Dramaturgos, críticos e ratos: reflexões sobre o teatro em Edgar Allan Poe
Apresentação
Este volume é um criterioso estudo sobre o envolvimento de
Edgar Allan Poe com a arte dramática, enfocando não somente sua atividade como crítico teatral, mas também sua breve incursão pela criação dramatúrgica. Este livro, além de possuir notável relevância para os campos das investigações literárias e teatrais, será apreciado também por estudiosos da cultura de um modo geral, especialmente por quem se interessa pelas transformações artísticas e culturais ocorridas no século XIX, século que, de tão influente na construção de nosso mundo de hoje – para o bem e para o mal –, parece jamais ter acabado.
Não por acaso, em universidades de vários países, percebe-se
um crescente interesse por pesquisas que buscam ampliar o entendimento da arte e da cultura oitocentistas, produtos de um momento histórico em que os valores centrais do mundo capitalista-ocidental, de aspiração globalizante, começam a se pronunciar com mais evidência. É quando, principalmente na primeira metade do século, período em que viveu Edgar Allan Poe, o teatro assume uma flagrante centralidade na vida cultural das grandes metrópoles, prenunciando a presente hegemonia da chamada “sociedade do espetáculo”, como demonstra o historiador Christophe Charle, discípulo de Pierre Bourdieu, em seu estudo A gênese da sociedade do espetáculo – teatro em Paris, Berlim, Londres e Viena, publicado no Brasil em 2012.
Portanto, analisar a influência da arte dramática na obra e no
pensamento de Poe, autor cada vez mais estudado e cultuado, é ampliar, em alguma medida, nossa compreensão do mundo atual, em toda sua complexidade, convidando-nos ainda a refletir sobre o papel das artes nas sociedades. Para nós, brasileiros, é particularmente oportuna a observação da forma como Poe, crítico e criador nascido nos Estados Unidos, enfrentou também os inescapáveis dilemas suscitados pela condição colonial, problemática tão explicitamente desafiadora no âmbito da expressão teatral.
Nesse viés, enfocando com segurança e originalidade um tema
de patente relevância, este estudo realizado por Jéssica Cristina dos Santos Jardim impressiona, em sua concisão, pela densidade de informações, pelo rigor metodológico e pela clareza de raciocínio, tornando-se leitura instigante e agradável para um público exigente, mas de interesse amplo.
Com esta publicação pela Editora Unesp, um pouco do trabalho
dessa jovem e competente pesquisadora, que muito ainda contribuirá para o pensamento teatral no Brasil, passa a ser mais conhecido fora dos muros universitários.
No âmbito interno da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), onde tive o privilégio de conhecê-la, matriculada em algumas das disciplinas que leciono na graduação e integrada ao grupo de pesquisa que coordeno sobre desenvolvimento da literatura dramática em Pernambuco, a autora deste livro é admirada e respeitada pela seriedade e pelo enlevo com que sempre encarou as demandas da vida acadêmica – na qual, se desejar, deverá seguir trilhando uma brilhante e produtiva carreira.
Assim, encerro esta breve nota de apresentação, desejando que
este olhar lançado por Jéssica Jardim sobre Poe e sobre a arte teatral sirva de estímulo para que outros jovens estudiosos se dediquem à ampliação de nosso entendimento sobre a importância cultural do teatro através dos tempos.
Recife, 20 de julho de 2020
Luís Augusto da Veiga Pessoa Reis
professor de Teatro da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE)