Crianças, adolescentes e crack
6. O município do Rio de Janeiro e o crack
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
6 – O município do Rio de
Janeiro e o crack
Andrea Machado Iannelli, Simone Gonçalves de Assis
Este capítulo apresenta informações sobre a presença do crack
na vida de crianças e adolescentes que moram no município do Rio de Janeiro (RJ), bem como fornece dados de seus pais ou responsáveis também consumidores dessa substância. Aborda ainda a magnitude do uso de crack entre crianças em Serviços de Acolhimento Institucional (SAIs) do município, a rede socioassistencial voltada para o atendimento aos usuários da substância e algumas propostas de enfrentamento do problema.
O crack e o município do Rio de
Janeiro
O Rio de Janeiro é a segunda maior metrópole do Brasil – com
6.320.446 habitantes em 2010 (IBGE, 2013) –, menor apenas que a cidade de São Paulo. Principal destino turístico na América Latina, foi transformada em Patrimônio Cultural da Humanidade em 2012 (Unesco, 2012).
Existe na cidade significativo contingente de habitantes de outros
estados, em especial de nordestinos que migraram com intuito de obter melhores condições de vida e de trabalho, especialmente entre 1960 e 1980 (IBGE, 2000). Há também parcela significativa da população que vive na pobreza, em aglomerados urbanos construídos sobre encostas de morros, onde as condições básicas de vida – moradia, saúde, educação e segurança pública – são precárias. Segundo o Censo de 2010, 19,9% dos domicílios na cidade do Rio de Janeiro encontram-se em favelas (IBGE, 2011).
No que tange à cocaína, até o início do século XX no Brasil não
havia relato sobre abuso e dependência dessa droga. A substância era vendida em farmácias com indicação para laringite e tosse. Entretanto, entre 1910 e 1920, o alvo da preocupação passou a ser o uso não prescrito em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. O país não é um produtor de cocaína, mas faz parte da rota colombiana do tráfico para os Estados Unidos e Europa (Carlini et al., 1995). O crack entrou no Rio de Janeiro apenas nos anos 2000, mais tardiamente se comparado ao município de São Paulo, pois as facções responsáveis pelo tráfico de drogas na cidade recusavam-se a produzi-lo e vendê-lo, optando pela cocaína para ser cheirada ou fumada (Dowdney, 2002).
Com a entrada da cocaína no início dos anos 1980 na cidade, a
comercialização de drogas se intensificou sob o poder de traficantes, que se organizavam em facções fortemente armadas que disputavam entre si, com repercussões negativas nas comunidades. Eles passaram a ser figuras constantes nessas localidades, sem respeito aos moradores, atraíam um contingente grande de jovens e criavam um ambiente de elevada vulnerabilidade, especialmente para as crianças (Dowdney, 2002). Tal quadro ainda persiste, acentuado pelo amplo acesso a armas de fogo e a variadas drogas, que chegam à cidade pelas rodovias, portos, aeroportos, e pela falta de rígido controle das forças públicas de segurança (Zaluar, 2007).
A violência na cidade do Rio de Janeiro, caracterizada pela
presença de grupos criminosos armados controlando territórios por mais de duas décadas, justificaram a intervenção policial a partir de dezembro de 2007, com a criação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). De acordo com documento da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, as UPPs objetivam: retomar o controle do Estado sobre as comunidades sob forte influência da criminalidade, devolver à população dessas localidades a paz e o exercício da cidadania e contribuir para desmantelar a guerra. O documento informa ainda que, com a instalação das UPPs, não se obterá o fim do tráfico de drogas e da criminalidade nem se solucionarão todas as mazelas sociais e econômicas das comunidades. Nota-se, portanto, que as UPPs não correspondem a um programa de prevenção policial para dar conta da criminalidade, mas um processo de devolver à população os territórios controlados por criminosos. Elas são consideradas uma estratégia de “pacificação” e um desafio do Estado de legitimar sua força.
Nessa linha de atuação, foi criado o programa de ações sociais
batizado de UPP Social, cujo mote é trabalhar em integração com a polícia. A UPP Social tem uma coordenação à parte do comando da polícia e foi estruturada para dar suporte à pacificação, fomentar a cidadania e o crescimento socioeconômico e promover a inclusão das comunidades às demais áreas da cidade. As UPPs, em tese, ofereceriam mais segurança à população do Rio de Janeiro, localizando-se estrategicamente em áreas pobres com elevada concentração de traficantes de drogas (Henriques & Ramos, 2012).
Tal cenário de violência e desigualdades facilitou a disseminação
do crack no Rio de Janeiro, provocando incômodo na sociedade, especialmente em razão da impactante fragilização física, emocional e social de muitos usuários da substância. Políticas públicas de diversas áreas começaram a surgir no município. Em abril de 2012 houve adesão municipal e estadual ao programa Crack, É Possível Vencer do governo federal. Esse programa tem como objetivo aumentar a oferta de tratamento de saúde e atenção aos usuários de drogas, enfrentar o tráfico e as organizações criminosas e ampliar as atividades de prevenção, com a criação de seis novos
Centros de Atenção Psicossocial (Caps)1 para atendimento 24 horas no estado. Outras oito unidades, já em funcionamento, também passariam a atender casos de uso/abuso de álcool e outras drogas (Caps ad) (Instituto Pereira Passos, 2012).
Havia a previsão de criar mais Centros de Referência
Especializados em Assistência Social (Creas) e novos SAIs para crianças/adolescentes. Ainda no escopo do programa, o município do Rio deveria contar com novos leitos em enfermarias especializadas e Consultórios na Rua para o atendimento aos dependentes do crack.
Uma estratégia adotada no município em 2011 foi o recolhimento
compulsório de crianças e adolescentes em situação de risco (Cf. resolução n. 20/2011 da Secretaria Municipal do Desenvolvimento Social – SMDS – do Rio de Janeiro), entre os quais se destacavam os usuários de crack e outras drogas. Tal medida vem alcançando outras cidades brasileiras, entre as quais se inclui São Paulo, que também adotou posteriormente o regime compulsório para a população usuária de crack.
De acordo com a resolução, os usuários de crack são retirados
das ruas da cidade à revelia e levados para um SAI para desintoxicação. Esse recolhimento é fruto de um acordo entre o Ministério Público, justiça e a SMDS. É considerada como uma medida protetiva para as crianças e adolescentes que estão nas ruas perambulando por motivos pessoais e/ou sociais, entre eles o uso do crack. A SMDS/RJ defende a ideia de que o recolhimento compulsório vai ao encontro do “direito à vida e à saúde”, de acordo com o artigo 7º do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (lei
n. 8.069/90), 2 que prevê políticas públicas que possibilitem o desenvolvimento sadio e harmonioso das crianças e adolescentes em condições dignas de existência. Para enfrentar a perspectiva do aumento da população recolhida, a SMDS tem aberto vagas em SAIs para pessoas em situação de vulnerabilidade social, como uso de drogas e vivência na rua.
O recolhimento compulsório de usuários de crack tem suscitado
reações de entidades dos direitos humanos, tais como: Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, Conselhos Regionais da Assistência Social, da Psicologia e da Enfermagem, que alegam ser essa prática uma ação higienista e contraprodutiva. Alegam que os SAIs não estão preparados para atender com eficácia as demandas dos usuários do crack, que carecem de estrutura adequada e profissionais capacitados para prestar um serviço de qualidade, e que os serviços de saúde são insuficientes para atender a demanda. Ponderam também que policiais militares, civis e guardas municipais retiram de maneira truculenta a população infantojuvenil das ruas e a levam para SAIs sem infraestrutura para o tratamento de crack, localizados em Guaratiba (Zona Oeste – duas unidades) e Laranjeiras (Zona Sul – uma unidade) (Entidades..., 2011). Desses três serviços, os da Zona Oeste, que eram organizações não governamentais (ONGs), tiveram seu convênio interrompido em decorrência de irregularidades no atendimento prestado, reduzindo ainda mais a oferta de serviços no município.
Segundo o Portal dos Direitos da Criança (2011),3 das mais de mil
pessoas recolhidas até 29 de julho de 2011, 249 são crianças e adolescentes. O referido portal acrescenta que várias manifestações contrárias à medida foram divulgadas por diversos segmentos da sociedade. O mote da crítica é a forma violenta com que os usuários são abordados nas ruas. Outro manifesto contrário à medida foi o ato público “Recolher não é acolher”. Durante o evento, foi divulgado um abaixo-assinado, que denunciava a arbitrariedade com que o recolhimento é feito. Ainda de acordo com o portal, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR) também se manifestou em 26 de julho. O órgão não defende a suspensão da medida adotada no Rio, mas faz diversas recomendações, entre elas: o atendimento deve ser feito pela saúde por intermédio do Sistema Único de Saúde (SUS), e o acolhimento institucional deve seguir os trâmites estabelecidos pela Lei da Adoção (n. 12.010/09), que determina o plano de atendimento individual e de apoio à família.
Vale distinguir a diferença entre o “recolhimento compulsório”
realizado nas ruas e cracolândias da cidade (com encaminhamento para as Centrais de Recepção – CR – e SAIs do município) e a “internação compulsória ou involuntária” de pessoas na rede de saúde, em hospital geral e/ou psiquiátrico.
O recolhimento compulsório precisa ser pensado à luz da política
de saúde mental infantojuvenil no Brasil, que busca superar a prática de institucionalização calcada na ideia de reclusão em abrigos, educandários e hospitais psiquiátricos. As diretrizes e os princípios que norteiam as ações voltadas para a atenção à saúde mental desse segmento da população também estão inseridos nos movimentos da Reforma Sanitária e da Reforma Psiquiátrica, que levaram a um modelo de tratamento aberto e comunitário, privilegiando a inserção social e o atendimento a necessidades clínicas, comunitárias, familiares e de reabilitação.
No Brasil, a política pública de saúde mental voltada
especificamente para crianças e adolescentes, com abrangência nacional, começou a ser estabelecida entre 2002 e 2004, quando foram formalizados os Caps, Caps ad e os específicos para infância (Caps i), e implementado o Fórum Nacional de Saúde Mental Infantojuvenil (Lauridsen-Ribeiro & Tanaka, 2010).
Quanto aos recursos públicos para enfrentar o problema do crack
no município do Rio de Janeiro, o Fórum Popular do Orçamento, baseando-se em dados oficiais (prestações de contas de 2002 a 2010), relata que o município investiu em média apenas 3% de seu orçamento em assistência social e direitos da cidadania. O baixo percentual é refletido no Plano Plurianual, que destina ao Programa Enfrentamento ao Uso e Abuso do Crack e Outras Substâncias Psicoativas um total de 76 vagas no ano de 2010 e prevê tratamento de 12 crianças e adolescentes nas Casas Vivas, especializadas no acolhimento de crianças e adolescentes que fazem uso abusivo de
drogas, especialmente crack, em 2011 e 2012. 4
A rede socioassistencial no município
do Rio de Janeiro
Para conhecer a rede socioassistencial existente no município do
Rio de Janeiro em 2012, foram realizados os seguintes passos na pesquisa que dá origem a este capítulo. Uma amostra representativa com 21 SAIs foram visitados no município, com aplicação de: questionários aos gestores com perguntas sobre o funcionamento dos serviços (21); questionários respondidos por técnicos da instituição com base nos prontuários (SAI) das crianças e adolescentes com uso de crack pessoal ou familiar (50); questionários aos adolescentes usuários de crack presentes nos SAIs no momento da pesquisa, indagando-lhes diretamente sobre o consumo da droga (7).
Na abordagem qualitativa foram realizadas 30 entrevistas com:
dez adolescentes usuários de crack (oito em SAIs e dois em serviços de saúde); sete familiares de crianças e adolescentes usuários de crack (seis familiares em SAI e um em serviço de saúde); oito profissionais da área de assistência social (sete coordenadores ou técnicos de SAI e um gestor da SMDS; três profissionais da área de saúde (agente comunitário em Consultório de Rua, gestores ou técnicos de Caps ad e Caps i); um conselheiro tutelar e um promotor público. Maiores detalhes sobre os
procedimentos metodológicos podem ser lidos no Anexo.
Seguem informações sobre a rede de apoio a crianças e
adolescentes usuários de crack e a suas famílias, com dados especialmente oriundos dos profissionais entrevistados e de busca documental. Não se trata de um retrato completo, já que o município não dispõe de um fluxograma abrangendo toda a rede de atenção voltada para usuários de crack.
Na área da assistência social, existem duas Centrais de
Recepção na região central do município: Carioca e Taiguara. Anteriormente havia uma no bairro de Bangu, que atualmente funciona como SAI. As Centrais de Recepção atendem crianças e adolescentes, com o objetivo de acolher e encaminhá-los à rede socioassistencial no Rio de Janeiro e demais municípios do estado. O tempo de permanência é de até 24 horas, mas nem sempre esse prazo consegue ser cumprido em virtude da complexidade de cada caso.
Em geral, a população infantojuvenil é encaminhada para essas
centrais pela equipe de abordagem de rua da SMDS, que faz incursões pelas cracolândias e outras áreas da cidade. A Central de Recepção também é acionada por meio do Conselho Tutelar, guarda municipal, delegacia de polícia, bem como por familiares e pela demanda espontânea da própria criança ou adolescente que já conhece a unidade como referência.
Segundo informações de coordenadores e técnicos de SAIs, as
centrais encaminham os casos para a unidade de saúde mais próxima, Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Consultórios na Rua, hospitais gerais, de emergência ou de saúde mental. Caso não seja necessário passar por uma unidade de saúde, as crianças e adolescentes são encaminhados para os SAIs. Havia nove unidades de acolhimento ligadas à SMDS na cidade no momento da pesquisa: Casa Viva, em Laranjeiras – considerado um SAI especializado para usuários de drogas; Abrigo Airton Sena, em Vila Isabel; Casa de Acolhida do Catete; Casa Lar Dalva de Oliveira, em Botafogo; Centro de Acolhimento Dom Helder Câmara, no Estácio; Casa de Passagem Cely Campelo, em Jacarepaguá; Casa Lar Nora Ney, em Santa Cruz; Centro Municipal de Assistência Social Integrada Raul Seixas, na Praça da Bandeira; e Central de Recepção de Crianças e Adolescentes de Bangu, que no momento funcionava como um SAI. Além desses serviços, existe ainda uma ONG na Zona Oeste com duas unidades especializadas em usuários de drogas conveniadas à SMDS.
Em 2012, havia 46 Centros de Referência de Assistência Social
(Cras) no município que realizavam serviços de proteção social básica, configurando uma porta de entrada no sistema de assistência social. O Cras tem como objetivo a proteção social básica em áreas de vulnerabilidade e risco social, visando à minimização e/ou superação das desigualdades sociais. Tem a função de organizar e coordenar a rede de serviços socioassistenciais locais. Desenvolve ações de inclusão familiar e comunitária por meio de acolhida e recepção, escuta e encaminhamento, oficinas de geração de renda e realização de grupos diversos (crianças, adolescentes, adultos e idosos). Os 14 Creas então existentes oferecem serviços especializados e continuados a famílias e indivíduos em situação de ameaça ou com seus direitos violados, entre os quais se incluem os usuários de drogas.
Na área da saúde, em 2012, a cidade do Rio de Janeiro contava
com 27 Caps, sendo 24 municipais: três Caps III (adultos), 11 Caps II (adultos), oito Caps i, cinco Caps ad; dois estaduais: Caps ad Centra-Rio e Caps II Uerj, além de um federal, vinculado ao Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ipub/UFRJ) – Caps i Carim. O início da implantação dos Caps na cidade ocorreu na década de 1990. Há também três hospitais para internação de usuário de crack com 12 leitos em cada um deles: Philippe Pinel, Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira e Hospital Municipal Psiquiátrico Jurandyr Manfredini.
Tanto os Caps ad quanto os Caps i são serviços compostos por
equipe multiprofissional de atenção a pessoas com dificuldades pelo uso de álcool e outras drogas. São oferecidos atendimentos individual, em grupo, oficinas terapêuticas, visitas domiciliares e atendimento aos familiares.
Fazem parte da rede de saúde as UPAs, os Consultórios na Rua,
os hospitais gerais e de emergência. Há três Consultórios na Rua no município do Rio de Janeiro: Centro, Manguinhos e Jacarezinho. O Consultório na Rua visitado durante a pesquisa é muito bem equipado, localizado dentro de uma Clínica da Família, mas não dispõe de carro. Parte da equipe vai para a rua fazer “busca ativa” de usuários de substâncias psicoativas. Atende de 8h às 17h, de segunda a sexta-feira, a pessoas oriundas da cidade, região metropolitana e que vivem nas redondezas, em torno dos locais de venda de crack. São em geral adultos entre 20 a 35 anos de idade que migraram da maconha para o crack; poucas são as crianças e adolescentes atendidos (talvez uns 2% – percentual aferido pelo agente comunitário de saúde); o fluxo total de atendimento gira em torno de 12 a 15 por dia, mas quando a equipe faz busca ativa, a quantidade de atendidos se torna maior.
Os serviços de acolhimento
institucional
Dentre os 21 SAIs visitados na pesquisa, 14 atendem crianças e
16, adolescentes (Tabela 1). A presença de crianças que usam crack e drogas em geral não foi mencionada por nenhum serviço. Entre os que atendem adolescentes, o quadro é diferente: 42,9% dos serviços acolhem consumidores de drogas em geral e 28,6%, os que usam crack. Em relação aos responsáveis de crianças e adolescentes, entre 56,3% e 64,3% dos serviços informam o consumo de drogas em geral, e aproximadamente 30% dos serviços têm responsáveis que utilizam crack.
Tabela 1 – Serviços de Acolhimento Institucional que atendem
crianças e adolescentes e seus responsáveis com história de uso de
drogas em geral e de crack (N=21 SAI). Rio de Janeiro – março a
setembro de 2012*
Consumo de drogas SAIs que SAIs que
atendem atendem crianças adolescentes
N=16** N=14***
N % N %
Uso de drogas em geral 0 - 6 42,9 pela criança ou
adolescente
Uso de crack pela 0 - 4 28,6 criança ou adolescente
Responsáveis com 9 56,3 9 64,3 história de uso de drogas
em geral
Responsáveis com 5 31,3 4 28,6 história de uso de crack
* Informação dada pelo gestor do serviço.
** Cinco SAIs não têm crianças acolhidas.
*** Sete SAIs não têm adolescentes acolhidos.
Três SAIs se destacam por terem elevado número de crianças em
uma mesma unidade (entre 35 e 53 acolhidos), em desacordo com o preconizado pelas normas governamentais – 20 crianças e adolescentes por serviço (Brasil, 2009). Igual número de SAIs tem excesso de adolescentes (entre 21 e 38). Em média encontram-se 13,9 crianças e 8,7 adolescentes por serviço.
O alto número de acolhidos reflete-se na elevada quantidade de
adolescentes com uso de drogas em três serviços (11, 15 e 19), indicando a necessidade de um atendimento especializado para grande número de adolescentes, o que é um desafio para uma atenção adequada.
No que se refere especificamente ao crack, os quatro serviços
que relataram o consumo desse tipo de droga entre adolescentes, acolhem respectivamente: um único jovem, dois, quatro e dez. A situação em relação aos responsáveis reitera o desafio do atendimento aos usuários de crack em alguns serviços: um SAI tem responsáveis de 27 crianças, e outro, de dez adolescentes com esse consumo. Considerando-se o uso de drogas em geral, encontram-se genitores de 18 crianças em um SAI e de 19 adolescentes em outro. Esses dados reiteram a relevância de inserir a questão das drogas na capacitação dos profissionais que ali trabalham, bem como nas políticas públicas das diferentes esferas governamentais.
Na Tabela 2 apresenta-se a distribuição das 449 crianças e
adolescentes que se encontravam nos 21 SAIs visitados. Como se pode perceber, entre as 292 crianças presentes nos SAIs, nenhuma é referida pelos gestores/técnicos por utilizar drogas em geral. Muitos responsáveis, contudo, mostram intimidade com drogas em geral (23,3%) e com o crack (13,7%). Entre os 157 adolescentes, 39,5% usam drogas em geral e 10,8%, crack; entre seus responsáveis, tem-se 31,2% e 2,5%, respectivamente.
Tabela 2 – Uso de drogas em geral e de crack por crianças e
adolescentes em Serviços de Acolhimento Institucional e por seus
responsáveis. Rio de Janeiro – março a setembro de 2012*
Consumo de drogas Crianças Adolescentes Total
N=292 N=157 N=449
N % N % N %
Uso de drogas em 0 - 62 39,5 62 13,8 geral pela criança ou
adolescente
Uso de crack pela 0 - 17 10,8 17 3,8 criança ou
adolescente
Responsáveis com 68 23,3 49 31,2 117 26,1 história de uso de
drogas em geral
Responsáveis com 40 13,7 4 2,5 44 9,8 história de uso de
crack
* Informação dada pelo gestor do serviço.
A maior parte dos SAIs já funciona há muitos anos. Seis têm entre
dois e oito anos de atividades; sete, entre dez e 18 anos; dois, entre 23 e 25 anos; cinco, entre 60 e 84 anos, e um, com 274 anos de existência, é um serviço filantrópico. Excluindo esse serviço centenário, observa-se que os demais têm em média 27,4 anos de existência (DP=28,9), com muitos serviços atuando antes do ECA, quando ainda não vigorava a doutrina da proteção integral.
Dezessete SAIs (81%) têm a natureza de abrigo tradicional.
Alguns apresentam especificidades: uma unidade abriga crianças pequenas apenas durante a semana; uma está voltada para crianças com problemas motores que também retornam aos lares; uma é só para meninas; e uma atende vítimas de maus-tratos. Há
ainda uma Casa Lar em aldeia 5 6 e uma Casa de Passagem. Outros dois SAIs visitados foram uma Central de Recepção 24 horas e um abrigo que também funciona como creche para filhos de policiais militares.
A maioria dos SAIs é não governamental (71,4%); os demais são
unidades públicas municipais. Nove SAIs têm orientação religiosa (42,9%): seis católicos, um evangélico e dois espíritas. Todos os 12 serviços sem orientação religiosa são públicos.
O atendimento oferecido às crianças e adolescentes em situação
de risco social dirige-se para algumas clientelas específicas: 12 SAIs recebem população de rua; dez, os ameaçados de morte; 11, os portadores de doenças infectocontagiosas; 13 atendem os portadores de transtornos mentais e nove recebem crianças e adolescentes com uso de crack e outras drogas (42,9%).
Todos os SAIs têm equipe técnica própria. Em todos há
assistentes sociais e em 17 deles há psicólogos. Outros profissionais presentes em nove serviços são: pedagogos, enfermeiros, fisioterapeutas, dentistas, terapeutas ocupacionais, pediatras, fonoaudiólogos, nutricionistas, oftalmologistas e neurologistas.
No que tange à capacitação dos profissionais que trabalham nos
SAIs para lidar com o tema do crack e de outras substâncias, constata-se que a temática do crack foi pouco mencionada como alvo de formação continuada por parte de equipe técnica (em 28,6% dos SAIs), direção (19%), coordenação (14,3%), cuidadores (4,8%) e inexistiu para pessoal administrativo, serviços gerais e estagiários. O número máximo de funcionários capacitados é de 12 profissionais da equipe técnica. Capacitações sobre outras substâncias apresentam dados ligeiramente superiores, porém igualmente insuficientes para dar conta de um problema tão presente nos SAIs.
Perfil das crianças, adolescentes e
seus familiares
Na Tabela 2 verifica-se que entre as 449 crianças e adolescentes
acolhidos nos SAIs, o uso de crack foi mencionado por gestores/técnicos para 17 adolescentes e para 44 pais/responsáveis. Desse total, numa segunda etapa foram localizados e preenchidos questionários com base em 50 prontuários de crianças e adolescentes. O perfil dos acolhidos encontra-se a seguir.
Constata-se a predominância de meninas (58%) e a concentração
de crianças de mais baixa idade nos serviços investigados: 13 têm entre 5 e 7 meses de idade (26%), 18 estão entre 1 e 4 anos (36%), nove têm entre 5 e 9 anos (18%), três, entre 11 e 14 anos (6%) e sete, entre 15 e 17 anos (14%).
Dessa população infantojuvenil, 66% não frequentam a escola.
Discriminando os acolhidos fora da escola, tem-se que apenas oito crianças até 5 anos de idade têm registros institucionais que
identificam sua inserção na pré-escola; 7 na faixa dos 6-14 anos, a maioria está na primeira etapa do ensino fundamental; entre os 15-18 anos, um frequenta educação para jovens e adultos (EJA).
A convivência direta no ambiente primário de socialização com
pessoas que usam drogas (incluindo crack) se observa em 36% das crianças/adolescentes, que informam ter morado com alguém com tal uso nos últimos 30 dias antes do acolhimento. Os pais são os principais usuários de crack relatados. Em alguns casos, associam-se a cocaína e o álcool.
A maioria das crianças/adolescentes tem irmãos (84%),
frequentemente afastados do meio familiar: 50% vivem nas mesmas unidades de acolhimento, 6% em outro SAI e 4% foram adotados.
Oito crianças/adolescentes apresentam algum problema de saúde
(16%): comportamento agressivo, depressivo ou ansioso; deficiência física ou mental não especificada e má formação de sistema nervoso central com déficit global de desenvolvimento. Dois acolhidos têm doenças genéticas. Outros problemas de saúde mencionados são: problemas odontológicos sérios, suspeita de tuberculose e dependência química de thinner e crack. Trinta por cento do grupo pesquisado têm trajetória de rua.
Constata-se a fragilidade da atenção aos usuários de crack:
apenas quatro adolescentes (23,5%) foram encaminhados para tratamento por uso de crack e menos da metade dos responsáveis (48%) recebeu encaminhamento.
Sobre suas famílias, verifica-se que a maioria dos acolhidos
reside na cidade do Rio de Janeiro (92%), apenas quatro deles têm famílias morando em outras cidades da região metropolitana.
A manutenção do vínculo com a família durante o período de
acolhimento é relatada em apenas 36% dos casos; 56% das crianças/adolescentes não têm mais vínculo com suas famílias; 8% têm impedimento judicial de contato. Em um total de 42% dos prontuários, há indicação de pelo menos uma visita familiar à instituição, especialmente de mães e avós.
Os motivos que levaram as crianças e adolescentes ao
acolhimento institucional são: dependência química dos pais ou responsáveis (86%), seguida bem à distância por negligência (26%), situação de rua (22%), abandono pelos pais/responsáveis (18%). Em 8% do grupo infantojuvenil foram mencionados o uso pessoal de crack e problemas psiquiátricos/psicológicos dos pais/responsáveis. A violência doméstica física e sexual foi pouco relatada (6% cada), seguida por entrega voluntária da criança/adolescente pela família de origem e ameaça de morte (4% cada). Os motivos menos citados (2%) foram: violência doméstica psicológica, carência de recursos materiais da família/responsável, ausência dos pais/responsáveis por prisão, uso de substâncias por parte da criança/adolescente e violência ou abuso extrafamiliar
No que se refere aos dados sobre a institucionalização em SAI,
entre as 50 crianças e adolescentes identificadas pelo uso pessoal ou familiar de crack, verifica-se que a quase totalidade estava na instituição há cerca de um ano, somente um caso estava há dez anos. Também a maioria (92%) tem procedimento administrativo na Vara da Infância e Juventude e na qual se registra o consumo de crack por parte da criança/adolescente ou seus responsáveis.
Destaca-se o Poder Judiciário como o órgão que mais
encaminhou crianças e adolescentes para os SAIs nos últimos 12 meses (66%); em seguida vem o Conselho Tutelar (14%). Com frequência menor está a SMDS (10%). Dois casos excepcionais são provenientes do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) e de uma ONG.
Em relação à situação legal das crianças e dos adolescentes
usuários de drogas ou cujos responsáveis utilizam crack, tem-se que: cinco acolhidos nessa situação estão legalmente encaminhados para adoção, aguardando colocação em família adotiva (10,4%); cinco estão iniciando a aproximação com adotantes (10,4%); e quatro têm a destituição do poder familiar concluída (8,3%), mas ainda sem encaminhamento efetivo para adoção. Isso significa que há 29,1% de crianças e adolescentes usuários de crack em SAI ou cujos responsáveis consomem essa substância que preenchem critérios para a condição legal de adoção na cidade do Rio de Janeiro.
Os demais estão nas seguintes condições, quanto ao aspecto
legal: 28 em fase de avaliação/preparação para reintegração/retorno ao convívio com os responsáveis (58,3%); sete com suspensão do poder familiar (14,6%); três com processo tramitando de guarda/tutela ou com sentença pendente de recurso. Nenhum está com a destituição do poder familiar em tramitação.
Um em cada quatro crianças/adolescentes com história
relacionada ao uso de crack/drogas já havia sido acolhido anteriormente no mesmo ou em outro SAI, e um jovem envolvido com o uso de crack estava em cumprimento de medida socioeducativa de liberdade assistida. Tais aspectos mostram vidas muito ligadas a instituições sociais de assistência social e justiça, em uma tentativa (muitas vezes fracassada) de suprir as vulnerabilidades e riscos existentes.
Para compreender em maior profundidade a trajetória de
vulnerabilidade dos adolescentes acolhidos em SAIs com história de uso de crack, foram aplicados questionários sobre o padrão de consumo da droga a cinco deles – os que se encontravam presentes nas unidades e/ou que tinham condições físicas/mentais de responder às perguntas. No que se refere à idade dos entrevistados, observa-se que um tem 12 anos, e os demais têm entre 16 e 17 anos. Há apenas uma menina. Só um relata ter a cor da pele branca – os demais se autoidentificam como pretos ou pardos. Todos têm irmãos que vivem com a família de origem. Como forma de ganhar dinheiro, três adolescentes já atuaram em trabalhos de venda de mercadorias, como, por exemplo, doces. Um relata esmolar e outros dois informam atos ilegais como roubos e prostituição.
O consumo de álcool, maconha e crack ao longo da vida foi
mencionado por todos os adolescentes, indicando a conjunção do uso de várias drogas: quatro usaram tabaco; três, cocaína; dois, mesclado (maconha e crack); três consumiram produtos para sentirem “barato”; um, oxi; dois utilizaram LSD, ecstasy ou outra droga que provoca alucinação; haxixe foi mencionado por um adolescente.
Em relação ao uso de drogas no mês anterior ao acolhimento,
constata-se que: um adolescente utilizou tabaco diariamente; um, álcool (dois dias no mês); um, cocaína (dez dias); outro, mesclado (11 dias do mês); dois usaram maconha (variando de duas vezes até todos os dias); quatro, crack (até 13 dias); três utilizaram substâncias para sentir “barato” via oral e nasal (entre 20 e 30 dias no mês); um usou droga alucinógena via oral.
Detalhando melhor o consumo de crack, tem-se que: um
adolescente utilizou a substância há um ano; outro, há dois anos; dois, há três anos e um há sete anos. A quantidade de pedras de crack consumidas em um dia comum oscila entre duas e dez. A droga é utilizada de diferentes formas: dois deles o fazem em formato de cigarro (misturando tabaco e crack); três usam como pitico (misturando maconha e crack); dois utilizam latas de refrigerante ou cerveja; quatro, copos plásticos; e quatro, cachimbo. Dois afirmam reutilizar copo/cachimbo de outro usuário para fumar crack. Quatro informam consumir crack em conjunto com outras drogas, destacando-se tabaco, álcool e maconha.
Três adolescentes relatam que o local de consumo de crack é a
rua, e dois outros mencionam uma cracolândia situada em morro da cidade. Apenas um menciona a casa de amigos. Amigos e traficantes são as pessoas com quem obtêm o crack para o consumo próprio.
Um adolescente refere que tem irmãos que também utilizam
drogas (maconha) e outro relata o uso de cocaína pelo pai.
A situação de saúde dos adolescentes no último mês é
considerada boa por quatro deles. Um jovem mencionou sentir dores no peito há cinco dias, embora não relacione o sintoma ao uso de crack. Fazer sexo sem camisinha é um ato relatado por quatro adolescentes. Quatro deles negam a prática de sexo com portador de hepatite B, C ou HIV. Um jovem recebeu transfusão de sangue. Outro já utilizou drogas injetáveis, e nenhum menciona ter tido overdose por crack. A despeito da boa condição de saúde apontada pelos adolescentes, vários necessitaram de atendimento na rede, especialmente de saúde, antes de serem acolhidos nas instituições: três haviam passado por posto de saúde; dois, por serviços de emergência; dois tiveram internações hospitalares. Um relata ter sido recebido em serviços ligados à assistência social, psiquiatria e em clínica especializada. Um foi atendido por serviço que dava alimentação gratuita.
Dois adolescentes já foram detidos pela polícia após começarem
a consumir crack, em decorrência de traficar drogas e de apedrejar segurança de shopping center, indicando sua proximidade ao universo infracional.
Causas e consequências do uso do
crack
Um breve perfil dos dez adolescentes entrevistados
individualmente na pesquisa reitera o abandono escolar (quatro), fato já comentado em estudo com usuários de crack de Santa Maria/RS (Mocelin & Moreira, 2010). Os demais estão estudando ou frequentando algum curso; um deles participa do programa Jovem Aprendiz, no próprio SAI em que se encontra. Esse serviço tem uma parceria com a Secretaria de Educação, que elaborou um projeto educacional para as crianças e adolescentes que estivessem muito tempo fora do ambiente escolar, com intuito de dar-lhes reforço antes de serem matriculados nas escolas públicas do município. “Hoje eu estudo, faço curso aqui [SAI], faço várias coisas. Agora vou fazer natação e futebol (Luís – SAI especializado).
Nenhum entrevistado em Central de Recepção frequenta escola,
há algum tempo tinham abandonado o sistema educacional. Todos os adolescentes já se tinham evadido de algum SAI anteriormente e não exerciam atividades laborativas. Destaca-se a atuação de um SAI especializado em que os adolescentes não só estudam, como também praticam atividades esportivas na comunidade.
A necessidade premente do crack na vida dos adolescentes surge
em falas que revelam o desinteresse geral e atribuem a saída da escola ao uso do crack: “Não; não trabalho, não faço nada da vida, só uso crack” (Lauro – CR). Outro fato apontado por seis adolescentes é o consumo de drogas lícitas ou ilícitas por seus familiares.
Sabe, pra mim é uma coisa ruim, porque eu aprendi a usar droga [cocaína]
com a minha mãe. (Geraldo – SAI)
Muita revolta. Muita revolta. Por causa da minha família, do meu pai. Porque
ele usava, ele também usava droga, maconha. Fumava na nossa frente. Não
deu aquele respeito de que tem o pai pelo filho. Eu acho que o filho espelha
pelo pai, correto? Então, o que o pai está fazendo, o filho vai fazer o que ele
está vendo. Aí eu fui experimentar essa droga do crack. Pra mim não serve.
Agora, graças a Deus eu não estou usando mais! Eu não quero mais essa
droga pra mim. Essa droga não é pra mim. (Alex – SAI especializado)
A rapidez com que o consumo se dá é relatada por uma
adolescente: “Fuma, depois dali o vício pega rápido e não consegue parar mais, não consegue parar mais. E o vício é muito ruim” (Ildes – CR). Sabe-se que, quando a cocaína é fumada na forma de crack, a aspiração é absorvida pelos pulmões e chega ao cérebro entre seis e oito segundos. Quando é injetada demora de 16 a 20 segundos, e quando é cheirada, o tempo é de três a cinco minutos para obtenção do mesmo efeito. Fumar o crack é o meio mais rápido de fazer com que a droga chegue ao cérebro (Cruz et al., 2010). A “fissura”, conceituada como uma forte necessidade de utilizar uma substância, é considerada crucial para o uso compulsivo e dependência de drogas, propiciando ao indivíduo recaídas após abstinência. A dificuldade de interromper o uso do crack está presente na fala de uma adolescente grávida de cinco meses: “Eu uso droga, mas eu quero parar, assim eu tento, eu quero forças pra mim parar, mas eu não consigo, mas em nome de Jesus eu vou parar de usar essa droga” (Ildes – CR).
Os adolescentes informam que as “más” companhias favoreceram
o uso do crack. Segundo sete deles, “amizade leva nós pra tudo. Mas, a gente vai porque a gente quer também” (Lauro – CR). Um adolescente relata que quis experimentar zirrê (crack com maconha) apenas para poder ficar acordado na época em que trabalhava na boca de fumo. Depois passou a usar crack puro. Outro entrevistado não sabe falar porque experimentou, mas afirma: “Provei e gostei e todo dia eu comecei a usar, diariamente” (Diógenes – CR). Para um jovem, a vida na rua foi o motivo que o levou ao vício no crack.
Os principais motivos do envolvimento com as drogas na fase da
adolescência são: busca do prazer, curiosidade, vontade de experimentar; influência do grupo em que está inserido e pressão social (Tiba, 2003). Cabe lembrar que o consumo de drogas é uma prática cultural, encontrada em todas as civilizações, embora as finalidades do uso sejam variadas, da curiosidade à busca do prazer (Spricigo & Alencastre, 2004).
Perguntados sobre os efeitos do crack em suas vidas, há uma
gama de informações relatadas pelos dez adolescentes entrevistados: evasão nos estudos, rompimento dos vínculos familiares, mudanças físicas – “fiquei assim magra, feia de corpo” (Ildes – CR) –, mendicância, roubos, furtos, tráfico, violência e detenção pela polícia, perda dos amigos, expulsão de casa e distanciamento de todos.
Perdi a confiança da minha família. Tirei coisa de dentro de casa. Vendi
alimento, já vendi liquidificador, já vendi espremedor de laranja. Eu tive
problema na minha favela, onde eu moro. Foi um morador que me
reconheceu, que eu tinha roubado. Aí gritou “pega ladrão”; me pegaram na
rua, me arrebentaram todinho. Fui pra delegacia. (...) Cheguei aqui todo
arrebentado. (Geraldo – SAI)
O efeito é que a minha mãe já não me quer mais dentro de casa. Ela quer
que eu esteja em casa bem, não quer eu roubando. Não quer eu ficar
morando dentro de casa com ela. Aí eu estou morando na rua, porque eu
estava roubando, estava usando crack. (Diógenes – CR)
A gente não quer saber da família, nem do pai, nem da mãe, nem dos irmãos.
Esquece sobrinho, esquece tudo, cara, o crack faz você esquecer escola,
trabalho, esquece os amigos, esquece tudo. (Lauro – CR)
Todos esses adolescentes são unânimes em relatar com pesar o
envolvimento com a droga, já que adquiriram mais ônus que bônus. Efeitos sobre a saúde física e mental também foram mencionados, especialmente a perda de peso (três), fazendo com que se sentissem feios e deprimidos. Dificuldades em correr (esporte anteriormente praticado), falta de ar, dormência bucal, dores, tosse, perda de memória e alucinação também foram relatados. Apenas um adolescente comenta que não percebeu nenhuma diferença na saúde depois do uso do crack.
Eu conseguia atravessar uma piscina, mas agora eu não consigo mais, eu
não tenho mais fôlego, eu ando daqui ali e já fico cansado, não consigo, na
hora de dormir eu fico respirando forte procurando ar e não tenho, sem
fôlego. (Luís – SAI especializado)
Meu corpo começa a arrepiar, começa a inchar todinho, aí eu desmaio.
(Marcelo – SAI especializado)
Eu fico com dor no pulmão, às vezes dor no coração. Às vezes eu fico vendo
gente. Eu penso que tem gente, mas na realidade não é ninguém. (Diógenes
– CR)
Sentia medo! Dava pânico. Ficava assustado. (Alex – SAI especializado)
O uso de crack pode diminuir temporariamente a fome e o sono. A
alimentação e o sono ficam prejudicados, ocorrendo o emagrecimento e esgotamento físico. Constatam-se problemas nos pulmões, coração e até na boca (queimaduras, dormência). Podem ocorrer náusea e dor abdominal. Os hábitos básicos de higiene podem ficar comprometidos. Quadros psiquiátricos são relatados: transtornos de personalidade, depressão, ansiedade, instabilidade do humor, ideias paranoides, delírios e alucinações. As principais complicações neurológicas são: dor de cabeça, tonteiras, inflamações dos vasos cerebrais, atrofia cerebral e convulsões (Cruz et al., 2010). São também frequentes as atividades ilícitas praticadas (tráfico de drogas, furtos, roubos e assaltos), a prostituição em troca de crack ou dinheiro para comprar a droga, o risco de infecção por HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (Nappo et al., 2004).
Metade dos adolescentes entrevistados apresenta histórico de
rua, seja permanecendo na rua apenas durante o dia ou definitivamente, de acordo com o que se constata em outros contextos (Forster et al., 1992; Forster, Tannhauser & Barros, 1996; Nappo et al., 1997). Cinco jovens afirmam não ter vivência nas ruas. Um deles relata que pagava um hotel para dormir; os outros não perderam seus laços familiares, usavam a droga muitas vezes no portão de casa ou na rua, mas voltavam para a casa.
Entre os sete familiares de crianças e adolescentes usuários de
crack entrevistados, a maioria relata ter família numerosa, agregando filhos, netos e também avós no mesmo domicílio. Em três casos a família é monoparental, chefiada por mulher. Esse quadro está de acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que se nota aumento da proporção desse tipo de família (de 22,2% em 2000 a 37,3% em 2010).
Em três famílias há relatos de outras pessoas (excluindo a
criança/adolescente) com uso abusivo de drogas lícitas – tabaco e álcool – ou ilícitas – entre elas a maconha e o crack. Também foi mencionado o envolvimento de familiares no sistema prisional em duas famílias, acarretando evidente sofrimento.
Eu tenho um filho mais velho [usuário de maconha, cocaína e crack] que está
no regime prisional fechado. Ele começou na adolescência e foi assistido
também, mas eu não consegui deter ele. Aí ele foi morar na rua. Teve várias
passagens no Padre Severino, passava várias semanas na rua. Eu cheguei a
pedir ao juiz pra prender ele e não deixar ele na rua. Até que ele foi para o
Educandário Santo Expedito, ficou seis meses. Uma semana na rua depois,
mais seis meses de novo. Quando fez 18 anos ficou um mês na rua e voltou
para o presídio. (mãe – Caps i)
As consequências do uso de crack na vida dos adolescentes,
relatadas pelos familiares, referem-se à mendicância, prostituição, desleixo com a higiene, roubo, furto dentro da própria casa ou na comunidade a que pertencem para sustentarem o vício. Três familiares associam as consequências aos problemas de saúde dos adolescentes.
Eles ficam totalmente dependentes. Viram praticamente um mendigo. Não
tomam banho, só andam no lixo, só vive todo sujo. E até chegar ao ponto de
tirar as coisas de dentro de casa, que na maioria acontece isso mesmo. Eles
começam a tirar as coisas de dentro de casa pra poder vender pra poder
consumir a droga. (pai – SAI especializado)
Tem muitas. A saúde, eles põem a vida deles em risco. Esse meu filho, eu
descobri que está com sífilis. (mãe – Caps i)
Um entrevistado associa as consequências do crack a todos os
demais familiares que convivem com o adolescente.
É devastadora. Não afeta só o usuário em si, mas todos que estão ao redor.
Não só o crack como qualquer outra droga devastadora. Mas, o crack, eu
acredito que ele seja algo muito mais rápido e acaba com a vida da pessoa e
dos familiares do que as outras. (tio e padrinho – SAI especializado)
Wright e Chisman (2004: 265) ressaltam que “o fenômeno das
drogas constitui um problema social com impactos diretos na saúde do indivíduo, família e sociedade”. A dependência causa grandes mudanças na interação do indivíduo com seus familiares, afetando suas relações sociais e profissionais (Pratta & Santos, 2009).
Em relação aos efeitos percebidos pela família na vida do usuário,
há um leque de informações: problemas com a higiene, vida na rua, companheiros da rua como membros da nova família, atos infracionais, furtos e roubos que colocam a vida em risco, abandono dos estudos, emagrecimento, esfacelamento dos vínculos com a família de origem, agressividade, apatia, morte, prisão, abandono de um bebê no hospital pela mãe adolescente e prostituição/exploração sexual. A angústia presente na fala dos familiares é a regra.
Chegava de manhã cedo em casa, saía quatro da tarde e só chegava de
manhã cedo doidona, quebrando tudo, destruindo tudo. O irmão dela morreu
por causa disso. Tem um irmão que está preso por causa de droga também.
O negócio é terrível mesmo! Ela teve que fumar 40 pedras de crack pra mim
trazer ela pra cá. Usar porque senão ela fugia, e pra não fugir, eu tive que
ficar com a minha filha na sala e deixar ela no terraço fumando crack, porque
senão ela fugia. Ela pula tudo, sai se jogando e ninguém pega mais, e se ela
entrar pro morro, um abraço, que a amizade é muito forte, não tem como a
gente trazer não. Ela teve que usar [crack dentro de casa]. Eu peguei ela, aí
dei um banho nela, ela dormiu e quase amarrei pra levar pro Conselho
Tutelar pra trazer ela pra cá, senão não tinha condição não, porque ela é
agressiva, não é fácil não! (Carlos, companheiro da adolescente – SAI)
Quando os profissionais das diferentes áreas da atenção foram
questionados sobre as causas do uso de crack pelas crianças e adolescentes, foi notória a necessidade de parar para pensar, antes de dar uma resposta. Entretanto, há um consenso de que o uso/abuso do crack em geral está ligado às angústias geradas no convívio dentro de casa. A pobreza também surgiu em algumas falas como uma motivação importante para a ida às ruas em busca do crack. É, todavia, vista mais como mais um fator corresponsável:
Eu posso levantar todas as situações que passaram por aqui e todos
começam com uma questão no contexto familiar. Não só pela questão da
vulnerabilidade da pobreza. (assistente social – SAI)
Existe uma história muito dolorosa. Praticamente todos os meninos que aqui
estão possuem uma história muito sofrida de vida com família, violência
doméstica, abandono, negligência, abuso sexual. Você tem um histórico
muito dramático e muita dor. Eu acredito que a busca da droga seja uma
forma de alívio dessa dor, desse sofrimento. A criança vai e usa
recreativamente e tenta uma saída para essa situação de abandono, de
sofrimento e infelizmente acaba se deparando com uma substância altamente
dependente, muito devastadora e que debilita em pouco tempo. (psicólogo –
SAI)
Suárez e Galera (2004) afirmam que os problemas relacionados
ao uso de drogas têm suas raízes em relações complexas da humanidade, e nesse cenário destaca-se a família, instituição em constante transformação, por seu papel preponderante na conservação e transformação de hábitos, costumes e comportamentos entre gerações.
A ida para a rua, com subsequente envolvimento infracional e
exploração comercial e sexual, bem como a ausência do Estado, são também associados às causas do uso de crack.
Eu vejo muita conexão [do uso do crack] com a ida para as ruas. (...) A
população infantojuvenil e adulta que está nas ruas hoje na cidade do Rio de
Janeiro, ela é diferente por regiões. Na minha área, as meninas iam com uma
caixinha de bala no sinal. Quando existe uma menina se oferecendo é porque
tem explorador. (...) Eu tenho inúmeros casos de destituição onde a família
não via na criança uma fonte de responsabilidade, de carinho, mas via fonte
de renda mesmo. Tem as questões de abuso, meninos que vão para a rua
porque sofrem alguma coisa dentro de casa, mas não necessariamente são
abusados ou são agredidos, porque cada caso é um caso. Mas eu associo
muito à questão da banalização da ida pra rua, porque ele começa
complementando a renda. Ele não começa usando droga. Ele começa ali
com a mãe no sinal e vai crescendo, e daqui a pouco ele coloca o braço pra
trás e finge que é deficiente e daqui a pouco ele, enfim, ato infracional. Não
associo isso à pobreza. Acho que a pobreza também agrava e é um fator de
risco, mas você tem uma grande massa de pessoas aí vulneráveis
socialmente e que não levam seus filhos. (promotor público)
O envolvimento de usuários de crack com a criminalidade é fato
corriqueiro, sendo observada a prática de pequenos delitos para conseguir dinheiro para obtenção da droga (Silveira & Moreira, 2006).
Um conselheiro tutelar, para explicar o consumo de crack,
apresenta o argumento da inevitabilidade da adição: “Experimentou a droga hoje, principalmente o crack, vai se viciar. É o início que não tem retorno, que a família não consegue geralmente controlar, e aí ele acaba indo para as ruas”. Cabe salientar que essa noção de inevitabilidade não é consenso, já sendo observada a possibilidade do consumo controlado de crack (a longo prazo), a ponto de a droga não direcionar a vida do usuário (German & Sterk, 2002).
As consequências do uso do crack por crianças/adolescentes
e/ou familiares relatadas pelos profissionais da assistência social, saúde, Conselho Tutelar e promotoria enfatizam a degradação humana, com autodestruição física e psíquica evidente. O usuário se desinteressa por tudo e perde o rumo do presente, do futuro e da própria vida; abandona os estudos; envolve-se com práticas delituosas, como roubo e furto, e o rompe os vínculos familiares e sociais. Termos que relacionam as consequências do uso a aspectos “desastrosos”, “nefastos”, “falência humana” são comuns.
Consequências físicas e psíquicas, mudanças comportamentais
como agressividade, vulnerabilidades pessoais e sociais e estigmas decorrentes do crack são sinalizados pelos profissionais.
Acho que a principal consequência é a ruptura total das relações sociais.
Então, o usuário de crack, ele tem uma ruptura por completo da família, do
ciclo de amigos. Porque o usuário de crack, até dentro de quem usa crack,
ele é segregado. Então, por exemplo, quem usa cocaína, usa maconha, usa
outra droga não anda com quem usa crack. O uso de crack – o principal
prejuízo que traz pra essa pessoa primeiro é a total exclusão do círculo de
amigos, de convívio social, de convívio familiar. Além de ter um prejuízo muito
grande, às vezes, no seu julgamento. A compulsão do crack, ela é um pouco
mais exacerbada. Então, durante a compulsão, às vezes, o adolescente e a
criança podem fazer coisas que normalmente não fariam. (técnico em
enfermagem – setor Saúde)
Segundo Kessler e Pechansky (2008), o que mais sensibiliza na
expansão do uso de crack é a velocidade da deterioração da vida mental, física e social do usuário. Vários estudos correlacionam o uso de crack à agressividade, especialmente na fase de abstinência. As regiões onde há grande consumo dessa droga costumam apresentar índices mais altos de violência e crimes. Prostituição, tráfico de drogas e o cometimento de atos infracionais são apontados pelos profissionais como práticas sustentar o vício.