Dez de Dezembro
Filhote
Marie já havia chamado a atenção duas vezes para o esplendor do sol outonal sobre o milharal perfeito, porque o esplendor do sol outonal sobre o milharal perfeito a fazia pensar numa casa mal-assombrada — não numa casa mal-assombrada que ela tivesse visto de verdade alguma vez, mas na casa mítica que às vezes aparecia em sua mente (com o cemitério adjacente e o gato sobre uma cerca) toda vez que ela via o esplendor do sol outonal sobre o milharal etc. etc. — e ela queria ter certeza de que, se as crianças tivessem uma mítica casa mal-assombrada que aparecia em suas mentes sempre que elas viam o esplendor do etc. etc., ela seria evocada agora, de modo que eles todos poderiam viver a experiência juntos, como amigos, como amigos de faculdade numa viagem de carro, só que sem maconha, hahaha!
Mas não. Quando ela, pela terceira vez, disse, “Uau, pessoal, vejam só isso”, Abbie disse, “Ok, Mãe, já entendemos, é milho”, e Josh disse, “Agora não, Mãe, estou fermentando meus pães”, o que para ela tudo bem; não via problema algum nisso, pois Padeiro Nobre era preferível a Recheador de Sutiã, o jogo que ele tinha pedido.
Ora, quem poderia dizer? Talvez eles não tivessem nenhuma vinheta mítica na cabeça. Ou talvez as vinhetas míticas que tinham na cabeça fossem totalmente diferentes das que ela própria tinha na dela. E essa era a beleza da coisa, pois, afinal, eles eram crias de si próprios! Ela era meramente uma zeladora. Eles não precisavam sentir o que ela sentia; tinham apenas que receber apoio naquilo que sentissem, fosse o que fosse.
Ainda assim, uau, aquele milharal era um clássico e tanto.
“Sabe, toda vez que vejo um campo como este, pessoal”, disse ela, “por algum motivo penso numa casa mal-assombrada!”
“Faca de Fatiar! Faca de Fatiar!”, gritou Josh. “Verdadeira máquina de caça! Escolho essa!”
Por falar em Halloween, ela se lembrou do ano passado, quando a coluna de milho deles fez o carrinho de compras tombar. Nossa, como eles riram daquilo! Ah, risada em família era a melhor coisa do mundo; ela não teve nada disso na infância, já que Papai era tão casmurro e Mamãe tão envergonhada. Se o carrinho de Mamãe e Papai tivesse tombado, Papai teria dado um pontapé enfezado no carrinho e Mamãe teria saído resolutamente de perto para retocar o batom, afastando-se de Papai, enquanto ela, Marie, teria enfiado nervosamente na boca aquele horrendo soldadinho de plástico chamado Brady.
Pois bem: nesta família de agora a risada era incentivada! Na noite passada, quando Josh lhe deu um susto com seu Game Boy, ela esguichou pasta de dente no espelho e todos eles racharam o bico, rolando pelo chão com Goochie, e Josh disse, com aquela nostalgia na voz, “Mãe, lembra quando Goochie era um filhotinho?”. Foi quando Abbie caiu no choro, porque, tendo só cinco anos, não tinha lembrança de Goochie como filhotinho.
Daí aquela Missão Família. E quanto a Robert? Oh, Deus abençoe Robert! Aquilo sim era um homem. Ele não teria qualquer problema com aquela Missão Família. Ela adorava o modo como ele dizia “Ho HO!” toda vez que ela trazia para casa alguma coisa nova e inesperada.
“Ho HO!”, disse Robert, ao chegar em casa e se deparar com a iguana. “Ho HO!”, disse, ao chegar e encontrar o furão tentando entrar na gaiola da iguana. “Pelo visto, somos os felizes administradores de um minizoológico!”
Ela o amava por seu temperamento brincalhão — você podia trazer para casa um hipopótamo comprado com cartão de crédito (tanto o furão como a iguana tinham sido comprados assim) e ele se limitaria a dizer “Ho HO!” e perguntar o que a criatura comia, a que horas dormia e que nome iriam dar ao malandro.
No banco de trás, Josh fazia o som git-git-git que sempre fazia quando seu Padeiro estava no Modo Assar, tentando colocar seus Pães no forno enquanto rechaçava vários Invasores Famintos, tais como uma Raposa de barriga inchada; ou como um excêntrico Sabiá que roubava improvavelmente o Pão, espetado no seu bico, toda vez que conseguia derrubar uma Pedra Barulhenta em cima do Padeiro — coisas que Marie tinha aprendido ao longo do verão estudando o manual do Padeiro Nobre enquanto Josh dormia.
E aquilo tinha ajudado, tinha mesmo. Josh estava menos retraído ultimamente, e agora quando ela chegava por trás dele enquanto ele estava jogando e dizia, por exemplo, “Uau, querido, eu não sabia que você podia fazer Pumpernickel”, ou “Meu bem, experimente Lâmina Serrilhada, que corta mais depressa. Experimente-a quando estiver no modo Janela Trancada”, ele esticava para trás sua mão sem controle e lhe dava um tapinha afetuoso, e ontem eles deram boas risadas quando ele acidentalmente arrancou os óculos dela.
Então a mãe dela podia continuar dizendo à vontade que ela estava mimando as crianças. Aquelas não eram crianças mimadas. Eram crianças bem-amadas. Pelo menos ela não tinha deixado nenhuma delas de pé na nevasca por duas horas depois de um baile do colégio. Pelo menos ela nunca tinha vociferado bêbada para uma delas, “Não sei se te considero com estofo para chegar à faculdade”. Pelo menos ela nunca tinha trancado nenhuma delas num armário (num armário!) enquanto entretinha na sala um peão que cavava valas na estrada.
Oh, meu Deus, que mundo maravilhoso! As cores do outono, aquele rio cintilante, aquela nuvem cor de chumbo apontando como uma flecha arredondada para aquele McDonald’s meio remodelado que se erguia sobre a rodovia I-90 como um castelo.
Desta vez seria diferente, ela tinha certeza. As crianças cuidariam por conta própria daquele cachorrinho, já que um cachorrinho não tinha escamas e não mordia. (“Ho HO!”, disse Robert na primeira vez que a iguana o mordeu. “Vejo que você tem uma opinião pessoal sobre o assunto!”)
Obrigada, Senhor, pensava ela, enquanto o Lexus rasgava velozmente o milharal. Você me deu tanto: batalhas e a força para vencê-las; graça, e a cada dia novas oportunidades para espalhar essa graça em volta de mim. E na sua cabeça ela cantava, como fazia às vezes ao sentir que o mundo era bom e que ela tinha encontrado enfim seu lugar nele, “Ho HO, ho HO!”.
Callie abriu a persiana.
Sim. Incrível. Tinha resolvido tudo de um jeito tão perfeito.
Havia muita coisa para ele fazer ali. Um quintal podia ser todo um mundo. Como o quintal dela, quando criança, tinha sido todo um mundo. Dos três buracos na cerca deles ela era capaz de ver Exxon (Buraco Um) e a Esquina do Acidente (Buraco Dois), e o Buraco Três era na verdade dois buracos que, alinhados do jeito certo, os olhos da gente faziam aquele estrabismo bizarro e dava para brincar de Oh Meu Deus Estou Doidão, cambaleando com os olhos vesgos, dizendo, “Paz, cara, paz”.
Quando Bo crescesse, ia ser diferente. Ele ia precisar de liberdade então. Mas agora ele só precisava não ser morto. Uma vez o encontraram lá longe, em Testament. Do outro lado da I-90. Como é que ele tinha atravessado a I-90? Ela sabia muito bem como. Voando como uma flecha. Era assim que ele atravessava ruas. Uma vez um completo desconhecido tinha ligado para eles da Hightown Plaza. Até mesmo o dr. Brile tinha dito: “Callie, esse menino vai acabar morto se você não der um jeito de controlar isso. Ele está tomando a medicação?”.
Bem, estava e não estava. Os remédios o faziam ranger os dentes e subitamente ele dava com o punho em cima de alguma coisa. Tinha quebrado pratos daquele jeito, e uma vez o tampo de uma mesa de vidro, levando quatro pontos no pulso.
Hoje ele não precisava dos remédios porque estava em segurança no quintal, que ela arranjara de um jeito tão perfeito.
Ele estava lá fora treinando arremessos: enchia de pedrinhas seu capacete dos Yankees e as atirava na árvore.
Ele ergueu os olhos e a viu e fez aquele gesto de soprar um beijo.
Homenzinho querido.
Agora sua única preocupação era com o cachorrinho. Tomara que a mulher que tinha telefonado aparecesse de fato. Era um belo cachorrinho. Branco, com uma mancha marrom em volta de um olho. Fofinho. Se a mulher aparecesse, certamente iria querê-lo. E se ela o levasse, Jimmy se livraria do apuro. Ele tinha detestado fazer aquilo com os gatinhos naquela outra vez. Mas se ninguém levasse o cachorrinho ele faria de novo. Teria que fazer. Porque, no seu modo de ver, se você dizia que ia fazer uma coisa e não fazia, era assim que as crianças caíam nas drogas. Além disso, tinha sido criado numa fazenda, ou pelo menos perto de uma fazenda, e qualquer pessoa criada numa fazenda sabia que você tinha que fazer o que tinha que fazer em termos de animais doentes ou animais sobrando — o cachorrinho, no caso, não estava doente, só estava sobrando.
Naquela vez com os gatinhos, Brianna e Jessi o tinham chamado de assassino, deixando Bo todo agitado, e Jimmy tinha berrado, “Ouçam, crianças, fui criado numa fazenda e a gente tinha que fazer o que tinha que fazer!”. Depois ele chorou na cama, contando como os gatinhos tinham ficado miando dentro do saco pelo caminho todo até o lago, e como ele tinha desejado nunca ter sido criado numa fazenda, e ela quase disse “Você quer dizer perto de uma fazenda” (o pai dele tinha um lava-rápido nos arredores de Cortland), mas às vezes quando ela se metia a espertinha ele dava aquele beliscão forte no braço dela enquanto rodopiava com ela pelo quarto, como se o lugar onde ele beliscava fosse assim como a alça dela, e dizia, “Não tenho certeza de ter ouvido direito o que você acaba de dizer”.
Por isso, naquela vez depois dos gatinhos, ela tinha se limitado a dizer, “Oh, querido, você fez o que tinha que fazer”.
E ele tinha respondido, “Acho que fiz, mas com certeza não é fácil criar filhos do jeito certo”.
E então, pelo fato de ela não ter tornado a vida dele mais dura dando uma de espertinha, eles tinham ficado lá deitados fazendo planos, por exemplo por que não vender esta casa e mudar para o Arizona e comprar um lava-rápido, por que
não comprar um Hooked on Phonics* para as crianças, por que não plantar tomates, e então eles se engalfinharam e (ela não tinha ideia de por que se lembrava de tudo isso) ele tinha feito aquela coisa: bem agarrado a ela, soltou aquela súbita risada/bafejo desesperado no meio dos cabelos dela, como se espirrasse, ou como se estivesse prestes a cair no choro.
Aquilo fez com que ela se sentisse especial, já que ele confiava nela daquele jeito.
Então, o que ela adoraria, hoje à noite? Vender o cachorrinho, botar as crianças cedo na cama e então, Jimmy vendo que ela era toda organizada em termos de cachorrinho, eles podiam fazer uma farra e depois ficar ali deitados fazendo planos, e ele podia soltar aquela risada/bafejo nos cabelos dela de novo.
Por que aquela risada/bafejo significava tanto para ela? Não tinha a mínima ideia. Era só uma das coisas esquisitas que compunham a Maravilha que Era Ela, hahaha.
Lá fora, Bo se pôs de pé, subitamente curioso. Seria porque (lá vamos nós) a mulher que tinha telefonado tinha acabado de estacionar?
Isso mesmo, e num belo carro também, o que a fez pensar que tinha sido um erro colocar “Pechincha” no anúncio.
Abbie deu um gritinho estridente, “Adorei, Mamãe, quero ele!”, enquanto o cachorrinho lançava um olhar embaçado de dentro da sua caixa de sapatos e a dona da casa saía recolhendo um-dois-três-quatro cocôs de cachorro do tapete.
Uau, que superexcursão de estudos para as crianças, pensou Marie, haha (a imundície, o cheiro de mofo, o aquário seco sustentando o volume único da enciclopédia, a panela de macarrão na prateleira de livros com uma bengala de açúcar saltando inexplicavelmente para fora), e embora algumas pessoas em seu lugar talvez tivessem sentido nojo (do pneu em cima da mesa da sala de jantar, do modo como a carrancuda cadela-mãe, a provável cagona da casa, arrastava agora a bunda sobre a pilha de roupas no canto, sentada, de pernas abertas, uma expressão idiota de prazer na cara), Marie se deu conta (resistindo ao impulso de correr até a pia e lavar as mãos, em parte porque havia uma bola de basquete dentro da pia) de que aquilo na verdade era profundamente triste.
Por favor não toquem em nada, por favor não toquem, ela disse a Josh e Abbie, mas só mentalmente, desejando dar às crianças uma oportunidade de observá-la sendo democrática e compreensiva, e depois elas poderiam lavar as mãos no McDonald’s meio remodelado, desde que até lá fizessem o grande favor de mantê-las longe da boca, e que Deus as impedisse de esfregar os olhos.
O telefone tocou e a dona da casa arrastou os pés até a cozinha e pousou em cima da bancada os pedaços de cocô delicadamente carregados, embrulhados em papel-toalha.
“Mamãe, eu quero ele”, disse Abbie.
“Prometo que vou levá-lo para passear tipo duas vezes por dia”, disse Josh.
“Não diga ‘tipo’”, disse Marie.
“Prometo que vou levá-lo para passear duas vezes por dia”, disse Josh.
Ok, então, tudo bem, eles adotariam um cachorro caipira. Haha. Poderiam batizá-lo de Jecão, comprar para ele um cachimbinho de espiga de milho e um chapéu de palha. Ela imaginou o cachorrinho, depois de cagar no tapete, erguendo os olhos para ela, como quem diz Discurpa, num guentei. Mas não. Ela por acaso tinha vindo de um lugar perfeito? Tudo era transmutável. Imaginou o cachorrinho já crescido, recebendo alguns amigos, falando com eles com acento britânico: Minha família de origem não era propriamente, ahn, como dizer, das mais respeitáveis...
Hahaha, a mente era mesmo uma coisa fantástica, sempre soltando daquelas...
Marie deu uns passos até a janela e, afastando antropologicamente a persiana, levou um choque, um choque tão grande que ela soltou de repente a persiana e balançou a cabeça, como se tentasse acordar, chocada por ver um garotinho, poucos anos mais novo que Josh, arreado e acorrentado a uma árvore por meio de uma geringonça que — ela afastou de novo a persiana, certa de que não podia ter visto o que acreditava ter visto...
Quando o garoto corria, a corrente se desenrolava. Ele estava correndo agora, olhando para ela, se exibindo. Quando chegou ao fim da corrente, ela deu um tranco e ele caiu como se tivesse tomado um tiro.
Ele se ergueu até ficar sentado, ralhou com a corrente, puxou-a de um lado para o outro, engatinhou até uma tigela de água e, levando-a aos lábios, tomou um gole: um gole da água de uma tigela de cachorro.
Josh se juntou a ela na janela.
Ela o deixou olhar.
Ele precisava saber que o mundo não se resumia a aulas e iguanas e Nintendo. Era também aquele pobre menino sujo de terra, amarrado como um animal.
Ela se viu saindo do armário e dando de cara com a lingerie da mãe espalhada e o cabide do cavador de valas cheio de bandeirolas cor de laranja. Ela se viu esperando do lado de fora do colégio no frio cortante, com a neve caindo cada vez mais forte, e ela contando até duzentos de novo e de novo, prometendo a si mesma a cada vez que quando chegasse aos duzentos começaria a longa caminhada de volta para casa...
Deus do céu, ela faria qualquer coisa para que um adulto honrado interpelasse sua mãe e a sacudisse dizendo, “Sua idiota, esta é sua filha, sua filha que você...”.
“Então, pessoal, que nome vocês estão pensando em dar para ele?”, disse a mulher, voltando da cozinha.
A crueldade e a ignorância simplesmente irradiavam daquela cara gorda, com seu pequeno borrão de batom.
“Lamento, mas acho que não vamos levá-lo, no fim das contas”, disse Marie, com frieza.
O escândalo que Abbie fez! Mas Josh — ela teria que elogiá-lo depois, talvez comprar para ele o Pacote de Expansão Pães Italianos — sussurrou alguma coisa para Abbie e em seguida os dois saíram, atravessando a cozinha atulhada (passando por uma espécie de eixo de manivela pousado numa embalagem de biscoitos e por um pedaço de pimenta vermelha boiando numa lata de tinta verde), enquanto a dona da casa corria atrás deles dizendo, esperem, esperem, podiam levá-lo de graça, por favor, levem — ela realmente queria que eles levassem o bicho.
Não, disse Marie, não poderiam levá-lo desta vez, pois seu sentimento era de que a gente não devia realmente possuir algo de que não fosse capaz de cuidar direito.
“Oh”, disse a mulher, estacando desanimada junto à porta, com o cachorrinho escalando seu ombro.
Lá fora, já no Lexus, Abbie começou a chorar baixinho, dizendo, “Era o cachorrinho perfeito para mim”.
E era um cachorrinho ótimo, mas Marie não iria contribuir para uma situação como aquela de jeito nenhum.
Simplesmente não faria aquilo.
O menino veio até a cerca. Se ela ao menos pudesse dizer para ele, com um único olhar, A vida não será necessariamente sempre assim. Sua vida poderá de repente florescer em algo maravilhoso. Pode acontecer. Aconteceu comigo.
Mas essa coisa de olhares secretos, olhares que transmitiam um mundo de significados com seu blá-blá-blá sutil — isso tudo era bobagem. O que não era bobagem era ligar para o Conselho Tutelar, onde ela conhecia Linda Berling, uma mulher muito linha-dura que levaria aquele pobre menino embora tão depressa que faria girar a cabeça dura daquela mãe gorda.
Callie gritou, “Bo, volto num segundo!” e, abrindo caminho em meio ao milharal com o braço não ocupado pelo cachorrinho, caminhou até não haver nada além de milho e céu.
Ele era tão pequeno que não se moveu quando ela o pousou no chão, só fungou e tombou de lado.
Bem, qual a diferença, sufocado num saco ou morto de fome no milharal? Assim Jimmy não tinha que tomar a atitude. Ele já tinha muita coisa para se preocupar. O rapaz que ela tinha conhecido com cabelo até a cintura era agora aquele velho encolhido de preocupação. Quanto ao dinheiro, ela própria tinha sessenta escondidos. Podia tirar vinte para dar a ele e dizer: “O pessoal que comprou o cachorrinho era superbacana”.
Não olhe para trás, não olhe para trás, repetiu mentalmente ao atravessar correndo o milharal de volta para casa.
Em seguida estava andando pela Teallback Road como alguém fazendo uma caminhada, como uma madame que anda toda noite para emagrecer, só que ela estava muito longe de ser magra, sabia disso, e sabia também que quando a gente caminhava por esporte não vestia jeans e botinas desamarradas. Haha. Não era burra. Simplesmente fazia más escolhas. Lembrou-se da irmã Lynette dizendo: “Callie, você até que é inteligente, mas se inclina para aquilo que não lhe faz bem”. Pois é, irmã, você acertou, disse mentalmente para a freira. Mas que diabo. Que diacho. Quando as coisas melhorassem, financeiramente falando, ela ia comprar tênis decentes e começar a caminhar para emagrecer. E ia entrar na escola noturna. Emagrecer. Talvez com tecnologia médica. Nunca ia ser magra de verdade. Mas Jimmy gostava dela do jeito que ela era. E ela gostava dele do jeito que ele era. Talvez o amor seja isso mesmo: gostar de alguém como ele é e fazer coisas que o ajudem a melhorar mais ainda.
Como agora, que ela estava tornando a vida de Jimmy mais fácil ao matar um bicho para que ele... Não. Tudo o que ela estava fazendo era andar, andar para longe de...
O que ela tinha acabado de dizer? Aquilo tinha sido bom. Amar é gostar de alguém como ele é e fazer coisas que o ajudem a melhorar ainda mais.
Por exemplo, Bo não era perfeito, mas ela o amava como ele era e tentava ajudá-lo a melhorar. Se pudessem mantê-lo a salvo, talvez ele se acalmasse com o passar dos anos. Se ele se acalmasse, talvez um dia pudesse ter uma família. Lá estava ele agora no quintal, sentado em silêncio, olhando para as flores. Dando batidinhas com seu taco, bem feliz. Ele ergueu os olhos, acenou com o taco, lançou a ela aquele seu sorriso. Ontem ele tinha ficado preso dentro de casa, todo infeliz. Tinha terminado o dia berrando na cama, de tão frustrado. Hoje estava olhando para as flores. Quem foi que teve aquela ideia, a ideia que tornou o hoje melhor do que o ontem? Quem o amava o bastante para ter aquela ideia? Quem o amava, mais do que qualquer outra pessoa no mundo?
Ela.
Ela que amava.
* Hooked on Phonics: marca de um método multimídia de aprendizado de leitura para crianças em idade pré-escolar. Inclui música, livros, cartas de baralho etc. (N. T.)