uso de drogas aos 11 anos, após a ida para a rua e usava crack há um ano. Afirmou não ter ninguém da família usuário de drogas. Estava grávida de três meses e declarou que durante o tempo que esteve na rua foi levada uma única vez para a antiga Central de Resgate (hoje SAIE) e seu pai foi buscá-la. Logo retornou para a rua. Disse que não teve acesso a nenhuma outra instituição da assistência ou da saúde. A jovem demonstrou pouca capacidade de analisar os efeitos da droga em sua vida. Mencionou apenas que tinha “dificuldade de respirar” e relacionou o fato ao consumo de crack, mas nunca tinha ido ao médico em decorrência do uso de drogas. Não queria pensar nem falar sobre uso de drogas, apenas relatava sentir medo quando usa o crack. Não conseguia qualificar esse medo, mas disse gostar da sensação. Para consumir drogas praticava furtos e assaltos com uso de gilete. A jovem tinha um porte franzino e parecia frágil. Havia uma ruptura do vínculo familiar e relatou que a instituição estava buscando a aproximação e o restabelecimento desse vínculo.

 

Fernando

 

Com 16 anos, Fernando também foi entrevistado no programa

dirigido para população em situação de rua, onde morava desde os 9 anos de idade. Disse que “escolheu” a rua devido a brigas constantes na família, que é bastante numerosa. Até a sua saída definitiva de casa foram 12 tentativas de fuga: “Eu ficava igual passarinho solto. Gostava do vento na cara, de passear por Manaus”. Parou de estudar no 6º ano. Iniciou-se nas drogas aos 10 anos com uso de tabaco e logo depois passou a consumir outras drogas na seguinte ordem: cola, maconha, mel e cocaína. Não usava crack. Considerava o crack como o “fundo do poço”. Disse ter um irmão usuário de drogas. Apesar de sua trajetória de rua, alegou que nunca tinha roubado e que trabalhava diariamente para manter o seu uso, indo de encontro ao imaginário social do jovem nessa situação como um criminoso em potencial: “Eu sou um homem trabalhador”. Nesse sentido, buscou se diferenciar dos demais: “O usuário é aquele que trabalha para consumir a sua droga, para ter o dinheiro para consumir a sua droga. O viciado é aquele que faz de tudo: rouba, mata, faz o possível para ter a droga dele”.

Afirmou ter responsabilidade como usuário e essa, segundo ele,

talvez seja a explicação para nunca ter se envolvido com o crack. Fernando relatou que a população de Manaus fazia justiça com as próprias mãos e, se pegasse um jovem roubando, linchava até matar.

Esse jovem se orgulhava de manter valores familiares apesar de

morar há tanto tempo nas ruas. Nunca tinha usado drogas em espaços onde pudesse ser visto por moradores, pois achava desrespeitoso; preferia fazer uso sozinho em espaços privativos; criticava a postura dos demais moradores de rua que sujavam a cidade, tomavam banho em chafariz público etc. Sentia-se envergonhado em pedir dinheiro e sempre oferecia algum serviço em troca. Em relação aos cuidados com a saúde, afirmou que todo mês ia ao posto de saúde próximo onde dormia para pegar preservativos. Demonstrou preocupação com a aparência física e a saúde.

Em relação aos efeitos das drogas, Fernando fez um relato

comovente, destacando a perda da alegria:

 

Só sabia ser alegre quando eu estava usando droga, mas se eu estava sem

ela eu ficava muito triste. Eu ficava assim sentado no meio fio e via aquele

casal de adolescentes passar assim na minha frente todo bem arrumado,

cheiroso, com dinheiro no bolso. Me dava um aperto no coração porque era

um adolescente como eu, e eu ali jogado no chão, sentado na sarjeta. Todo

mundo se alegra e eu não. Nem namorada eu podia ter.

 

Comentou ter emagrecido bastante e perdido músculos. Segundo

o jovem, a droga “acabou com o pulmão”. Disse ter epilepsia e já ter sido levado ao hospital em decorrência de ter sofrido convulsão na rua. Foi pego pela Central de Resgate várias vezes e ficou em abrigos. Em relação à Central, explicou que o procedimento é retirar o adolescente da rua e levar para a instituição. Lá eles identificam o endereço e fazem uma busca ativa da família com o adolescente. Caso a família por algum motivo não aceitar o jovem, ele é encaminhado a um serviço de acolhimento.

Fernando chegou ao programa levado por outro adolescente de

rua e, em sua avaliação, a unidade o ajudou a restabelecer o vínculo familiar.

 

Tadeu

 

Tadeu tinha 17 anos, é natural do Paraná e residia há dois anos

com o pai na divisa entre o Amazonas e a Bolívia. A mãe e os irmãos moravam no Paraná. A entrevista aconteceu em uma Comunidade Terapêutica. O adolescente afirmou que a transição do Paraná para o Amazonas foi a “sua desgraça”. Em uma cidade do interior do Amazonas, onde morava na fazenda do pai, conheceu todos os tipos de droga, incluindo o crack, de que fazia uso havia um ano. No Paraná estava no 2º ano do ensino médio e disse que “era outra pessoa”. Ninguém da família era usuário de drogas. Já trabalhou em uma eletrônica no Paraná e na fazenda ajudava o pai com o gado.

Ao chegar ao Amazonas foi apresentado a todas as drogas.

Iniciou pelo uso da maconha e logo depois passou a consumir cocaína e por último o crack. Disse que a mudança em sua vida, depois do “primeiro trago” do crack foi devastadora. Após a experimentação, já se sentia dependente: “Tinha que consumir no mínimo cinco gramas. Isso significa fumar dia e noite”. Tadeu foi bastante didático ao apresentar os efeitos da droga e a sua compulsão pelo uso:

 

Você fuma e bate aquela onda por no máximo dez minutos e você quer de

novo. Você fuma até passar mal. De dez em dez minutos você precisa fumar,

porque eu começava a ficar depressivo. Faltava alguma coisa em mim, para

meu organismo funcionar. Gastava duzentos reais por dia em pedra. Quando

fumava completava esse vazio, eu me sentia bem.

 

Perguntado como se sentia quando estava consumindo, ele

demonstrou uma aparente contradição:

 

Sei lá! Dá um sentimento de alegria e por outro lado dá um sentimento de

desespero e de perseguição. Você acha que tem alguém te perseguindo. É

uma coisa que você fuma e sente medo, só que depois você quer sentir isso

de novo. Você gosta daquela sensação de perseguição, não consegue mais

viver sem esse sentimento.

 

Tadeu não tinha histórico de rua, mas comentou que muitas vezes

Continuar: parte 2 de 2