Dez de Dezembro
Al Roosten
Al Roosten ficou esperando atrás do biombo de papel. Se estava nervoso? Bem, estava um pouco nervoso. Embora provavelmente muito menos do que a maioria das pessoas estaria. A maioria provavelmente estaria se mijando toda a esta altura. Ele estava se mijando? Ainda não. Se bem que, uau, entendia muito bem que alguém pudesse chegar a...
“Vamos dar a partida!”, gritou a MC, uma loura com jeito de líder de torcida, velha demais para usar tranças, mas cujas tranças balançavam de um lado para o outro como se, por algum motivo, ela fizesse de conta que estava fazendo aeróbica. “Estamos aqui hoje para combater as drogas ou não? Claro que estamos! Nós, empresários e executivos, aprovamos que nossos filhos usem drogas? De jeito nenhum, nem pensar, somos totalmente contra! Nós próprios usamos drogas? Meninos, aqueles de vocês que estão aqui, acreditem quando digo que não usamos, nunca, jamais! Porque, na condição de alguém que trabalha com feng shui, garanto que não haveria meio de fazer meu feng shui se eu estivesse chapada de crack, porque meu ofício consiste em discernir campos de energia, e se você está noiado de crack, ou maconhado, ou mesmo se tomou café demais, o campo de energia fica todo desarranjado, acreditem, eu sei, eu fumava!”
Era um leilão matinal de Celebridades Locais, entendendo-se por Celebridade Local qualquer babaca estúpido o suficiente para responder sim quando a Câmara de Comércio convidava.
“Então é por isso que estamos levantando fundos para o GaleraLongeDoCrack e seus palhaços antidrogas!”, gritou a loura. “Como o sr. SaiDessa, que, em sua apresentação em sala de aula, com um balão de ar moldável, faz aquela coisa que começa como um cachimbo de crack e termina como um caixão de defunto, o que eu acho muito verdadeiro!”
Larry Donfrey, da Larry Donfrey Imóveis, estava em pé ali do lado, de calção de banho. Donfrey era um bom sujeito. Bom, mas limitado. Não era lá muito brilhante. Sempre bronzeado. Era atraente, o Donfrey? Bonitinho? Será que os participantes do leilão considerariam Donfrey mais bonito que ele, Al Roosten? Ah, como iria saber? Ele por acaso gostava de marmanjos? Era algum tipo de perito em julgar os atrativos dos marmanjos?
Não, ele não gostava de marmanjos, nunca tinha gostado.
Sim, é verdade que houve aquele período no final do primeiro grau em que ele ficou preocupado com a possibilidade de, talvez, gostar de rapazes, e perdeu várias vezes nas lutas livres porque, em vez de se concentrar nos próprios golpes, ficava se perguntando mentalmente se seu negócio estava doendo dentro da sunga porque surgia uma leve pré-ereção ou porque a glande estava escapando pela abertura de ventilação, e uma vez ele constatou quase com certeza a pré-ereção quando viu seu rosto espremido contra o abdome rígido de Tom Reed, que cheirava a leite de coco, mas, depois da luta, atormentado pelo assunto no bosque, ele se deu conta de que às vezes tinha uma leve pré-ereção similar quando o gato sentava em seu colo sob um raio de sol, o que provava que ele não tinha atração sexual por Tom Reed, já que sabia com certeza que não tinha atração sexual alguma pelo gato, já que nunca sequer ouvira uma coisa dessas ser descrita como possível. E daquele dia em diante, toda vez que se pegava matutando se gostava ou não de rapazes, ele sempre se lembrava de quando tinha caminhado exultante pelo bosque depois da constatação libertadora de que não tinha mais atração por rapazes do que por gatos, chutando alegremente os cogumelos numa sensação de tremendo alívio.
Começou uma espécie de música, consistindo numa série de batidas ruidosas e graves pontuadas por um burburinho de gemidos femininos e algo que soava como uma porta rangente, e Larry Donfrey avançou pela passarela sob repentinos gritos e assobios.
Que diabo?, pensou Roosten. Gritos? Assobios? Será que ele provocaria gritos? Assobios? Duvidava. Quem gritaria/assobiaria para o sujeito redondo e careca vestido de gondoleiro? Se ele fosse mulher, gritaria/assobiaria para Donfrey, o sujeito com a bunda firme e braços musculosos e bronzeados.
A loura deu a deixa para Roosten ao apontar para ele enquanto marchava sem sair do lugar.
Oh meu Deus, oh meu Deus.
Roosten saiu cautelosamente de trás do biombo de papel. Ninguém assobiou. Começou a percorrer a passarela. Ninguém gritou. A plateia produzia o som que uma plateia produz quando tenta não rir. Ele tentou sorrir de modo sexy, mas sua boca estava seca demais. Provavelmente seus dentes amarelos estavam aparecendo, assim como o lugar em que as gengivas se expunham.
Congelado sob a luz crua do holofote, ele parecia tão louco, velho e desamparado, e ainda assim levemente arrogante, que um intenso desconforto baixou sobre o salão, um desconforto que, se aquilo não fosse um evento filantrópico, poderia ter provocado gritos de insulto ou arremessos de objetos, mas no caso suscitou uma espécie de murmúrio de piedade vindo das proximidades do bufê de saladas.
Roosten se animou e esboçou um meio aceno aliviado na direção do murmúrio, e a falta de jeito do gesto — o modo como revelou inadvertidamente o quanto ele estava apavorado — acabou por conquistar a multidão que segundos antes estava a ponto de zombar dele, e alguém mais suspirou de compaixão, e Roosten sorriu com um grande esgar de maluco, o que causou uma onda de aplausos piedosos.
Roosten estava surdo à caridade daquilo. Puxa, que cascata de aplausos e aclamações. Ele devia fazer uma reverência. Faria. Fez. Isso causou uma intensificação dos aplausos e gritos, que, aos seus ouvidos, eram agora pelo menos iguais em volume aos aplausos e gritos para Donfrey. Além do mais, Donfrey tinha desfilado praticamente nu. O que significava que ele tecnicamente estava derrotando Donfrey, já que este precisara se despir para conseguir um empate com ele, Al Roosten.
Hahaha, pobre Donfrey! Correndo de cueca de um lado ao outro para nada.
A loura jogou uma rede de apanhar borboletas sobre a cabeça de Roosten e ele foi se juntar a Donfrey na cela de papelão.
Agora que tinha arrasado Donfrey, ele sentiu uma onda de simpatia por ele. O bom e velho Donfrey. Ele e Donfrey eram os dois pilares da comunidade empresarial local. Não conhecia Donfrey muito bem. Apenas o admirava de longe. Assim como Donfrey o admirava de longe. Uma vez, todo o clã Donfrey entrou em fila indiana na loja de Roosten, Bygone Daze. A esposa de Donfrey estava linda: belas pernas, costas delgadas, cabelo comprido. A gente olhava para ela e não conseguia desviar os olhos. Os filhos de Donfrey também tinham uma aparência ótima, dois elfos andróginos discutindo educadamente alguma coisa, a história da Suprema Corte, quem sabe?
Cada Celebridade tinha sua própria janela gradeada na cela de papelão. Donfrey agora saiu da sua e foi até a de Roosten. Que cortês. Que príncipe. Trocariam algumas palavras. A plateia enciumada se perguntaria o que é que os dois pilares estavam conversando em particular. Desculpem, mas não, o papo era entre pilares. A plebe ficava de fora.
Donfrey estava dizendo alguma coisa, mas a música era ruidosa e Roosten era meio surdo.
Roosten se inclinou para ouvir.
“Eu disse: Não se preocupe, Ed”, Donfrey estava gritando. “Você foi ótimo. É sério. Não é o fim do mundo. Daqui a uma semana ninguém nem vai lembrar disso.”
O quê? Que diabo? O que Donfrey estava querendo dizer? Que ele tinha se saído mal? Que tinha passado vergonha? Diante da cidade inteira? De jeito nenhum. Ele tinha arrasado. Por acaso Donfrey estava em outro planeta? Estava drogado? Drogado num evento antidrogas? E tinha acabado de chamá-lo de Ed?
Donfrey bem que podia lamber seu saco. Aquele picareta. Aquele esnobe. Tinha esquecido disso. Tinha esquecido que Donfrey era um picareta e um esnobe. Naquela vez que os Donfreys entraram na Bygone Daze, eles viraram imediatamente as costas e saíram, como se tivessem considerado as antiguidades de Roosten demasiado empoeiradas e de mau gosto para a casa Donfrey, literalmente uma mansão numa colina. E a mulher de Donfrey não era linda, Roosten de repente admitiu com honestidade; era pálida. Um pálido e arrogante rebotalho de gente. Quanto aos filhos de Donfrey — se aqueles pirralhos fossem dele? Ia dar uma zoada neles. Que tal des-elficar aqueles dois? Eram meninos ou meninas? Honestamente não dava para saber.
Ele mesmo não gostava de crianças. Nunca se casou. Tinha os meninos, porém. Os meninos eram seus sobrinhos. Não tinham cara de elfos. Au contraire. Os meninos eram o contrário de elfos. Estavam mais para trolls, talvez. Ou então roceiros. Não, os meninos eram ótimos. E eram cem por cento meninos. E como. Talvez até demais. Não sabia dizer por que a irmã dele, Mag, insistia em levá-los ao Budgi-Cutz, já que o Budgi-Cutz fazia os meninos parecerem três versões desajeitadas da mesma cabeça redonda germânica, com as franjas retinhas na testa. Toda noite havia um torneio de grunhidos e luta livre no porão, com os meninos chamando uns aos outros de Franciscuzão ou Peidorrúncio até que algum deles batia a cabeça redonda em alguma coisa de metal e todos ajudavam o ferido a subir de volta, lágrimas escorrendo pelo rosto intumescido de lutadores, como três nazistas subitamente arrependidos...
Nazistas não. Deus do céu. Alemães. Vigorosos moços alemães pré-guerra. Saudáveis jovens Beethovens. Se bem que ele duvidava que o verdadeiro Beethoven tivesse alguma vez arrancado com as próprias mãos o suporte de livros de orações de um banco de igreja numa aposta com outro Beethoven, enquanto um terceiro Beethoven exibia orgulhosamente, num hinário, quatro torres de ranho endurecido que ele tinha acabado de...
Foi o divórcio. O divórcio tinha enlouquecido os meninos. Foi triste para Mag. No colégio, Al tinha sido o lutador popular e Mag tinha sido a garota corpulenta da ChristLife com uma grande paixão por Cristo. Eles tinham morado na fazenda de seus pais. Mas, por algum motivo, só Mag tinha virado uma caipira. Na penúltima série do colégio, ela começou a namorar Ken Glenn, igualmente rural, com orelhas do tamanho de pratos. A piada que circulava era de que eles tinham se casado vestidos de macacão. Houve também piadas sobre Mag e Ken se casarem numa igreja cheia de animais de curral. Se havia um casamento que todo mundo achava que iria durar, era aquele: dois desenxabidos rancheiros cristãos. Mas não. Ken tinha deixado Mag por outra rancheira...
Mag não era desenxabida. Era simples, tinha uma espécie de atitude simples, terra a terra...
Era bonita. Era uma mulher bonita. Nela, tudo estava onde devia estar. Ela se portava bem. Exceto quando berrava com os meninos. Então seu rosto virava uma máscara vermelha retorcida. Dava para ver sua frustração por ser a única mulher divorciada em sua igreja extremamente conservadora, seu constrangimento por ter que se mudar para a casa do irmão, seu medo de que, se ele perdesse sua loja (como agora parecia quase certo que perderia), ela tivesse que deixar a escola e procurar um terceiro emprego. Na noite passada, ele a tinha encontrado na mesa da cozinha, depois de seu turno na Costco, no quinto sono em cima da apostila de enfermagem da faculdade comunitária. Uma enfermeira aos quarenta e cinco anos. Era para rir. Ele achava aquilo risível. Embora não achasse risível de verdade. Achava era admirável. Um esnobe como Donfrey talvez achasse risível. Um esnobe como Donfrey daria uma rápida olhada em Mag vestida com suas folgadas roupas de enfermeira e despacharia seus elfos mimados de volta para a estupenda mansão Donfrey, que recentemente tinha figurado na seção Estilo de Vida da...
Ah, mansão, mansão de merda. Por acaso a casa de Gandhi tinha a maior cama elástica ao ar livre de toda a região da tríplice fronteira Missouri/Kansas/Nebraska? Será que Jesus tinha uma pista de carrinho de controle remoto de oito mil metros quadrados, com montanhas a escalar e uma cidadezinha que se iluminava à noite?
Não na Bíblia dele.
Ahn? A cela de papelão estava agora repleta de Celebridades. Como isso tinha acontecido? Ele, pelo visto, tinha deixado escapar os desfiles na passarela de Max, da Max Auto, Ed Berden, do Steak-n-Roll, e os gêmeos hippies bizarramente altos que tocavam o Coffee-Minded.
A loura agora estava em silêncio, de cabeça baixa, como se esperasse que sua profundidade baseada na experiência transbordasse para o sincero discurso de aplaudir de pé que a consolidaria de uma vez por todas como a pessoa mais sofrida do lugar.
“Pessoal, chegamos a nosso momento mais importante”, disse ela, com brandura. “Que é nosso leilão. Que é manter silêncio. Sem vocês, pessoal, sabem de uma coisa? A GaleraLongeDoCrack não passaria de um punhado de sujeitos com sentimentos antidroga muito fortes, vestindo roupas esquisitas em suas próprias casas. Escrevam seus lances, alguém vai passar para recolhê-los. Depois, se você for o ganhador, será levado para almoçar com a Celebridade por quem fez a oferta.”
Tinha acabado?
Parecia que sim.
Será que dava para sair de fininho?
Dava, se ele se abaixasse bem.
Abaixou-se bem e caiu fora enquanto a loura seguia com sua ladainha.
No vestiário adaptado, encontrou as roupas de Donfrey largadas sobre uma cadeira: calça plissada bem cara, bela camisa de seda. No chão estavam as chaves e a carteira de Donfrey.
Tinha que ser o Donfrey para emporcalhar assim um vestiário tão decente.
Ah, mas por que ficar irritado com Donfrey? Donfrey não lhe fizera nada. Só tinha feito um comentário, tentando ser simpático. Tentando ser caridoso. Com alguém inferior a ele.
Roosten deu um passo à frente e chutou a carteira. Uau, como ela deslizou. Foi parar bem embaixo das tábuas de uma arquibancada desmontável. Como um disco de hóquei. Lá estavam as chaves, agora sozinhas, realçando a ausência da carteira. Putz. Poderia dizer que chutou sem querer a carteira para lá. O que era mais ou menos verdade. Não tinha pensado muito naquilo, para ser sincero. Simplesmente tinha sentido vontade de chutar e pronto. Era impulsivo desse jeito. Essa era uma das coisas boas dele. Era assim que tinha comprado a loja. A loja falida. Deu um chute nas chaves. Que diabo? Por que fez aquilo? Deslizaram ainda melhor que a carteira. Agora a carteira e as chaves estavam longe embaixo das tábuas da arquibancada móvel.
Puxa, que pena. Que pena que ele acidentalmente chutou aquelas coisas ali para baixo.
Donfrey entrou de supetão na área do vestiário, falando alto no celular com voz de sabe-tudo.
Ela estava bem, Donfrey gritava. Nervosa, mas preparada psicologicamente. Valente. Aguentando firme. Uma garota de ouro. Sempre fazia a parte dela: levava a roupa suja para baixo no dia dela, arrastava o latão de lixo para a rua. Não dormiu a semana toda. Muita excitação. O que ela esperava com mais ansiedade? Correr com sua classe na educação física. Imagine: durante toda a sua vida você andou mancando por aí com um pé virado para dentro, então eles finalmente descobrem um jeito de consertá-lo. Era assustador, claro, Deus do céu, o aparelho ortopédico literalmente quebrava e reformava o pé. A coitadinha tinha esperado tanto tempo. Eles tinham que se apressar, apanhar a menina, correr para o lugar. Estavam se atrasando, o tal leilão parecia não acabar nunca. Ele provavelmente deveria ter deixado aquilo de lado, mas era por uma causa tão maravilhosa.
Roosten acabou de se vestir às pressas e deixou o vestiário.
Meu Deus, o que era aquilo? Pelo visto, um dos elfos não era tão perfeito quanto parecia...
Um dos elfos mancava? Ele não se lembrava.
Bem, isso era triste. A enfermidade de uma criança era triste — as crianças eram o futuro. Ele faria qualquer coisa para ajudar aquela menina. Se um dos meninos tivesse um pé torto, ele moveria céus e terras para consertá-lo. Roubaria um banco. E se o menino fosse uma garota, pior ainda. Quem tiraria uma manquinha ou pé-torto ou o que fosse para dançar? Já pensou sua filha ali sentada, com a muleta, toda arrumadinha, sem ninguém para dançar com ela?
Centenas de folhas secas deslizavam ao vento pelo estacionamento da FlapJackers. Um pássaro na amurada do estacionamento saiu voando como um raio, alarmado com o avanço das folhas. Folhas estúpidas, nunca alcançariam aquele passarinho.
A não ser que ele o matasse com uma pedra, deixando-o estendido ali. Elas ficariam tão agradecidas que o aclamariam Rei das Folhas.
Hahaha.
Deu um chute rancoroso num monte de folhas.
Merda. Sentia vontade de chorar. Por quê, o que era aquilo, o que é que o deixava tão triste?
Rodou pela cidade em que tinha vivido toda a sua vida. O rio estava cheio. A escola básica tinha uma nova barra para prender bicicletas. Um montão de cachorros saltou na cerca como de costume quando ele passou pelo Canil Flannery. Perto do canil ficava o Mike’s Gyros. Uma vez, durante aquele terrível ano da sétima série, sua mãe o levou ao Mike para tomar uma Coca.
“Está com algum problema, Al?”, a mãe perguntou.
“Está todo mundo me chamando de mandão e de gordo”, ele respondeu. “Para piorar, dizem que sou traiçoeiro.”
“Bem, Al”, disse ela, “você é mandão, e você é gordo. E imagino que você pode ser bem traiçoeiro. Mas sabe o que mais você é? Você tem o que se costuma chamar de coragem moral. Quando sabe que alguma coisa é certa, você vai e faz, custe o que custar.”
A mãe às vezes falava muita merda. Uma vez, ela disse que sabia que ele seria um grande alpinista, só pelo jeito como ele subiu correndo a escada. Outra vez, quando ele tirou um B-menos em matemática, ela disse que ele deveria se tornar um astrônomo.
A boa e velha Mamãe. Ela sempre o fazia se sentir especial.
De repente sentiu o rosto queimar. Sentia que a mãe o observava do Céu, daquele jeito bem dela, severo mas de esguelha, como se dissesse: Olá, será que não estamos esquecendo alguma coisa?
Bem, aquilo tinha sido um acidente. Ele simplesmente tinha tirado algumas coisas do lugar sem querer. Com o pé. Chutando-as de modo espontâneo num passo em falso.
Os olhos da mãe se apertaram no Céu.
Eles estavam sendo malvados comigo, disse ele.
A mãe no Céu bateu o pezinho.
O que queria que ele fizesse? Que corresse de volta lá e os conduzisse até as chaves? Ficariam sabendo que tinha sido ele o culpado. Além do mais, Donfrey já tinha ido embora há tempos, provavelmente. Provavelmente sua esposa tinha um molho extra de chaves. Se bem que a esposa de Donfrey não estava lá. Bem, alguém podia levar Donfrey de carro para casa. Depois de ele passar um tempo procurando inutilmente suas chaves. Atrasando-se tanto que eles teriam que reagendar aquela coisa com a menina...
Merda.
Ah, eles sobreviveriam. Ninguém iria morrer por causa daquilo. Só que uma menina teria que esperar alguns meses mais pelo seu...
Roosten parou o carro numa estradinha de pedras brancas. Tinha que pensar. Um yorkshire correu até a cerca, latindo de acordo com o ritual. Então apareceu uma galinha. Ahn? Uma galinha e um yorkshire no mesmo quintal. Ficaram parados lado a lado, olhando para Roosten.
Eureca.
Descobriu como podia fazer a coisa.
Ele voltaria sorrateiramente, fazendo de conta que ainda não tinha saído. Todo mundo estaria procurando a carteira e as chaves. Ele procuraria junto com eles por um tempo. Quando estivessem a ponto de desistir, ele diria: Suponho que já tenham procurado embaixo daquelas tábuas, né?
Ahn, pra falar a verdade, não, diria Donfrey.
Talvez valesse a pena tentar, sugeriria Roosten.
Ele chamaria alguns marmanjos e eles ergueriam as tábuas. E lá estariam a carteira e as chaves.
Uau, diria Donfrey. Você é demais.
Foi só um palpite, diria Roosten. Eu simplesmente eliminei todas as outras opções.
Puxa, acho que subestimei você, diria Donfrey. Um dia desses você precisa aparecer lá em casa.
Na mansão?, perguntaria Roosten.
E sabe o quê, Al? Desculpe por aquela vez que saímos abruptamente da sua loja. Aquilo foi uma grosseria. E outra coisa, Al: desculpe por tê-lo chamado de Ed agora há pouco.
Ah, você chamou?, diria Roosten. Nem percebi.
Um jantar na mansão cairia bem. Em pouco tempo ele seria praticamente parte da família. Passaria por ali sempre que quisesse. Seria bacana. Bacana frequentar uma mansão. De vez em quando os meninos podiam ir junto. Se bem que seria bom eles não quebrarem nada. Teriam que brigar do lado de fora. Uma coisa que ele não precisava era ver a mansão do amigo avacalhada. Viu a deslumbrante esposa de Donfrey desabar numa poltrona e cair no choro, aflita por todas as coisas que os meninos tinham quebrado.
Valeu, meninos, muito obrigado por isso. Já para fora. Saiam daqui e fiquem quietinhos lá fora.
Agora dá para ver a lua cheia pela janela grande e ele e Donfrey estão vestindo smokings e a esposa de Donfrey veste alguma coisa dourada e decotada.
Este jantar está demais, diz ele. Todos os seus jantares são maravilhosos.
É o mínimo que podíamos fazer, diz Donfrey. Você nos ajudou tanto naquela vez que eu perdi estupidamente minhas chaves.
Hahaha, sim, mas só por causa disso?, diz Roosten.
Então ele lhes conta tudo: como fez uma coisa infeliz, teve uma iluminação e voltou correndo para ajudar.
Que loucura!, diz Donfrey.
Foi preciso ter colhões, diz a esposa de Donfrey. Para voltar desse jeito.
Eu diria que foi preciso ter coragem moral, diz Donfrey.
Sua honestidade nos leva a admirá-lo ainda mais, diz a esposa de Donfrey.
Mag estava lá também. O que ela estava fazendo ali? Bom, tudo bem, ela podia ficar. Mag era boa gente. Uma conversadora decente. Os Donfrey apreciariam suas boas qualidades. Assim como apreciavam as boas qualidades dele próprio. E a mãe deles não iria adorar ver aquilo? Os filhos afinal recebendo o que lhes era devido das mãos de uma gente sofisticada numa bela mansão?
Um som involuntário e bizarro de contentamento arrancou Roosten de seu devaneio.
Haha.
Que diabo. Onde estava?
O yorkshire farejava a galinha. A galinha parecia não se importar. Ou mesmo notar. A galinha tinha uma espécie de foco de raio laser em cima dele, Al Roosten.
Sim, claro. Tá bom que aquilo ia acontecer. Tá bom que ele ia voltar correndo. Nem ferrando. Se voltasse, todo mundo ia ver a verdade na cara dele. Iam acabar pondo no rabo dele. As pessoas estavam sempre vendo a verdade na cara dele e pondo no rabo dele. Quando ele roubou a viseira de Kirk Desner, os garotos do time viram na cara dele e puseram no rabo dele. Na vez que ele enganou Syl, Syl viu na cara dele, rompeu o namoro e o enganou com Charles, que pôs no rabo dele de um jeito possivelmente pior do que qualquer outra comida de rabo que ele já sofreu, e isso numa vida que, ao que parecia ultimamente, não era mais do que uma série ascendente de comidas de rabo.
Voltou o pensamento para a Mãe, como sempre, em busca de uma palavra de incentivo.
O quê? Vai dizer que aquele imbecil do Donfrey nunca cometeu um erro na vida?, disse a Mãe. Nunca se envolveu sem querer numa coisa infeliz, que aconteceu por azar? E agora ele vai querer rotular você de babaca, de escória, ou de pessoa imatura e má, só por causa de um errinho? Isso é justo? Você não acha que em algum momento da vida ele provavelmente também precisou de perdão?
Provavelmente, disse Roosten.
Oh, sem a menor dúvida, disse a Mãe. Conheço você desde sempre, Al, e não há em você um pingo de maldade. Você é Al Roosten. Não se esqueça disso. Às vezes você acha que tem algo de errado, mas a cada vez fica claro que não tem não. Por que ficar se punindo por causa desse assunto e com isso perder a beleza do momento?
A melodia da voz da Mãe em sua cabeça o animou.
Saiu da estradinha de pedras brancas. A Mãe tinha razão. O mundo era lindo. Lá estava o cemitério dos pioneiros com suas lápides amareladas e tombadas. Lá estava a muito vívida oficina Jiffy Lube. Uma densa revoada de pássaros avançou em linha reta e em seguida pousou nos galhos de uma árvore castigada por um raio. Ele sabia que não era a Mãe de verdade em sua cabeça. Que estava só imaginando o que a Mãe iria dizer. Quem podia saber o que a Mãe iria dizer? Ela podia ser uma velha maluca no fim da vida. Mas sentia saudades dela, disso tinha certeza.
Pensou de novo na menina aleijada. Eles tinham perdido a hora marcada e teriam que arranjar outra data. A única vaga disponível era dali a meses. Na escuridão da noite, ela estendeu a mão até o pé torto e deixou escapar um gemido. Tinha chegado tão perto, tão perto de conseguir...
Que bosta. Isso era negativo. Era preciso deixar que a cura começasse. Todo mundo sabia disso. Era preciso amar a si próprio. O que era positivo? A loja: pensar em meios de melhorá-la, torná-la decente na medida do possível, trazê-la de volta à vida. Instalaria um café. Arrancaria aquele velho tapete manchado. Pronto, já estava se sentindo melhor. Era preciso ter alegria. A alegria faz um sujeito ir em frente. Assim que tornasse a loja viável, iria mais além, faria com que ficasse ótima. Filas de gente estariam esperando quando ele chegasse a cada manhã. Enquanto ele mentalmente abria caminho na multidão, todo mundo parecia estar perguntando, com sorrisos e tapinhas nas costas, se ele consideraria a hipótese de concorrer a prefeito. Ele faria pela cidade o que tinha feito pela Bygone Daze? Hahaha, que divertido seria aquilo, concorrer a prefeito. De que cores seriam suas bandeiras? Qual seria seu slogan?
AL, AMIGO DO PESSOAL.
Esse era bom.
AL ROOSTEN, O MELHOR QUE A GENTE TEM.
Meio presunçoso.
AL ROOSTEN, IGUAL A VOCÊ, SÓ QUE MELHOR.
Hahaha.
Lá estava a loja. Ninguém estava esperando para entrar. Um pedaço de lona enlameada tinha sido trazido do pátio do ferro-velho pelo vento e estava grudado na vitrine. Do outro lado do ferro-velho ficava o viaduto frequentado pelos mendigos. Aqueles mendigos estavam arruinando seu...
Achava que eles preferiam ser chamados de “sem-teto”. Não tinha lido isso em algum lugar? “Mendigo” não era pejorativo? Deus do céu, era muita cara de pau. O sujeito não trabalha sequer um dia na vida, só sai por aí roubando tortas dos peitoris das janelas, e depois vem querer vociferar sobre seus direitos? Teve vontade de andar até um sem-teto e chamá-lo de mendigo. E fazia mais, ô se fazia, agarrava o maldito mendigo pelo colarinho e falava: Ei, mendigo, você está arruinando meu negócio. Deixei de pagar meu aluguel dois meses seguidos. Volte para o país estrangeiro de onde você provavelmente...
Detestava de verdade aqueles vadios que passavam pela sua loja com seus cartazes toscos. Será que não podiam pelo menos escrever direito? Ontem um deles tinha passado com um cartaz que dizia POR FAVOR UMA AJUDA PARA UM CEM-TETO . Teve vontade de gritar: Ei, desculpe, mas você já tem cem! Passavam a maior parte do tempo embaixo do viaduto, será que não podiam pelo menos se corrigir uns aos outros?
Enquanto estacionava o carro, teve um branco esquisito. Onde estava? Na loja. Ugh. Onde estavam suas chaves? No mesmo velho e horrendo chaveiro de corda, impossível de tirar do bolso.
Meu Deus, ele mal suportava a ideia de entrar na loja.
Ficaria ali sentado sozinho a tarde inteira. Por que precisava fazer aquilo? Para quê? Para quem?
Mag. Mag e os meninos contavam com ele.
Ficou sentado por um minuto, respirando fundo.
Um velhote vestido de trapos imundos cambaleava rua acima, arrastando um retângulo de papelão que sem dúvida lhe servia de cama. Seus dentes eram todos roídos, seus olhos, úmidos e vermelhos. Roosten imaginou a si próprio saltando do carro, derrubando o homem com um soco, chutando e chutando de novo, ensinando a ele, desse jeito, uma lição valiosa sobre como se comportar.
O homem sorriu levemente para Roosten, e Roosten sorriu levemente para o homem de volta.