(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

Daniele Almeida Duarte · Capítulo 4 de 6 · parte 2/4

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(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

3 - Os modos de ser-trabalhar-viver dos barrageiros e seus familiares

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

A gente não queria que ele ficasse desempregado. À minha

irmã mais velha, por exemplo, a minha mãe falava: – Ora para

Deus abençoar para que o papai fique na obra porque vai ter

corte. E daí a gente orava. Nossa, eu lembro que eu ficava

superapreensiva, ansiosa, não pelo fato de mudar, de ter de

sair da escola. Nunca me preocupei com isso. Apesar de que

eu estudei [...] em um colégio na minha vida. Mas assim, de

largar o lugar que eu morava, eu não. Nem a minha irmã. A

nossa preocupação era meu pai não ficar desempregado.

Desde criança. Desde pequenininha. Desde três, quatro anos a

nossa preocupação era essa. Ia ter corte, a nossa preocupação

era se ele ia arrumar... Sempre que ele arrumasse uma outra

obra logo. Graças a Deus ele sempre arrumou. (Raquel)

O lugar que Raquel assume, ao viverem o processo de saída de Bambu e a ameaça de despejo, é o de encabeçamento das decisões da família na ausência de seu pai (quem fora trabalhar). Sua mãe, para ela, apavorava-se diante do problema, centrando as decisões na figura paterna. Na falta desta, com 21 anos, Raquel ocupava esse lugar paterno e lidava com negociações relativas à família, tais como: solicitar para os coordenadores de Bambu um prazo maior para mudança – medida para prorrogar o prazo de permanência na casa da vila e não serem despejados; procurar um local para a família residir em uma nova cidade; administrar a construção da casa, as despesas e o dinheiro enviado por Jonas para manter a família.

Nesse período Raquel se deparou com um núcleo familiar reduzido às mulheres (mãe e irmãs), fazendo-a sentir-se desamparada por não haver uma presença masculina (fosse o pai ou um possível irmão). Essa reconfiguração reporta à saída de um pai provedor, homem que conferia segurança e proteção, lançando as mulheres em uma nova condição dos arranjos familiares. Vemos Raquel questionar esse papel, assumido por ela em um passado, o qual imprimiu marcas indeléveis em sua vida pessoal, profissional e afetiva:

A parte negativa, a carga que eu sinto dessa coisa do

barrageiro, de todo esse contexto que estamos conversando, é

que um dia eu tive que assumir o lugar do meu pai na minha

casa. [...] Depois que meu pai saiu eu ajudava a minha mãe

nessa coisa da administração, inclusive, eu vivia muito essa

coisa do medo de repente ter que sair da casa de uma hora

para a outra. Porque depois que o meu pai saiu, de Bambu

ainda, nós ficamos uns dois anos morando na casa até o

Bambu conseguir mover uma ação e ação chegar até nós. Virar

uma ação de despejo em si. E eu tinha muito medo disso

acontecer. E isso um dia chegou. Essa ação chegou um dia. Eu

lembro que nós recebemos a notícia e a minha mãe ficou

desesperada. O que nós vamos fazer? Onde nós vamos morar?

Por causa disso. A gente não tinha um plano B. [...] O Bambu

deu um prazo para nós. Se eu não me engano foi um prazo de

30 dias, alguma coisa assim. (Raquel)

Raquel não indaga apenas aquilo que lhe era depositado por sua família e o que ela assumiu nesse grupo. Perscruta as relações familiares, instauradas em um contexto histórico e social, antes mesmo de seu pai partir para lugares longínquos. Um longo prazo que não foi avistado no horizonte de suas vidas passava a exigir respostas rápidas em um presente. Nesse contexto, Raquel não deixou de ser filha, mas ressignificou sua filiação nesses rearranjos.

A narrativa de Raquel em que apresenta os Topázio sofrendo transformações em seus modos de ser-trabalhar-viver, expressos nas intensas reconfigurações familiares, explicita uma situação emblemática que continuaria a repercutir em suas relações. Uma guinada ocorreu durante a construção da casa da família. Seu pai, em localidades distantes, e as mulheres, especialmente Raquel, assumindo a casa, começaram a designar outros lugares para si. Foi preciso primeiro erguer as paredes e rebocá-las. Depois, assentar o chão e colocar os pisos. Episódios marcados por tensões e conflitos que se encaminharam ao verem a missão cumprida: a construção da casa própria (abrigo e dignidade para a família que não pôde ser garantida anteriormente) mais a volta do pai (aposentado e podendo desfrutar descanso e repouso). Momento de os membros poderem estar reunidos novamente no cotidiano doméstico e ensaiar seus (novos) sonhos.

Isso é perceptível na narrativa de Raquel, ao observarmos que ela não rejuntou apenas o piso com as argamassas e tirou os resíduos destes, mas se deparou com as fissuras, os hiatos e os rastros da sua existência ao tentar prover os de sua família. O seu desejo de obter apreciação de seu pai e reconhecimento dos familiares. Somente quando se confrontou com esses aspectos, ela viu que era preciso refazer mais do que as juntas do piso, a limpeza e o serviço bem-feito: era preciso dar outros contornos à sua própria vida.

Na colocação do rejunte podia estragar o porcelanato. Se

deixasse resíduo em cima do porcelanato, depois que secasse,

não ia sair nunca mais. E o que eu fiz no dia que era para

assentar o porcelanato? Eu coloquei uma roupa velha e fui

assentar junto com os pedreiros. Ali eu literalmente rejuntei os

porcelanatos na minha casa. Eles iam colocando a massa e eu

fazia questão de limpar para não ficar nenhum resíduo. Eu

lembro que eu fiquei em casa até umas horas da noite. Durante

o dia, a tarde inteira e algumas horas da noite. Passando várias

vezes o pano para garantir que não ia ficar nenhum... que eles

não iam fazer o trabalho de qualquer jeito, como tinham feito na

casa inteira. E daí, foi assim. Até o dia da gente estar dentro.

(Raquel)

A partir desse momento, ela conseguiu renunciar a esse lugar ocupado (na ausência do pai) e estabeleceu outra posição para si na família:

Depois que estávamos dentro da casa do meu pai eu falei para

a minha família que eu não queria mais aquele papel. Eu achei

que a missão já estava cumprida. [...] Marcou a minha vida, de

repente, eu ter esquecido um pouco de mim e ter ficado

cuidando da minha família, pensando que eu podia substituir o

meu pai – eu sabia que não podia substituir o meu pai nunca,

mas... A minha mãe precisava disso, minha irmã precisa disso.

(Raquel)

Entretanto, esse anúncio para acomodar as relações e os processos de subjetivação vivenciados demanda tempo para elaboração, de ambos os lados. A própria Raquel nomeia isso, ao dizer que tem de lidar com seu ímpeto de querer resolver questões familiares que não são mais problemas seus. Um processo que também seu pai e familiares tiveram de confrontar, especialmente para as figuras paterna e materna, ao retomar a vida na família na direção geral da casa, na tomada de decisões, na administração do dinheiro e no pagamento das contas.

São marcas subjetivas profundas de que os Topázio buscam encontrar alívio, fazendo um movimento de quem continua não apenas a descobrir a vida em suas possibilidades, mas na reinvenção de arranjos: “Amadureci mais um pouco, eu aprendi a não culpar” (Raquel).

Outro aspecto que a família reitera, concedendo relevo aos (des) encontros trabalho-família, diz respeito à saída do Bambu. Mais uma vez essa questão emblemática foi retomada como lugar de lembranças cálidas e de frustração. A primeira entrevista-narrativa despertou um desejo de retornar para esse lugar, às suas histórias de vida, que Débora explicitou no segundo encontro com a pesquisadora para a entrevista-narrativa coletiva. Ela comentou que desejou rever o lugar de morada na vila e faz isso por meio de imagens de satélite na internet. Por sua vez, Raquel insiste em não retornar para esse lugar, pois lhe traz lembranças de sofrimento e mal-estar diante do que foi vivido e cravado na lembrança: a ameaça de despejo, a luta pela aquisição do direito de compra do imóvel e o desejo de reconhecimento não correspondido. Um disparate que jamais foi aceito:

Eu acho que não só a gente, mas todos os funcionários do

Bambu que estavam lá, depois que o Bambu acabou de ser

construído e os que estavam lá, é a mágoa eterna. Porque eles

sabiam que as casas iam ser comercializadas um dia e eles

não tiveram esse bom senso de falar assim: não, esses caras

ajudaram a gente construir isso aqui, então vamos legalizar a

venda dessas casas. Ou enquanto não foi legalizada a venda a

gente não vai perder e nem ganhar nada com as casas lá.

Porque enquanto não fossem vendidas, eles não podiam

alugar, fazer nada com as casas. Então, que diferença fazia o

funcionário para dentro ou para fora da casa? Foi o que eu falei

para você. Eu fui ‘n’ vezes para a cidade do Paraná depois que

a gente mudou de lá, ainda vou muitas vezes. Agora mesmo

nas férias era para eu ter ido para lá e tal, mas eu não tenho

coragem de passar na minha rua. Depois que eu mudei de lá eu

nunca mais voltei na minha rua. Já tive oportunidade, já tive

vontade. Mas eu nunca mais voltei na minha rua. (Raquel, grifo

nosso)

O mito do Bambu, enquanto projeto grandioso na história brasileira, e o orgulho de Raquel e Débora de seu pai fazer parte disso não puderam ser compensados pela decepção ocasionada por Bambu diante da venda da casa. Um desencontro vivido dentro e fora do trabalho.

Das construções de barragens para as estradas de ferro

A conjuntura de barrageiro é apresentada na contradição e, nela, busca-se viver: “Foi o que eu falei, essa vida de barrageiro não é tão bom, mas tem muitas partes boas. Eu acho!” (Sara).

Barrageiro, na trajetória dessa família, é aquele que faz e desfaz amigos, colegas de trabalho, relações de vizinhança e os próprios vínculos familiares. Uma situação capaz de ilustrar, de modo exemplar, o significado da saída de Jonas do Bambu – iniciando uma trajetória com rastros de errância – pode ser percebida no redimensionamento das relações familiares das mulheres que permaneceram fixas, mãe e filhas. O episódio referente a isso diz respeito ao primeiro Dia dos Pais, sem Jonas. Uma lembrança que acompanhou a juventude até a idade adulta de Débora, que tinha esperança de que o pai comparecesse não apenas nas datas comemorativas, mas em momentos significativos da vida delas, como a gestação.

Meu pai sempre passou o Dia dos Pais comigo. Como é que ele

não ia estar naquele? Então eu achei que ele ia... que estava

vindo. Então, no primeiro Dia dos Pais, que eu achei que ele

estava chegando de surpresa de madrugada, quando eu ouvi

um barulho na porta, não era. Tem alguém tentando entrar.

Então a minha mãe, no instinto de proteção, enfiou tudo a gente

no quarto dela e conversou como se meu pai estivesse em

casa. Não lembro o que ela pediu para ele e a pessoa ficou

assustada e foi embora. Mas, eu iria abrir a porta porque eu

achei que o meu pai estava chegando para o Dia dos Pais. [...]

Depois, quando ele foi para muito longe, a gente vivia em

oração porque não sabia o que é que estava acontecendo

durante a semana com o meu pai. Às vezes tocava o telefone e

você ficava pensando: ai, meu Deus! Será que é notícia ruim?

Aí ele vinha de vez em quando, mas era sempre muito corrido.

[...] ele foi a última pessoa com quem eu tirei foto grávida. Eu

tirei uma foto rápida, à noite, tirei com ele. No outro dia de

manhã eu tive a minha filha. Então, quase não participava. Foi

uma fase meio complicada. (Débora)

Observamos não somente a figura do pai como provedor da família, em termos financeiros, mas alguém que conferia cuidado, proteção e segurança. Mas esse mesmo pai também era alvo de cuidado e proteção dessa família. Já aposentado, trabalhando para obter recursos para a construção da casa no Paraná, onde a família estava residindo, enviava quase todo o salário para a construção, tendo uma escassa quantia para passar a semana. A família, especificamente Raquel, que administrava o dinheiro da construção e da subsistência, preocupava-se se esse pai estava se alimentando, descansando, morando em boas condições e com boas pessoas. Se sua saúde estava boa, uma vez que seu trabalho gerava desgastes e demandava concentração, tendo ele muitas vezes que virar noites em turnos. Uma angústia para quem não podia mais cuidar pessoalmente nem ser cuidado. As mulheres dessa família buscavam encontrar meios para conviver com a falta da figura paterna.

Desde o momento em que houve tentativa de assalto na casa dos Topázio, elas passaram a dormir, juntas, no mesmo quarto. Embora o pai tivesse colocado trancas e travas nas portas e janelas, a tranquilidade experimentada anteriormente se esvaiu. Até mesmo bichos como gambá e rã, que costumeiramente entravam na casa, geravam um grande alvoroço, reportando à desproteção. Em um momento posterior, Débora resolveu romper com esse medo e passou a dormir em outro aposento da casa: “Eu já dormia fora. Não queria mais virar refém de ficar num quarto só. Eu já dormia sozinha e ela [irmã] dormia com a minha mãe” (Débora).

A saída de Jonas, para trabalhar fora, especialmente depois de Bambu, foi uma situação em que não havia muitas possibilidades de escolhas, pois não havia uma forma de a família acompanhá-lo por causa das recorrentes mudanças e às condições de estadias em alojamentos. Sara, nessa conjuntura, afirma ter se visto como mãe e pai das três filhas. Quando Jonas partiu para as estradas de ferro, sem destino específico, Sara se viu às voltas com a primeira indagação dirigida a Jonas:

Ele que falou eu vou ter que ir. E eu falei: – E eu? Mas como é

que você vai? E as meninas? – A cada 30 dias eu venho. Ele

trabalhou em Santa Catarina também. [...]. Vários lugares ele

trabalhou e eu fiquei. Eu só morei no centro-sul do Paraná, no

estado de São Paulo, Paraguai, cidade do Paraná e no centro-

sul do Paraná. Esses três lugares. (Sara, grifo nosso)

Foram aproximadamente dez anos nessas idas e vindas após Bambu, uma vida que no início gerava estranhamento, mas posteriormente se acostumaram a conviver com essa condição. Porém, persistiam nesse episódio alguns fatores que nos chamam a atenção: o estranhamento do marido; a situação de ele estar longe e sua breve chegada; a rápida estadia; e sua ligeira partida do reduto familiar: “Depois vem [Jonas], vem como visita” (Sara). Uma passagem breve que fazia as filhas ansiarem pelo retorno do pai para casa, tanto pela distância quanto pela idade dele que avançava. Contudo, Sara assinala uma contradição que persistiu, mesmo com o retorno de Jonas para casa:

Eu falei: seu pai não vai acostumar porque ele sempre está

mexendo com a coisa, outra coisa e outra. Ele está parado. Não

gosta. Ele não está com saúde, não está. Mas não está bem

estar parado. Ele fala: queria ter uma oficina, um sítio, queria ter

uma coisinha para eu mexer. Mas, quem sabe um dia a gente

tenha condições. (Sara)

O tempo sem o trabalho formal e o tempo em família são aspectos a serem ressignificados e redescobertos. Como vivê-los, ocupá-los para além do ritmo ditado pelo trabalho? Isso é algo que fica em aberto para a singularidade.

Finalmente, Sara encerra sua narrativa, fazendo menção à foto de casamento que ela queria mostrar para a pesquisadora, onde tudo começou: quando Sara conheceu Jonas, um barrageiro, e suas histórias, enquanto família e trabalho, iniciaram-se.

Família Citrino

Notas iniciais

Do casal Davi e Lia, nasceram os três filhos, Mateus, Lucas e Janine. A trajetória familiar foi dinâmica em seus arranjos, uma vez que puderam morar juntos e separados ao longo de sua história, no contexto laboral de barragens. Atualmente, seus três filhos residem no Paraná, sendo o mais velho casado e com filhos (netos de Davi e Lia). Os dois filhos mais novos moram com Lia. Davi, aposentado e em exercício profissional (operador de UHE), reside em Santa Catarina.

Os modos de ser-trabalhar-viver estão engendrados em torno do trabalho em barragens que assume um sentido inscrito em um projeto do grupo familiar. O labor de Davi é o artifício capaz de viabilizar melhores condições de vida para os membros familiares em curto e em longo prazos, especificamente, por fornecer recursos financeiros para a educação dos filhos no ensino superior. Porém, esse trabalho que realiza o sonho de ver os filhos formados, outrora fez os Citrino viverem em cidades separadas pois, enquanto Davi trabalhava em determinados locais, seus familiares residiam em cidades diferentes, uma vez que as localidades próximas ao trabalho eram consideradas inadequadas para a família se deslocar e morar junto. A família não o acompanhou em momentos específicos porque percebia a nova cidade insuficiente na oferta de recursos e infraestrutura ou por obrigá-la a se desgarrar, de modo desnecessário e dispendioso, de suas referências materiais e imateriais em relação à família extensa e ao contexto conhecido. No tocante a isso, a escolha predominante dos Citrino foi manter o cenário de vida conhecido por fornecer garantias e seguranças suficientes para Lia e os filhos permanecerem fixos e Davi poder migrar sozinho rumo às demandas laborais.

Essa realidade de aproximações e distanciamentos em sua trajetória refratam uma distância física e geográfica com as quais os Citrino buscaram formas de lidar, desde que os filhos eram crianças, produzindo diferentes arranjos familiais. Em diversos momentos da vida deles, Davi trabalhou fora e Lia ficou com os filhos, em outra cidade, cuidando e assumindo responsabilidades dentro e fora de casa.

O contexto laboral de hidrelétricas e migração está presente de modo nítido nesse grupo social, da família nuclear à extensa. Lia é filha de barrageiros, conviveu com essa conjuntura, enquanto filha e irmã, depois na condição de esposa e mãe. Nesse cenário existencial, os Citrino assinalam como as relações de vizinhança e amizade estiveram centradas em torno dessa categoria profissional, conferindo destaque ao papel assumido pelo gênero feminino nas famílias, em que inúmeras mulheres de barrageiros conviviam entre si e com seus filhos, compartilhando possibilidades e dificuldades dos encargos que assumiram ao tomarem frente nas relações domésticas na ausência dos maridos.

Essa família, que teve seus filhos criados em vilas de barragens do Cipreste, experimentou tanto a migração e seus efeitos quanto testemunhou o nascer de uma cidade em função de empreendimentos hidrelétricos. Viram essa cidade surgir, desenvolver-se e transformar-se com a venda das casas da vila, com a transição das relações de trabalho e com a partida de pessoas próximas – inclusive a deles mesmos.

Davi pôde experienciar as transformações sociais, políticas e econômicas brasileiras no setor hidrelétrico e em sua profissão ao

atravessar processos de automatização2 e privatização. Aposentou-se de modo antecipado nesse contexto e no momento atual está ciente de uma demissão próxima porque mais um processo de automatização chegou à UHE em que trabalha.

O horizonte familiar dos Citrino constitui-se por proeminentes reconfigurações em seus arranjos na expectativa do retorno de Davi. Em um tempo iminente, lidarão com um cenário de vida cuja novidade é estarem reunidos enquanto grupo familiar na mesma cidade. Esse porvir está manifesto em suas narrativas ao expressarem uma temporalidade que denota o tríplice presente. Conforme narram sua história passada (marcada por distanciamentos e aproximações), expressam em um tempo presente o processo de envelhecimento e o desejo futuro de estar com os familiares (filhos, netos e enquanto casal). Do presente, reveem suas histórias cujas marcas de distância estão por ser elaboradas ao retomarem o conviver face a face. O relato do casal reflete um futuro sinalizado por anseios e incertezas que poderão ser dimensionados com a volta de Davi. Um reconhecimento a ser feito de Davi, e por Davi, no papel de marido, pai e avô na condição de aposentado e fixo em um lugar. Um cotidiano a ser delineado a partir da coexistência doméstica e familiar na presença de Davi com seus entes familiares.

Os filhos formados, buscando seu próprio rumo, e Lia, residindo no Paraná, abrem novas possibilidades para essa família se assentar em uma localidade a fim de expandir suas relações e lançar raízes. Entretanto, as direções singulares a serem assumidas serão conhecidas por esse grupo quando esse pai, chefe de família, regressar. Cabe dizer que a volta de Davi se dá em uma condição em que os filhos estão crescidos e formados, ou seja, com um projeto cumprido para essa família mediante o trabalho do progenitor. Abre-se agora, para esse núcleo familiar, um momento de redescobertas e reinvenções para seus próprios projetos e desejos. Um convívio a ser firmado e significado com a criação de planos que não estejam centrados, de modo exclusivo, no trabalho nem nos filhos. Percebemos um desabrochar dos Citrino acontecendo, cujos rebentos e frutos estão se constituindo em outro espaço-tempo-relação, nos âmbitos social e subjetivo.

Enredo familiar e trajetória social: da construção de barragem à edificação da família

Davi inicia sua vida de barrageiro, solteiro e jovem, ao trabalhar em 1974 em uma UHE que faz divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais. Em 1976 entra no Cipreste e assume atividades na área de construção de outra hidrelétrica, localizada no estado de São Paulo, no rio Grande. Em 1979 casa-se com Lia e mora no estado paulista. Os filhos nascem.

Período de construção não apenas da barragem, mas também da família. O labor propicia sentidos convergentes em termos afetivos, pois em torno da profissão e por meio desta torna-se possível constituir laços familiares e conferir provisão: “Eu acho que é um trabalho muito edificante, porque sempre está aí... família tudo criada, sempre em barragem e desde que eu comecei” (Davi).

Profissão essa que Davi e Lia relembram ser repleta de exigências e constantes turnos, chegando a trabalhar 16 horas consecutivas. Esse era o “ritmo de barragem” (Davi) que imprimia cadência em sua vida dentro e fora do trabalho. Conforme o relato de Davi, em sua época havia menos rigor quanto às leis trabalhistas, por isso eram feitas escalas exaustivas. Os horários “malucos” (Lia) dos turnos são apontados como ruins e extenuantes. Aos olhos de Lia, Davi era um trabalhador inveterado. Tinha receio de faltar um único dia de serviço, apresentando-se disponível para trabalhar, de modo concedente.

A trajetória profissional de Davi permitiu-lhe atuar em três frentes distintas da UHE. Na parte da construção, foi fiscal de campo, realizando medição e apropriação; no setor de distribuição, trabalhou na subestação; e, posteriormente, seu fazer situou-se na área de operação, da aposentadoria (em 1998) até o momento atual.

O casal vivencia o contexto em barragens ainda solteiro e sem se conhecer. Davi, por ser trabalhador de hidrelétricas desde jovem, e Lia, por ser filha de barrageiro, além de ter outros parentes próximos integrando essa categoria profissional. A história de vida dos Citrino é exemplar, ao vincular de modo direto o barrageiro à migração e às transformações sócio-históricas e político-econômicas, sem perder de vista a instância subjetiva – os nós sociopsíquicos.

Podemos nos ater a isso, ao vislumbramos como Davi enfrentou o processo de duas automatizações mais uma privatização. Ele diz não se assustar com a terceira automatização que está em processo de implantação na atual hidrelétrica onde exerce sua profissão. Contudo, sua companheira intervém para dizer que ele está tranquilo agora porque está aposentado, diferente dos outros colegas da referida UHE que não são aposentados e das automatizações anteriores que testemunhou. Com sua narração entrelaçada à de Lia, Davi nomeia essa realidade que vivencia (de demissão e mudança nas condições e relações de trabalho) com um misto de temor, sofrimento e incerteza vividos no registro subjetivo.

Esses afetos conferem expressão às transformações políticas e econômicas no âmbito do trabalho e para além dele, o que faz Davi atrelar essa experiência singular-afetiva ao que ele denomina como o “lado social” do trabalho, especificamente como barrageiro. Entende que essas transformações macro atravessam a realidade microssocial e subjetiva, gerando efeitos nas instâncias pessoal, familiar e relacional.

Ao observarmos o contexto de sua aposentadoria, veremos como a transformação advinda do projeto neoliberal atingiu a instituição trabalho, alterando os modos de ser-trabalhar-viver, uma vez que foram promovidas outras formas de inscrição do lugar institucional, logo, outras produções nas construções subjetiva e social.

A aposentadoria de Davi é situada com os processos de privatização e demissão que aconteceram no Cipreste no fim dos anos 1990. Davi aposentou-se em 1998 e em 1999 viu o Cipreste vendido para uma organização dos Estados Unidos da América, onde trabalhou até 2003. Período de transição e reestruturação, marcado por um expressivo número de exonerações e modificações na gestão e relações de trabalho, ao longo desse recorte temporal. Embora sua narrativa seja individual, ela não deixa de manifestar de modo ativo o contexto social mais amplo, referente a essa categoria profissional, fazendo resplandecer o sistema social por meio da produção singular – essas considerações são demarcadas por Carreteiro e Mattar (2004/2005) sobre a pertinência da narrativa de vida, para investigar o fenômeno social, a partir do campo psicossociológico.

Nessa fase de transformações, cravadas por rupturas e descontinuidades, vemos contrastar os modos de ser-trabalhar-viver, delineados pela política estatal (direcionada ao trabalhador e seus familiares, especialmente em termos de estabilidade, assistência e benefícios diversos) e pela iniciativa privada (orientada estritamente pelo mercado, o que implicou a perda de garantias, segurança e estabilidade com a flexibilização das leis trabalhistas e com a precarização das condições e relações de trabalho, entre estes, destacam-se o rebaixamento dos direitos e assistências conquistados, seja para o trabalhador, seja para a sua família).

Nesse período de transição, Davi nos conta ter existido um constrangimento constante (advindo da empresa) sobre ele e seus companheiros de profissão, para que os trabalhadores pedissem demissão mediante a concessão de um incentivo financeiro que, aos seus olhos, perante o que esse valor propiciava, era irrisório. Ele e seus colegas eram assediados, ao sofrerem inúmeras pressões (muitas delas se constituíam de modo velado e dissimulado), de maneira a coagi-los nas decisões que a empresa almejava: a saída do trabalho. Esta poderia acontecer por meio da aposentadoria (muitas delas antecipadas); pelo incentivo financeiro (quantia paga pela empresa ao trabalhador que “solicitou” seu próprio desligamento); e mediante a demissão em si (pós-privatização e saída do trabalhador por iniciativa da organização).

Foi aquele período que eles começaram a pressionar por causa

desse tal fator previdenciário. Porque ali aposentou muita gente

nova que não era para ter sido aposentada, que aguentava

muito tempo ainda para trabalhar. Isso aí já foi uma boa parte

do governo, acho que foi até do Fernando Henrique. Esse fator

previdenciário foi criado no governo dele. Muita gente, com

medo de sair, se aposentou muito cedo. Lá na UHE do Cipreste

teve gente que se aposentou com 40 anos. Eu aposentei com

45 anos. [...] isso aí já foi uma pressão para não ficar dentro da

empresa. Uma pressão do governo. Aí depois você estava

aposentado vem a empresa também pressionando para você

sair [...] Porque você era aposentado. Então, a pressão era

assim: se você não sair você vai ser mandado embora. Só

faltava falar isso. Não falava, mas nas entrelinhas você ficava

sabendo. (Davi)

Esse período de transição ocorreu no fim da década de 1990, no governo do então Presidente da República, Fernando Henrique

Cardoso 3, que também implementou o fator previdenciário que alterava o cálculo para o pedido de aposentadoria com o intuito de desestimular aposentadorias precoces. Um cenário em que o trabalhador se viu encurralado em meio às mudanças governamentais nacionais e da globalização econômica neoliberal. Para lidar com essa realidade, vimos barrageiros se aposentarem mais cedo com receio de serem demitidos ou ser enquadrados na nova legislação previdenciária.

Uma exoneração paulatina que começou com a aposentadoria antecipada, depois, com a pressão sobre os aposentados e não aposentados em exercício na empresa já privatizada, com a demissão incentivada até, finalmente, culminar na saída de inúmeros trabalhadores pela própria empresa. Essa tríplice saída, Davi testemunha sobre sua categoria profissional, cujo horizonte avistado tinha algo em comum: o desemprego iminente (de curta ou longa duração).

Uma fase de medo e insegurança para ele, os colegas e a própria família – processo brusco que transformou o cenário de vida dos barrageiros e que compareceu com nitidez na narração do casal. Nesse período, os Citrino tinham os filhos em idade escolar e Davi não tinha condições de parar de trabalhar e manter a família com o valor da aposentadoria. Foi preciso continuar o labor para obter condições financeiras de manter os estudos dos filhos. Embora recebesse o valor da sua aposentadoria do INSS e de uma previdência privada (contribuição exigida para todos os funcionários do Cipreste a partir do momento que ingressaram na empresa), era preciso continuar trabalhando se quisesse ver o sonho realizado: os filhos formados no ensino superior.

A ambiguidade da aposentadoria instaura-se nessa família, um nó sociopsíquico, porque refrata de modo relevante a mudança no cenário social e na vivência singular: “Uma sensação de medo. Você se aposentar, parar de trabalhar. Essas crianças tudo pequena, né?” (Lia). Aposentaria que teve de pedir de modo antecipado, gerando perdas salariais, também assumiu a conotação de um lugar social e um papel profissional até então desconhecidos. Davi e seus familiares não integravam mais o Cipreste, mas uma empresa privada estadunidense que almejava lucro e cortes, designando, aos seus trabalhadores, outro contrato e relação. Conjuntura que refletia a crescente desproteção social e laboral, ao assumir as formas de insegurança vividas no mercado de trabalho, no emprego, na renda, na modalidade contratual, na representatividade, na moradia etc. – como já nos apontavam Mattoso (1995) e demais autores que avaliaram o impacto da negatividade produzida pelas transformações na produção e na gestão do trabalho na virada do

século XX para o XXI (Quadro 2).

Transformações emblemáticas e perenes que reverberaram para quem saiu ou para quem permaneceu nas UHEs. Davi, após a venda do Cipreste, atuou nessa nova empresa, doravante privada, por mais quatro anos, até ser mandado embora:

Aí veio a privatização em cima, o governo vendeu. Veio mais

pressão ainda. E depois eu fiquei sabendo, depois que eu saí,

do próprio pessoal que ficou, que veio pressão em cima de

pressão. Porque essas firmas só querem dinheiro e querem

cortar custos. (Davi)

A narrativa do casal nos permite conferir com visibilidade essas rupturas assinaladas, bem como atentar para as escolhas que realizaram diante dos espaços incertos, vivenciados na instância institucional do trabalho e da família. Respostas essas que lograram, ao apostarem em vias que pudessem fazer face à contradição e ambiguidade que experimentavam – entorno esse que a sociologia clínica nos auxilia elucidar, pois se debruça especialmente sobre períodos-chave a fim de apreender a história de homens e mulheres (Gaulejac, 2004/2005).

Tal aposta, empreendida pelos Citrino diante de um horizonte desconhecido na esfera do trabalho e da família, deu-se após o episódio de aposentadoria e demissão (intervalo de quatro anos que atravessaram intensa pressão e ameaças veladas) que os fez procurar uma colocação profissional em novos contratos de trabalho em outras empresas e cidades. Isso os levou para localidades distintas. Enquanto Davi se dirigia para os estados de São Paulo, Mato Grosso e depois Santa Catarina, ao assumir novos postos de trabalho, seu grupo familiar permanecia no estado de São Paulo e, posteriormente, no Paraná.

Temos à vista um encadeamento sociopsíquico que os Citrino nos demonstram ao contar sua história de vida em uma moldura têmporo-espacial e relacional. Por meio disso, podemos dimensionar que um projeto neoliberal (ao imprimir transformações na gestão e relações de trabalho, assim como nos meios produtivos) também gera efeitos intensos nos processos de subjetivação e na vivência de um sofrimento que não é apenas de natureza psíquica, mas também social, pois possui dimensão ético-política.

Ao nos determos no momento atual dessa família, percebemos que, diferente das automatizações anteriores que Davi sofreu enquanto não era aposentado – período rememorado pelo casal enquanto incerto e temível –, o horizonte do desconhecido que se anuncia com essa mudança no tempo presente não deixa de trazer ameaça ao modo de vida constituído no trabalho e na família. A insegurança e o receio são revividos ao não se restringir apenas à iminência do desemprego, mas ao dizer respeito a um futuro que implica o retorno para casa, dessa vez, como aposentado na condição de quem não está (ao menos momentaneamente) exercendo uma profissão remunerada. Mudanças que entrelaçam passado, presente e futuro – o tríplice presente ricoeuriano – cujos efeitos estão por ser conhecidos e experimentados, haja vista que o sonho de os filhos terem se formado está concretizado. Edificação da família a ser feita, a partir da permanência desta em um mesmo local (de modo provisório ou permanente), das relações a se firmarem face a face e da criação de novos projetos.

De barragem em barragem, de casa em casa...

No início da carreira de Davi, o Cipreste fornecia casas nas vilas para seus trabalhadores. Eram domicílios padronizados, sem muro, cujas cores não poderiam ser mudadas pelo morador nem poderia ser alterada a estrutura arquitetônica. O padrão deveria ser mantido, independentemente do gosto do residente. Contudo, esse lugar uniformizado na arquitetura adquiria singularidade, diferenciação e vida nas relações estabelecidas entre seus habitantes.

Esse aspecto é perceptível ao observarmos na narrativa do casal os elementos destacáveis da vila dos trabalhadores de barragens: as relações de vizinhança, face a face. A convivência e amizades tecidas tornavam o lugar aprazível onde as crianças podiam brincar nas ruas e a família acompanhar o crescimento destas, de modo achegado. Espaço onde as árvores abrigavam sob a sombra as pessoas com suas cadeiras e prosas. A porta de casa e a rua eram espaços de sociabilidades contíguos às casas e às instituições que frequentavam. Lugar de aproximação e trocas. Reminiscências cálidas que Lia e sua amiga lembram com vigor até hoje:

A escola era pertinho de casa, ali. Eu ia levar lanche para os

meninos naquela cerca da escola. Tem uma mulher que eu

conheço, a D. Maria: “Ei! Você lembra quando a gente ia levar

lanche para os meninos na cerca da escola?”. “Lembro, D.

Maria!” (risos). (Lia)

Por sua vez, Davi aponta o cotidiano da vila como um espaço adjacente ao local do trabalho, pois a família e a vila eram seu ponto de partida e chegada do labor. Os trabalhadores saíam ao nascer do dia de suas casas na vila para pegar o ônibus que os levava para a obra do Cipreste. Um convívio próximo podia ser estabelecido tanto pelo local comum de moradia, mesmo sendo de setores e funções diferentes, quanto pelo destino semelhante. O dia de trabalho na barragem e o lugar de repouso e convívio familiar os juntavam, pois ambos eram territórios demarcados pelo Cipreste. Esses sujeitos sociais têm a vila como um elo de aproximação e de construção de laços.

A produção subjetiva e social desses espaços atrelados à UHE eram vividos de tal maneira que a cidade em si era percebida como um espaço externo e alheio, distinto do entorno microssocial, constituído pelo e no trabalho do Cipreste. Vejamos como Lia demonstra isso por meio de sua narrativa:

Já na cidade não é assim. E barragem é assim, sempre que a

gente morou sempre teve boa vizinhança. A molecada tudo

crescia junto. Naquela época estudava junto, na mesma escola.

Estava ali. [...] era diferente. Eu mesmo nunca morei em cidade

assim [...]. Mas, os meninos mesmo acho que foi toda a vida

criado tudo em barragem. [...] Então, foi gostoso. (Lia)

Interessante perceber no depoimento de Lia a vila como o locus identificatório entre os barrageiros e suas famílias, inclusive em sua condição demarcada pela mobilidade. Nesse espaço sócio-geográfico, foram oportunizados meios de se recepcionarem, fazendo da cidade (o espaço urbano fora da vila) um lugar remoto. Essa consideração é feita por Lia, ao continuar seu raciocínio e afirmar que na “cidade” encontravam-se as pessoas com raízes, sendo os citadinos desconhecidos, distantes e indiferentes para muitos barrageiros que centravam suas vidas no microuniverso da vila. Na e a partir da vila, as crianças cresciam juntas, estudavam na mesma escola, tinham disponíveis os mesmos cuidados assistenciais e de saúde – o que reforça a figura do barrageiro entrelaçada ao Cipreste a partir da estrita vinculação enredada entre trabalho e família para além do trabalhador.

Isso nos reporta ao achado de Froelich (2001), economista que realizou uma análise histórica, política e social sobre uma das barragens mais famosas do Brasil. Também encontramos reverberações desses dados na pesquisa do sociólogo Nova (2000), que pesquisou a cultura e gestão de trabalho dessas corporações, e da historiadora Ribeiro (2002), que investigou a conjuntura político-ideológica e discutiu o impacto social, especialmente sobre os trabalhadores da maior hidrelétrica brasileira. Esses autores verificaram uma relação semelhante à encontrada por nós sobre os barrageiros e os citadinos, isto é, há uma proeminente vinculação do barrageiro com seu grupo social, um elo identificatório que gera aproximação entre membros dessa categoria profissional e não necessariamente com a cidade. Tal constatação se dá desde os acampamentos e alojamentos, criados para o trabalho de construção da UHE, até as vilas-piloto e sua estrutura (alimentação, lazer, educação, saúde etc.), destinadas a atender às necessidades de seus trabalhadores e familiares:

A ligação mais forte da população era com a obra, com a usina,

com o acampamento, não com a futura cidade; porque a

perspectiva do barrageiro é completar sua atividade numa obra

e dirigir-se a outras, ao invés de fixar-se no local atual de

trabalho (Froelich, 2001, p.156)

Todavia, com a venda das casas da vila, com o processo de privatização e com a demissão de Davi, os Citrino vivenciaram um cenário não mais resguardado pelo universo da vila e suas instituições afins (por exemplo, escolas, ambulatórios e clubes da empresa). Modificações dessa natureza começaram a ser principiadas nos laços afetivos dessa família quando Lia residiu no estado de São Paulo e seus filhos crescidos estudavam em cidades diferentes. Nesse momento seu cônjuge trabalhava em Mato Grosso (aposentado, mas em exercício profissional) e Lia se viu sozinha em um lugar que outrora lhe fora familiar. Para lidar com essas múltiplas distâncias, agora em relação ao marido e aos filhos, ela costumava passar até quatro meses com Davi na cidade onde ele trabalhava, retornando para casa no estado paulista quando os filhos regressavam.

Essa mobilidade dos Citrino, enquanto sujeitos sociais, agora delineada em novas condições de trabalho, permite avistar situações de vida semelhantes às de outros membros dessa categoria profissional. Nas mudanças de cidades que geralmente acompanham os barrageiros e seus familiares, é possível identificar tanto rupturas de laços sociais quanto novas relações de amizades ao longo do Brasil e até mesmo fora dele. Percurso que permite tanto se ligar quanto se desprender pessoas e lugares ao longo das veredas percorridas, ou seja, de onde vieram, onde estão e para onde vão. Isso se dá em círculo social, dentro e fora dos barrageiros. Nesses termos, a migração, ao oportunizar

experiências de enraizamento e desenraizamento4, propicia uma vivência que gera paradoxos existenciais até que um tempo-espaço-relação torne-se conhecido e uma relação de pertencimento possa adquirir uma tessitura capaz de abrigar o sujeito em um canto do mundo. Circunstanciar isso no contexto de vida do barrageiro é para nós importante, pois essa categoria profissional e seu grupo familiar estão sujeitos a inúmeros deslocamentos de diferentes motivações e gênese que devem ter suas significações conhecidas e seu contexto socioeconômico elucidado.

Vejamos os nós interprocessuais dos Citrino a respeito disso, ao retomar sua história profissional e familiar. A primeira mudança do casal, enquanto família constituída, foi motivo de estranhamento que esse grupo social experimentou mediante o estandarte do ser-barrageiro. Os Citrino em sua narrativa mencionam o processo de estranheza – o forasteiro – que não apenas sentiram em relação ao lugar, mas também diante das pessoas oriundas deste (os autóctones). Experiência similar à de um estrangeiro (o alóctone), mesmo sob a mesma bandeira de seu Estado-nação – o que denuncia as diferentes experiências de Brasis e de ser brasileiro neste país de dimensões continentais e intensas disparidades. O relato dos Citrino é acompanhado de um sentimento de inquietação ao circunstanciar lugares cujas pessoas desconhecem o contexto de barragem e do próprio barrageiro. Isso se torna ilustrativo ao apresentarem as dificuldades vivenciadas em seu cotidiano e o modo de vida desarranjado pelo processo migratório. Eles elucidam essa vivência, ao atravessarem empecilhos para conseguir crédito, por não aceitarem cheque de fora, nos obstáculos para ter acesso à moradia e os diferentes costumes e traços culturais distintos dos seus – o que gerava ainda mais estranhamento nesse processo de adaptação a ser desbravado.

Era o primeiro processo de automatização que, ao avançar, fez o Cipreste disponibilizar uma vaga para Davi em outra localidade. Nesse evento ele foi comunicado pela empresa que, embora houvesse o processo de automatização em vigência, ele não seria demitido, mas realocado em sua função. Esse era o cenário da terceira mudança de cidade em que a família o acompanhou (os filhos eram crianças), o que fez essa transferência gerar outras mudanças. Nesse período, os Citrino procuravam ficar juntos nas novas cidades, todavia, pelo alto custo de vida na localidade mais próxima do trabalho para o qual Davi fora transferido e por não conseguir um lugar que considerasse adequado e seguro para sua família (principalmente por fazer recorrentes turnos à noite), decidiram que Davi ficaria viajando de carro, ou ônibus, para o trabalho e a família continuaria na cidade em que estava.

Período difícil para os Citrino, fazendo com que Davi buscasse negociar com a empresa seu retorno para uma das cidades em que havia morado. Para conseguir isso, ele pleiteou um ganho salarial e uma nova função no Cipreste, o setor de operação (onde permaneceria desde então). Por se tratar de uma obra e uma cidade que estava em construção e por ser afastada de um polo regional com maior infraestrutura urbana, Davi estava ciente de que muitos barrageiros não se interessariam ir para essa localidade, fazendo disso sua principal moeda de negociação. O Cipreste deu anuência e a família mudou-se (para a casa que futuramente comprariam do Cipreste ao ser liberado o processo de venda). Dessa vez, a cidade de trabalho e a de moradia passaram a ser a mesma. O núcleo familiar reuniu-se novamente.

Sobre a migração laboral – ao examinarem essa vivência nitidamente constituidora da vida deles na dimensão familiar e de trabalho, como da categoria profissional da qual fazem parte –, põem em evidência essa realidade, ao nomearem a condição de mobilidade reincidente do barrageiro como itinerante, imersa em contratempos e em um constante adaptar-se a um novo lugar e sua cultura: “Cada lugar tem seu costume”, nos conta Lia.

A vivência do barrageiro é percebida com a experiência migratória que traz a sensação de determinados lugares serem o “fim de mundo” (Lia). Percepção que se destaca principalmente na chegada, momento mais tenso de crise e ruptura do modo de vida conhecido para o alheio, perigoso e hostil – afetos típicos do desenraizamento. Um “fim de mundo” que experimentaram inúmeras vezes para aprenderem a fazer dele um recomeço de mundo naquela localidade. Lugar a reaver na família, no trabalho, na cidade, na paisagem, nos costumes, nas relações, na história.

A partir do enredo familiar e da trajetória socioprofissional dos Citrino, presentes na narrativa, pudemos ver que um suporte oferecido pelo trabalho no Cipreste, a estabilidade, conferia uma âncora para atravessarem a instabilidade de lugares desconhecidos. Em síntese, o caráter transitório dos lugares de moradia era compensado pela segurança no trabalho, na mesma empresa onde Davi pôde se aposentar. Uma referência que propiciava vivenciar o desenraizamento, ao menos em parte:

Teve uns contratempos porque não era fácil você sair de um

lugar e ir para outro. Você nunca criava raiz num lugar. Para

nós, tem até que agradecer a Deus, começou e aposentou na

mesma [empresa]. Nunca ficou desempregado. A firma era

muito boa [...]. Porque eu vejo, o pessoal de cidade, eles criam

raízes. Aqui mesmo no Paraná tem gente que nasceu, criou

aqui, estão os filhos, os netos. E a gente não, a gente nunca

teve um paradeiro. (Lia)

Um andar desencadeado pela migração laboral que não avistava possibilidade de retorno em sua procedência, onde sua história de vida se iniciou: “A gente nunca retorna para a terra natal. Nunca retorna” (Davi). Porém, a história do barrageiro, em vez de ficar demarcada em seu início (o caráter de procedência), perfaz-se na continuidade, na dinamicidade do movimento capaz de (des)vincular lugares e pessoas. A marca identitária de barrageiro, associada à mobilidade, está entranhada na subjetividade e na representação de si mesmo e de seus familiares, como demonstra Lia: “Tem gente que fala assim: ‘Meu Deus! Mas ele vem lá de tão longe’. Mas eu falo assim: ‘É barragem! Barrageiro!’ (risos)”.

Perante isso, barrageiro é aquele que se desloca sucessivamente, está imerso em um reincidente mover-se. Migração que consiste em acompanhar o trabalho, de obra em obra. Nessa trajetória pode

vivenciar tanto o desemprego 5 (ao ser finalizada uma construção/função) quanto uma nova oportunidade de colocação (outra obra que se inicia) – o que o leva de um lugar a outro, sem parada. Nas palavras de Lia:

É muita andança. Porque o barrageiro ele anda. É muita

andança. Não é igual pessoa de cidade que você arruma um

serviço e às vezes você fica ali. Ele vai porque começou a obra.

Acabou eles mandam embora. Ou manda embora ou manda

para outra obra. Então não para. É assim. Vive migrando.

(risos)

Nas palavras de Davi, o que caracteriza a mobilidade do barrageiro é a força de atração, tal qual a força exercida por um ímã. A obra, especialmente em período de construção, exerce o vetor atrativo sobre esse profissional por se caracterizar como oportunidade de trabalho, mesmo que de caráter passageiro. Uma duplicidade que pode ser apreendida nas significações interpretativas que a sentença do narrador anuncia em um constante ir e vir: “O barrageiro que eles falam, levantam a cabeça, olham tal barragem, quando você vê já está indo! (risos)” (Davi).

Compreendemos nas narrativas um estereótipo de barrageiro que eles evidenciam, ao apresentar um imaginário que ronda algumas pessoas e suas cidades, principalmente se for do setor da

construção da hidrelétrica, onde a rotatividade6 da mão de obra é maior, a ameaça de desemprego também e a precarização das condições e relações de trabalho mais acentuadas – área que concentra o maior número de empreiteiras, as quais possuem caráter volante na prestação de serviços. Os rótulos que os Citrino apresentam são daqueles barrageiros olhados com desconfiança e malvistos, desgarrados até mesmo de seus familiares:

Mas é essa parte de construção. [...] a construção é rotativa.

Então, se o empreiteiro não gostou dele, amanhã ele está na

rua. Dali ele já vai para outro lugar. Se ele tem uma família ele

larga para trás. (Davi).

Nesse ínterim, localizam a chegada do trabalhador à cidade como a etapa mais difícil de adaptação, especificamente se integrar às primeiras equipes que fazem parte da construção. Podemos ver isso no discurso de Davi, ao manifestar o imaginário social construído em torno do barrageiro como aquele de forasteiro, que invade a paisagem local. Contrasta com esse imaginário a vila (o núcleo que ele denomina em sua fala), como importante referência para se estabelecer e ser acolhido no lugar, seja pelo trabalho, seja por sua família – condição que não se estende para todos os barrageiros.

Pegou esse rótulo. Onde tem barragem perto de cidade, não

gostam. A cidade paulista do Cipreste que é 12 quilômetros

eles não gostavam. Não gostavam, de jeito nenhum.

Principalmente se for preciso morar em cidades próximas, disse

que foi um sufoco. Eu não peguei esse início. De mudar para

esse lugar. Quando eu fui o núcleo já estava com bastante

casa. (Davi, grifo nosso)

O paradoxo das reincidentes mudanças, marcas migratórias constituidoras de suas subjetividades, aparece como algo que tem “o lado bom e o lado ruim”, nas palavras de Lia. Por sua vez, Davi, diante da situação peculiar do trabalho e da distância a que está submetido em relação à família, resigna-se e afirma: “A gente sujeitava a ficar longe”.

Para lidar com esse acontecimento paradoxal, percebemos que os Citrino buscavam construir referências para além do trabalho, ao tentar instituir uma vinculação com o lugar, embora fosse processual e condensada a um estranhamento. Criar um vínculo dependia também dos elementos que os sujeitos pudessem encontrar na localidade para se sentirem acolhidos. Lia, por exemplo, quando seu marido mudou-se para Mato Grosso, paisagem longe e desconhecida, relutava em ir, mas foi adiante. A primeira vista do território narrado é apresentada como um lugar feio, sujo, hostil e muito quente. Contudo, a cadência da narração se desenvolve e esse lugar e seu derredor passam a ser desvendados (uma cidade próxima onde seu marido estava residindo). Outro panorama passa a ser contemplado. Dessa localidade avessa, descobre-se um comércio bom, um lugarejo organizado e limpo. As pessoas nativas passaram a ser percebidas como amistosas, fazendo com que Lia tecesse uma profunda amizade a ponto de sua amiga tê-la como filha. Ela passou a integrar o circuito de outra família na qual se sentia incluída e alvo de afeto. Uma época que a faz rememorar imersa em lembranças acalentadoras.

Continuar: parte 3 de 4