Dez de Dezembro

George Saunders · Capítulo 7 de 10

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Dez de Dezembro

Semplica girl — Os diários

 

(3 de setembro)

Tendo acabado de fazer quarenta decidi embarcar no grandioso projeto de escrever todo dia neste novo caderno de capa preta recém-comprado na OfficeMax. Excitado ao pensar que, em um ano, à razão de uma página/dia, terei escrito trezentas e sessenta e cinco páginas, e que um belo retrato da vida e da época estará então disponível para filhos & netos, até mesmo para bisnetos, para quem for, todos são bem-vindos (!) para ver como a vida era/é de fato agora. Pois o que sabemos de fato sobre outros tempos? Sobre o cheiro das roupas e o som das carruagens? Será que as pessoas do futuro saberão, por exemplo, como é o som dos aviões atravessando a noite, já que o avião será então coisa do passado? Será que as pessoas do futuro saberão que às vezes gatos brigam à noite? Isso porque terão inventado então alguma química para fazer os gatos não brigarem? Na noite passada sonhei com dois demônios fazendo sexo e descobri que eram apenas dois gatos brigando embaixo da minha janela. As pessoas do futuro entenderão o conceito de “demônios”? Acharão esquisita nossa crença em “demônios”? As próprias “janelas” existirão? Interessante, para as futuras gerações, que mesmo gente sofisticada que estudou em faculdade como eu às vezes acorde encharcada em suor frio, pensando em demônios, acreditando que talvez haja um debaixo da cama? Seja como for, que diabo, não estou planejando escrever uma enciclopédia, se alguma pessoa do futuro estiver lendo isto, se quiser saber o que era um “demônio”, que vá pesquisar numa coisa chamada enciclopédia, se é que vocês ainda as têm!

Estou perdendo o fio da meada, devido ao cansaço, devido àqueles gatos brigões.

Vou escrever vinte minutos por noite, sem ligar para cansaço.

Então boa noite a todas as futuras gerações. Saibam por favor que fui uma pessoa como vocês, também respirei ar e estiquei as pernas enquanto tentava dormir e, ao escrever com lápis, às vezes trazia-o até o nariz para dar uma cheirada. Se bem que, vai saber, talvez vocês, pessoas do futuro, escrevam com canetas a laser. Mas provavelmente elas também têm um certo cheiro, não têm? As pessoas do futuro ainda cheiram suas canetas (a laser)? Bom, está ficando tarde e me desviei demais do assunto com estas especulações filosóficas. Mas com isso cumpro minha resolução de escrever neste caderno pelo menos vinte minutos por noite. (Quando estiver desanimado, basta pensar em quanta coisa terá sido registrada para a posteridade em apenas um ano!)

 

(5 de setembro)

Ops. Pulei um dia. Confusão dos diabos. Resumir o dia de ontem. Ontem foi meio turbulento. Ao buscar as crianças na escola, o para-choque caiu do Park Avenue. Nota para as futuras gerações: “Park Avenue” = tipo de carro. O nosso não é novo. É bem velhusco. Um pouco enferrujado. Eva entrou, perguntou o significado de “sucatorama”. Naquele exato instante o para-choque caiu. O sr. Renn, professor de história, muito prestativo, recolheu o para-choque (lembrete: escrever carta elogiando-o para o diretor) e disse que ele também teve uma vez um carro cujo para-choque costumava cair, isso quando era pobre, na época da faculdade. Eva me animou dizendo que tudo bem o para-choque cair. Respondi claro que tudo bem, por que não estaria tudo bem, era só uma coisa que tinha acontecido, não era eu que tinha causado. Uma imagem que fica na cabeça é de três crianças adoráveis no banco traseiro, com carinhas tristes e contritas, timidamente segurando o para-choque sobre o colo. Uma das pontas do para-choque teve que ficar para fora do vidro da Eva e com isso hoje ela está fungando, sem falar do pequeno corte na mão por segurar na parte em que o para-choque tinha gume afiado. O sr. Renn amarrou um lenço na ponta do para-choque que ficou para fora do vidro. Quando Eva manifestou em voz alta sua preocupação de que não podíamos esquecer de devolver o lenço (“Bom, Papai, somos do tipo desligado”), eu disse que não nos via nem um pouco como do tipo desligado. Então, claro, no caminho para casa, o lenço foi levado pelo vento.

Lilly, como sempre, colocou tudo em perspectiva, dizendo quem se importa com um estúpido para-choque, de todo modo vamos comprar logo um carro novo, quando formos ricos, certo? Chegando em casa, coloquei o para-choque na garagem. Na garagem, achei o cadáver de um camundongo grande ou de um esquilo pequeno fervilhando de vermes. Usei a pá para transferir a maior parte do esquilo/camundongo para um saco de lixo preto. Uma mancha ou pasta de esquilo/camundongo permanece no chão da garagem, como uma poça ressecada de óleo com tufos de pelos grudados.

Fiquei um tempo parado olhando para a casa, triste. Pensei: Por que a tristeza? Não fique triste. Triste, você entristece todo mundo. Entrei alegre, sem mencionar para-choque, nem pasta de esquilo/camundongo, nem vermes, então dei a Eva uma porção extra de sorvete por ter sido ríspido com ela.

É a menina mais doce. O melhor dos corações. Uma vez, quando pequena, encontrou um passarinho morto no quintal e depositou-o no escorregador, para que ele pudesse “levar ele de volta para os parentes”. Chorou quando jogamos fora a velha cadeira de balanço, insistindo que ela, a cadeira, tinha lhe dito que queria viver para sempre no porão.

É preciso ser melhor! Ser mais bondoso. Começar agora. Logo as crianças vão crescer e que coisa triste vai ser se a única lembrança que tiverem de você for a de um sujeito rabugento e irritado num carro ruim.

Lista do que Precisa Ser Feito: Examinar canhotos do talão de cheques. Conseguir adesivo de inspeção para o Park Avenue. Recolocar para-choque. (Anotação para mim mesmo: conserto do para-choque é requisito para adesivo de inspeção?) Lavar com esfregão pasta de esquilo/camundongo para que crianças possam usar garagem para brincadeiras de verão.

Lista do que Deve Ser Feito: Limpar porão. (Chuva recente causou mini-inundação, que arruinou materiais estocados para Natal. Também gaiola do porquinho-da-índia saiu boiando. Foi transferida para cima da máquina de lavar roupa. Agora, para lavar roupa, necessário mudar de novo gaiola, temporariamente, para dentro da água.)

Quando terei tempo livre/riqueza o bastante para sentar num fardo de palha contemplando o nascimento da lua, enquanto dentro da mansão luxuosa a família dorme? Nesse dia, terei chance de refletir profundamente sobre o sentido da vida etc. etc. Tenho a sensação, e sempre tive, de que esta e outras coisas boas vão nos acontecer!

* * *

(6 de set.)

Festa de aniversário muito deprimente hoje na casa da amiga de Lilly Leslie Torrini.

Casa é mansão onde Lafayette se hospedou uma vez. Os Torrini nos mostraram o quarto de Lafayette: agora a “Toca da Diversão” deles. TV de plasma, máquina de fliperama, massageador elétrico de pés. Cento e vinte mil metros quadrados de propriedade, seis anexos (chamam aquilo de “anexos”): um para Ferraris (três), um para Porsches (dois, mais um que está no conserto), um para carrossel histórico que eles estão restaurando como se fosse da família (!). Por cima de córrego repleto de trutas, ponte oriental vermelha trazida da China. Nos mostraram marca de casco de cavalo de alguma dinastia. Na sala da frente, perto Steinway, molde de gesso de marca de casco de cavalo de dinastia ainda mais antiga, em madeira de outra ponte. Autógrafo de Picasso, autógrafo de Disney, vestido que Greta Garbo usou uma vez, tudo exibido em grande armário de mogno maciço.

Horta cuidada por sujeito chamado Karl.

Lilly: Uau, esta horta é tipo umas dez vezes maior que todo o nosso quintal.

Canteiro de flores, cuidado por outro sujeito, curiosamente também chamado Karl.

Lilly: Você não adoraria morar aqui?

Eu: Lilly, haha, não começa...

Pam (minha mulher, doce amor da minha vida!): Que foi? O que ela está dizendo de errado? Você não adoraria? Não adoraria morar aqui? Eu com certeza adoraria.

Em frente da casa, em vasto gramado, maior arranjo SG já visto, todo em branco, aventais brancos tremulando na brisa, e Lilly diz: A gente pode chegar mais perto?

Leslie, sua amiga: Pode, mas não é nosso costume.

A mãe de Leslie, vestida de sarongue indonésio: A gente não tem o costume porque já fez isso muitas vezes, querida, mas talvez você esteja querendo, não é? Quem sabe tudo é muito novo e empolgante para você, não é?

Lilly, timidamente: É sim.

A mãe de Leslie: Então vá, fique à vontade.

Lilly sai correndo.

A mãe de Leslie, para Eva: E você, querida?

Eva se espreme timidamente contra minha perna, balança a cabeça negativamente.

Nesse momento o pai (Emmett) aparece, segurando pata recém-pintada de cavalo do carrossel, e diz hora do jantar, espera que gostemos de peixe agulhão trazido fresco de avião da Guatemala, preparado com um raro condimento encontrado apenas numa região minúscula de Myanmar, conseguido à custa de suborno, sem falar no contêiner especial que ele teve de projetar e fazer para garantir o frescor do peixe.

As crianças podem comer mais tarde, na casa da árvore, diz a mãe de Leslie. Compramos talheres e louças especiais. Os que tínhamos anteriormente na casa da árvore eram russos, da época em que moramos lá. Muito bons, mas um pouco gastos. Além disso, os castiçais eram antigos. Quando digo antigos, quero dizer antigos como os Romanov.

E na semana passada finalmente fizemos o cabo chegar até lá, diz Emmett.

Ele aponta para a casa da árvore, que é pintada à maneira vitoriana e tem um telhado com empena, um telescópio se projetando para fora e o que parece ser um pequeno painel de energia solar.

Thomas: Uau, aquela casa da árvore é tipo duas vezes o tamanho da nossa casa de verdade.

Pam (sussurrando): Não diga “tipo”.

Eu: Oh, hahaha, deixe ele dizer o que quiser, não vamos ser...

Thomas: Aquela casa da árvore é duas vezes o tamanho da nossa casa de verdade.

(Thomas, como sempre, exagerando: casa da árvore não dobro do tamanho de nossa casa. Está mais para um terço do tamanho da nossa casa. Ainda assim, admito: senhora casa da árvore.)

Nosso presente não dos piores. Ainda que possivelmente menos caro (alguém trouxe um miniaparelho de DVD, outro trouxe uma mecha de cabelo de uma múmia verdadeira (!)), era, em minha opinião, o mais sincero. Porque Leslie (que pareceu desapontada diante da mecha de cabelo da múmia, porque ela já tinha uma (!)) ficou, ou assim me pareceu, emocionada com a simplicidade de nosso jogo de bonecas de cartolina para recortar e vestir. E embora nós não o considerássemos kitsch quando o compramos, quando a mãe de Leslie disse Les, dá só uma olhada, kitsch ou não, você não amou?, eu pensei: Bem, talvez seja kitsch, talvez tenha sido essa a nossa intenção. De todo modo, aquilo aliviou o golpe quando o presente seguinte foi um ingresso para o Grande Prêmio de Preakness (!), já que Leslie tinha desenvolvido recentemente um interesse por cavalos, e começara a acordar cedo para alimentar os nove cavalos da família, ela que anteriormente se recusara categoricamente a alimentar as seis lhamas.

A mãe de Leslie: Então adivinhem quem acabou alimentando as lhamas?

Leslie (cortante): Mãe, você não lembra que naquela época eu sempre tinha ioga?

A mãe de Leslie: Se bem que, pra falar a verdade, foi uma bênção, uma chance que tive de redescobrir como são maravilhosos aqueles animais, depois da escola, nos dias em que Les tinha ioga.

Leslie: Tipo todo dia, a ioga?

A mãe de Leslie: Acho que a gente deve simplesmente confiar nos filhos, confiar que o interesse inato deles pela vida vai prevalecer no fim, vocês não acham? É o que está acontecendo agora, com Les e os cavalos. Meu Deus, como ela os adora.

Leslie: Eles são maravilhosos.

Pam: Nossos filhos, a gente não consegue nem fazer com que eles recolham o que o Ferber faz no jardim da frente.

A mãe de Leslie: E Ferber, quem é?

Eu: O cachorro.

A mãe de Leslie: Haha, sim, bem, tudo que é bicho faz cocô, não é mesmo?

Ainda que seja verdade que não conseguimos manter jardim limpo, mesmo com recente tentativa de escala de trabalho, não gostei ver Pam divulgando isso para mundo, como se nossos filhos, além de não tão bem vestidos como Leslie, também menos responsáveis, como se cachorro não fosse bicho de estimação tão perfeito quanto lhama, cavalo, papagaio (papagaio no andar de cima da mansão diz “Bonne nuit!” quando passo para ir ao banheiro) etc. etc.

Depois do jantar, caminho pelas redondezas com Emmett, que é cirurgião e faz dois dias por semana alguma coisa com insertos cerebrais, pequenos aparelhos eletrônicos? Ou seria biotrônicos? São muito pequenos. Centenas deles cabem em cabeça de alfinete? Ou moeda de dez centavos? Não acompanhei muito bem. Perguntou sobre o meu trabalho, respondi. Ele disse: Bem, ahn, é surpreendente as coisas arcanas que nossa cultura exige que alguns de nós façam, coisas degradantes, coisas que não oferecem nenhum benefício tangível a ninguém; como esperam que as pessoas ao menos continuem a manter a cabeça erguida?

Não consegui pensar em resposta. Anotação para mim mesmo: Pensar em resposta, mandar em cartão, dando início amizade com Emmett?

De volta à mansão, sentamos no terraço especial de observação das estrelas quando elas começavam a aparecer. Nossos filhos contemplavam as estrelas fascinados, como se nada de estrelas no nosso bairro. Que foi, perguntei, não tem estrela no nosso bairro? Nenhuma resposta. De ninguém. A bem da verdade, as estrelas de fato pareciam mais brilhantes ali. No terraço estelar, havia muita coisa para beber, e de repente tudo aquilo em que eu pensava pareceu estúpido. Então simplesmente fiquei quieto, como em estupor.

Pam dirigiu de volta para casa, comigo sentado bêbado e calado em banco do passageiro do Park Avenue. Crianças tagarelando sobre como a festa tinha sido incrível, especialmente Lilly. Thomas despejando todos aqueles detalhes aborrecidos sobre a lhama de acordo com Emmett.

Lilly: Mal posso esperar pela minha festa. Minha festa é daqui a duas semanas, certo?

Pam: O que você quer fazer no seu aniversário, meu bem?

Longo silêncio dentro do carro.

Lilly, por fim, com tristeza: Ah, não sei. Nada, acho.

Estacionamos em casa. Outro silêncio enquanto contemplávamos jardim vazio e insípido. Isto é, cheio de mato e sem ponte oriental vermelha c/ marcas antigas de cascos de cavalo, nem anexos nem sequer uma só SG, mas apenas Ferber, que a gente tinha meio que esquecido, e que, como sempre, tinha dado voltas e voltas na árvore até quase morrer estrangulado em sua guia cada vez mais curta, tendo basicamente imobilizado a si próprio junto ao chão, e agora, deitado inerte, olhava para nós com olhos suplicantes nos quais o desespero se combinava com uma espécie de raiva cozinhando em fogo lento.

Soltei cachorro da coleira, ele me lançou olhar hostil e foi fazer cocô extremamente perto da varanda.

Esperando para ver se crianças tomariam iniciativa de recolher. Mas não. Elas passaram direto, de ombros caídos, e pararam exaustas diante da porta da frente. Então eu soube que teria de tomar iniciativa e recolher. Mas estava cansado e sabia que tinha de entrar e escrever neste caderno estúpido.

Não gosto muito de gente rica, pois faz com que nós, pobres, nos sintamos nulos e inadequados. Não é que sejamos pobres. Eu diria que somos classe média. Somos muito muito abençoados. Sei disso. Mas, ainda assim, não acho certo que pessoas ricas façam com que nós, classe média, nos sintamos nulos e inadequados.

Estou escrevendo isto ainda bêbado e está ficando tarde e amanhã é segunda-feira, o que significa trabalho.

Trabalho trabalho trabalho. Trabalho estúpido. Estou tão cansado de trabalho.

Boa noite.

 

(7 de set.)

Acabo de ler últimas anotações e preciso esclarecer.

Não estou cansado de trabalhar. Trabalhar é um privilégio. Não odeio gente rica. Eu mesmo aspiro a ser rico. E quando tivermos nossa própria ponte, trutas, casa da árvore, SGs etc., pelo menos vou saber que fizemos por merecer tudo isso, diferentemente, digamos, dos Torrini, que, tenho impressão, devem ter dinheiro de família.

Hoje no trabalho, na hora do almoço, foi Festa do Outono. Lá fomos nós, uns mil camaradas debandando. Pequeno trio tocando. Alguém tinha distribuído bandeirolas amarelas e cor de laranja com as letras “FF”, em pouco tempo espalhadas pelo chão. Rio falso atravessa pátio, muitos babacas tinham jogado suas bandeirolas no rio falso. Bueiro gradeado numa das pontas logo entupido pelas bandeirolas, homem da manutenção, com inúmeras bandeirolas apontando de bolso traseiro, irritado tentando arrancar bandeirolas do bueiro com vara de medir.

Como sempre, serviram aqueles pequenos sanduíches em pão de forma. Quando nosso grupo desceu, muitos sanduíches já no chão em torno da mesa do bufê, com marcas de pisões.

Caímos de boca sobre mesa, comemos sofregamente.

Sentei pensando em Eva. Um amor de menina. Na noite passada, depois da festa, encontrei triste em seu quarto. Perguntei por quê. Respondeu não tinha motivo. Mas no bloco de esboços: desenho em creiom de fileira de SGs tristes. Dava para saber que era para parecerem tristes por vincos que desciam por faces como bigodes de Fu Manchu e por lágrimas que caíam em arco, flores nascendo do chão onde lágrimas caíam. Anotação para mim mesmo: falar com ela, explicar que não dói, que elas não estão tristes, mas sim alegres, dadas as suas condições anteriores; elas escolheram, estão contentes etc.

Matéria muito tocante na Rádio Pública Nacional. SG bengali mandando dinheiro para família: com isso, pais têm condições de construir pequena choça. (Anotação para mim mesmo: Encontrar na internet, baixar, mostrar para Eva. Primeiro, consertar computador. Computador superlento. Será que é memória baixa? Deletar, quem sabe, “CircusLoser”? Acrobatas se movem aos solavancos, devido memória baixa + elefantes não saltam = graça nenhuma.)

Logo já era quase uma hora, voltamos ao trabalho. No elevador, alguns ainda segurando nossos pequenos sanduíches, lá estávamos nós, engravatados e de rosto vermelho, fazendo piadas sobre Festa de Outono, chega de Festa de Outono, Festa de Outono já era etc. etc. Em seguida o silêncio constrangido enquanto cada um de nós, mentalmente, dizia de novo as coisas que tínhamos acabado de dizer com entusiasmo e veemência, como se disputássemos uma espécie de Concurso de Frase Estúpida.

Em seguida breve período durante o qual cada um de nós olhou disfarçadamente para o espelho do teto do elevador para checar pontos de calvície etc. etc. etc., para ver enfim como éramos “vistos de cima”.

Anders disse: Devo parecer bem esquisito para os pássaros.

Ninguém riu, todos se limitaram a fazer aquele som que é como um substituto da risada, de modo a não fazer Anders sentir-se mal, já que sua mãe morreu recentemente.

 

(8 de set.)

Acabo de voltar de longa caminhada em Woodcliffe.

Por toda parte lá, homens da minha idade lendo em suas poltronas sob opulentas luzes laranja. Onde está minha poltrona? Minha luz laranja? Nada de poltrona, nada de luz opulenta, nada de sala forrada de livros. Por que a arte em nossas paredes é tão capenga? Só temos um quadro de carros antigos comprado na Target e um de praia genérica c/ roda-gigante, de um bazar. O que estamos fazendo de errado aqui? Onde estão nossas pinturas originais caras e emolduradas, assinadas por artistas? (Anotação para mim mesmo: Fazer amizade com jovem artista? Jovem artista vem em casa, fica impressionado com família, pinta retratos da família grátis? Ainda assim, fica caro emoldurar. Quem sabe artista, tão impressionado com família, emoldura por conta própria o quadro, isto é, moldura = parte do presente?) Em Woodcliffe, tudo exuberante. Lindos canteiros floridos, cheiro noturno de humo de cedro, lanchas em gramados ao luar. Atrás do casarão com torres na esquina da Longfellow com Purdy Way, terreno em aclive tem uns duzentos metros de gramado perfeito. Ali no escuro, quinze (eu contei) SGs pendendo silenciosas, aventais brancos ao luar. De tirar o fôlego. Vento fica mais forte, oscilam pequeno ângulo, aventais e cabelos (longos, ondeantes, pretos) assumindo mesmo ângulo. Flores incríveis (tulipas, rosas, algo cor de laranja brilhante, coisas com longos talos e cachos brancos) balançando ao vento com som de papel contra papel. Dentro, música de flauta. Faz a gente pensar em eras antigas e homens abastados daqueles tempos construindo grandiosos jardins, perambulando por eles enquanto discorriam sobre filosofia, com uma fartura de terras conquistadas para o deleite de etc. etc. etc.

Vento para, tudo retorna à vertical. Do outro lado do jardim: sussurro suave, rudimentos de frases estrangeiras murmuradas. Quem sabe dando boa-noite? Quem sabe dizendo, em sua língua própria: nossa!, que vento forte foi aquele?

Quase cheguei mais perto para olhar melhor, conversar talvez, mas no último minuto me detive, pensando: Espere, nada de invadir, péssima ideia.

Parei um pouco para observar, pensando, rezando: Senhor, dai-nos mais. Dai-nos o bastante. Ajudai-nos a não ficar atrás de nossos semelhantes. Isto é, ajudai-nos a não ficar mais atrás ainda de nossos semelhantes. Pelo bem das crianças. Não quero vê-las estigmatizadas por ficar tão atrás dos outros.

É tudo o que eu peço.

Cachorro começou a latir, passou em disparada entre duas SGs, uma das quais deixou escapar gritinho agudo. Mas cachorro preso na guia. Estalou de volta.

De dentro de casa: Quieto, Brownie! Bonzinho, Brownie!

Escutei isso sob sombra de árvore, fugi correndo dali.

 

(12 de set.)

Nove dias para aniversário de Lilly. Meio apreensivo com isso. Muita pressão. Não quero uma festa ruim. Por que será? Talvez próprio aniversário de treze anos? Passeio a cavalo e Ken Dryzniak quase paralítico por causa de queda? Além disso bolo insosso. Cobra ameaçou Kate Fresslen. Papai matou cobra com enxada, pedaços do bicho saíram voando, manchando vestido de Kate? Ou será essa tensão pré-aniversário perfeitamente normal, todos os pais sentem?

Tinha pedido a Lilly uma lista de sugestões de presentes. Hoje voltei para casa e encontrei envelope com LISTA DE POSSÍVEIS PRESENTES. Dentro, recortes de algum catálogo: “Ferocidade em Repouso”. Um par de ferozes gatos selvagens de porcelana está amansado (ao menos por enquanto!) em almofadas ornamentais altamente detalhadas, mas sua selvageria não deve ser subestimada. Guepardo de perfil esquerdo: US$ 350. Tigre de perfil direito: US$ 325. Depois, um post-it: PAPAI, SEGUNDA OPÇÃO: Estatueta de “Garota Lendo para Irmãzinha”: Este estudo de infância da artista de Nevada Dani vai rememorar em porcelana as alegrias da “hora da historinha” e os momentos de ternura compartilhados por todo mundo. Garota e garotinha lendo em pedra polida: US$ 280.

Desanimador, achei. Porque 1) Por que garota de doze anos deseja um presente de velha como aqueles? e 2) De onde garota de doze anos tira ideia de que US$ 300 = preço adequado para presente de aniversário? Para nós era uma camisa, uma camisa que não queríamos, geralmente feita em casa. Uma vez ganhei bola de basquete, do tipo oficial, mas que pulava demais, vermelha, branca e azul, com um palhaço desenhado nela, por algum motivo. Quando batida no chão, saltava meio metro mais alto que uma bola normal. Amigos a chamaram de minha “saltadora”. Não preciso dizer que não custou trezentos. Acho que Mamãe a resgatou com cupons de sabão em pó. Me deu embrulhada em camisa feita em casa com uma manga comprida pendendo solta. Então me conclamou a vestir camisa de mangas compridas, vai lá, “mostra pra eles”. Tirou foto de mim tentando driblar com bola saltadora enquanto amigo Al estendia manga comprida da camisa, como se dissesse: Uau, que braço comprido. Na foto, bola quicando fora do quadro. Curva inferior da bola apenas visível, como lua crescente, Chris M. olhando para bola/lua, espantado/encolhido.

De todo modo, não quero machucar coração de Lilly nem lembrá-la brutalmente das nossas limitações. Deus sabe que ela já é brutalmente lembrada a todo momento das nossas limitações. Para o projeto “Meu Jardim”, da escola, Leslie Torrini levou fotos da ponte oriental, mais informações de fundo sobre SGs (lugar de origem, idade etc.), como fizeram “todos os outros alunos da classe”, enquanto Lilly levou caixa de camisinhas de 1940 encontrada no ano passado durante tentativa abortada de iniciar horta no jardim. Talvez palpite infeliz deixá-la levar caixa de camisinhas. Pensei que seria bom, em termos históricos, além do que talvez muitos nem percebessem que caixa de camisinhas. Mas professora percebeu, chamou atenção, crianças deram grande vaia, professora aproveitou ocasião para discutir sexo seguro, o que foi bom para classe, mas talvez não tão bom para Lilly.

Quanto à festa de aniversário, Lilly disse que preferia não fazer nenhuma. Perguntei por que não, meu bem? Ela disse ah por nada. Perguntei é por causa do nosso jardim, da nossa casa? É porque você teme que, com a nossa casa pequena e o jardim vazio, a festa pode ser chata ou constrangedora?

Diante disso ela caiu no choro e disse: Oh, Papai.

A bem da verdade, uma estatueta talvez não seja um exagero. Ou melhor, talvez valha muito a pena fazer essa concessão, devido à expressão triste em seu rosto quando ela voltou para casa no dia do “Meu Jardim” e largou caixa de camisinha sobre mesa com um suspiro.

Quem sabe “Garota Lendo para Irmãzinha”, já que é mais barato? Se bem que dar o mais barato talvez emita mau sinal. Sinal de frugalidade mesmo no meio de tentativa de ser generoso? Quem sabe seja melhor partir para o grande. Para o “Ferocidade em Repouso”?

Colocar guepardo no Visa, tomara que ela tenha uma alegre surpresa?

 

(14 de set.)

Observei Mel Redden hoje. Ele se saiu bem. Eu me saí bem. Ele cometeu pequenos erros, flagrei todos eles. Cometeu erro de reciclagem: jogou lata de refrigerante no cesto errado. Ao jogar lata no cesto errado, cometeu erro ergonômico, arremessando de muito longe, errando o alvo, tendo que se levantar e jogar de novo. Então cometeu segundo erro ergonômico: não se agachou para recolher lata e jogar de novo, em vez disso dobrou corpo para a frente, aumentando assim risco de lesão nas costas. Mel deu visto em minhas Observações, e aí me pediu para observar de novo. Muito esperto. Aí não cometeu erro algum. Não jogou latas no cesto. Não cometeu erro ergométrico algum, só ficou sentadinho atrás da mesa. Desse modo pôde colocar isso como adendo em seu Registro. Despedimo-nos como bons amigos etc. etc.

Uma semana até o aniversário de L.

Anotação para mim mesmo: Encomendar guepardo.

Não simples, porém. Alguns problemas recentes com Visa. Estourado. Mais que estourado. Descobri no YourItalianKitchen, cartão recusado. Deixei Pam e crianças lá, saí rapidinho com grande sorriso amarelo, rodei até caixa eletrônico. Então momento de pânico quando caixa eletrônico rejeitou cartão. Bêbado passando disse que terminal estava quebrado, me indicou outro caixa eletrônico. Agradeci bêbado com aceno amigável ao passar por ele de carro. Bêbado me mostrou dedo do meio. Segundo caixa eletrônico, funcionando graças a Deus, não rejeitou cartão.

Cheguei sem fôlego de volta ao YourItalianKitchen e encontrei Pam na terceira xícara de café e crianças caindo de sono das cadeiras e enchendo aquário de moedinhas, garçons parecendo irritados. Paguei em dinheiro, c/ generosa gorjeta de desculpas. Cogitei recolher moedinhas das crianças (!). Ainda assim, tudo somado, bela noitada. Divertida mesmo. Crianças mostraram bons modos, até a parte do aquário. Mas problema continua: Visa estourado. Também AmEx estourado e Discover quase. Liguei para Discover: US$ 200 disponíveis. Se transferirmos US$ 200 da conta bancária (assim que entrar o salário), teremos então US$ 400 disponíveis no Discover e poderemos comprar guepardo. Mas timing problemático. No momento, saldo bancário zero. Cheque do meu pagamento precisa sair, tenho que depositá-lo imediatamente e torcer para que seja compensado rápido. E então, ao organizar contas, deixar de pagar as pequenas, totalizando US$ 200 dólares não pagos. Ou com pagamento adiado.

Situação está crítica por estes dias.

Anotação para futuras gerações: Em nossa época, existem coisas chamadas cartões de crédito. Empresa empresta dinheiro, você paga de volta com altas taxas de juros. É bacana quando você realmente não tem dinheiro para fazer coisa que quer fazer (por exemplo, comprar guepardo extravagante). Seguro aí em seu tempo futuro, você poderá dizer: Não seria melhor simplesmente deixar de comprar coisa que você não tem condições de bancar? Para vocês é fácil dizer! Vocês não estão aqui, neste nosso mundo, com filhos, filhos que a gente ama, enquanto outras pessoas estão proporcionando coisas boas para os filhos delas, tais como uma Viagem de Turismo Histórico a Nice, se vocês são os Mancini, ou três semanas de mergulho em navios naufragados nas Bahamas, se vocês são Gary Gold e seu bronzeado e afetado filho Byron.

Limitações frustrantes demais.

Há tanta coisa que eu quero fazer, experimentar e dar às crianças. Tempo passando tão rápido, crianças crescendo tão depressa. Se não agora, quando? Quando lhes daremos fartura e senso de generosidade? Nunca estivemos no Havaí nem voamos de parasail nem almoçamos num restaurante à beira-mar, usando chapéus de palha que acabamos de comprar num impulso. Então eu me preocupo: Crescendo em meio à escassez, elas não se tornarão precavidas demais? Não que elas estejam crescendo em meio à escassez. Ainda assim, existem coisas que queremos e não temos condições de ter. Se crianças crescerem precavidas demais, devido à escassez, será que o mundo não vai mastigá-las e cuspi-las em seguida? Vontade de comprar baú, decorá-lo como tesouro enterrado, enterrá-lo, fazer mapa, esconder mapa, conduzir crianças até mapa sem perceberem. Então, quando elas trouxerem mapa, dizer: Ridículo, não sejam tão sonhadores, sejam precavidos, sejam frugais, o mundo é cruel. E quando elas persistirem, e de fato encontrarem tesouro, não seria uma grande lição de perseverança? Mas como fazer isso? Onde conseguir um baú desses? O que colocar dentro dele que não custe muito caro? Como cavar um buraco grande o bastante, e quando? Sempre ocupado nos fins de semana. Se tivesse mais dinheiro, poderia contratar empregada, contratar jardineiro, ficando livre para encontrar baú, encher baú, enterrar baú. Ou mandar jardineiro enterrar baú, depois que eu enchesse. Ou mandar empregada encher. Mas não tenho dinheiro nem para empregada nem para jardineiro, nem dinheiro para baú do tesouro, nem tesouro para colocar dentro, e na verdade não tenho dinheiro sequer para comprar kit para fazer mapa parecer antigo.

Mesmo assim, tenho que lutar o bom combate! Pensar no Papai. Quando Mamãe deixou Papai, ele continuou indo trabalhar. Quando despedido do emprego, passou a entregar jornais. Quando despedido da entrega de jornais, pegou entrega de jornais pior. Com o tempo, pegou entrega melhor de volta. Quando morreu, tinha emprego quase tão bom quanto original que ele havia perdido. E tinha pagado maior parte da dívida contraída depois do rebaixamento para entrega pior.

Anotação para mim mesmo: Visitar túmulo de Papai. Levar flores. Ter conversa com Papai a respeito de certas coisas que eu disse na época da entrega de jornais, razão, não podia bancar aluguel de smoking para baile de formatura, tive que usar velho smoking de Papai, que não servia direito. Ainda assim, não precisava ter sido rude. Papai não tinha culpa de ser um palmo mais alto que eu e por isso pernas da calça arrastavam, escondendo sapatos emprestados de Papai, que apertavam porque Papai, apesar de alto, tinha pés pequenos.

Bom sujeito, o Papai. Sempre trabalhou duro por nós e nunca nos deixou e sempre nos trazia balas, mesmo no começo duro da entrega pior.

 

(15 de set.)

Droga. Plano não vai funcionar. Sem poder passar a tempo o cheque para o saldo do Discover. Precisa de tempo para ser compensado.

Portanto, nada de guepardo.

Tenho que pensar em alguma outra coisa para comprar para Lilly de modo que a gente possa dar para ela na festinha só p/ família na cozinha. Ou talvez precise fazer o que Mamãe às vezes fazia, que era, quando coisa não era acessível, embrulhar foto da coisa, com bilhete prometendo coisa. No entanto, anotação para mim mesmo: Não fazer outra coisa que Mamãe fazia, que era, quando filho tentava resgatar o presente, revirar os olhos, fingir exasperação, perguntar filho se filho achava que dinheiro crescia em árvore.

Não. Quando Lilly chegar para mim com o cupom, surpreender com generosidade levando-a a almoço glamoroso no melhor lugar da cidade, toda bem vestida, proprietário se aproxima e diz, c/ sotaque francês, Oh, percebo que é o dia especial de uma pessoa, e Lilly enrubesce (anotação para mim mesmo: Aprender frase em francês que significa Sim, sim, é o aniversário dela), depois do que vamos comprar estatueta, e para surpresa dela eu compro não apenas uma, mas duas estatuetas, e, melhor ainda, mais caras do que aquelas chinfrins do catálogo.

Anotação para mim mesmo: Encontrar anúncio com foto do guepardo, para fazer cupom do presente. Estava na escrivaninha pequena, mas não vi mais. Talvez usado para anotar recado de telefonema? Talvez usado para recolher coisinha que gato cuspiu?

Anotação para mim mesmo: Descobrir qual melhor restaurante da cidade.

Tadinha da Lilly. Sua doce carinha confiante quando era bem pequena, com a coroa do Burger King, e agora isso? Ela não sabia que estava destinada a ser, não princesa, mas menina pobre. Menina remediada. Menina não-mais-rica-de-todas.

Nada de festa, nada de presente. Possivelmente nada de foto do guepardo no cupom. Podia desenhar um guepardo, mas capaz de pensar que estava ganhando camelo. Ou deixando de ganhar camelo, melhor dizendo. Não sou o melhor desenhista. Hahaha! É preciso manter o astral. Rir é o melhor remédio etc. etc.

Um dia, tenho certeza, sonhos vão se realizar. Mas quando? Por que não agora? Por que não?

Estou com uma tremenda dor de cabeça faz três dias.

* * *

(20 de set.)

Desculpem pelo silêncio, mas... uau!

Estava feliz/ocupado demais para escrever!

Sexta-feira dia mais incrível da minha vida! Não preciso nem anotar, pois nunca esquecerei esse dia estupendo! Mas vou registrar para as futuras gerações. Será bom para elas saber que a boa sorte e a felicidade são reais e possíveis! Na América de meu tempo, quero que saibam, tudo é possível!

Bizarro olhar a anotação anterior e ver a frase “Por que não agora?”, porque exatamente! Isso é exatamente o que aconteceu!

Uau uau uau é tudo o que posso dizer! Lembram que eu disse, acima, que sempre compro um bilhete de Raspadinha na hora do almoço? Será que eu disse mesmo? Talvez não? Bom, sexta-feira ganhei DEZ MIL PRATAS!! A cada sexta, para me recompensar por boa semana, paro num mercadinho perto de casa, me premio com um Butterfinger, mais bilhete de Raspadinha. Às vezes, semana mais dura, dois Butterfingers. Às vezes, semana dura pra burro, três Butterfingers. Mas, quando três Butterfingers, nada de Raspadinha. Mas na sexta-feira ganhei DEZ MIL PRATAS !! Na Raspadinha. Deixei cair os dois Butterfingers, fiquei ali parado moedinha da Raspadinha na mão, a boca desse tamanho. Meio que tropecei no suporte das revistas. O sujeito pegou o bilhete, leu o bilhete, disse: Premiado! O sujeito saiu, deu uma ajeitada no suporte, apertou minha mão.

Então disse que pegaríamos o cheque, o cheque de DEZ MIL, dali uma semana.

Corri para casa a pé, esquecendo o carro. Corri de volta para pegar o carro. No meio do caminho, pensei que diabo, corri para casa a pé. Pam correu para a rua, perguntou cadê o carro? Mostrei para ela a Raspadinha premiada, ela ficou que nem tonta no jardim.

Agora estamos ricos?, perguntou Thomas, correndo para fora, arrastando Ferber pela coleira.

Ricos não, disse Pam.

Mais ricos, disse eu.

Mais ricos, disse Pam. Cacete.

Então todo mundo dançou junto pelo jardim, Ferber olhando pasmo para a dança súbita, aí também fez a dança dele, tentando morder o próprio rabo.

Então, claro, tinha que decidir como usar o dinheiro. Aquela noite na cama Pam disse usar uma parte para saldar os cartões de crédito? Meu sentimento era que ok, era possível. Mas não me deixava empolgado, e também nem ela estava tão empolgada.

Pam: Seria bacana fazer alguma coisa especial para o aniversário da Lilly.

Eu: Também acho, sim, exato!

Pam: Ela podia usar alguma coisa. Tem estado tão tristinha.

Eu: Sabe de uma coisa? Vamos nessa.

Porque Lilly é a nossa filha mais velha, a gente tem um fraco por ela, um fraco que é também que nem uma preocupação especial.

Então a gente bolou um esquema e pôs em prática.

Que foi o seguinte: a gente foi à Greenway Paisagismo, mandou fazer um projeto totalmente novo de jardim, incl. dez roseiras + alameda de cedros + laguinho + pequena banheira + arranjo de quatro SGs! O enrosco era: em quanto tempo dava para fazer tudo aquilo? A Greenway disse que, pagando tanto, podia fazer num único dia, as crianças na escola. (Anotação para mim mesmo: escrever carta elogiando Melanie, a moça da Greenway: superprestativa.)

O segundo passo foi enviar convites secretos para a festa surpresa a ser realizada à noitinha do dia da inauguração do novo jardim, isto é, amanhã, isto é, por isso fiquei tão silencioso em termos deste caderno na última semana, desculpem, desculpem, mas estive ocupado demais!

Pam e eu trabalhamos tão bem juntos, como nos velhos tempos, tão unidos e afinados, em total harmonia, que na noite em que preparativos todos prontos fomos para a cama cedo (!!). (Roteiro de cena de massagem, não me perguntem mais nada.)

Desculpem se fiquei meloso.

É que estou feliz.

Às vezes tão ocupados não a vejo/ela não me vê. Mas quando acontece da gente se ver, é como nos velhos tempos, por exemplo primeiro encontro no Melody Lake, quando, entrando na Gruta do Espeleólogo, nos beijamos perto da multidão de animatrônicos de barba grisalha, sob o cheiro da névoa de cloro da cascata azulzinha ali perto.

Começo de nossa linda história.

Estou tão feliz.

Anotação para futuras gerações: Felicidade é possível. E feliz é bem melhor do que o contrário, isto é, triste. Espero que vocês saibam disso! Eu sabia, mas esqueci. Me acostumei a ficar sempre um pouquinho triste! Um pouquinho triste, devido à tensão, devido à preocupação com limitações. Mas agora, uau, não: feliz!

Amanhã a festança para Lilly.

 

(21 de setembro! Aniversário da Lilly (!))

Tem dias tão perfeitos que a gente sente: A vida é isso. Quando ficar velho, vou sentir que toda a vida valeu a pena, porque pude vivenciar este dia perfeito.

Hoje foi esse tipo de dia.

Talvez eu esteja empolgado demais para relatar na ordem certa, além de cansado depois de um dia grandioso. Mas vou tentar.

De manhã crianças na escola, como de costume. A Greenway chega às dez. Sujeitos simpáticos. Sujeitos grandes! Um c/ cabelo moicano. Dois (!) para montar o jardim todo. Roseiras no lugar, fonte no lugar, alameda no lugar. Caminhonete com as SGs chega às três. SGs descem da caminhonete, ficam paradas timidamente perto da cerca enquanto armação instalada. Bela armação. Optei pela “Lexington” (mediana, em termos de preço): postes de bronze c/ cimos coloniais, alavancas UsoFácil.

SG s já com aventais brancos. Microfio já esticado de uma ponta a outra. SG s segurando carretel de microfio nas mãos, como alpinistas segurando corda. Só que não tem montanha (!). Uma agachada, outras em pé recatadas/nervosas, uma cheirando novas rosas. Faz aceno tímido, outra fala alguma coisa para ela, algo do tipo: Ei, não pode acenar. Mas eu aceno de volta, querendo dizer: Nesta casa, tudo bem acenar.

Médico monitora instalação, de acordo com a lei. Tão jovem! Devia era estar trabalhando na Wendy’s. Diz que podemos assistir ou não ao içamento. Me olha significativamente, olha de esguelha para Pam, querendo dizer: a patroa é enjoada? Pam é um pouquinho enjoada. Às vezes não gosta de manusear frango cru. Eu digo: vamos entrar para pôr as velas no bolo.

Logo logo, batida na porta: médico diz içamento pronto.

Eu: Podemos dar uma olhada?

Ele: À vontade.

Saímos. SGs instaladas, aprox. um metro do chão, sorrindo, balançando à brisa suave. Ordem, da esquerda para a direita: Tami (Laos), Gwen (Moldávia), Lisa (Somália), Betty (Filipinas). Efeito assombroso. Ter visto tantas vezes configuração similar em jardins de outros mais ricos faz jardim da gente parecer rico de repente, e a gente se vê de um jeito diferente, como se finalmente acertasse passo com semelhantes e com tempo que está vivendo.

Laguinho ótimo. Roseiras idem. Alameda, banheira, idem.

Tudo no lugar.

Não podia acreditar que tínhamos conseguido tudo aquilo.

Apanhei Lilly cedo na escola. Lilly toda amuada porque era aniversário dela e ninguém tinha dado parabéns no café da manhã, e também nada de festa ou de presente, e ainda por cima agora tinha que ir ao médico tomar injeção.

Porque era essa a armação.

No carro, fiz de conta que me perdi. Lilly (desanimada): Papai, como você pode se perder, se Hunneke é nosso médico desde sempre? (Pam já tinha armado a coisa com a enfermeira, que, quando finalmente “encontrei” a clínica, apareceu e disse que o médico estava doente, doente demais para dar injeção: a primeira de uma série de supersurpresas para Lilly!)

Enquanto isso, em casa: Pam, Thomas e Eva se esfalfam na decoração. Comida entregue (carne grelhada do Snakey’s). Amigos chegam. Então, Lilly desce do carro e o que ela vê é o jardim todo novo cheio de todos os amigos da escola sentados em volta da nova mesa de piquenique perto da nova banheira (anotação para mim mesmo: escrever mensagem elogiando a criançada por incrível discrição/guardar segredo) e novo varal com quatro SGs, e Lilly literalmente cai no choro de felicidade!

Mais lágrimas de felicidade quando reluzentes pacotes cor- -de-rosa desembrulhados, “Ferocidade em Repouso” mais “Garota Lendo para Irmãzinha” revelados. Lilly comovida que eu lembrei as estatuetas exatas. Mais “Torpor de Verão” (mistura de palhaço e vagabundo pescando (US$ 380)), que ela nem tinha pedido (só para provar nossa generosidade). Várias outras ondas de lágrimas felizes, abraços, bem na frente dos amigos, parecendo que gratidão/afeição por nós é maior que medo de pagar mico na frente dos amigos.

Convidados da festa fizeram os jogos tradicionais, cabo de guerra etc. etc. De algum modo, brincar num jardim lindo e novo energizava as brincadeiras. Garotada alegre, agradeceram o convite, vários disseram que amaram jardim. Vários pais ficaram depois, dizendo que amaram jardim.

E, meu Deus, a expressão do rosto de Lilly depois que todo mundo foi embora!

Sei que ela se lembrará para sempre do dia de hoje.

Apenas ligeiro porém: depois da festa, durante faxina, Eva sai batendo pé, agarra gato bem bruta do jeito que ela faz às vezes quando está furiosa. Gato arranha Eva, parte para cima de Ferber, mete as garras em Ferber. Ferber dispara, tromba no pé da mesa, rosas compradas para Lilly despencam em cima de Ferber.

Encontramos Eva dentro do armário.

Pam: Meu benzinho, o que foi?

Eva: Não gosto disso. Não é nada bacana.

Thomas (chegando às pressas com o gato, para mostrar que é ele que manda no gato): Elas querem, Eva. Elas tipo se inscrevem para uma vaga.

Pam: Não diga “tipo”.

Thomas: Elas se inscrevem para uma vaga.

Pam: No lugar de onde elas vêm, as oportunidades não são tão boas.

Eu: Isso as ajuda a cuidar das pessoas que elas amam.

Eva virada para a parede, o lábio inferior apontando como quando ela está prestes a chorar.

Então tenho uma ideia: Vou até cozinha, folheio Declarações Pessoais. Putz. É pior do que eu pensava: laosiana (Tami) se inscreveu devido a duas irmãs que já estão em bordéis. Moldávia (Gwen) tem prima que pensou estar se tornando limpadora de janelas na Alemanha, mas não: escrava sexual no Kuwait (!). Somali (Lisa) viu pai + irmãzinha morrer de aids, na mesma minúscula choça de palha, no mesmo ano. Filipina (Betty) tem irmão mais novo “com muito talento para computadores”, pais não têm condições de bancar colégio, moram num puxadinho com três outras famílias desde que seu próprio puxadinho deslizou do morro num terremoto.

Opto por “Betty”, volto para armário, leio “Betty” em voz alta.

Eu: Isso ajuda? Você entende agora? Pode ao menos imaginar o irmãozinho dela, numa boa escola, graças a ela, graças a nós?

Eva: Se a gente quer ajudar, por que a gente não pode simplesmente dar o dinheiro pra elas?

Eu: Oh, minha querida.

Pam: Vamos lá olhar. Vamos ver se elas parecem tristes.

(Não parecem tristes. Na verdade, estão conversando em voz baixa ao luar.)

Na janela, Eva em silêncio. Poço profundo. Tão sensível. Mesmo quando pequenininha, Eva já sensível. Quando o gato anterior Squiggy estava morrendo, Eva dormia ao lado da cama do gato, dava água pro Squiggy com o conta-gotas do colírio. Coração bondoso. Mas eu me preocupo, Pam se preocupa: se a menina é sensível demais, a menina sai para o mundo e o mundo monta nela, quero dizer, precisa de um pouco de casca grossa, não é?

Lilly, por outro lado, escreveu todos os cartões de agradecimento esta noite numa única sentada, passou esfregão na cozinha sem ninguém pedir, depois saiu para jardim c/ lanterna, limpando área do Ferber com nova pazinha de recolher cocô que ela, pelo visto, tinha saído de bicicleta para comprar c/ próprio dinheiro no FasMart (!).

 

(22 de set.)

A fase feliz continua.

No trabalho, todo mundo curioso a respeito da Raspadinha premiada. Levei fotos do jardim, colei no mural, colegas passavam, admiravam. Steve Z. perguntou se podia aparecer em casa um dia desses, ver jardim pessoalmente. Isso é novidade: Steve Z. nunca tinha falado oi. Até pediu conselho: onde eu tinha comprado minha Raspadinha premiada, quantas raspadinhas eu costumava comprar, Greenaway = empresa conceituada?

Vergonha de admitir quanto isso me deixou feliz.

Na hora do almoço, fui ao shopping, comprei quatro camisas novas. Piada que corria na firma: eu só tinha duas camisas. Não era bem assim. Mas tinha três camisas azuis parecidas e duas amarelas idênticas. Daí a confusão. Geralmente não compro roupas para mim mesmo. Sempre achei que era mais importante as crianças terem roupas novas, isto é, não queria outras crianças dizendo que meus filhos só têm duas camisas etc. etc. Quanto a Pam, Pam linda, criada c/ dinheiro. Não vou querer essa beldade que já foi rica vestindo sempre mesmas roupas, pensando: quando eu era jovem, tinha tantas roupas, mas agora, devido a ele (i. e., eu), fiquei malvestida.

Correção: Pam não nasceu rica. Pai de Pam = fazendeiro em cidade pequena. Tinha maior fazenda nos arredores de cidade pequena. Então, em comparação com garotas de fazendas menores e mais pobres, Pam = garota rica. Se mesma fazenda perto de cidade maior, fazenda apenas média, mas não: cidade tão pequena, fazenda modesta = grande propriedade.

Seja como for, Pam merece o melhor.

No caminho para casa, parei na loja onde tinha comprado Raspadinha premiada. Comprei Raspadinha mais quatro Butterfingers. Pensei nos velhos tempos de vacas magras, quando, com risível camisa velha, me sentia mal/culpado comprando um Butterfinger só.

O sujeito atrás do balcão se lembrou de mim, disse: Ei, sr. Raspadinha, sr. Sorte Grande!

Todo mundo na loja olhou. Acenei com os Butterfingers, dois em cada mão, como cetros, minicetros, e saí me sentindo feliz.

Por que feliz?

Legal vencer, ser vencedor, ser conhecido como vencedor.

Voltei para casa, dei volta para espiar o jardim. Jardim estupendo: peixes vagando perto dos lírios flutuantes, abelhas zumbindo em torno das rosas, SGs com aventais brancos limpinhos, feixe de sol atravessando gramado, ciscos de poeira elevando-se c/ sensação preguiçosa de fim de verão, equipe do LifeStyleServices (i. e., pessoal da Greenway que vem 3x/dia dar água/comida para SGs, levar SGs ao banheirinho no fundo da van, tratar de problemas femininos etc. etc.) trabalhando duro no jardim.

Moça da Greenway: É meio mágico aqui atrás.

Em casa dou com Leslie Torrini (!). Isso = um espanto. Leslie nunca pisou aqui antes. Ela diz que gosta do jeito que nossas SGs pendem perto do laguinho, então se refletem no laguinho. Telefona para casa, pede laguinho. Mãe de Leslie chama Leslie de menina mimada, diz que nada de laguinho. Isso = pontos para Lilly. Não é que a gente fica feliz quando alguém não fica feliz. Mas Leslie toda hora está feliz enquanto Lilly não está feliz, então tudo bem se, uma vez na vida, Leslie = um pouquinho triste, enquanto Lilly = nas nuvens?

Meninas vão para jardim, ficam lá um tempão. Pam e eu espiamos. Meninas se entendendo bem? Meninas cochichando nas sombras das árvores, trocando intimidades de meninas, cimentando o status de Lilly como amigona de Leslie? Não dá para dizer. As meninas estão viradas para outro lado.

Chega mãe de Leslie (num BMW). Leslie e mãe de Leslie discutem brevemente s/ laguinho.

Mãe de Leslie: Les, meu amor, você já tem três regatos.

Leslie (cáustica): E um regato é o mesmo que um laguinho, Mamãe?

Leslie e mãe vão embora.

Lilly me dá um beijinho de gratidão no rosto, corre para cima cantando canção alegre.

Estou tão feliz. Sentindo tão sortudo. O que a gente fez para merecer isso? Em parte, sim: sorte. Raspadinha premiada = sorte. Mas, como reza o ditado, sorte = noventa por cento de talento. Ou será preparação? Preparação = noventa por cento de talento? Talento = noventa por cento de sorte? Não lembro direito do ditado. Seja como for, a nosso favor, administramos bem nossa sorte. Nada de ficar maluco, comprar barco, comprar drogas (!), perder as estribeiras, ficar insatisfeito, procurar amantes, ficar metido. Simplesmente olhamos bem para família, detectamos o que membro da família (Lilly) precisava, c/ discrição/humildade garantimos que ela tivesse.

Anotação para mim mesmo: Tentar estender a todas as áreas da vida os sentimentos positivos relacionados com Raspadinha premiada. Ter presença maior no trabalho. Galgar postos (alegremente, c/ sorriso no rosto), conseguir aumento. Ter vida mais saudável, passar a vestir melhor. Aprender violão? Fazer questão de perceber a beleza do mundo? Por que não aprender a respeito de pássaros, flores, árvores, constelações, me tornar verdadeiro cidadão do mundo natural, caminhar pelo bairro c/ crianças, ensinando pacientemente nomes dos pássaros, das flores etc. etc.? Por que não levar as crianças para a Europa? Elas nunca foram. Nunca estiveram nos Alpes, nunca tomaram chocolate quente em café nas montanhas, servido por amável estalajadeiro de cabelos brancos, que acha crianças tão sofisticadas/simpáticas em comparação com habituais crianças ricas/arrogantes da América (que sempre ignoram sua bonita mas aleijada filha de tranças), que mostra trilha secreta até incrível clareira, crianças fazem algazarra na clareira, sentam no gramado com menina bonita e aleijada, dizem mais tarde que foi o dia mais maravilhoso de suas vidas, mantêm contato por e-mail com menina aleijada, providenciamos cirurgia aqui para ela, cirurgião tão comovido que concorda em fazer cirurgia de graça, ela está na primeira página do nosso jornal, e nós na primeira página do jornal deles nos Alpes?

Haha.

Feliz, só isso.

Daí essas especulações fantasiosas.

(Na verdade, eu mesmo nunca estive na Europa. Papai achava porções lá pequenas demais. Então Papai perdeu emprego, virou entregador de jornais, tamanho da porção = questão controversa.)

Andei pela vida feito sonâmbulo, futuro leitor. Agora consigo ver isso. Raspadinha premiada foi como toque de despertar. Correndo me formar na faculdade, conquistar Pam, arrumar emprego, fazer filhos, ser promovido no trabalho, esqueci antigo sentimento de destino especial que costumava ter quando pequeno, sentado dentro do armário do quarto, que cheirava a cedro, contemplando as árvores ao vento através dos janelões, sentindo que um dia eu faria alguma coisa grande.

Sendo assim, resolvo viver a vida de um jeito novo e poderoso, começando NESTE MOMENTO (!)

 

(23 de set.)

Eva está sendo um aborrecimento.

Como já devo ter mencionado acima, Eva = sensível. Isso é bom, Pam e eu achamos: isso = sinal de inteligência. Mas Eva parece, de algum modo, ter adquirido a convicção de que sensibilidade = modo eficaz de chamar atenção, i. e., desenvolveu tendência a se afastar dos outros, possivelmente como modo de se distinguir, isto é, se destacar como melhor e mais refinada do que os outros? Em outros tempos, ela se recusou a comer carne, sentar em assentos de couro, usar garfos de plástico fabricados na China. É bem encantador quando é criancinha que faz. Mas Eva está crescida agora, será que essa tendência a objetar por princípio não começa a soar um pouco afetada + se tornar a base de como ela vê a si própria?

Vida familiar em nossa época às vezes parece jogo de Bata na Toupeira, futuro leitor. Gerações futuras ainda têm isso? Toupeira de plástico emerge, você acerta com martelo, ela morre, cai, outra emerge, você martela, mata? Parece jogo estranho/violento para você, futuro leitor? Que talvez nem precisa mais comer para viver? Só levitam o dia todo, sorrindo afetuosamente uns para os outros? Às vezes parece que é um filho ficar feliz para outro “saltar da toca”, isto é, registrar queixa, obrigando pai ou mãe a “martelar” filho, isto é, lidar com queixa.

Ao que parece, agora é a vez da Eva.

Hoje professora dela, sra. Ross, mandou recado para casa: Eva anda fazendo cena. Eva embirrada, Eva bateu o pé, Eva atirou pote de comida de peixe em John M. quando John M. disse que era a vez dele de dar comida a peixe. Eva não é assim, diz a sra. R.: Eva garota mais doce e amorosa da classe.

Além disso, trabalhos de artes de Eva ficaram estranhos ultimamente.

Amostra de trabalho de artes estranho anexado:

Casa típica. (Dá para ver que é a nossa casa por causa do arremedo de cerejeira = turbilhão cor-de-rosa.) No jardim, SGs com expressão carrancuda. Uma delas (“Betty”) pensando no balão de história em quadrinhos: AFE! COMO ISSO MAXUCA . A segunda (“Gwen”) aponta dedo longo e ossudo para a casa: GRAÇAS AOS PATRÃO E . A terceira (“Lisa”), com lágrimas rolando pelo rosto:

SE EU FOSSE FIA DOCÊIS ?

Pam: Bem, parece que a coisa não está passando.

Eu: Não está mesmo.

Levei Eva dar volta de carro. Rodamos por Eastridge, Lemon Hills. Mostrei casas c/ SGs. Falei para Eva ir contando. No final, de aprox. 50 casas, 39 tinham.

Eva: Então, só porque todo mundo está fazendo, quer dizer que está certo.

Que fofa. Eva repetindo frase minha, da Pam.

No cruzamento da Waddle Duck, um arranjo de oito SGs: SGs de mãos dadas, belo efeito (como fileira de bonecas recortadas no papel). Todas parecem estar cantando juntas. Três pimpolhos correndo em volta do varal, dois cachorrinhos correndo atrás dos pimpolhos.

Eu: Uau. Isso parece mesmo uma desgraça.

(Eva mordaz, Eva espirituosa. Por isso sempre brinco c/ Eva.)

Eva em silêncio.

Paramos na Sorveteria Fritz’s, pedi banana split, Eva pediu SnowMelt, sentamos no grande crocodilo de madeira, ficamos vendo o sol se pôr.

Eva: Não consigo... não consigo nem entender como elas não morrem.

De repente me ocorreu, c/ pequena sensação de alívio: Eva resiste, em parte, porque não compreende a ciência básica da coisa. Perguntei a Eva se ela pelo menos sabia o que era o Caminho Semplica. Não sabia. Desenhei cabeça humana no guardanapo, expliquei: Lawrence Semplica = médico + sujeito brilhante. Encontrou jeito de passar microfio através do cérebro sem causar danos nem dor. Técnica usa lasers para traçar rota-guia. Microfio atravessa então puxado por fio de seda. Microfio entra por aqui (toquei uma têmpora de Eva), sai por aqui (toquei a outra). É muito suave, não dói, SGs ficam inconscientes durante todo o processo.

Então decidi abrir jogo c/ Eva.

Expliquei: Lilly num momento crítico. No ano que vem, Lilly vai começar o segundo grau. Mamãe e Papai querem que Lilly entre no segundo grau de cabeça erguida, como moça autoconfiante, sentindo que sua família é tão boa/abastada quanto qualquer outra família, jardim dela aprox. no nível dos jardins dos colegas, i. e., não a mixórdia que era antes, i. e., não uma fonte evidente de constrangimento para Lilly.

Isso é pedir muito?

Eva em silêncio.

Dava para ver as engrenagens se movendo em sua cabeça.

Eva era louca por Lilly, era capaz de se pôr na frente de um trem por Lilly.

Então compartilhei c/ Eva história do emprego de verão que eu tive durante colégio, no Señor Tasty’s (restaurante de tacos). Era quente, ensebado, chefe malvado, chefe sempre beliscando bunda da gente com pegador de comida. Quando eu voltava para casa, cabelo sempre completamente engordurado + camisa fedendo a gordura. Hoje em dia nem pensar num emprego daqueles. Mas na época? A bem da verdade eu gostava: flertava com garçonetes, aprontava com outros empregados (escondia pegador de comida do chefe malvado, enfiava revista na cueca para que, quando chefe malvado beliscava minha bunda, não doía, chefe malvado = passado para trás).

Moral da história, disse eu, tudo é relativo. As SGs tiveram até hoje vidas muito diferentes das nossas. Vidas brutais, duras, sem esperança. O que parece assustador/desagradável para nós pode não ser tão assustador/desagradável para elas, isto é, elas viram coisa muito pior.

Eva: Você flertava com garotas?

Eu: Flertava. Não conta pra Mamãe.

Isso produziu um sorrisinho.

Acho que rompi um pouco as resistências de Eva. Espero que sim. De todo modo, contente por ter tentado. Quando Mamãe e Papai se divorciando, Papai me levou para tomar milk-shake e me deu a notícia referente ao divórcio. Sempre grato ao Papai por isso. Era bom saber que ele estava pensando em mim mesmo num momento que deve ter sido triste + sombrio para ele.

Mamãe estava tendo caso com Ted DeWitt, sujeito do trabalho. DeWitt vivia cortejando Mamãe, dizendo que ela estava bonita, dizendo que ela era a única motivação para ele levantar da cama de manhã. Mamãe nada acostumada com aquilo. Papai amava Mamãe. Mas Papai era lacônico. Papai não era de ficar tagarelando sobre seu amor. Papai amava de um jeito silencioso, constante. Para o décimo aniversário de casamento deles, Papai comprou para Mamãe lixadeira elétrica (!). Apelido carinhoso que Papai usava para Mamãe = Esticada. (Mamãe era alta.) Papai costumava brincar dizendo que Mamãe parecia garotão comprido. Entrava às vezes na cozinha e fazia de conta que tomava susto com presença de garotão comprido do lado da pia. Mamãe, fascinada por DeWitt, começou a dar escapadas a hotel com DeWitt, apaixonou-se por DeWitt. (Não sabia de nada disso na época. Só descobri anos depois, quando Papai, no fim da vida, me contou tudo.)

Quando Irmã Dolores tomou conhecimento do divórcio, reteve alunos na hora do recreio, fez para classe grande discurso sobre divórcio = pecado mortal, vida após a morte sem moleza para gente divorciada, obrigou classe toda a rezar por almas de Mamãe e Papai. Todo mundo me encarando, daquele jeito: por sua causa ficamos sem recreio.

Doeu muito, a coisa toda.

Ainda dói.

Daí meu foco em ser bom pai/marido, proporcionando base estável para crianças.

Discuti situação de Eva c/ Pam esta noite. Pam, como de costume, deu conselho sensato: Vá devagar, seja paciente, Eva é brilhante, Eva é esperta. Mais um mês e Eva adaptada, esqueceu tudo aquilo, voltou a ser menina alegre.

Amo Pam.

Pam minha rocha.

 

(30 de set.)

Desculpem pelo silêncio.

Coisa maluca aconteceu esta semana.

Segunda-feira morreu Todd Grassberger (!).

Futuros leitores conhecem Todd? Eu mencionei? Provavelmente não. Todd não era amigo próximo. Só colega de trabalho. Todd e eu fazíamos piada sobre eu nunca ter devolvido cabo de fire-wire emprestado. Na verdade, era cabo da empresa, não dele. Ele sabia, eu sabia que ele sabia. Era só nossa piada.

O dia começou ótimo. Lindo dia de verão indiano. Treinamento de incêndio pela manhã. Todo o complexo empresarial evacuado para pátio externo. Dia tão lindo, ninguém se incomodou. Todo mundo esticado em cima das muretas, trocando recomendações. Engraçado ver gente de diferentes empresas. Como ver membros de tribos diversas. NabroMax = nerds, calculando temperatura necessária para destruir, pelo fogo, complexo inteiro. Oorjd = firma de design. Tem muitos hippies, as garotas mais bonitas. Muitos caras da Oorjd deitados de costas nas muretas, contemplando as nuvens. Um sujeito tocando flauta doce.

Quando soou sirene, todo mundo vaiou, todos tristes em fila de volta para dentro.

Então, às duas, notícia se espalhou pelo escritório: Todd morreu. Ataque cardíaco na lavanderia (!), agorinha mesmo, na hora do almoço.

Tarde toda, ninguém trabalhou. Todo mundo chocado, andando de um lado para o outro, tentando absorver fato de que Todd = morto. Embaixo da mesa de Todd: par de botas de trilha. Apoiado na parede: bastão de caminhada usado por Todd em caminhadas pelo bosque na hora do almoço.

Estranha chuva com sol por volta das três.

Linda Hertney: É como uma última despedida de Todd. (Linda = maluca. Uma vez sustentou que corvo em parapeito era reencarnação de seu finado marido. Disse que sabia disso pelo jeito como cabeça do corvo estava inclinada de modo recriminador para volumoso almoço que ela estava comendo.)

Então caiu tempestade, estacionamento brilhando.

Noite toda me vi olhando sem parar para Pam, crianças. De repente tudo era precioso. Disse oração antes do jantar. Geralmente não rezo antes do jantar. Mas esta noite demos as mãos, rezamos. Rezamos que seríamos gratos por nossa boa sorte, gratos uns pelos outros. Rezamos que iríamos nos lembrar de que os vários altos/baixos que podemos enfrentar como família = pequenos tropeços comparados com isto.

Rezamos por Todd, rezamos pela família de Todd.

Outra noite mesmo Todd estava em casa, fazendo o que costumava fazer à noite: tirando moedas dos bolsos, rindo com filhos, brincando com cachorro, pensando no futuro, atirando roupa suja no cesto.

Onde estará Todd esta noite (?!).

 

(1o de out.)

Funeral de Todd Grassberger hoje na igreja ucraniana no centro da cidade.

Ao que parece, Todd de origem humilde.

Padre = cabeludo de batina. Canta/declama toda a missa, em ucraniano, de cor. À medida que ele canta/caminha, corda da batina balança. Sujeito assustador. Muito intenso. Sermão: Por que a surpresa? Vocês achavam que iriam viver para sempre? Única diferença entre vocês, sentados aí antecipando o repouso da sua hora, e Todd, no caixão, a caminho do lar eterno na terra fria? As batidas do coração. Sentem isso, pessoal? No peito? É a linha tênue entre vocês e o túmulo. Então por que vocês vivem como se fossem eternos? Que tolice, como vocês são tolos. Isso é assustador? Não, não é assustador! É a verdade, é a realidade!

Gritos: Vamos despertar? Vamos?

Todo mundo encarando padre de olhos arregalados. Exceto fiéis habituais, que parecem já ter ouvido tudo isso antes.

Padre prossegue: Quais de nós morrerão esta noite? Será que achamos que ele está gracejando? Isso mostra que somos uns bocós. Qualquer um de nós poderia morrer esta noite, morrer agora mesmo, de repente ficar sem ar, tombar sobre o banco da igreja, juntar-se a Todd debaixo da terra num piscar de olhos.

De repente, da cozinha no porão: cheiro de rosbife. Tagarelice alegre das mulheres da igreja lá na cozinha. Cheiro de rosbife + som de panelas, de pratos sendo postos na mesa = convidativo.

Pessoas inquietas nos bancos devido a incrível cheiro de rosbife.

Dois irmãos de Todd sobem ao púlpito, fazem homenagens.

Irmão mais velho: Todd bondoso, Todd divertido, Todd uma poderosa força em sua vida. Nunca vai esquecer a maravilha que era Todd. Irmão mais novo: Sim, Todd pessoa superforte, Todd = touro. Embora Todd pudesse ser um tanto duro, Todd fez muito bem ao irmão mais novo, a longo prazo, ensinando-lhe como se defender por conta própria. Vale dizer, tendo sido atazanado por Todd ao longo de toda a infância, nada agora pode importunar irmão mais novo, isto é, nenhum valentão do mundo exterior poderá se equiparar a Todd. Mas Todd tão formidável. Todd o melhor. Todd tão esperto, tão bonito, não admira que mãe de Todd + pai de Todd sempre tivessem deixado a ele (irmão mais novo) em segundo plano. Mas Todd tão atencioso, tão perspicaz, Todd compreendia isso, às vezes consolava irmão mais novo dizendo que ele (irmão mais novo) era ótimo a seu modo, geralmente pouco antes de romper o acordo entre eles segundo o qual a noite de quarta-feira era a vez de o irmão mais novo pegar emprestado o carro do pai, arruinando desse modo a chance do irmão mais novo de sair com garota de quem ele gostava de verdade, possivelmente o amor da sua vida, garota que ele acabou perdendo para um babaca de Selden, babaca cujo próprio irmão mais velho aparentemente era mais inclinado que Todd a dar uma boa oportunidade ao irmão mais novo no carro da família.

Irmão mais novo de Todd, sem fôlego, faz pausa no púlpito. Parece que não consegue se conter.

Vai em frente.

Mas Todd formidável, Todd tão formidável que certamente deixará saudade. Todd ensinou a todos na família lição importante: mesmo que pessoa possa ser forte, belicosa, ambiciosa, levemente cega às necessidades dos outros, isso não significa que pessoa não é mais formidável, mais incrível irmão que, ocasionalmente, como que a despeito de si próprio, surpreendendo a todos, faz alguma coisa razoavelmente prestável.

Irmão mais novo, aparentemente perplexo com seu próprio tributo, em seguida apeado do púlpito por irmão mais velho de cara feia chiando em voz baixa.

Viúva de Todd sobe ao púlpito. Parece que não consegue falar. Três garotinhas se agarram à sua saia. Viúva passa microfone para garota menor.

Garota menor: Tchau, Papai.

Almoço bom. Almoço mais do que bom. Funeral tão triste, almoço = paraíso. Como três sanduíches de rosbife seguidos em prato de papel. Do lado de fora, árvore amarela balança ao vento. Folha amarela solitária entra voando pela janela aberta do porão. Observo-a descer, aterrissar perto do meu sapato.

Penso: Vida bela.

Tão feliz por não estar morto.

Se/quando eu morrer, não quero Pam sozinha. Quero que case de novo, tenha vida plena. Contanto que seu novo marido seja cara legal. Cara amável. Cara religioso. Muito atencioso + bom para crianças. Mas crianças não se deixam enganar. Crianças preferem pai morto (i.e., eu) ao cara religioso. Pálido, maçante cara religioso, sem carisma, que veste suéteres bizarros e está sempre um pouco tristonho, devido não consegue ter ereção, devido problema físico.

Haha.

Morte muito presente em minha mente esta noite, futuro leitor. Como pode ser verdade? Que eu vou morrer? Que Pam, crianças vão morrer? É horrível. Por que fomos colocados aqui, tão propensos ao amor, se final da nossa história = morte? Isso é duro. É cruel. Não gosto.

Anotação para mim mesmo: tentar com mais afinco, em todas as coisas, ser pessoa melhor.

Em casa, reuni crianças. Pedi a elas que se juntassem a mim em nova resolução. Disse crianças vida é curta, devemos fazer com que cada momento tenha importância, viver cada dia como se fosse o último. Se elas têm sonho, devem realizá-lo. Se têm vontade de tentar alguma coisa, que tentem. Prometem? Se cometi um erro na vida, foi ser passivo demais. Não quero que meus filhos cometam mesmo erro. Devem ousar, batalhar, ter coragem. O que é o pior que pode acontecer? Serão conhecidos como inovadores, heróis, profetas (!). Paul Revere por acaso era tímido, Edison era cauteloso, Jesus era cheio de mesuras? No final da vida, não vão se arrepender do que fizeram, mas sim do que deixaram de fazer.

Em seguida, hora de dormir. Hora de dormir às vezes conturbada: Pam, cansada de longo dia com crianças, às vezes perde paciência com crianças c/ mínima resistência. Crianças, cansadas da escola, às vezes ficam impertinentes com Pam ao primeiro sinal de Pam perdendo paciência. Às vezes hora do boa-noite = crianças no alto da escada gritando para baixo, Pam no pé da escada gritando para cima. Às vezes livro ou sapato desce voando e passa zumbindo por Pam.

Esta noite, porém, hora de dormir tranquila. Crianças, sentindo sinceridade das minhas palavras a respeito da morte, sobem em silêncio. Thomas corre de volta para me dar abraço, Eva me lança longo olhar (de admiração?) do alto da escada.

Crianças tão queridas.

Um dos prazeres criar filhos, futuro leitor: pai ou mãe pode influenciar positivamente filho(a), proporcionar momento que filho(a) vai lembrar pelo resto da vida, momento que altera trajetória dele/dela, abre coração + mente dele/dela.

 

(2 de out.)

Merda.

Porra.

Família atingida por raio absolutamente inesperado, futuro leitor.

Explico.

Esta manhã, Thomas e Lilly sentados sonolentos à mesa, Eva ainda na cama, Pam fazendo ovos, Ferber aos pés dela, esperando cair pedaço de comida. Thomas, comendo pão bagel, vai até janela.

Thomas: Uau. Que diabo? Pai? É melhor você vir olhar.

Vou até a janela.

SG s sumiram.

Completamente (!).

Corro para fora. Varal vazio. Microfio desaparecido. Portão aberto. Corro meio freneticamente quadra acima, em busca de algum sinal delas.

Nada.

Corro de volta para dentro. Telefono para Greenway, telefono para polícia. Policiais chegam, vasculham jardim. Policial me mostra marca de polia de microfio no barro perto do portão. Diz que é boa notícia: com o microfio ainda dentro delas, mais fácil localizar SGs, visto microfio limita velocidade com que podem caminhar, já que, fugindo em grupo, ligadas cabeça a cabeça pelo microfio, são obrigadas a dar passos miúdos, de modo que uma não possa ficar atrás/à frente das outras, causando puxão brusco do microfio, puxão que poderia danificar cérebro da atingida.

Outro policial diz que sim, seria esse o caso se SGs a pé. Mas, fala sério, diz ele, SGs não a pé, SGs em van de ativistas em algum lugar, dando risada de nós.

Eu: Ativistas?

Primeiro policial: É, você sabe: Women4Women, Cidadãos pela Paridade Econômica, Apodreça no Inferno Semplica.

Segundo policial: Quarto incidente este mês.

Primeiro policial: Essas garotas não desceram sozinhas.

Eu: Por que elas fariam uma coisa dessas? Elas escolheram estar aqui. Por que iriam se mandar com algum completo...

Policiais riem.

Primeiro policial: Farejando o tal sonho americano, baby.

Crianças mais do que agitadas. Crianças amontoadas perto da cerca.

Ônibus da escola vem e vai.

Chega representante da Greenway (Rob). Rob = alto, magro, curvado. Parece um arco de atirar flecha, se arco de atirar flecha tivesse orelha furada + cabelo comprido de pirata e vestisse coletinho de couro.

Rob solta imediatamente a bomba: diz que lamenta ser um tanto duro neste momento de infortúnio, mas é obrigado legalmente a nos informar que, de acordo c/ nosso contrato c/ Greenway, se SGs não forem encontradas no prazo de três semanas, ficaremos responsáveis por pagamento integral do necessário Débito de Reposição.

Pam: Espere aí, do o quê?

Segundo Rob, Débito de Reposição = US$ 100/mês, por indivíduo, referentes a cada mês ainda restante em seu contrato c/ Greenway no momento da perda (!). Betty (21 meses restantes) = US$ 2.100; Tami (13 meses) = US$ 1.300; Gwen (18 meses) = US$ 1.800; Lisa (34 meses (!)) = US$ 3.400.

Total = US$ 2.100 + US$ 1.300 + US$ 1.800 + US$ 3.400 = US$ 8.600.

Pam: Putaquepariu.

Rob: Acreditem, eu sei, é um dinheirão, eu sou originalmente um cantor e compositor, ok? Mas a nossa posição num caso desses — ou melhor, a posição deles, da Greenway, é a de que nós — ou eles — fizeram um investimento inicial e, vejam bem, obviamente, isso não foi barato, em termos de vistos, passagens aéreas e tudo mais?

Pam: Ninguém nos falou nada a respeito disso.

Eu: Nadinha.

Rob: Ahn. Quem foi mesmo que fechou o contrato com vocês?

Eu: Melanie?

Rob: Certo, bem, eu tinha um pressentimento. Com Melanie, Melanie às vezes precipitava as coisas para fechar logo o negócio. Especialmente com gente do Grupo A, que é antes de tudo cafona. Sem ofensa. Seja como for, foi por isso que ela caiu fora. Se vocês quiserem brigar com ela, vão à Home Depot; ela é a subencarregada do setor de tintas, provavelmente espremendo os miolos para descobrir qual cor é qual.

Fico furioso, me sinto violentado: alguém entrou no jardim na calada da noite, crianças dormindo perto dali, e roubou? Roubou de nós? Roubou US$ 8.600, mais custo inicial das SGs (aprox. US$ 7.400)?

Pam (para policial): Com que frequência vocês as encontram?

Primeiro policial: Quem?

Pam encara policial. (Pam = feroz defendendo família.)

Segundo policial: Honestamente? Devo dizer que é muito raro.

Primeiro policial: Para não dizer nunca.

Segundo policial: Bem, até hoje nunca.

Primeiro policial: Certo. Mas sempre tem uma primeira vez.

Policiais vão embora.

Pam (para Rob): E o que acontece se não pagarmos?

Eu: Não temos como pagar.

Rob desconfortável, Rob ficando vermelho.

Rob: Bem, isso seria uma questão para o Jurídico.

Pam: Vocês nos processariam?

Rob: Eu não. Eles processariam. Quero dizer, é o que eles fazem. Eles — qual é mesmo a palavra? —, eles arrastam suas...

Pam (bruscamente): Arrestam.

Rob: Sinto muito. Sinto muito por tudo isso. Ah, Melanie, vou torcer o seu pescoço usando essa sua estúpida trança. Brincadeira, eu nunca nem falo com ela. Mas o fato é o seguinte: tudo isso está no contrato de vocês. Vocês leram o contrato, certo?

Silêncio.

Eu: Bom, a gente estava meio na correria. Estávamos preparando uma festa.

Rob: Ah, claro, eu me lembro dessa festa. Foi uma festa e tanto. Todos nós comentamos o assunto.

Rob vai embora.

Pam lívida.

Pam: Quer saber? Fodam-se. Que processem. Não vou pagar. Isso é obsceno. Podem ficar com a droga da casa.

Lilly: A gente vai perder a casa?

Eu: A gente não vai perder a...

Pam: Você acha mesmo? O que você acha que acontece se você deve nove paus pra alguém e não pode pagar? Suspeito que a gente vai perder a casa.

Eu: Olha, vamos nos acalmar, também não precisamos...

Lábio inferior de Eva apontando no jeito pré-choro. Eu penso: ah, ótimo, que pais formidáveis, discutindo + falando palavrão + invocando fantasma da perda da casa na frente de menina tensa ao extremo já aturdida pelos acontecimentos perturbadores do dia.

Então Eva cai no choro, começa a murmurar perdão perdão perdão.

Pam: Oh, meu bem, eu estava sendo uma boba, não vamos perder a casa. A Mamãe e o Papai nunca vão deixar que isso...

Uma luz se acende na minha cabeça.

Eu: Eva. Você não fez isso.

Expressão nos olhos de Eva diz: Eu fiz.

Pam: Fez o quê?

Thomas: A Eva fez isso?

Lilly: Como é que a Eva pode fazer uma coisa dessas? Ela só tem oito anos. Não posso nem imaginar...

Eva nos leva para fora, nos mostra como fez a coisa: Arrastou escadinha, subiu escadinha junto a uma das pontas do microfio, soltou alavanca UsoFácil esquerda, microfio pendeu frouxo. Então Eva arrastou escadinha para outro lado, soltou alavanca UsoFácil direita. A essa altura, microfio completamente solto, SG s de pé no chão.

SG s confabulam rapidamente.

E lá vão elas, livres.

Fico furioso. Eva fez tremenda bagunça aqui. Tremenda bagunça para nós, claro, mas também para SGs. Onde estão elas agora? Num bom lugar? Por acaso é bom quando fugitivas ilegais em terra estranha não têm dinheiro, nem comida, nem água, e são obrigadas a se esconder no mato, no pântano etc., conectadas por microfio como turma de detentos acorrentados uns aos outros? Quanto a Thomas e Lilly, acham divertido passar a perna nos pais? Lembro de como Thomas foi até janela, fingiu grande surpresa com sumiço de SGs. Thomas = traiçoeiro nojento. Quanto a Lilly: Fizemos tanto pelo aniversário dela, e é assim que ela agradece?

Fervendo de raiva. Sem perceber falo em voz alta pensamentos acima.

As crianças ficam estupefatas. Nunca me viram tão bravo.

Thomas: Papai, a gente não sabia!

Lilly: Não sabíamos mesmo, sinceramente!

Thomas, puxando o próprio cabelo, corre para fora. Lilly cai no choro, sai da sala batendo o pé, puxando Eva (aturdida) pela mão.

Eva (abatida, para mim): Mas você falou, você falou aquilo, aquela coisa de ser valente...

Anotação para futuras gerações: às vezes, em nossa época, famílias entram em zona sombria. Família sente: somos perdedores, tudo o que fazemos dá errado. Pais brigam em altos brados, culpando um ao outro por situação desastrosa. Pai chuta parede, faz buraco na parede perto geladeira, família pula almoço. Tensão elevada demais para todos sentarem mesma mesa. Isso intolerável. Isso faz a pessoa (pai) pôr em dúvida valor de empreendimento, i. e., faz pai (eu) se perguntar se não seria melhor humanos viverem sozinhos, individualmente, no mato, cuidando da própria vida, sem amar ninguém.

Hoje dia assim para nós.

Me precipitei para garagem. Estúpida mancha de esquilo/camundongo ainda lá depois de todas essas semanas. Decidi enfrentar mancha de uma vez por todas. Usei alvejante + mangueira para erradicar. Na calma que se seguiu, sentado no carrinho de mão, tive que rir da situação. Raspadinha premiada, maior golpe de sorte da vida, logo convertido em maior fiasco da vida.

Riso se transformou em lágrimas.

Péssimo por coisas duras que tinha acabado de dizer às crianças.

Pam saiu, perguntou se eu estava chorando. Disse não, era só poeira que tinha entrado nos olhos durante limpeza da garagem. Pam não acreditou. Pam me deu pequeno abraço de lado + cutucão no quadril, para dizer: Você estava chorando, tudo bem, é um momento difícil, eu sei.

Pam: Vamos para dentro. Vamos fazer as coisas voltarem ao normal. A gente vai superar isso. As crianças estão arrasadas, sentindo-se péssimas.

Entramos.

Crianças na mesa da cozinha.

Dava para ver nos olhos que estavam ansiosas para perdoar e ser perdoadas. Lilly e Thomas não sabiam. Disse que sabia que eles não sabiam, não sei por que tinha dito que achava que sabiam.

Abri braços, Thomas e Lilly correram para mim.

Eva permaneceu sentada.

Quando Eva pequenininha, tinha cabeleira de cachos pretos. Ficava em pé no sofá, comendo cereais na caneca de café, dançando com música dentro da cabeça, balançando cordinha das persianas.

Agora isto: Eva sentada c/ cabeça entre mãos, como velha senhora de coração partido, pranteando perda de doce pássaro da juventude etc. etc.

Me aproximei, ergui Eva da cadeira.

Pobrezinha tremendo nos meus braços.

Eva (sussurrando): Eu não sabia que a gente ia perder a casa.

Eu: A gente não vai. Não vai perder a casa. Mamãe e eu vamos dar um jeito.

Mandei crianças ver TV.

Pam: Então. Quer que eu ligue para o meu pai?

Eu não queria Pam ligando para pai de Pam.

Primeiro nome do Pai de Pam = Rich. Na verdade, chama a si próprio de “Fazendeiro Rich”. Engraçado porque ele é, justamente, fazendeiro rico. Fazendeiro Rich = muito rico + muito severo. Quanto a mim, não gosta de mim. Disse várias vezes que eu: 1) não sou trabalhador esforçado e 2) devia cuidar melhor do meu peso e 3) devia cuidar melhor dos meus cartões de crédito.

Fazendeiro Rich em ótima forma, sem cartões de crédito.

Fazendeiro Rich não é fã de SGs. Despejou sermão em todo mundo no último Natal: acha que ter SGs = “atitude exibicionista”. Acha qualquer coisa divertida = “atitude exibicionista”. Até mesmo ir ao cinema = atitude exibicionista. Levar carro para lavar, i.e., não lavar por conta própria, na garagem = atitude exibicionista. Uma vez, em visita, me olhou de jeito dúbio quando eu disse que tinha que fazer tratamento de canal. O quê?, pensei, tratamento de canal = atitude exibicionista? Mas não: só desaprovava dentista que eu tinha escolhido, devido tinha visto comercial de dentista na TV, achava que dentista ter comercial de TV = atitude exibicionista.

Portanto não queria Pam ligando para Fazendeiro Rich.

Digo a Pam que devemos fazer o máximo para lidar com situação por nossa própria conta.

Pegamos faturas, fizemos simulação de pagamento: Se pagássemos hipoteca, conta de aquecimento, AmEx, mais US$ 200 em contas atrasadas, ficaríamos próximos de zero (sobrando US$ 12,78). Se deixássemos de pagar AmEx + Visa, isso nos liberaria US$ 880. Se, além disso, adiássemos pagamento da hipoteca, da conta da NiMo, do seguro de vida, ainda assim só conseguiríamos liberar total de míseros US$ 3.100.

Eu: Merda.

Pam: E se eu mandar um e-mail para ele? Você sabe. Só para ver o que ele diz.

Pam em cima mandando e-mail para Fazendeiro Rich enquanto escrevo.

 

(6 de out.)

Vou pular descrição do trabalho. Trabalho não é importante agora. Quando cheguei em casa, Pam de pé na entrada c/ e-mail do Fazendeiro Rich.

Fazendeiro Rich = filho da mãe.

Vou transcrever uma parte:

Vamos falar agora sobre o que vocês pretendem fazer com o dinheiro pedido. Vão guardar num fundo para os estudos universitários? Não vão. Vão investir em imóveis? Não. Tendo recebido a chance de plantar algumas sementes, vocês jogaram essas sementes valiosas (dólares) no ralo. E para quê? Para um espetáculo que alguns acham bonito. Bom, eu não acho bonito. Vejo os jovens aqui fazendo a mesma coisa. Velhos também. E é tão sem sentido aqui como aí. Desde quando gente posta em exibição é uma visão desejável? Outros aqui são benfeitores na nossa igreja e mencionam condições de pobreza. Ok, isso é ótimo. Mas ao que parece vocês logo terão uma situação de pobreza dentro da sua própria casa. E “médico, cura a ti mesmo” é um lema do qual sempre me lembro quando sou tentado a meter meu bedelho em alguma causa social ou de outro tipo. Se bem que eu não sou contra deixar de quando em quando um pernil no nosso lar de mulheres violentadas. Então vou dizer não. Vocês se puseram sozinhos numa enrascada e agora devem sair dela sozinhos, ensinando a seus filhos (e a vocês mesmos) uma valiosa lição da qual, a longo prazo, vocês e os seus vão se beneficiar.

Eu: Putz!

Pam ligou para Fazendeiro Rich, implorou a Fazendeiro Rich. Fazendeiro Rich esculachou Pam no telefone por causa dinheiro, por causa toda nossa história com dinheiro, i.e., toda nossa postura de vida = desperdício. Fazendeiro Rich disse para não pedirmos de novo. Tínhamos despencado no seu conceito devido a movimento inicial estúpido + subsequente demonstração desesperada de soberba na tentativa de retificar o movimento inicial estúpido de maneira idiota.

Então isso = isso.

Longo silêncio.

Pam: Santo Deus. Isso não é a nossa cara?

Não sei o que ela quer dizer. Ou melhor, sei, mas não concordo. Ou melhor, concordo, mas preferia que ela não dissesse. Por que dizer? Dizer é negativo, faz com que a gente se sinta mal.

Digo que talvez devamos simplesmente confessar o que Eva fez, e esperar pela misericórdia da Greenway.

Pam diz que não, não, não: pesquisou na internet hoje: libertar SGs = delito grave (!). Não acha que eles processariam menina de oito anos, mas mesmo assim... Se confessarmos, isso vai para ficha de Eva? Eva obrigada a fazer acompanhamento psicológico? Isso vai para ficha? Eva pensa: Sou menina má? Começa a reforçar lado mau, zanzar com delinquentes, desconfiando de toda noção de ação produtiva, não desenvolve todo o potencial, tudo por causa de erro que cometeu quando criança?

Não.

Não dá para arriscar.

Pam e eu discutimos, concordamos: temos que ser como devoradores de pecados que, em tempos antigos, comiam pecados. Ou corpos dos pecadores? Comiam corpos dos pecadores que tinham morrido? Não lembro exatamente o que devoradores de pecados faziam. Mas Pam e eu concordamos: seremos como devoradores de pecados no sentido de: faremos tudo para proteger Eva, deixar policiais por fora a todo custo, violaremos lei se preciso.

Pam me pergunta: ainda estou escrevendo em caderno? Caderno não é = documento legal? Escrevi em caderno sobre Eva, sobre papel de Eva nos acontecimentos? Caderno não pode ser prova de culpa de obstrução da justiça? Eles não podem intimar caderno? Será que eu não deveria parar de escrever no caderno, expurgar de páginas comprometedoras? Esconder caderno? Jogar em buraco que abri na parede com chute outro dia? Melhor ainda: destruir caderno?

Digo a Pam que adoro escrever no caderno, não quero parar de escrever, destruir caderno.

Pam: Bom, isso é com você. Mas, para mim, não vale a pena.

Pam esperta. Pam excelente juíza de situações. Pensando e repensando no assunto. (Se caderno silenciar, futuro leitor saberá que eu (mais uma vez!) decidi que Pam = certa.)

Meu palpite, minha esperança: policiais têm muitos casos similares, somos peixe pequeno, nosso caso = baixa prioridade, tudo isso vai se dissipar em pouco tempo.

 

(8 de out.)

Errado. Errado de novo. Não está se dissipando.

Explico.

Trabalhei dia todo.

Dia normal e tedioso.

Será que futuro leitor pode imaginar agonia de mourejar em dia normal e tedioso quando tudo o que eu queria era correr para casa, traçar c/ Pam estratégia para situação de Eva, apanhar Eva na escola, dar grande abraço em Eva, dizer a Eva que tudo vai ficar bem, garantir a Eva que, ainda que não aprovemos o que ela fez, ela será sempre nossa menina, será sempre a menina dos nossos olhos?

Mas, nesta vida, papai tem que fazer o que tem que fazer.

Atolado o dia todo.

Depois caminho habitual para casa: zona de revendedoras de carros usados, zona de pedreiras, longa faixa de via expressa com vista para apartamentos ruins c/ roupas no varal, trecho relativamente bucólico com cemitério de pioneiros, antigo shopping center arruinado.

E então nossa casinha + jardim triste e vazio.

Um sujeito em pé no portão dos fundos.

Cheguei perto, conversei com sujeito.

Sujeito = Jerry. É detetive (!) encarregado do nosso caso. Ativistas = alta prioridade para cidade, diz ele, prefeito determinado a emitir sinal forte (!). Diz que sabe que estamos na pior em termos de dinheiro, acha que rábulas da Greenway merecem ser fervidos em óleo. Ele próprio é homem de parcos recursos, diz, é um homem de família, sabe o quanto ficaria perturbado se devesse US$ 8.600 a grande corporação sem rosto. Mas sem motivo para pânico, ele topa a parada. Não vai descansar até encontrar ativistas. Tem ativistas em baixa conta. Será que eles acham que estão fazendo coisa nobre? Não estão. SGs se tornam imigrantes ilegais, tiram empregos de “americanos legítimos”. Jerry é muito contra. Pai de Jerry veio da Irlanda de navio, vomitando travessia toda, depois preencheu formulários exigidos. Isso = jeito certo, acredita Jerry.

Haha, diz ele.

Sorri, enxuga boca.

Jerry é tagarela. Antes de se tornar policial, era professor. Muito contente por não dar aulas mais. Alunos eram moleques malcriados. Mais malcriados a cada ano. Nos últimos anos ele só aguardou a oportunidade, esperando para ser esfaqueado ou baleado por algum moleque. Coisas foram piorando à medida que garotos ficavam mais escuros. Se é que eu entendia o que ele queria dizer. Não tem nada contra gente escura, mas tem sim contra gente escura que se recusa a trabalhar e a aprender direito a língua e prega peças maldosas nos professores. Quando ele era garoto, jamais pensaria em colocar perereca dentro da Diet Coke de um dos professores mais dedicados da escola. Tinha quase certeza escurinho tinha feito aquilo, já que quase todos os seus alunos eram escurinhos. Nunca foi pessoalmente esfaqueado, mas tem certeza de que acabaria sendo, por um ou outro garoto escuro. Para qualquer moleque atrevido o bastante para colocar perereca na bebida do professor, céu é limite, i.e., esfaquear = próximo passo lógico.

Garotos são assim mesmo, digo.

Sim e não, diz Jerry. Garotos = futuros adultos. O que vale para estes tem que valer para aqueles. Uma vez vi um filme sobre filhote de leão criado sem controle: leão cresceu, comeu próprio dono. Por isso, mão firme igualmente importante com garotos.

Jerry ultimamente solitário, diz ele. Esposa morreu recentemente. Não imaginava ela morrendo primeiro. Sempre foi a saudável do casal. Agora ele está meio perdido. Ela sempre foi fiapo de gente, mesmo na melhor forma. Perto do fim, tinha quase sumido. Agora nunca tem pressa de voltar para casa. Casa tão silenciosa desde que ela partiu. Não tem netos, pois nunca teve filhos, já que esposa tinha óvulos problemáticos.

Por isso tinha tempo de sobra para dedicar ao nosso caso.

Alguma coisa não cheira bem aqui, diz Jerry. Não parece serviço típico de ativistas. Ativistas geralmente deixam recado: Apodreça no Inferno Semplica deixa uma bandeira vermelha. Women4Women deixa manifesto + fita gravada com SG s enumerando coisas que família fez para ofendê-las/incomodá-las durante tempo no jardim. Ativistas frequentemente têm médico como parte da equipe, para remover microfios antes de SGs entrarem na van. No entanto, policiais acharam marcas de microfio arrastado perto do portão, indicando que SGs fugiram a pé, ainda com microfio?

Não faz sentido.

Jerry acha que aí tem coisa.

Mas não se preocupe, diz Jerry: ele está aqui “pelo tempo que for preciso”.

Por enquanto, vai sentar no jardim por um tempo. É assim que ele procede às vezes: vai “entrar na cabeça do criminoso”.

Jerry pigarreia, vai capengando para jardim.

Entro em casa. Conto tudo a Pam.

Pam e eu ficamos na janela observando Jerry.

Thomas: Quem é esse?

Eu: Só um sujeito.

Pam: Não vá lá fora. Não converse com ele nem nada.

Lilly: Ele está no nosso jardim e não temos permissão para falar com ele?

Eu: Sim. Isso mesmo.

É quase meia-noite enquanto escrevo. Jerry ainda está no jardim (!). Jerry fumando, Jerry cantarolando de boca fechada a mesma frase musical irritante de quatro notas. Ouço do quarto de hóspedes + sinto cheiro do seu cigarro. Tenho vontade de ir lá, mandar Jerry sair do jardim. Dizer: Jerry, aqui = nosso jardim. Nossos filhos dormindo, têm escola amanhã, se você acordá-los com seu murmúrio vão ter dia duro/sonolento na escola. Além disso, Jerry, não permitimos cigarro dentro ou perto de casa.

Mas não posso.

Não devo indispor Jerry nem de leve.

Meu Deus.

Lar em queda livre, futuro leitor. Tudo caótico. Crianças, percebendo tensão, brigam o dia todo. Depois do jantar, Pam pegou crianças assistindo Eu, Gropius (proibido) = programa em que um sujeito decide com que garota vai sair apalpando seios das candidatas através de biombo com dois buracos. (Não chega a mostrar seios. Só expressões do sujeito ao apalpá-los e expressão da garota enquanto ele apalpa, e depois expressão da garota quando ele anuncia nota. Ainda assim: programa ruim.) Pam se irritou com crianças: Estamos no período mais difícil da história da família, isso é modo de se comportar?

Quando crianças nasceram, Pam e eu deixamos tudo de lado (sonhos juvenis de viagem, aventura etc. etc.) para ser bons pais. Não tem sido vida excitante. Está mais para enfadonha. Muitas noites, com tarefas atrasadas, fiquei acordado até tarde, exausto, fazendo tarefas. Em muitas ocasiões, desgrenhados + cansados, cocô e/ou vômito na nossa camisa ou blusa, um dos dois ficava sorrindo exausto/aborrecido para câmera que o outro segurava, cabelos desarrumados porque corte caro, óculos fora de moda escorregando pelo nariz porque nunca havia tempo para mandar ajustar.

E depois de tudo isso, olhe só em que pé estamos.

É muito azar.

Agora acabo de percorrer o corredor para checar as crianças. Thomas dormindo c/ Ferber. Não é permitido. Eva na cama c/ Lilly. Não é permitido. Eva, origem de toda a confusão, dorme como bebê.

Tive vontade de acordar Eva, dizer a ela que tudo vai acabar bem, ela tem bom coração, só é imatura + confusa.

Não fiz isso.

Eva precisa de repouso.

Na escrivaninha de Lilly: cartaz no qual ela estava trabalhando para “Dia das Coisas Favoritas” na escola. Cartaz = foto de cada SG, mais mapa de país de origem, mais histórias que Lilly aparentemente ouviu durante entrevista (!) com cada uma: Gwen (Moldávia) = muito durona, devido à juventude na Moldávia: usou lençóis ensanguentados encontrados no lixo + fita adesiva de encanamentos para fazer bola de futebol, e então, depois de muita prática com bola de lençol ensanguentado, quase formou equipe olímpica (!). Betty (Filipinas) tem filha que, ao nadar, às vezes cavalga sobre casco de tartaruga marinha. Lisa (Somália) viu uma vez leão sobre teto do caminhãozinho do tio. Tami (Laos) tinha búfalo-asiático de estimação, búfalo-asiático pisou no seu pé, agora Tami precisa usar sapato especial. “Curiosidade”: nomes delas (Betty, Tami et al.) não são nomes verdadeiros. Esses = nomes SG, dados pela Greenway na chegada. “Tami” = Januka = “raio alegre de sol”. “Betty” = Nenita = “abençoada-amada”. “Gwen” = Evgenia. (Não sabe o que esse nome significa.) “Lisa” = Ayan = “viajante feliz”.

SG s não saem da minha cabeça esta noite, futuro leitor.

Onde elas estão agora? Para onde foram?

Simplesmente não entendo.

Vem carta, família comemora, garota derrama lágrimas, arruma estoicamente mala, pensa: preciso ir, sou única esperança da família. Faz cara de corajosa, promete que vai voltar tão logo acabe o contrato. Sua mãe sente, seu pai sente: não podemos deixá-la ir. Mas deixam. Precisam deixar.

Cidade inteira acompanha garota até estação de trem/rodoviária/embarcadouro? Grupo segue em van de cores brilhantes até minúsculo aeroporto regional? Mais lágrimas, mais juras. Enquanto trem/balsa/avião se afasta, ela lança último olhar amoroso para montanhas/rio/mina/cabanas, o que for, i.e., tudo o que ela conheceu até então no mundo, dizendo a si mesma: não tenha medo, você vai voltar, & voltar em triunfo, c/ grande sacola de presentes etc. etc.

E agora?

Sem dinheiro, sem documentos. Quem vai remover microfio? Quem vai lhe dar emprego? Quando for procurar trabalho, precisará arranjar cabelo de modo a cobrir cicatrizes dos Pontos de Inserção. Quando tornará a ver sua casa + família de novo? E por que o faria? Por que teria arruinado tudo, deixando nosso jardim? Podia ter passado boa temporada conosco. O que ela estava buscando neste mundo de Deus? O que ela podia querer tanto que a fez embarcar nessa aventura desesperada?

Jerry acabou de encerrar expediente.

No jardim, armação vazia do varal, parecendo estranha à luz da lua.

Anotação para mim mesmo: ligar para Greenway, mandar levar coisa feia embora.