Dez de Dezembro

George Saunders · Capítulo 1 de 10

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Dez de Dezembro

No colo da vitória

 

Três dias antes de seu aniversário de quinze anos, Alison Pope estacou por um momento no alto da escada.

Digamos que a escada fosse de mármore. Digamos que ela tenha descido e que todas as cabeças tenham se virado. Onde estava {o alguém especial}? Chegando perto agora, com uma ligeira reverência, ele exclamou: Como pode tamanho encanto caber numa embalagem assim pequena? Ops. Ele disse embalagem assim pequena? E ainda ficou ali parado como um poste? Com a cara larga de príncipe totalmente desprovida de expressão? Coitadinho! Sinto muito, nem pensar, e lá se foi o sujeito, definitivamente não era ele {o alguém especial}.

E o que dizer daquele outro cara, atrás do sr. Embalagem Pequena, perto do home theater? Aquele com um pescoço grosso de rancheiro honesto, mas também lábios amplos e macios, que, pousando uma das mãos na sua região lombar, sussurrou: Lamento tremendamente que você tenha sido obrigada a suportar essa coisa de “embalagem pequena” agora há pouco. Vamos sair para caminhar sobre a lua. Ahn, quer dizer, sob a lua. À luz da lua.

Ele disse mesmo Vamos sair para caminhar sobre a lua? Caso tenha dito, ela teria que ficar, tipo, {sobrancelhas erguidas}. E se não viesse logo uma correção envergonhada, ela diria, tipo, Oh, não estou vestida adequadamente para caminhar sobre a lua, já que lá, pelo que eu sei, é superfrio, né?

Fala sério, rapaziada, ela não podia ficar desfilando graciosamente para sempre por aquela escadaria de mármore imaginária! A velhinha querida de cabelos brancos sob a tiara estava a ponto de dizer: Por que todos esses pretensos príncipes estão fazendo essa garota encantadora marchar ad nauseam sem sair do lugar? Além do mais ela teria uma apresentação esta noite e ainda precisava buscar sua malha de dança na secadora.

Deusdocéu! Ainda se via a criatura no alto da escada.

Hora de fazer aquilo: olhando para cima, mão no corrimão, descer um degrau de cada vez, o que estava ficando bem mais difícil ultimamente, já que os pés de uma certa pessoa vinham crescendo a cada dia, ao que parecia.

Pas de chat, pas de chat.

Changement, changement.

Um pulinho sobre a fita de metal que separa a lajota do corredor do carpete da sala de estar.

Uma mesura para si mesma no espelho da parede em frente.

Vamos, Mãe, vem logo. Não queremos ser castigadas de novo pela sra. Callow nos bastidores.

Se bem que no fundo ela amava a sra. C. Tão brava! Amava também as outras garotas da classe. E as garotas da escola. Adorava todas elas. Todo mundo era tão bacana. E ainda os garotos da escola. E os professores da escola. Todos dando o melhor de si. Na verdade, amava a cidade toda. Aquele quitandeiro adorável, borrifando suas alfaces! A Pastora Carol, com sua bunda grande e aconchegante! O carteiro gorducho, acenando com seus envelopes-bolha! Em outros tempos tinha sido uma cidadezinha industrial. Não é louco isso? Aliás, o que é que isso significa?

Também amava sua casa. Do outro lado do riacho ficava a igreja russa. Tão étnica! Aquela cúpula imitando uma cebola tinha pairado na sua janela desde o tempo em que ela usava um pijama do ursinho Pooh. Também adorava a Gladsong Drive. Cada casa na Gladsong era como um hotel Corona del Mar. Era incrível! Quem tinha um amigo ou amiga na Gladsong já sabia onde ficava cada coisa na casa dele ou dela.

Jeté, jeté, rond de jambe.

Pas de bourrée.

Num alegre capricho, dê uma cambalhota, fique de novo em pé, beije a foto de Mamãe e Papai tirada na loja Penney’s na Idade da Pedra, quando você era aquela fofinha bem ali {beijo} com um laço de cabelo maior que um outdoor.

Às vezes, quando se sentia feliz assim, ela imaginava um filhote de veado tremendo na mata.

Onde está sua mamãe, rapazinho?

Não sei, dizia o veadinho na voz da irmãzinha de Heather, Becca.

Você está com medo?, perguntava ela. Está com fome? Quer que eu pegue você no colo?

Ok, dizia o filhote de veado.

Lá vinha o caçador agora, arrastando a mãe do veadinho pela galhada. As vísceras dela estavam todas esparramadas no chão. Jesus, aquilo era tremendo! Ela cobria os olhos do filhote e dizia, tipo, Você não tem nada melhor pra fazer, seu caçador desagradável, do que matar a mãe deste filhote? Você até parece ser um sujeito bastante bacana.

Minha mãe foi morta?, dizia o veadinho com a voz de Becca.

Não, não, dizia ela. Este cavalheiro já estava indo embora.

O caçador, cativado pela sua beleza, comprimentava — ou será cumprimentava? — tirando o boné, e, ajoelhando-se, dizia: Se pudesse devolver a vida a esta corça, eu o faria, na esperança de que a senhorita pudesse conceder um beijo terno na testa deste veterano.

Vá, dizia ela. Só que, como penitência, não coma a carne da corça. Deite-a num leito de trevos, com rosas espalhadas à sua volta. E arranje um coro para cantar suavemente uma triste despedida.

Deitar quem?, perguntava o veadinho.

Ninguém, dizia ela. Deixa pra lá. Chega de tantas perguntas.

Pas de chat, pas de chat.

Changement, changement.

Teve esperança de que {o alguém especial} a chamasse de longe. Os garotos daquelas bandas tinham um certo je ne sais quoi que, pra falar a verdade, não a deixavam très empolgada, como: dar nomes para seus próprios testículos. Tinha escutado aquilo sem querer! E queriam trabalhar para a CountyPower porque as camisas de uniforme da empresa eram iradas e a gente as ganhava de graça.

Então, quer saber? Já deu pra vocês, garotos locais. E um já deu especial pra você, Matt Drey, dono da maior boca da terra. Beijá-lo na noite passada na abertura dos jogos tinha sido como beijar um túnel subterrâneo. Medonho! Beijar Matt era ver de repente aquele boi de suéter vindo para cima da gente, sem aceitar um não como resposta, e sua enorme cabeça bovina está sendo inundada por drogas que estão afogando o escasso poder de raciocínio que Matt porventura já tenha tido.

O que ela gostava era de estar no comando de si própria. De seu corpo, de sua cabeça. De seus pensamentos, sua carreira, seu futuro.

Era disso que ela gostava.

Então que seja.

Bem que podíamos comer um lanchinho leve.

Un petit repas.

Ela era especial? Considerava-se especial? Oh, meudeus, ela não sabia. Na história do mundo, muitas tinham sido mais especiais que ela. Helen Keller tinha sido um arraso; Madre Teresa era incrível; a sra. Roosevelt era bem animada apesar do marido, que era deficiente físico, e além do mais ela tinha sido gay, com aqueles velhos dentões dela, muito antes que ser gay e Primeira-Dama ao mesmo tempo fosse sequer concebível. Ela, Alison, não podia nem sonhar em competir na mesma categoria daquelas damas. Ainda não, pelo menos!

Havia tanta coisa que ela não sabia! Por exemplo, como trocar o óleo. Ou mesmo verificar o óleo. Como abrir o capô. Como assar brownies. Isso era constrangedor, na verdade, sendo uma garota e tudo. E o que era uma hipoteca? Vinha junto com a casa? Quando a gente amamentava, tinha que, tipo, espremer o peito para o leite sair?

Deusdocéu. Quem era aquela figura doentia, visível pela janela da sala, subindo na corrida a Gladsong Drive? Kyle Boot, o garoto mais pálido de toda a terra? Ainda vestido com sua roupa esquisita de cross-country?

Coitadinho. Parecia um esqueleto com penteado mullet. E aquele calção de cross-country? Era da época de As panteras ou quoi? Como é que ele podia correr tão bem se parecia literalmente não ter músculo algum? Todo dia ele voltava para casa correndo assim, sem camisa, de mochila nas costas, acionava o controle do portão quando ainda estava em frente aos Fung e entrava depressa na garagem da sua casa sem quebrar o ritmo.

Dava quase para admirar o pobre paspalho.

Tinham crescido juntos, pirralhos naquele tanque de areia comunitário perto do riacho. Não tinham tomado banho juntos quando era pequetitos ou outra nojeira do tipo? Tomara que ninguém ficasse sabendo daquilo. Porque, em termos de amigos, Kyle estava basicamente no nível do Feddy Slavko, que andava com o corpo inclinado para trás e estava sempre tirando coisas do meio dos dentes, anunciando o nome da referida coisa em grego e depois voltando a comê-la. A mãe e o pai de Kyle não o deixavam fazer nada. Ele tinha que telefonar para casa se o filme em cartaz no World Culture pudesse por acaso mostrar seios nus. Cada um dos itens em sua lancheira era minuciosamente etiquetado.

Pas de bourrée.

E mesura.

Despejar um monte de chisitos naquele tupperware antiquado todo compartimentado.

Obrigada, Mãe, obrigada, Pai. A culinária de vocês arrasa.

Sacudir o tupperware de um lado para o outro como quem garimpa ouro com uma peneira, então oferecer a alguns pobres imaginários reunidos em volta.

Sirvam-se, por favor. Há alguma outra coisa que eu possa fazer por vocês, pessoal?

Você já fez muito, Alison, ao se dignar a falar conosco.

Isso não é verdade! Vocês não entendem que todas as pessoas merecem respeito? Cada um de nós é um arco-íris.

Ahn, é mesmo? Dá uma olhada nesta grande ferida aberta no meu flanco enrugado.

Deixe que eu lhe traga um pouco de vaselina.

Eu ficaria muito agradecido. Essa coisa mata.

Mas a ideia do arco-íris não era exagerada? Ela não achava, não. As pessoas eram fascinantes. Mamãe era incrível, Papai era incrível, as professoras trabalhavam duro e tinham seus próprios filhos, e algumas estavam até se divorciando, como a sra. Dees, mas mesmo assim sempre tinham tempo para dedicar aos alunos. O que ela achava especialmente inspirador no caso da sra. Dees era que, embora seu marido a estivesse traindo com a mulher que gerenciava o boliche, a sra. Dees ainda dava o melhor curso de ética do mundo, levantando questões como: A bondade tem condições de vencer? Ou as pessoas boas sempre acabam tapeadas, pois o mal é mais ousado? Esta última questão parecia uma alfinetada da sra. Dees na moça do boliche. Mas fala sério! A vida é divertida ou assustadora? As pessoas são boas ou más? De um lado, aquele clipe daqueles corpos pálidos e esqueléticos sendo esmagados por um rolo compressor enquanto alemãs gordonas assistiam, mascando chiclete. De outro lado, às vezes sujeitos do interior, mesmo morando no alto dos morros, ficavam acordados até tarde enchendo sacos de areia para deter enchentes.

Nas eleições simuladas ela tinha defendido que as pessoas eram boas e a vida era divertida, e a sra. Dees lhe dirigiu um olhar de compaixão enquanto ela expunha suas convicções: Para fazer o bem, você só precisa decidir fazer o bem. Tem que ter coragem. Defender o que é direito. Diante dessa última frase, a sra. Dees soltou uma espécie de gemido. O que era ótimo. A sra. Dees tinha um bocado de dor na vida dela, e mesmo assim, que interessante, ainda encontrava obviamente algo de divertido na vida e de bom nas pessoas; se não fosse assim, por que ela ficava às vezes até tarde corrigindo provas e chegava no dia seguinte exausta, com a blusa ao contrário, que ela vestiu de qualquer jeito no escuro da madrugada, a trapalhona querida?

Alguém bateu na porta. Porta dos fundos. In-te-res-sante. Quem poderia ser? O Padre Dimitri do outro lado da rua? Correio? FedEx? Com un petit recibo pour Papa?

Jeté, jeté, rond de jambe.

Pas de bourrée.

Porta aberta e...

Ali estava um homem que ela não conhecia. Sujeito enorme, num daqueles coletes dos homens que medem o consumo de água e luz.

Algo lhe dizia para dar um passo para trás e fechar a porta. Mas isso parecia mal-educado demais.

Em vez disso ela ficou paralisada, sorriu, {sobrancelhas levantadas} para dar a entender: Posso ajudar em alguma coisa?

Kyle Boot atravessou correndo a garagem, entrou na sala de estar, onde o grande painel de madeira em forma de relógio indicava Todos Fora. Outras opções incluíam: Mamãe & Papai Fora; Mamãe Fora; Papai Fora; Mamãe & Kyle Fora; Papai & Kyle Fora; e Todos em Casa.

Por que diabos precisavam de um Todos em Casa? Não saberiam naturalmente que estavam Todos em Casa? Será que ele tinha vontade de perguntar isso a Papai? Que, em sua excelente e totalmente silenciosa marcenaria no andar de baixo, tinha projetado e construído o Indicador de Status da Família?

Rá.

Rá rá.

Sobre a bancada da cozinha havia um Recado de Trabalho.

Campeão: Novo geodo na varanda. Deixar no quintal de acordo com o desenho anexo. Sem trapalhada. Limpe a área primeiro, tire o plástico como te mostrei. Então cerque o geodo com pedras brancas. ESTE GEODO É CARO. Favor levar a sério. Nenhuma razão para isso não estar feito quando eu chegar em casa. Isso = cinco (5) Pontos de Trabalho.

Poxa, Pai, honestamente você acha justo que eu trabalhe feito um escravo no quintal até de noite depois de uma prática puxada de cross-country que incluiu dezesseis piques de quatrocentos metros, oito de oitocentos metros, um de mil e seiscentos metros, um zilhão de sprints de Drake, e mais oito quilômetros de revezamento indiano?

Sapatos do lado de fora, mocinho.

Dançou: tarde demais. Ele já estava diante da TV. E tinha deixado um rastro incriminador de microtorrões de barro. Pra lá de proibido. Será que dava pra limpar os microtorrões com a mão? Mesmo assim, um problema: se ele retrocedesse e pegasse com a mão os microtorrões, deixaria um novo rastro incriminador.

Tirou o tênis e ficou parado, ensaiando mentalmente um pequeno show que ele gostava de chamar de E SE... JUSTO AGORA?

E SE eles chegassem em casa JUSTO AGORA?

É uma história engraçada, Pai! Entrei sem pensar! Só então me dei conta do que tinha feito! Sabe por que estou com esta cara de contente? Acho que é pela rapidez com que me corrigi! O motivo pelo qual eu entrei assim tão distraído é que eu queria começar a trabalhar imediatamente, Pai, de acordo com seu recado.

Correu de meia até a garagem, jogou seu par de tênis lá dentro, correu até o aspirador de pó, aspirou os microtorrões e então se deu conta, ômeudeus, que tinha jogado os tênis na garagem em vez de colocá-los em cima do Papel dos Sapatos como requerido, o bico virado na direção contrária à porta para ficar mais fácil de calçar mais tarde.

Entrou na garagem, pousou os tênis no Papel dos Sapatos, voltou para dentro.

Campeão, dizia Papai dentro da sua cabeça, ninguém nunca te disse que mesmo a garagem mais arrumadinha sempre vai ter no chão um pouco de óleo, que é o que está agora em suas meias, deixando um rastro por todo o tapete Berber?

Putz, agora estava frito.

Mas não — ah, como a vida é boa —, não havia manchas de óleo no tapete.

Arrancou as meias. Era absolutamente proibido ficar descalço na sala principal. Mamãe e Papai chegando em casa e pegando ele Tarzanando por ali como uma espécie de zé-ninguém não ia ser a melhor coisa desta puta vida...

Falando palavrão mentalmente?, perguntou o Pai dentro da sua cabeça. Vamos, Campeão, seja homem. Se você quer falar palavrão, fale em voz alta.

Não quero falar palavrão em voz alta.

Então não fale mentalmente.

Mamãe e Papai ficariam desalentados se ouvissem os palavrões que ele às vezes falava mentalmente, como merda-boceta, bosta-cu, pinto-na-orelha, rabo-lambuzado. Por que não conseguia parar com aquilo? Eles tinham um conceito tão elevado dele, mandando toda semana e-mails orgulhosos aos dois casais de avós, coisas do tipo: Kyle tem estado superocupado mantendo suas notas altas enquanto pratica cross-country de nível universitário embora ainda esteja no segundo ano, e ainda separa um tempinho todo dia para fabricar maravilhas como chupa-boceta e fode-cu.

O que havia de errado com ele? Por que não era capaz de ser grato por tudo o que Mamãe e Papai faziam por ele, em vez de...

Come-por-trás a boceta-orelha.

Fode-em-flocos a marca desbotada com um joelho-pinto penetrante.

Você sempre pode limpar a mente com um bom beliscão em sua própria e diminuta alavanca do amor.

Ui.

Ei, hoje era terça-feira, dia de Grande Recompensa. Os cinco (5) novos Pontos de Trabalho, mais seus já conquistados dois (2) Pontos de Trabalho, totalizavam sete (7) Pontos de Trabalho, os quais, somados a seus oito (8) Pontos de Tarefa Habitual, perfaziam um total de quinze (15) Pontos de Recompensa, o que garantia a ele uma Grande Recompensa (por exemplo, dois punhados de uvas-passas cobertas de iogurte) mais vinte minutos de livre escolha na TV, embora o programa específico tenha que ser negociado com Papai no momento do resgate dos pontos.

Uma coisa a que você não vai assistir, Campeão, Os mais desbocados motoqueiros obscenos da América.

Como quiser.

Como você quiser, Papai.

É mesmo, Campeão? “Como eu quiser”? Será “como eu quiser” quando eu retirar todos os seus Pontos de Recompensa e obrigá-lo a abandonar o cross-country, como ameacei várias vezes se não houvesse um pouco mais de obediência e boa vontade?

Não, não, não. Eu não quero parar, Pai. Por favor. Eu sou bom nisso. Você vai ver, na primeira olimpíada. Até o Matt Drey disse...

Quem é Matt Drey? Algum primata do time de futebol?

Sim.

A palavra dele é lei?

Não.

O que foi que ele disse?

O merdinha sabe correr.

Belo palavreado, Campeão. Conversa de primata. Seja como for, pode ser que você não consiga sequer chegar à primeira olimpíada. Seu ego parece estar transbordando. E por quê? Só porque você é capaz de correr? Qualquer um é capaz de correr. Até animais selvagens podem correr.

Não vou largar o cross-country! Caralho-anal ave-merda enguiço-no-cu! Por favor, estou implorando, é a única coisa que eu faço decentemente! Mamãe, se ele me fizer desistir, juro por Deus que vou...

O drama não combina com você, Amado Filho Único.

Se você quer ter o privilégio de competir num esporte de equipe, Campeão, mostre-nos que é capaz de viver dentro de nosso sistema perfeitamente razoável de normas concebidas para beneficiá-lo.

Olá.

Uma van tinha acabado de parar no estacionamento da St. Mikhail.

Kyle caminhou de modo controlado e cortês até a bancada da cozinha. Sobre a bancada estava o seu Relatório de Tráfego, que servia ao duplo propósito de (1) apoiar a tese de Papai de que o Padre Dimitri deveria construir um muro de arrimo à prova de som e (2) constituir um conjunto de dados para um possível projeto de Feira de Ciências para ele, Kyle, intitulado, por Papai, de “Correlação do Volume do Estacionamento da Igreja vs. Dia da Semana, com Investigação Suplementar do Volume Dominical ao Longo do Ano”.

Sorrindo com satisfação como se preencher o Relatório lhe desse prazer, Kyle preencheu o Relatório com letra bem legível:

Veículo: VAN.

Cor: CINZA.

Marca: CHEVY.

Ano: DESCONHECIDO.

Um sujeito desceu da van. Um dos rooskies* habituais. “Rooskie” era uma gíria permitida. Como “droga”. Como “ômeudeus”. Como “cagão”. O rooskie estava vestindo uma jaqueta jeans por cima de uma blusa com capuz, o que, na experiência de Kyle, não era uma roupa de igreja incomum para os rooskies, que às vezes vinham direto da oficina mecânica ainda vestidos de macacão.

Sob a rubrica “Motorista do Veículo” ele escreveu PROVAVELMENTE PAROQUIANO .

Aquilo era um saco. Uma verdadeira pentelhação. Sendo o sujeito um forasteiro, ele, Kyle, agora tinha que ficar dentro de casa até que o forasteiro saísse das redondezas. O que ferrava com seu trabalho de transportar o geodo. Ficaria no jardim até meia-noite. Que atraso de vida!

O sujeito vestiu um colete fluorescente. Ah, o cara era um leitor de relógio de luz.

O leitor de relógio de luz olhou para a esquerda, depois para a direita, saltou o riacho, entrou no quintal dos fundos dos Pope, passou entre uma trave de futebol e uma piscina, e então bateu na porta dos Pope.

Belo salto, Boris.

A porta se abriu.

Alison.

O coração de Kyle começou a cantar. Ele sempre tinha achado que isso era só uma expressão. Alison era como um tesouro nacional. No dicionário, sob o verbete “beleza” deveria haver um retrato dela naquela saia-short jeans. Se bem que ultimamente ela não parecia gostar muito dele.

Agora ela atravessou a varanda para que o leitor de relógio de luz pudesse lhe mostrar alguma coisa. Algum problema elétrico no telhado? O sujeito parecia ansioso para mostrar a ela. Na verdade, ele a segurava pelo pulso. Era como se a puxasse à força.

Aquilo era estranho. Não era? Nada de estranho tinha acontecido por ali antes. Então, provavelmente estava tudo certo. Provavelmente o sujeito era simplesmente um novo leitor de relógio de luz, não era?

De todo modo Kyle teve vontade de sair para a varanda. Saiu. O sujeito ficou paralisado. Os olhos de Alison eram os olhos de um cavalo assustado. O sujeito pigarreou, se virou ligeiramente para deixar Kyle ver uma coisa.

Uma faca.

O leitor de relógio de luz tinha uma faca.

Olha só o que você vai fazer, disse o sujeito. Vai ficar parado bem aí até a gente sair. Se mexer um músculo, eu enfio a faca no coração dela. Juro por Deus. Entendeu?

A boca de Kyle estava tão seca que tudo o que ele conseguiu foi dar a ela a forma que normalmente assumia ao dizer Sim.

Agora eles estavam atravessando o jardim. Alison se jogou no chão. O sujeito a ergueu à força. Ela se jogou. Ele a ergueu à força. Era estranho ver Alison sacudida como uma boneca de pano no santuário do jardim perfeito que o pai tinha feito para ela. Ela se jogou.

O sujeito sibilou alguma coisa e ela se levantou, subitamente dócil.

Em seu peito, Kyle sentia as muitas normas, Principais e Secundárias, que estava violando agora. Estava descalço na varanda, estava sem camisa na varanda, estava fora de casa quando havia um estranho nas proximidades, tinha estabelecido contato com o estranho.

Na semana anterior Sean Ball tinha levado à escola uma peruca para imitar melhor o jeito que Bev Mirren tinha de mastigar os cabelos quando estava nervosa. Kyle tinha pensado por um momento em intervir. Na Reunião Noturna, Mamãe tinha dito que considerava sensata a decisão de Kyle de não intervir. Papai tinha dito: Aquilo não era da sua conta. Você poderia ter se machucado seriamente. Mamãe tinha dito: Pense em todos os recursos que investimos em você, Amado Filho Único. Papai tinha dito: Eu sei que às vezes parecemos rigorosos demais, mas você é literalmente tudo o que temos.

Estavam junto à trave de futebol agora, o braço de Alison torcido atrás das costas. Ela fazia um som baixo e repetitivo de negação, como se estivesse tentando inventar um ruído que comunicasse adequadamente seus sentimentos a respeito do que tinha acabado de perceber que lhe aconteceria.

Ele era só um garoto. Não havia nada que pudesse fazer. Em seu peito, sentia o prazeroso alívio de pressão que sempre ocorria quando se submetia a uma norma. A seus pés estava o geodo. Podia ficar simplesmente olhando para ele até que eles tivessem partido. Era enorme. Talvez o maior de todos. Os cristais de dentro cintilavam ao sol. Ficaria lindo no jardim. Assim que ele o colocasse lá. Ele o colocaria assim que eles fossem embora. Papai ficaria impressionado com o fato de que, mesmo depois do que tinha acontecido, ele tinha se lembrado de levar o geodo para o jardim.

É assim que se faz, Campeão.

Estamos todos satisfeitos, Amado Filho Único.

Ótimo trabalho, Campeão.

 

Puta merda. Estava acontecendo. Ela estava caminhando junto, toda meiga, feito a camarada que ele sabia que ela seria. Ele pensava nela desde o batismo do, como chamava mesmo? Do filho do Sergei. Na igreja russa. Naquele dia ela estava em pé no jardim, com o pai ou coisa que o valha tirando uma foto dela.

Ele tinha murmurado algo do tipo Oi, Gatinha.

Kenny tinha dito, tipo, Um tanto novinha, mano.

Ele tinha respondido, tipo, Novinha pra você, velho.

Quando a pessoa estudava história, a história das culturas, via seu próprio tempo individual como tacanho. Havia várias teorias sobre consentimento. Nos tempos bíblicos, um rei podia estar cavalgando por um campo e dizer: Aquela. E ela seria trazida para ele. E eles se casariam e, se ela desse à luz um menino, beleza, tremulem as flâmulas, ela era ponta firme. Na primeira noite, será que ela estava curtindo? Provavelmente não. Estava tremendo como uma folha? Não importava. O que importava era a prole, a continuação da linhagem. Mais o júbilo do rei, que resultava em poder soberano justo.

Ali estava o córrego.

Ele a obrigou a atravessar.

Restavam os seguintes pontos básicos no plano de ação: levar para a porta lateral da van, empurrar para dentro, entrar junto, prender pulsos e tapar boca com fita adesiva, enganchar na corrente, fazer discurso. O discurso estava na ponta da língua. Tinha treinado na cabeça e depois no gravador: Acalme-se, querida, eu sei que você está assustada porque ainda não me conhece e não esperava que isso acontecesse hoje, mas me dê uma chance e você verá que vamos voar alto. Veja que estou pondo a faca bem aqui, e espero não ter que usá-la, certo?

Se ela não entrar na van, dar um forte soco na barriga. Então erguer, carregar até a porta lateral da van, jogar lá dentro, passar a fita adesiva nos pulsos e na boca, enganchar na corrente etc. etc.

Vamos parar um pouco, disse ele.

A mina parou.

Porra. A porta lateral da van estava trancada. Que puta falha de disciplina. Assegurar que a porta estivesse destrancada era algo claramente indicado no plano pré-missão. Melvin apareceu em sua mente. No rosto de Melvin estava a expressão de veemente decepção que sempre tinha precedido umas palmadas na bunda, que por sua vez sempre tinham precedido a outra coisa. Levante as mãos, dizia Melvin, defenda-se.

Verdade, verdade. Um pequeno erro ali. Devia ter checado duas vezes o plano pré-missão.

Não era o fim do mundo.

Alegria, nada de medo.

Já fazia quinze anos que Melvin tinha morrido. E a Mamãe, doze.

A putinha agora tinha se virado, estava olhando na direção da casa. Aquela teimosia não ia durar. Seria cortada na raiz. Ele precisava se lembrar de machucá-la logo, estabelecer um padrão básico.

Vira pra frente, porra.

Ela se virou.

Ele destrancou a porta e a deixou bem aberta. Hora da verdade. Se ela entrasse e o deixasse usar as fitas adesivas, estava tudo beleza. Tinha escolhido um lugar em Sackett, baita milharal, estradinha de terra para chegar lá. Se a coisa rolasse bem, no que se refere à trepada, eles pegariam a rodovia a partir dali. Basicamente roubaria a van. Era a van de Kenny. Tinha emprestado pelo dia todo. Foda-se Kenny. Kenny uma vez o chamou de burro. Que pena, Kenny, esse seu comentário lhe custou uma van. Se a trepada não rolasse, se ela não lhe desse tesão suficiente, ele abortaria a ação, assunto encerrado, se livraria do enrosco, limparia a van se necessário, iria comprar milho, devolveria a van para Kenny dizendo: Ei, mano, aqui está um puta monte de milho, obrigado pela van, eu nunca poderia ter comprado uma quantidade adequada de milho com o meu carro. E então ficar na moita, atento aos jornais, como tinha feito aquela vez com a ruiva que não dava tesão lá em...

A mina lhe lançou um olhar suplicante, tipo, Por favor, não.

Era um bom momento? De lhe dar um soco na pança, baixar sua crista?

Era.

Ele deu.

 

O geodo era lindo. Que geodo lindo. O que o tornava lindo? Quais eram as principais características de um geodo lindo? Vamos, pense. Vamos, concentre-se.

Com o tempo ela vai se recuperar, Amado Filho Único.

Não é problema nosso, Campeão.

Estamos maravilhados com o seu bom senso, Amado Filho Único.

Notou vagamente que Alison tinha tomado um soco. Olhos no geodo, ele ouviu o pequeno uff.

Seu coração se apertou quando ele pensou no que estava deixando acontecer. Tinham usado salgadinhos de peixinhos como moedas. Tinham feito pontes com pedras. Lá no riacho. Em outros tempos. Oh, Deus. Ele jamais devia ter saído para a varanda. Assim que eles tivessem partido, ele simplesmente voltaria para dentro, faria de conta que nunca tinha saído, construiria a cidade do trenzinho elétrico, estaria trabalhando nela ainda quando Mamãe e Papai chegassem em casa. E quando por fim alguém lhe contasse sobre o ocorrido? Faria uma certa cara. Já era capaz de sentir em seu rosto a cara que faria, tipo, O quê? Alison? Estuprada? Assassinada? Oh Deus. Estuprada e assassinada enquanto eu inocentemente construía minha cidadezinha, sentado no chão de pernas cruzadas e sem saber de nada como um pequeno...

Não. Não, não, não. Eles já iam embora. Então ele poderia entrar. Ligar 190. Se bem que assim todo mundo ia saber que ele não tinha feito nada. Toda a sua vida futura ia ser ruim. Ele ia ser para sempre o sujeito que não tinha feito nada. Além disso, telefonar não ia adiantar nada. Eles já estariam longe. A avenida era logo do outro lado de Featherstone, com um milhão de estradas e trevos ou coisa que o valha brotando dela. Então era isso. Ele ia para dentro. Assim que eles fossem embora. Vão, vão, vão, pensava ele, assim eu posso entrar, esquecer isto para sempre...

E lá estava ele correndo. Pelo gramado. Oh Deus! O que estava fazendo, o que estava fazendo? Jesus, merda, as normas que ele estava violando! Correndo no jardim (ruim para a grama); transportando um geodo sem sua embalagem de proteção; saltando a cerca, o que estragava a cerca, que tinha custado um bom dinheiro; saindo do jardim; saindo descalço do jardim; entrando na Área Secundária sem permissão; entrando no riacho descalço (cacos de vidro, micro-organismos perigosos), e não só isso, oh Deus, de repente ele percebeu o que aquela parte inconsequente de si mesmo pretendia, que era violar uma norma tão Principal e absoluta que não era sequer uma norma, uma vez que não era preciso haver uma norma para saber quão totalmente proibido era...

Saltou para fora do riacho e, aproveitando que o sujeito ainda não tinha se virado, mandou o geodo voando de encontro à cabeça dele, que pareceu vazar um fiozinho de sangue antes mesmo que o crânio rachasse visivelmente e o sujeito caísse sentado.

Yes! Ponto! Foi divertido! Divertido dominar um adulto! Divertido usar a mais vertiginosa velocidade de pernas de gazela já vista na história da humanidade para disparar silenciosamente espaço afora e subjugar aquele grande mané, que de outro modo, agora mesmo, estaria...

E se ele não tivesse feito aquilo?

Deus, e se ele não tivesse?

Imaginou o sujeito dobrando Alison em duas como uma roupa num cabide de viagem, puxando-a pelos cabelos e empurrando-a com brutalidade, enquanto ele, Kyle, seguia sentado, medroso e obediente, com o minúsculo viaduto da estrada de ferro agarrado entre seus patéticos dedos de bebê...

Jesus! Ele saltou etapas e arremessou o geodo contra o para-brisa da van, que implodiu, produzindo uma chuva interna de partículas de vidro que fez o som de milhares de pequenos sinos de vento de bambu.

Trepou no capô da van, recuperou o geodo.

Mesmo? Mesmo? Você ia arruinar a vida dela, arruinar a minha vida, seu Animal chave-de-boceta, mastiga-pau, rego-de-cu? Quem manda em quem agora, hein? Cu-arrombado, lábios-de-porra, masca-bosta...

Nunca tinha se sentido tão forte/furioso/selvagem. Quem é o homem agora? Quem é o papai? Que mais ele deve fazer? Para ter certeza de que o Animal não vai fazer mais nenhum mal? Você ainda está se mexendo, aberração? Tem um plano, pinto-estrupício? Quer mais um talho em seu crânio já rachado, grandalhão? Tá duvidando? Acha que eu...

Calma, Campeão, você está descontrolado.

Diminui a rotação, Amado Filho Único.

Silêncio. Sou o patrão de mim mesmo.

PORRA!

Que diabo? O que ele estava fazendo no chão? Tinha tropeçado? Alguém o tinha drogado? Um galho tinha caído? Puta merda. Tocou a própria cabeça. Sua mão ficou cheia de sangue.

O garoto varapau estava se curvando. Para pegar alguma coisa. Uma pedra grande. Por que aquele garoto estava fora da varanda? Onde estava a faca?

Onde estava a mina?

Rastejando em direção ao riacho.

Correndo a mil por hora pelo jardim dela.

Entrando em casa.

Porra, tinha dado tudo errado. Melhor dar o fora, cair na estrada. Com o quê? Seus belos olhos? Tinha uns oito dólares no total.

Meu Deus! O menino arrebentou o para-brisa! Com a pedra! Kenny não vai gostar nada disso.

Tentou ficar em pé, mas não conseguiu. O sangue estava simplesmente jorrando. Não ia para a cadeia de novo. Nem fodendo. Cortaria os pulsos. Onde estava a faca? Esfaquearia o próprio peito. Isso era nobre. Então as pessoas saberiam seu nome. Qual delas tinha colhões para enfiar uma faca no peito, como um samurai?

Nenhuma.

Ninguém.

Vai em frente, cagão. Quero ver.

Não. O rei não tira sua própria vida. O homem superior aceita em silêncio a reprovação estúpida da plebe. Espera para se erguer e voltar à luta. Além do mais, ele não tinha a menor ideia de onde estava a faca. Bem, não precisava dela. Rastejaria até o mato, mataria alguma coisa com as próprias mãos. Ou faria uma armadilha com alguma planta. Ugh. Será que ele ia vomitar? Pronto, lá foi. No próprio colo.

Você é capaz de fazer merda até nas coisas mais simples, disse Melvin.

Melvin, meu Deus do céu, não está vendo que a minha cabeça está sangrando pra caramba?

Um pirralho fez isso com você. Você é uma piada. Ferrado por um pirralho.

Oh, sirenes, era o que faltava.

Bem, era um dia ruim para os tiras. Lutaria com eles corpo a corpo. Ficaria ali sentado até o último momento, vendo-os chegar perto, repetindo um silencioso mantra de morte que concentraria toda a sua força vital nos punhos.

Ficou sentado pensando em seus punhos. Eram dois enormes blocos de granito. Cada um deles era um pit bull. Tentou se levantar. De algum modo suas pernas não estavam funcionando. Esperava que os tiras chegassem logo. A cabeça doía de verdade. Quando punha a mão lá em cima, coisas se mexiam. Era como se estivesse usando um boné de sangue coagulado. Ia precisar de uns bons pontos. Torcia para que não doesse muito. Mas provavelmente doeria.

Onde estava o garoto varapau?

Oh, estava bem ali.

Crescendo acima dele, bloqueando o sol, a pedra levantada bem alto, gritando alguma coisa, mas ele não conseguia entender, por causa da campainha zumbindo em seus ouvidos.

Então ele viu que o garoto ia dar com a pedra nele. Fechou os olhos e esperou e não ficou nem um pouco tranquilo, em vez disso sentiu o início de um terrível pavor brotando dentro de si, e se aquele pavor continuasse a crescer no ritmo em que estava crescendo, percebeu numa súbita revelação, o lugar para onde ele iria tinha um nome, e esse nome era Inferno.

 

Alison estava de pé bem do lado da janela da cozinha. Tinha se mijado toda. O que não era um problema. As pessoas faziam isso. Quando superapavoradas. Ela percebeu quando estava dando o telefonema. Suas mãos tinham tremido tanto. Ainda estavam tremendo. Uma perna estava que nem a do Thumper. Deus do céu, as coisas que ele tinha dito para ela. Ele tinha dado um soco nela. Tinha dado um beliscão nela. Havia uma grande marca azul em seu braço. Como é que Kyle ainda podia estar lá fora? Mas lá estava ele, com aquele calção cômico, tão confiante que ficava bestando por ali, mãos entrelaçadas em triunfo acima da cabeça como um pugilista de algum universo alternativo bonitinho em que um garoto magrelo como aquele podia de fato vencer uma briga contra um sujeito com uma faca.

Espere um pouco.

As mãos dele não estavam entrelaçadas. Ele estava segurando a pedra, gritando alguma coisa para o cara, que estava de joelhos, como o prisioneiro de olhos vendados naquele vídeo que eles tinham visto na aula de História, prestes a ser passado na espada por um sujeito solene de capacete.

Não, Kyle, não, ela sussurrou.

Meses a fio depois daquilo ela teve pesadelos nos quais Kyle dava com a pedra com toda a força. Ela estava na varanda tentando gritar o nome dele, mas não saía nada. E a pedra vinha abaixo. E o cara já não tinha cabeça. O golpe literalmente dissolvia a cabeça dele. Então o corpo tombava e Kyle se virava para ela com aquela expressão desolada de Minha vida acabou. Matei um cara.

Ela às vezes se perguntava por que é que nos sonhos a gente não consegue fazer as coisas mais simples. Tipo: um filhotinho de cachorro chora porque está pisando em cacos de vidro e você quer erguê-lo e tirar os cacos das patinhas dele, mas não consegue porque está equilibrando uma bola na cabeça. Ou então você está dirigindo e aparece um velho de muletas, e você chega para o sr. Feder, seu instrutor na autoescola, e pergunta, Devo desviar? E ele, tipo, Ahn, provavelmente. Mas então você ouve aquele grande estrondo e Feder faz uma marca negativa no caderno.

Às vezes ela acordava chorando do sonho com Kyle. Na última vez, Mamãe e Papai já estavam lá, dizendo, Não foi assim que aconteceu. Lembra, Allie? Como foi que aconteceu? Diga. Diga em voz alta. Allie, diga para a Mamãe e o Papai como foi que aconteceu de verdade.

Eu corri para fora, disse ela. Gritei.

Muito bem, disse Papai. Você gritou. Gritou como uma campeã.

E o que o Kyle fez?, perguntou Mamãe.

Deu com a pedra nele, disse ela.

Uma coisa ruim aconteceu com vocês, garotos, disse Papai. Mas podia ter sido pior.

Muito pior, disse Mamãe.

Mas graças a vocês, garotos, disse Papai, não foi.

Você agiu muito bem, disse Mamãe.

Agiu maravilhosamente, disse Papai.

 

* Rooskie, também grafado russki, russkie e russky: termo de gíria, em geral pejorativo, referente a imigrantes russos. (N. T.)