Dez de Dezembro

George Saunders · Capítulo 8 de 10

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Dez de Dezembro

De volta para casa

 

1.

Como nos velhos tempos, saí do riacho seco atrás da casa e dei minha batidinha na janela da cozinha.

“Entre aqui, você”, disse a Mãe.

Dentro havia pilhas de jornais sobre o fogão, pilhas de revistas nos degraus da escada e um grande feixe de cabides despontando do forno quebrado. Tudo como de costume. A novidade era: uma mancha de umidade no formato de uma cabeça de gato acima da geladeira e o velho tapete laranja enrolado no meio do caminho.

“Ainda não tenho uma ‘p’ de uma faxineira”, disse a Mãe.

Olhei para ela, achando graça.

“Uma ‘p’?”, perguntei.

“Ora, vá se ‘f’”, disse ela. “Eles pegam no meu pé lá no trabalho.”

Era verdade que a Mãe tinha uma tremenda boca suja. E estava trabalhando numa igreja agora, portanto...

Ficamos parados, em pé, olhando um para o outro.

Então um sujeito veio descendo a escada com passos pesados: mais velho até do que a Mãe, só de cueca e botas de caminhada e um gorro de inverno, com um longo rabo de cavalo caindo sobre as costas.

“Quem é esse?”, perguntou ele.

“Meu filho”, respondeu a Mãe, timidamente. “Mikey, este é Harris.”

“Qual foi a pior coisa que você fez por lá?”, disse Harris.

“O que aconteceu com Alberto?”, perguntei.

“Alberto deu no pé”, disse a Mãe.

“Alberto mostrou que é um cuzão”, disse Harris.

“Não tenho nada contra aquele ‘m’”, disse a Mãe.

“Eu tenho uma porção de coisas contra aquele porra”, disse Harris. “Incluindo o fato de que ele me deve dez paus.”

“O Harris não está nem aí com a boca suja”, disse a Mãe.

“Ela só regula isso por causa do trabalho”, explicou Harris.

“O Harris não trabalha”, disse a Mãe.

“Bom, se eu trabalhasse, não seria num lugar que me dissesse como eu tenho que falar”, disse Harris. “Seria num lugar que me deixasse falar como eu quisesse. Um lugar que me aceitasse como eu sou. Esse é o tipo de lugar onde eu gostaria de trabalhar.”

“Não tem muito lugar desse tipo por aí”, disse a Mãe.

“Lugares que me deixem falar o que eu quero?”, disse Harris. “Ou lugares que me aceitem como eu sou?”

“Lugares onde você gostaria de trabalhar”, disse a Mãe.

“Quanto tempo ele vai ficar aqui?”, perguntou Harris.

“O tempo que ele quiser”, disse a Mãe.

“Minha casa é sua casa”, Harris disse para mim.

“A casa não é sua”, disse a Mãe.

“Dê um pouco de comida pro garoto, pelo menos”, disse Harris.

“Vou dar, mas não foi ideia sua”, disse a Mãe, e nos tocou para fora da cozinha.

“Uma dona e tanto”, disse Harris. “Passei anos de olho nela. Então Alberto caiu fora. Não entendo isso. Você tem uma tremenda dona na sua vida, então ela fica doente e você cai fora?”

“A Mãe está doente?”, perguntei.

“Ela não te contou?”, disse ele.

Fez uma careta, fechou o punho, bateu com ele na parte de cima da cabeça.

“Um caroço”, disse ele. “Mas você não ouviu isso de mim.”

A Mãe agora estava cantando na cozinha.

“Espero que pelo menos você esteja fazendo bacon”, gritou Harris. “Um garoto que volta pra casa merece uma droga de um bacon.”

“Por que você não fica na sua?”, a Mãe gritou de volta. “Você acabou de conhecer ele.”

“Eu amo ele como meu próprio filho”, disse Harris.

“Que declaração ridícula”, disse a Mãe. “Você odeia o seu filho.”

“Eu odeio ambos os meus filhos”, disse Harris.

“E odiaria sua filha se vocês algum dia se encontrassem”, disse a Mãe.

Harris sorriu radiante, como que comovido pelo fato de a Mãe conhecê-lo bem o bastante para saber que ele odiaria inevitavelmente qualquer filho que porventura tivesse.

A Mãe entrou com uma porção de bacon e ovos num pequeno prato.

“Pode ter um ou outro fio de cabelo”, disse ela. “Ultimamente parece que estou perdendo esses cabelos ‘f’ da ‘p’.”

“Você é muito bem-vindo”, disse Harris.

“Você não faz ‘p’ nenhuma”, disse a Mãe. “Não queira ganhar crédito. Vai lá e lava a louça. Isso ajudaria.”

“Não posso lavar louça e você sabe disso”, disse Harris. “Por causa da minha alergia.”

“Ele tem alergia à água”, disse a Mãe. “Agora pergunte por que ele não pode enxugar os pratos.”

“Por causa das minhas costas”, disse Harris.

“Ele é o Rei do Se”, disse a Mãe. “Rei do Fazer de Verdade é que ele não é.”

“Assim que ele for embora vou te mostrar do que é que eu sou rei”, disse Harris.

“Oh, Harris, essa foi demais, foi nojenta de verdade”, disse a Mãe.

Harris ergueu as duas mãos sobre a cabeça como se dissesse: Vencedor e atual campeão.

“Vamos te colocar no teu velho quarto”, disse a Mãe.

 

2.

Em cima da minha cama havia um arco de caça e uma capa roxa de Halloween com uma máscara de fantasma embutida.

“Isso é coisa do Harris”, disse a Mãe.

“Mãe”, disse eu. “Harris me contou.”

Fechei o punho, bati no alto da cabeça.

Ela me lançou um olhar vazio.

“Ou talvez eu não tenha entendido bem”, eu disse. “Caroço? Ele disse que você tem um...”

“Ou talvez ele seja um mentiroso ‘fdp’”, disse ela. “Ele inventa coisas malucas sobre mim o tempo todo. É tipo o hobby dele. Ele disse ao carteiro que eu tinha uma perna mecânica. Contou para a Eileen da delicatéssen que um dos meus olhos era de vidro. Disse ao cara da loja de material elétrico que eu tinha desmaios e espumava pela boca cada vez que ficava furiosa. Agora o tal cara sempre tenta se livrar de mim o mais rápido possível.”

Para me mostrar como estava em forma, a Mãe fez uma série de polichinelos.

Harris batia os pés escada cima.

“Não vou dizer a ele que você me falou sobre o caroço”, disse a Mãe. “E você não diz que eu contei que ele é um mentiroso.”

Agora aquilo estava parecendo os velhos tempos.

“Mãe”, eu disse, “onde Renee e Ryan estão morando?”

“Ahn”, disse a Mãe.

“Eles têm uma casa bacana”, disse Harris. “Nadando em dinheiro.”

“Não sei se essa é a melhor ideia”, disse a Mãe.

“Sua mãe acha que Ryan é um agressor.”

“Ryan é um agressor”, disse a Mãe. “Eu sempre sei quando um sujeito é um agressor.”

“Ele bate?”, perguntei. “Ele bate na Renee?”

“Você não ouviu isso de mim”, disse a Mãe.

“É bom ele não começar a bater naquele bebê deles”, disse Harris. “Martney, aquele docinho. Supergracinha.”

“Se bem que vou te contar: que ‘p’ de nome é aquele?”, disse a Mãe. “Eu disse isso pra Renee. Disse mesmo.”

“É nome de menino ou de menina?”, perguntou Harris.

“Que ‘p’ você está dizendo?”, disse a Mãe. “Você viu o bebê. Pegou no colo.”

“Parece um elfo”, disse Harris.

“Mas um elfo menino ou menina?”, perguntou a Mãe. “Olha só. Ele não sabe mesmo.”

“Bom, estava de roupa verde”, disse Harris. “Isso não me ajuda.”

“Pense”, disse a Mãe. “O que a gente comprou para o bebê?”

“Você achou que eu ia saber se era menino ou menina”, disse Harris. “Afinal, era meu netinho ou netinha.”

“Não é seu neto coisa nenhuma”, disse a Mãe. “Compramos um barco pra ele.”

“Um barco pode ser para meninos ou meninas”, disse Harris. “Não seja preconceituosa. Uma menina pode adorar um barco. Assim como um menino pode adorar uma boneca. Ou um sutiã.”

“Bom, a gente não comprou pra ele uma boneca nem um sutiã”, disse a Mãe. “A gente comprou um barco.”

Desci, peguei a lista telefônica. Renee e Ryan moravam na Lincoln. Na Lincoln, 27.

3.

O número 27 da Lincoln ficava na parte boa do centro.

Quase não acreditei na casa. Quase não acreditei nas torres. O portão dos fundos era de sequoia e se abriu tão suavemente que parecia ter dobradiças hidráulicas.

Quase não acreditei no jardim.

Me agachei atrás de uns arbustos junto à varanda cercada por tela. Dentro, algumas pessoas estavam conversando: Renee, Ryan, os pais de Ryan, ao que parecia. Os pais de Ryan tinham vozes sonoras/confiantes que pareciam ter sido fabricadas a partir de vozes anteriores menos sonoras/confiantes, por obra de uma fortuna repentina.

“Você pode dizer o que quiser de Lon Brewster”, disse o pai de Ryan. “Mas Lon apareceu e me resgatou da Feldspar naquela vez que o meu pneu furou.”

“Naquele ridículo calor de torrar”, disse a mãe de Ryan.

“E sem uma palavra de queixa”, disse o pai de Ryan. “Uma pessoa completamente encantadora.”

“Quase tão encantadora — pelo menos foi o que você me contou — quanto os Fleming”, disse ela.

“E os Fleming são tremendamente encantadores”, disse ele.

“E o bem que eles fazem!”, disse ela. “Encheram um avião de bebês e trouxeram pra cá.”

“Bebês russos”, disse ele. “Com lábios leporinos.”

“Assim que os bebês chegaram, foram mandados para várias salas de cirurgia pelo país afora”, disse ela. “E quem pagou?”

“Os Fleming”, disse ele.

“Eles não separaram também algum dinheiro para a faculdade?”, ela perguntou. “Para os russos?”

“Aqueles meninos foram tirados da situação de inválidos numa nação falida para ter uma nova vida no país mais formidável do mundo”, disse ele. “E quem fez isso? Uma corporação? O governo?”

“Um casal de pessoas físicas”, disse ela.

“Um par de sujeitos realmente visionários”, disse ele.

Fez-se uma longa pausa de admiração.

“Se bem que a gente nunca imaginaria isso pelo modo rude como ele fala com ela às vezes”, disse ela.

“Bom, ela também pode ser bem rude com ele”, disse ele.

“Às vezes ele é rude com ela e ela revida sendo rude com ele”, disse ela.

“É como a história do ovo e da galinha”, disse ele.

“Só que com relação à rudeza”, disse ela.

“Mesmo assim, não dá para deixar de adorar os Fleming”, disse ele.

“A gente devia ser bacana desse jeito”, disse ela. “Quando foi a última vez que resgatamos uma criança russa?”

“Bom, a gente faz o que pode”, disse ele. “Não temos como bancar a viagem de avião de uma penca de bebês russos pra cá, mas acho que, ao nosso modo limitado, a gente até que faz muito.”

“Não temos condições nem de pagar a passagem aérea de um único russo”, disse ela. “Até mesmo um bebê canadense com lábio leporino estaria além dos nossos meios.”

“Talvez a gente pudesse ir de carro até lá e trazer um”, disse ele. “Mas e depois? Não temos como bancar a cirurgia nem a faculdade. Então o bebê ia ficar aqui nos Estados Unidos em vez de no Canadá, ainda com o problema no lábio.”

“Já contamos pra vocês, meninos?”, disse ela. “Estamos com mais cinco lojas. Cinco lojas na região metropolitana. Cada uma com uma fonte.”

“Que ótimo, Mãe”, disse Ryan.

“Isso é muito bom”, disse Renee.

“E quem sabe, se essas lojas forem bem, a gente pode abrir três ou quatro outras e, a essa altura, reavaliar toda essa questão dos lábios leporinos russos”, disse o pai de Ryan.

“Cara, vocês dois continuam surpreendendo”, disse Ryan.

Renee saiu com o bebê no colo.

“Vou um pouco ali fora com o bebê”, disse ela.

 

4.

O bebê tinha cobrado seu preço. Renee parecia mais larga, menos animada. Também mais pálida, como se alguém tivesse passado um facho descorante por seu rosto e seu cabelo.

O bebê parecia mesmo um elfo.

O bebê-elfo olhou para um passarinho, apontou para o passarinho.

“Passarinho”, disse Renee.

O bebê-elfo olhou para a piscina absurda deles.

“Para nadar”, disse Renee. “Mas ainda não. Ainda não, tá bom?”

O bebê-elfo olhou para o céu.

“Nuvens”, disse Renee. “Nuvens fazem chover.”

Era como se o bebê estivesse pedindo com os olhos: Depressa, me conte logo que merda é essa, assim eu posso dominar o assunto, abrir umas lojas.

O bebê olhou para mim.

Renee quase deixou cair o bebê.

“Mike, Mikey, puta merda”, disse ela.

Então deu a impressão de se lembrar de algo e correu de volta para a porta da varanda.

“Rye?”, ela chamou. “Rye-King? Você pode vir pegar o Martucho?”

Ryan pegou o bebê.

“Te amo”, ouvi a voz dele dizer.

“Te amo mais ainda”, disse ela.

Então ela voltou sem o bebê.

“Eu o chamo de Rye-King”, disse, enrubescendo.

“Eu ouvi”, disse eu.

“Mikey”, disse ela. “Você fez?”

“Posso entrar?”, perguntei.

“Hoje não”, disse ela. “Amanhã. Não, quinta-feira. Os velhos dele vão embora na quarta. Venha na quinta, e a gente discute a coisa toda.”

“Discutir o quê?”, perguntei.

“Se você pode entrar”, ela respondeu.

“Não pensei que isso fosse uma questão”, disse eu.

“E você?”, ela perguntou. “Fez ou não?”

“Ryan parece ser legal”, disse eu.

“Deus do céu”, disse ela. “Literalmente o ser humano mais legal que já conheci.”

“Exceto quando está batendo”, disse eu.

“Quando o quê?”, ela perguntou.

“A Mãe me contou”, disse eu.

“Contou o quê?”, ela perguntou. “Que Ryan bate? Que ele me bate? A Mãe disse isso?”

“Não conta pra ela que eu contei”, disse eu, meio em pânico, como em outros tempos.

“A Mãe está perturbada”, disse ela. “Está com aquela droga de cabeça atrapalhada. Ela tinha que dizer isso. Sabe quem é que vai levar uma surra? A Mãe. Dada por mim.”

“Por que você não me escreveu sobre a Mãe?”, perguntei.

“Escrever o quê?”, ela perguntou, desconfiada.

“Ela está doente?”, perguntei.

“Ela te contou?”, disse ela.

Fechei o punho e bati no alto da cabeça.

“O que é?”, ela perguntou.

“Um caroço?”, disse eu.

“A Mãe não tem caroço nenhum”, disse ela. “O que ela tem é um coração fodido. Quem te contou essa história de caroço?”

“Harris”, respondi.

“Ah, o Harris, perfeito”, disse ela.

Dentro da casa, o bebê começou a chorar.

“Vá embora”, disse Renee. “Conversamos quinta-feira. Mas antes...”

Ela segurou meu rosto nas duas mãos e virou minha cabeça para que eu visse pela janela Ryan, que estava esquentando uma mamadeira na pia da cozinha.

“Aquilo te parece um agressor?”, ela perguntou.

“Não”, disse eu.

E não parecia mesmo. Nem um pouco.

“Meu Deus”, eu disse. “Será que alguém fala a verdade por aqui?”

“Eu falo”, disse ela. “Você fala.”

Olhei para ela e, por um minuto, ela de novo tinha oito anos e eu tinha dez e estávamos escondidos na casinha do cachorro enquanto a Mãe, o Pai e a tia Toni, chapados de cogumelos, vandalizavam o quintal.

“Mikey”, disse ela. “Preciso saber. Você fez ou não?”

Soltei bruscamente meu rosto das suas mãos, me virei e saí.

“Vá ver sua própria mulher, seu bobão!”, ela gritou enquanto eu me afastava. “Vá ver seus próprios bebês.”

 

5.

A Mãe estava no gramado da frente, gritando com um sujeito gordo e baixinho. Harris espreitava ao fundo, golpeando ou chutando alguma coisa de quando em quando, para mostrar o quanto ele podia ser assustador quando enfurecido.

“Este é o meu filho!”, disse a Mãe. “Que serviu o exército. Que acabou de voltar pra casa. E é isso o que você faz com a gente?”

“Sou grato pelo seu serviço”, o homem disse para mim.

Harris chutou a lata de lixo.

“Você pode fazer o favor de dizer pra ele parar de fazer isso?”, disse o homem.

“Ele não tem controle algum sobre mim quando estou puto”, disse Harris. “Ninguém tem.”

“Vocês acham que eu gosto disso?”, perguntou o homem. “Ela não paga o aluguel há quatro meses.”

“Três”, disse a Mãe.

“É assim que você trata a família de um herói?”, perguntou Harris. “Ele estava lá lutando e você aqui, maltratando a mãe dele?”

“Amigo, desculpe, mas não estou maltratando ninguém”, disse o homem. “Esta é uma ação de despejo. Se ela tivesse pagado o aluguel e eu estivesse despejando vocês, isso sim seria maltratar.”

“E eu aqui trabalhando para uma ‘p’ de uma igreja!”, gritou a Mãe.

O homem, embora baixinho e gordo, era admiravelmente seguro de si. Entrou na casa e saiu carregando a TV com uma expressão aborrecida no rosto, como se fosse a sua TV e ele preferisse deixá-la no jardim.

“Não”, disse eu.

“Sou grato pelo seu serviço no exército”, disse ele.

Segurei-o pela camisa. A essa altura eu era bom em segurar as pessoas pela camisa, olhá-las nos olhos, falar diretamente.

“De quem é esta casa?”, perguntei.

“Minha”, respondeu ele.

Passei o pé por trás dele, derrubei-o no gramado.

“Vai com calma”, disse Harris.

“Eu fui com calma”, disse eu, e levei a TV de volta para dentro.

 

6.

Naquela noite o delegado veio com alguns carregadores, que esvaziaram a casa levando tudo para o gramado.

Eu os vi chegando e saí pela porta dos fundos para assistir a tudo da High Street, sentado no posto elevado de observação atrás da casa dos Neston.

A Mãe estava lá fora, com a cabeça entre as mãos, andando de um lado para o outro em meio a suas tralhas amontoadas. Era melodramático e ao mesmo tempo não era. Quero dizer, quando a Mãe sente alguma coisa profundamente, é o que ela faz: melodrama. O que faz com que a coisa, suponho, deixe de ser melodrama, certo?

Vinha acontecendo uma coisa comigo ultimamente: um plano começava a fluir direto para minhas mãos e pés. Quando isso acontecia, eu sabia que devia confiar. Meu rosto fervia e eu sentia uma espécie de apelo: Vá em frente, vá, vá.

Isso em geral dava certo.

Agora o plano que fluía pelo meu organismo era: agarrar a Mãe, levá-la para dentro, fazê-la sentar, buscar Harris, fazê-lo sentar, botar fogo no lugar, ou pelo menos fazer menção de botar fogo no lugar, para atrair a atenção deles, fazê-los agir de acordo com a idade que eles tinham.

Desci a ladeira correndo, empurrei a Mãe para dentro, sentei-a nos degraus da escada, agarrei Harris pela camisa, passei meu pé por trás dele, joguei-o no chão. Em seguida acendi um fósforo e o aproximei do carpete que cobria a escada e, quando ele começou a pegar fogo, ergui um dedo, como dizendo: Silêncio, corre pelo meu corpo a força de recente experiência sombria.

Ficaram ambos tão apavorados que não abriram a boca, o que me fez sentir a espécie de vergonha que a gente sabe que não vai curar pedindo desculpas, e para a qual a única coisa a fazer é: vai em frente, vergonha pouca é bobagem.

Apaguei o fogo do carpete batendo os pés e fui até a Gleason Street, onde Joy e as crianças estavam morando com o Cuzão.

 

7.

Que soco no estômago: a casa deles era ainda mais bacana que a de Renee.

A casa estava às escuras. Havia três carros na entrada da garagem. O que significava que estavam todos em casa e já tinham ido para a cama.

Fiquei ali parado, pensando um pouco naquilo.

Então caminhei de volta para o centro e entrei numa loja. Acho que era uma loja. Se bem que eu não era capaz de dizer o que se vendia ali. Sobre balcões amarelos iluminados a partir de dentro havia etiquetas de plástico azul. Apanhei uma. Nela estava escrita a palavra “MiiVOXMAX”.

“O que é isto?”, perguntei.

“A questão é para que serve, eu diria”, disse o menino que estava lá.

“Para que serve?”, perguntei.

“Na verdade”, disse ele, “este aqui provavelmente é mais adequado para você.”

E me estendeu uma etiqueta idêntica, mas com a palavra “MiiVOXMIN” escrita nela.

Outro menino apareceu com café e biscoitos.

Pousei a etiqueta MiiVOXMIN e apanhei a etiqueta MiiVOXMAX.

“Quanto é?”, perguntei.

“Você quer dizer quanto custa?”, disse ele.

“O que é que isto faz?”, perguntei.

“Bem, se você está perguntando se é um banco de dados ou um domínio de hierarquia de informação”, disse ele, “a resposta seria: sim e não.”

Eles eram simpáticos. Não havia uma única ruga em seus rostos. Quando digo que eram meninos, quero dizer que tinham mais ou menos a minha idade.

“Estive fora por um bom tempo”, disse eu.

“Bem-vindo de volta”, disse o primeiro rapaz.

“Onde você esteve?”, perguntou o segundo rapaz.

“Na guerra?”, disse eu, na voz mais agressiva que fui capaz de convocar. “Talvez vocês tenham ouvido falar dela.”

“Eu ouvi”, disse o primeiro, com respeito. “Obrigado por seu serviço.”

“Em qual delas?”, perguntou o segundo. “Teve duas, não?”

“Mas uma delas eles deram por encerrada, não foi?”, disse o primeiro.

“Meu primo está lá”, disse o segundo. “Numa delas. Pelo menos acho que está. Sei que é para ele estar. Nunca fomos muito próximos.”

“Seja como for, obrigado”, disse o primeiro, me estendendo a mão, e eu a apertei.

“Eu não era a favor da guerra”, disse o segundo. “Mas sei que não foi uma escolha sua.”

“Bem”, disse eu. “Meio que foi.”

“Você não era a favor ou não é a favor?”, o primeiro perguntou para o segundo.

“As duas coisas”, disse o segundo. “Mas ela ainda está rolando?”

“Qual das duas?”, perguntou o primeiro.

“Aquela de que você participou ainda está rolando?”, me perguntou o segundo.

“Sim”, respondi.

“Está melhorando ou piorando, o que você acha?”, perguntou o primeiro. “Tipo, na sua visão, estamos ganhando? Ora, o que estou dizendo? Na verdade não me importa, isso é que é o engraçado!”

“De todo modo”, disse o segundo, e estendeu a mão, e eu a apertei.

Eles eram tão simpáticos, receptivos, cândidos — estavam tão a favor de mim — que saí sorrindo e só quando já estava a uma quadra de distância me dei conta de que ainda estava segurando o MiiVOXMAX. Parei debaixo de um poste de iluminação e dei uma olhada. Parecia só uma etiqueta de plástico. Tipo assim: se você quisesse um MiiVOXMAX, bastava estender a etiqueta e alguém traria para você o MiiVOXMAX, fosse lá o que fosse.

 

8.

O Cuzão atendeu à porta.

Seu verdadeiro nome era Evan. Frequentamos a escola juntos. Eu tinha uma vaga lembrança dele com um cocar na cabeça, disparando por um corredor.

“Mike”, ele disse.

“Posso entrar?”, perguntei.

“Acho que devo responder não à sua pergunta”, disse ele.

“Eu gostaria de ver as crianças”, disse eu.

“Já passa da meia-noite”, disse ele.

Eu tinha quase certeza de que ele estava mentindo. As lojas ficavam abertas até depois da meia-noite, por acaso? Ainda assim, a lua estava alta e havia algo de úmido e triste no ar que parecia estar dizendo: Bom, não é cedo.

“Amanhã?”, disse eu.

“Tudo bem pra você?”, ele perguntou. “Depois que eu voltar do trabalho?”

Vi que tínhamos concordado em ser razoáveis. Um jeito de ser razoável era dizer tudo como se fosse uma interrogação.

“Por volta das seis?”, disse eu.

“Seis está bom pra você?”, disse ele.

O bizarro é que eu nunca cheguei a ver os dois realmente juntos. A mulher lá na cama dele podia ser totalmente outra pessoa.

“Eu sei que não é fácil”, disse ele.

“Você me sacaneou”, disse eu.

“Com todo o respeito, eu discordo”, disse ele.

“Não tenho dúvida”, disse eu.

“Eu não te sacaneei e ela também não”, disse ele. “Foi uma circunstância desafiadora para todos os envolvidos.”

“Mais desafiadora para uns do que para outros”, disse eu. “Concorda comigo pelo menos quanto a isso?”

“É pra falar francamente?”, disse ele. “Ou vamos ficar pisando em ovos pra evitar o conflito?”

“Francamente”, disse eu, e o rosto dele assumiu aquela expressão que, por um minuto, fez com que eu gostasse dele de novo.

“Foi difícil pra mim porque me senti um merda”, disse ele. “Foi difícil pra ela porque ela se sentiu uma merda. Foi difícil pra nós porque, ao mesmo tempo que nos sentíamos uns merdas, também sentíamos todas as outras coisas que estávamos sentindo, que, posso te garantir, eram e são verdadeiras como todo o resto, uma bênção absoluta, se é que posso falar desse jeito.”

A essa altura, comecei a me sentir um imbecil, como se estivesse imobilizado por um bando de marmanjos para que outro marmanjo pudesse chegar e enfiar seu punho Nova Era no meu rabo enquanto me explicava que enfiar o punho no meu rabo não era de modo algum escolha sua, e que na verdade isso fazia até ele se sentir em conflito interior.

“Seis horas”, disse eu.

“Seis horas, perfeito”, disse ele. “Felizmente, estou com horário de trabalho flexível.”

“Você não precisa estar aqui”, disse eu.

“Se você estivesse no meu lugar, e eu no seu, não acha que talvez sentisse que de algum modo precisaria estar aqui?”, disse ele.

Um dos carros era um Saab, outro era um Escalade e o terceiro era um Saab mais novo, com duas cadeirinhas de criança no banco de trás e um palhaço de pano que não me era familiar.

Três carros para dois adultos, pensei. Que país. Que belo par de egoístas idiotas eram minha mulher e o atual marido dela. Dava para ver que, ao longo dos anos, meus filhinhos iriam se transformar lentamente em bebês egoístas idiotas, depois em pirralhos engatinhadores, crianças, adolescentes e adultos egoístas idiotas, comigo o tempo todo rondando por ali como algum amarfanhado tio suspeito.

Aquela parte da cidade era cheia de castelos. Dentro de um havia um casal se abraçando. Dentro de outro uma mulher tinha uns nove milhões de casinhas de Natal em cima de uma mesa, como se estivesse fazendo um inventário. Do outro lado do rio os castelos iam ficando menores. Na nossa parte da cidade, as casas pareciam cabanas de camponeses. Dentro de uma cabana de camponês havia cinco meninos em pé, perfeitamente imóveis, sobre o encosto de um sofá. Então todos saltaram para o chão ao mesmo tempo e seus cachorros foram à loucura.

 

9.

A casa da Mãe estava vazia. A Mãe e Harris estavam sentados no chão da sala, dando telefonemas, tentando encontrar algum lugar para ir.

“Que horas são?”, perguntei.

A Mãe ergueu a vista para o lugar onde o relógio de parede costumava ficar.

“O relógio está na calçada”, disse ela.

Saí. O relógio estava embaixo de um casaco. Eram dez horas. Evan tinha me sacaneado. Pensei em voltar e exigir ver as crianças, mas quando eu chegasse lá já seriam onze horas e ele ainda teria um argumento decente quanto ao adiantado da hora.

O delegado entrou na casa.

“Não precisa se levantar”, disse, dirigindo-se à Mãe.

A Mãe se levantou.

“Levante-se”, ele me disse.

Permaneci sentado.

“Foi você que derrubou o sr. Klees?”, perguntou o delegado.

“Ele acaba de voltar da guerra”, disse a Mãe.

“Obrigado por ter servido”, disse o delegado. “Será que posso lhe pedir para deixar de jogar pessoas no chão daqui pra frente?”

“Ele também me jogou no chão”, disse Harris.

“Meu problema é que não quero sair por aí prendendo veteranos”, disse o delegado. “Eu mesmo sou um veterano. Portanto, se você me ajudar, deixando de derrubar as pessoas, eu vou lhe ajudar. Deixando de prender você. Combinado?”

“Ele também ia incendiar a casa”, disse a Mãe.

“Eu não recomendaria incendiar coisa alguma”, disse o delegado.

“Ele não está em si”, a Mãe disse. “Quer dizer, olha bem pra ele.”

O delegado nunca tinha me visto antes, mas era como se admitir que não tinha base alguma para avaliar minha aparência fosse soar como uma limitação profissional.

“Ele parece mesmo cansado”, disse o delegado.

“Mas bem fortinho”, disse Harris. “Me jogou no chão em dois tempos.”

“Para onde vocês vão amanhã?”, perguntou o delegado.

“Alguma sugestão?”, disse a Mãe.

“Um amigo, um membro da família?”, disse o delegado.

“A casa da Renee”, disse eu.

“Se isso falhar, o abrigo em Fristen?”, disse o delegado.

“Para a casa da Renee eu não vou”, disse a Mãe. “Todo mundo naquela casa é arrogante e metido demais. Já acham que a gente é inferior.”

“Bom, a gente é inferior”, disse Harris. “Comparado com eles.”

“Outra coisa que eu não faço e ir pra ‘p’ de um abrigo”, disse a Mãe. “Esses abrigos estão infestados de chatos e piolhos.”

“Quando a gente começou a namorar eu estava com chatos que tinha pegado naquele abrigo”, disse Harris, prestativo.

“Vou dizer uma coisa”, disse a Mãe. “Aqui eu trabalho para uma igreja e meu filho é um herói. Com uma Estrela de Prata. Salvou um fuzileiro arrastando o ‘fdp’ pelo pé. Temos a carta. E onde eu estou agora? No olho da rua.”

O delegado já não estava prestando atenção, impaciente para sair pela porta e voltar à sua realidade, qualquer que fosse ela.

“Encontrem um lugar pra morar, pessoal”, aconselhou cordialmente ao sair.

Harris e eu arrastamos dois colchões de volta para dentro. Ainda estavam com os lençóis, cobertores e tudo. Mas o lençol no colchão deles estava manchado de grama numa ponta e os travesseiros tinham cheiro de lama.

Então passamos uma longa noite na casa depenada.

 

10.

Pela manhã a Mãe telefonou para algumas senhoras que ela tinha conhecido quando era uma jovem mãe, mas uma delas tinha deslocado um disco da coluna, outra estava com câncer e uma terceira tinha gêmeos que tinham acabado de ser diagnosticados como maníaco-depressivos.

À luz do dia Harris ficava valente de novo.

“Então essa coisa da corte marcial”, disse ele, “foi a pior coisa que você fez? Ou teve coisas piores, que você fez mas escapou sem ser pego?”

“Eles o inocentaram”, disse a Mãe, secamente.

“Bem, eles me inocentaram de arrombamento e invasão, naquela vez”, disse Harris.

“Seja como for, isso por acaso é da sua conta?”, disse a Mãe.

“Provavelmente ele quer falar”, disse Harris. “Desabafar um pouco aqui. Faz bem pra alma.”

“Olhe pra cara dele, Har”, disse a Mãe.

Harris olhou para a minha cara.

“Desculpe por ter tocado nesse assunto”, disse ele.

Então o delegado voltou. Fez com que eu e Harris arrastássemos os colchões de volta para fora. Na varanda ficamos assistindo enquanto ele fechava a porta com cadeado.

“Por dezoito anos você foi meu lar querido”, disse a Mãe, possivelmente imitando um Sioux de algum filme.

“Vocês vão querer uma van aqui”, disse o delegado.

“Meu filho lutou na guerra”, disse a Mãe. “E olhe só o que vocês estão fazendo comigo.”

“Sou o mesmo sujeito que esteve aqui ontem”, disse o delegado, e por algum motivo enquadrou o rosto com as mãos. “Lembra de mim? A senhora já disse isso. Agradeci a ele por ter servido. Agora chame uma van. Caso contrário, sua tralha vai parar toda no lixão.”

“Vejam como eles tratam uma senhora que trabalha numa igreja”, a Mãe disse.

A Mãe e Harris vasculharam seus cacarecos, encontraram uma mala, encheram a mala de roupas.

Então fomos de carro até a casa de Renee.

Meu sentimento era: Ah, isso vai ser divertido.

 

11.

Se bem que sim e não. Esse era apenas um dos meus sentimentos.

Outro era: Oh, Mãe, eu me lembro de quando você era jovem e usava tranças e eu teria dado qualquer coisa para ver você afundar tanto.

Outro era: Sua velha maluca, você me dopou ontem à noite. Qual era o objetivo disso?

Outro era: Mãe, Mamãe, deixe-me ajoelhar a seus pés e lhe contar o que eu, Smelton e Ricky G. fizemos em Al-Raz, e aí você me faz um cafuné e diz que qualquer um teria feito exatamente o mesmo.

Ao atravessarmos a Roll Creek Bridge percebi o que a Mãe estava sentindo: Ah, se a Renee me renegar, entrego aquele bebezinho do ‘c’ dela numa ‘p’ de bandeja.

Mas então, poxa, quando chegamos ao outro lado e o ar fresco ribeirinho tinha dado lugar de novo ao ar normal, o rosto dela já tinha mudado para: Oh, meu Deus, se a Renee me renegar na frente dos pais de Ryan e eles me virem mais uma vez como gentinha, eu morro, juro que eu simplesmente morro.

 

12.

Renee de fato a renegou na frente dos pais de Ryan, que de fato acharam que ela era gentinha.

Mas ela não morreu.

Se você visse a cara deles quando nós entramos na casa.

Renee ficou pasma. Ryan ficou pasmo. A mãe e o pai de Ryan estavam se esforçando tanto para não parecer pasmos que ficavam trombando nas coisas. Um vaso foi para o chão quando o pai de Ryan tropeçou tentando parecer tagarela/receptivo. A mãe de Ryan resvalou num quadro e acabou segurando-o nos braços cruzados embrulhados no vermelho do suéter.

“É este o bebê?”, perguntei.

A Mãe pegou no meu pé de novo.

“O que você acha que é?”, disse ela. “Um anão que não sabe falar?”

“Este é Martney, sim”, disse Renee, estendendo o bebê para mim.

Ryan pigarreou, fuzilou Renee com um olhar que dizia: Pensei que tivéssemos falado sobre isso, Muffin Querida.

Renee mudou a trajetória do bebê, desviando-o para cima, como se, erguendo-o bem alto, isso abolisse a necessidade de eu segurá-lo, estando ele tão perto do lustre e tudo mais.

O que me magoou.

“Porra”, eu disse. “O que você acha que eu vou fazer?”

“Faça o favor de não dizer ‘porra’ na nossa casa”, disse Ryan.

“Faça o favor de não dizer ao meu filho que ‘p’ ele pode ou não dizer”, disse a Mãe. “Sendo que ele esteve na guerra e tudo.”

“Obrigado por ter servido”, disse o pai de Ryan.

“Podemos muito bem ir para um hotel”, disse a mãe de Ryan.

“Vocês não vão para hotel nenhum, Mãe”, disse Ryan. “Eles podem ir para um hotel.”

“Nós não vamos para um hotel”, disse a Mãe.

“Vocês podem muito bem ir para um hotel, Mãe. Você adora um bom hotel”, disse Renee. “Especialmente quando somos nós que estamos pagando.”

Até Harris estava nervoso.

“Um hotel parece ótima ideia”, disse ele. “Há tempos que não me estendo nesse lugar aprazível que é um hotel.”

“Você quer mandar sua própria mãe, que trabalha para uma igreja, junto com seu irmão, um herói condecorado com a Estrela de Prata, que acabou de voltar da guerra, para um pulgueiro qualquer?”, disse a Mãe.

“Quero”, disse Renee.

“Posso pelo menos segurar o bebê?”, perguntei.

“Não no meu turno de vigília”, disse Ryan.

“Jane e eu gostaríamos que você soubesse o quanto nós apoiamos sua missão”, disse o pai de Ryan.

“Uma porção de gente não sabe das inúmeras escolas que vocês, camaradas, construíram lá”, disse a mãe de Ryan.

“As pessoas tendem a se concentrar no que é negativo”, disse o pai de Ryan.

“Como é mesmo o provérbio?”, disse a mãe de Ryan. “Para fazer uma coisa ou outra, você primeiro tem que quebrar uma coisa ou outra, não é isso?”

“Acho que ele poderia segurar o bebê”, disse Renee. “Quero dizer, afinal estamos aqui bem pertinho.”

Ryan estremeceu, fez que não com a cabeça.

O bebê se contorceu, como se ele também acreditasse que seu destino estava sendo decidido.

Toda aquela gente pensando que eu iria machucar o bebê fez com que eu me imaginasse machucando o bebê. Será que me imaginar machucando o bebê significava que eu machucaria o bebê? Eu queria machucar o bebê? Não, por Deus. Porém: O fato de eu não ter intenção alguma de machucar o bebê significava que eu, na hora do vamos ver, não machucaria o bebê? No passado recente, não havia acontecido de eu não ter intenção alguma de fazer a Atividade X, e de repente me ver fazendo justamente a Atividade X?

“Não quero segurar o bebê”, disse eu.

“Agradeço seu gesto”, disse Ryan. “Muito legal da sua parte.”

“Quero segurar este jarro”, disse eu, e apanhei um jarro e o segurei como se fosse um bebê, derramando a limonada, e, quando a limonada já tinha formado uma bela poça no assoalho de madeira, atirei o jarro com força no chão.

“Vocês conseguiram me magoar de verdade!”, disse eu.

No momento seguinte eu estava lá fora, na calçada, caminhando depressa.

 

13.

Então voltei àquela loja.

Dois outros sujeitos estavam lá, mais jovens que os dois anteriores. Podiam ser colegiais. Estendi a etiqueta MiiVOXMAX.

“Uau, puta merda!”, disse um dos sujeitos. “A gente estava se perguntando aonde isso tinha ido parar.”

“Estávamos a ponto de pedir reposição”, disse o outro sujeito, trazendo café e biscoitos.

“É valioso?”, perguntei.

“Ah, oh, meu caro”, disse o primeiro e tirou uma espécie de pano especial de debaixo do balcão, tirou o pó da etiqueta e a devolveu ao mostruário.

“O que é isso?”, perguntei.

“A questão é para que serve, eu diria”, disse o primeiro sujeito.

“Para que serve?”, perguntei.

“Este aqui provavelmente é mais adequado para você”, disse ele, e me estendeu a etiqueta MiiVOXMIN.

“Estive fora por um bom tempo”, disse eu.

“Nós também”, disse o segundo menino.

“Acabamos de sair do exército”, disse o primeiro menino.

Então nos revezamos dizendo onde tínhamos estado.

Acabou que eu e o primeiro sujeito tínhamos estado basicamente no mesmo lugar.

“Espere aí, então você esteve em Al-Raz?”, perguntei.

“Estive totalmente em Al-Raz”, disse o primeiro sujeito.

“Nunca estive na porra do combate, admito”, disse o segundo sujeito. “Se bem que uma vez eu atropelei um cachorro com uma empilhadeira.”

Perguntei ao primeiro sujeito se ele se lembrava do filhote de cabra, do muro esburacado, da criancinha que chorava, da porta escura encimada por um arco, dos pombos que de repente irromperam num estouro daquele beiral cinza descascado.

“Eu não estava lá a essa altura”, disse ele. “Estava mais perto do rio e do barco emborcado e daquela pequena família toda de vermelho que continuava aparecendo em todo lugar para onde a gente olhava?”

Eu sabia exatamente onde ele tinha estado. Era inacreditável o número de vezes, pré e pós-estouro dos pombos, que eu avistara no horizonte, à beira do rio, alguma figura de vermelho suplicando, rastejando ou tentando fugir.

“Tudo acabou bem com o tal cachorro, porém”, disse o segundo sujeito. “Ele sobreviveu e tudo. Quando saí dali, ele já estava tipo de pé do meu lado, andando na empilhadeira.”

Uma família de nove índios entrou, e o segundo sujeito foi até eles com o café e os biscoitos.

“Al-Raz, uau”, disse eu, jogando verde.

“Quer saber?”, disse o primeiro sujeito. “Pra mim, Al-Raz foi o pior dia da coisa toda.”

“Sim, exato, pra mim também”, disse eu.

“Eu fiz merda pra valer em Al-Raz”, disse ele.

De repente senti que não estava conseguindo respirar.

“Meu camarada Melvin?”, disse ele. “Ganhou um estilhaço de metralha bem na virilha. Por minha causa. Esperei demais pra começar a retirada. Tinha tipo uma festinha de mulheres ali bem perto. Umas quinze garotas naquela casa de esquina. E garotos com elas. Então esperei. Azar do Melvin. Da virilha do Melvin.”

Agora ele estava esperando que eu contasse a merda que eu tinha feito.

Larguei meu MiiVOXMIN, peguei de novo, larguei.

“Mas o Melvin está bem”, disse ele, e deu uma batidinha com dois dedos na própria virilha. “Está em casa, sabe, fazendo pós-graduação. Ao que parece, está podendo até trepar.”

“Fico feliz em ouvir isso”, disse eu. “Provavelmente ele de vez em quando até anda de empilhadeira do seu lado.”

“Oi?”, disse ele.

Olhei para o relógio na parede. Parecia não ter ponteiros. Era só um padrão móvel em amarelo e branco.

“Você sabe que horas são?”, perguntei.

O sujeito olhou para o relógio.

“Seis”, respondeu.

 

14.

De volta à rua, encontrei um telefone público e liguei para Renee.

“Sinto muito”, disse eu. “Sinto muito pelo jarro.”

“Sei. Bom”, disse ela, na sua voz sem afetação. “Você vai me comprar um novo.”

Dava para perceber que ela estava buscando uma reconciliação.

“Não”, eu disse. “Não vou fazer isso.”

“Onde você está, Mikey?”, perguntou ela.

“Em lugar nenhum”, respondi.

“Para onde você vai?”, perguntou.

“Para casa”, disse eu, e desliguei.

 

15.

Subindo a Gleason, tive aquela sensação. Minhas mãos e meus pés não sabiam exatamente o que queriam, mas tendiam para o seguinte: abrir caminho ultrapassando o que quer/quem quer que me barre, entrar, começar a destroçar a merda toda arremessando-a em volta, berrar o que vier à cabeça, ver o que acontece.

Eu estava como que num escorregador de vergonha. Sabe o que quero dizer? Uma vez, quando eu estava no segundo grau, um cara me pagou para limpar uma gosma que havia no seu lago. A gente pescava pedaços da gosma com ancinho e jogava longe. A certa altura a ponta do meu ancinho afundou no monte de gosma. Quando tentei retirá-lo, surgiu um milhão de girinos, mortos e agonizantes, da idade que eles têm quando ficam com aquelas barrigas inchadas como mulheres grávidas. O que os mortos e os agonizantes tinham em comum era: seus ventres brancos e moles tinham sido rasgados pela gosma que tinha caído de repente sobre eles. A diferença era: os agonizantes eram os únicos que faziam uma gesticulação maluca de pânico.

Tentei salvar alguns, mas eram tão delicados que tudo o que consegui ao mexer neles foi torturá-los ainda mais.

Talvez alguém no meu lugar tivesse dito ao sujeito que me contratou: “Ei, vou ter que parar agora, me sinto mal por matar tantos girinos”. Mas não fui capaz. Então continuei pescando gosma e jogando longe.

A cada investida eu pensava: Estou produzindo mais ventres sangrentos.

O fato de eu ter continuado aquele serviço me fez começar a ficar furioso com as rãs.

Era como se, das duas uma: (A) Eu era um cara terrível que estava fazendo conscientemente aquela coisa escrota sem parar, ou (B) não era uma coisa assim tão escrota, na verdade, apenas normal, e o jeito de confirmar que era normal era continuar fazendo, sem parar.

Anos depois, em Al-Raz, foi uma sensação semelhante.

Ali estava a casa.

Ali estava a casa onde eles cozinhavam, riam, trepavam. Ali estava a casa que, no futuro, quando meu nome viesse à tona, ficaria em silêncio completo, e Joy diria algo como: “Embora Evan não seja o pai verdadeiro de vocês, eu e Papai Evan sentimos que vocês não precisam ficar tão perto do Papai Mike, porque o que eu e Papai Evan de fato queremos é que vocês dois cresçam fortes e saudáveis, e às vezes mamães e papais precisam criar uma atmosfera especial para que isso possa acontecer”.

Procurei os três carros na garagem. Três carros significavam: todos em casa. Eu queria que estivessem todos? Sim, queria. Queria que todos, inclusive os bebês, vissem, participassem e lamentassem o que tinha acontecido comigo.

Mas em vez de três carros havia cinco.

Evan estava na varanda, como esperado. Também na varanda estavam: Joy, mais dois carrinhos de bebê. Mais a Mãe.

Mais Harris.

Mais Ryan.

Renee dava passos largos toda sem jeito pela entrada de carros, seguida pela mãe de Ryan, que apertava um lenço contra a testa, e pelo pai de Ryan, que caminhava erguendo a bunda porque mancava, coisa que eu não tinha notado antes.

Vocês?, pensei. Vocês, seus gozadores? Seus estúpidos sacanas, foram todos enviados por Deus para me deter? É um motim. É engraçado pra caralho. Vão me deter com quê? Com suas panças? Suas boas intenções? Seus jeans da Target? Seus anos vivendo na fartura? Sua crença de que toda e qualquer coisa pode ser consertada com conversa, conversa, interminável, balofa e esperançosa conversa?

Os contornos do desastre iminente expandiram-se para incluir a morte de todos os presentes.

Meu rosto ardeu e eu pensei: Vai, vai, vai.

A Mãe tentou se levantar do balanço da varanda, mas não conseguiu. Ryan, todo cortês, veio ajudar, segurando-a pelo cotovelo.

Então subitamente algo se abrandou em mim, talvez a visão da Mãe tão frágil, e baixei a cabeça e me enfiei todo dócil naquela multidão de tapados, pensando: Ok, ok, vocês me enviaram, agora me tragam de volta. Tratem de arrumar um jeito de me trazer de volta, seus sacanas, ou serão o bando mais arrependido de filhos da mãe que o mundo já conheceu.