(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte
3 - Os modos de ser-trabalhar-viver dos barrageiros e seus familiares
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Embora ela soubesse que não ficaria nessa cidade, por passar apenas um curto período de tempo com seu cônjuge, o caráter provisório da sua permanência não a impediu de construir vínculos com o lugar e sua gente. Essa localidade se referia especialmente ao marido, pois era o lugar de trabalho deste. Não era o locus eleito para ser a residência da família, que continuava em uma cidade paulista – o espaço de territorialização por excelência.
Ao finalizar esse tema da entrevista-narrativa, os Citrino hesitam e fazem uma ressalva ao insistirem nas partes boas e ruins, constituidoras da vida. Acreditam que os dissabores puderam ser compensados pelo fato de Davi nunca ter ficado desempregado, pois começou e se aposentou na mesma firma, porém insistem que ficar longe continua sendo algo difícil e ruim – mesmo convivendo com essa realidade há pelo menos 35 anos como família Citrino.
(Des)encontros trabalho-família: da água represada às comportas abertas
Como vimos até aqui, o trabalho em barragens constituiu a vida dos Citrino e seus membros familiares. Seus três filhos foram criados em localidades vinculadas às hidrelétricas, especificamente nas vilas, que representam o locus identificatório dessa categoria profissional, capaz de sintetizar a especificidade de vida e labor:
Às vezes o barrageiro cria a família todinha dentro da
barragem. Mudando, de um lugar para outro. [...] depois que
sai, talvez, vai criar família. Mas tem aqueles filhos que seguem
barragem. (Davi)
Percebemos aqui que o trabalho em barragens pode de alguma maneira integrar a família ao mesmo tempo que pode desintegrá-la, seja esgarçando as relações, rompendo-as ou ao espalhar seus entes pelos lugares de passagem.
A aposentadoria de Davi não significou um retorno para casa, mas a retirada para longe. Embora os filhos estivessem adultos quando isso principiou, uma lembrança dessa perda de convivência desde a infância de seus filhos é resgatada por Lia quando Davi partiu para uma cidade distante e os deixou até haver uma oportunidade que acertasse a ida de todos os entes familiares. Lia se lembra de que, nesse episódio, o filho pequeno adoeceu e teve febre, uma expressão da falta do pai ao compreender a partida deste.
Nessa conjuntura, os modos de ser-trabalhar-viver são rearranjados em que a mãe passa a assumir o papel antes desempenhado pelo pai. Vemos o gênero feminino centrando a responsabilidade em si, porém preservando a figura do pai, principalmente ao poupá-lo de problemas domésticos. Lia buscava dar conta da incumbência de casa e dos filhos sem repassar dificuldades e questões familiares para o pai envolto no trabalho e longe de casa. Identificamos que a separação trabalho e família foi mantida não somente na distância geográfica, mas também no âmbito relacional. Lia tentava resolver os problemas “de casa”, centrando-os na figura materna. Situação que procurou sustentar, o que lhe gerou sofrimento, angústias e inseguranças por pouco compartilhar com o cônjuge que estava fora. Suas palavras reconhecem a sobrecarga proveniente de um cotidiano que demandava constantes cuidados e decisões com os filhos:
Não é fácil uma mãe criar o filho sozinha, sem o apoio do pai.
Porque, lógico, o pai está lá, trabalhando, mas quem tem que
aguentar a barra igual essa daqui? Às vezes ele [Davi] reclama:
“Ai! Eu estou aqui sozinho e não sei o quê”. Você está sozinho.
Tudo bem. Você tem que trabalhar, tem o horário do seu
trabalho, mas você deita. Muito difícil eu passar problema.
Porque o que eu conseguir resolver eu resolvo. Porque a gente,
que fica em casa, com os filhos, a carga é maior também.
Porque a responsabilidade fica com a mãe. Porque é a mãe
quem está junto. Então essa responsabilidade eu acho difícil
[...] Tem hora que nessa parte é complicado. Você tem que ficar
sozinho e tem que tomar conta de tudo, em casa. (Lia)
A narrativa de Lia apresenta um descontentamento ao estar longe do marido, qualificando como algo ruim, principalmente por essa distância geográfica gerar um afastamento das funções paternas, como apoio nos cuidados com a família. Uma ação compartilhada que não se efetivou nos arranjos familiares estabelecidos. Essa realidade a faz reclamar o desejo de estar junto. Um anseio também manifestado por seus filhos: “[...] ficar no trabalho longe assim. É ruim demais. Não é bom não, não é? Porque tem que ficar sempre junto. Porque até a minha filha fala: ‘Quem casa tem que estar junto, não pode estar separado’”.
Esse contexto, em que o casal convive a distância, comum no modo de vida dos barrageiros, traz à tona a questão da traição conjugal. Algo que, segundo Lia, incomoda mais suas amigas do que a si mesma. Com os maridos longe por causa do trabalho, um relacionamento extraconjugal é passível acontecer. Nesse rol de amizades, observa suas colegas alegarem a impossibilidade de o marido ficar muito tempo sozinho e questionam se ela tem ciúme ao deixá-lo ir e não acompanhá-lo. Lia tanto levanta a pergunta como lança a resposta, ao mencionar que tanto Davi quanto ela estão em condições semelhantes, porque os dois estão sozinhos. Devem ser respeitosos um para com o outro, estando perto ou longe. Ademais, vê a família, a neta e a idade que avança (sua e de Davi) como aspectos que não encorajariam uma traição.
Porém, Lia não deixa de examinar sua situação e das mulheres que têm companheiros em barragens. Para exemplificar isso, recorre a uma expressão interessante para se referir a si mesma e a inúmeras amigas suas, esposas de barrageiros: “mulher viúva de marido vivo”. Essa expressão designa de modo resumido a ausência do cônjuge, o trabalhador de UHE que está em um local distante e pouco retorna para a sua casa e família. Participação social e afetiva muitas vezes restrita e superficial.
Lia fala da sua condição, em que seu marido retorna apenas uma vez por mês, geralmente para passar um fim de semana, e cujas colegas, que a veem sozinha em suas atividades rotineiras, pensam que ela é separada ou viúva. Um vazio deixado na convivência diária – a manifestação da ausência de Davi – e o desejo de Lia é poder preencher com o seu retorno.
Ser barrageiro no Cipreste: paradoxos laborais Davi, enquanto esteve no Cipreste, pôde experimentar a fase áurea dessa empresa até as instabilidades, transformações produtivas (crise econômica e automatização) e sua venda (processo de privatização).
Em 1982, época em que a Cipreste atravessou uma crise financeira, muitos trabalhadores foram transferidos e recolocados. Para Davi foi oferecida uma vaga em uma regional do estado paulista e teve a oportunidade de se candidatar a um posto de seu interesse. Sua esposa e familiares estavam em outra cidade, episódio que trouxe descontentamento para Lia por não desejar sair da região à qual estava adaptada, mas mesmo assim ela o acompanhou.
Em 1985 Davi presenciou o primeiro processo de automatização. Suas palavras resgatam um passado que enquanto trabalhador não imaginava que seria possível de ser realizado. Dois anos depois, em 1987, esse cenário se concretizou quando os técnicos começaram a passar cabos e providenciar instalações tecnológicas. As ameaças de demissões iniciaram-se em tempo posterior. Davi viu a empresa se modernizar ao mesmo tempo que trazia ameaça de demissão. Uma realidade do Cipreste até o momento desconhecida, pois em suas palavras o Cipreste era como uma mãe por ser boa aos seus funcionários. Pagava de modo correto e não demitia (conferia estabilidade no emprego). Fornecia plano de saúde, cesta básica, vale alimentação e confraternizações, como festas nos finais de ano em que seus filhos ainda crianças recebiam brinquedos, como no Natal. Uma firma que prestava auxílio e apoio, tanto de moradia como ampla cobertura de saúde, além de ônibus para os filhos dos trabalhadores estudarem fora (cidade vizinha que era de maior porte).
O Cipreste conferia suporte para as mudanças de cidades, provendo meios para a família acompanhar o trabalhador – fosse via auxílio financeiro e transporte como também um núcleo residencial disponível para recebê-los. Circunstanciam esse período de estabilidade e abastança como aquele em que muitos trabalhadores gostavam de ser barrageiros, especialmente pelas “mordomias” (Davi e Lia). Época em que a empresa pagava luz, água e fornecia casa para morar. O salário, nesses termos, era livre.
A estabilidade no trabalho proporcionava outra relação com o tempo. Um projeto e um plano a longo prazo podiam ser visibilizados, fato distinto da realidade de outras empresas cuja ameaça de demissão era iminente. Davi, ao dar voz à sua categoria profissional, reconhece a drástica diferenciação da política estatal, que conferia garantias, e a iniciativa privada, que estava restrita à lógica de mercado instável, visando ao lucro em detrimento do trabalhador:
Podia fazer um plano. Não é que nem uma empresa privada,
que nem a gente estava falando, essas empreiteiras. Você não
pode fazer um plano a longo prazo. No Cipreste você podia
fazer. Isso aí não é só eu que falo. A turma, os mais velhos que
aposentaram, tudo falam. (Davi)
Outro ponto sinalizado, enquanto integrante do Cipreste, remete a uma fase difícil na vida deles: a ida para uma cidade que não existia, sendo construída do zero pelo Cipreste. Viram-na surgir rodeada por obras, juntamente com a usina hidrelétrica em construção. A cidade, ao se mudarem, não dispunha de infraestrutura. Tinham de se locomover com botas em meio à lama por não haver calçamento, rede de esgoto e água. A cidade estava envolta por mata e a cidade mais próxima distava 15 quilômetros. O Cipreste abriu um mercado provisório – estabelecimento mantido por ele mesmo, onde as pessoas iam comprar mantimentos. Não havia hospital, pois estava em construção – nessa época os Citrino tinham apenas o filho mais velho.
Nesse período a empresa disponibilizava ônibus semanais, em dias específicos, para cuidados com a saúde em cidades próximas à região. Em caráter temporário, foram construídos diferentes estabelecimentos, sendo estes residências e outras edificações que demoraram quase 20 anos para saírem do estado provisório e ter sua construção finalizada. Eles perceberam a cidade surgindo e estagnando, pois seu ápice concentrou-se no período de construção da UHE.
Froelich (2001) assinala que o Cipreste, em experiências anteriores de vilas-piloto, criadas para alocar a mão de obra das barragens, fosse dos acampamentos e alojamentos, fosse dos núcleos residenciais, enfrentou diversos reveses, pois se tratava de uma empresa especializada em construir usinas e não cidades. É possível verificar em episódios dessa natureza a passagem do provisório ao definitivo em suas edificações, geralmente construções precárias de madeira e com estrutura deficitária que persistiram. Além disso, problemas posteriores, como o risco de transformar-se em uma cidade-dormitório – por não promover um desenvolvimento regional outrora idealizado (ideologia desenvolvimentista) – e conflitos referentes à municipalização, remetem a diferentes experiências por que o Cipreste passou ao empreender hidrelétricas e protótipos de cidades colados àquelas.
Contudo, com vivências acumuladas em hidrelétricas anteriores, vemos o Cipreste construindo UHEs e formando acampamentos que se tornariam cidades ou se incorporariam a elas, como algumas de suas obras no rio Paranapanema, entre outras. Isso acontecia porque, ao se erguer usinas em lugares ermos, nem sempre podendo contar com a infraestrutura de cidades próximas, criavam-se acampamentos que eventualmente se transformavam em núcleos urbanos, pois um número expressivo de trabalhadores era remanejado de obras anteriores ou integrado à atual barragem em construção por meio das empreiteiras contratadas.
Um modelo típico de “fábrica-vila operária” (Lopes, 1988 apud Froelich, 2001) que mantém centrado no capitalista a propriedade da terra e do capital (no caso, do Cipreste, empresa outrora estatal, e da principal empreiteira envolvida na construção da usina – empresa privada). Cenário que reuniu ao redor da hidrelétrica do Cipreste um imaginário paternalista, mas também de exploração do barrageiro. Nessa análise, os autores mencionam a administração do trabalho em hidrelétricas sobrepondo-se à do município, podendo a vila operária nessa (nova) cidade exceder o processo de urbanização existente ou mesmo encolhê-lo (desindustrialização) – haja vista a existência de uma acentuada vinculação das pessoas/barrageiros com as obras da usina e não necessariamente com a cidade-município.
Essa constatação nos permite visualizar outro fator componente desse universo a despeito da diferenciação da mão de obra de quem está de passagem (construção) e de quem fica (operação). O discurso de Davi traz uma divisão tácita entre construção e operação, dois grupos distintos, envolvidos em etapas diferentes da hidrelétrica. O primeiro é temporário, de modo costumaz integra empreiteiras, uma mão de obra marcada por intensa migração, pois, ao se finalizar a construção, parte-se para outra barragem. O segundo, a operação, é o grupo que demanda um efetivo menor, uma vez que passa a residir por longo prazo na região da hidrelétrica. É o grupo de barrageiros que opera a usina e acompanha o funcionamento de geração de energia.
Nesse contexto há duas especificidades. A especificidade primeira é o setor da construção concentrar há longa data uma mão de obra majoritariamente masculina. Apenas recentemente o número de mulheres trabalhando em barragens tem aumentado, vindo a integrar a força de trabalho da área da construção civil até a de
armador7 – porém em número expressivamente menor. Por sua vez, a segunda especificidade desse nicho profissional é a peculiaridade dessa mão de obra. Ser carpinteiro, armador e construtor na barragem é muito distinto da atuação desse mesmo ofício na cidade, em construções de pequeno porte, por exemplo. Davi explica isso:
A construção acabou fica a operação e é um grupo bem
reduzido. Quando é uma construção, o Cipreste chegou a ter
mais de oito mil homens trabalhando lá. Não tinha mulher. As
barragens antigamente eram difíceis aceitar mulheres
trabalhando, mas hoje elas estão presentes junto aos homens,
por exemplo, na área de pedreiro e armador. Mas quando
termina a barragem aquele pessoal que trabalha em construção
tem que caçar o rumo, outra barragem. [...] a diferença das
barragens é assim: carpinteiro, armador de barragem, é uma
coisa. E armador e pedreiro de cidade é outra. O carpinteiro de
coisa [barragem] só sabe fazer forma, o armador só sabe
amarrar arame. Não é que nem fazer um prédio. São terrenos.
Por isso que eles às vezes não conseguem ir para cidade
porque chegam à cidade e às vezes não conseguem nem
passar no teste. [...]. Acaba que eles só sabem fazer aquilo, na
carteira está registrado aquilo.
Isso traz desdobramentos que fazem vincular o exercício profissional do barrageiro (seja o da construção, seja o da operação e manutenção) de modo mais acentuado ao canteiro de obras de hidrelétricas até a sua administração/monitoramento em fase de geração hidroenergética. Uma atuação profissional específica em que, caso se deseja sair, corre-se o risco de ficar aprisionado pela particularidade do saber-fazer do processo de construção e manutenção das hidrelétricas.
Froelich (2001) traz informações sobre isso, ao situar que os barrageiros possuem uma mão de obra treinada que foi se qualificando ao longo do processo de construção das hidrelétricas – os dois lados dessa moeda são o quantum flutuante dessa força de trabalho: falta ou excesso de efetivo conforme o local da barragem e da etapa da construção. Se isso ocorre, uma das consequências é a disparidade salarial, uma vez que, conforme a exigência de especialização (incluindo profissionais do nível técnico ao universitário), vemos os salários se diferenciarem radicalmente – principalmente se contrastarmos a esse rol os baixos salários de trabalhadores de empreiteiras com reduzida qualificação e escolarização.
Como vimos com esses narradores, o universo do barrageiro remete a uma profunda disparidade que diz respeito às distintas especificidades que compõem tanto as etapas constituintes da edificação de uma UHE como a operação desta. Isso gera vivências distintas (que comportam singularidades e generalidades) conforme o trabalhador integra essa conjuntura, logo, diferentes formas de contrato de trabalho e de exercício profissional, salarial, de gênero, de vivência da migração, de moradia, de permanência, entre outras.
Família Safira
Notas iniciais
A família Safira é composta por Thiago e Ana mais seus três filhos: Alfredo, Alberto e Júnior. O casal e o filho mais novo residem no estado paranaense, em cidades distintas. Um filho reside no Pará e o outro, em Santa Catarina.
Thiago, o barrageiro, trabalhou e aposentou-se na mesma empresa, o Cipreste. Desde a juventude, esteve vinculado a esse setor,
porém, antes de trabalhar em hidrelétricas, foi piloteiro8 de barco e, após a aposentadoria, abriu uma empresa de refrigeração e instalação de ar-condicionado. Ana é aposentada de uma empresa de correios. O casal se conheceu em uma das cidades próximas à UHE, para a qual Thiago dirigiu-se a trabalho e onde momentaneamente residiu.
Ao casarem-se, optaram por manter as cidades de moradia separadas, pois Ana continuou no exercício de sua profissão enquanto Thiago, em outra cidade, no de barrageiro. Durante 14 anos mantiveram residências diferentes para que Ana continuasse seu trabalho e cuidasse dos filhos. Thiago, cerca de 50 quilômetros do núcleo familiar, morou com a sua mãe na cidade de trabalho.
Safira é uma família que iniciou seu núcleo familiar a distância e assim permaneceu até o retorno de Thiago, o barrageiro, na condição de aposentado. A cidade e a casa comum de moradia, e de um novo trabalho (pós-aposentadoria), aconteceram pela primeira vez em suas histórias após a mudança de Thiago do estado de São Paulo para o Paraná.
Avistamos a família Safira em um processo de significação de seus novos arranjos, em que os filhos crescidos e morando fora oportunizam a (re)construção dos laços afetivos, face a face, de um casal que convivia apenas nos finais de semana. Ana, aposentada, e Thiago, participante da rotina doméstica, permitem a imersão de narrativas capazes de conjugar um tríplice presente em que passado, presente e futuro entrelaçam-se de modo nítido para anunciar uma tentativa de reaproximação familiar e dos afetos. O labor de ambos, na vivência do gênero feminino e do masculino, é proferido numa relação de independência e interdependência quando o projeto comum é garantir o estudo dos filhos e auxiliar na construção da autonomia financeira destes – em andamento.
O olhar de realização de Ana e Thiago para o momento atual, quando desfrutam do investimento feito a longo prazo para propiciar melhores condições de vida aos seus filhos, é percebido como compensatório em prol do esforço feito durante anos de uma vivência familiar mantida a distância. Contudo, reminiscências dessa vivência passada lançam no presente o estranhamento. Além disso, o processo de construção conjunto de um cotidiano expressa um futuro próximo, marcado pelo desejo de pertencimento comum mediante o estreitamento dos laços afetivos.
A partir das narrações do casal, podemos conhecer os modos de ser-trabalhar-viver, encontrados para suportar a relação constituída no afastamento geográfico, vislumbrar os efeitos dessa escolha sobre a família e o entorno social, bem como tanger o imaginário de barrageiro que forjou representações de um homem desgarrado e desregrado, aos olhos de Ana. Uma existência sócio-familiar que se centrou não apenas no trabalho do chefe de família, o barrageiro, mas também no da mulher, que escolheu não abandonar o ofício nem acompanhar o cônjuge nas mudanças de cidades. Identificamos um momento vívido na trajetória dos Safira, uma tessitura em que os processos de subjetivação entremeiam-se aos fios sociais para realizar um caminho de elaboração, capaz de reinventar os sentidos familiares, criar novos projetos e produzir uma reaproximação do casal com base na (re)descoberta do outro na ausência dos filhos.
Enredo familiar e trajetória social: da construção de barragem à edificação da família
Thiago, antes de ser barrageiro, foi piloteiro de barco. Era de família pobre que vivia da roça e da pesca na área próxima às margens do rio Grande. Rio este que possibilitou a Thiago não somente começar sua vida, mas recomeçá-la quando foi recrutado diretamente pelo Cipreste que tinha uma UHE em construção próximo às margens do rio onde Thiago crescera. Começou a aventurar-se no universo das barragens ainda jovem, com 18 anos.
Esse contexto de inserção de Thiago no trabalho em barragens não foi um caso isolado. A equipe que deu início ao empreendimento de barragens se deparava com a população local que residia nas regiões que seriam atingidas de modo direto ou indireto por essas obras. Dessa forma, a contratação assumia uma veia estratégica de captar não somente as pessoas que possivelmente sofreriam o impacto do empreendimento (como a retirada da população ribeirinha), mas as que também poderiam fornecer resistências aos objetivos do Cipreste. Um subterfúgio analisado por Froelich (2001), que assinala o fato de o Cipreste ter contratado uma parcela de mão de obra regional – em geral homens oriundos do setor agrícola. Estes trabalhavam por dia e eram conhecidos como “candangos” e “boias-frias do setor elétrico”, pois parte expressiva desse contingente possuía baixa qualificação e escolaridade, além de a maioria não ser sindicalizada.
Igualmente, por Thiago ser piloteiro de barco e pescar no rio em que a hidrelétrica projetaria sua construção, era importante seu saber para a empresa porque ele possuía conhecimentos e informações que serviriam para o desenvolvimento da UHE. Thiago revela isso em sua narrativa:
Como a gente era de uma família pobre, uma família que vivia
na roça, aí o pessoal das barragens chegou. Os engenheiros e
turma assim viu o pessoal e achou que a gente servia para
trabalhar com eles. [...] Falaram: – Olha, você poderia trabalhar
com nós, na barragem aqui. Eu era piloteiro de barco. Nós
pescávamos no rio. A minha família era de pescador no rio
Grande. Eles falaram: “Você poderia trabalhar com a gente, ser
piloteiro nosso, porque você conhece todo o rio, o local aqui
onde nós precisamos ir”. E foi assim que eu consegui entrar na
barragem. (Thiago)
Thiago, ao ser contratado, não conhecia o trabalho em hidrelétricas, para tanto recebeu capacitação e treinamento iniciais – cerca de seis meses de estágio e curso – em uma das maiores UHEs em construção na época. A partir disso, começou a atuar em outras obras, sendo transferido para localidades que possuíam empreendimentos em construção. Sua atuação profissional estava voltada para o acompanhamento e montagem de turbina, serviço de galerias, rochas e barragem, além de assessorar na construção de pontes. Aposentou-se mediante a aposentadoria incentivada após 23 anos e oito meses de trabalho. Por conseguinte, retornou para o Paraná, para a família, e abriu seu próprio negócio.
Em 1979 assumiu um posto de trabalho em uma hidrelétrica no estado paulista, mas residiu em uma cidade que fazia fronteira com o Paraná, até 1982. Após essa data, mudou-se para o estado de São Paulo nas vilas dos trabalhadores – localidades mais próximas da UHE. No período em que esteve no Paraná conheceu Ana. Casaram-se em 1983.
Na época em que se conheceram, Ana trabalhava em uma empresa de correios. O relacionamento por eles iniciado apresenta uma narrativa que revela horizontes de vida díspares em seus valores e ideais que persistem ainda hoje. Thiago estava afeito à migração, mudava de cidade conforme o trabalho em hidrelétricas exigia. Ana era uma mulher com enraizamento profundo, vivendo no local onde crescera. Ela era proveniente de uma família humilde e, ao se deparar com a conjuntura do barrageiro, desgarrado, construiu uma representação dessa categoria profissional cujo modo de ser está vinculado ao esbanjamento e desperdício.
A sua narrativa contém um estranhamento ao conhecer o modo de vida desses profissionais, no que se refere ao contexto de trabalho (itinerância; suportes e benefícios disponíveis para moradia, saúde, educação, entre outros; estabilidade no emprego; coesão social do grupo de barrageiros). Ana aproximou-se desse universo quando em sua cidade residiram os primeiros trabalhadores envolvidos no início do empreendimento da hidrelétrica na região. Momento de entrar em contato com o caráter dessa obra e evento para conhecer seu futuro marido.
A partir disso, Ana reflete sobre esse contexto profissional e se concentra não no usufruto desses direitos, mas no perigo que eles ensejam quando o barrageiro não consegue avistar um tempo para além do presente. Ela relata isso ao afirmar a relatividade das regalias e das “mordomias” dos barrageiros, o que lhe despertou uma impressão cuja dimensão temporal se reduz ao “viver o hoje” (Ana) – no tocante à ameaça de demissão como algo distante; por não existir uma fiscalização rígida que controlasse os recursos materiais e financeiros disponíveis (principalmente para as pessoas que ocupavam altos cargos); e por dispor de moradia custeada pela empresa. Aponta que isso pode ter prejudicado uma visão a longo prazo desse grupo social, como providenciar meios para adquirir uma casa própria. Afirma que os barrageiros que souberam controlar os rendimentos e as finanças adquiriram um imóvel, caso contrário, encontraram dificuldades para adquirir uma casa própria ou mesmo não alcançaram isso.
Essa diferenciação nos modos de conceber como se deveriam administrar os ganhos salariais mais os recursos e assistências que a empresa fornecia – de ambos os trabalhos, especialmente o de Thiago – foi motivo de intensos dissensos entre o casal Safira. Ana, “poupadora”, e Thiago, “mão aberta”, ao construírem um casamento e uma família, com os filhos nascidos, foram buscando meios de negociar e compartilhar uma concepção temporal, social, econômica e afetiva para gerir a vida familiar. Uma relação que constituiu modos de ser-trabalhar-viver específicos desses arranjos familiais e que produziu diversos (des)encontros das interfaces trabalho e família.
Da casa para a barragem e da barragem para a casa...
Thiago em sua história laboral ilustra considerações que Froelich (2001) fez em pesquisas sobre barragens do Cipreste que envolviam grandes projetos no estado de São Paulo. A empresa, coadunada com grandes empreiteiras, oferecia alojamentos para os solteiros, no próprio canteiro de obra, de caráter provisório. Por sua vez, os casados eram acomodados, com suas respectivas famílias, em residências previamente construídas para esse fim. Importante resgatar que um empreendimento desse porte demanda um volumoso contingente de trabalhadores na etapa da construção, o que exige um expressivo deslocamento de trabalhadores para o canteiro de obras.
Os trabalhadores “solteiros braçais”, como Froelich os denomina (2001, p.119), permaneciam em alojamentos coletivos enquanto durasse a construção da hidrelétrica. Por sua vez, os “solteiros de nível técnico” eram alocados em casas mais espaçosas, com quartos individualizados (ou com menor número de pessoas), as denominadas repúblicas. Thiago teve a experiência de ficar, especialmente no início de sua carreira como barrageiro, em alojamentos coletivos e posteriormente em repúblicas.
Podemos averiguar que essa política da empresa, voltada para os solteiros e os casados, não se restringia apenas à moradia, mas também ao vínculo empregatício. Por meio da narrativa de Thiago, capaz de expressar o cunho social vigente no período em que sofreu sua primeira ameaça de demissão, é possível explicitar essa concepção. A primeira vez em que ele vivenciou o sinal de desemprego foi no fim dos anos 1970, quando os solteiros eram priorizados para demissão. Thiago estava prestes a ser demitido, quando um amigo seu, casado, solicitou a própria saída por motivos outros, sugerindo aos gerentes que Thiago permanecesse no trabalho – esse evento ele nomeia como sua “sorte” porque foi a ocasião que o fez permanecer na empresa, porém, não deixa de reconhecer ter sido um bom funcionário.
O Cipreste é tido como uma empresa que fornecia estabilidade no emprego, por ser a proprietária das barragens e quem administrava as construções. Todavia, não trabalhava sozinha, com ela foram contratadas distintas empreiteiras. Diante disso, Thiago presenciou a rotatividade de mão de obra em barragens, pois havia nas empreiteiras um contingente flutuante conforme a demanda da construção e a gestão adotada. Estava ciente do “facão” que acontecia de modo recorrente e em larga escala. Thiago também testemunhou o momento de privatização do Cipreste, a mudança da realidade da empresa quando esta se tornou enxuta e reestruturada.
Ao retomarmos a narrativa de Thiago, que expõe sua trajetória no Cipreste de trabalho e migração, verificamos que as primeiras mudanças de cidade/UHE se davam segundo as necessidades da obra e as etapas desta. Posteriormente, conforme Thiago crescia na empresa, vemos que a sua ida para uma UHE se deu por meio de um comunicado de transferência pela empresa. Quem aceitasse obteria na época 20% de aumento, pois mais um empreendimento se iniciava e necessitava-se de trabalhadores com qualificações como a dele. Thiago, solteiro na época, não via o que perder, pois afirma ter lhe sido oportunizado um ganho salarial, além da possibilidade de conhecer um lugar diferente.
Como os narradores Davi e Lia, Thiago viu uma cidade surgir em função do Cipreste. Assistiu ao marco zero da fundação desse núcleo urbano na realização da topografia e das medições para definir onde seria construída a vila para os barrageiros. Reconhece que poder testemunhar o nascimento de uma cidade/povoado é um evento que poucos podem presenciar: “Então eu vi nascer” (Thiago). A origem urbana dessa cidade está arraigada à hidrelétrica do Cipreste, tendo, por exemplo, uma de suas vias denominada Avenida dos Barrageiros, expoente de sua história e organização. Thiago mudou-se do Paraná para o estado paulista. Nesse período estava casado e com filhos. Dividiu sua vida em duas localidades e famílias (a de seu cônjuge e a da sua mãe). Por mais de uma década realizou viagens semanais de idas e vindas de casa para a barragem e da barragem para a casa. Durante alguns momentos de sua vida profissional permanecia mais tempo fora de casa, por estar envolvido em projetos de construções mais distantes, retornando em períodos de tempo mais espaçados.
A casa que Thiago comprou da vila do Cipreste, segundo seu relato, teve como um dos fatores colaborativos as dívidas referentes às leis trabalhistas que o Cipreste tinha pendentes com seus funcionários. Por meio do abatimento das parcelas da casa, como forma de quitar a dívida para com seu quadro efetivo, Thiago viabilizou a quitação e aquisição definitiva da casa. Funcionários de empreiteiras, que também estavam na época da venda das residências, puderam compra as suas.
O casal Safira apresenta uma questão acerca de sua convivência marcada pela distância geográfica, presente catorze anos em função dos respectivos trabalhos em cidades distintas. Em especial, Ana aponta uma perda relacional afetiva porque percebe uma vida independente e desapegada que seu marido construiu. Segundo ela, trata-se de uma rotina à parte que persiste ainda hoje: “É complicado porque ele tinha a vida dele lá, livre” (Ana). A narradora compreende seu papel na relação conjugal como alguém que está para “segurar um pouquinho” o marido (Ana). Esse posicionamento refletido em seu discurso é um reclamar do estar junto, do viver compartilhado em uma rotina doméstica que está por ser reavida e reparada em decorrência da distância experimentada, principalmente por Ana se dizer uma pessoa que não é afeita a programas fora de casa, como seu companheiro.
O caminho de casa para o trabalho e do trabalho para casa refrata as marcas migratórias por meio de um estranhamento vivido que se remete ao cônjuge como aquele que se “acostumou” a estar fora da família, descolado da rotina do lar, e que envolve questões domésticas, esposa e filhos. A narrativa de Ana deságua esses afetos outrora represados:
Acho que é um pouco de desamor com o próximo. Eu sou
dessa maneira, mas ele não é desse jeito. O meu pensar é
assim, o meu jeito. Então, eu acho que tudo isso foi a falta do
relacionamento, de conviver junto, quando nos casamos. Aí
quando ele ficou numa cidade e eu fiquei em outra, mudou em
um aspecto e no outro não. Mas nem por isso ele não é... Vou
falar, ele é ótimo marido, ele é um ótimo esposo.
Por outro lado, Thiago se viu com duas famílias: a família do casamento e a da sua mãe. Residia com a sua mãe, por quem afirma ser responsável desde jovem, durante a semana. Dividia seus cuidados com a mãe (no estado paulista) e com a sua esposa e filhos (no estado paranaense), permanecendo junto destes últimos apenas nos finais de semana – uma vivência de família que se dava em pedaços de tempo, de relação e de convivência. Quando se aposentou, Thiago mudou-se para o Paraná e levou consigo a mãe, para quem comprou uma casa à parte com a venda da residência da vila. Continuou com as duas famílias, dizendo então estar mais à vontade e contente por viverem na mesma cidade.
Interessante notar a narrativa de Thiago quando a distância é situada com certa relatividade. Isto é, ao manterem seus respectivos empregos, o dele e o de sua companheira, em cidades diferentes, e conviverem separados alguns dias da semana, pois se viam apenas aos finais de semana (ocasionalmente se viam em quinzenas ou um período maior quando realizava o trabalho em localidades mais distantes), afirmam esse distanciamento não ter sido uma situação insustentável porque estavam próximos e por terem bons empregos, o que possibilitava meios de se verem com certa frequência. Para ele, o limite anunciado em sua narração, o tempo insuportável para viver a distância seria o de um ano. Doze meses sem ver seus familiares poderia incorrer a perda da “rédea da família” (Thiago).
Desse modo, percebemos um arranjo com relação a distância pois, embora Thiago estivesse presente somente aos finais de semana, seu lugar de pai, autoridade e chefe de família manteve-se preservado, mesmo a alguns quilômetros e com a sua ausência no cotidiano doméstico – acerca dos desdobramentos disso sobre o enredo familiar discorreremos no tópico conseguinte.
(Des)encontros trabalho-família: da água represada às comportas abertas
Ana começa a sua narração com uma colocação emblemática. Situa a temporalidade do barrageiro centrada no aqui e agora: “Vivia o hoje e amanhã era outro dia” (Ana). Aponta serem pessoas diferentes de seu universo, especialmente por ela vir de um lar humilde. Para explicar essa afirmação, menciona o desperdício com supérfluos, presente nesse grupo social, o que contribuía com uma percepção de se ter tudo quando não se tinha nada, sendo uma ilusão a ideia de uma vida abastada.
Tendo esse argumento em vista, observamos a relação do casal construída a partir de dissensos nesse quesito. Como sinalizamos, Ana era a pessoa econômica que pesava os gastos com ponderação e a partir de um plano a longo prazo, enquanto Thiago, aos seus olhos, fazia parte de um contexto que exagerava nas festas, comidas e bebidas. Ana relata que seu companheiro mudou nesses termos ao longo do casamento. Construíram um relacionamento em que Thiago, principalmente, teve que rever a concepção temporal e incluir em seus planos o longo prazo. Ana pondera isso como uma conquista que não esteve livre de tensões ao dizer que, se ela tivesse entrado na lógica esbanjadora, restrita à imediaticidade de seu companheiro nesse grupo social, talvez hoje não tivessem uma casa própria onde morar, pois estariam centrados apenas no bem-estar do presente, sem envolver sacrifícios que focassem um projeto futuro e de cunho familiar.
A fala do casal Safira avança e passa a divisar um modo de existência que ultrapassa a categoria trabalho para se referir ao enlace afetivo (casamento). Thiago afirma que ser solteiro, independentemente de ser barrageiro, possibilitou um período de sua vida livre de preocupação, cujo foco era: “Pensava em viver uma vida boa, tranquila, festando” (Thiago). Resgata seu sonho de juventude, ser músico de banda, chegando a participar de concursos e eventos. Época em que pensou em deixar o trabalho em hidrelétricas para seguir essa carreira. Ao rememorar esse período, afirma ter sentido essa perda, mas ficou feliz por ter encontrado meios mais seguros de angariar a vida. Isso se deu quando ele recobrou o trabalho de barrageiro, integrando o Cipreste, empresa estatal que lhe oportunizou um bom salário e estabilidade empregatícia permitindo-lhe usufrutos, como a vida de solteiro e as festas. Para ele, a assunção de um compromisso – o casamento – é o que o fez estabelecer outras escolhas de maior importância na vida. Escolhas essas que precisaram ser conjugadas com as de sua companheira.
Ademais, com a narrativa dos Safira, vemos um encontro de mundos distintos quando eles se deparam em suas diferenças nos modos de ser-trabalhar-viver e se dispõem a criar, mediante constantes negociações, pontos de acordo. Thiago evidencia que Ana não conhecia o universo do barrageiro e o motivo do estranhamento dela no que diz respeito a essa realidade, vista como mais abastada, dava-se em comparação às pequenas firmas e salários locais menores que faziam a vida ser mais simples e austera.
A vivência do trabalho de Thiago no Cipreste é entendida por ele como um período em que era possível usufruir de “regalias” que a empresa concedia, particularmente quando esteve na última cidade de trabalho, gozando segurança no emprego e moradia. No entanto, aponta que, durante o período de privatização, quando a obra foi finalizada, houve uma drástica redução de funcionários. Momento de transição na gestão e relações de trabalho, havendo a instigação para que os trabalhadores se demitissem e se aposentassem, contexto da sua aposentadoria, que, além de ser especial por trabalhar em áreas de periculosidade e insalubridade, acabou por fazê-lo aceitar o incentivo financeiro para se desligar da empresa. Embora aposentado novo, afirma ter sido bom, pois conseguiu um benefício que o ajudou a abrir seu próprio negócio.
Thiago, ao contemplar sua história de vida, tece uma narrativa cujo enredo resplandece uma realidade costumaz do barrageiro, o desencontro entre trabalho e família: “Nós que somos barrageiros a família não acompanha a gente em todos os sentidos assim” (Thiago). Uma fala capaz de anunciar a recorrente demanda de mobilidade laboral quanto à impossibilidade de participar, de modo próximo e presencial, dos acontecimentos e decisões familiares cotidianos.
Os deslocamentos realizados podiam ser distâncias e períodos de tempos curtos ou mesmo maiores. Quando ficou fora seis meses a trabalho, por causa de obras, a empresa concedia transporte quinzenal para retornar a sua casa, o que o auxiliava a conviver com essa situação. Mas um ar de resignação comparece em sua fala perante a difícil conciliação entre família e trabalho, especialmente ao falar sobre as viagens e a distância, tendo que priorizá-los de modos diferentes e em tempos distintos:
A gente fica um pouco preocupado, de uma maneira assim,
mas é normal. A gente sabe que tem que passar por isso.
Então a minha resposta no caso seria essa. A gente sabe que
tem que passar. É difícil você [...] Trabalho é trabalho. Família é
família. A gente comenta que quer incluir os dois, fica um pouco
difícil, mas passa. A gente leva também. (Thiago)
Sua exposição é contundente, ao demonstrar a contradição vivida na difícil tentativa de compatibilizar trabalho e família, porém assinala que foi o trabalho que lhe possibilitou cuidar da família. De certa forma, pensamos que a família também possibilitou o trabalho desse barrageiro, ao conferir a ele apoio e complacência para assegurar os vínculos, mesmo a distância, como observamos no posicionamento das mulheres nessa relação singular. Um rastro disso parece emergir no discurso de Thiago, ao reconhecer que o trabalho propicia a família e que a família, afirmadora de sua condição de homem provedor, precisa ser cuidada mediante seu labor: “Sem o trabalho e sem a família é onde mora a moral da história, é difícil você adaptar algumas coisas. A gente tem trabalho e tem família. Mas para cuidar da família você tem que ter trabalho” (Thiago).
Isso é compreensível, ao visualizarmos que os nós sociopsíquicos são tecidos em uma conjuntura em que a sociedade é centrada no trabalho e as relações gravitam em seu entorno. A família foi sendo manejada – e muitas vezes colocada em segundo plano – até que um contexto distinto da realidade de trabalho oportunizada e das cidades diferenciadas (que produziram vidas momentaneamente separadas) pudesse proporcionar outra convivência. Dito de outro modo, o mesmo trabalho que propiciou sustento à família, estando ela separada, foi o que permitiu que um dia ela estivesse reunida (ao se aposentar). Entrementes, foi preciso esperar 14 anos, uma aposentadoria, para que essa relação pudesse se dar face a face, durante uma semana inteira e não mais em finais de semanas ou quinzenas. Momento esse propiciador de uma vivência mais abrangente e aprofundada dos sentidos da família. A síntese de Thiago para a isso é a seguinte:
A gente tem que trabalhar e a família vai esperando a gente até
chegar a uma conclusão. Nós estamos juntos hoje. Estamos
aposentados os dois, hoje nós estamos vivendo a família.
Ajudando todo mundo e tocando o barco.
Vejamos, a partir daqui, o que Ana considera acerca desses encontros e desencontros trabalho-família.
Quando se casaram, seu cônjuge residia e trabalhava em outro estado. Afirma que se manter no trabalho foi uma decisão sua, uma vez que o marido desejava que ela deixasse a profissão para ficar junto dele na cidade em que trabalhava e residia durante a semana. Ela assinala que seria uma dona de casa sem o seu exercício profissional e, ao optar por não sair do seu emprego, inviabilizou a mudança de cidade e a moradia conjunta – uma decisão em que a distância foi produzida tanto pela definição de Thiago quanto pela de Ana.
A principal razão para essa escolha foi o caráter temporal a longo prazo que ela demarca desde o início da sua fala. Um posicionamento que visou não apenas à sua independência financeira, mas aos meios efetivos de auxiliar na educação dos filhos, com o marido:
A decisão foi mais minha mesmo. Daí ele pegou: “Você que
sabe. Se você quiser”. E eu quis! Por ele eu teria ido. Eu
sempre pensava no dia de amanhã. Sempre pensava me
aposentar, ter a minha vida, ter o meu dinheiro, pensar no futuro
dos meus filhos. Tanto é que eu acho que ajudou muito, porque
senão... Ele fala, talvez, sem você, se não tivesse trabalhando,
sem o ganho de você, seria mais difícil para manter um filho
hoje na faculdade, mesmo que não pague. (Ana)
Outro aspecto da sua escolha de se manter no trabalho e na cidade de origem foi o sentimento de realização pessoal. Uma escolha que envolveu coragem:
Eu me sinto realizada hoje. Porque se eu não tivesse, se eu
tivesse desistido, não tivesse o trabalho e não tivesse
aposentado eu ia me sentir muito inútil na vida porque dependia
tudo do meu marido. (Ana)
A realização de Ana também se constitui por ver sua contribuição financeira no sustento e educação de seus filhos – projeto esse que vinculou o seu trabalho e o de seu cônjuge. Ao mesmo tempo que gozava de independência financeira, fez a escolha de compartilhar a conta e as despesas. O casal definia, junto, os gastos e investimentos, sendo a prioridade voltada para o futuro dos filhos que eram os estudos, quando afirmava para eles: “Filho, nós estamos tudo juntos ali, não tem aquilo que o dinheiro é da mãe. É todo mundo junto, é nosso” (Ana).
Expõe que foi uma escolha mista e imersa na contradição que se polariza entre o fácil e o difícil. O “fácil” é terem podido construir, juntos, a casa própria, onde moram hoje. Tiveram a possibilidade de se visitarem, pois não moravam em cidades muito distantes, podendo tanto ele vir quanto ela ir com as crianças (por exemplo, as visitas surpresa que fazia com seus filhos). Entretanto, a “parte difícil” ela nomeia como “estar sozinha”. Sensação que a tomava quando se percebia solitária à noite, ao ficar longe e assumir primordialmente a educação, cuidados e problemas do lar. Afirma ter sido pai e mãe, sendo para ela embaraçoso ter de deixar os filhos com funcionárias que cometeram atos de negligência com eles.
Com sua narrativa, percebemos que, fosse a mulher trabalhando fora ou permanecendo em casa, ela se encarregou, sozinha, dos cuidados e educação diários, centrando nela as responsabilidades e decisões, pouco ou nada compartilhadas com o marido. Nessa configuração, vemos o marido no trabalho (instância do “fora”) que não podia receber o trabalho doméstico (instância do “dentro”, ou seja, de casa/familiar). Era a mulher exercendo esse duplo trabalho ao conjugar o labor dentro e fora. Nas palavras de Ana, isso pode ser sintetizado da seguinte forma:
Então tem umas partes difíceis para a gente arcar com tudo e
nem ligar para o pai e não falar nada, não dar trabalho para ele,
não passar aqueles problemas. Então a gente tem que arcar
com todos os problemas. Eram os médicos. Embora quando
era para ir ao médico fora ele vinha, mas é escola, tudo...
Então, trabalha desde a parte do lanchinho, da doença... Era
uma dorzinha à noite, mamadeira de manhã. Tudo a gente
sozinha. Então era complicado a gente sozinha com os filhos,
como eu ficava. Desde pequenininho, os três. Quando ele
[Thiago] veio, o meu filho mais novo, o Junior, já tinha cinco
anos. É essa a parte difícil.
A família encontra-se centrada na mulher, ao que diz respeito aos cuidados domésticos, porém, a figura de provedor é estatuto do pai, que detém a principal função de autoridade. Isso significa que, embora a mulher encabece as decisões dos cuidados domésticos e com os filhos, o lugar do marido é mantido como o primordial (ou único) provedor. Contudo, sua responsabilidade centra-se “fora” do reduto do lar, seu trabalho externo. A ele (o pai) se recorre somente em casos pontuais ou emergentes. Podemos entender essa produção como um arranjo que confere suporte para esse pai/cônjuge se manter a distância sem perder as “rédeas da família”, como aponta Thiago. Mesmo que essa figura masculina mantenha essas rédeas, percebemos as mulheres conferindo a direção, ao ter de lidar no cotidiano com inúmeros problemas e questões que demandam cuidados, assistência, educação, afeto e gestão da rotina familiar – um encargo pouco distribuído, o que deixa ranços e angústias que podem ser pouco compartidas em arranjos mais horizontalizados, capazes de envolver com maior participação a figura paterna no trabalho de “dentro”, o doméstico-familiar.
Finalmente, ao se voltar para esse passado recente na vida deles, os Safira relatam que um elemento fundamental para manter a relação nesses desencontros trabalho-família foi a confiança um no outro. Mencionam ter sido complicado estar longe, mas foi uma escolha que lhes possibilitou perdas e ganhos. Reconhecem que viver e morar juntos, compartilhando um cotidiano face a face, na atualidade também não é algo fácil. Perante isso, orgulham-se ao dizer que conseguiram construir e manter uma relação nesses termos ao completarem 32 anos de casados.
Esses são o tempo, espaço e relação dos Safira a se ressignificar com o retorno para a família, de Thiago e de Ana, ambos aposentados. Thiago tem novo trabalho, porém em uma condição inédita: ser na mesma cidade em que seus familiares residem. Capítulo novo a ser escrito ao ser dar continuidade a esse enredo familiar com a família reunida – ao menos o casal. Uma redescoberta que Thiago se permite realizar, ao buscar suprir o lapso do afeto provocado nos interstícios do tempo e do espaço, posto que, para ele, deixar de ficar longe da família é um momento de “tranquilidade da vida”, em que pode dar “uma assistência melhor”, em suas palavras.
As narrativas em diálogo: generalidades e
singularidades Nesta seção agrupamos ao redor de temas os principais núcleos argumentais localizados a partir do diálogo entre as narrativas de vida dos três grupos familiares. Esperamos desse modo tanger seus aspectos gerais sem dispensar as especificidades do material narrativo. Poder avançar na discussão e aprofundar o mundo que esses narradores nos revelaram.
De que forma faríamos isso? Ao apreciarmos o conteúdo narrativo não somente em sua captura pela hegemonia neoliberal, mas que se contraponha a esse ideário. Isso é viável ao evidenciarmos as lutas, ações, conflitos e paradoxos invisibilizados ou, mesmo, menosprezados. Poder emergir das bases, isto é, dos horizontes de vida dos narradores, os saberes e desejos como as substâncias capazes de ampliar os espaços coletivos mediante as trocas de experiências.
Colocar as narrativas em diálogo, em suas generalidades e singularidades, é poder estabelecer zonas de contatos a partir de suas diferenças que convergem e divergem. Colocar em destaque a multiplicidade que, mais que compor esse universo do barrageiro, refrata a própria vida. Quem sabe assim podemos recobrar as experiências desperdiçadas que o narrador benjaminiano insiste em recuperar a fim de recolhermos elementos que fomentem práticas sociais transformadoras.
Consiste em debruçarmo-nos sobre as narrativas dos barrageiros e seus familiares que assumiram a voz e a vez para narrar as suas vidas e revelar em seu discurso suas próprias utopias, ao viver condições específicas de trabalho, moradia e de relações afetivas e sócio-familiares, em que a migração laboral faz-se atuante, ao delinear seus modos de ser-trabalhar-viver. Essa dimensão ganha expressão, quando entendemos que a utopia se enraíza em determinado cotidiano e, a partir dele, podemos encontrar os elementos a serem traduzidos com o auxílio da hermenêutica e da psicossociologia mediante a composição de temas que enredamos nos itens subsequentes.
O caráter interventivo da narrativa enquanto arte
da existência: uma ação autopoiética
Para dar início a este tópico, gostaríamos de demonstrar o caráter interventivo que a narrativa possui ao mobilizar lembranças, afetos e rever o vivido ao retomar/retornar as histórias de vida. Pudemos ver, com uma de nossas narradoras, o teor provocativo das reminiscências que persiste para além da situação de pesquisa: “O que eu me lembro é isso. Depois que eu vou falar, vou lembrar: deveria ter falado aquilo!” (Débora).