Cuidar, Controlar, Curar: Ensaios Históricos sobre Saúde e Doença na América Latina e Caribe
Fragmentos de um mundo oculto: práticas de cura no sul do Brasil
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O processo descreve os problemas enfrentados por Rosa dos Santos. Ela havia consultado diversos facultativos da capital, inclusive um médico licenciado, mas seu estado de saúde não melhorara. Como já houvesse freqüentado a sociedade espírita Dias da Cruz, foi se consultar com o ‘dr. Norberto’, médium nessa instituição. Rosa teria uma tuberculose em último grau, diagnosticada por Norberto, que a ‘desenganou’, aconselhando-a a procurar outros recursos, tendo apenas aplicado-lhe uns passes. Do relatório policial, porém, consta que Norberto teria começado o tratamento de Rosa, receitando-lhe xaropes e fazendo-lhe uma “série de bruxarias, como seja, a de colocar nas pernas da doente galinhas e galos abertos, dizendo ser sinapismo”. Após um mês, Rosa piorou, sendo obrigada a “guardar o leito”. Nos últimos dias, Rosa manifestou “sintomas de alienação mental”, pelo que lhe foi aplicado grande número de golpes de vara de marmelo, vindo a falecer dois dias depois. A autópsia não esclarece a causa mortis porque a falta de cuidados e de alimentos podem tê-la provocado, mas constatou sinais de possíveis varadas.
Os depoimentos de vizinhos afirmam que Rosa, após ter guardado o leito, fora impedida de alimentar-se e recebia varadas até que se calasse, quando pedia alguma coisa. Os que a cuidavam eram seu amásio, Emílio Corrêa, Miguelina da Conceição e Florinda Corrêa. Seus cuidados são descritos pelos vizinhos como cenas bárbaras, onde havia gritos e risadas, escarnecendo dos pedidos da doente. Ouviam Miguelina e Florinda dizer que era santanaz (sic) no corpo de Rosa, negando-lhe alimento porque era o tinhoso que pedia, assim como deixavam-na no leito no meio da maior imundície. Emílio afirmava que o curandeiro que tratava dela recomendara não lhe darem coisa alguma, porque era o diabo no seu corpo. Dizia que Rosa já estava com seu “tempo terminado”, devendo “sucumbir”. Os vizinhos afirmavam que Rosa não apresentava sintomas de alienação mental, só que era muito magra, com dois filhos, e que trabalhava muito.
Norberto modificou seu segundo depoimento, passando a dizer que havia receitado um xarope de mastruço com bálsamo, um fortificante, um emplastro poroso na frente e nas costas e um sinapismo feito com galinha aberta ao meio e posta nas pernas da doente, para tirar-lhe a febre (realizado duas vezes), por “insistência da doente” e a mando dos “irmãos do espaço”. Ele afirmava que, apesar de tê-la desenganado diversas vezes, continuou a “fazer caridade”, dando-lhe passes. Todos os denunciados, Emílio, Miguelina, Florinda e Norberto, procuraram eximir-se de qualquer responsabilidade, mas na revisão do processo há a afirmação de
que se comprometeram mutuamente. 66
Os envolvidos no caso eram todos negros (só não há afirmação sobre a cor de Norberto), com precárias condições de vida, nunca mencionando nos depoimentos que Rosa tivesse tuberculose. Era “doente”. Quando ficou de cama, foi considerada ‘endemoninhada’, apenas no último depoimento foi que Emílio disse que sua amásia estava “alienada”. Provavelmente, as pessoas que cuidaram de Rosa sequer sabiam o que podia ser tuberculose. A compreensão da doença remeteu-os a um universo mágico. Cair doente era possessão. Sendo muito grave, era o demônio. Era o universo reconhecível por essas pessoas, assim como pelos vizinhos dos arrabaldes em que moravam (apenas um deles chegou a dizer que Rosa era tuberculosa). Mais reconhecível, para essas pessoas, era o universo mágico, no qual as pessoas doentes estariam possessas, do que o significado de tuberculose, ou outro nome científico, que não identificavam, pois não lhes dizia nada. Talvez temessem mais as doces irmãs de caridade ou as palavras difíceis do doutor que as torturas do curandeiro. Conjuntamente, a explicação dada à doença de Rosa pelos membros da sociedade e o tratamento oferecido pelo médium Norberto designavam um sentido compreensível para essas pessoas, mais claro do que a explicação científica oferecida pela medicina.
Contudo, não só a população mais carente incorporava a idéia de doença num universo místico. Uma notícia do jornal Gazeta do Commercio, sobre a presença de um médico alemão em São Sepé, aponta que até os donos de uma fazenda faziam essa relação. Estavam doentes e o médico afirmou que também estavam enfeitiçados. O médico receitou, rezou muito, benzeu-os, e depois de muitos esforços, os enfermos passaram a melhorar. O médico foi visitado por vizinhos do fazendeiro, que também estariam enfeitiçados (Gazeta do Commercio, 30 mar. 1906). Não só a explicação por meio de ‘feitiços’, mas todo um universo sobrenatural parece fazer parte dos diversos curandeiros. Numa visita que jornalistas da Gazeta do Commercio fizeram a uma cartomante, em 1905, procuravam a explicação para uma onda de suicídios, raptos, defloramentos, assassinatos e outros crimes pelo “abuso da cartomancia”. Visitaram uma mulher morena, numa casa antiga nos arrabaldes da cidade, que atendia “com sucesso” há 15 anos. As consultas da cartomante relacionavam-se, quase sempre, com a “vida íntima e o lar”, havendo alguns dias consagrados totalmente às visitas de namorados. Dispunha de certa “faculdade mediúnica”, da qual se utilizava para proporcionar a cura de certos enfermos que a procuravam, com o auxílio de rezas e benzeduras. Não tinha nenhum atestado dos consulentes porque não lhes pedia, porém relatou diversos casos de previsões que teriam repercutido na sociedade porque referiam-se a suicídios, assassinatos, prêmios de loteria. As cartas tinham o poder de revelar-lhe dados do futuro e do passado, que ela interpretava com seus dotes mediúnicos, apesar de não considerar os infortúnios como feitiçaria, mas como “passos do destino” (Gazeta do Commercio, 1, 3 e 8 jun., 1905).
Esse universo constituía a perspectiva das pessoas, que os jornais procuravam desqualificar como idéias dos ignorantes, crendices dos que exploravam a população. Só que compunham as crenças de boa parte das pessoas, até mesmo, por vezes, do presidente do estado, também ele fascinado, como vimos, por palestras de ‘ocultistas’. Os ideais de civilização e progresso não parecem reformular as crenças místicas, mas compor-se com elas, na prática. Intelectuais é que advogavam o poder único e inquestionável da ciência. Os demais acreditavam em espiritistas, sonâmbulos, ocultistas, cartomantes, feiticeiros, médiuns, curandeiros, bolas de cristal, astrologia... até em médicos formados!
“...um enorme hospital,...” e seus Tratamentos Um cronista do jornal Diário de Notícias, já mencionado, dizia que Porto Alegre apresentou-se “como se (...) fosse um enorme
hospital”, quando da visita de Mozart da Costa. 67 Contudo, apesar das inúmeras e terríveis doenças existentes, o cronista também recupera a imagem da cidade como um local onde todos buscavam sanar seus padecimentos. Em todo o período, essa busca por solução das dificuldades relacionadas à saúde foi uma constante, mesmo que as ‘alternativas’ encontradas não fossem bem aceitas pelos médicos e pela imprensa.
Essa metáfora de um imenso hospital de doentes que não tinham cura, ou tratamento, apesar de ser uma imagem agigantada, também indica o quanto a situação era diferente da atual. Alguns cuidados são importantes quando se procura tratar dos significados de práticas de cura numa época em que não havia um conjunto articulado de instituições ligadas à saúde. As pessoas envolvidas não buscavam, necessariamente, cura. Tinham outras relações com a dor, que iam além da busca de intervenções terapêuticas como o uso de remédios, por exemplo. As experiências com a doença tinham, para elas, uma carga de significados sobre a vida, envolvendo e transformando idéias sobre si mesmas: se mereciam prêmio ou punição pelos comportamentos que adotavam; se era o destino ou a providência atuando sobre suas vidas, gerando atitudes de conformidade ou de busca de alternativas sobre a doença; se mereciam a salvação após a morte ou se iriam penar pelos desregramentos que tivessem cometido desde antes de morrerem. Os sintomas de ‘doenças’ não se relacionavam só com falta ou perturbação da saúde. Estar doente podia significar várias coisas: estar fraco, ou louco, ter algum defeito físico, ou apresentar-se entrevado, ter algum vício, ou sofrer um mal moral. A família e o grupo em que viviam desempenhavam uma função-chave nos cuidados da doença e nas terapêuticas, antes do médico, que faziam parte de cuidados secundários (Porter, 1985). Quando se adoecia, várias alternativas eram consideradas antes da procura do médico.
Nesse contexto, a primeira providência de quem adoecia era ouvir os conselhos dos vizinhos, parentes ou amigos que já haviam apresentado os mesmos sintomas, e informar-se sobre o que tinham usado. Tentava-se a utilização de chás, ungüentos, compressas etc. Depois disso, procurava-se a alternativa mais em conta e considerada mais confiável: o curandeiro, o espírita, o que benze. Trabalhos de antropologia médica mostram que os ‘caminhos que conduzem ao médico’ estão influenciados por fatores como disponibilidade real de assistência, possibilidade de o paciente pagar por ela, fracasso ou sucesso dos tratamentos extra-oficiais, maneira como o paciente percebe o problema e modo como as outras pessoas com quem convive percebem o problema. As escolhas são influenciadas pelo contexto em que ocorrem (Helman, 1994). Mas o mais comum era ele não precisar de atendimento, como expressa dona Percília da Rosa, mulher negra que completou cem anos em 1993, e foi entrevistada pelo Centro de Pesquisa de História Contemporânea de Porto Alegre: “Me criei sem saber o que era doença. Trabalhava que nem homem, trabalhava sempre e nunca fui mal de médico” (Muniz, 1994:19). Essa visão de dona Percília parece corroborar os silêncios da documentação a respeito de como a população mais carente se sentia em relação ao atendimento médico, partindo da premissa que não deveria precisar dele. Estudos antropológicos apontam o destaque dado pelos entrevistados aos problemas sociais causados pela doença, ressaltando a valorização da resistência física, do ‘agüentar a dor’, para manter-se produtivo, uma vez que é a força física a que prevalece na manutenção econômica do indivíduo e da família (Boltanski, 1989). Estar doente ou precisar procurar um médico significa ficar sem trabalhar e, portanto, sem poder sustentar a si e a sua família.
Os serviços existentes só lentamente passaram a ser vistos pela população como alternativas possíveis de serem utilizadas. A Assistência Pública, mantida pelo município de Porto Alegre a partir de 1898, passou, com o tempo, a atender maior número de pessoas. Gradativamente, foi sendo reconhecida e utilizada, à medida que se apresentava como uma alternativa e adquiria a confiança por estar à disposição. O serviço de atendimento da Santa Casa (‘sala do banco’) apresentava problemas como a demora, a possibilidade de que o atendimento não ocorresse, caso o responsável não aparecesse, e a quantidade de pessoas que o
procuravam, denunciados pelos jornais.68 Era pouca a preocupação com um atendimento de saúde pública, a não ser em caso de epidemias.
Não recorrer à medicina também era conseqüência do fato de os serviços médicos distanciarem-se das práticas e símbolos que esses grupos reconheciam e entendiam. Um exemplo dessa dissonância é o caso da morte de uma criança moradora de uma viela no Campo do Bonfim, em 1906, que fora atendida no consultório da Santa Casa. Após a consulta, sua mãe recebeu
calomelanos 69 como medicamento, para ser aplicado em casa. Ela calculou o tempo ‘de memória’, por não ter relógio, para as doses que devia ministrar à criança, e deu-lhe comida logo após o remédio. A criança faleceu no mesmo dia, à noite; os vizinhos explicaram que o sal, em comunicação com o medicamento, produziu o sublimado corrosivo que lhe causou a morte. O atestado médico dizia que a criança morreu de meningite (Gazeta do Commercio, 16 mar., 1906). Houve uma leitura diferenciada dos vizinhos e dos médicos sobre a causa da morte. Os vizinhos elaboraram sua própria versão, indicando desconfiança quanto ao que a medicação provocava naquelas pessoas. Talvez a medicação já tivesse causado problemas em outras pessoas, mas a primeira suspeita recaiu sobre o tratamento prescrito pelo doutor formado. Além disso, a notícia no jornal indica que a percepção do tempo para os médicos e para a mãe da criança era diferente, dificultando a adoção das prescrições terapêuticas e a compreensão mútua entre médicos e leigos.
Além desse afastamento, e também pela necessidade de trabalhar para se manter, as populações mais carentes não entendiam uma doença que não apresentasse sintomas, relutando em submeter-se a um tratamento regular e por muito tempo, abandonando-o assim que as melhoras apareciam e só recorrendo ao médico sob pressão de moléstias alarmantes, como era o caso da sífilis. Havia um grande temor da bouba, que apresentava placas semelhantes às da sífilis. Bouba é que era considerada uma doença extremamente grave e contagiosa pela população, mais que a sífilis, mas mesmo os médicos confundiam as manifestações das duas. A população também tinha repugnância a certos medicamentos, como o mercúrio, que era usado para tratamento da sífilis, por considerarem-no ‘inimigo dos ossos’ (Bem, 1905; Carrara, 1996). Esse distanciamento entre os saberes dos médicos diplomados e as práticas populares é bastante discutido pela antropologia, que demonstra como as práticas dos curandeiros são mais próximas da visão de mundo de quem está sendo tratado, porque levam em conta a história de cada indivíduo, oferecem explicações reconhecíveis, dando-lhes um sentido, propondo uma lógica referente ao universo conhecido, mantendo o envolvimento da família, articulando e reforçando os valores culturais do grupo em que vivem (Montero, 1985; Helman, 1994; Figueroa, 1990).
Esses elementos também são importantes para se entender a dificuldade dos doentes em permanecer num hospital, já que o internamento significava estar distante das pessoas com quem conviviam, em condições diferentes daquelas a que estavam habituados e nas quais confiavam. Muitos internamentos mantinham-se por anos, em alguns casos, como os pacientes
internados no hospital de Beneficência Portuguesa, 70 além daqueles verificados na Santa Casa. O paciente era afastado de sua vida cotidiana por um tempo muito prolongado, em situações muitas vezes desagradáveis, o que gerou desconfiança das internações.
Ressaltamos também o fato de os tratamentos médicos nem sempre se apresentarem ‘eficientes’, ou seja, não curavam realmente e podiam significar uma grande violência (física e psicológica) para os pacientes, como indica o caso da sífilis, cujo agente responsável só foi descoberto em 1905, e para a qual antes disso prescreviam-se ‘tratamentos’ tão diversos quanto inúteis
(Santos Filho, 1991).71 Um remédio indolor devia parecer mais interessante diante da perspectiva de uma cirurgia ou uma dieta de purgantes e vomitórios, com resultados igualmente duvidosos. A medicina levou praticamente todo o século XX para conquistar terapêuticas menos dolorosas e agressivas – e ainda hoje há uma enorme dose de violência no tratamento hospitalar. As práticas populares, ao contrário, apresentavam-se geralmente indolores e ofereciam certo alívio e reconforto psicológico. Se nenhuma das alternativas ‘curasse’, pelo menos as ‘espirituais’ eram menos capazes de causar medo, dor e desconforto.
Fora do hospital, a situação não era melhor, mesmo para pessoas com recursos. A Lydia Altemberd Cruz foi receitada pelo dr. A. Franco uma solução de calomelanos no dia 7 de setembro de 1916. Seu esposo foi à Farmácia Porto Alegre para aviar a receita, a qual, segundo ele, foi alterada, tendo sido ministrado à enferma sublimado corrosivo, que lhe causou vômitos, com sintomas de envenenamento. As declarações do proprietário da farmácia e de seu ajudante procuraram incriminar uma outra pessoa que estaria presente na farmácia. Contudo, a preparação de um outro produto, que não era o solicitado, parece ter se devido à falta de atenção,
provocando maiores problemas à paciente. 72 Muitas vezes, como nesse episódio, o farmacêutico atuava como médico, já que era o único que possuía o conhecimento sobre os medicamentos e as doenças em várias cidades. Construíram-se espaços onde o socorro se dava não só no atendimento efetivo da doença, mas na convivência de gestos de solidariedade entre os habitantes de uma localidade, como a troca de notícias sobre os doentes e os falecimentos, quando as pessoas se congregavam nas farmácias. A população forjou suas alternativas de cura, mesmo que elas não fossem ‘oficiais’. Não se pode, então, considerar que a população apresentava um comportamento passivo quanto a seus problemas de saúde: ela apresentava estratégias de sobrevivência baseadas nas suas próprias tradições, iniciativa, resistência e capacidade de jogar com o sistema, como muitos estudos têm procurado
evidenciar.73
Num contexto de mudanças como as que se instituíram com a abolição e com o advento da República, transformando as relações sociais das práticas de dominação senhorial em novos significados sociais ‘moder-nos’, mas mantendo as diferenças e as desigualdades, construiu-se no país uma ‘modernização sem mudanças’. Organizavam-se novas formas de manutenção das relações de trabalho, agora norteadas pelo racismo científico, sendo de responsabilidade da polícia controlar os populares (Chalhoub, 1996). Com a constatação das desigualdades e a manutenção das diferenças, as comunidades não esperaram por respostas oficiais do Estado. Constituíram estratégias de defesa de suas crenças e tradições, num universo possível de práticas religiosas e de cura. Com a República, o fim do catolicismo – que já apresentava uma progressiva desagregação ao longo do século XIX – como religião oficial e obrigatória, reforçou a proliferação de uma ampla diversidade de outras práticas (Beozzo, 1985). Mesmo que não seja possível reconstituir uma atitude elaborada com base nos vestígios encontrados, a existência em grandíssimo número de curandeiros, a organização nacional da umbanda, na década de 1920, e a ampliação do número de entidades espíritas, no início do século, apontam para a construção de um universo específico, que, até hoje, foi negado. Os curandeiros, afinal, não perderam “o governo
da multidão” (Assis, 1990:195). 74
Notas
1 Em O Diabo e a Terra de Santa Cruz, Laura de Mello e Souza (1986) descreve essa complexidade de exercícios de cura, praticados por todos. Eram parte de uma complexa organização religiosa impregnada de magismo.
2 Essa é uma discussão que já possui uma longa trajetória, remontada originalmente aos trabalhos de George Rudé. Gostaria apenas de apontar uma coletânea de ensaios publicada no Brasil por F. Krantz em 1990: A Outra História: ideologia e protesto popular nos séculos XVIII a XIX. Considero muito importante algumas considerações teóricometodológicas realizadas por Hobsbawn e publicadas nessa coletânea sob o título ‘A outra história: algumas reflexões’, p.18-33.
3 A historiografia mais tradicional afirmou por longo tempo a reduzida presença de escravos e o caráter benévolo da escravidão no Estado. Mesmo com abordagens diferenciadas, acredita-se que essa questão foi superada após os trabalhos de Cardoso (1977), Bakos (1982) e Maestri Filho (1984).
4 A exceção compõe-se dos trabalhos na área de antropologia: Bastide (1959, 1960). São estudos específicos no Rio Grande do Sul: Correa (1991, 1998). Em geral, os estudos são sobre as práticas atualmente: Knauth (1994); Pólvora (1995); Anjos (1995).
5 Esses elementos são repetidos em vários textos: Fortini (1962:93); Guimaraens (1984); Franco (1988:262). A referência mais antiga encontrada é um texto de Manoel José de Freitas Travassos, que foi provedor da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre em 1847-1848, 1850 e em 1857-1858: 'Apontamentos para a história da fundação do hospital da Santa Casa de Misericórdia da cidade de Porto Alegre, coligidos e oferecidos à Mesa da mesma Santa Casa pelo irmão Manoel José de Freitas Travassos', de 1859, do qual há uma cópia no Relatório da Santa Casa de Misericórdia do anno de 1879 da capital da província do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Typ. do Deutsche Zeitung, 1879. p.34 em diante.
6 O autor diz que conheceu o Eiras em 1879.
7 O Exemplo, 2 jan. 1928 apud Bernd & Bakos (1991:33-34). O editorial de 1928 é que conta a história da fundação em 1892.
8 As notícias são transcritas por Moreira do jornal Mercantil, 13 out. 1880 e 28 maio 1881.
9 Coruja, 1981 apud Pesavento, 1991:39.
10 Para o historiador Marco de Mello, batuque é "o nome genérico dos ritmos produzidos por negros à base da percussão, de caráter religioso, praticado por negros de origem africana". Considera uma religião afro-brasileira com grande diversidade de práticas, como as danças rituais, festas e musicalidade dos instrumentos de percussão, aproximando-se do candomblé da Bahia e Xangô em Pernambuco e Alagoas. Os lugares onde eram realizadas as reuniões eram chamados 'feitiçarias' e, de sua pesquisa sobre Pelotas, consta que ficavam próximas da zona portuária e na várzea (Mello, 1994:24-25).
11 Mas este culto não teria sido muito difundido no estado, segundo o registro de Herskovits de 1942, que dizia quase não tê-lo encontrado (Herskovits, 1943 apud Correa, 1994).
12 O avô de Jacobina fez parte de um movimento separatista religioso na Alemanha, no povoado de Tambach, em 1789, que desligou da comunidade várias famílias sob a alegação de que queriam seguir a orientação ortodoxa da igreja evangélica luterana. Em 1824, ele emigrou para o Brasil, tendo construído a primeira capela evangélica em Hamburgo Velho. Jacobina era analfabeta, mas sua paixão pela Bíblia fê-la aprender a soletrar e depois a ler, não tendo chegado a escrever. João Jorge não exigia nada dos doentes que tratava, tendo recebido muitas pessoas de outras regiões.
13 Estudos antropológicos mais recentes destacam que a preocupação pragmática com a saúde, em primeiro lugar, e depois questões sentimentais e econômicas, são as principais razões de ingresso e freqüência em todas as modalidades de culto no estado (Correa, 1994; Knauth, 1994).
14 Há uma revisão bibliográfica que demonstra a amplitude dessa discussão em Rubem César Fernandes. 'Religiões populares': uma visão parcial da literatura recente (Fernandes, 1986-1990:238-273). Haveria uma certa especialização regional de auto-res sobre os fenômenos, que recobriria todo o Brasil, não havendo um autor que estivesse familiarizado com a religiosidade de todas as regiões.
15 o Decreto n 44, de 2 de abril de 1895. Leis, Decretos e Actos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul 1895. Porto Alegre: Off. Grap. d'A Federação, 1920. p.124-149. Biblioteca da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.
16 Gazeta do Povo, 9 dez., 1918 a 28 abr., 1919.
17 Areimor (pseudônimo). 'Benzeduras e feitiços'. Gazeta do Povo, 19 abr., 1915. p.1.
18 Areimor (pseudônimo). 'Benzeduras e feitiços'. Gazeta do Povo, 19 abr., 1915. p.1.
19 Gazeta da Tarde, 11, 15, 16, 17 maio, 1895.
20 Era um valor relativamente alto. Um jornal registra o salário de um operário e de algumas das suas despesas em 1898: salário médio de 100 a 120 mil réis, podendo chegar a 150 mil réis; aluguel de uma casa, 40 mil réis; lenha para uma casa com casal e quatro filhos, 12 mil réis; pão para um mês para essa família, 18 mil réis. 'A situação do operariado do Rio Grande do Sul'. Echo Operario, 23 jan., 1898.
21 Yvonne Maggie (1992) e outros autores indicam que os brancos sempre participaram dos rituais afro-brasileiros desde o século XIX, não só na crença nos curandeiros, mas participando ativamente dos cultos.
22 O trabalho de Cláudia Mauch analisa também o jornal Gazetinha, apontando as mesmas conclusões. Outro trabalho (Vargas, 1994) analisa o jornal O Independente, de 1900 a 1919, exprimindo a visão de intelectuais do período, que corroboravam a necessidade de as cidades serem reformadas de acordo com os 'foros de povo civilizado'.
23 'Cousas de mandinga'. Gazeta do Commercio, 20 mar., 1903. p.1.
24 'Cousas de mandinga'. Gazeta do Commercio, 24 mar. e 12 maio, 1903. p.1.
25 o Cartório do Júri de Porto Alegre. Maço, 40, n 707, 1916 (2 volumes). Arquivo Público do Rio Grande do Sul (APRS). Relatório da Delegacia de Polícia parte da denúncia do jornal A Noite de 13 a 18 março de 1916 contra Evaristo do Nascimento, que seria um trambiqueiro, atuando em várias falcatruas nas cidades de Porto Alegre e Pelotas.
26 Gazeta do Commercio. Havia denúncias quase todos os dias em 1905, 1906, 1907. Ver também os jornais Diário de Notícias, 1925 e 1927, e Folha do Sul, 1910.
27 O Exemplo, 10 abr., 1910. A denúncia é de uma pessoa que escreve de Não-me-Toque, no interior, em resposta a um artigo de Ambrosio Paré, no mesmo jornal, no dia 20 de março de 1910, que apregoava que, naqueles dias, a medicina marchava a passos largos para chegar à sua perfeição em todos os ramos, não devendo a mulher ficar entregue a parteiras e pessoas sem habilitação da 'ciência'. A criança se salvou, a mulher morreu após 24 horas, "no meio das mais cruciantes dores e hemorragias, que eles não conseguiram aplacar".
28 Jurgen Thorwald descreve a trajetória de Filipe Semmelweis na descoberta de infecção de febre puerperal por contato, que matava muitas mulheres pós-parto, em Viena, quando atendidas em instituições hospitalares por volta de 1860. Semmelweis recomendava a assepsia para evitar as mortes.
29 Parte dessas reflexões basearam-se em Fonseca & Brites (1990). O artigo, apesar de referir-se ao batizado em casa, apresenta reflexões sobre o nascimento de crianças nas residências e o papel das parteiras. Ressalta a intimidade entre a parteira e a parturiente, pois havia o período de resguardo, quando as mulheres não saíam de casa durante 40 dias se o nascimento fosse de menino, e 30 dias se fosse menina; também não lavavam a cabeça, não tinham relações sexuais, andavam enfaixadas e tomavam só canja de galinha.
30 Folheto de Carlos de Lester, "médico operador e parteiro", incluso no processo do Cartório do Júri de Porto Alegre n o 981, maço 64., 1919. APRS.
31 o Processo do Cartório do Júri de Porto Alegre n 981, maço 64., 1919. APRS.
32 Última Hora, 7 nov., 1919, incluso no processo.
33 o Cartório do Júri de Porto Alegre. Processo n 1.321, maço 87., 1921. APRS. A situação das mulheres no período é analisada por Arend (1995).
34 o Cartório do Júri de Porto Alegre. Processos: n 149, maço 7, 1905 (morte da paciente por 'envenenamento mercurial'); no 194, maço 9, 1909 (aborto). APRS. O processo de 1905 teve ampla repercussão no jornal Gazeta do Commercio em 7, 8, 10, 19 ago, 28 dez. 1905 e 21, 22 mar., 1906. O mesmo jornal realizou uma campanha contra a imperícia das parteiras, denunciando outros casos, como de Emília Bravo, em 28 dez., 1905 e 23 abr., 1906.
35 Processo do Cartório do Júri de Porto Alegre no 115, maço 6., 1904. APRS. Gazeta do Commercio, 26 mar., 29, 30, 31 ago., 1904, 13 fev., 1905.
36 'Explorações torpes'. A Noite, 28 abr., 1914. p.2.
37 'Explorações torpes'. A Noite, 28 abr., 1914. p.2.
38 Relatório do exercício de 1925 apresentado pelo provedor dr. Aurelio de Lima Py em 1 o de janeiro de 1926. Porto Alegre: Off. Graph. d'A Federação, 1926. Centro de Documentação e Pesquisa da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
39 'A Cidade' (crônica diária). Diário de Notícias, 4 out., 1925. p.3.
40 Todas as informações sobre o médium são do jornal Diário de Notícias, 27 set., 1925, p.4; 29 set., 1925, p.3 e 12; 30 set., 1925, p.4; 3 out., 1925, p. 4; 4 out., 1925, p. 3. Não se sabe como uma pessoa teria substituído outra na prisão durante o cumprimento da pena, mas o jornal informa que isso teria ocorrido, talvez indicando que o médium possuía amigos com influência sobre o sistema penitenciário e jurídico que facilitaram sua saída da prisão. Entretanto, também pode ter ocorrido que essa informação tenha apenas sido usada pelo jornalista para destacar a figura noticiada.
41 'O medium Mozart Teixeira'. Diário de Notícias, 30 set., 1925. p.4.
42 'O 'medium' Mozart Dias Teixeira'. Diário de Notícias, 29 set., 1925. p.12. Discurso do médium na sua chegada a Porto Alegre.
43 'O 'medium' Mozart Dias Teixeira'. Diário de Notícias, 29 set., 1925. p.12. Discurso do médium na sua chegada a Porto Alegre. Grifo do original.
44 'O 'medium' Mozart Dias Teixeira'. Diário de Notícias, 29 set., 1925. p.12. Discurso do médium na sua chegada a Porto Alegre.
45 'Que devemos pensar do caso Mozart?'. Diário de Notícias, 6 out., 1925. p.3. Opinião de Paulo Hecker, espírita, formado em direito e farmácia. Foi diretor da Federação Espírita do Rio Grande do Sul de 1931 a 1932. A Reencarnação, dez., 1971. p.11.
46 'Que devemos pensar do caso Mozart?' Diário de Notícias, 6 out., 1925. p.3. Opinião de Paulo Hecker, espírita.
47 'Que devemos pensar do caso Mozart?' Diário de Notícias, Paulo Hecker, espírita.
48 'Que devemos pensar do caso Mozart?' Diário de Notícias, Paulo Hecker, espírita.
49 'Que devemos pensar do caso Mozart?' Diário de Notícias, Paulo Hecker, espírita.
50 'Que devemos pensar do caso Mozart?' Diário de Notícias, Paulo Hecker, espírita. 6 out., 1925. p.3. Opinião de 6 out., 1925. p.3. Opinião de 6 out., 1925. p.3. Opinião de 6 out., 1925. p.3. Opinião de
51 Contam-se 18 grupos organizados em várias cidades do Rio Grande do Sul numa lista dos participantes do I Congresso Espírita do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, que fundou a Federação Espírita do Rio Grande do Sul e menciona o histórico da sua fundação. Correio do Povo, 18 fev., 1971.
52 'O espiritismo no Rio Grande do Sul'. A Reencarnação, 1971. p.8.
53 'Cultos de importação e credos extravagantes'. Diário de Notícias, 24 jul., 1927. p.12. Entrevista com Pai Alfredo.
54 'Morte numa sociedade espírita'. A Noite, 14 abr., 1914. p.5.
55 Encontrei dois processos: em 1920, contra o jornal Gazeta do Povo, por publicação do dia 22 de agosto, quando o acusaram de falsificar o atestado de um paciente. O processo inocentou o jornalista. Processo do Cartório do Júri de Porto Alegre. Maço 79, n o 1.195. Em 1923, contra o jornal última Hora de 2 de junho, que chamou Alfredo Dias de "charlatão, explorador, feiticeiro, criminoso e magista". O jornalista responsável pela matéria foi condenado a prisão e multa, mas foi absolvido na apelação. Processo do Cartório do Júri de Porto Alegre. Maço 96, no 1.461. APRS.
56 'Morte numa sociedade espírita'. A Noite, 14 abr., 1914. p.5.
57 A Noite, 17 abr. p. 5; 27 abr., 1914. p.2. A citação é do dia 27.
58 A Noite, 27 e 28 abr., 1914. p.2.
59 Dados fornecidos em comunicação pessoal por Maria Helena Nunes da Silva a Norton Correa (Correa, 1998).
60 A assimilação de elementos de diversas crenças é citada para a umbanda, que é considerada uma elaboração tipicamente brasileira; a umbanda nasceu, oficialmente, no Rio de Janeiro nos primeiros anos da década de 1920 (Brown, 1985).
61 A abertura de processos contra essas práticas só ocorria em caso de suspeita e comprovação de casos de mortes, o que ocorreu mais com parteiras. Dos sete processos fichados por acusações de imperícia ou assassinato, quatro são de parteiras.
62 A descrição a seguir é do Processo do Cartório do Júri de Porto Alegre, n o 888, maço 56, 1918. APRS.
63 Aparentemente, a mãe das moças pretendia que elas voltassem para casa. A acusação de defloramento foi um motivo para buscá-las na sociedade com a polícia. Maria do Carmo declarou-se deflorada por seu namorado, falecido, e Galdina por um corretor que não se encontrava mais na cidade, o qual lhe oferecera um conto de réis.
64 A análise de Paula Montero aplica-se à umbanda, trata especificamente de médiuns, que acabaram incorporando-se nos cultos, e é da década de 1980, mas sugere possibilidades de análise que se procurou considerar.
65 o A descrição é do processo do Cartório do Júri de Porto Alegre, n
772, maço 44, 1916, APRS.
66 O processo foi julgado improcedente porque não havia provas de terem sido os acusados os autores dos ferimentos praticados em Rosa. No desenrolar do processo, faleceu Miguelina da Conceição, de tuberculose pulmonar, internada na Santa Casa.
67 'A Cidade' (crônica diária). Diário de Notícias, 4 out., 1925. p.3.
68 'Santa Casa'. O Exemplo, 15 ago., 1910. p.1.
69 Calomelanos é uma medicação muito citada como responsável pela morte em processos criminais, quando utilizada de forma incorreta. Como exemplo: Processo no Cartório do Júri de Porto Alegre no 713, M.41, de 1916, contra proprietário de uma farmácia por troca de medicamento por calomelanos. APRS.
70 Dos enfermos até novembro de 1859, houve internamentos de dois anos e de um a cinco meses (Spalding, 1954).
71 A sífilis tem como agente responsável uma bactéria em forma de espiral chamada Treponema pallidum. é uma doença infecciosa e contagiosa, transmitida, sobretudo, por contato sexual, transmissível à descendência. Sérgio Carrara (1996) afirma que faz parte do senso comum dizer-se que a sífilis era uma doença incurável até o advento da penicilina, cujo uso se disseminou a partir da década de 1940. Isso seria incorreto do ponto de vista histórico porque, desde finais do século XIX, os médicos insistiriam em que a cura da doença era possível por meio técnicas de que dispunham. Entretanto, o tratamento permaneceria ineficiente, sendo poucos os curados, devido, entre outras razões, ao fato de o tratamento ser extremamente longo, penoso e às vezes letal.
72 o Cartório do Júri de Porto Alegre. Processo n 713, maço 41., 1916. APRS. O farmacêutico e seu ajudante foram absolvidos por falta de provas.
73 Como o já mencionado artigo de Roy Porter (1985).
74 A análise da crônica de Machado de Assis é feita por Sidney Chalhoub (1996:164-168).
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