(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

Daniele Almeida Duarte · Capítulo 4 de 6 · parte 4/4

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(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

3 - Os modos de ser-trabalhar-viver dos barrageiros e seus familiares

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Débora nos evidencia que essa metodologia amplia o reencontro não somente com a sua própria história, mas com a historicidade familiar, coletiva e social, em que um fio de história puxa outro, pois falar é lembrar e lembrar é poder narrar. Em seu relato seria: “Se eu tiver algo a acrescentar eu vou falando. Porque quando a gente vai falando a gente lembra, minha irmã lembra outra coisa. Aí devia estar gravando! Lembrar das brigas também que a gente tinha!”(Débora).

Quando encontramos Débora novamente, ela menciona ao longo das narrações como a primeira entrevista-narrativa a mobilizou, despertando nostalgia em relação ao modo de vida outrora experimentado, um desejo de rever o lugar de existência:

Esse negócio de ficar falando da vila I me deu uma nostalgia.

Esse dia eu baixei o Google Earth, entrei lá. Passeei pela vila I

inteira, não achei a minha casa porque não deu para passar na

rua lá. Casa X, quadra Y. (Débora)

Ao reportarmo-nos a Le Grand (2005), veremos que a história de vida está vinculada de modo frequente a um trabalho de luto. É luto de uma situação vivida, de uma juventude, de um modo de ser-viver, tal como Débora nos sinaliza e nossos demais narradores. Volver a esse passado que pulsa no presente mediante a narrativa é uma maneira de se (re)viver simbolicamente. Poder procurar outras vias para dar continuidade à existência, logo, uma dimensão de busca sociopsíquica, pois de maneira indissociável vemos que procurar a si mesmo é também localizar o outro. Não se trata apenas de uma nostalgia do que ficou para trás, mas de um redimensionamento da historicidade que possibilita “passar a outra coisa, encarar projectos, fazer com que a vida continue noutro local, de outro modo, num tempo novo, numa geração nova” (Le Grand, 2005, p.276).

Por isso temos afirmado ao longo deste livro a narrativa vinculada ao potencial interventivo, uma vez que oportuniza um trabalho de historicidade enquanto arte da existência, de reinvenção de si. Nas palavras de Le Grand (2005, p.277), “uma prática autopoiética – do grego autos (si) e de poien (produzir) –, que visa produzir-se a si mesma”.

No material narrativo das três famílias pudemos encontrar esses elementos como também apreciar de modo nítido o cruzamento da instância individual com a social-histórica. Verificamos nas charneiras do espaço-tempo individual sua inscrição nos campos social, histórico e político. Aspectos que explicitaremos adiante.

 

A diversidade do universo dos barrageiros e

seus familiares

Ser barrageiro e família de barrageiro possui múltiplas facetas e paradoxos. Uma vivência cujas marcas migratórias imprimiram enlaces e desenlaces, sentimentos sobre os quais parece ser difícil expressar, mas que não deixam de invadir o conjunto da existência, da experiência de si e com o outro.

Vamos encontrar nesse grupo social, a partir de suas histórias singulares, ecos do modo de produção capitalista e da adoção do programa neoliberal pelo governo brasileiro que trouxe impactos nítidos no setor de produção de energia elétrica. São as privatizações e demissões que, se de um lado geraram outras modalidades de contrato e gestão de trabalho mais frágeis e incertas, por outro, produziram modos de ser-trabalhar-viver em um horizonte marcado pelo curto prazo, pela insegurança e desenlace social e familiar.

É possível observar as transformações encetadas pelo âmbito econômico e sociopolítico, ao adentrarem nas casas e nos espaços doméstico e de intimidade – onde a história geral é vivida e (re)inventada no cotidiano por pessoas até então desconhecidas e invisibilizadas.

Em face disso, pudemos ver o processo de desmonte do frágil Estado de bem-estar social, com suas empresas estatais, ao sofrerem profusas transições oriundas do processo de privatização. Ficaram alocados em um passado cada vez mais distante os suportes fornecidos aos trabalhadores (que integravam direta ou indiretamente essas empresas), os quais permitiam o usufruto de recursos que garantiam a moradia, conferiam estabilidade no emprego, dispunham assistências e benefícios que ultrapassavam a esfera salarial, como a vivência nas vilas capazes de contrapor a desagregação ao conferir uma rede promotora de sociabilidades e aproximações.

Com a iniciativa privada, esse cenário de vida modificou-se drasticamente. O longo prazo cedeu lugar ao curto prazo. O processo de gestão e configuração do trabalho produziu vínculos frágeis e precários, dispensando tudo o que não correspondesse com a lógica financeira preconizada pelo mercado e sua sede insaciável de lucro.

A partir disso, vimos uma diversificação de vida acentuar-se nos modos de ser-trabalhar-viver dos barrageiros e seus familiares. Para sobreviver a esse cenário, os arranjos familiares buscavam responder às oportunidades de trabalho do pai, provedor, que se deslocava para atender à família que de modo geral permanecia fixada em uma localidade que de alguma maneira lhe oferecesse segurança.

Contudo, ao observarmos os arranjos das três famílias, percebemos que esses adquiriram outra disposição conforme uma vivência migratória laboral fosse ocasionada.

A família Topázio acompanhava Jonas em seus novos locais de trabalho quando este tinha disponível um núcleo residencial promovido pela empresa empregadora (mesmo que indiretamente via empreiteira, que prestava serviço à estatal ou à proprietária da hidrelétrica). Os familiares acompanhavam o chefe de família por haver a garantia de moradia e um contrato firmado em prazo maior. Jonas ia adiante para acertar a moradia e, posteriormente, trazê-los em segurança. Entretanto, seus familiares deixaram de acompanhá-lo em seus novos locais de trabalho pelos seguintes motivos: 1 -contratos temporários de trabalho; 2 - lugares longínquos e sem estrutura que permitissem receber a família, fosse por não haver um núcleo residencial, fosse por Jonas morar temporariamente em alojamentos e/ou repúblicas; 3 - recorrente migração dispersas em diferentes frentes de trabalho.

Os nós sociopsíquicos aqui denotam as transformações nas condições e relações de trabalho, o mercado laboral que se tornou incerto e lançou Jonas em uma via migratória, marcada pela errância, pois esse barrageiro seguia as oportunidades de trabalho conforme conseguia um novo contrato de trabalho ou assumia um novo projeto em outra localidade. O que mudou, na vivência afetiva e relacional, foram os papéis designados, até então, ao pai de família, como visto.

A família Citrino acompanhou Davi quando havia uma referência local de moradia, fosse do núcleo residencial promovido pela empresa estatal ou selecionado pela família, compatíveis com seus recursos materiais e imateriais. Nas primeiras mudanças os membros familiares o acompanhavam. Passaram a não residir juntos quando não dispunham de uma localidade que não oferecesse segurança material e afetiva. Conviveram em cidades de trabalho e família separadas, em distâncias menores que permitiram a Davi se deslocar diariamente, no início de suas vidas familiares. Davi, por fazer parte de uma grande estatal, conseguiu requerer uma transferência que oportunizou a reunião familiar em um único local. Nessa localidade moraram até Davi aposentar-se e, posteriormente, ser demitido, pós-privatização.

Os arranjos familiares transformaram-se com maior radicalidade quando esse chefe de família seguiu para outros estados em busca de contratos de trabalho para assegurar o estudo dos filhos. A família não o acompanhava por motivos similares aos da família Topázio. Ademais, percebemos uma vinculação mais enraizada dos familiares de Davi na cidade/vila em que residiram – o que nos leva a conjeturar que, se Jonas tivesse conseguido adquirir o direito de compra da casa na vila em que moraram, também teria promovido o enraizamento em um cenário de vida conhecido, além da almejada casa própria.

Como vimos, os Citrino passaram a viver em cidades separadas desde a demissão de Davi até o momento atual, quando uma demissão iminente oportunizou o retorno dele. Momento esse em que os filhos concluíram os estudos, ensejando um permanecer junto ao núcleo familiar.

Por sua vez, os Safira conviveram com a migração, de maneira diferenciada, em uma distância conhecida e não tão longínqua, porém presente quase quinze anos da vida deles. Thiago realizava viagens e trabalhos fora, de modo recorrente, porém tinha um retorno certo ao seu local de trabalho e de moradia originais. Os arranjos dessa família, que se dispôs a conviver a distância, foi uma via alternativa que permitiu não abandonar projetos singulares, mas conjugá-los ao grupo familiar, isto é, o trabalho que conferiria independência e reconhecimento financeiro e pessoal – na esfera singular – também auxiliou no projeto familiar o amparo futuro dos filhos em seus estudos e início profissional.

Os Safira teceram negociações passadas quanto a essa decisão que demandou novos acordos a serem firmados em uma relação face a face que o presente dá ocasião, como pudemos acompanhar em suas histórias.

Tendo isso em vista, nas três famílias percebemos diferenciações nos arranjos, nas negociações e papéis familiares desempenhados na ausência e presença do chefe de família, o que motivou disposições que pudessem atender as suas necessidades em termos materiais e afetivos. Contudo, os pontos de convergência nessas três histórias, referentes aos nós sociopsíquicos, foi a importância que os contratos de trabalho em longo prazo promoveram com os dispositivos de moradia disponíveis a esses trabalhadores migrantes e seus familiares, pois serviam de âncora que permitia a vivência da mobilidade em termos mais seguros e negociáveis. Com o desmonte dessas instituições, não foi mudada apenas a relação de trabalho e funcionário, mas também as suas referências afetivas, sócio-familiares, geográficas e simbólicas – dimensões enraizadoras da vida. Aspectos esses que continuaremos a desdobrar nas seções seguintes.

 

As vilas de trabalhadores de barragens: um

dispositivo de aproximação e controle

As famílias Topázio, Citrino e Safira viveram parte significativa de suas histórias nas vilas de trabalhadores de barragens. Residiram pelos menos dez anos nesses locais e atravessaram o processo de venda dessas casas. Todas, exceto a família Topázio, tiveram oportunidade de comprar a casa de moradia nessas vilas. A família de Jonas foi quem morou e não conseguiu liberação de compra, fato que não trouxe apenas ressentimentos, mas suscitou a produção de um sentimento de não obtenção de reconhecimento por seu trabalho e anos de vida dedicados ao Bambu, como observamos em suas histórias.

Ao lançarmos um olhar mais atento às vilas, podemos percebê-las como um dispositivo que, se de um lado propicia a constituição de sociabilidades e agregação, por outro, possibilita o esquadrinhamento e controle, por parte da empresa, sobre o trabalhador e sua família. Identificamos nelas um dispositivo gerador de paradoxos naquilo que promovia e subtraía.

Como visto, as vilas conferiam ancoragem em meio ao movimento migratório, um locus de aproximação e segurança para quem chegava à terra estranha. Por esse lado, a vila permitia acolher esses trabalhadores-migrantes e suas famílias, fornecendo condições de convivência, territorialização e enraizamento na experiência de deslocamento. Com o processo de desmonte mediante a privatização do setor hidrelétrico brasileiro, as casas dessas vilas foram vendidas e esses espaços de acolhimento tornaram a vivência da migração mais vulnerável com a precarização laboral. Os relatos dos narradores tornaram isso mais visível não somente por apresentarem o paradoxo residente nesse dispositivo, capaz de aproximar e controlar, mas também do que ele era capaz de promover ao reunir por meio de um elo identificatório os trabalhadores-migrantes e seus familiares.

Geralmente as casas seguiam um padrão arquitetônico, diferindo-se em tamanho e qualidade do material conforme as classes econômicas e sociais dos trabalhadores nas UHE. Não possuíam portões e eram integradas a clubes, escolas, hospitais, centros comunitários e parques conforme o projeto-diretor determinava. Lugares capazes de abrigar pessoas de diferentes procedências, regiões, costumes, culturas e funções. Suas ruas costumavam ser espaço para brincadeiras, mas havia algumas restrições do ir e vir. Seu caráter seletivo estava voltado para a segmentação socioeconômica dos diferentes cargos e funções que os trabalhadores ocupavam na empresa, logo, repercutia em suas condições de moradia e sociabilidade.

Esses núcleos residenciais eram sinônimos de barragem e isso pôde ser evidenciado nas famílias Topázio e Citrino, ao dizerem que seus filhos foram criados nessas imediações, isto é, cresceram em vilas de trabalhadores de empreendimentos hidrelétricos. Jonas nos diz: “As meninas aí foram criadas tudo em barragem”.

O que é ser criado em barragem? É viver parte significativa de sua vida em vilas e dispositivos da empresa responsável pela UHE, o que confere relevo à íntima vinculação entre trabalho e família.

Não devemos nos esquecer de que foi amplamente destacado o ambiente da vila na fala das mães (Sara e Lia) e na dos filhos (Débora e Raquel), esse espaço de convivência que permita muitas peripécias infantis, como as crianças que pulavam muros, colhiam frutos e os saboreavam e brincadeiras em diferentes pontos da vila, conferindo liberdade para diversão até o anoitecer. Havia também um ar de aventura no relato dessas mães, levar o lanche para os filhos, no intervalo da escola, poder colocar cadeiras debaixo das árvores em uma roda de conversa. Sentarem-se à beira da calçada regada a uma boa prosa. Realizar trocas não somente de receitas. Mais que anunciar guloseimas a serem partilhadas na janela, prontas para serem degustadas, era um compartilhar da vida na divisão dos problemas e no solidarizar das dificuldades. Um lugar em que, nas lembranças dessas famílias, havia um cálido sentimento de segurança. Segurança dos filhos, do cônjuge e de si mesmas.

Entretanto, por outro lado, podemos deslindar a faceta dessas vilas enquanto dispositivo de controle. Com Ribeiro (2002), Froelich (2001) e Nova (2000), identificamos a fusão entre trabalho e lazer, entre labor e vida privada – nós sociopsíquicos. Para entendermos melhor esse cenário, é preciso correlacionar a intensa e extensa jornada de trabalho, vinculando o labor às outras esferas da vida, de modo direto e indireto, 24 horas por dia. Essa conjunção podia ocorrer pelos turnos de trabalho, pelo sobreaviso mediante escalas e plantões e também pela estruturação do lazer em torno do trabalho. As vilas e seus estabelecimentos, bem como as festas e confraternizações promovidas pela empresa, davam-se entre seus trabalhadores e familiares, em seus locais de vivência fora do espaço de trabalho. Sendo assim, havia uma íntima conexão entre o fora e o dentro do trabalho que gravitava ao redor da UHE, fosse o Bambu, fossem o Cipreste e suas principais empreiteiras.

Para evidenciar a diluição das fronteiras do dentro e fora do trabalho, precisamos conceder destaque à política da empresa que sobrepujava o espaço de trabalho, conferindo uma heterorritmia. Isto é, a sutileza do poder econômico, ao perpassar a idiorritmia (desejos e vontades), imprimindo suas marcas nas singularidades.

Quando nossa narradora, Raquel, fala do controle odontológico na escola, da regulação alimentar e da disciplina em sala de aula (a ameaça mais temível para o aluno era a escola comunicar diretamente o pai na UHE, no local de trabalho), podemos localizar a aproximação nítida entre os dispositivos escolares com o canteiro de obras. Ribeiro (2002) é quem nos fornece material para subsidiar nossa constatação. A autora, ao estudar uma corporação desse gênero no Paraná, anuncia que o controle alimentar e nutricional possuía a finalidade de garantir a produtividade, similar a uma máquina a ser ajustada para bem funcionar. As calorias minuciosamente calculadas eram servidas conforme a categoria social e profissional, tais quais as divisões expressas nas moradias e nos locais de trabalho. Manter o trabalho na obra, de certa forma, era também mantê-lo fora do espaço de trabalho, no cuidar dos filhos desses barrageiros. Vejamos essas reverberações soarem na escola e no canteiro da obra:

O Bambu dava também diariamente leite de soja. De sala em

sala, para todas as crianças que queriam leite. [...] Eles davam

o leite de soja para justamente, naquela época, eles já sabiam

que era mais saudável e nutritivo para os alunos. Então, eles

davam o leite quentinho, achocolatado, todos os dias. O aluno

que quisesse era só levar o copo. As inspetoras passavam com

aqueles caldeirões de leite quentinho e de manhã e à tarde eles

davam o leite. (Raquel)

Tudo era minuciosamente calculado. Para os funcionários que

não podiam abandonar seus postos, as refeições eram servidas

no local de trabalho. Quem trabalhava a uma temperatura

inferior a 10ºC, tinha direito a uma dose de chocolate quente. A

cada período de três horas, eram servidas barras de chocolate.

Se a temperatura elevasse excessivamente, o funcionário

recebia pastilha de sal, para evitar a desidratação. Tudo estava

previsto. O ritmo da obra era contínuo, 24 horas por dia, todos

os dias do mês, sem queda de ritmo. (Ribeiro, 2002, p.64)

Indo um pouco mais adiante, é possível localizar outra contiguidade entre obra e vila. A vigilância e policiamento próprios ao Bambu:

O policiamento era ótimo. Tinha muitos funcionários na

segurança, na época que o Bambu estava sendo construído. A

gente tinha viaturas passando na frente da nossa casa várias

vezes por dia. Sempre acompanhando. As saídas das vilas

eram sempre bem vistoriadas. [...] A gente não ouvia falar [de

assalto] porque era bem complicado se o ladrão resolvesse

entrar na vila para depois sair porque o policiamento era bem

severo. (Raquel)

A usina era um território fechado com regulamentos e vigias. O

regulamento impunha uma série de normas que tinham que ser

cumpridas pelos trabalhadores [...]. A estas características há

de se acrescentar que a corporação montou seu próprio

aparelho policial, responsável pela vigilância e segurança dos

trabalhadores. O controle disciplinar era destinado à garantia do

aumento gradual da produtividade. (Ribeiro, 2002, p.66)

Com esses paralelos, podemos perceber que os encontros entre trabalho e família eram nítidos ao ressoar uma política de controle para além dos cercos do canteiro de obras. Era o controle do aluno na escola cuja principal ameaça, no caso de indisciplina, era chamar o pai na obra; o controle alimentar e nutricional para bem produzir; o lazer disponibilizado em seus estabelecimentos; e o aparelho de policiamento. Tudo gravitava ao redor do Bambu.

Nova (2000) também aponta essa diluição entre as fronteiras da vida pessoal e do trabalho. Vinculação essa que expressa conjuntamente a intensa jornada de trabalho. Tanto o Bambu quanto o Cipreste promoviam uma coesão grupal para aqueles que integravam a empresa e faziam parte dos dispositivos de moradia e lazer desta. A internalização da cultura e política organizacionais era extrema, sendo o grupo de trabalho também denominado “família”, como aponta Nova (2000), ao estudar a cultura organizacional desses empreendimentos. Isso gerava tanto um corporativismo quanto uma naturalização das relações de poder expressas entre chefias e subordinados. Não livre de conflitos e tensões, pois eram reiterados os elementos classistas que demarcavam desde os espaços de trabalho (prestígio, remuneração e poder decisório) e fora dele (casas, clubes e escolas distintas conforme o cargo na empresa).

Froelich (2001) corrobora os achados desse autor, ao expor o relacionamento acentuadamente paternalista entre base e chefia. Isso se dava por meio de autoritarismos e arbitrariedades que se efetivavam mediante a intensa disciplina do regime de trabalho, das transferências compulsórias até o silenciamento e abafamento de manifestações e reivindicações por melhores condições de trabalho. Além disso, também se percebia na política de gestão desses empreendimentos uma relação de dívida do subordinado aos seus chefes que tanto podiam ser tirânicos quanto “compreensivos e bondosos”.

Ribeiro (2002) discute, em seu estudo, sobre uma das maiores corporações do ramo hidrelétrico brasileiro, a jornada esmagadora

expressa em uma carga horária extenuante 9, em um ritmo ininterrupto e com punições despóticas que não somente poderiam levar à suspensão do trabalhador, como também à demissão daqueles que ousassem reivindicar ou questionar a ordem imposta pela empresa – o que gerava o silenciar e o conformar com a realidade, por medo de retaliações.

O espaço da UHE era um território fechado, submetido a regulamentos próprios e estritamente vigiado, fosse de seu público interno (trabalhadores), fosse da regulação do âmbito externo, de quem estava autorizado a entrar e a sair.

Para manter o trabalhador dócil e disciplinado, havia um fundamento ideológico que subsidiava esse dispositivo de controle de modo que o funcionário viesse a ter “orgulho” de integrar essas empresas, tanto pela competência técnica requerida nesses empreendimentos quanto pelo ideal nacional de progresso e desenvolvimento que se atrelava a essas obras de grandes proporções. Na narrativa dos três barrageiros de nossa pesquisa pudemos perceber esse sentimento de honradez por fazerem parte dessas corporações:

Na época a gente trabalhava numa empresa e era uma das

maiores empresas do Brasil, nível bem elevado. Eu trabalhava

no Cipreste. [...] As firmas na cidade eram tudo aquelas

firminhas, salário, eles não tinham. A gente de estatal [...]

conseguia ganhar bem, então, tinha que viver bem. (Thiago)

Devemos nos lembrar de que estamos falando de um período tido como áureo na história do Brasil, o qual se regozijava no “Milagre econômico brasileiro” que construiu um ideal de nacionalismo, após 1964, época da ditadura brasileira. O governo colocou em execução projetos de grande porte cujo investimento econômico visava implantar uma indústria vigorosa de bens de capital (Ribeiro, 2002; Froelich, 2001).

Entretanto, vemos esses primeiros tempos desvanecendo-se conforme se enfrentavam crises, com o avanço da democratização, com as reestruturações posteriores nas eras Collor e FHC e com a implementação neoliberal, ao culminar em extensas privatizações do setor hidrelétrico, como apontado em nossa discussão teórica e por nossos narradores, o que nos leva a prosseguir para o item posterior, referente ao contexto de trabalho e seus agravos.

 

Os barrageiros e os acidentes de trabalho

Na família Citrino e Topázio fez-se claramente menção à longa jornada de trabalho. Sobre isso, Froelich (2001) traz informações de que, embora haja diferenciação da jornada conforme a atividade exercida, no geral, o trabalho na UHE (principalmente no período de construção) dava-se durante 24 horas, sete dias da semana – incluindo feriados e datas comemorativas. O barrageiro estava ligado direta ou indiretamente à obra 24 horas. Disso, temos alguns desdobramentos que a literatura disponível nesse tema ainda pouco explora: acidentes de trabalho, vinculação trabalho e lazer e relações de poder.

Quanto aos acidentes de trabalho, dois dos nossos narradores mencionaram ter sofrido, o barrageiro da família Topázio e o da família Citrino.

É interessante observar na família Topázio como esse episódio compareceu em sua narração. De modo indireto, Jonas rememora o cenário do canteiro de obras marcado por recorrentes acidentes. Afirma ter ouvido falar de inúmeros acidentes durante a construção. Lembra-se de um episódio em que um guindaste que carregava concreto despencou e atingiu vários trabalhadores, gerando mortes. Também se recorda de cabos de aços rompidos, produzindo acidentes e outros óbitos. O que vemos como algo curioso é de Jonas não ter se lembrado de seu próprio acidente e, sim, a sua filha, Raquel.

Raquel nos conta esse acidente, imersa em reminiscências da infância que situam o pai como o “trabalhador surreal”. Percebia desde criança que a profissão dos barrageiros exigia muito para que as hidrelétricas pudessem ser construídas e os prazos, sempre enxutos, fossem cumpridos. Nesse cenário, esse “trabalhador surreal” era aquele que não falhava na sua atividade e que ela nunca via faltar no trabalho, mesmo estando com problemas de saúde e com dor. A contrapartida disso era o seu pai não poder estar presente em eventos familiares, datas comemorativas e atividades da escola. Além disso, a falibilidade pôde ser percebida na única vez em que ele faltou, quando Jonas foi vítima de um acidente de trabalho que lhe quebrou o nariz e demandou uma cirurgia. Raquel nos diz que uma peça havia escapado e acertou seu pai durante a manutenção de uma máquina. Ela não somente explica como aconteceu o acidente, mas dimensiona a gravidade que poderia ter sido fatal ou mesmo gerado uma lesão permanente. Fora isso, nas memórias de sua infância, tinha a impressão de que seu pai trabalhava mais do que os pais de outras crianças que exerciam profissões distintas.

Com esse relato, vemos como o trabalho torna-se presente dentro de casa, perceptível tanto na ausência do trabalhador, que ficava longas horas fora de casa, como em sua presença, ao manifestar cansaço e sinais de exaustão. A rotina de trabalho, enquanto tempo forjado pelo grande mercador, é reiterada na vida privada ao compassar o tempo doméstico e familiar.

Por sua vez, o acidente de trabalho de Davi é rememorado pelo próprio casal, às vésperas de uma mudança para uma nova cidade. O episódio sucedeu-se quando Davi estava em trânsito, a serviço do Cipreste, em um transporte com outros colegas de trabalho, rumo ao canteiro da obra. No percurso, uma tampa de esgoto explodiu, acertou a roda do veículo e, com esse impacto, Davi bateu a cabeça, cortando-a. Foi socorrido pelo próprio motorista, que o levou ao hospital, onde recebeu sutura na cabeça. Lia lembra quanto se assustou ao ver o marido chegar a casa, ferido: “Ele estava chegando da cidade, com a cabeça raspada, a camisa cheia de sangue, em casa! Ai! Minha Nossa Senhora!”.

Juntos, rememoram Davi como um trabalhador que não faltava, sendo esse acidente um dos poucos atestados de saúde que teve ao longo de sua trajetória profissional. Sobre isso, vimos também o relato de Lia, que citou extensas horas de trabalho de seu marido, ao se referir aos horários “malucos” dos turnos, apontados como ruins e intensos, pela esposa. Um trabalhador, que aos olhos de sua companheira, tinha medo de faltar um único dia de trabalho.

Como visto, esse “trabalhador surreal” com horários “malucos” que consente e não ousa faltar um dia de trabalho tem a ver com o “trabalhador de ferro” que Ribeiro (2002) discute, ao pôr em cena um termo utilizado pelo próprio operário (barrageiro) do canteiro de obras. Um trabalhador a ser forjado e moldado sob uma rígida disciplina e controle, impostos pela gestão laboral. Para dar conta dessa realidade, era preciso ser duro como ferro, não tendo direito a fraquejar tampouco amolecer.

Por outro lado, é uma imagem que denuncia a precariedade da

situação dos barrageiros, o sofrimento e a insegurança, o

tratamento dispensado aos acidentados e a morte dos

companheiros de trabalho. O trabalho era perigoso e podia

provocar acidentes graves, que eram comuns. Ferimentos nos

braços, nas pernas e unhas das mãos e dos pés. Os fatais não

eram divulgados, mas muitos trabalhadores guardam na

memória relatos deles. Não fazem parte da história oficial da

obra do século. (Ribeiro, 2002, p.67)

As relações de poder e de acidentes de trabalho não devem ser vistas desvinculadas. Froelich (2001) nos chama a atenção para o fato de que muitos dos empreendimentos de UHE nasceram no período de plena ditadura brasileira. A gestão dessas obras bem como as condições e relações de trabalho incorporaram esse regime político, cuja principal expressão dava-se no binômio desenvolvimentismo-autoritarismo.

O autor também aponta existir um grande número (desconhecido por falta de registro) de barrageiros, vítimas de acidentes de trabalho. Trata-se de uma profissão repleta de riscos e agravos à saúde do trabalhador. Um acidente grave era passível ocorrer no cotidiano do canteiro de obras, o que fazia esses trabalhadores conviverem com essa realidade, de maneira próxima e diária.

O desconhecimento desse número, que não existe oficialmente, entre outros motivos, dá-se também pelas empreiteiras não prestarem contas nem responderem a respeito disso nesse período. Isso, Ribeiro (2002) também corrobora, ao asseverar que foram poucos os informativos, publicações e documentos que traziam dados dos acidentes e riscos existentes nas obras. Mesmo pesquisas recentes trazem, de modo fragmentado e disperso, informações sobre esse tema.

A ausência desses números torna-se compreensível ao nos depararmos com as duras relações de trabalho que reiteravam o autoritarismo por que o país passava. Os supracitados autores são unânimes ao apresentar uma disciplina rígida, com duras ordens, sem qualquer espaço para diálogo e com parcas negociações. A representatividade dos trabalhadores veio a surgir apenas em 1976, quando sindicatos emergiram, até então estes não existiam ou era inoperantes. Qualquer manifestação ou insatisfação não apenas trazia ameaça de demissão, como também um tratamento de segurança nacional, chegando a envolver o Exército para a resolução do conflito. Exemplo disso foi o episódio de um grupo, ao exprimir sua insatisfação com a comida servida pelas empreiteiras, conforme Froelich (2001) apresenta em seu estudo, que incorreu em violência e repressão. Imerso a tudo isso, continuava a imperar o ritmo frenético de labor durante toda a construção da barragem.

O par desenvolvimentista e autoritário estava entrelaçado, pois era regido por uma ideologia político-econômica, cujos objetivos eram estritamente monetários e financeiros. Durante o período da ditadura militar (1964-1985), o país, sob o autoritarismo, veiculava uma ideologia desenvolvimentista em que o governo apresentava à sociedade uma política social e de desenvolvimento econômico com o intuito de acelerar a acumulação de capital mediante uma rápida industrialização. Foi o período das grandes obras, quando várias hidrelétricas foram construídas por serem tidas como símbolo do progresso e condição para o país crescer mediante a geração de energia.

Todavia, esse ideário desenvolvimentista era movido pelo autoritarismo. O aspecto ideológico era subsidiado por uma política social, geradora de um imaginário de segurança, combatendo os inimigos externos e internos. Esse modelo de comando estendeu-se para os canteiros de obras, onde a autoridade não podia ser contestada, sendo entendida como eficiência no trabalho.

Posto isso, havia a clássica elite dominante estatal e de grupos hegemônicos privados (como grandes empreiteiras que se associavam a essas obras com o Estado) funcionando por meio de mecanismos de pressão e corrupção – estendidos também ao setor hidrelétrico brasileiro (Froelich, 2001; Ribeiro, 2002).

A busca de um lugar no trabalho e no espaço

familiar: paradoxos da existência

Vimos até aqui que a migração laboral e barrageiro são vinculações praticamente indissociáveis. Ser barrageiro remete à itinerância e a mudanças de cenário de trabalho, de cidade e das relações familiares. É o movimento que atravessa a subjetividade e constitui suas histórias de vida. No entanto, é preciso ponderar com cautela a ligação estabelecida com o trabalho, a cidade, a família e com a própria distância, seja para quem vai, seja para quem fica.

As razões das mudanças remetem a fatores distintos, podendo ser por transferência, solicitada pelo trabalhador, ou compulsória, por partir da própria empresa; término de contrato; finalização da obra/da função; novo contrato pela mesma empresa ou outro empreendimento, podendo exercer função profissional similar ou não.

Essa mobilidade foi pronunciada pela fragilização do vínculo de trabalho, dando origem ao desemprego, demissão e aposentadoria antecipada, como visto até aqui. Tal processo acentua-se ao remontar ao contexto de reestruturação e às empreiteiras construtoras. Jonas demonstrou com clareza sua condição de trabalho nessa conjuntura: “Eu trabalhava na construtora, no entorno. Não era no Bambu não. Trabalhava na construtora. Acabou a obra, acabou a empresa também. Aí eu saí” (Jonas).

Ao observarmos os picos de mão de obra das empresas, fosse a estatal, fosse das empreiteiras que a ela prestavam serviço, vimos um número flutuante, especialmente as que possuíam vínculos de trabalho mais instáveis com as empreiteiras. Com isso, iniciou-se um ciclo de utilização da força de trabalho em etapas específicas da edificação mediante processos de admissão e demissão conforme as demandas das frentes de trabalho e das exigências deste. Com o passar do tempo, a especialização adquirida durante as obras e a formação de um contingente voltado para a construção, vislumbramos as novas obras como um reservatório de mão de obra barrageira, podendo absorver parte desse pessoal conforme o porte e as firmas contratadoras.

Froelich (2001) aponta a impossibilidade de absorção de todo o contingente após o término da obra. Para muitas funções, especialmente as que estavam envolvidas com a construção, restava a expectativa de integrar novos projetos em outros locais ou a busca de outros postos de trabalho em atividades distintas às de barrageiro.

Nesses termos, a distância torna-se (in)suportável mediante o projeto pessoal que se constrói por meio do trabalho e daquilo que este pode oferecer em termos materiais e de reconhecimento. Os narradores expressaram essa condição, vinculando seu ideal de vida ao labor na expectativa de manter a família; adquirir a casa própria; educar os filhos; sustentar um patamar financeiro que gerasse maior qualidade de vida.

Quanto ao barrageiro e sua relação trabalho-família, nas três famílias visualizamos o barrageiro (pai, chefe de família) morando em outra cidade em algum período de sua vida, distanciado do grupo familiar e por demanda do trabalho. A vivência em cidades separadas, do mesmo modo que oportunizou um vínculo empregatício e/ou uma ascensão profissional em outros, fragilizou as relações familiares, ao ter o barrageiro de lidar com a distância física e afetiva, além das recorrentes viagens para visitar esporadicamente seu núcleo familiar.

Ao apreciarmos as dimensões macro dessa vivência, com Froelich (2001, p.152) vislumbramos problemas de caráter social, associados à migração da mão de obra dessa categoria profissional por causa da imposição de um ideal desenvolvimentista, denominado pelo autor como “obreirismo”. Este se caracteriza enquanto afastamento do trabalhador de sua casa por pelo menos um mês. Está relacionada ao obreirismo a dissolução familiar em virtude da ausência do chefe família, gerando separações, a constituição de novas famílias em outras regiões de trabalho e a insegurança do núcleo familiar.

Em face disso, é comum encontrar uma situação em que o trabalhador de barragem torna-se “morador-ausente” (em relação à localidade em que a família reside) para ser “morador-efetivo” em alojamentos ou repúblicas, estabelecidos outros lugares em decorrência da demanda da mão de obra em outros projetos hidrelétricos. Fato que os três barrageiros da nossa pesquisa vivenciaram em algum momento da vida deles. Isso reflete a itinerância que Jonas, o narrador que em mais localidades morou, demonstrou em seu relato: “Barrageiro começou não para mais... de uma barragem para a outra...”.

A vila que Lia nos situou em sua narrativa remeteu nitidamente a esse morador-ausente que Froelich (2001) denomina a respeito do esvaziamento do núcleo urbano com a partida dos barrageiros, chefes de família. Lia nos contou como essas vilas passaram a ser habitadas expressivamente por mulheres e seus filhos. Para se referir ao contexto dessa vila, em que morou pelo menos dez anos de sua vida, utilizou a expressão “mulher viúva de marido vivo”. Fez menção aos barrageiros que se ausentaram de casa por longos períodos, inclusive o seu marido. Eram trabalhadores que partiam em busca de novos vínculos de trabalho em outras obras e localidades.

Vimos profundas transformações nas relações afetivas, mas também na própria cidade, que conferiram relevo ao impacto social que um empreendimento desse porte traz não somente durante a construção – transformando a área urbana existente ou nascendi – mas também com a sua finalização.

Ribeiro (2002) e Froelich (2001) trazem de modo claro essa explosão populacional, principiada pela construção de uma UHE. Os desdobramentos desse contingente que se desloca em busca de trabalho engendram efeitos para quem permanece e para quem sai da cidade. Um dos problemas mais recorrentes é não haver o que Froelich (2001, p.172) denomina de uma “política global de desvinculação” por parte dessas empresas, o que fez com que parte expressiva dessa população vivesse de modo abrupto o desemprego decorrente da impossibilidade de a estrutura urbana local absorver essa mão de obra, como também o recrudescimento da violência local. Elemento este que nos chamou a atenção quanto à necessidade de ponderar e debater em canais mais ampliados as distintas instâncias que um projeto hidrelétrico comporta em seus efeitos sociopsíquicos e político-culturais.

Tal fato nos levou a considerar que a busca de um lugar no trabalho pode significar uma perda parcial de lugar na família. Observamos nas três famílias um retorno ao seio familiar que ainda está se constituindo, em vias de elaboração, após longo período do barrageiro fora (o dos Citrino está por se concretizar com a volta efetiva de Davi, porém, não deixa de produzir efeitos com a expectativa de seu retorno).

Percebemos no enredo familiar e na trajetória social dos três grupos um papel de pai e de marido sendo reconfigurado no cotidiano doméstico e na intimidade. Momento de reconstrução relacional ao regressar para casa. Uma temporalidade a ser desenhada com moldes que não sejam o tradicional tempo de trabalho, o que propicia um duplo retorno: o do marido e de pai que estava geográfica e afetivamente afastado em razão das horas a serem destinadas ao trabalho. Lugar a se ocupar, a ser compreendido e significado por seus próprios membros.

Raquel, da família Topázio, dispara essa questão, ao mencionar esse período do pai aposentado, em casa, com a família, como o usufruto do finalmente “não fazer nada”, diferente de sua mãe, que se angustia diante desse tempo do “não trabalho”.

Sobre isso, a família Citrino ainda está por vivenciar. Davi continua trabalhando e retorna para casa em média uma vez por mês, nos finais de semana. Entretanto, sua volta está prestes a acontecer assim que o contrato for encerrado. Lia expressa uma temporalidade desejante que venha propiciar, enfim, ao casal envelhecer junto, na presença dos netos e demais familiares. Poder sair da condição de “mulher viúva de marido vivo” e ter junto de si um cotidiano compartilhado face a face.

Os Safira estão recobrando essa vivência conjunta, em uma rotina ainda a ser construída e ressignificada, dos anos passados a distância. Pela primeira vez, após catorze anos casados, estão residindo na mesma cidade, tempo, lugar e relação de reconhecer um ao outro.

Diante disso, a busca de um lugar no trabalho e no espaço familiar produziu paradoxos existenciais. Isso não disse respeito apenas ao gênero masculino, mas também à mulher. Buscar um lugar no trabalho e no espaço familiar, seja pela atividade remunerada ou não, está longe de alcançar soluções quando persiste uma rígida divisão entre trabalho doméstico e profissional, centrando na mulher os maiores encargos pelos cuidados com a família.

Observamos nas três famílias uma contradição manifestada nos arranjos familiares, constituidores de papéis em que a postura do gênero feminino de não levar problemas para a figura masculina/ paterna se dá tanto no intuito de preservá-lo de preocupações, por estar distante/distanciado, quanto por esse homem não ocupar uma posição mais atuante no núcleo familiar.

Elemento destacável na narrativa dos Topázio, Citrino e Safira foi a incumbência das mulheres nos cuidados de casa e dos filhos, estando os maridos presentes ou não, bem como a mulher exercendo uma atividade remunerada ou não. Vimos, assim, uma imponente cisão entre o trabalho remunerado (centrado no homem) e o trabalho doméstico (centrado na mulher). Tal aspecto pode ser mais bem compreendido com discussões realizadas por Cyrino (2009), pesquisadora que se debruçou, para entender a relação entre trabalho doméstico e assalariado, ao abranger de modo articulado as categorias de análise trabalho, temporalidade e gênero.

Essa discussão é importante para nós porque põe em realce o universo dos narradores que ultrapassa o universo privado, pois estão integrados a uma construção histórica e social, inclusive de gênero. Cyrino (2009) assinala que a noção de cuidado naturalizada e socialmente construída como atributo feminino tanto onera as mulheres, que de modo costumaz acabam por ter de conciliar o papel familiar e o profissional, como reverberam o modelo patriarcal que delega a elas uma posição secundária no mercado de trabalho ou até mesmo as impedem de ingressar neste. Em conjunto, esses argumentos revelam uma divisão de trabalho desigual, dentro e fora do mercado.

A autora expõe que são parcas as mudanças dos tradicionais modelos de família que permitem um redimensionamento mais igualitário e partilhado acerca da divisão doméstica de trabalho, como o cuidado com os filhos e as práticas sociais cotidianas referentes a essa esfera da vida.

Interessante observar como Todorov (1999) debruçou-se sensivelmente sobre esse aspecto. Ao articular cultura e vida cotidiana atentou para o prosaico enquanto constituinte da arte da existência, esfera da vida que não consiste em uma repetição mecânica dos gestos garantidores da sobrevivência, mas algo dotado de riqueza e desafios conjugadores de nós sociopsíquicos:

Quem diz “criar as crianças” diz também, na verdade: jamais

esquecer o material (a alimentação, a temperatura, a higiene)

nem o indivíduo particular que temos diante de nós (inútil

endereçar-lhe um discurso abstrato de infância). (Todorov,

1999, p.182)

Restringir a esfera doméstico-familiar ao gênero feminino é conservar a tradicional separação do dentro e fora do trabalho, assentado nas diferenças de gêneros: o trabalho reprodutivo (doméstico), vinculado à mulher, e o trabalho produtivo (remunerado), relacionado ao homem.

Vimos esse quadro reiterado nas três famílias, mesmo a mulher exercendo uma profissão fora de casa. O trabalho produtivo é elemento central e estruturante para a figura masculina e familiar, enquanto, para a mulher, o trabalho doméstico e os cuidados com os filhos passam a ser sua principal responsabilidade. Para os homens, o trabalho reprodutivo pode assumir uma posição de assessório, portanto, desigualmente partilhado. Permanece ainda a estrita divisão entre o casal naquilo que concerne ao cuidado com os filhos, o que sugere poucas mudanças no modelo tradicional de família e trabalho, apesar de seus rearranjos.

Também fez-se claro que as diferentes inserções sociais dos

homens e das mulheres nos universos doméstico e do trabalho

determinam noções muito distintas do papel de cada um nestes

espaços e, naturalmente, manejos do tempo e do espaço

também muito diferenciados. (Cyrino, 2009, p.88)

Os diferentes usos do tempo cotidiano e a forma de organizar a vida na esfera tanto do lazer quanto do trabalho (dentro e fora de casa) expressaram contradições marcantes nas relações afetivas dessas famílias. O distanciamento masculino se perfez não apenas na distância física do trabalho, mas também em sua participação nas questões familiares, como cuidados com os filhos e outras atividades “de casa”. Os arranjos familiares expressaram os papéis assumidos em uma relação de interdependência subalterna e desigual, tanto pelos homens (envolvidos prioritariamente com seu labor) quanto pelas mulheres, ao se desdobrarem, para poupá-los de preocupações “de casa”, situadas em segundo plano.

Por outro lado, é indispensável constar nessa discussão a participação das mulheres no cenário social para além das esferas reprodutiva, doméstica, que nossas narradoras trouxeram. Na narrativa da família Citrino, vimos em torno da figura feminina uma ação fulgurante na contraposição das forças devastadoras do capital perante as formas de vida construídas pelo trabalho e pelo seio doméstico-familiar e comunitário. Protagonizaram lutas pela dignidade e pela vida no espaço público as mulheres, adolescentes e crianças, ao organizarem uma ocupação coletiva de locais estratégicos do Bambu no núcleo habitacional.

Foi uma forma exemplar de luta e resistência que se deu na ausência dos maridos, fosse por esses estarem desempregados, trabalhando fora, fosse por estarem buscando uma colocação no mercado de trabalho. A bandeira que as reunia era conseguir o direito de compra da casa na qual residiram durante anos, ao tornarem possível o “sonho brasileiro” de construir uma das maiores hidrelétricas do mundo. Mulheres que, do espaço doméstico, participaram de modo indireto e invisibilizado na construção dessa obra, convivendo com a monocultura temporal, atravessada na esfera da intimidade e dos afetos.

Testemunharam, do espaço doméstico, a rotina extenuante da força de trabalho despendida, a qual, mais que imprimir reconhecimento e orgulho de pertencer a esse monumento nacional, trouxe dor e sofrimento no corpo e na subjetividade daqueles que integraram esse empreendimento. Nas palavras de Carreteiro (2003, p.293), “[...] o sofrimento social marca profundamente as construções subjetivas, levando o corpo a expressar o mal-estar”. Essas mulheres, ao darem voz e indignarem-se conjuntamente contra essa realidade devastadora, recusaram que esse sofrimento (ético-político) persistisse apenas no registro do corpo e da subjetividade, deram-lhe nome e vez no campo social, para mostrar o lado invisibilizado e silenciado, para que pudesse ser entendido que barragem não se constrói apenas por mãos de homens no canteiro de obras.

Foram elas, em sua maioria, com seus filhos e vizinhança, a protestar e acampar nos dispositivos do Bambu a fim de resistir ao despejo e requerer o direito de compra das casas. Mais do que isso, puderam conferir visibilidade ao manifestar nessa ação o desejo de reconhecimento por terem integrado essa história. Esse acontecimento também demonstrou que a instituição familiar não é apenas uma unidade social reprodutiva da força de trabalho, comandada pelo capital, mas também uma instituição capaz de contrapô-lo, expressar suas contradições e resistir às suas investidas, tal como fizeram essas mulheres e seus familiares.

Finalmente, o delineamento dessas relações de gênero acabou por gerar recorrentes situações de conflito, de poder e tensão que pudemos ver nas narrativas de cada família, especialmente aquelas expressas pelas companheiras dos barrageiros. Todavia, ao buscarmos compreender como se davam as negociações da partilha desses cuidados e do exercício profissional da mulher, não obtivemos muitas informações e nem aprofundamentos que trouxessem com maior clareza como se fiavam essas relações, o que demandaria uma investigação mais detalhada.

 

1 Para garantir o anonimato dos participantes, atribuímos-lhes nomes fictícios e denominamos como Cipreste uma companhia de grande porte, estatal, localizada no estado de São Paulo. Como Bambu, outra companhia de grande porte binacional, sociedade de economia mista, localizada no estado do Paraná.

2 O processo de automatização consiste na instalação de equipamentos eletroeletrônicos que permitem controlar dispositivos eletromecânicos da UHE por meio do recurso tecnológico capaz de operar e monitorar uma hidrelétrica a distância. O uso dessa tecnologia dispensa a mão de obra humana, uma vez que a implantação desse processo implica a demissão de inúmeros trabalhadores de seus postos de trabalho.

3 Sobre o processo de internacionalização e desestatização que levou o governo FHC a privatizar o setor produtivo, incluindo as empresas de geração de energia hidrelétrica, ver Duarte, 2009. Nessa conjuntura, identificamos o processo da globalização neoliberal adentrar no Brasil com a discussão da quebra de monopólio do Estado no setor de infraestrutura, onde este, com a iniciativa privada, deixa de ser investidor para ser regulador.

4 Gostaríamos de apontar ao leitor de que entendemos o conceito de enraizamento em uma perspectiva filosófica, situada por Weil (1996, 2001), para compreender quão significativa é a relação do homem com o espaço, principalmente em sua dimensão simbólica por conter atributos afetivos e por conjugar a um só tempo a história individual e a coletiva. Desse modo, o processo migratório, a territorialização e as transformações histórico-sociais adquirem importância analítica para apreendermos como se constitui essa vivência psicossocial, pois os referidos processos são capazes de propiciar vínculos como também desagregação. Nesses termos, o enraizamento permite refletir as referências do ser humano, a trajetória biográfica e a participação de um grupo em um meio afetivo e social. Vide Duarte (2009).

5 Outro termo utilizado pelos barrageiros no canteiro de obras, para se referir à ameaça de demissão, recorrente no contrato com as empreiteiras, é a expressão “o jacaré está pegando”, além do tradicional “facão”.

6 Itaipu, por exemplo, com uma de suas maiores empreiteiras prestadoras de serviço, chegou a cadastrar 100 mil trabalhadores ao longo de toda a obra por causa da rotatividade. No período entre 1978 e 1981, 5 mil pessoas foram contratadas por mês. Podemos ver com esses dados o expressivo número de pessoas mobilizadas que integraram esse empreendimento e o fluxo oscilante do contingente empregável (Itaipu, 2014).

7 Trabalhador que realiza a montagem da estrutura metálica (armação de vergalhão) a ser concretada. São colocados os vergalhões, que possuem amarrações de arame e/ou soldas, para fazer as paredes e os pilares de concreto da barragem e da estrutura civil.

8 No sentido formal (Houaiss, 2001), piloteiro, ou o piloto da embarcação, está vinculado ao termo “prático”, ou seja, um indivíduo conhecedor dos acidentes hidrográficos e topográficos de áreas restritas fluviais ou lacustres onde conduz embarcações. Em geral, os piloteiros são profissionais da própria região, nascidos nas barrancas do rio, podendo viver da pesca ou da agricultura local. Costumam ser experientes nesse ofício e levam pescadores aos pontos de pesca mais promissores ou aos locais onde se praticam determinados tipos de pesca, uma vez que sabem localizar habilmente o lugar onde o cardume está se alimentando (Paula, s.d.).

9 Para dimensionar esse quantum (que sabemos sobrepujar ao se tratar de trabalho vivo), a Itaipu, em seu sítio eletrônico, aponta pelo menos 50 mil horas de trabalho na construção de sua hidrelétrica para que, pela primeira vez, as catorze comportas do vertedouro pudessem ser levantadas e a água represada liberada (Itaipu, 2014).