Cuidar, Controlar, Curar: Ensaios Históricos sobre Saúde e Doença na América Latina e Caribe

Fragmentos de um mundo oculto: práticas de cura no sul do Brasil

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Haverá operação mais cruel? Quantas dores sofreu a pobre

parturiente, agüentando tamanha barbaridade e tanta

desumanidade do parto de seus algozes? Depois de serrarem o

osso da bacia, abriram à força para dar passagem livre ao feto

que nasceu com vida; porém a infeliz senhora, 24 horas após a

bárbara operação, exalava seu último alento, no meio das mais

cruciantes dores e hemorragias, que eles não conseguiram

aplacar quanto mais estancar. Foi nessas condições que

morreu uma distinta senhora na flor da idade, acabando seus

dias nas mãos de homens que não eram ignorantes, nem

precisaram se acobertar com a lei da liberdade profissional.(O

Exemplo, 10 abr. 1910:1)

Como o trecho indica, os médicos ainda utilizavam amplamente procedimentos dolorosos e violentos, em 1910: havia desconhecimento sobre onde e como cortar, sobre a questão da dor, problemas com hemorragias e como suturar, infecções etc. Essas dificuldades justificaram que os médicos tentassem não se envolver com a ‘arte obstétrica’ por um longo período. Durante o século XIX, o ‘progresso’ médico era a realização da cesariana com extirpação total do útero, e a regra era a morte em caso de partos difíceis

(Thorwald, s.d.).28

Entre o pudor e a imperícia, as mulheres e seus problemas de saúde foram relegados a um espaço próprio, no qual os médicos custaram a se envolver. As parteiras aprendiam pela prática, provavelmente no contato com outras parteiras mais velhas, que guardavam conhecimentos do funcionamento do corpo feminino que não eram comuns. As parteiras compartilhavam das vidas das mulheres que tratavam, resolvendo seus ‘incômodos’, guardando seus segredos e mantendo suas amizades. Eram mulheres que exerciam os mesmos papéis cotidianos que as demais, mas também podiam dar o socorro no caso de alguma doença e, principalmente, ajudavam mulheres a ‘dar à luz’. Tinham uma profunda inserção no quotidiano do espaço doméstico, incluindo as crianças, os vizinhos, os parentes, num universo governado pelos valores femininos. Nesse universo, as parteiras concentrariam uma

maior autoridade, devido ao seu saber.29 Como sugeriu Michelle Perrot, antes de serem as auxiliares reverentes, ansiosas e sempre culpabilizadas dos médicos, as mulheres do povo foram suas principais rivais e continuadoras de uma medicina popular, empregando os recursos de uma farmacopéia multissecular (Perrot, 1988). As parteiras cumpriram exatamente esse papel, resguardando um espaço só há pouco tempo ocupado pela medicina hospitalar.

Os “incômodos no útero” tratados pelas parteiras podiam significar as mais diversas doenças venéreas, inflamações sem diagnóstico preciso (do útero, do ovário etc.), tratadas com lavagens de água fervida e líquidos “perfumosos”, tampões de tecido introduzidos no útero (curativos), “sublimados corrosivos” etc. Mas o maior “incômodo” era gravidez não desejada. Várias parteiras faziam esse “serviço”, assim como alguns “médicos” especialistas que “evita(m)

a gravidez sem operação e sem dor nos casos indicados”.30 Podiam ser mulheres casadas que já tinham filhos e não desejavam outros, pelo menos naquele momento, ou moças solteiras que precisavam esconder ‘sua vergonha’. Esse universo, envolvendo a moral e o pudor feminino, exigia uma abordagem que só as próprias mulheres pareciam poder fazer. As parteiras compartilhavam uma intimidade com as dificuldades femininas, sendo companheiras e confidentes, mais aceitas que os médicos no atendimento de seus problemas.

A história de Emma Martha Putz Kristmann oferece algumas nuanças sobre os significados das ‘doenças de mulheres’. Emma queixava-se de ‘incômodo no útero’ desde o nascimento do seu primeiro filho, apresentando um corrimento. Apesar de ter condições financeiras para tanto, não quis tratar-se com um médico por sentir-se acanhada. Sua sogra, então, pediu que a parteira Carolina Bruckhoff, de nacionalidade alemã como a família de Emma, se encarregasse do atendimento. A parteira começou a tratá-la de metrite ou flores-brancas com lavagens de água fervida e curativos. Após seis semanas, ela afirmou que Emma estava grávida. A conselho de uma vizinha, sua sogra chamou Carlos de Lester, conhecido porque anunciava nos jornais e em panfletos que tratava de ‘moléstias de senhoras’. Ele se dizia diplomado pela Universidade de Montpellier, mas não o comprovou durante o processo. As versões das testemunhas, vizinhos e parentes da família de Emma não confirmam o aborto, alegando que ela estava com problemas no útero e precisava de uma raspagem para evitar risco de sua vida. Lester tratou Emma no quarto de sua casa, pela manhã, tendo sido acertado o tratamento antes, mediante parte do pagamento antecipado. Após uma ‘lavagem vaginal’, Emma faleceu. Lester procurou acusar a parteira que a atendia antes, dizendo que retirou “bolas de trapos pretos, malcheirosos, presos por uma linha”, que saíam pela sua vagina. Lester teve prisão preventiva, sendo condenado em primeira instância por prática de aborto. Tendo ido a

júri, foi absolvido.31

O processo evidencia as práticas a que as mulheres estavam entregues e as diversas redes de solidariedade e convivência com vizinhos e parentes nas tentativas de tratamento, confirmando um amplo quadro de relações daquele grupo, que, inclusive, resolvia questões ‘íntimas’ como o tratamento de uma doença venérea ou a realização de um aborto. O que transparece, pelo depoimento das testemunhas que participavam da vida familiar de Emma, é que o aborto não era algo incomum. Todos parecem depor afirmando a necessidade de uma intervenção para salvar a vida da paciente e inocentando o envolvimento dos familiares. É pouco clara a causa mortis de Emma no exame de necropsia (“reflexo inibitório por excitação do útero”), mas este afirma claramente que houve tentativa de aborto, apesar de os médicos terem sido consultados diversas vezes para esclarecer seu parecer. O jornal Última Hora acusou Carlos de Lester de charlatanismo, alegando que ele não teria ultrapassado o 5 o ano de medicina, e da tentativa de várias falcatruas em Porto Alegre e Uruguaiana, dedicando-se a pegar jóias em casas especializadas e a não pagar. Sua última trapaça teria sido passar-se por médico em Montenegro, Santa Maria e Ijuí,

mudando-se após cada escândalo. 32 Nesse caso, o aborto parece não ter sido responsabilidade da parteira, mas de uma pessoa estranha à família que realizava essa atividade. Pelos dados apresentados pelo jornal, Carlos de Lester dedicava-se ao exercício de várias profissões para viver, sendo uma delas a medicina ginecológica. Provavelmente, hoje o chamaríamos de um ‘curioso’ que faz abortos.

Dificuldades maiores de mulheres solteiras podem ser exemplificadas pelo caso de Marta Hangel, que tinha 26 anos e trabalhava como serviçal. Marta foi ‘deflorada’ por Adalberto Silva, empregado da Hidráulica Guaibense, em 1917, e ficou grávida. Fez um aborto, a conselho de uma amiga e com o consentimento de Adalberto, com a parteira e ‘doutora’ Thomazia Gallanti, espanhola, em 1918, com uma ‘injeção no útero’. O feto tinha uns três meses e foi enterrado num vaso de flores. Em janeiro e em novembro de 1920, fez novos abortos, nas mesmas condições. No último, houve complicações, e a expulsão do feto só ocorreu dia 8 de janeiro de 1921, já com quatro meses, tendo sido encontrado no poço da residência onde trabalhava. Sob suspeita, Marta confessou na delegacia. A parteira relatou tratamento para flores-brancas, procurando eximir-se da responsabilidade. Adalberto disse que Marta o procurava insistentemente e que ele a recusava, julgando ser este o motivo de tê-lo envolvido no caso, principalmente após ele ter casado com outra. A parteira foi absolvida por insuficiência de provas, pois Marta fugiu e nem seu patrão compareceu aos

depoimentos a que foi requisitado.33 Tudo indica que Marta recebeu alguma ajuda de seus empregadores para o ‘sumiço’, deixando o processo inconcluso. Assim como no caso de Emma Kristmann, a prática de aborto parece ser comum, e em torno dela estabelecia-se uma rede de silêncios.

Outros processos ou denúncias em jornais revelam que as mulheres procuravam as parteiras para o tratamento de suas dificuldades

como a melhor alternativa existente, 34 inclusive sendo o título de parteira usado para obter confiança das pessoas em torno de outras questões. Foi o caso de Laura Gilardini Puzzuoli, que chegou a Porto Alegre anunciando-se como parteira, em 1904, mas deu um grande desfalque em muitos figurões da cidade, obtendo dinheiro em troca de garantia de que tirariam a sorte grande em prêmios de alto valor. Dizia-se pertencer à Sociedade do Bom Pastor, e possuir poderes sobrenaturais com os quais receberia informações sobre os prêmios, além de boas relações com o bispo, a quem entregaria o dinheiro arrecadado. Em agosto de 1905, fugiu da cidade de navio,

sob outro nome, nunca mais sendo encontrada.35 Uma vigarista de tal envergadura conhecia bem as regras e os símbolos de confiabilidade e respeitabilidade de que lançou mão para construir sua imagem. Assim, o fato de que se tenha apresentado como parteira revela o bom conceito de que gozava esta categoria feminina.

Foram ainda usados como símbolos para a obtenção da confiança da população, além do título de parteira, a informação de que tinha poderes mágicos e que se vinculava ao catolicismo. Por que esses elementos atuavam como símbolos de confiabilidade para a população? Ser ‘parteira’, como vimos, significava ser portadora de um conhecimento especial, próximo e freqüentemente vinculado à magia. Não havia uma distinção clara entre os domínios da religião e os da magia.

A religião católica, que se espalhou pelo Rio Grande do Sul no final do século XIX, foi o principal elo estabelecido entre os imigrantes que se instalaram no Estado. O catolicismo fornecia-lhes os subsídios indispensáveis para reiniciarem, individual e coletivamente, a existência de estrangeiros carentes numa terra estranha, especialmente para os imigrantes italianos e poloneses, que tinham forte presença no Estado. Ele servia como sistema de referência, mas não como dogma, pois os vilarejos do interior não dispunham de assistência religiosa, nem de uma organização hierárquica católica eficiente (Boni, 1982). Nesse contexto, o catolicismo popular representava mais uma prática do que uma crença, mais um con-junto de modalidades de comportamento do que convicções. Seus ritos constituíam um acompanhamento fundamental para os acontecimentos de suas vidas. Eram procedimentos que organizavam a vida cotidiana, como aconteceu em muitos centros europeus (Thomas, 1991). Assim como ocorreu com o espiritismo kardecista, as possibilidades de articulação de elementos mágicos, sobrenaturais, sem recusar elementos da perspectiva cristã, com a oferta de alguma ajuda (pela caridade, cura ou possibilidade de conseguir ‘fortuna’) eram significativas e exerciam forte atração no início do século.

Várias condições favoreceram as opções adotadas: raros hospitais; quase ignorância dos poucos médicos diplomados em várias áreas, o que nem permitia que se distinguissem de forma clara dos demais práticos; precário atendimento nas residências ou nas ‘boticas’; absoluta falta de recursos para busca de médicos e remédios. A população se aproximou de um universo que era seu conhecido, confiável e amparado na tradição, que oferecia resposta às suas angústias, que era mais próximo de suas práticas e, enfim, que oferecia alguma esperança. Num universo de inviabilidades e precariedades, basearam-se nas alternativas que ofereciam um discurso compreensível e apontassem para soluções quase ‘milagrosas’. Diante das inúmeras impossibilidades, o milagroso era a resposta, aliás, aparentemente, a única, quando não viam outra saída.

“...uma cidade do outro mundo...”

Assim foi chamada Porto Alegre, em 1914, numa campanha desenvolvida pelo jornal A Noite: “Está aí disseminado por todos os âmbitos da cidade, desde o centro aos arrebaldes, sem o – recato. Quem observasse com olhos maliciosos, diria que Porto Alegre é uma cidade do outro mundo, tal a afluência dos espíritos que

descem a conversar com os viventes que nela moram”.36

Haveria “videntes, escreventes, conscientes, inconscientes”, de todos os jeitos, até os que conversam com os espíritos a “livre ambiente”, “recitando nas esquinas o que os doentes devem tomar

em casa”.37 A procura por opções mágicas e religiosas foi muito constante no Rio Grande do Sul, assim como deve ter ocorrido em outras regiões no Brasil. É considerado muito difícil encontrar fontes a respeito dessas opções (desculpa usada para justificar o silêncio historiográfico sobre o tema); contudo, ao menos no caso do Rio Grande do Sul, foi possível encontrar um rico acervo documental sobre diversas dessas perspectivas. A presença desses agentes de cura e a aceitação de suas práticas percorreu um longo período de história da cidade, mantendo-se, evidentemente, como um campo mais atraente que a medicina institucional.

Particularmente instigante é a quantidade de referências encontradas nos jornais de Porto Alegre, no ano de 1925, sobre a visita de um médium. Pelos relatos dos jornais, os meses de setembro e outubro de 1925 foram bastante agitados. Em pleno auge da luta pela exclusividade de medicina científica, o médium Mozart Teixeira da Costa visitou o estado a convite da Federação Espírita do Rio Grande do Sul. Foi efusivamente recebido nas cidades de Pelotas e Porto Alegre. Compareceram 3.000 pessoas à sua recepção, na capital do estado, numa grandiosa cerimônia com discursos, banda e passeata. No período em que esteve na cidade, atendeu por volta de 11.000 pessoas, 500 por dia, três vezes por semana, chegando a tratar, em alguns dias, 2.500 pessoas, numa cidade que possuía por volta de 200.000 habitantes na época – algo em torno de 6% da população (Departamento Estadual de Estatística, 1940). Para se ter uma dimensão comparativa da quantidade de pessoas atendidas, a Santa Casa de Misericórdia teve 7.060 novos pacientes internados durante todo o ano de

1925. 38 As páginas dos periódicos estiveram repletas de notícias sobre a visita e proliferaram conjecturas a respeito das atividades realizadas pelo médium. Mesmo os mais céticos comentaram sua presença, como ocorreu com o cronista da coluna denominada ‘A Cidade’ no jornal Gazeta de Notícias, que se manifestou após ter sido cobrado por seus leitores:

Não são centenas, mas milhares e milhares de pessoas cujos

sofrimentos e deformidades físicas se mostram em pleno dia,

enchendo a cidade de doentes de toda a espécie, como se

Porto Alegre fosse um enorme hospital, onde se agita uma

multidão fantástica de defeituosos de toda espécie, desde o

entrevado, o infeliz paralítico, para o qual se têm mostrado

impotentes todas as grandes conquistas da ciência, até as

macrocefalias e loucuras incuráveis. No espaço de uma

semana, mostrou-se a cidade, principalmente nos pontos de

sessão daquele médium, uma onda calculada em mais de

10.000 enfermos, todos levando na alma a esperança de cura,

todos procurando o alívio para as terríveis chagas do corpo.39

A coluna referia-se ao espanto da cidade diante de um quadro de horror, presenciado quando da visita de Mozart da Costa, propiciado pela quantidade e variedade de doentes, em desfile, que procuravam seu atendimento. Um quadro que, segundo seu autor, vivia escondido, dando a impressão de uma imensa miséria física e moral, de sofrimentos e padecimentos inenarráveis.

Mas afinal, quem era este homem que provocou tamanho rebuliço e fez aflorar um quadro de misérias tão grande? Mozart da Costa nasceu em Minas Gerais, de onde era sua família. Realizou viagens por várias partes do mundo, tendo permanecido, em aprendizagem, na Índia por oito anos, onde teria sido iniciado em templos hindus. Voltou ao Brasil por Buenos Aires, tendo trabalhado numa estância no interior do Rio Grande do Sul. Retornou depois a Minas Gerais, onde passou a exercer o poder de cura quando foi autorizado pelos seus ‘mestres’. Ele afirmava ser um médium iniciado no ocultismo e era também maçom, de grau 33. Foi vítima de repressão no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Foi preso, respondeu a processo e chegou a ser internado num hospício, mas sempre conseguiu a liberdade por interferência de confrades espíritas, que ora se encarregavam de sua defesa, ora cumpriram a pena por ele, ficando

alguém na prisão no lugar do médium.40

Mozart dizia ter feito milhares de curas. Afirmava que elas ocorriam de acordo com a vontade de Deus e a fé do enfermo. Dizia-se auxiliado por ‘espíritos de luz’. Dentre eles, nomes bastante conhecidos nos centros espíritas, como os de Chapot-Prevost, Dias da Cruz (nome de uma das sociedades espíritas em que foi recebido) e de Bezerra de Menezes, que o ajudava em caso de operação, realizada espiritualmente. Na sua estada em Porto Alegre, Mozart atendeu cegos, paralíticos, epiléticos, leprosos, pessoas com feridas. Não cobrava nada, e a União Espírita passou a fornecer os remédios após a primeira semana de atendimento, porque os populares tinham dificuldade em adquirir os remédios receitados, devido à exploração dos preços no mercado.

Suas curas eram tidas como milagrosas. A imprensa descreve vários exemplos em pacientes considerados inválidos. Um deles procurou o jornal Diário de Notícias para contar a sua recuperação. Seu nome era Honorio Rosa Damasceno, branco, 30 anos, casado, residente nas minas de São Jerônimo. Contou que desde 1923 encontrava-se doente de reumatismo sifilítico. Dizia-se completamente entrevado, andando com muletas e possuindo movimento apenas no braço esquerdo. Não tendo obtido melhoras com nenhum tratamento aos quais havia se submetido, resolveu dirigir-se à capital para consultar Mozart. Como houvesse muita aglomeração no prédio da Sociedade Espírita, onde o médium estava atendendo, resolveu esperá-lo na porta do hotel. Dizia ter esperado muito tempo, até que Mozart chegou. Eis a descrição do encontro:

Vendo-o, Mozart perguntou-lhe o que fazia ali. Respondera que

estava doente, entrevado, e que fora procurá-lo para curar-se.

O ‘médium’ acercou-se, então, dele, fitou-o, fez-lhe algumas

perguntas e, depois, ordenou-lhe que abandonasse as muletas

e caminhasse. Relutou em obedecer, receoso de cair, mas, a

uma repetição da ordem, deixou as muletas e deu alguns

passos. Determinou-lhe o ‘médium’ que subisse a escada e, já

então confiante, fez isso com todo o desembaraço e chorando

de comoção e agradecimento. Mozart disse-lhe que precisava

ainda de tratamento e deu-lhe uma receita. Dali, dirigiu-se a pé

para o centro da cidade, com as muletas embaixo do braço,

indo às redações dos jornais. Terminou Honorio dizendo que

sentia apenas nas pernas uma certa dormência e no pé direito

alguma dor, o que atribuía à grande caminhada que dera depois

de estar tanto tempo entrevado, sem poder andar.41

Mozart procurou explicar a atividade que realizava nas entrevistas que deu aos jornais locais. Suas falas aparentam humildade, dizendo não pretender afrontar outras religiões, nem os médicos:

Os médicos guerreiam-me sem razão. Eu não faço milagres.

Tenho apenas fé no Criador. Nada mais. E se é certo que não

posso curar todos os casos, garanto curar muitos outros que

eles julgam incuráveis. Não é um desafio que lhes faço. É uma

garantia que lhes dou da minha ‘mediunidade’. Quem duvidar,

que apareça para verificar.42

Afirmava constantemente estar aberto a todos os testes. Acadêmicos da Faculdade de Medicina compareceram à sociedade, onde o médium atendia, e este pediu-lhes que lhe apresentassem 50 paralíticos, em tratamento na Santa Casa, para atendê-los em sessão reservada aos estudantes. Esse convite podia ser um ato de desafio entre crenças opostas, mas, aparentemente, esses estudantes de medicina não teriam nenhum preconceito sobre assistir às curas realizadas e explicadas pelo médium. O médium também não tinha nenhum constrangimento em ser ‘analisado’ pelos defensores da ciência. Havia uma maior maleabilidade sobre os procedimentos de cura tanto entre os espíritas como entre os médicos formados na década de 1920. A condenação dos procedimentos espíritas como superstição foi consolidada mais tarde.

Mozart da Costa revelava tranqüilidade quanto a sua ‘missão’: “sou ‘médium’; não sou porque queira ser nem está na minha vontade deixar de o ser. ‘Médium’, sabeis bem, é todo ser humano dotado de faculdades especiais, capaz de receber as inspirações de outros

espíritos desencarnados”.43

Dizia que realizava o que a outros alegrava e satisfazia, não se orgulhando da faculdade que possuía, mas agradecendo por tê-la recebido, já que era um desígnio divino, contra o qual não podia se rebelar. Afirmava que cada um teria a sua missão, suas provações, torturas morais e padecimentos físicos, que seriam vontade divina. Rebelar-se significaria rebelar-se contra Deus. A fé, muitas vezes, por si só, representaria a cura. As pessoas precisariam ter “paciência, resignação, desejo e vontade”, não podendo se entregar à dor. Sua missão não seria realizar milagres, mas aliviar os males

dos sofredores e crentes.44

Num inquérito que o jornal Diário de Notícias abriu para elucidar o ‘caso Mozart’, foi ouvido um espírita para explicar as curas que o médium realizava. Dizia haver uma força natural de reação que todo organismo despenderia para restabelecer qualquer mal e também uma faculdade que todo homem possuiria de transmitir a outro o fluido vital pela magnetização. A cura ocorreria quando houvesse uma ação estimulante do magnetismo, despertando as reações naturais do doente e também porque esse doente teria recebido fluidos curativos. O médium teria a propriedade de magnetizar. Magnetizar seria

a ação pessoal, física ou fisiológica, do homem sobre o homem,

[que] produz fenômenos insólitos no corpo humano,

comparados aos que caracterizam o ima (sic) – fenômeno

hipnótico ou magnético – [e] tem como causa o fluído vital ou

nervoso ou magnético, que se transmite de uma pessoa para

outra. Essa força é desenvolvida pelo exercício constante.45

Paulo Hecker, o espírita consultado, levava em conta as afirmações do próprio médium para fazer uma avaliação a seu respeito. Afirmava que as curas realizadas por Mozart ocorreriam por vontade divina, pelo ardente desejo de curar e pelo absoluto desinteresse, o que atrairia a assistência de espíritos guias que lhe emprestariam virtude e mérito para que pudesse realizar a ‘Suprema Lei da Caridade’. Nesses casos, com elevação e concentração, tinha-se a impressão de que o médium operara um milagre, tal a evidência do alívio ou da cura. Contudo, sua explicação era:

O milagre não existe, acontece que o doente chegara ao termo

de sua provação, ou, hipótese muito comum, que o médium

consegue, com auxílio do Guia, aquilo que está fora das

possibilidades humanas e que a medicina ainda não quis

investigar por temer encarar de frente a Verdade. Enquanto a

arte de curar só visar o organismo, não se apercebendo da

íntima ligação do espírito com a matéria, todas as terapêuticas

serão mais ou menos empíricas, não atingirão o ideal, só se

aproximarão.46

Explicava que o médium curador não dispensaria o médico, a ação da mediunidade não contradiria as leis que a ciência médica descobriu. A ação do médium poderia e deveria ser conciliada com a do clínico. Esse espírita considerava que Mozart possuía a faculdade curadora muito desenvolvida. Achava que Mozart era kardecista pelo desinteresse com que atendia sem cobrar, pois os médiuns dessa orientação teriam preocupação com a caridade. Segundo ele, outros médiuns da capital teriam afirmado que ele era assistido por um guia hindu. Considerava sua fé extraordinária devido à sua capacidade de trabalho quase sem dormir e mal

alimentado. 47Afirmava que médicos e padres esqueciam que os doentes que recorriam ao espiritismo eram aqueles já desenganados ou que não chamariam os médicos, uns por motivos íntimos de consciência e outros por falta de dinheiro para pagá-los, demonstrando que nem o interesse material dos médicos justificaria a perseguição aos espíritas. Também reiterava que a perseguição em nome da ciência não se justificava, porque vários cientistas verificaram, cientificamente, a perfeita e contínua comunicação dos espíritos mortos com pessoas encarnadas. A repressão ao espiritismo não o destruiria porque as medidas decretadas contra os médiuns não atingiam os espíritos, que procurariam outros médiuns – em suas palavras, estes existiriam em todos os lares.

Considerava, ainda, ilegal a repressão aos curadores porque a prática destes era religiosa, cujo objetivo era a caridade, exercida por um espírito através de uma pessoa em nome de Jesus, não cabendo ao intermediário aceitar recompensa alguma. Para o médium, isso representava um sacrifício, ocupando-lhe o tempo que precisaria para seu próprio sustento. Eles não anunciavam sua atividade, pois esse era um ato de caridade, apenas esperava que lhe pedissem, não lhes sendo necessário ver o enfermo para

realizar a cura.48

Se podia rever o princípio da ‘liberdade profissional’, o Estado não podia intervir na prática da caridade nem contestar a sua possibilidade curativa porque, segundo a Constituição, o governo não teria competência de intervir em matéria de crenças. A caridade diferenciava-os dos médicos, que exerciam uma profissão, anunciando-a e recebendo remuneração. Equiparou a prática do médium à do padre, que podia realizar gestos de bênçãos, dar a hóstia, enviar ramos aos enfermos, abençoar medalhas e frascos de água benta, da mesma forma que os médiuns davam passes, pastilhas homeopáticas, ervas medicinais, água fluidificada. Concluía, lançando mão dos preceitos positivistas que ainda faziam sentido no Estado, afirmando que deviam ser garantidos os mesmos

direitos a todas as atividades de se manifestar e atuar. 49

Segundo esses diversos argumentos, pode-se acompanhar a perspectiva defendida pelos apoiadores do espiritismo e sua técnica de cura: os pressupostos da existência de Deus, da imortalidade da alma, a crença na reencarnação e na pluralidade dos mundos habitados, incorporados com a prática das manifestações dos espíritos. A idéia de evolução é fundamental, extrapolada para o mundo espiritual, no qual os indivíduos deveriam passar por várias etapas até chegarem a ser ‘espíritos de luz’. Apresentava-se como uma doutrina, que tentava conciliar o racionalismo com a crença na sobrevivência individual do espírito e em seu progresso infinito, procurando explicar os fenômenos espíritas de acordo com a ciência. De acordo com a idéia evolucionista por eles defendida, é compreensível a ênfase dada à caridade. As desigualdades sociais, inerentes ao mundo material imperfeito, eram aceitáveis porque necessárias ao progresso dos espíritos. Afirmavam não se contrapor aos médicos e outros ‘cientistas’: afinal, defendiam uma doutrina que também se dizia científica.

Esses elementos da doutrina foram formulados pelo francês Léon Hippolyte Dénizart Rivail, conhecido por Allan Kardec, publicados no Livro dos Espíritos, em 1853. Ele organizou o conjunto de crenças básicas do movimento espírita, formulado como ciência, filosofia e religião, que foi adotado no Brasil. O kardecismo teve extraordinária difusão por todo o país no final do século XIX e início do XX. As primeiras organizações espíritas surgiram na Bahia (1865 e 1874) e no Rio de Janeiro (1873), chegando à organização de uma Federação Espírita Brasileira, em 1884, e indicando uma tentativa de preservar a unidade doutrinária e o esforço de reunir, de modo institucional, a crescente população de fiéis dispersos (Camargo, 1973; Damazio, 1994; Giumbelli, 1997).

Allan Kardec codificou o espiritismo com bases ‘científicas’, diferenciando-se do ‘espiritualismo’ de até então. Foi uma perspectiva que integrou os ideais científicos que estavam surgindo numa concepção filosófica e religiosa, coerentemente articulada. O próprio desenvolvimento científico é aceito como responsável pelas reelaborações doutrinárias, sujeitando-se mesmo a discussões e críticas. A codificação realizada por Kardec foi elaborada num momento histórico em que o pensamento filosófico e científico encontrava-se profundamente influenciado pelo racionalismo e pelo evolucionismo, incorporando possibilidades relacionadas a estes ideais. A explicação racional oferecida por essa doutrina facilitava a sua aceitação, principalmente a partir de uma minoria intelectual que buscava formas de articulação do religioso com o pensamento científico. No Brasil, especialmente, esses fatores foram fundamentais para sua aceitação, fazendo com que o aspecto religioso se tornasse preponderante, desenvolvendo a capacidade de apresentar uma interpretação coerente do mundo, explicando a posição dos indivíduos na estratificação social e orientando a

conduta do dia-a-dia. 50

Mozart Teixeira da Costa era um homem branco, muito bem recebido pelos demais membros da Sociedade Espírita do Rio Grande do Sul. O espiritismo no estado tinha grupos organizados desde 1891, quando ocorreu a fundação do Centro Espírita Rio Grandense, na cidade de Rio Grande. Em 1894, foi fundado o Grupo Espírita Allan Kardec, em Porto Alegre. Seus membros, junto

com outras sociedades,51 fundaram a Federação Espírita do Estado

do Rio Grande do Sul, em 1921.52

O grande destaque da doutrina espírita, no Brasil e Rio Grande do Sul, é sua aceitação por imigrantes de prestígio econômico e cultural. Boa parte dos membros dos centros espíritas, no início do século, eram advogados, médicos, engenheiros ou militares (Damazio, 1994). Provavelmente, o destaque que essa doutrina assumiu em Porto Alegre, na década de 1920, deveu-se à participação de membros ‘letrados’ da sociedade riograndense. Os adeptos, que aparecem nos jornais como membros das sociedades espíritas ou como difusores da doutrina em Porto Alegre, também pertenciam aos mesmos grupos profissionais já citados.

Para esses membros, a teoria conjugava uma explicação racional com possibilidades de cura, oferecendo uma interpretação de mundo coerente, sem negar elementos do catolicismo, pois se inspiram nos Evangelhos e na ética cristã, considerando Cristo como a maior entidade encarnada. Não se encontrava, pois, comprometida com nenhuma alternativa de dessacralização implantada pela República nem exigiria uma conversão dos seus adeptos. Propunha uma articulação de seus princípios para a vida cotidiana, baseada na caridade, e oferecia possibilidades de terapia gratuita, da qual seus adeptos foram eficientes propagadores durante a visita do médium Mozart. Num estado onde o autoritarismo positivista mantinha sua articulação, uma perspectiva religiosa que não tinha nenhum compromisso com eles conseguiu granjear simpatizantes até mesmo nas fileiras do Partido Republicano Riograndense (PRR). Principalmente, o sucesso dessa doutrina deve-se ao fato de ela ter articulado, coerentemente, a ciência com elementos mágicos, aproximando médicos formados, positivistas e doentes (de corpo e espírito) em geral. A explicação ‘mágica’ do mundo não deixou de integrar-se, adaptando-se a outras formas de conhecimento.

Além dessa aceitação da doutrina por uma elite, observou-se grande popularidade das práticas espíritas entre os grupos sociais mais carentes. Seu conteúdo doutrinário elaborado não auxiliava sua absorção pela massa de doentes pobres que procuraram Mozart no estado. Porém, o tratamento mediúnico oferecido facilitava a assimilação de certos aspectos do espiritismo pela religiosidade popular. Alguns dos seus preceitos eram muito semelhantes aos cultos populares de origem africana, como a possessão pelos espíritos. Essa semelhança foi um elemento fundamental para a popularidade da doutrina espírita. Ela se aproximava das práticas de cura brasileiras tradicionais, exercidas por intermédio de receitistas e curandeiros. Eram crenças populares arraigadas por várias gerações. A medicina mediúnica obteve sucesso num ambiente tradicionalmente impregnado pela crença em poderes psíquicos e/ou sobrenaturais de cura (Damazio, 1994). A busca pela cura foi um importante fator de crescimento do espiritismo na região.

Essa busca terapêutica também favoreceu o crescimento de outros centros de cura na capital do Rio Grande do Sul, como o Templo Nazareno, da Sociedade Nazareno Anjo Feliciano. O dirigente dessa sociedade foi entrevistado na sede do templo, em 1927, pelo jornal Diário de Notícias. Segundo o jornalista, era um templo espaçoso, com salas para festas, sessões e passes, de muito “boa aparência”. A sociedade havia sido fundada, em 1901, pelo sr. Alfredo Silveira Dias, quando ele diz ter descoberto sua vocação após ter percorrido quase todas as religiões praticadas em Porto Alegre, chegando à conclusão de que nenhuma o satisfazia porque eram “eivadas de práticas materialistas que as desviavam dos Evangelhos”. A última religião em que haveria militado fora o espiritismo, e a seita que ensinava seria, estritamente, baseada nas verdades enunciadas por Jesus Cristo. Praticava curas com passes e remédios, cujo segredo só ele conhecia, sem cobrar, realizando “verdadeiros milagres”, pois pessoas consideradas incuráveis lá encontravam lenitivo.

Pai Alfredo era um homem branco, de bom porte, que falava com clareza e usava óculos de tartaruga (o jornalista afirmava que “esperava encontrar um negro velho, mal suportando o peso dos

anos, sobre um bastão, seu companheiro desde a África”). 53 O jornal A Noite afirmava que ele reunia adeptos em sua residência e, com o aumento extraordinário do seu número, resolveu fundar a

sociedade.54 Alfredo Dias era bastante zeloso de sua imagem pública, e movia processos por calúnia contra jornais que comprometeriam sua “honra” e o exporiam “ao ódio e desprezo

público”. 55

Além dos atendimentos na sociedade, pai Alfredo socorria pessoas em suas residências. Em 1914, por exemplo, foi chamado a atender uma pessoa que se dizia tomada por um espírito de seu irmão, pronunciando frases sem nexo, sendo “atormentado atrozmente”. Conversando com o “espírito”, pai Alfredo teria conseguido convencê-lo a abandonar o corpo em que estava e convidou o “obsedado” a assistir a uma sessão espírita como remédio para seu “mal”. O “paciente” acompanhou pai Alfredo, mas sentiu-se mal e muito cansado ao longo do caminho. Chegou na sociedade abatido, mas sentou à mesa para assistir à sessão, no decorrer da qual faleceu. A morte só foi detectada quando a sessão terminou. O médico legista e a polícia concluíram que ele era cardíaco e havia falecido de “síncope respiratória” pelo abalo sofrido. Essa foi a versão apresentada pelo jornal A Noite, sem maiores comentários,

no dia 14 de abril de 1914. 56

A partir do dia 17 de abril, o jornal fez uma campanha contra as “explorações torpes exercidas por ignorantes, mas espertalhões,

que não cansariam de ludibriar a boa fé e a crença populares”.57 Diziam que o baixo espiritismo, “não científico”, a “crendice grosseira do vulgo” estava se espalhando por todos os cantos da cidade. “Não há arrabalde que não tenha duas ou três casas assombradas e outras tantas, onde se conversa, tête-àtête com as almas do outro mundo”. Confirma-se, nessa reclamação, o imenso prestígio dos médiuns ‘curadores’ do corpo e da alma no período. Citava casas onde apareciam entidades; homens que passavam receitas e tiravam espíritos, como José Valente e Alfredo Dias; que anunciavam preparados medicinais desconhecidos, como o Sufficit que curava todas as moléstias adquiridas e por adquirir; o dr. Menezes, fundador da Farmácia Africana, que anunciava um bálsamo extraído de espinhaço de cobra e tinha uma cobra viva que acalmava dores nevrálgicas e reumáticas passando a língua do animal sobre as partes afetadas – além, claro, dos que tratavam de amores mal correspondidos, pouca fortuna, os que vendiam talismãs. O texto indica uma grande disseminação das diversas práticas em todos os grupos sociais, justamente o ‘mal’ que o jornal procurava combater. Na versão que passou a ser contada sobre a morte do rapaz cardíaco, esta era considerada como de responsabilidade de pai Alfredo, pois o rapaz teria sido levado contra a sua vontade e morrido por obra dele, ao pronunciar as primeiras palavras do ‘ritual’; a própria polícia era criticada, pois teria

deixado pai Alfredo em liberdade ( 58 A Noite , 27 e 28 abr., 1914).

A ‘curiosidade’ pelas práticas ‘supersticiosas’ fica evidenciada quando elas são assistidas por ‘autoridades ilustres’ de Porto Alegre. Na mesma época da morte do rapaz cardíaco, a cidade recebeu a visita do ocultista A. de Sarak, ‘conde Dás’, que se dizia doutor em medicina, diretor da Revista Oriental de Paris e cônsul geral do México na Suíça. Apresentou uma palestra sobre ocultismo, fazendo experiências como adivinhar nomes, descrever casas dos presentes, adivinhar jogadas de gamão de olhos vendados, pintar um quadro em 12 minutos etc. A palestra contou com a presença de Borges de Medeiros, presidente do estado, Protásio Alves, médico partidário do governo republicano, dentre várias outras pessoas de renome. O jornal A Noite (9 e 14 maio1914) procurou levantar dúvidas a respeito do ocultista numa segunda oportunidade em que ele se ‘apresentou’, afirmando que ele usava truques para as suas experiências em público, que seriam perfeitamente explicáveis.

Entretanto, provavelmente havia mais do que mera curiosidade por parte de pessoas influentes do governo estadual. Tudo indica que tinham preocupação em proteger-se e em ‘abrir os caminhos’ do governo, como afirma a tradição oral dos praticantes do batuque. O próprio Borges de Medeiros teria como pai-de-santo o ‘Príncipe’, José Custódio de Almeida, figura legendária na memória dos integrantes do culto. Parece que José Custódio era um membro da família real de Ajudá, na atual República de Benin, de cultura jeje. Nascido em 1820, por injunções da dominação inglesa na região terminou vindo para o Brasil, já na casa dos 30 anos. Montou uma ‘casa de religião’ em Porto Alegre, vivendo de uma pensão do governo inglês. Possuía cavalos no Prado e convivia com a elite branca. Morreu em 1938, tendo seu enterro sido acompanhado pela

alta sociedade da época. 59

A grande concentração de práticas de cura na área urbana, recebendo intensa propaganda, parece ser uma realidade também do Rio de Janeiro, arregimentando fiéis não só nos setores populares, mas também nas elites (Pechman, & Fritsch, 1985; Maggie, 1992). Parece ter havido um processo de amplificação das práticas afro-brasileiras nas cidades, possibilitando uma reorganização negra, apoiado em características que eram fortes na cultura dos escravos: sua maleabilidade, capacidade de mudança e adaptação. Duas das regras básicas de sobrevivência da religião afro-brasileira em períodos de repressão foram a aliança com pessoas influentes e a discrição (Reis, 1988), que parecem ter sido adotadas pelos casos de curandeiros negros já descritos. Com o tempo, simpatizantes e aliados brancos foram incorporando-se. Chegaram a constituir casas, como é o caso do pai Alfredo, que também indica que as casas passaram a adotar e metabolizar elementos culturais diversos, incorporando elementos do espiritismo, da teosofia, da parapsicologia e dados científicos

popularizados (Correa, 1998).60

Yvonne Maggie desenvolve a hipótese de que os mecanismos reguladores criados pelo Estado a partir da República não extirparam a crença nas práticas mágicas, mas foram fundamentais para sua constituição. O estudo de processos de crimes no Rio de Janeiro apontou uma preocupação em identificar ‘feiticeiros’, autores da ‘magia maléfica’, e não em liquidar as crenças. Religiões mediúnicas e cultos são percebidos como práticas de ‘magia benéfica’, trabalhando para o bem e cultuando os ‘verdadeiros’ espíritos (Maggie, 1992). No Rio Grande do Sul, com a liberdade profissional e religiosa, portanto, sem elementos repressores explícitos, práticas místicas foram intensas, incorporando grande

parte da população.61

A aproximação de representações místicas visava a oferecer um sentido às dificuldades das pessoas que as procuravam. A eficácia da cura implicava a crença da magia, apresentada sob três aspectos complementares, como afirma um estudo, considerado clássico, de Claude Lévi-Strauss. Existe a crença do feiticeiro na eficácia de suas técnicas, a crença do doente que ele cura e a confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam uma espécie de campo de gravitação no seio do qual se definem e se situam as relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça. A atitude do grupo é fundamental para estabelecer o sucesso ou fracasso das práticas mágicas, que devem articular as dificuldades como uma totalidade compreensível, readaptar o grupo a problemas predefinidos (Lévi-Strauss, 1967). Essas condições, ao que parece, foram atendidas pelos diversos grupos que se organizaram no período.

O cotidiano das casas de cura

Em torno de médiuns, espíritas e curandeiros organizava-se quase que um sistema alternativo de saúde, que convivia com os hospitais medicalizados. Alguns episódios policiais revelam sua existência e deixam entrever um pouco do seu cotidiano. Havia, por exemplo, a

casa de ‘espiritismo’ Monteiro Lopes. 62 O presidente da sociedade era o ‘velho’ Matheus Fabrício, que recebia o espírito de Dom Feliciano. O ‘velho’ Fabrício presidia casamentos, benzia e dava remédios receitados pelos espíritos, classificados como ‘homeopatia receitada pelo espaço’. Essa entidade tinha um administrador, chamado Alfredo Joaquim Duarte (27 anos, carpinteiro), que cobrava uma associação das pessoas interessadas e presidia as ‘sessões’. Todos que organizavam a entidade, bem como seus familiares, moravam numa mesma casa, sede da sociedade, que também recebia outros membros quando estes precisassem realizar algum trabalho.

As sessões daquela sociedade desenvolviam-se da seguinte forma: todos se sentavam em torno de uma mesa, com os médiuns e Alfredo presidindo a sessão. Após o pai-nosso espírita, concentravam-se para receber as entidades. Os médiuns, em transe, diziam que não sabiam o que se passava depois. Após a sessão, que ia até por volta das 10 horas da noite, Alfredo mostrava-lhes as receitas ‘vindas do espaço’. Algumas pessoas pernoitavam na entidade, conforme o ‘serviço’ a ser feito após a sessão. Esses ‘serviços’ eram variados e indicam que eram praticados rituais diversos. Um cliente da casa tentara curar sua mulher, que estava doente havia quatro anos sem que os médicos resolvessem. Primeiramente, tratou-a com remédios fornecidos por Alfredo, mas sua esposa permaneceu na mesma. Alfredo disse, então, que ela estava enfeitiçada. O ‘serviço’ era mostrar o autor do feitiço numa bacia ou num espelho, por 12 mil-réis. Na hora da prece, comunicou-se um espírito, mas nada apareceu. Porém, Alfredo não lhe devolveu o dinheiro, dizendo que o guia Santo Agostinho não havia permitido. Alfredo também havia pedido meio quilo de carne e azeite de dendê para fazer um despacho a ser deixado numa encruzilhada, dizendo que o dinheiro era para comprar comidas para o cavalo de São Jorge e Mãe D’água. A polícia afirmou em seu relatório que a religião professada pelos adeptos da casa era ‘manqué’. Essa sociedade autodenominava-se espírita, mesmo que sua prática fosse de outros cultos, como parece ser o caso mencionado.

As informações sobre a sociedade chegaram até nós por meio de um processo criminal. Dona Maria Domingas Luiza da Silva apresentou queixa pelo defloramento de suas duas filhas, em 1918, motivando um processo contra Alfredo Joaquim Duarte. A família das meninas freqüentava a Sociedade Monteiro Lopes em busca de cura para suas doenças: Maria do Carmo (há contradição sobre sua idade, a mãe afirmava que a menina tinha 16 anos, ela dizia ter 18) sofria ‘ataques’ e começou a freqüentar o centro com sua mãe, recebendo passes para tratar de seus problemas. Foi batizada pelo espiritismo, tendo Alfredo como padrinho e na presença de seus familiares, incluindo a mãe, o pai e uma irmã casada, todos participantes ativos da entidade. O processo parece ter sido motivado pelo fato de Maria do Carmo e uma outra irmã, Galdina (13 anos) terem fugido da casa de sua mãe e as tentativas de trazê-las de volta terem sido infrutíferas. A mãe acusou o administrador da

sociedade, onde elas estariam hospedadas, de defloramento. 63 Há depoimentos tanto de acusação quanto de defesa sobre a casa de Alfredo. Parentes da moça, que era ‘casada pelo espiritismo’ com Alfredo, acusam-no de tê-las seduzido, mas todos os parentes foram freqüentadores das sessões antes desse ‘desencaminhamento’, demonstrando uma grande participação de todos os envolvidos na sociedade espírita. De qualquer forma, o processo foi julgado improcedente, por não haver prova de criminalidade nos fatos narrados na denúncia.

Há representantes de diversos interesses ‘depondo’ nos autos e construindo as versões que lhes parecem plausíveis, para si e para os outros. A Sociedade Espírita Monteiro Lopes receitava homeopatia, indicada por intermédio da ação de ‘espíritos’, e fazia trabalhos de ‘despacho’ em caso de pessoas ‘enfeitiçadas’. Articulava uma lógica de vida que incluía até casamentos e batizados. Apesar das diversas versões acusando a casa de ‘maternidade’ (local onde se aliciavam moças para a prostituição) e de ‘feitiçaria’, onde se provocava o mal aos ‘ignorantes’, todos os depoentes (com apenas uma exceção) haviam participado antes das sessões. Suas desavenças pessoais é que os afastaram. Todos procuraram algum alento numa instituição que apontava a cura como principal atividade, justificando sua existência.

A análise, realizada por Paula Montero, sugere uma reinterpretação da doença para as pessoas envolvidas em práticas de cura, que seria produzida pelo pensamento e pela prática religiosa, que transforma a doença numa noção mais abrangente, capaz de dotar de sentido uma realidade que se apresenta aos indivíduos afetados como desordenada e caótica. A experiência individual da doença passa a integrar um conjunto de relações e conflitos tematizados pelo universo simbólico religioso. Suas frustrações, antagonismos, contradições pessoais articulam-se num sistema significativo, abrindo possibilidade para o indivíduo compreender que seus males não advêm de sua ‘fraqueza’ ou ‘inferioridade’, mas têm a ver com a

sua inserção no todo social (Montero, 1985). 64 Seus problemas são causados além de si, podendo ser resolvidos no culto religioso, manipulandose os caracteres simbólicos, de forma mágica.

Com base em estudos antropológicos em comunidades carentes em Porto Alegre, parece possível afirmar que a doença não precisa ser diagnosticada, mas explicada, oferecendo-se assim um sentido para a desordem que acometeu o indivíduo repentinamente. A doença é visualizada como uma desordem da vida habitual e deve organizar-se por explicações plausíveis, que ofereçam ao indivíduo e ao grupo uma forma coerente de explicação. Pela experiência dos indivíduos doentes no seu grupo é que ele pode encontrar um significado para aquilo que parece não ter sentido. Para setores populares, religião – ou sistema de crenças de ordem mística –, é que ocupa esse papel ordenador da desordem causada pelo não explicável. Buscando causas para as doenças, no mais das vezes externas ao próprio indivíduo, e associando-as a formas terapêuticas, possibilitam a criação de um modelo explanatório coerente e lógico (Vasconcellos, 1995). Essas reinterpretações parecem dar o sentido buscado pelas famílias que freqüentavam a Sociedade Monteiro Lopes.

Isso fica mais claro quando a doença se refere, especificamente, ao campo da ‘doença mental’. O processo contra familiares, amigos e o curandeiro espírita Norberto Pereira Nunes pela morte de Rosa

Praia dos Santos é bastante significativo. 65 Esse processo também nos revela uma outra entidade bastante freqüentada em Porto Alegre, nas duas primeiras décadas do século XX: a Sociedade Espírita Dias da Cruz, que tinha um consultório especial, com um grande altar, diversos santos e bancos, atendendo, diariamente, mais de cem pessoas, dizendo curar toda espécie de enfermidades por meio do espiritismo, recebendo gratificações para realizar essas atividades.

Continuar: parte 3 de 3